20.10.18

Reanimação

Questão de tempo. Acabarás por te enrolar nas frases dela, umas gordurosas como unguentos, outras de motivação, muito usadas no recobro de corações simples, e ainda as sentimentais, que te hão de abrir os olhos para paisagens amorosas. Serás poupado a esforços na leitura, como se recomenda em qualquer convalescença. Tudo o que ela escreve desliza mansamente em leito gasto, sem sobressaltos nem enxurradas. Ela não reconhece a pulsão maligna do mundo. Ignora que o conflito é a regra e que a duração da paz é a de um êxtase: apenas a necessária para o reabastecimento de ilusões. 
De tudo isto vem o encanto dela e acabará por vir, um dia, o teu fastio.
 

18.10.18

Sem filosofia

Não lhe dá a sensação, às vezes, que era outra antes de ter filhos? pergunta-me a rapariga da papelaria a propósito do primeiro aniversário de Alice e do que em torno disso lhe ocorreu. Vou para responder sem dar a devida importância, mas ela: não quero dizer diferente, quero dizer mesmo outra, outra vida, outra pessoa, está-me a perceber? Se estou. Mas, por favor. Passo horas fechada numa sala com um homem de mente brilhante a inventar novas formas de perfumar venenos, entre nós nem o silêncio é fácil, cada discussão é-me mais penosa do que uma partida de xadrez, e eu chego ao fim do dia gasta, insuficiente, aquém de tudo. Preciso de me livrar do peso da inteligência que há no mundo, do sarilho em que a imaginação põe o universo. Por isso muitas vezes me apetece, não a ignorância, não a grosseria, não a estupidez, mas a mera superficialidade das coisas, o facto puro e sem teoria, o banho desinteressado de luz nas fachadas das casas, uma bondade a que falte consciência ou missão. E estava hoje a contar contigo para isso, rapariga. Não podia ao menos o teu coração de mãe bater sem filosofia?

17.10.18

*

Os tapetes são pendurados nas paredes para esconder as fendas das mesmas. E esta não é uma das piores descrições da situação da cultura atual.

Vilém Flusser, "Uma Filosofia do Design"

16.10.18

O beijo

Vi o pai de Alicita beijar a rapariga da papelaria como se beijasse a escultura de uma santa, pousando na testa dela a boca apressada mas sincera, a boca de quem deve agora os seus beijos a outra mulher mas sabe que jamais deixará de beijar aquela, por ser a mãe da sua filha. Ela, que além do pai ainda vê nele o homem, o amante, o soldado, o feiticeiro, recebeu o beijo com languidez, sorvendo, da breve oportunidade concedida, todo o sentimento que pôde e mais aquele que foi capaz de inventar.

14.10.18

Pela calada

A mulher do senhor Pereira puxa-me para si e sussurra o meu marido nunca foi um homem inteligente, coitado. Assustada com o despudor da confissão, recuo. Ela enfrenta-me sem vergonha das palavras ditas e eu vejo nos seus olhos o gozo de todas as fêmeas que manipulam o mundo pela calada, sejam bruxas, tecedeiras, parteiras, prostitutas ou contadoras de histórias.

13.10.18

Família

Assim que se livra das obrigações contratadas, a filha mais nova do senhor Pereira leva de comer aos sem-abrigo e faz as vezes das famílias deles com um pouco de conversa e atenção. São uns coitados, diz. Podem ter cometido alguns erros, está bem, mas outros lhes foram injustamente atribuídos e outros ainda caíram sobre as suas cabeças em forma de azares, perdas sem volta, doenças sem remédio. Se cada um de nós se prestasse a dar um bocadinho por eles... Toda a gente lhe elogia o pensamento e eu até concordo que um décimo desse altruísmo, sendo de verdade, poria o mundo nos eixos. Ela sorri, encolhe os ombros, ah, obrigada, obrigada, faço o que posso. O que eu estranho, porém, é que neste coração magnânimo, tolerante e tão humilde da Ana Isabel – Pereira de sobrenome, sangue e educação – , não haja uma única célula disposta a perdoar a infidelidade do pai e o medo da mãe em aventurar-se sozinha na reta final da vida.

11.10.18

Foz

O vinho, a vista sobre o mar e uma companhia que conta histórias. O tempo é um bruxedo lançado sobre o universo, a luz é uma rasteira, o espaço é uma trama imaginária, qualquer passo é em falso. Se algum dia me apanhares a escrever como os tontos, inclinada às frases feitas e às rimas fáceis, e se ouvires suspiros nas entrelinhas, acorda-me. Nenhum sentimento, nenhuma experiência, nenhum êxtase, nenhum risco, nenhuma fuga tem um efeito libertador igual ao do perdão. Não há nada como ler a história de um amor fracassado. No íntimo, quando ninguém está a ver, é no fracasso que todos nos revemos, é o fracasso que concede e autoriza a nossa humanidade. Pergunta para cinquenta mil euros: o que há de mais ingrato na vida de uma mulher do que o seu próprio corpo? Toda a revolução pede o sacrifício de uma ou duas gerações, não há nascimentos sem dor. Vou chegar muito atrasada ao trabalho, tanto quanto o rio chega atrasado ao mar.
Decididamente, antes das oito da noite o consumo de álcool não me favorece.

10.10.18

Luz

Entre as conversas desfiadas no caminho da escola a propósito de tudo, o mais novo diz-me que a beleza extrema de certas coisas lhe dá um pressentimento de caos e destruição. Isso é bom ou mau? pergunto e aperto a mão dele dentro da minha. Responde que é misto, às vezes dá medo, outras desejo, e quase sempre comove. O mais novo. O querubim. O manso. O bicho da terra. O bem falante. O aninhado. O incidente. A ironia do destino. O meu ajuste de contas com Deus.
Meu amor com cabelos de ouro velho e olhos de mar de inverno: se uma Mãe fosse tudo o que, ao engano, apregoam por aí – fera, poder absoluto, colo divino, mão certeira que detém o inimigo e a tormenta, beijo que sara o golpe e o pesadelo – o meu gesto mais urgente seria livrar-te o coração desses inúteis desassossegos, ou devolver-te ao instante em que foste concebido por ser o único onde a luz se iguala à tua.

8.10.18

Disciplina

Julgavas, portanto, que eu ia pôr a toalha, cortar pão e queijo, estender-te a garrafa e o saca-rolhas. Esperavas que fizesse a cama de lavado. Contavas que podias mexer nas minhas coisas e mudar a minha hora consoante as tuas estações. Pensavas, então, que eu queria contigo um desses amores que enrolam o passar dos dias com filhos, hipotecas e voltinhas de mão dada ao pôr-do-sol. Ignoravas, decerto, que por amor eu já fiz bailados equilibristas no fio da morte, impossíveis de esquecer por todos os que testemunharam. O meu coração é cheio, habituado a extravagâncias que não tens como pagar. Além disso, falavas demais, tornaste-te inútil como as vozes gravadas das portagens, a lembrar que não estamos sós apesar de não estar ninguém connosco. Por isso tive de te matar. Sabes que educo os meus sentimentos com disciplina férrea, embora consciente de que disso jamais resultarão sonetos, revoluções ou ideias brilhantes. Mas agora, confesso, falta-me a quem culpar pelos fenómenos do universo. Já não posso dizer, por exemplo, que para o desvio da órbita da Terra basta o mergulho dos teus olhos no meu colo, um beijo teu na palma da minha mão, a tua língua a fazer versos duros, heroicos, ao longo do meu pescoço. 

7.10.18

#metoo

Eu ia no final do terceiro ano da faculdade quando o professor, à revelia das regras da instituição, quis submeter-me a exame oral para confirmar as minhas classificações nas provas escritas. Nunca dei um dezoito, vamos ver se é seu o primeiro. Durou menos de cinco minutos o exame porque, notando eu que a conversa tomava contornos que me inibo de detalhar e como nenhuma questão foi colocada acerca do que vinha nas sebentas, pus um fim à farsa, levantei-me e saí. Não quer saber se vai ter o dezoito? Adeusinho. Tal qual. Nunca achei que ele estivesse numa posição de poder, era gente como eu, só existia como professor na medida em que eu existia como aluna. O poder é um conceito que apenas depende do que lhe atribuímos e a minha educação, em casa, foi para que eu entendesse essa verdade. Tive o dezoito na mesma. Aconteceu-me parecido com o primeiro instrutor de condução, com um autarca, com um padre.
Mas o pior, para mim, não eram estes. Estes tinham nome, eram casos concretos, oportunistas no exercício das suas funções, se conseguíssemos coragem e aliados podíamos pedir-lhes contas, apontar-lhes o dedo. O pior eram os anónimos, os que povoavam as ruas a todas as horas do dia e apareciam ao virar da esquina, os que entravam nos elevadores e subiam as escadas connosco, os que abriam as calças, os que se encostavam e se masturbavam no transporte público. O pior eram os que abrandavam o carro e abriam o vidro para dizer onde nos enfiavam o que tivessem para o efeito. E os janotas de fato, gravata e aliança rebrilhando no dedo que, de passagem e de surpresa, nos agarravam as nádegas. E ainda os que, sem motivo nem contexto: posso conhecer-te? Não. Cabra convencida, o que tu queres sei eu!  Eram estes, todos juntos, estes com que não contávamos, estes que eram gente comum no seu quotidiano, indo e vindo dos seus vulgares postos de trabalho, massa homogénea e abundante, com o caminho livre e a conivência da multidão, estes que tinham a força imparável do mundo, eram estes que me faziam sentir só e vulnerável. Que aconteceu? Foi um homem, tocou-me. Que homem? Não sei, desapareceu. Desapareciam mesmo, nas horas de ponta, para lá das ruas visíveis, entre o mar de gente. E era por isso que se tornava muito difícil, a certa altura, distinguir os culpados dos inocentes.

3.10.18

Nós, os leitores

Nós, os leitores, somos seres egoístas, parasitas, sempre buscando no outro a visão que nos falta. Exigimos que o que lemos nos mostre todos os avessos e costuras do real e quantas possibilidades haja no imaginário. Reivindicamos o direito a sermos impressionados, empurrados para cair de joelhos, arrastados até à beira do abismo pelo pescoço, engolindo pó e chuva. Queremos entrar na cabeça dos loucos, conduzir exércitos e revoluções, experimentar perdas e dores que só a desumanidade suportaria. Desejamos, na língua, o gosto do sangue dos vencidos e, entre as coxas, o êxtase dos amantes. Simpatizamos com assassinos, carrascos e pedófilos. Ponderamos alianças com traidores. Estamos dispostos a amar às escondidas homens e mulheres que não nos pertencem. A roubar as crias aos outros. É urgente a nossa sobrevivência, pouco importa o quanto ela custe a quem escreve. Viciamo-nos, com as pressas e fraquezas de qualquer vício, na expansão da consciência. Se abstinentes, oh, desassossego! A cada hora, procuramos uma linha que tenha fibra, seiva e carne, um verso que nos afaste o cabelo dos olhos, um parágrafo que fique a latejar-nos nas têmporas, uma página onde possamos deitar-nos certos de que alguém se encarregou de organizar o universo. Nós, os leitores, vivemos na expectativa de uma aparição. 
Leitora é a única coisa que tenho sido na vida com fidelidade religiosa. Às vezes rogo pragas ao autor, quando leio uma frase que não faz a curva perfeita, quando me dão palavras difíceis de dizer ou caídas na vulgaridade, quando a ideia tem pó, ofensa ou fraca intenção. É por isso que escuto e compreendo o leitor que se me dirige com queixas e sei que o mal não está no capricho que ele tem. O mal está em presumir que aqui encontraria as grandezas que deseja e vir cobrá-lo como se cobra de um poder, de um serviço ou de uma loja. Respondo-lhe com o lamento de quem dá os filhos que fez e, sem um cêntimo no bolso nem caminho de retorno, se arrepende.

2.10.18

Linhas tortas

Pelas linhas tortas da terra onde nasci, Deus não apareceu a escrever direito. Ao contrário, semeou misérias e desfavorecimentos, pôs a correr águas de mau feitio e nem se esqueceu de largar, como em qualquer canto habitável do mundo, uma dose de oportunistas. Valeu-nos o olhar sensível de muitos que, escrevendo com mais justiça e esforço do que Deus, usaram estas linhas para costurar um paraíso e dele foram contando na sua arte e a seu modo. Graças a esses, por todo o país se bebia com estilo uns calicezinhos de Porto e se comentava superiormente a bela literatura inspirada nas agruras do vale. Mas as dificuldades no acesso e a falta de piscinas, de vendas de bugigangas e pasteizinhos, de passeios de charrete e de festivais eram um modo de seleção natural de visitantes e mantinham longe os devoradores de paisagens e silêncios.
Agora, quando me ponho a ver os barcos com lotação esgotada para cima e para baixo, deslizando sem dificuldade ou receio sobre este rio que tem tantos homicídios no cadastro, desiludo-me. Não compreendo a motivação e o dinheiro mal gasto desta gente que se acotovela em magote nos conveses, com música e bandeirolas de arraial, a quem os elegantes chapéus de palha, os repelentes e a desconfiança não protegem do inferno do vale, cada qual com um pau de selfie e uma conta no instagram, ouvindo das aventuras do marquês, da lenda da morte do barão, do pulso viril de Dona Antónia e outras histórias com graça suficiente para entreter quem tem défices de atenção e não consegue ser feliz só a pasmar. E é tal o escarcéu à sua passagem que me pergunto se vêm para ver ou para ser vistos. 

1.10.18

*

A língua que com maior exatidão e beleza exprime o amor é o silêncio. 
A seguir é, obviamente, o francês.

29.9.18

Dia mundial do coração

Entre a Tragédia no Mar e o Farolim das Felgueiras, esforcei-o em passo rápido, ida e volta, manhã cedo. Durante a tarde confiei-o, para repouso, às mãos delicadas dos meus filhos, que tratam como doutores das minhas vulnerabilidades sentimentais. Ao fim do dia levei-o a comover-se à média luz, numa das mais bonitas plateias da cidade.
Restam-me três quartos de hora para estragar tudo, embriagá-lo, iludi-lo, retorcê-lo, castigá-lo, meter-lhe medo, dar-lhe gostinhos a remorso, a desejo e a saudade, pô-lo a bater em fúria e desobediência, deixar que vá por sua conta e risco onde lhe der na gana, quer regresse vivo ou morto. Ou então resignar-me à ideia de que ele já não se presta a nada disso, despir-me e dormir.

28.9.18

Esterilidade

Estão a tentar impingir-me o OmmWriter, mas que seria de mim, do que escrevo, do quase-nada que sei fazer na vida e me dá sustento, se limpassem todas as sombras, inquietações, absurdos e impurezas do meu horizonte? Que seria de mim sem desvios de atenção, sem o barulho dos dias, sem os alertas e as atualizações, sem o caos e a memória atafulhada? 
A tranquilidade é um ventre estéril. Serve bem para o êxtase das horas vagas e inconsequentes mas nada permite conceber.

27.9.18

A imperatriz

A mulher que carrega no ventre o primeiro neto homem do senhor Pereira é das mais belas que vi fora de revistas e ecrãs. Lembra-me a pediatra que conheci no último retiro e com quem, por longas horas, conversei sobre os mistérios do nascimento e da morte. Descrevê-la seria diminuí-la. Por isso peço aos leitores que a imaginem, mas sem traço, cor, ou medida que não sejam de divina inspiração.
O senhor Pereira conta-me que a ida a Penedono ficou em águas de bacalhau. Diz que ela bufou à ideia como um animal acossado e respondeu que era maior, vacinada e independente, jamais daria aos pais a palavra em negociações respeitantes à sua vida e à da sua criatura. E quando lhe perguntaram porque se negava ao casamento, respondeu com brevidade: já não se usa. Esta escassez de argumentos e satisfações deu à situação um ar de desimportância que feriu toda a família, incluindo as filhas e respetivos apêndices em comunhão de adquiridos. Certamente que a mãe do primeiro neto homem do senhor Pereira tem outros motivos para recusar o nó, mas qualquer um com dois dedos de testa sabe que a brevidade de argumentos é o melhor recurso em duas situações: quando falamos com quem nos entende demasiado bem ou com quem o entendimento é uma total impossibilidade.
- É que nem sequer faz tenções de viver com o meu filho! Quem se julga ela para o dispensar? 
Enfia as mãos nos bolsos, balouça os calcanhares, as narinas tremem, o olhar viaja sem atenção pelo quotidiano simples da vizinhança, responde educadamente mas sem espírito a quem lhe dá as boas-tardes. Só com a resposta e a nomeação consegue o alívio:
- Uma imperatriz!
E ao dizer isto a raiva liquefaz-se nos cantos descaídos dos seus olhos. 

25.9.18

Setembro

Quando telefonava ao meu pai para irmos a Lamego aos milhos com carne de vinha d'alhos, ou ao arroz de feijão com salpicão do Mezio, ele percebia logo que eu estava grávida. Eu?! Não... Era sincero o meu espanto, tanto quanto era ofensiva a minha boca cheia, o meu prato a transbordar, mais uma dose e outra ainda. O interior do país ainda estava por gourmetizar, a comida era servida sem requintes e em quantidades para sustento de trabalhadores, não para alisar a barriga de turistas de estufa. 
Calhou isto acontecer por duas vezes em setembro, quando o ar estava saturado de ardor e sensualidade, o xisto exalava os últimos bafos de hálito morno, o fruto palpitava implorando a colheita e os homens enterravam-se vivos na espuma do mosto. Como o meu pai nunca se engana, completavam-se depois as nove luas no mais amoroso de todos os meses do ano.

23.9.18

Enclausurados

Cuidado com esses que vivem em voluntária e habituada clausura e pasmam a ver-nos passar, encantados com a liberdade de irmos mais ou menos na direção que nos apraz, fascinados com o modo como o vento nos desarruma os cabelos, as gravatas e as saias, esses que nos chamam para perguntar do que sabemos e começam a experimentar o mundo tomando de empréstimo os nossos sentidos e sorvendo as histórias que gostamos de contar, esses que, a certa altura, seduzidos pela ideia de provar do que há do lado de fora, nos revelam onde está a chave. Nem duas vezes pensamos. Libertar os outros é tarefa demasiado nobre e merecedora de gratidão para deixar a meio. Ah, cabe perfeita na fechadura. Roda sem atrito. A porta abre, a luz entra, derrama-se no chão, sobe pelas paredes, fere os olhos relutantes dos enclausurados. Sai, dizemos. Entra, respondem eles.

22.9.18

Duelo (5)

És tolo se consideras que foi da minha parte um ato de coragem travar este duelo. 
Coragem foi ter chegado ao fim e, podendo escolher, em vez dela matar-te a ti.

21.9.18

Ócio

Por impaciência e falta do que fazer, o mais novo meteu-se a folhear velhos manuais do irmão e descobriu Gil Vicente. Durante a meia hora seguinte estive a responder-lhe às dúvidas religiosas, linguísticas e outras, várias, que daí se levantaram. Mas o assunto tirou-lhe o sono e andou às voltas na cama, imaginando circos de julgamento do caráter dos Homens. Adormeceu quando lhe fiz uma massagem com uma poção mágica à base de laranja e alfazema, infalível na dissolução de inquietações miúdas e graúdas. Ah, bendito ócio, que desespera as crianças ao ponto de as pôr a vasculhar, a inventar, a perguntar com teimosia. Não sei quem terá sido o infeliz que espalhou, com sucesso e muito lucro, o pânico de as deixar desocupadas.

19.9.18

Angústia

São as coisas miúdas, as desimportâncias do quotidiano, que precipitam os maiores acontecimentos da vida. Por isso esta angústia que precede as decisões de peso, as escolhas aparentemente irreversíveis, as reuniões, as cerimónias, os contratos, os casamentos, as mudanças, é de uma desproporção absurda e inútil. Que pena eu não ter nascido já a saber isto. 

17.9.18

Duelo (4)

Silêncio e desolação. Eis o retrato das paisagens depois de um grande combate. Não sobra um palmo de terra que possa ser semeada ou onde seja prudente assentar fundações. Mas venci. E para isso bastou-me escrever uma linha, uma única linha que enrolei em torno do teu pescoço e apertei devagarinho até te ajoelhares. Metida no sarilho dos seus longos parágrafos, ela nem deu por nada. No dia seguinte vieste para me reconhecer os méritos e te ofereceres, com justiça, como prémio. Mas eu não te quero, eu só quero a vitória. Nada rebaixa mais um vencedor do que a aceitação do troféu ou da medalha, esse é o instante em que a sua glória é trucidada pelo deslumbramento, pelo aplauso e pela fotogenia. É por isso que os grandes vencedores, os verdadeiros, os orgulhosos, se desgraçam na mais profunda solidão. Vencem mas não ganham, nem para matar a própria fome.

15.9.18

A grande poda

- Está quase a chegar a altura da grande poda, não é?
A cabeleireira fuma à porta do salão, aproveitando que é hora de pouco movimento, e acena quando me vê passar. Digo que não, este ano não farei a poda no equinócio de outono, agora só quando o cabelo chegar ao meio das costas é que repenso o assunto. Ela aproxima-se, pede licença e enfia a mão com um furor viril, quase masculino, na minha cabeleira.
- Na sua idade fica bem, mas se fosse comigo já tinha de ser um corte diferente.
Tão tonta que mal vê que somos da mesma idade. A diferença é que ela casou aos vinte, pariu aos vinte e quatro e começou a morrer cedo. Eu tenho vivido a teimar contra a velhice e só por isso é que posso andar de cabelos compridos, em propositado desalinho, sem  assustar ninguém. A cabeleireira tem vaidade que chegue para fazer alisamentos japoneses, unhas de gel, depilação artística nos genitais, o diabo a quatro, mas não é vaidade bastante para impedir que um homem e um filho mandrião a desgastem. Continua a falar na bimby como se fosse uma grande prova de amor e consideração que o marido lhe deu. Quem precisa de uma poda é ela.

13.9.18

Uma década

Faz hoje dez anos que escrevi, só com uma mão e ao ritmo do caracol, a carta de protesto que me levou, três semanas depois, a criar este blog. Só com uma mão porque a outra embalava o berço do mais novo, cinquenta e poucos centímetros de bichinho, já então exemplar na tolerância para com o vício e a febre da sua mãe. A minha vida era tão diferente do que é hoje que, se eu a tivesse contado aqui, tal qual, dia após dia, em jeito de diário, estaria agora de certeza a viver à grande e à francesa à custa disto.
Grata a todos os leitores por me terem obrigado a manter a sobriedade. Pelo grau de exigência, pelas balizas, pelas margens, pelas questões, pelos e-mails. Grata aos leitores/bloggers que acabei por conhecer pessoalmente: a quem veio de comboio desde o sul só para almoçar comigo, a quem me recebeu em Coimbra, a quem me enviou cd e livros, a quem pintou o meu retrato a óleo antes mesmo de me ter visto. Grata ainda aos que me são próximos. Deve ser difícil ler aqueles que conhecemos bem, que vemos de pantufas, pingo no nariz e nódoas na roupa. O meu pai, os meus irmãos, cunhados, sobrinhos, tios, amigos, professores, alguns colegas que por descuido meu me descobriram. É grande a paciência e muito o respeito necessário para evitarem pedir satisfações de tudo o que escrevo, por quem raio entro em duelos de palavras, porque me dá hoje a melancolia, onde se pode conhecer o senhor Pereira, se fico mesmo em kakasana tanto tempo, que história é essa da cirurgiã. 
Desculpem qualquer coisa, uma palavra fora de propósito, uma emoção maldita, um juízo leviano ou qualquer texto que vos tenha sido inútil. Certamente não terá sido intencional. Aliás, ter um blog nunca foi minha intenção. 
Muito obrigada.

12.9.18

Renascimento

Quando ele chegou a casa, caiu aos meus pés, tombou a cabeça no meu regaço e perguntou que dor era aquela que parecia arrancar-lhe todas as raízes, emudeci. Olhou-me como um condenado olha desde o fundo do poço, com uma esperança vaga, quase nula, de que alguma mão possa acudir. E porque a memória nunca me falha e tenho presente o dia em que morri assim de amor pela primeira vez, só mil afagos mais tarde lhe disse que preparasse o coração pois, embora parecendo o oposto, outras paixões viriam. Ajoelhado, suplicante, trágico, estava ainda mais belo do que nos dias vulgares, toda a sua face era espanto e transcendência - viu o que nunca antes imaginara. Se tivesse petrificado naquele instante, tornar-se-ia uma escultura digna de ser adorada e muitos analisariam nele, por largos séculos, a expressão do sentimento, as minúcias da pose, as proporções da anatomia. Três dias depois, tal como eu previra, renasceu e disse-me que não tencionava jamais voltar a passar pelo mesmo. Que sera, sera, cantei, sabendo que não há na vida lição, por mais dura, que fique suficientemente bem estudada.

11.9.18

*

Está a pedir-me que decida por si?
Perguntou a cirurgiã, uma beleza rara, sóbria, tão bem amadurecida, e um sorriso com tamanha amplitude que por pouco não me deixei cair no seu colo julgando ter de volta a minha mãe.
Claro, é médica, respondi.
Só porque estudei muito. Não sou deus e posso até nem ser, entre nós as duas, a que chegou mais perto dele.

10.9.18

Crítica literária

Manhã cedo, subo a rua devagar e apanha-me a mulher do senhor Pereira, que vai ao pão. Sem o marido, o normal é que queira falar de coisas que a ele escapam ou desinteressam. Como muitas de nós, a mulher do senhor Pereira é outra quando o seu homem está ausente e pergunto-me quantas mais será em circunstâncias raras ou quando, por misterioso impulso, acorda à hora do diabo. Não são os homens quem mais trai, são as mulheres. A traição comum dos homens é enrolarem-se com outras, coisa pouca comparando com o que uma mulher é capaz pela via da multiplicação.
Como previ, pede-me para ver o livro que trago, recua para focar, esqueceu os óculos de ver ao perto.
- De que é que trata?
Aborrece-me que perguntem do que tratam os livros, dá-me ganas de responder que tratam todas as maleitas, exceto a melancolia crónica, que é a variante de que padeço. Na verdade, aborrece-me que perguntem o que quer que seja do que leio. Tenho com os livros relações profundas e reservadas, sobre eles não sinto necessidade de falar, a não ser com aqueles com quem me sento à mesa e, mesmo assim, dependendo do que há para comer e beber. Por isso, minto à mulher do senhor Pereira como mentiria a qualquer um.
- Sei lá, mal comecei.
- Eu conheço este título, mas não sei de onde...
Sei eu, mas não quero abrir as gavetas empoeiradas da mulher do Senhor Pereira, onde ela guarda as suas velhas paixões e o seu original deslumbramento pelo mundo. É preciso muito cuidado com estas coisas. Só um amante competente ou um bom psicanalista podem mexer sem risco nos fundos silenciados de uma mulher.
- Mas está todo sublinhado...
- Pois... não é meu, emprestaram-mo já assim.
E ela, inesperadamente recomposta do interesse, transfigurada, devolve-me o livro:
- Faz muito bem em pedir emprestado, os livros são caros e a maioria deles até acaba mal. Este, com este título, não engana ninguém. Vai acabar com a morte, é dinheiro mal gasto.

8.9.18

Love, Peter

Durante a adolescência tive um pen friend que se chamava Peter e vivia em Newcastle. Para nos escrevermos com regularidade, a minha mãe mantinha-me sempre devidamente abastecida de papel de carta e envelopes by air, tão finos que podia ler-se o conteúdo. O Peter viajava muito com a família, o pai tinha um cargo na British Petroleum que o obrigava a andar pelos quatro cantos do mundo, e graças a isso eu recebia postais de lugares que na época pouca gente visitava, no médio e no extremo oriente. Um dia trocámos fotografias. Eu enviei-lhe uma tirada no Parque de São Roque, sentada na relva, perdida de riso. Ele apresentou-se com um macaquinho ao colo, loiro como era de esperar, sério como o imaginava, mas também com os olhos profundamente meigos que eu previra. 
Tive outros pen friends noutros países. E tive a Susana, em Lisboa, que a certa altura, em vez de escrever cartas, gravava cassetes e eu ficava sessenta minutos a ouvi-la, trinta de cada lado, a falar com uma entoação oscilante e dramática. Como a Susana tinha um sobrenome raro, o google demora um segundo para me dizer que ela está bem e recomenda-se. Mas eu preferia o Peter, que tinha uma caligrafia vertical, estável, masculina, e contava tão bem e com tantos detalhes cuidados sobre os lugares por onde andava e as histórias que vivia, que me manteve cativa por alguns anos. Ainda hoje esta é a forma mais eficaz de me segurarem.

7.9.18

Placebo

A rapariga da papelaria já tem um poncho igual ao meu e usou-o ontem. Estava magnífica, mas talvez não fosse o poncho que a enchia de graça, era antes um sentimento de orgulho que a vestia dos pés à cabeça e que parecia despertá-la para outro horizonte. As costas tão direitas, um sorriso fácil e despropositado como os da infância e aquele modo de ir afastando o cabelo da cara, que usamos quando queremos olhar e ser olhadas. Parecia finalmente ter-se libertado desse abismo de sustos e espanto onde uma mulher cai no dia em que dá à luz. Que bem lhe fica, disse eu sem mentir. Ela deu duas voltas, fez-me notar um ou outro detalhe em que lhe pareceu que a imitação estava aquém do original, alinhou as franjas e agradeceu-me. Não falámos de Alice nem de qualquer outro amor, passado ou futuro, que a pudesse desaquietar. 
Amanhã vestirei o meu.

6.9.18

Previously

Os meus filhos têm dificuldade em compreender que eu sou do tempo do último episódio, dos finais apoteóticos e abruptos, frequentemente felizes e por isso sem mais expectativa. Acaba uma coisa para que outra tome lugar. Eles são deste tempo em que tudo se resolve depois de uma breve pausa, na próxima temporada. A mesma coisa dá lugar à anterior, anunciando-se como nova. Puro engodo, alimento para o vício. E assim tudo se faz eterno, nem que para isso seja preciso enrolar, desenrolar, encher de palha e dar a comer do que não presta. 
Quando lhes mostro as coisas que via na minha infância, emocionam-se e querem saber o que aconteceu a seguir. Nada. Como, nada? Ora, o propósito era só arrebatar, povoar-nos a cabeça de sonhos, empurrar-nos para fora de casa, fazer-nos pensar que o mundo estava mesmo a contar connosco para a grande transformação. E estava? Não. Então foram enganados? Naturalmente que sim, todas as gerações são, mas ao menos não esperávamos pelo destino sentados no sofá. 



4.9.18

Abalo

É curioso que eu estivesse a pensar em ti no instante preciso em que a terra estremeceu esta manhã. Pela doçura dos movimentos mais me pareceu um embalo e a ele me entreguei sem resistência, pensando na inutilidade de todos os sustos e de todas as fugas nesta vida. Soube de antemão que o Norte seria manchete e abriria os serviços noticiosos da manhã. Obviamente, nem uma palavra acerca da tua responsabilidade nos factos. E, de resto, para quê dar tanta importância a um simples abalo neste solo granítico, tão bem sustentado, de pés tão fincados? Foi só uma onda, uma exaltação da natureza, um lamento a subir desde o fundo da terra até à superfície da pele.

3.9.18

Zona de rebentação

Nestes fins de tarde tropicais, em que o verão aparenta as melhoras da morte, a vida nos quintaizinhos traseiros das moradias parece muito apetecível. Da varanda onde escrevo, ponho-me a apreciar a oscilação das cortinas de tiras de plástico às cores e as raparigas de cabelos soltos que descem da cozinha com travessas carregadinhas de febras já temperadas e enchidos. Esperam-nas os seus homens balofos, de tronco nu e barba mal feita, suando de volta das brasas, com um cigarro a morrer no canto da boca e as garrafas de cerveja alinhadas como alvos no murete. Agradam-me as toalhas de xadrez com nódoas muito antigas e a propriedade com que as avós as estendem na mesa para pousarem as sopas que a canalha engolirá nem que seja com dois tabefes na cara. Alguém põe a tocar a lambada. Chorando se foi quem um dia só me fez chorar. Exaltam-se os cães e as crianças, as avós riem de um modo suspeito e mexem-se como se alguém as desejasse às escondidas, as raparigas abandonam-se nas mãos apressadas dos seus homens sem se importarem do cheiro e da gordura. Inquietos com o bulício, a beijoquice e as gargalhadas, os cães enfiam-se entre as pernas das donas. Sai Lord! que chato!, mas o dever de obediência tem limites até para os mais fiéis. Levantam-se no ar os fumos e o cheiro da carne e do alho, dou comigo a salivar. Nestes fins de tarde tropicais, a fila dos quintaizinhos traseiros das moradias parece a zona de rebentação da sensualidade.

1.9.18

Bicho

Quando a mulher decidiu voltar para casa, salvando o marido de comer na churrasqueira pelo resto dos dias, renovou por tempo indeterminado o contrato de miséria de toda a família. Quem mais me entristece é a filha, que tem nos olhos uma melancolia precoce, imprópria para a idade, e caminha como se desconfiasse da terra que pisa. Ele, ouço-o às vezes, grunhindo como um bicho da selva aprisionado. Ao cruzar-se comigo na rua, porém, sorri-me com o charme e a elegância daqueles que a psicologia de esplanada classifica como bem resolvidos. Mas é um homem atormentado, com pavor da própria sombra. E o medo - todos sabemos - é o que inflama o rastilho da loucura.

30.8.18

Cárcere

São sempre três dias, tal como três dias são concedidos para um luto vulgar, em três dias se resolve uma virose benigna, três dias dura a convulsão de uma ressaca e ao cabo de três dias se deu a ressurreição de Cristo. São dias compridos, em que o sol demora demasiado tempo a dar tréguas e a noite a dar colo. O primeiro é de excitação, o segundo é de agonia, no fim do terceiro vem o alívio. Mas se me perguntares qual deles é o mais doloroso, digo-te que são todos os que vêm depois: os dias de lembrar. A memória não é um dom, é um cárcere. 

29.8.18

A terceira virtude

Na bancada, os homens falam sobre o meu filho e eu tapo o rosto com os cabelos para não perceberem quem sou. Uma mãe descobre-se facilmente pelos olhos, que são sempre comovidos, ou de orgulho ou de susto. Falam dele repetindo com espanto as palavras inteligência elegância, o meu peito exalta-se e a minha boca adoça, tal qual diz o provérbio. Inteligência e elegância são boas virtudes, porém não bastam, só fazem dois terços de um homem de valor. Falta-me incutir-lhe uma terceira virtude. Aquela que aquece, tempera e encorpa o caráter. A que tira as outras virtudes da sombra e as eleva e lhes dá pulso e razão. Aquela sem a qual um homem será sempre um fracasso, ainda que saiba tanto quanto um deus e tenha o jeito de um príncipe. A que, enfim, pode salvá-lo de ser mero objeto de vitrina, figurante no grande cortejo ou nome que se lembra após a morte com uma saudade morna e resignada. E, por ser rara, cativa verdadeiramente o coração das mulheres sem as entediar como outras virtudes entediam com o passar do tempo, quando se gasta a novidade. 
Foi essa que eu sempre sonhei para os meus filhos.

27.8.18

Uso frequente

Caso uma pessoa, por imperativos de limpeza e manutenção, precise de verter umas lágrimas e não encontre motivo para isso mesmo vasculhando as piores memórias, mesmo revivendo a tristeza somada de todas despedidas, mesmo imaginando a desgraça de perder o amor maior, mesmo punindo-se por todas as palavras malditas e mágoas causadas ou até enfiando os dedos nas próprias cicatrizes para fazê-las de novo sangrar, sugiro que tire um pouco do seu tempo para ouvir Cristina Branco cantar Verdes são os Campos em mil novecentos e muitos. Se não for um espírito ausente ou empedernido, é grande a probabilidade de resultar. Comigo já resulta há largos anos, mesmo com uso frequente, provando-se que nem todos os abusos causam habituação ou perda de sensibilidade. De forma a potenciar os efeitos, recomendam-se uns bons phones, a cabeça recostada, os olhos fechados e uma brisa fresca suficiente para despertar alguma coisa que esteja em prolongada e desnecessária quietude.

25.8.18

Duelo (3)

Hoje a noite é de lua cheia, o mote vulgar para devaneios amorosos. É provável que ela escreva um lençol e nele te convide a deitar com subtis alusões eróticas imitadas aos poetas verdadeiros. Estendê-lo-á com mil cuidados, doçuras e perfumes, sem vincos nem dobras, de modo a que se não vejam a miséria, os tormentos e os pesadelos. Compreenderei se considerares que, afinal, é ela a vencedora, já que a mim falta esse engenho para dar boa aparência à realidade. E apesar de ter mais vocação para ganhar, sempre tive bom perder. A minha avó dizia amiúde, para justificar o que na vida dela e de outras mulheres se entortara sem poder ser remediado: temos de perdoar os homens pela sua fraqueza, eles não têm culpa. Coitada, trazia estas verdades no sangue, herdadas da sua mãe, que as herdara de outra mãe e por aí fora até à mãe de todas as mães. Para poupar os homens às culpas, as mulheres tomaram-nas todas para si arrumando-as nas frestas, curvas e profundezas do próprio corpo, dividindo-as pelos azares e doenças da casa e da família e dando-as até como fiança para as debilidades de caráter dos filhos.
Em todo o caso, estou decidida a recolher as armas e descansar um pouco esta noite. Vou estrelar um ovo, polvilhá-lo de tomilho, regá-lo com um fio de azeite, metê-lo dentro de um pão, abrir uma cerveja e sentar-me na varanda. Só uma mulher equivocada investe uma noite de lua cheia a versejar a um homem.

24.8.18

Imaginação

Tive uma colega que dizia que uma das grandes tristezas do casamento era, depois de todo o dinheiro aplicado em lingerie e outros artifícios de sedução, dispor-se a andar pela casa de pijama desbotado por dentro das meias. Nada é como imaginamos, assim concluiu poucas semanas depois de ter sido levada ao altar numa cerimónia em que não faltaram ensaios, lantejoulas e consoantes dobradas na lista de convidados. O pai entregou-a, fantasiada de virgem, a um rapaz muito abençoado em todos os aspetos que as jovens sonhadoras valorizam. A missa foi magnânima, o choro das mães de uma surpreendente fotogenia, e as amigas da noiva, que eram apelidadas como bonecas ou animais de estimação, exibiam tal candura que podiam estar sentadas no altar. À noite, porém, começando a beber, caiu-lhes o traje e o verniz, desfizeram-se os cabelos entrançados por um dinheirão, e no corpo de todas elas nasceu um talento e uma disposição inesperada para as danças sensuais que, num instante, deram o passo fácil para o ordinário. Começaram a roçar-se nas cadeiras e nos postes, com as línguas de fora, as pernas abertas e os vestidos levantados até às coxas mas, como se aquilo já fosse uso, ninguém deu importância. Os homens continuaram entre os charutos e os licores escolhidos pelo preço, à roda de assuntos empresariais. As mulheres, já em suspiros pela hora de descalçar as sandálias, riam sobre a exibição das filhas e desculpavam-se, concordando entre elas que são jovens, é natural que queiram divertir-se. E os quatro irmãos do noivo, equiparados a ele na beleza e nas pós-graduações forçadas em gestão, solteiríssimos e apetecíveis, desfrutaram do espetáculo como meninos bem amestrados: ver é com os olhos, não é com as mãos. Anos depois, acabaram por casar todos uns com os outros, porque para isso estavam destinados e, quando não havia álcool, elas eram mesmo raparigas de boa figura. Tudo isto me vinha à lembrança quando ela, a minha colega, dizia, a propósito de pijamas desbotados por dentro das meias, nada é como imaginamos.

23.8.18

Ressurreição

Talvez a maioria dos que por aqui passam se lembre do arrumador que me abençoava as manhãs com conversa breve e inteligente, fosse a propósito de uma notícia ou de algum mau caráter atravessado no caminho. Lembrar-se-ão ainda de como eu o admirava pela ironia, por ele ver o que poucos viam, saber o que a poucos interessava, dominar a língua portuguesa e todos os assuntos de hoje e de outros tempos, ao ponto de muitas vezes eu lhe ter fugido por me sentir incapaz de manter o diálogo e os argumentos. 
Morto não se sabe do quê – não houve senão boatos, contos e ditos – o arrumador deixou a praceta à mercê dos abutres e durante uns tempos reinou a confusão, como é normal quando um poder absoluto se extingue e cada um tem de reaprender a fazer boa gestão da liberdade com que nasceu. Arrumadores pouco sérios tomaram conta do território, houve pequenos desentendimentos, diz-se que até alguns roubos. 
Acontece que ele voltou, quase dois anos depois de morrer. Está de novo na praceta e eu diria que nunca de lá saiu se não fossem certas mudanças por demais evidentes no seu aspeto. Está mais gordo, muito limpinho e com a face impecavelmente barbeada. Deduzo que não tenha ido ao inferno, de onde certamente teria vindo chamuscado e com o olhar de quem viu o diabo em carne, cornos e cores. Mas, resumindo o que sei, o arrumador foi dar uma volta pela morte, dela voltou com bom ar e já varreu todos os oportunistas da praceta.
Poderá ser difícil acreditar no que digo. Afinal, não se escreve só o que se vê mas também o que à conta da imaginação se acrescenta e ainda há o tempero das memórias, dos desejos e dos temores de cada um. Toda a gente sabe que no tempero é preciso ter mão sensata mas às vezes vale bem o exagero, desde que haja bebida que o regue. Como é óbvio, não é o caso.

22.8.18

A grande novidade do senhor Pereira

Quando o senhor Pereira diz, como se quisesse esclarecer-me sobre as importâncias da vida, o casamento é um esforço que dá muitas compensações, deita o olhar à mulher com uma condescendência paternal e ela sorri vagamente, ajeita o cabelo e põe-se a fazer de conta que repara em miudezas: o alvoroço de um pardalito, o fecho da carteira emperrado ou uma linha solta na costura da blusa.
Vão ser avós mais uma vez e essa é a grande novidade que ele prometeu há umas semanas e agora me anuncia, cheio de orgulho na multiplicação dos descendentes mas desagradado com as circunstâncias em que a criança vem ao mundo. Quem lhe vai dar mais um neto é o filho – eis a boa surpresa. O que está mal é que a namorada, a que é lá das Beiras, para os seus lados, não quer casar, e aqui a voz afrouxa e a vergonha dá-lhe cabo de todo o entusiasmo. Lembro outra vez que não são os meus lados, sou de acima do rio, mais a Norte, senhor Pereira, já lhe disse, e outra vez ele responde, com um gesto de sacudir moscas, dá no mesmo. Ofendida, aferroada, sirvo a vingança quente:
- Eu, no lugar dela, também não casava!
Fico à espera que ele peça motivos, tenho um rol deles prontos, incluindo a suspeita de que o filho não tenha vocação alguma além do transporte de tupperwares e trouxas de roupa para lá e para cá, atributos insuficientes para convencer uma mulher, mais se ela é do interior das Beiras, onde as coisas não se fazem por pouco e é um risco andar a assobiar para o lado. Sou um pobre cidadão / Perdi o fio de mim / Um bichinho do betão / Que nunca viu o alecrim, cantou o Rui Veloso a uma beirã e palavras iguais podia cantar o filho do senhor Pereira se tivesse boa voz ou uma sensibilidadezinha, por mínima, que o capacitasse ao menos a dizer os versos. 
Estas opiniões - meras e vulgares opiniões - afio-as mentalmente de modo a dizê-las com aparência de factos e sem que as possam desdizer, para melhor me vingar. Mas as coisas nem sempre vão conforme prevemos e o que as intenções desenham sai muitas vezes oposto. O senhor Pereira não me pede justificação alguma, mal ouviu o que eu disse, provavelmente não tem um blog onde vá anotar os nossos desacordos. Está preocupado com coisas maiores, por exemplo, em marcar uma ida lá a Penedono para falar com os pais da rapariga. Talvez todos juntos consigam explicar-lhe que o casamento é um esforço que dá muitas compensações. E porque no sorriso da mulher julga ver a confirmação da sua máxima, dá-lhe o braço, endireita as costas e pergunta-me:
- Não se nota?

14.8.18

Duelo (2)

Vejo-a esmorecer dia após dia e rejubilo com a minha vitória, que antecipo sem precisar que a anuncies. A falta de forças dispõe-na ao sentimentalismo de trazer por casa, calça os chinelos da pieguice, veste o roupão dos lugares-comuns e insinua-te o regaço com palavrinhas de flanela, já te faltou mais para o sufoco e para a náusea. Pobre coitada, se soubesse alguma coisa de amor aprenderia a procurá-lo na carne e no quotidiano, não nas nuvens. Vê como eu levo vantagem sobre ela com estes meus pés treinados em terra firme. Tenho resistência bastante para ficar o resto da minha vida a contar-te histórias e cada uma será melhor que a anterior, não por falarem de coisas belas, mas porque as palavras serão ditas de forma a que não consigas desviar os olhos da minha boca.

13.8.18

Ubhaya Padangusthasana

Quando a mulher, a justificar o quanto gemia, alardeou que depois dos quarenta, se não nos dói nada é porque estamos mortas, eu disse baixinho, para não ofuscar a espetacularidade da sua lamúria, estou morta. Ela voltou o rosto para mim muito devagar e pareceu-me ver a dona Manuela, minha professora primária, quando estava a escrever no quadro e se virava para açoitar, com a impiedade dos olhos e a régua de madeira, quem conversasse à margem. Enfrentou-me de testa muito franzida, íris muito acesa, cantos da boca apertados num ódio sem causa nem explicação, pois jamais antes nos havíamos cruzado, não havia histórico ou coisa alguma que nos criasse rivalidade. Então caiu de costas, como é vulgar acontecer a quem se distrai. E eu muda, inexpressiva e insensível, uma morta heroicamente resignada à sua condição. 

10.8.18

Ausências

Ao descer a avenida esta manhã pesou-me muito o pé no acelerador por causa do dueto Bowie & Mercury que deu na rádio. Sorte a minha, que todos os semáforos me estenderam a passadeira verde e, como era muito cedo, não houve quem me atrapalhasse o caminho. Pus a música alta e fui de vidros abertos, tal qual costumo dizer aos meus filhos para não fazerem por ser comportamento escandaloso e suburbano. Mas quando cheguei à beira-mar e estacionei, pronta para caminhar, tudo me pareceu tão acabrunhado que se me apagaram o entusiasmo e a força das pernas. 
As ausências de agosto entristecem tanto as cidades, embaçam os horizontes, enchem as ruas de animais abandonados, fazem parecer chorado o vaivém das ondas. Quem fica condena-se a esperar, nada funciona, acontece ou avança, ninguém opera mudanças ou toma decisões, tudo depois vê-se, ou encontramo-nos em setembro qualquer dia retomamos isso
Fiquei dentro do carro como os velhos de domingo, a ver de longe um homem tocar violoncelo no meio da marginal, de costas para o mar, de frente para absolutamente ninguém. Ainda não eram oito da manhã.

9.8.18

O bom caráter

Cresce de dia para dia o meu espanto com a bondade das pessoas na internet. Presumo que os maus estejam todos à solta na vida real. Os bons, absolutamente imunes à contaminação, a salvo nos seus bunkers virtuais, olham de cima para a multidão dos invejosos, dos oportunistas, dos corruptos, dos mal-amados, dos que fogem aos impostos, dos negligentes no trabalho e na estrada, dos que se atropelam nas filas e traem os casamentos. Os bons estão nas redes sociais e reproduzem-se nas caixas de comentários, por lá espalhando as suas pieguices, o seu coração nobre e generoso, a sua fabricada ingenuidade, os belos ensinamentos dos seus paizinhos, a perfeição com que se veem até nos espelhos quebrados. Que pena estar o bom caráter limitado a uma forma tão impalpável, sem prova que se veja ou mão que se possa apertar.

8.8.18

Clareira

Na curva que dá acesso à autoestrada, há entre as árvores uma passagem para uma clareira muito verde e com uma sedutora aparência de frescura e tranquilidade. Aí estacionam aqueles que, por viverem sem o consentimento do mundo, precisam de um canto para a prática de atos e amores clandestinos. É, portanto, um lugar para toxicodependentes e adúlteros e basta seguir a menos de oitenta na autoestrada para conseguir ver que lá em baixo há corpos em desatino, cheios de urgência, cada qual consumando o seu prazer. Nem esperam que a noite caia e lhes dê disfarce. Amantes e viciados têm em comum o passo rápido e miudinho, adiantam-se a tudo, até à própria vida. O tempo é muito cheio de caprichos e vagares, ri dos desesperados, olha de cima para os aflitos, mete a mão no caminho dos que têm pressa e ainda aprofunda filosofias à custa de todos eles. Só a paixão e a ressaca o desautorizam. E à sombra das árvores, dentro dos automóveis, em plena luz do dia, dão os golpes que travam os ponteiros na decisiva hora do êxtase.

6.8.18

Graças a Deus

- Antigamente, havia muita falta de sexo mas hoje em dia, graças a Deus, já não é bem assim.
Levantei-me muito cedo e fiz vários quilómetros para encontrar onde pudesse sentar-me à fresca, tomar o meu café e ler um livro, afastei-me até da marginal para facilitar a solidão e o silêncio, e venho dar a isto: três mulheres na mesa do lado à conversa sobre as faltas e os excessos que há na sua intimidade, sem pudor no verbo e menos ainda no tom. Engraçado nelas, mais do que o sotaque nortenho e a torrente de palavrões que vem naturalmente a reboque, é o facto de verem a abundância de sexo como uma benfeitoria de Deus. Há, porém, uma que considera ser mais questão de sorte do que outra coisa qualquer e usa como comparação a raspadinha, explicando às amigas que se na maioria das vezes não dá nada, outras há em que sai prémio a valer e então aí, é gozar de uma assentada, todos os dias, a todas as horas, até perder as forças. Sou incapaz de transcrever aqui as palavras por ela usadas na exposição desta teoria – contar a vida como ela é, sim senhor, mas deixar aos leitores margem para cultivar a imaginação e, na boleia, preservar as boas maneiras deste blog.
Posto isto, elas apagam os cigarros, levantam-se e abalam. Passam por trás de mim rindo muito alto e não é preciso olhá-las para perceber que estão em ebulição. Que Deus ou a raspadinha as favoreçam o quanto antes.

1.8.18

Linha da vida

Nunca tive um ídolo. Tenho vivido sem adoração nem culto. Nem ao poster de um cantor na adolescência nem à imagem de um santo no desespero. A ninguém dou plenos poderes para me aliviar de aflições ou me fazer cair de joelhos. E matéria inerte que eu beije, só se for o espelho. Mas ontem, por acidente, espetei uma faca na palma da mão e como o golpe foi em cheio na linha da vida passou-me pela cabeça que me estivesse a ser enviado o pré-aviso do meu fim. Num relance de olhos, dei de caras com a figura lenhosa de uma senhora com o menino ao colo, ambos tão cheios de compaixão pelo mundo, porém calados e quietos numa prateleira desde sei lá que tempos. Estanquei o sangue com a língua mas, por via das dúvidas, não voltei as costas à senhora e vasculhei na memória as palavras do menino.

28.7.18

Consolação

Acordei esta manhã adorando o mais velho, não propriamente como se adora um filho, mas como se adora uma escultura, uma peça feita para contemplação e exaltação dos sentidos. Seminu, respirando tranquilo nos braços de Morfeu, não deu pela minha mão correndo-lhe a cabeça, as costas, as nádegas, as pernas, os pés, nem pressentiu que eu estivesse a perguntar-me como se fez de homem aquele corpo que com tanto cuidado e respeito me saiu do ventre. E achei-o tão belo, tão raro, a pele tão macia, a musculatura tão atlética, os dedos tão longos e delicados, todo ele de uma virilidade tão sóbria, com tal harmonia de proporções e tamanha perfeição de linhas, que duvidei que fosse meu.
Tolos os que tomam a beleza por coisa menor e os que a acusam de ser engano e armadilha. Num universo onde quase tudo é angústia e mistério, a beleza é a maior, senão a única consolação que nos é dada.

26.7.18

Roda viva

Os meus colegas têm todos à volta de seiscentos amigos no facebook, alguns já mortos, e seguem outro tanto de serviços e marcas. Dia após dia, engolem a torrente de informação publicada, os bons dias, as fotos das férias, dos filhos, do cão e do gato, leem as reclamações sobre maus atendimentos, os elogios aos bons restaurantes, põem gostos nos vídeos disto e daquilo, nas novidades das lojas, nas ações de marketing que aparentam um mundo amigo e solidário. E ainda há as notícias, as petições, as atualizações, as partilhas, tudo pingando diante dos seus olhos a cada segundo, um carrossel vertiginoso de histórias, promessas e emoções, girando a correr, exibindo as suas cores, causando desassossego e despertando apetites. E a cada momento eles leem e gostam e seguem, assíduos, exemplarmente obedientes, embalados na roda viva sem cansaço nem tontura.
O que eles não aguentam e lhes dá cabo da paciência – já mo disseram – é viajar com taxistas faladores que contam a vida toda.

24.7.18

Esperança

- A menina prepare-se, porque um dia destes vou ter uma novidade daquelas!
Assim me fala o senhor Pereira, subindo a rua em acenos, festas e garotices, com os olhos rebrilhando de uma alegria acabada de experimentar. Respiro fundo e dou-lhe - por pressentir que merece - o sorriso que desde manhã tenho trancado a sete chaves. Oh sim, por favor, senhor Pereira, diga-me coisa que eu não saiba ou jamais tenha visto, prove-me que o mundo gira e o tempo avança. Está tudo hoje tão igual a ontem que nem sei o que hei-de pensar de amanhã. Até as tragédias são as mesmas, Deus repete a obra a cada dia, perdeu a originalidade e o talento dos grandes criadores. Se tem novidade dê-ma, diga qualquer coisa, por mais pequena, qualquer coisa capaz de desalinhar os astros e levantar os mortos. Senhor Pereira, pobre senhor Pereira, tão desinteligente, materialista, arrogante, pateta, fanfarrão, machista, deslumbrado, ignorante, cheio de pó, gasto das ideias, a entortar já das costas e eu - repare bem - eu com a minha esperança inteira nas suas mãos.

19.7.18

Duas mulheres ao mesmo tempo

Duas mulheres da mesma idade, que habitam o mesmo piso do mesmo prédio e que, por diferentes razões, têm criado os filhos sozinhas, ficaram sem eles ao mesmo tempo. Idos de férias para longe os de uma e os de outra, estão agora elas repousadas no mais raro e precioso de todos os silêncios e andam com aquele ar descomprometido que é o dos viajantes quando se apeiam por dez minutos para esticar as pernas, desatar as costas e fumar um cigarrinho. No prédio não há sinais de desassossego e ninguém se apercebe quando estas mulheres saem ou chegam pois é leve o passo com que se movem. É-lhes indiferente a hora e o tempo que faz, não por alienação mas por aquele superior apaziguamento que dá nos que têm todas as dívidas pagas, nenhuma promessa por cumprir e nenhuma pergunta por responder.
Durante os próximos dias, estas mulheres recuperarão por inteiro os seus corpos e o seu modo original de gostar da vida. Madrugarão por sua vontade, para assistir ao nascimento do sol ou caminhar à beira-mar. Tomarão banhos longos, desfrutando da própria nudez. Não se contentarão com vinhos medianos, nem com comidas mal temperadas e muito menos com homens de feitios acobardados e pouca imaginação.
Esta manhã, porque entraram no elevador ao mesmo tempo, perguntou uma "como estão os teus meninos?" e a outra "imagino que estejam bem e as tuas meninas?", "também devem estar bem, calculo...". Então, ao mesmo tempo, os olhos de ambas se encharcaram ao ponto de precisarem de disfarce. Mas cada uma delas se calou por julgar, erradamente, que era de saudade dos filhos que a outra se comovia.

17.7.18

O vento (2)

Zé Carlos perdeu Adriana para o vento e não deu por nada, já que toda a rotina se cumpre como antes, os dias nascem, a roupa seca, os salários entram na conta, o jantar cai bem, a casa é ampla, o relógio funciona, os miúdos comportam-se, sábado promete calor, agosto está mesmo a chegar. A vida é mais ou menos tal qual foi sonhada por ambos e isso, em aparência, é coisa boa. Só que antes dos trinta sonha-se muito mal e, mais cedo ou mas tarde, o sonho vai mostrando ter costuras fracas, as cores desbotam e deixa de servir. Alarga-se daqui, remenda-se dali, mas nada assenta porque o corpo é outro, a alma é outra e outros são os olhos com que se vê, tanto para fora como por dentro. Então Zé Carlos perdeu Adriana e não deu por nada. Fosse ela parva e tê-lo-ia trocado por outro e com outro teria recomeçado, sonhado, posto a mesa de novo e voltado a escolher os destinos de férias, quem sabe repetiria os filhos com outra ronda de cadilhos. Mas trocou-o pelo vento e assim lhe parecem mais ligeiras as consequências dos sonhos que sonhou mas que agora lhe estão apertados, sobretudo em certos lugares do corpo acerca dos quais o vento sabe muito mais do que Zé Carlos.

16.7.18

Precipício

Acontece muitas vezes apareceres no exato momento em que estou a pensar em ti e eu não sei se é porque o meu pensamento anda contigo pela mão ou porque tu te pões a escrever nele os teus planos. Fique claro, porém, que só busco uma causa romântica para esta coincidência nos dias em que o meu espírito, que costuma viver de pés muito assentes na terra, resvala por descuido e, com a urgência de segurança, nem repara nas tolices a que se agarra: coisas sem fundamento, sem raiz, sem alicerce. Na aflição, levanta-se tanta poeira que os meus olhos cegam, depois falham-me as pernas e fico pendurada na dobra do precipício, cheia de medo, porque dele tenho visto sair poucos de cabeça erguida e pelo próprio pé. 
A única forma de evitar este risco é andar com uma justificação fácil nos bolsos e puxar dela sempre que um encontro adivinhado acontece: a previsibilidade masculina é tal que não há margem para a intuição feminina falhar. E digo isto cheia de dúvidas mas aparentando a mais lúcida de todas as certezas, como o padre ao pôr o crucifixo diante dos olhos do diabo.

10.7.18

Boas intenções

Emprestei o poncho à rapariga da papelaria e ela devolveu-mo três dias depois, com muita gratidão mas pouco entusiasmo. Tirou o modelo e a ideia do ponto, só não sabe que cor escolher porque desde que Alice nasceu dá-lhe a impressão que nada lhe assenta bem, os tons claros fazem-na gorda, os escuros fazem-na triste, os vivos tornam-na ridícula e os pastel afrouxam-na. Digo que a maioria dos azuis são uma opção inteligente, realçam o brilho da pele e dos olhos, revelam lucidez e elegância. Mas ela, que tem aprendido o quanto a lamúria lhe pode render em atenção e prazer, faz orelhas moucas e vaza um suspiro: às tantas desisto do poncho... Depois, lança-se a organizar as revistas e os jornais sobre o balcão, compondo a teia onde irão cair e enredar-se, ao longo do dia, os olhos, as mãos e os pensamentos dos clientes. 
Tenho saudades da rapariga da papelaria de antes, que se movia a sonhos cor-de-rosa e acreditava que o amor eterno era uma graça possível, ainda que reservada a uns poucos. Por causa disso, pintava e despintava o cabelo, punha e tirava piercings, mudava cores, cortes, tecidos, maneiras de andar e de olhar. E toda a vizinhança lhe dava dicas e conselhos para apanhar um homem digno e sem vícios. Depois, aconteceu-lhe uma filha e foi perdendo identidade, convicção, esperança.
Antes de sair – sem que nada me ocorra para a animar – passo os olhos de raspão pelas manchetes e pergunto-me se as mães dos rapazes tailandeses presos na gruta também concordam que ter filhos é o mais bem intencionado e comovente de todos os erros que uma mulher pode cometer. 

4.7.18

Chazinho de tília

A minha avó materna acreditava que o mundo podia recuperar de qualquer desgraça com muita fé em Nossa Senhora de Fátima e um chazinho de tília. Da Nossa Senhora nunca conseguiu convencer-me, pese embora a quantidade de vezes que me impingiu a história das aparições com narrativas comovidas, chorosas, ou me fez sentar ao seu lado para rezarmos juntas. Mas no chá eu confiava, talvez pelo carinho com que ela, deixando de lado as próprias mágoas e combates, entrava no quarto a arrastar os chinelos e a perguntar queres que te faça um chazinho de tília? se nos achasse em sofrimento por cólicas menstruais, febres ou arrufos com namorados. Com efeito, o mundo reconstruía-se e, mesmo não voltando ao lugar original, engatava em outra órbita e dias novos faziam esquecer aqueles de dor, doença ou desarrumação. Hoje, tantos anos passados, dou comigo sentada na varanda a beber uma chávena de chá de tília, que arranjei à pressa na esperança de igual eficácia. Também podia rezar de joelhos a Nossa Senhora de Fátima ou partir, decidida, para a resolução do mal. Seria indiferente. Qualquer coisa que se faça é apenas um passatempo, enquanto o sol cumpre a sua volta aparente e necessária. Eu sei que não me favorece aparecer aqui assim, a descrença não assenta bem em ninguém, mas, enfim, é nisto que dão os dias pálidos, indecisos e de horizontes embaçados.

22.6.18

Velha adormecida

A mulher do senhor Pereira espanta-se de me ouvir comentar com um vizinho os jogos da seleção nacional. Oh, não bastasse a minha falta de jeito para cabidela e rabanadas, ainda me apresento, eu própria, como uma indigesta e impossível miscelânea de saias com futebol. O mundo está tão diferente, diz ela como se acabasse de despertar de um sono de cem anos. Coitada, adormeceu no dia em que o marido, vendo-a seguir caminho tão estudiosa, independente e atrevida, decidiu beijá-la pela primeira vez. 

20.6.18

Final da partida

Vinda da beira do rio, à hora a que o árbitro apitou vi sair da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda um corpo morto, encarcerado em madeiras nobres e bem polidas, a caminho da morada que dizem ser a última: um fosso na terra, um roseiral, uma urna com design contemporâneo que possa figurar na sala como bibelô, cada um há de saber como quer repousar na eternidade prometida. Depois, caiu um aguaceiro de verão e, encharcadas as poeiras urbanas, libertou-se no ar um odor impróprio para românticos e outras espécies permeáveis. E uma melancolia breve, dessa que costuma sobrar depois do êxtase ou de uma apoteose, tomou conta de tudo, até de mim.

19.6.18

As famílias felizes

No domingo de manhã o parque estava cheio de famílias felizes, dessas que a grande literatura diz serem iguais. Confirmo que todas tinham em comum uma cama de rede, cadeiras de lona e almofadas espalhadas pelo chão, lancheiras abertas onde espreitavam gargalos de cola e de tisanas, sandes de panado, jornais, música nos smartphones, raquetes, bolas de super-heróis, transpiração excessiva, crianças barulhentas, mulheres que partilham entre si miudezas e segredos, homens entendidos em quase todos os assuntos da vida. E além disto, ainda se pareciam no riso desgovernado, na graça que achavam em tudo o que entre eles era dito, no modo solto de desvalorizar os amuos da canalha - deixa lá qu'isso passa. Tive a impressão que se tinham reunido ali de propósito para compor um coro denso e uníssono de ofensa ao universo. Não ao universo inteiro, naturalmente. Mas ao meu universo, que é cheio de análises e complexidades, que é incapaz de comer uma sandes de panado sem teorizar sobre ela e não conta um segredo sem ponderar a infinitude dos seus possíveis destinos, mais as viagens de volta e os apeadeiros no caminho. E que, por causa de tudo isso e pouco mais, se vai doendo, doendo por doer, sem nenhuma dor concreta, sem causa que justifique e meta pena.

12.6.18

Torneirinha

A rapariga da papelaria diz-me que tem falado muito de mim e ao dizê-lo a voz dela parece uma torneirinha de pingar melancolia, as palavras saem mornas e espaçadas e encolhe os ombros como se revelasse uma condenação. Tenho medo, porque ultimamente se alguém fala de mim ou é ao psicólogo ou ao padre, o que me leva a pensar que só estou na origem de traumas e tormentos mas talvez eu mereça o castigo de viver no lado negro da alma dos outros por males que tenha feito e não recorde. De modo que nem pergunto à rapariga da papelaria por que carga de água e a quem falou de mim, tento sair de mansinho no instante em que um homem entra a pedir uma informação - o multibanco mais próximo? Mas é tarde. Ela despacha o homem, sai de trás do balcão, vem em passo rápido, sinto-a aproximar-se, já virei as costas, avanço para a rua, deito a mão à carteira, busco o telemóvel para fazer de conta, simular qualquer coisa que justifique a indiferença.
- Sabe o que é? - ela, bem alto, à porta da papelaria.
Volto-me devagar, sorrio, olho-a como se mal entendesse o que diz.
- Como?!
- Sabe porque é que tenho falado muito em si?
- Ah.. então?
- Aquele seu poncho em croché, cheio de franjinhas... conheço uma senhora que me faz um igual se mo emprestar para ela ver o género...
O meu poncho? Ora, nada que me responsabilize, pois muito bem, trago-o na próxima oportunidade. Respiro de alívio pela desimportância e solto o riso. Mas a rapariga da papelaria não me acompanha na leveza do sentimento. Antes se acanha, encolhe, entristece e, inclinada para mim, de modo a que mais ninguém ouça, pingando agora duas lágrimas vagarosas:
- A minha mãe diz... ela acha que já está na altura de eu me voltar a pôr bonita.

6.6.18

Portugal

Quando ouço tanta gente bradar, indignada, que "quarenta e cinco por cento dos alunos não sabe apontar Portugal num mapa", creio que estão a revelar-se dados miseráveis: que setenta por cento dos adultos portugueses só leem títulos de notícias e de links e, dos restantes, uns noventa por cento não sabem interpretar o que leem. Calculo ainda que, da ínfima percentagem que leu tudo e até compreendeu, uns sessenta por cento sejam incapazes de uma análise ao contexto social, cultural e político que lhes permita vislumbrar outra razão para estes fracassos escolares que não seja a pura falta de estudo das criancinhas.  

4.6.18

Amor incondicional

Quando as filhas do senhor Pereira prometeram à mãe que se ela abandonasse o marido estariam do seu lado e oferecer-lhe-iam as suas casas e o seu carinho pelo tempo necessário, disseram também que a amavam incondicionalmente e que, por terem sofrido com ela a traição escancarada no telemóvel do pai, não viam outra forma, outro final, além da separação. Sendo mulheres, seriam cúmplices, pois a desgraça que hoje é de uma pode amanhã ser de qualquer outra, nunca se sabe, nunca se sabe. Era urgente que a mãe desse o grito da libertação e saísse de casa, largando as coisas no ponto em que estivessem. A amante que viesse retomar tudo, fazer a cama, avinagrar o sangue para a cabidela, pôr-lhe um casaquinho pelas costas, maquilhar-se para saírem com o engenheiro Aires e a Maria Beatriz. 
Portanto, caso ela decidisse bater a porta e deixar para trás toda a sua trabalhosa estabilidade, caso se atrevesse a cair na solidão assim, já cheia de rugas e molezas, com tudo o quanto leu, estudou e aprendeu engavetado num passado remoto, as filhas estariam de mão estendida para retribuir o colo e o acalento que dela, na infância, receberam. 
Vamos, mamã?
Mas, como os leitores recordarão, a mulher do senhor Pereira escolheu ficar e insistiu que aquilo do telemóvel não passara de uma trapalhada. As filhas sentiram-se traídas pela mãe e ficou evidente que, no fim das contas, tinha pernas fracas o tão apregoado amor incondicional. Havia condição, sim: a de se fazerem as coisas conforme a opinião delas. E eis que à dor da mãe sobrepuseram a própria dor, porque tinham sido feridas em cheio nas suas razões absolutas. 
Dali em diante não foram mais três mulheres cúmplices, até porque traição conjugal, garantiram as filhas, era coisa que jamais lhes bateria à porta. A burrice não era defeito com que tivessem nascido, graças a Deus. Já sabemos que, nesta família, tudo o que de bom se dá é graças a Deus mas o que de mau acontece é sempre culpa dos outros. Exceção aberta para o filho, que tanto se está nas tintas para Deus como para os outros e por isso a vida lhe corre sem angústias e o que de mais pesado carrega é a trouxa de roupa suja que todas as semanas leva à mãe. 

25.5.18

Acordar

Conta-me histórias para me manteres acordada, todas as que lembras e outras que fores capaz de inventar. Mas não digas uma palavra que seja a teu favor. Caso sejas o herói, esconde-te como sabem esconder-se os grandes: vestido de trapos, no vão de uma escada ou à sombra de uma árvore condenada a arder por esquecimento. 

24.5.18

Acontecimentos

Muita coisa acontece enquanto eu escrevo praticamente nada. E, contudo, quem por cá passe, vendo isto tão parado, tão dormente, talvez suponha que morri e – ingrata – disso não dei satisfações aos que generosamente me seguem nem tampouco deixei convite para assistir ao solene e comovente lançar das minhas cinzas nas arribas do Douro. Mas viva posso garantir que estou porque me vão doendo certas partes do corpo, outras afrouxam, as demais enrugam, e todas, invariavelmente, se demoram muito em tudo o que faço, quanto mais não seja pela vontade crescente de prolongar prazeres, impressões e panoramas. 
Vivas estão também a rapariga da papelaria e Alice, a menina que só à força do bisturi consentiu em vir ao mundo e que apertou o laço entre a mãe e a avó, envolvendo-as num ninho de compreensão e solidariedade tardio mas nem por isso menos feliz. Já tem os dois incisivos inferiores e há mais um a romper. É uma menina boa de criar, afiança a avó a quem pergunta como vão os sonos e os apetites. E virando as costas à rapariga, que organiza as revistas no balcão, sussurra-me: a mãe chora mais do que a filha, é noite e dia, não sei que tem. 
Viva está a cabeleireira, a quem o marido ofereceu uma bimby pelas bodas de prata para que ela não se desgastasse tanto na cozinha. Suspiros no salão: isso é que é amor. Todas as senhoras acharam uma bonita atitude, as velhinhas lamentaram que não houvesse dessas facilidades no tempo em que aqueciam a barriga na fornalha, as mais novas queixaram-se que as suas bimbys tiveram de ser reclamadas com uma insistência desesperada e argumentos quase científicos. Só a manicura, que é viva e bem viva: valha-vos deus, sois tão ingénuas que até metendes pena. E a dona Maria Isabel, sem tirar os olhos das unhas bem compostas e levantando um canto da boca com malícia, meteis, querida, meteis, a provar, enfim, que está tão ou mais viva do qualquer outra daquelas mulheres.
Sim, vivo continua também o senhor Pereira, firme nas razões que tem sobre a mulher e as filhas, porém dobrando-se à sensualidade da viúva e atormentado com a suspeita de que o mercedes possa ter mazelas. Anda a fazer um barulhinho, uma espécie de sopro, sabe? para logo adiantar não, claro que não sabe
Parece, portanto, que o mundo está exatamente onde o deixei da última vez que cá estive, que é o mesmo o ângulo de incidência da luz, que se repetem as angústias, os equívocos, os deslumbramentos. Que cada um sabe de cor as suas deixas e as cumpre com resignação, sem vislumbrar outro papel que lhe possa ser atribuído. Nada surpreende ou se revela. Afinal, a única coisa que acontece é estarmos todos vivos. E achei que valia a pena vir aqui dar sinal disso.

27.3.18

Duelo

Não posso competir com ela. Falta-me jeito para escrever sobre o amor como se fosse a dor ciática ou um pote de mel onde chafurdar até à náusea. Também não te dedico versos porque os considero golpes baixos, ao género de uma boa lingerie: seduzem no primeiro impacto, alimentam a fantasia, mas depois (já disse isto ontem?) tornam-se inúteis e não enganam ninguém. Sei falar-te sobre como trocar ideias, suor e saliva mas isso talvez te pareça muito pouco ao pé das promessas que ela faz porque ignora ainda o carácter transitório de tudo. Ela pensa em ti quando a lua enche ou o mar se faz amante devoto e submisso aos pés da costa e diz que tu lhe lembras filmes que viu, livros que leu, visões que teve. Eu, que de romântica nunca tive nem uma falange, penso em ti a propósito das coisas difíceis, quotidianas e passageiras, no caminho entre a casa e o campo de batalha, enquanto pico cebola, lavo os cabelos ou faço transferências bancárias. Ela jura que é capaz de ir até ao fim do mundo por amor. Mas o fim do mundo é longe, às vezes revela-se um deserto, uma secura de morte, outras um labirinto onde as multidões andam às turras e caem redondas no chão. Eu, por amor, sou capaz da mais absoluta lealdade e pouco mais. 

26.3.18

Além do Bojador

Passou o dia mundial da poesia e eu não me lembrei de um verso nem me ocorreu um nome a quem pudesse dedicar a minha gratidão. A minha avó estava certa: os livros podem muito pouco por nós. Lês tanto para quê, rapariga? Para nada, dir-lhe-ia se fosse hoje. Um verso, um poema, um romance, são só enfeites para a tragédia da vida, jamais uma salvação, tampouco um abrigo. Como a velha que se maquilha para à força parecer bela e sai em desfile pelas ruas e cafés. E os outros, sabendo embora da sua decomposição, pelo menos não a veem, real, triste e crua, apenas notam a graça acrescentada com um toque de cor, um traço mais vivo, um brilho mais aceso. Num poema, a infelicidade até parece coisa nobre e o desgosto um privilégio e a perda uma dádiva. Quantas vezes, mais novinha, desejei sofrer para merecer aquele verso de Pessoa Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor. Que tolo me parece hoje o meu pensamento. Estou cada vez mais parecida com a minha avó, que só tinha a quarta classe e por isso dobrou os seus cabos sem o auxílio de uma única estrofe.

15.3.18

A última a morrer

Removo as cochonilhas da minha planta favorita com paciência de Job e um algodão embebido em álcool. Duvido que resulte, mas como a minha ignorância chega ao ponto de deixar que as flores caiam em desgraça por amor, resta-me confiar no google e naqueles que, a troco de nada, publicam segredos e mezinhas para quase tudo nesta vida. A olho nu, as cochonilhas têm um aspeto inofensivo, mas são uma praga mortífera que vai envolvendo os caules e criando ninhos no verso das folhas, ao longo das nervuras. Como qualquer outra malignidade, conseguem reproduzir-se a partir de uma sobra ínfima, por isso todo o cuidado é pouco e toda a paciência é bem-vinda na hora de as eliminar. Escusado será dizer que isto que explico com tanta propriedade não é ciência que eu tenha estudado e muito menos entendido, apenas papagueio o que li sem critério.
Sei que a minha planta favorita está condenada. Com o tempo, começará a ter dificuldade em respirar e absorver energia, perderá cor e morrerá. Mas até lá, removerei as cochonilhas todas as semanas, uma a uma, como se fosse possível mudar o destino. Já todos fizemos isso: mascarar a falência, insistir na dignidade até ao fim. Só no dia em que podemos enterrar o cadáver, virar a cara ao horror da decomposição, baixar os braços, é que nos permitimos aceitar a morte. E a isto, por engano, chamamos esperança.

14.3.18

Gisele

Encontro hoje a rapariga da papelaria ao balcão, muito caída, com os olhos desanimados, prolongando sem necessidade as tarefas a que tem estado a regressar devagarinho e por enquanto só de manhã, explica-me, porque custa deixar Alicita o dia inteiro de uma assentada. Queixa-se que a ausência da filha faz doer o corpo inteiro, os seios formigam, as coxas tremem, braços, mãos, pernas e pés pesam-lhe como se fossem excessos. Pousa a mão no ventre, ponta solta e desarrumada do laço desfeito entre mãe e filha, e comove-se. Às vezes parece que já nada disto é meu, é tudo dela. Pergunto como está afinal a menina, digo que a achei muito linda da última vez que a vi e a rapariga da papelaria endireita as costas e sorri, parecendo até que faz as pazes com a vida. Não é por ser minha mas sim, é muito linda. O assomo de orgulho, porém, já não vai a tempo de evitar que duas lágrimas grossas desçam, sem alarido, pelas abas trémulas do nariz. Eis o amor, penso e não digo. Eis o amor eterno que tanto pediste a Deus, minha cara.
Ainda passo nos correios para enviar um livro e quando vou a preencher o registo, a funcionária que me atende desata num pranto e leva as duas mãos à cara para o abafar. Largo a esferográfica e o papel, quero chegar-lhe e não consigo, está afundada por trás de um balcão. Meu Deus, murmuro enquanto ela se desfaz sem que ninguém mais perceba. O choro vem de muito fundo e sai num silvo longo, contínuo, como coisa que estivesse à espera desde que o mundo é mundo. Não se preocupe que eu não me engano nas contas, diz-me, aproveitando a tomada de fôlego. Com uma mão - porque a outra tem-na ainda a tapar o nariz e a boca - pesa a encomenda, insere os dados, tira a fatura, dá-me o troco, mas eu não vou a lado algum. Fico a vê-la chorar e essa é a minha solidariedade possível, já que me falta arte para palavrinhas de consolo e frases feitas. É que às vezes, diz ela percebendo que hesito e aguardo, às vezes fico só muito cansada.
Certamente é por culpa de Gisele que estas mulheres choram. Diz que não é uma tempestade, é uma depressão que chegou hoje para agitar águas, levantar ventos e desfazer-se em lágrimas sobre ruas e telhados. Há de passar, cedo ou tarde, e nas praças abandonadas, nos lamaçais e nos destroços, a primavera há de dar de novo o seu pesponto colorido e o verão virá, por fim, adoçar a polpa dos frutos. 

21.2.18

Paroles, paroles, paroles

Ouço os rapazes debaterem com fervor os direitos das mulheres, proclamando a igualdade e o respeito, apelando ao que é urgente fazer. Vou para participar, dizer do que sei e preciso, esclarecer-lhes dúvidas, explicar certos receios e sentimentos, más memórias, atavismos, obstáculos. Mas eles mal me ouvem. Pois sendo embora solidário o seu discurso, não escutam ainda voz alguma além da deles.

19.2.18

Om

Gemem as sirenes, roncam os motores, gritam as buzinas, zumbem os aviões, disparam os alarmes, papagueiam as chamadas em alta voz. A cidade ou bem que chora ou bem que protesta, ninguém tem consolo nem cómodo. Ao entoar o mantra, julgando-me a salvo do caos e das preocupações mundanas, protegida pela penumbra dourada e pelo aroma do incenso, reparo que faço coro. Não distingo, a certa altura, entre a minha voz e os sons da rua. Sentada em padmasana, fantasio a harmonia universal com o mesmo propósito de qualquer um que buzine na fila do trânsito: a libertação.