10.9.21
7.9.21
4.9.21
26.8.21
18.8.21
6.8.21
4.8.21
27.7.21
26.7.21
23.7.21
20.7.21
15.7.21
14.7.21
10.7.21
8.7.21
7.7.21
(Cedo ou tarde, havia de rebentar esta guerra. É para isso que serve o tempo de paz e se fazem pactos e acordos e se distribuem partes, posses e rendimentos: para que todos repousem e sejam devidamente munidos de convicção e energia. Assim, na hora em que por velhas razões se inflamarem as sensibilidades e se violarem as regras, partirão para o combate com a força inteira e voluntariamente dispostos. O tempo de paz é sempre breve. Fosse longo e entorpecer-se-iam as paixões, as certezas, as ganas, os músculos. )
6.7.21
2.7.21
15.6.21
12.6.21
11.6.21
10.6.21
4.6.21
2.6.21
1.6.21
Poucos são os jornalistas que resistem a perguntar às figuras mediáticas da literatura o que é preciso para ser um bom escritor. Num delírio passageiro, imagino sempre que o entrevistado vai descompor o pragmatismo infantilóide da abordagem com uma ironia qualquer. Mas parece que boa parte da gente das letras não só leva o manual de instruções a sério como tem na vaidade o pecado de estimação e, apoiando-se no disfarce roto da terceira pessoa, o escritor responde sempre prontamente com um resumo dos próprios hábitos, traços de personalidade e até mágoas. Nesse momento, milhares de almas no mundo caem num rodopio de ansiedade, umas a verificar que cumprem os requisitos, outras a pensar como hão de cumpri-los.
31.5.21
27.5.21
26.5.21
20.5.21
18.5.21
Sem robustez de intelecto e estabilidade nas emoções, desista quem tiver intenção de fazer do escárnio e da maledicência uma graça que dê gosto a quem lê. É que se por descuido vaza nas entrelinhas o cheiro fétido da inveja ou a poeira de um rancor guardado, num instante fica desacreditado quem pretende desacreditar. Então, antes de tentar a arte de descompor alguém publicamente, é bom ter ao alcance um espelhinho de bolso e, por via das dúvidas, verificar se nos túneis assombrados da própria consciência algum fantasma acordou a pedir libertação.
13.5.21
8.5.21
5.5.21
4.5.21
3.5.21
Prega o senso comum que entre os efeitos colaterais de provas e provações está tanto o reforço dos laços entre os que de verdade se querem bem como o afastamento definitivo daqueles que só por engano ou conveniência estavam perto. Por mais que doa, a prática confirma sempre o cliché. Um monte de destroços só pode servir de trincheira ou de muralha.
2.5.21
1.5.21
Andam por aí outras orquídeas que, por razões não identificadas, se presumem superiores a Isabela. Mas é difícil ultrapassar Isabela porque Isabela nem entra sequer na corrida para a mais aprumada, a mais vertical, a que mais se aproxima do céu, dos pássaros, das rainhas, dos ministros, dos deuses, dos astros. Embora a natureza tenha mandado que assim fosse, o destino opôs-se, a dona descuidou-se e assim ela acabou por desabrochar na direção da terra, sua mãe. Não a censuro, pois de cada vez que olho para uma fileira de orquídeas comuns tenho a impressão de ver um exército de fêmeas com a função única de servir beleza ao olhar desconsolado dos seus donos. Então Isabela é isto, este luxo estirado no colo antigo de um tamborete, esta languidez, livre de estacas, dívidas e ganâncias. Quem chegar perto até ouve o suspiro que vaza de cada uma das suas corolas e pressente o frémito, a ternura e a expectativa de uma virgem que está prestes a confiar-se ao primeiro amante.
30.4.21
Arrasada por vagas tumultuosas de trabalho e, nos intervalos, distraída com futilidades, apanhou-me de surpresa o desabrochar de Isabela. Ontem eram brotos, hoje oito flores de escancarada doçura, desenhadas com um rigor que mais espanta quanto mais em detalhe se lhes tira as medidas e aprecia os ângulos. Incapaz de suportar sozinha o peso de tanto talento, Isabela apoia o braço num velho tamborete que eu, tendo por costume e defeito antecipar tragédias, ali coloquei à disposição de sua excelência. Com isso, fica o tamborete a parecer luxuosamente estofado porque Isabela derrama sobre ele os seus folhos de veludo branco, mais ricos ainda com o oiro e rubi de uns labelos perfeitos. Que esperta é. Ao invés de se enamorar de gatos pretos sem nome nem residência fixa, resigna-se ao ombro de um velho tamborete. Apático, mas ao menos de confiança. E o tamborete, encostado por falta de serventia, ganha em troca a mais bela de todas as oportunidades que já teve na vida. Ora, se ambos saem valorizados não vejo como há de esta história acabar mal, por mais que vasculhe as sombras férteis do meu pessimismo.
25.4.21
A liberdade, de todos os valores o que aparenta mais fibra e firmeza, palavrões na boca, braços no ar, armas na mão, está na verdade sempre por um fio, mal notando como dá os pulsos a grilhões que toma por necessidade ou vantagem. Nem o amor, que é o amor, reputado de cego e ingénuo e sempre distraído do caminho a olhar para o céu, nem o amor é abalroado por tantos equívocos.
23.4.21
A Flor,
22.4.21
20.4.21
16.4.21
10.4.21
7.4.21
6.4.21
Quando aviso a estagiária que os adjetivos são o atalho descritivo das mentes preguiçosas, responde-me que não foi isso que aprendeu na escola. Dou-lhe razão – a escola não ensina a usar o adjetivo com o devido respeito pela dignidade do substantivo. Ela faz-me a pergunta a que até hoje nenhum dos meus estagiários resistiu: onde é que eu posso aprender mais sobre isso? E eu também não vario na resposta: em todos os livros do mundo.
2.4.21
30.3.21
26.3.21
Faz tempo que as duas comadres se provocam à distância. É um jogo dócil, quase despercebido, que cada uma faz para desacreditar a outra. O veneno vaza em conta-gotas nas entrelinhas de uma exemplar cortesia. Suspeito que se tenha tornado passatempo, forma de resgatar o cérebro ao torpor da clausura e à relação desigual com os livros, que no remate de cada capítulo não esperam do leitor opinião, acordo, adenda ou consentimento. Talvez deem ares de que competem em lucidez, independência ou destreza de intelecto e, com efeito, há que reconhecer que o verbo não lhes cai na lama e que os humores aparentam robustez e delicadeza de bambu. Mas eu vejo-as num salão de festas barroco, abanando os leques com um fervor desassossegado, olhando-se de viés, cada uma invejando a hora em que a outra é levada por um digno e experiente cavalheiro para um minuete (por deus, não vos descuideis com as vogais).
17.3.21
12.3.21
10.3.21
9.3.21
8.3.21
6.3.21
5.3.21
25.2.21
22.2.21
16.2.21
Infelizmente, são precisos tempos delicados para vir à tona e ao entendimento o facto de que o mundo gira, sempre girou, a duas velocidades. Noto, com tristeza, que muito boa gente julgava, ou fazia de conta, que no carro mágico do futuro embarcavam todos por igual e com lugar sentado. Agora pasmam e enchem-se de piedade por verem que nas aldeolas que visitavam aos fins de semana para se inteirarem – pela rama – das graças da ruralidade e da vida simples ou nos bairros onde os candidatos ao poder se prestam a copos e bailaricos, há crianças para quem as aulas hoje, deste modo, são uma absoluta impossibilidade. Está certo que acordar é sempre uma vantagem e antes tarde do que nunca. Porém, tenho para mim que quando o carro mágico retomar o giro vertiginoso e magnético a que estávamos acostumados, cheio de festas, de cores e brilhos, com tudo fácil e pronto, de novo nos ajeitaremos na fila para a crista do futuro, aos magotes e empurrões, sem olhar para trás.

