27.5.23

Das coisas que por amor nos dispomos a fazer, já muitas histórias rezam e não há de ser esta a engrossar o rol. Parte delas são rasgos de heroicidade, fazem crer que a paixão alcança os impossíveis e por isso são aplaudidas, elevadas, versejadas, prolongando assim a doença do romantismo. Mas outras histórias há, menos felizes, que precipitam os seus protagonistas num vórtice de indignidades, orientadas por esse nobre valor a que se chama esperança e em nome do qual toda a sujeição se toma por legítima. Destas, infelizmente, se fala agora na papelaria pois o novo amor da rapariga, pleno de bons augúrios e abençoado pelas velhas, revelou-se, afinal, uma armadilha. Em armadilhas já todos caímos, é verdade, e quantas delas montadas em lençóis alvos, insuspeitos, sem vinco a apontar: Mas o caso da rapariga da papelaria agrava-se porque é tão grande nela o medo de morrer solteira e desconsiderada pelo mundo, que se entrega sem cheirar o perigo. Só num coração livre de medo pode funcionar a intuição. 
O caso conta-se em duas linhas e dá mais pena a banalidade que é do que a infelicidade que trouxe. O homem que vinha alegrando os dias dela, a pessoa madura, afinal é um marido enterrado até ao pescoço num lar de família. Desses que, por suspeitar de um desvario da mulher e por esta se encontrar ausente por mais tempo do que o razoável, correm logo a garantir-se entre outro par de pernas, não vá o diabo tecê-las e deixá-lo morrer de todas as fomes. Se para cada panela se diz haver no mundo um testo, certamente que para cada patife há pelo menos uma tontinha. E não é a rapariga da papelaria a mais perfeita?
Gabi festeja. Vê desconstruir-se diante dos olhos do Marco a imagem santificada da sua rival e esse é o melhor desfecho para a disputa que o seu coração –  também medroso e por isso imaginativo – inventou. Meter-se com um homem casado – ah, não me venham dizer que ela não sabia porque uma mulher sente, uma mulher sente! – é a prova de uma falsidade sem tamanho, é falta de tudo!, diz entredentes no vaivém da lima. Falta de decência, falta de respeito, falta de juízo, falta de esperteza, falta de caráter. No salão, ninguém trava a língua de Gabi. Quem resiste a um carrossel de maledicência? Só a dona Maria Isabel (há quanto tempo!): 
– Evite ser demasiado moralista, menina, que aumenta o risco de darmos consigo precisamente entre os imorais. 
– Não percebi.
No meio do desastre, só as velhas lembram que enquanto há ternura há esperança. 
– Dona Fatinha, a sua filha deve ter mau olhado. É a única explicação.
Comovi-me com o veredicto. Estas velhas, tantos anos de roda da papelaria, a raspar o sonho dos milhões que nunca saem e a ver aquela doce rapariga crescer, desgostar-se e dar à luz, como haviam de a ofender, tomar por estúpida ou colar o triste rótulo de amásia? Não, elas têm outro diagnóstico e assim mantêm intacta a inocência da sua menina, para quem o destino tem sido um burlão de primeira. Há muitas formas de ser generoso para com os erros dos outros. A cegueira de faz de conta pode não ser a mais certa, mas há horas em que é a única possível.
Dona Fatinha não abre a boca. Anda como um fantasma, perdeu o fio da meada dos dias, descuidou o cabelo, só aparece de tarde na papelaria. A filha precipitou-lhe a velhice, já só espera dela o golpe de misericórdia.

15.5.23

Concebido contra todos os planos e probabilidades, acidente fisiológico, fruto de uma urgência amorosa que a saudade empurrou até à insensatez  – o meu menino com cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno converteu-se na minha mais útil expressão de ternura. Sobre isso, porém, recuso que me sejam atribuídos méritos. Já nasceu assim, todo derretido com as coisas da vida, confiante, capaz como poucos do entendimento e do perdão. Porém, a passos largos no caminho de ser homem, acorda agora todos os dias como um estranho que acabasse de pousar na Terra. A cada manhã dou, portanto, à luz um novo ser e só desmemoriando as dores do parto da véspera posso retomar o laborioso fito da sua educação.
Com o rapaz voador a mudança foi mais lenta e misericordiosa. A cada dia um sinal, um passinho mais a longe, uma horinha mais tardia, mil cuidados para não sobressaltar este coração de mãe, que em resistência terá sempre mais fama do que proveito. Entretinha-se com pagode brasileiro e outras ligeirezas próprias da idade e assim me despistou, a fazer-me crer que se prolongava a sua inocência. Precisei de vários anos anos para notar que estava, afinal, todo cheio de ciência e filosofia e que as suas escápulas de atleta se haviam desdobrado num portentoso par de asas, capaz de o levar aonde eu nem em sonhos. Mas no menino com cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno dá-me a impressão que a natureza quis despachar o trabalho de uma assentada e arrancou-mo do colo entre dois sóis, sem respeito pelos meus sentimentos. Estranho muito nele o tamanho, a voz, as razões, os gostos, a seriedade, Sinatra, Elvis e Piaf na playlist
Tenho ainda de cor os seus medos de infante, trato por tu os monstros que dormiram debaixo da sua cama, quantas vezes a meio da noite não os arrastei pelos colarinhos porta fora? Gostaria muito de o poupar às dores que o futuro lhe reserva, às mínimas escoriações do quotidiano, ao punhal dos traidores, ao vácuo onde o desgosto amoroso mergulha as almas crédulas. Mas que posso eu contra o caos do mundo e a frágil condição da humanidade? Dia após dia, mortifico-me com o inventário das desgraças possíveis e imaginárias e revejo as lições que lhe passei nas entrelinhas do amor: saberá dizer não, saberá virar costas, terá pulso, terá fibra, terá força? Por vezes, admito, até peço aos deuses e a todas as suas imitações que o abençoem também com alguns dons de carrasco, porque nos romances de ecrã e de papel se conta que os puros de caráter vergam com grandes dores e sacrifícios e, embora os seus nomes sejam depois lembrados, benefício algum lhes é concedido.
Acalmem-se os que a esta hora já me supõem uma dessas mães que querem segurar os filhos como amantes prediletos a vida inteira. É o contrário. As asas que os meus têm, fui eu que lhas dei, desde cedo, e cuidei sempre para que em estrutura e amplitude sejam bastantes, de forma a que, comigo ou sem mim, eles possam aventurar-se até morrerem. Acontece, porém, que, embora o amor genuíno seja o que consente a liberdade do outro, cada passo de um filho para longe da sua mãe é sempre uma amputação a tratar com solenidade e ternura. E o contrário só dirão os ingénuos, os mentirosos, ou os coaches da vida plástica.

21.4.23

Quando se deita ao meu lado, o homem cínico conta-me histórias a preto e branco da sua infância rural, de como os invernos rangiam nos ossos dos velhos e os aguaceiros de estio arruinavam a fé dos veraneantes. Depois de sucumbir à morte por obra e graça dos meus venenos de fêmea, embrulha-me na robustez dos seus tentáculos e fala-me ao ouvido sem romance nem maquilhagem, a formulação tão exata que não possa ser desdita e os verbos conjugados no tempo presente do modo concreto, por saber que nem as coisas já idas nem outras que se podem sonhar são honestas como as ciências que explicam a atração dos corpos.

5.4.23

Não acredito que possamos vencer e ultrapassar o machismo dando importância, por mais do que um par de horas, às declarações de um sujeito de escassos recursos morais e emocionais. Acredito que a nós, mulheres, compete continuar a ser o que a nossa natureza e caráter mandam que sejamos, eliminando barreiras por uma força quotidiana e solidária, às vezes com barulho, mas outras também em silêncio e de forma igualmente assertiva e voraz. O nosso combate pela igualdade de todos os seres humanos é esse, é nas ruas, nos locais de trabalho, em casa, no sexo, nos pódios, na noite, na educação dos filhos nossos e das outras mães, no modo de andar de queixo levantado em qualquer corpo, em qualquer dia. E sempre que fizermos o que por bem entendermos fazer ou recusarmos o que entendemos certo recusar, abrimos o caminho. Não percamos esse foco. O senhor do Correio da Manhã é passado e mais rapidamente morrerá no passado quanto mais cedo reduzirmos o seu nome a pó: uma inconveniência que com um gesto vago e superior sacudiremos. Desde que o nosso combate continue, e seja firme, consequente e inteligente, ele e outros semelhantes estão condenados à extinção. E sendo bem feito esse trabalho, os netos que tivermos só saberão da sua existência pelos velhos manuais da escola, nos pontos vergonhosos da nossa timeline.

9.3.23

A rapariga da papelaria voltou a meter o coração em sarilhos e, desta vez, a coisa é tão feia que dificilmente a mãe suportará a vergonha. Não sou eu quem diz, é a gente, por aí, que supõe. E as suposições, quando não se calam como devem, lançam boatos e os boatos enredam histórias que, por sua vez, desembocam em juízos e os juízos, sendo humanos, ganham força de moral e a moral pode às vezes tornar-se a mais devastadora de todas as armas de guerra fria. Que o diga Gabi, a manicura sonsa, muito fraca a encobrir a satisfação de ter pontos ganhos sobre a rival: quem diria? aquela pose de santinha, toda tristonha, toda coitada, e olha...
Mas sobre o que ainda são só contos e ditos, por princípio não se fala neste blog. 

8.3.23

A minha mãe morreu torturada por um cancro que lhe cravou as garras na parte do corpo onde foi maior a generosidade dela – seis filhos dados à luz. Desde então, sondas e olhos clínicos vigiam o meu ventre com intervalos regulares e assim acredito poder antecipar-me ao monstro, caso ele pretenda fazer também em mim a sua toca. É nisto, e apenas nisto, que me custa ser mulher. Tenho privilégios. Sorte. Educação. Liberdade. Falo alto, onde e quando quero. A ninguém devo ou presto contas. Tenho fé nos meus filhos homens e no seu contributo para corrigir certas imperfeições do mundo. Mas sobrará sempre esta impressão de que a natureza ameaça o meu corpo de fêmea a toda a hora, que opera os meus recantos silenciosos, húmidos, fundos e arredondados para seu proveito e depois, quando não lhe servirem mais, cuspirá neles a sua peçonha.

28.2.23

A viúva, vi-a pela última vez numa noite de setembro, à despedida do verão, no terraço do restaurante italiano, acompanhada de um tipo de blazer e bigode com o charme desusado dos anos oitenta. Espartilhada num vestido curto de napa preta, com o nome da marca em metal dourado em cada uma das alças e uma echarpe vermelho-sangue pontuada de brilhos, a viúva mostra sempre dinheiro a mais e gosto a menos no despudor com que traja. O seu ego tira basto proveito da líbido desassossegada dos homens, do ruído maldizente das mulheres e das águas paradas nos leitos conjugais, mas nada da parte dela nos é devido por causa disso. Pelo contrário. O rasto de vibração felina que deixou, ao atravessar o terraço até à mesa reservada, foi um generoso empréstimo que salvou da bancarrota emocional alguns clientes, cansados já de atualizar o feed nas redes sociais enquanto o vinho não chegava à mesa. 
O tipo de blazer e bigode notou bem o poder da mulher que abria caminho à sua frente pois dele terá sido também uma vítima, ainda que lhe tenha tocado a sorte de poder mexer enquanto aos outros a toda a hora é lembrado que ver é com os olhinhos. Sentaram-se frente a frente, sob a ramada, junto ao estrado onde um rapazito de pouca barba tocava velhas canções italianas em versões frígidas e cheias de tiques modernos. Comeram risoto de qualquer coisa que à distância não vi, conversaram em sussurro, deram-se discretamente as mãos, até ao momento em que, pelos efeitos do vinho ou por artes do tipo de blazer e bigode, a viúva largou a rir, primeiro naquele modo disfarçado que usam as crianças transgressoras, depois em gargalhada livre.
– Cale-se, Artur! Pelo amor de Deus cale-se, que eu não aguento mais...
Então desfez-se ele a rir também. E enquanto ambos riam e quanto mais riam mais vontade de rir ganhavam, parecendo já que cada um ria de o outro tanto se rir, o rapazito de pouca barba cantava, nessa língua que tão bem embala os corações enamorados: io ti amo e chiedo perdonoricordi chi sono, ti amo, ti amo, ti amo, ti amo, ti amo.
Nessa noite tomei a decisão de ir a Itália.

27.2.23

A professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada fez desabar ontem uma pilha de cestos de rodinhas à porta do supermercado. Não vi como sucedeu, mas ouvi o estrondo e, por estar perto, acudi. Juntas, restaurámos a ordem, colocando novamente os cestos no lugar com grandes esforços para garantir o equilíbrio da torre, porque se eu sou miudinha e tenho pouca amplidão de braços, ela é obesa e mal pode com os dela. No tempo que durou a empreitada, a professora nunca me olhou e, assim que terminámos, deu-me as costas e foi embora com o andar lento, anestesiado, sem obrigada nem adeus, como uma tartaruga gigante que apenas buscasse um lugar para morrer. Antigamente, tomá-la-ia por mal-educada e isso havia de deixar-me febril de indignação, a desfiar mentalmente toda a sorte de palavrões que me aliviassem. Agora, sei que a professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada nem sequer me notou. A cismar nos seus cansaços quotidianos, na sua velha – e tão injusta – solidão, nas culpas que, não lhe pertencendo, acabaram por cair nas suas costas, ficou cega e surda. As dores, assim remoídas e trituradas, espalham à volta do seu corpo uma poeira fina que lhe desbota a imagem do mundo e a distancia dele. Viu-me como se eu nem ali estivesse e hoje, ao lembrar o episódio dos cestos tombados, talvez se convença de que foi um sonho. Isso dá mais medo do que toda a má educação que possa haver na vizinhança deste blog.

18.2.23

Que falta faz à vizinhança deste blog a imperatriz, toda vestida de coisas desengraçadas para não esmagar a beleza com que nasceu e jamais poderia forjar: caracóis em brasa, olhos de verde tropical, pele de leite morno, dentes muito quadradinhos, pernas quase sempre ao léu, às vezes nos pés uns chinelos de dedo, no colo Joaquim aninhado como no ventre. Mas agora Joaquim ameninou-se, desceu dos braços da mãe, anda firme pelo próprio pé ou na correria trôpega e acidentada dos aprendizes da vida e a imperatriz já só visita a casa dos Pereira uma vez por mês, eles que se façam também à estrada caso as saudades do menino apertem. Então, de há um ano para cá, as ruas envelheceram muito. Se não fosse o novo amor da rapariga da papelaria – até ver, livre de perigos – e os atrevimentos de Alicita – que a avó desespera por calar com receio que a menina cresça igual à mãe  – nesta vizinhança só vingariam a tristeza e a resignação. E até mesmo nestas belas manhãs de sábado, em que ninguém considera a iminência quotidiana da tragédia e por isso saímos de casa portando esse gene castrador a que se chama esperança, que aborta as revoluções e embala os corações da humanidade e amolece os seus punhos dentro dos bolsos, até nestas manhãs a gente cumprimenta-se a dizer vai-se andando, cansada de estranhar o mundo logo ao levantar da cama.

14.2.23

Sempre que meia dúzia de inteligentes se reúne a debater a falta de hábitos de leitura dos portugueses, tenho um sentimento de atração-repulsa  mais repulsa do que atração, admito, mas sucede que por vezes tenho tempos mortos, é tarde para umas coisas, ainda cedo para outras, e estes entretenimentos encaixam aí para me acordar o espírito e olear a indignação, que, como os ossos, emperra com a maturidade. Que insuportáveis se tornaram os evangelizadores! Não porque não seja nobre a sua causa mas porque é ignorante o seu discurso, já que desconhecem os sentimentos e a realidade daqueles sobre quem tanto debatem. Nunca vi que chamassem a explicar-se os que não leem. Autores, editores, professores, curadores, comunicadores, os mesmos de sempre monopolizam os palanques, apresentam os gráficos, as estatísticas, as análises e as soluções: tem de ser desde pequeno, tem de ser todos os dias, tem de ser à noite, tem de ser nas férias, tem de ser nas bibliotecas, têm de ser os pais, têm de ser os professores, tem de ser gratuito, tem de ser assim ou assado, como a bula de um medicamento cheio de ciência mas que nunca passa na garganta.
Ler é um ato trabalhoso, um investimento de tempo e de espírito, de onde a mente se distraí amiúde e por dá cá aquela palha e que, entre os espinhos e enguiços do quotidiano, custa manter. A roda-viva do mundo faz muito barulho, atordoa a mente, mói a alma, tapa as brechas com betão e entulho, respirar é difícil, quanto mais ler. Os que leem nas tardes de invernia, instagramavelmente aninhados no sofá com manta e chá, ou nas esplanadas do estio, com chapéu de abas largas e gin à mão, e supõem que essa seja a disponibilidade e a vocação de todos, o que sabem? E, de resto, quem ajuda? Professores nas escolas chatos e estreitos, críticos de literatura chatos e vendidos, escritores chatos e arrogantes, tertúlias e mesas redondas de feiras com disputas de pavões e filas de bajuladores, listas de livros lidos que a gente tem agora a mania de exibir para efeitos de aprovação social e até de acasalamento? Então às vezes a literatura nem parece um tesouro mas um circo gigante, espalhafatoso e com bilhetes demasiado caros para péssimos lugares. 

1.2.23

À hora do lanche, no pão quente, Gabi tem o corpo cheio de vontades todo debruçado sobre a indiferença do Marco do ginásio. Ele folheia o Notícias, sorri-lhe a espaços para a manter em lume brando e é de uma doçura vaga, ensaiada, a voz com que pergunta, sem a olhar: queres a fatia sem côdea? Fogem ambos à solidão como foge o diabo à cruz, inventando-se como amantes que não são. Ele obtém dela uma adulação fútil, sem tino nem consistência, e, sempre com um olho arredio, fixado na porta da papelaria, paga-lhe em míseras prestações de ternura que ela abocanha como um cão faminto. Embora não sejam sobre Gabi os pensamentos do Marco ao acordar, tampouco os que confia ao travesseiro, sempre vai tirando dela alguma compensação pelo trabalho que dedica ao esplendor do próprio físico. Podia ser qualquer outra, mas por acaso foi a manicura sonsa que se encantou com a sua musculatura e o seu desusado cavalheirismo e o acaso acaba por ser autor dos mais importantes acontecimentos das nossas vidas. Com efeito, Gabi resgatou-o à cómoda posição de sofredor beneficiário da simpatia das velhas, aplicou-lhe feitiços básicos e da noite para o dia lhe atiçou o sangue, fazendo funcionar a seu favor o que à outra parecia estar reservado. Não se amam, mas bastam-se. E porque não?

30.1.23

Se paro, penso, diz a cabeleireira quando comento a genica com que a vejo esfregar os azulejos da entrada do salão antes das oito e meia. Será engano meu, que o frio, embora aguce o espírito, às vezes entorpece os sentidos, mas ia jurar que os seus olhos desesperam para se manterem à tona de uma devastadora onda de água e sal. Alguma coisa lhe dói e eu concordo que a dor é como as crianças buliçosas, há que lhes dar que fazer para que não se ponham a mexer onde não devem. Para todas as dores se encontra uma ocupação que sirva de terapia e com urgência a procuramos por sabermos já de cor que o silêncio e a quietude engrossam a voz com que ela fala dentro das nossas cabeças. Escutá-la é tortura e dá medo imaginar que o tempo não garanta a sua diluição. Dar aos braços ou às pernas, seja a desencardir azulejos ou a pedalar por trilhos e matagais, com menos ou mais estilo temos a ilusão de a enxotar ainda que, em boa verdade, façamos pouco mais do que enterrá-la fundo no coração

19.1.23

Para não perturbar a santa paz que o nascimento do Menino inspira nos lares da Humanidade, Ana Isabel, a mais nova das manas Pereira, esperou que janeiro repousasse em névoa e melancolia para comunicar à família o fim do seu casamento. Até então, ninguém ousou corromper o espírito natalício, quanto mais não fosse porque a imperatriz, Joaquim e a avó beirã vieram para a consoada e era fundamental exibir-lhes as alegrias que perderam por se enraizarem nas encostas brumosas do fim do mundo. Mas depois, na ressaca do fígado e do cartão de crédito, arrumados os enfeites e apagados os brilhos, os Pereira tiveram de ouvir na própria casa o eco da palavra maldita – divórcio. 
Mas porquê, porquê, porquê, perguntaram, mais pela incredulidade do que pelo interesse nas verdadeiras razões da filha. Atiraram à cara de Ana Isabel todas as suas falhas de caráter, assumindo à partida que a ela cabia a culpa do desastre. Egoísta, preguiçosa, desde pequenina que amua e vira costas sempre que o gozo não paga o trabalho e as maçadas. Ora, é dos livros e dos sermões que a preguiça não sustenta casamentos. É ou não verdade que, ao assinar o contrato e desfiar as juras defronte do altar, Ana Isabel comprometera-se a levar até ao fim a empreitada, mesmo que o amor se esvaecesse ou de outras formas, menos excitantes, se travestisse? Assim lhe perguntou a mãe – por palavras diferentes destas – enquanto o senhor Pereira abanava a cabeça a reprovar o fracasso daquela filha do meio, de quem esperava mais virtude. Ana Isabel, muito necessitada de colo, explicou que há muito tempo ela e o marido invisível se deitavam calados, dormiam opostos e acordavam estranhos. Entretanto, a menina exemplar cresceu e deixou de valer como pretexto para adiar a decisão mais honesta, que os salvará aos três de amargurarem juntos ou cada um para seu lado no sofá dos psicoterapeutas. 
Lígia, a irmã mais velha, não se aliou a ela como seria de esperar. Tão unidas na maledicência, na intolerância para com os pais, no desdém pela imperatriz, na inveja de Joaquim, deixam agora exposta a fragilidade do seu laço, demonstrando como tantas vezes o que nos liga aos outros, mais do que o entendimento profundo, é a existência de inimigos comuns. São os fantasmas, não o afeto, que sustentam a lealdade entre os companheiros de trincheira. Então Ana Isabel não pôde sequer contar com a irmã, que engrossou a voz para a acusar de imaturidade e fazer-lhe ver que, no médio prazo, o prejuízo de descartar o marido invisível iria revelar-se muito maior do que à partida ela supunha. Para não falar da instabilidade a que vais sujeitar a tua filha, como é que consegues ser tão egoísta? 
O irmão demitiu-se de opinar e enquanto afrouxava no sofá, procurando desembaraçar-se, com suspiros múltiplos, das contrariedades do dia que findava, das dores lombares e da moinha nas têmporas, pontuou a discussão como soube: ela é que sabe da vida dela. E foi assim que, em estrita obediência à própria natureza, fiel à sua moleza de caráter, sem raciocínio, esforço, sacrifício ou hipocrisia, o filho caçula do senhor Pereira disse a primeira coisa válida que sobre o assunto foi dita.

17.1.23

Sinceramente comovida com o laço amoroso que entre Alicita e Álvaro se aperta, a rapariga da papelaria passou a autorizar a menina a ir mais vezes ao pai do que aquilo que era hábito e decreto. Afinal, diz ela, o fim de semana a cada quinze dias é procedimento antiquado, próprio de separações ressabiadas, o que agora se usa é partilhar a custódia. 
Mas, ó filha, não dês muita folga à corda, dizem-lhe as velhas, que mãe há só uma e se não te pões a pau a menina desafeiçoa-te de ti. Pudessem elas entender – ou lembrar – de onde vem a moleza de coração da rapariga da papelaria! Acaso não percebem nela mais leveza, um sorriso mais fácil, o humor mais ligeiro pela manhã, as costas mais direitas, o peito mais dilatado, até a pele mais resplandecente, a confiança escancarada em cada movimento do seu corpo? Serei a única a notar-lhe os tiques dessa felicidade por natureza distraída e preguiçosa que dá nos enamorados e que faz de toda a realidade um facto secundário e adiável?  

13.1.23

Sei, desse saber de experiência feito, como os amores trágica e prematuramente interrompidos fazem sombra a todos os que vêm depois. A morte tem um pincel que lhes retoca os detalhes, o luto passa-lhes um verniz de brilho, a saudade cobre-os de um véu divino. É claro que há – não duvido, porque vejo e sei que são a maioria – quem, ainda mal levantado dos escombros, logo encontre outro abrigo onde matar todas as fomes. Mas esses, suponho que amem com uma ligeireza que a mim falta ou então são merecedores de privilégios que considero raros e de que cuja abundância, francamente, desconfio. 
Os homens que me quiseram depois desse que me morreu nos braços – e sobre quem edifiquei as minhas convicções a respeito do amor – pareceram-me sempre demasiado fracos. Alguns lamentavam demasiado, ou idealizavam demasiado, ou obedeciam demasiado, ou intrometiam-se demasiado, ou pensavam com demasiada previsibilidade ou qualquer outra demasia sem benefícios à altura dos de viver só. Porém, quantas palavras tenho escrito sobre cada um dos instantes em que, por motivos tantos e sem razões inteligentes, lhes consinto a intimidade! É que, ao contrário do amor, cuja substância transcende o léxico e não é subjugável aos grilhões da sintaxe, o desejo e o prazer urgem ser ditos, têm fome de verbo. Inquietam, acordam súbitos no meio da noite, têm o efeito do álcool, que tudo enaltece, dramatiza, desata, extrema, ilumina. É essa ilusão, essa dissolução de fronteiras, esse caos de significâncias, que permite ao desejo imitar o amor e arrogar-se de cantar com a sua voz. Mas está tudo bem porque se desse equívoco resultar, pelo menos, um verso ágil e espantado, terá valido a pena.

12.1.23

A fórmula é relativamente simples e, até agora, perfeitamente funcional: primeiro inventa-se e quando a invenção estiver banalizada e dela estiverem dependentes as massas ao ponto do dano evidente, aplicam-se taxas sobre o seu uso ou cria-se uma alternativa de custo superior. Ganha-se na primeira volta e ganha-se em todas as que dela advierem.

10.1.23

Convenhamos que, na vingança, o que menos importa é a temperatura de serviço. A apregoada vingança fria é já tão distante do seu propósito que, embora possa ferir o alvo, pouco nos satisfaz. O tempo dilui a fúria e, sem fúria, é modesta a dimensão do gozo. Eu prefiro confecionar a vingança em lume forte, de coração ainda atordoado e mãos trémulas. Raiva, dor, mágoa, despeito, tudo entra em combustão numa fogueira que, pela noite dentro, vai crescendo com as sombras, os fantasmas, as ventanias, os rumores nas camas dos vizinhos. Atiçada por emoções vívidas, acredito que a vingança perca em sofisticação mas compensa no que ganha em corpo e sangue ao erguer-se e caminhar avante como um soldado inebriado, suicida, disposto a tudo. Tantas vezes a cozinhei assim a horas mortas, a delirar sob o efeito inflamatório de golpes profundos, e, no entanto, nunca cheguei a servi-la, nem a quente nem a frio. Não é que eu seja boazinha. Sou antes preguiçosa e fico à espera que uma justiça de forças superiores jogue a meu favor e me poupe à trabalheira.

23.11.22

Vejo Bárbara assim que entro, está de costas para a porta, debruçada sobre qualquer tarefa dessas que convocam toda a intimidade do corpo e no seu abrigo sucedem, como escrever, costurar ou arranjar as unhas. O motivo pelo qual não se vira para um cumprimento só depois atinjo, mas tenho a certeza que me pressente porque cheguei a arfar. Estou tão cansada! Gritei demasiado à médica que encolheu os ombros ao sofrimento agudo do meu menino com cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno. Limitou-se a escancarar-lhe a boca, apontou um feixe de luz à goela e disse, do alto da pilha de livros marrada por imperativos de ganância: deram cabo dele, mas não posso fazer nada. Na minha boca, a ameaça de vómito. Nem mandar um relatório à polícia? perguntei, avançando já para ela, o sangue a levantar fervura, o coração num rodopio centrífugo, a musculatura dos dedos a preparar o golpe. Não, e pôs-se a lavar as mãos como num dia ordinário, de viroses, traumatismos, cálculos renais, intoxicações, mortos por esperas demasiado longas que ela esquecesse ao final do dia  –  a dor alheia é tão diminuta. Não me lembro de sentir tamanha raiva, nem me sabia capaz de agredir com tal violência, de arrancar cabelos e dar cabo do mundo à dentada. Talvez a tenha matado, deixei-a de bruços sobre o lavatório, exausta de se defender. 
De modos que quando entro e vejo Bárbara acho que, embora de costas, ela me sente porque a minha respiração tem vestígios ruidosos do desarranjo emocional e da violência. Mas, como eu disse, ela não se vira, a não ser quando lhe toco nos ombros e pergunto Como estás? Enfrenta-me, então, com os olhos líquidos de tristeza e incredulidade: Não se nota? Disfarço o horror e desculpo-me com a sentimentalidade primeira que me ocorre: Não é no que vejo mas pela forma como falas que sei se estás bem. Bárbara tem o rosto deformado, semelhante a uma pera, duas covas sem luz para ver o mundo, derrames por ambas as faces e na testa mais abundantes, roxos como a morte, elevando-se pelo couro cabeludo fora e visíveis através de peladas. O cabelo que sobrou perdeu a cor. A boca é uma fenda obscena, a rir com esforço da ironia do destino. Envelheceu de modo abrupto, está a caminho de cadáver ou monstro. Quero ter pena dela, mas o meu coração rejubila por qualquer coisa que podem nomear como vingança, que os códigos da moralidade punem com perpétuo arrependimento e que por isso vive no subterrâneo de almas dóceis e civilizadas a comer as mágoas do dia anterior. 

Não sei como consigo ser tão má quando sonho. Eu, servida crua no divã, havia de ser um banquete para os doutores da psique.

26.10.22

Todas as coisas são menos importantes do que aparentam quando as contamos. Na realidade, tudo são miudezas, quotidiano, e o que sentimos como tremendo ou raro – a morte, um desgosto, uma traição, uma doença – não é senão o que no mesmo instante acontece a milhões de pessoas. Vivem desatentos aqueles que acreditam que a própria vida dava um livro, porque um livro dariam todas as vidas e, em bom rigor, a nossa tragédia é só pano de fundo e figuração no monumental enredo do outro e vice-versa, já que a história depende sempre mais de quem conta do que dos acontecimentos. Talvez seja por isso que se escreve, para que na enxurrada universal de perdas, dores e desalentos, não vá, arrastada e esquecida, a nossa ínfima parte. Contar é fazer justiça às coisas que deus ignora. 

14.10.22

Pode ter-se debatido na noite com fantasmas e demónios, ou nem sequer ter ido à cama. Talvez os filhos a desgostem na medida em que é humano desgostar ou o marido em certos dias a ignore na medida em que ignorar se torne um imperativo conjugal. Pode ter-lhe faltado dinheiro, saúde, lucidez, remédios, razão, tempo, paciência, sapatos ou carteiras, mas ela chegará feliz e disposta como as infâncias iluminadas, oferecendo-se para serviços, prestando-se a favores, motivando os ensonados, distribuindo rebuçadinhos e boas palavras. 
A mim o seu riso não me rasteira e tampouco me seduz a simpatia. Caem-me mal esses feitios prestativos e bajuladores, revolvem-me o estômago os cumprimentos carregados de melaço, gente que chama babe, 'morlindona, ou que por mensagem distribui sem critério corações e abracinhos. Do tanto que esbanjam, quanto vale o que sobra para aqueles a quem realmente querem bem?  

11.10.22

Nada foi aqui dito entretanto, mas a verdade é que já faz quase um ano que nasceu o irmão de Alicita – ou meio-irmão, para evitarmos cutucar os nervos da rapariga da papelaria. Deram-lhe o nome de Álvaro, já que a mãe viu muita graça na aliteração como reforço da consanguinidade, coisa que, aliás, se tem tornado frequente em certas famílias que escolhem os nomes dos filhos pelos seus efeitos mimosos, espetaculares ou instagramáveis. E assim foi desde logo a criatura submetida à voraz correnteza das modas, cujo fluxo tende a ir do centro para as periferias começando por ser estilo e acabando a tornar-se foleirada. 
Temos então Alice e Álvaro, uma perfeita duALidade. 
As duas crianças entendem-se dessa forma desarmada, indefesa, que é um privilégio da infância fatalmente devorado pelas tristes experiências da vida. Serem irmãos por inteiro ou pela metade tanto lhes dá. Quando se conheceram, ela emudeceu ante a fragilidade daquele ser mínimo mas assumiu sem receios as competências que o pai lhe atribuiu nos cuidados do bebé e ele, depois da mama e do intestino aliviado, dormia na paz dos anjos à beirinha dela. Ninguém ficou surpreendido por ter sido Alice, trapalhona mas empenhada, quem lhe deu a primeira colher de sopa e por ter sido testemunha única do momento em que ele, agarrando-se ao móvel da televisão, conquistou a sua humana verticalidade. 
Por insistência da menina, trouxeram Álvaro à papelaria logo no primeiro mês de vida. Alice queria apresentar à mãe o novo brinquedo de carne e osso e contar-lhe do que era capaz de fazer com ele, de como era madura nos cuidados, indo ao ponto já de desvalorizar os próprios desejos em prol dos dele, como da vez em que lhe deu a lamber os dois dedinhos que acabara de mergulhar na taça de mousse de maracujá. Toda a gente gostou de Álvaro. Mal o pai entrou com ele, a emoção varreu para longe todos os ressentimentos que, por solidariedade com a rapariga, se alimentavam naquela papelaria. Acaso a criatura tinha culpa de ser fruto de um casamento com danos colaterais? Então, em menos de um ai era uma multidão a admirar o pequenito no seu ninho de folhos e bordados, a dormir o sono dos inocentes, exalando o aroma lácteo da pele e o perfume algodoado dos hidratantes para a infância. E aquela ternura imensa convocava todas as mães do mundo e apartava os homens, deixando para eles um sentimento de pequenez e excedente. Recuados junto ao expositor de revistas, o pai, o Marco do ginásio e dois ou três clientes admiravam, sem interferir, o círculo de mulheres que se fechava em torno da alcofinha. Gabi, a manicura sonsa, desfez-se toda em suspiros:
– Quero ter muitos destes.  
Estava dado o mote.
– Muitos? Se soubesses o dano que um único te pode causar... 
– Mas olhe que compensa pelas alegrias que dão. 
– Não há quem nos queira tanto como os filhos. Dá igual pra eles se somos feias ou bonitas.
– Eu cá se, fosse hoje, não sei se tinha tido os meus. Envelheci muito com as preocupações que me deram.
– Pedem-nos tudo, é verdade, mas também nos perdoam tanto! 
– E o que lhes perdoa a gente a eles? Também conta, não? 
– Caramba, dona Fatinha! E qual era o ganho de não perdoar? 
Mas a mãe da rapariga da papelaria não soube responder e abandonou o círculo. Sentou-se, mais a moinha dos seus ressentimentos, na banqueta de madeira detrás do balcão e, como a filha se demorava a adorar o menino esquecendo até a parte que a ele tocava de responsabilidade pelo seu sofrimento, murmurou, azeda:
– Não perdes a mania de cobiçar o que é das outras.

10.10.22

Esta noite sonhei que conseguia apaziguar de vez todas as turbulências do coração de Beatriz e, acordando, entristeci-me ao constatar a realidade tão aquém. Beatriz é minha amiga. Soube-o no dia em que eu disse não avanço mais, comprometendo de forma drástica o mundo ao meu redor, e ela só respondeu está bem e depois diz-me o que queres que eu faça. Sobre os amigos costuma dizer-se que estarão lá para nos chamar à razão com as verdades duras e necessárias e serão até louvados pelo sangue frio com que nos aplicam dois tabefes em ocasiões de insensatez. Mas o que é isso senão mais uma entre tantas banalidades de inspiração romântica? Beatriz, ar seráfico e compreensivo, não gastou o instante do meu desespero a ajuizar, tampouco me diminuiu com conselhos de pechisbeque que a si mesma não houvessem servido. Antes deu as suas costas para sustentar também a derrocada da qual só eu tinha a culpa – está bem. Sonhar que lhe apaziguava o coração é retribuir de forma menos do que insuficiente.

14.9.22

Não julgues que me desencaminham as voltas da tua língua. Jamais abandono o meu posto de vigia. É de olhos bem abertos que meço a tua competência e avalio o homem que fizeste do homem que a tua mãe pariu. Podes entrar e sair calado, de tudo o que possas valer o que menos importa é o que digas. O meu ofício é manobrar palavras, sei melhor do que tu como se puxa o lustro a uma mentira e se enreda a história justa ao sonho de cada um. Calado. Nem sequer tentes responder aos meus enigmas, resolver a minha melancolia, mediar os meus conflitos com o mundo. Tenho ambições bem maiores do que a felicidade. 

13.9.22

Há duas semanas que o foco das notícias, análises e preocupações sobre o início das aulas demonstra, uma vez mais, que não vamos ser capazes de ultrapassar a mediocridade habitual. Que volta haverá a dar a uma sociedade cujo sistema de ensino sofre do cancro da burocracia, do défice de visão, do vício das percentagens, da depressão crónica? Repetindo os mesmos erros seremos eternamente obrigados a lidar com os mesmos resultados. E o estado das crianças e adolescentes, a quem tem sido atribuída boa parte da causa do desastre, não é senão a sua maior e mais dramática consequência. 

12.9.22

Tenho lido por aí, entre blogs e jornais, que as tropas russas estão com a moral muito em baixo. Acredito que sim porque ir à guerra, seja qual for o lado da trincheira, é sempre um exercício de imoralidade. Só com um considerável desbaste na moral, enquanto coletivo ou indivíduo, se consegue levar a cabo atos de destruição e desumanidade. Mas o que me parece que querem dizer nos últimos dias é que as tropas estão com o moral em baixo. Ou seja, perderam ânimo e motivação. Estão desmoralizadas. A moral e o moral têm géneros diferentes porque significam coisas distintas. E nem sempre quando falha uma se ressente a outra.

11.9.22

No corpo nu do rapaz voador, aplico os curativos com a suavidade que só as mães e aproveito para adular toda a sua perfeição, de amorosa autoria, que nenhuma chaga corrompe. Não recuo nem vacilo. Mais do que as minhas, são as dores dos meus filhos que me fortalecem. Antes deles, sabia a ideia de que o tempo todas cura ou de alguma forma arruma e isso, por ser verdade, foi sempre o bastante. Mas com as dores deles aprendo a caminhar como os faquires. Não se trata mais do tempo que levarão a curar, mas do quanto me aguento impávida sobre fogo e lâminas para não os deixar tombar. 

8.9.22

Como uma grande parte das mulheres, não só da sua como de outras gerações, a mulher do senhor Pereira é acostumada a acreditar na própria culpa. A culpa das tentações que precipitam grandes desastres mas, miseravelmente, também dos incidentes ligeiros do quotidiano. Por isso vem a correr rua acima, afoita e ruborizada, e, mal abrandando para um cumprimento, justifica-se com o corpo todo torcido, que é a maneira de poder olhar para mim sem descurar o sentido e a urgência da marcha: quase me esquecia de ir ao pão. Não fosse o meu marido lembrar-me e nem uma fatiazianha na mesa. Desculpe a pressa, tenho tudo ao lume. Uma querida, tão grata ao senhor Pereira por lhe avivar a memória das tarefas que, por mútuo acordo, são da sua competência. Sem tempo para responder qualquer coisa cortês e inútil, fico a vê-la sumir na rua, dando magnífica prova da habilidade com que uma mulher pode equilibrar a aflição da criada sobre os elevados sapatos de marca da senhora.

6.9.22

O corpo do menino com cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno transborda da cama. As irregularidades ósseas absorveram já todos os nacos arredondados de carne em cujos sulcos eu perdia o nariz à procura de aromas lácteos, restos de poeira e ventania, vestígios de rebuçado. Às paredes do quarto trepam os cheiros primordiais da adolescência e eu abro a janela com a ilusão de poder espantar aquele futuro iminente, cheio de perigos e corrupção. Queixa-se da corrente de ar, defende-se, mas o tamanho do lençol já é pouco para acudir ao arrepio. Estranho-o como a um animal que ocupasse o ninho alheio. A voz é um rugido sem domínio, o apetite não acha satisfação, os dedos das mãos alongam-se como garras a segurar o travesseiro. Tudo é urgência, importância, paixão, vida ou morte, exuberância, fertilidade. Em tamanho, não tardará a ultrapassar o rapaz voador, ainda que dificilmente o iguale em destreza e ousadia. Longos veraneios a uma sã distância da minha autoridade vão fazendo dele um homenzinho porque, quando é de um cais sólido que se parte, a liberdade nutre toda a substância do corpo e mais ainda a do espírito. E agora que se ouvem os passos do outono nas redondezas, volta para casa assim: com mais um palmo de altura e dois ou três de independência.

31.8.22

Soa-me estranha essa maneira romantizada, eufemística, de tratar os mortos dizendo que desapareceram, partiram ou já não estão entre nós – sei lá eu se estão e apenas não tenho olhos de os ver! Uns, apavorados da própria finitude, talvez creiam que o que não é nomeado não é invocado. Para outros, ignorar a ideia substantiva da morte e o seu par de sílabas concretas pode ser a única forma de lhe recusar o exercício de autoridade sobre os Homens. O que nos é impossível dominar com a ciência, o dinheiro ou a violência, forjamos pela via do verbo.

28.8.22

Não seria de esperar que me custasse cada vez mais suportar as conversas à roda da sabedoria e de outras grandezas da maturidade. São tão férteis em clichés os que falam de cima e com desdém sobre os mais novos, esses que estudaram, trabalharam, casaram, fizeram filhos, multiplicaram-nos por netos, criaram raízes, nutriram bolores, e são agora proprietários de casas, saudosismos, arrogâncias, poupanças, segredos, arrependimentos e ossos fracos. Além de cansaço, o que dão a mais o tempo cumprido de rotina, a voluntária escravatura, a dobra nas costas, as faturas todas pagas no prazo? E mesmo os livros lidos, os consumos pagos de cultura e espetáculo, a dedicação às religiões, os carimbos no passaporte, um ou outro prémio ganho por qualquer coisa em breve esquecida, e até os delitos praticados, as dores provocadas e sofridas, quão mais perto do absoluto e da razão nos levam? Os miúdos de agora, que tristeza, dizem. Tristeza é não haver mais o que fazer com tudo o que se tem a ilusão de ter aprendido e, só porque a marcha vai agora mais lenta e está mais perto de findar, rir dos que ainda vêm lá atrás aos tropeções. 

26.8.22

Às vezes – raras vezes –  dou comigo a julgar que tenho uma certeza. E ter uma certeza, pese embora a insanidade e o equívoco, pode ser a diferença entre pasmar ou dar um passo em qualquer sentido. Infelizmente, ainda antes de dar o passo, esboroa-se em três tempos a certeza porque logo me ponho a analisar todos os matizes do seu reverso. Pensar é um hábito muito civilizado mas está longe de ser uma boa estratégia de sobrevivência.

20.8.22

Lígia, a mais velha das manas Pereira, está a aquecer os nervos para a maratona do próximo ano letivo. A decisão de retirar a sua menina exemplar à guarda do colégio privado que desde os três anos tem sido segunda casa para a largar numa escola pública, pede-lhe uma musculatura emocional nova, resistente aos próprios temores e às opiniões alheias. Mordiscam-lhe já a alma culpas que jamais havia sentido e, entre todas, a pior é a impressão de estar a abandonar a filha. O resto da família só desajuda. Cutucam-lhe as sensibilidades listando toda a sorte de misérias do ensino providenciado pelo Estado, a começar pela incompetência técnica, passando pela anedota das atividades extracurriculares e pela duvidosa qualidade da alimentação e indo, por fim, desaguar ao que lhes é verdadeiramente importante: a exposição a perigos oriundos de certas zonas cavernosas da sociedade, onde a doutrina do vício, da insurreição e da linguagem ordinária é absorvida desde o ventre das mães. Há necessidade de tirar a menina de onde está, se está tão bem? É dinheiro? Que diga, pois isso é o de menos, insistem os avós Pereira. Não, não é dinheiro. Lígia, embora assustada de morte, tem uma convicção que seria comovente se não se tratasse de uma vulgar snobeira, uma bagatela da sociologia do salão de chá:
– Quero que a minha filha tenha contacto com todo o tipo de pessoas.
Pobre mana Pereira, tanto esforço para maquilhar a mediania da inteligência e a ligeireza do caráter, tanto tempo a estudar modos vários de ter opinião própria em workshops e livros de venda fácil, e é isto. Supondo que existe aquilo a que chama de "tipo de pessoa", perguntamo-nos a que tipo terá ela a ilusão de pertencer? Pobre mana Pereira, que atravessa as noites de insónia a cismar nas decisões mínimas do quotidiano, ponderando o peso que cada palavrinha dita ou por dizer terá no futuro da filha, esquematizando os caminhos  e incluindo os atalhos – que desembocam no êxito ou na infelicidade, na grandeza ou na delinquência. E à sua alma confusa, que se distrai na superfície das coisas, não ocorre que estes não sejam destinos alternativos ou opostos, que o mundo pode ser, afinal, um sarilho de sobreposições, uma infinidade de matizes, e que dentro da alma de cada "tipo" que se mostra, há centenas de outros "tipos" que se calam ou morreram, por acasos, no caminho. Sossegue, Lígia, pois onde quer que a sua menina esteja, está invariavelmente com "todo o tipo de pessoas".

18.8.22

Sempre pensei a inveja como uma besta sórdida e rasteira a que a minha superioridade moral não vergaria. É, entre os pecados capitais, o único que não tem como aparentar graça, charme, fibra, desafio, convicção, energia, nem mesmo visto sob o toldo de um estado de enamoramento ou com recurso a eufemismos. Até conheço, com mais ou menos vergonha, o gosto encorpado da soberba e da avareza, assumo os ímpetos cegos e eletrizantes da ira e da luxúria, demoro nos prazeres da gula e da preguiça, a quem poucos negam simpatia. Tenho, como prova da minha humanidade, vontades alimentadas à boca por todos os pecados. Exceto a inveja. Invejar porquê, se toda a medalha tem no reverso gravuras de dor, perda ou desalento? Um destes dias, porém, talvez porque me tenha apanhado sem ocupação de valor ou distraída das coisas fundamentais, a inveja cravou-me os dentes em cheio na razão e pôs-me a correr no sangue esse veneno perverso, que inebria, revira os olhos, sorri pela frente e maldiz no escuro. Lutei contra ela a noite inteira, implorando a minha lucidez de volta, e da batalha sobrou uma desarrumação tal que ao levantar-me pela manhã tinha perdido os pontos cardeais e a firmeza de pisar o solo. Confesso-me assim sem receio de ser julgada porque uma pessoa – qualquer pessoa – tem sentimentos e entre tantos que tem, há sempre alguns que são como os filhos degenerados: uma vergonha para a qual se inventa mil histórias que desculpem. 

12.8.22

Finalmente agosto entristeceu nas ruas da cidade. Agrada-me estar por cá nesta altura, há silêncio e suavidade no ar, ninguém está interessado em grandes resoluções e as pressas são injustificadas. Na avenida, manhã cedo, paira uma névoa doce que me lembra o feliz veraneio da minha infância. Revejo-me de mão dada com a minha irmã mais velha em direção à praia, ela a cantar a Valsinha e eu a sonhar os meus legítimos sonhos sobre um par de pernas bailarinas. 
A professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada passa o seu agosto na resignação costumeira. Desce a alameda a arrastar-se como um animal velho, indisposto às caçadas, sem mais vocação para a sobrevivência. Ainda não foi desta que se meteu num avião para visitar o rapaz em Barcelona e também não consta que ele venha suar os calores do estio nos braços da sua mãe. Há de vir pelo Natal, diz ela todos os anos. E o gesto que faz com a mão imita o das pessoas compreensivas e relaxadas, mas é na verdade tão dorido como o de qualquer desgosto de amor. O rapaz é bom filho, toda a gente sabe. Mas é jovem, tem ganas de espaço e liberdade, vai adiando a mãe porque a mãe é certa e segura, pertence-lhe, já foram corpos de um só corpo, não a concebe morta ou indisponível. Talvez um dia, quando a separação se der definitiva, sofra a culpa de tão longas ausências. 
– Caramba, Barcelona é já ali, num instantinho a sôtora se põe lá. – diz-lhe a cabeleireira, sempre com ganas de pôr a girar os carrosséis da vida. Mas a professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada tem direito ao desalento e à concavidade do sofá. Tem também direito a fingir que a sua solidão adoentada, suja de pastéis, nicotina e ansiolíticos, tem os brilhos charmosos da independência.
– Andar práqui e pracolá não é do meu feitio. Quem me tira o meu sossego, o meu cantinho, os meus livros, tira-me tudo.
– E vai deixar agosto fugir assim... – lamenta a cabeleireira, ansiosa que lhe perguntem em que praia vai ela torrar o corpo, frente e verso, durante a próxima quinzena.
Mas à professora, para quem os dias, as semanas e os meses se sucedem sem grande propósito, como contas de um longo e penoso rosário, à professora agosto não foge, só se converte em setembro. 

8.8.22

Durante a vaga de calor, os meus sonhos noturnos alcançaram o cume da malícia, da desgraça e da glória. Intermitentes e transpirados, enredaram e desenredaram compulsivamente como certas maneiras de narrar que desprezam os rigores da forma para (ou por) efeitos de atordoamento mental. Esqueci-os entretanto quase todos. Não durmo com lápis e papel à cabeceira, embora saiba que das viagens do inconsciente se pode extrair matéria preciosa para fins diversos e quase sempre úteis às artes e à ciência. Só lembro ainda bem, talvez pela estrutura coerente – a memória engata melhor na lógica do que no absurdo – aquele em que a minha amiga Eduarda decidiu voltar para a terra das auroras boreais. Veio despedir-se de mim de madrugada. Dentro do carro, o marido ao volante, as crias chorosas aninhadas no banco traseiro, ela apressando o abraço, depois os acenos, temos de ir, temos de ir, e tudo no seu rosto era pavor e desespero. Não foi a partida dela que me angustiou, somos já habituadas a esta forma de amizade. Foi o breu e a ideia de que a emigração, repetida pela segunda vez na sua vida, não mais era um projeto ambicioso, mas antes uma fuga, uma urgência, um ato clandestino. Qualquer coisa os perseguia com ganas de besta selvagem, qualquer coisa como um colapso, uma miséria, uma vergonha, um crime, um país faminto a chupar até aos ossos a dignidade dos seus filhos. Mais um sussurro pela frincha da janela, adeus, e o automóvel arrancou. A noite abocanhou-os num tumulto de poeira e vento, primeiro engoliu as formas, pouco a pouco a luz dos faróis e finalmente o ronco do motor, até a solidão, por demais aflitiva, me despertar. Mas é sempre tão demorado e difícil o tempo que as impressões dos sonhos levam para se desprenderem do corpo! 

4.8.22

Não ter televisão nem perfil nas redes sociais torna-me beneficiária dos esforços e da piedosa atenção de muita gente. Há uns anos, um rapaz de uma operadora perguntou-me se eu não gostaria de conhecer o incrível privilégio de me estender no sofá ao fim do dia a ver umas noticiazinhas ou um programazinho de entretenimento, sem pensar em mais nada. Fiquei sem fala. Para muitos, aderir, estar e ter são direitos que só por ignorância não se aproveitam. Supõem-me uma retardada, mas é recíproco. Porque para mim, precioso e consciente é o direito de recusar.

3.8.22

Não me causam ciúme, fascínio ou pena as coisas anteriores a mim na tua vida. Sobre elas não perguntarei detalhes, formas, colorações, relevos, menos ainda causas e consequências. Dispenso ouvir as tuas dores, que já as minhas bastam nas rugas do corpo e do lençol. Sei que o lamento dos homens costuma enfeitiçar o coração de mulheres impressionáveis, porque mascara às vezes muito bem os cobardes com o estilo profundo dos sensíveis. Pois a mim só me importa a tua superfície: a pele em toda a amplitude, a temperatura favorável, o sangue a acorrer ao lugar certo, a navegação amorosa, a ternura breve e inócua da manhã seguinte.

2.8.22

Mais tarde, depois de as velhas dispersarem e de a mãe sair para apanhar Alicita na vinda da colónia, a rapariga da papelaria toma o pretexto de um assunto menor para me falar. E, por qualquer razão que me escapa, como se alguma culpa a consumisse, lança-se de repente a explicar.
–  Os homens da minha idade são muito infantis, não me interessam. Este é uma pessoa madura.
Satisfações, sei lá eu por que mas dá. Suponho que ande em busca de quem não lhe aponte a cama onde deva deitar-se só porque tem de ser ou devia ser ou seria melhor que fosse ou isto e aquilo. Não a noto mais leve ou feliz, o que me leva a duvidar da conveniência deste novo amor. Continua vaga, ausente e desambiciosa, como habitando um sonho onde tudo é decidido por ventos e casualidades. Admito que essa melancolia obstinada tenha o seu encanto e por algum motivo o Marco do ginásio ainda pasma defronte da papelaria, sem se importar que os olhos da manicura sonsa reparem no delito. É um homem banal, vive com ganas de derrubar muralhas e quanto mais altas e firmes, mais forte é o ímpeto pois daí lhe virá maior impressão da vitória. Infelizmente para ele, devolver à vida uma alma que por vício e conforto é desiludida requer trabalhos de outra ordem. E nem sempre aquele que tem musculatura para abater o obstáculo a tem para sustentar a consequência. A rapariga da papelaria sabe-o e por isso nunca olhou para ele por mais tempo do que o necessário às contas e trocados. Agora, quem lhe restitui a esperança numa vida que caiba no senso estreito da mãe, das velhas e do seu próprio romantismo – cheios de boas intenções mas nem por isso razoáveis –, é, portanto, uma pessoa madura. Falta-nos só saber como se define tal figura no dicionário de uma tontinha. 

20.7.22

A gente viciada em opinião perde às vezes o sentido da sua economia. Desbarata-a como outros desbaratam tempo ou dinheiro, sem critério ou proporção, empenha-a em tudo o que bule, brilha, mancha e até no que está quieto. Temem que, se calarem, os enfiem no saco dos que consentem. Como se não houvesse tantas evidências opostas ao provérbio, tanto consentimento ruidoso, tanta resignação espalhafatosa, tantos ombros encolhidos em compasso da gritaria.

19.7.22

Toquem os sinos, deitem foguetes, lancem pétalas e confetis, agitem a batuta que ordena a fanfarra, tragam à luz solar as imagens dos santos e das virgens de todas as esperas, agonias e remédios, devolvam aos anjinhos as costas, o sexo e as infâncias terrenas, levantem do chão os que se ajoelharam a pedir, façam transbordar nas taças o vinho guardado para dias raros, sequem as lágrimas e sacudam as penas, porque é chegado o fim do longo inverno sentimental da rapariga da papelaria. Enamorou-se. E vamos repetir, não vá parecer sonho, lapso ou invenção: a rapariga da papelaria enamorou-se. 
Respiram agora aliviadas as velhas que durante os últimos cinco anos viveram dedicadas a imaginar-lhe futuros ao lado de todos os rapazes bem parecidos e sem vícios. Ah, o pavor de a julgarem condenada a dormir de pés frios, eternamente diminuída à condição de mãe solteira! E se Alicita, pondo os olhos nela, lhe seguisse os passos e caísse um dia em igual armadilha? Nem é pelo que os outros pensam, isso é o de menos, garantem as velhas, mas não é triste ser só com tanta gente que há no mundo? 
A rapariga da papelaria sabe que, com a pressa de a acomodar num lugar feliz e seguro, as velhas exageram. E explica-me baixinho, debruçada no balcão: 
– Não é nada, é só uma pessoa um bocado mais especial. 
Mas a mãe, já sabemos, apanha-lhe todas as deixas, vira-as do avesso, mostra-lhe as pontas soltas:
– Dizes isso agora. Não tarda estás perdidinha de amor. Menina para cair na esparrela duas vezes és tu.
A rapariga despacha os assuntos da clientela, avia jornais e raspadinhas, faz e desfaz as contas e os trocos, que a vida continua e custa dinheiro.
– O amor não é para mim, mãe.
Fala com voz grossa ao destino para afugentar mais sofrimentos. Mas as velhas nem consideram o que diz porque já a sonham dignificada por um novo estado civil. Até se perguntam se será sensato casar de branco e se o pai de Alicita não ficará melindrado caso seja a menina a levar as alianças. 
– Então a miúda levou-as ao pai e não havia de as levar à mãe? Era o que faltava! 
A rapariga da papelaria não é tida nem achada. É no que dá ter escancarado o coração. A sua história ganhou autoria coletiva, cada um alvitra um parágrafo, supõe um capítulo, enreda um desfecho. Cá por mim, se me chamassem a dar palpite, escolheria para ela o vestido de noiva, o mais bonito que já vi em toda a minha vida, e que está desde a semana passada na montra da Jesus Peiro. Quem o criou há de ter sido tocado, de véspera, pela visão de um anjo. A rapariga da papelaria, a mais inocente e honesta entre todas as mulheres da vizinhança deste blog, caberia nele com justiça.

8.7.22

Parece mentira: seis horas da tarde e trinta e dois graus na invicta. Tal qual uma onda de calor emanada do asfalto, a viúva atravessa a rua com a subtileza dos infernos disfarçados. Velhos e novos derretem, porque um corpo assim naquela idade só lhes aparece em sonhos ou na televisão. Será, por milagre, ainda fértil? Aquela cintura merece bem o aperto de um braço viril, as costas descobertas estão mesmo a pedir uma língua sôfrega que as trepe até à concavidade da nuca e dali volte a descer até encontrar um tesouro, as nádegas portam-se como as da adolescência, afirmativas e despudoradas, e a viúva sabe muito bem usar nelas vestidos de padrões excêntricos que provocam vertigens ao andar. Ah, tantas curvas perigosas, tão boas de ver, quanto mais de mexer, se ela deixasse! Mas ninguém lhe conhece namorado, amante ou sequer amigo de maior intimidade que ao menos apimente as suas noites sem ficar para o almoço. Que pena gastar-se assim uma viuvez tão graciosa nas mãos de ninguém – hão de suspirar os homens ao revirar os olhos.
Dois caminhos opostos podem ter desembocado neste destino de provocação e distância que a viúva aparenta quando sabe que estão a vê-la passar: ou foi tão feliz com o falecido que por menos não se dá (um coração habituado ao luxo não vai estremecer com pechisbeque), ou, ao contrário, tão desgraçada viveu no casamento que não arrisca repetir e aplica a vingança nos homens sobrevivos, atiçando vontades que não faz tenções de saciar. 
A mãe da rapariga da papelaria, a quem a morte do marido precipitou numa existência de solidão e pessimismo, diz que a viuvez não é um estado civil, é um peso que uma pessoa carrega para o resto da vida. Quando a viúva passa, vira-lhe a cara. Acha-a ordinária e ofensiva. Se não quer refazer a vida, que necessidade tem de andar a exibir-se? pergunta, a fechar com ambas as mãos o casaquinho de malha cinzento sobre o peito há tanto tempo abandonado. Com este calorão, só pode estar doente.

15.6.22

A pretexto dessas formas de paternalismo idiota de que as mulheres são agora beneficiárias para  supõe-se  efeitos de reposição da justiça na poesia, na arte e no mundo em geral, escreveu há dias Diogo Vaz Pinto no "i". Vale muito a pena ler mas recomenda-se a máxima cautela aos simpatizantes de Valter Hugo Mãe e de aduladores da alma feminina em geral.

https://ionline.sapo.pt/artigo/772217/a-questao-feminina-na-poesia-portuguesa?seccao=Mais_i

14.6.22

Duas vezes por mês, a imperatriz vem de Penedono com o menino visitar os avós, mas não é isso que resolve a mágoa do senhor Pereira. O neto em visita pontual, definida por calendário e obrigação, não é o mesmo neto que, sendo herdeiro único do seu sobrenome e beneficiário maior do seu amor, estivesse agregado aos espaços da rotina, aos acasos do dia, às decisões miúdas que resolvem a vida. Este outro Joaquim, a cada quinze dias parece novo. Cresce tão depressa que estira os sentidos e atordoa o coração dos avós, já com pouca ginástica para cambalhotas. É como se, a cada vez, um estranho lhes entrasse em casa e quase é preciso começar do zero o reconhecimento dos rostos, o treino dos afetos, a apreensão das sílabas com que cada um se nomeia: a-vô-Al-mi-ro, a-vó-He-le-na. A piorar, a criança é reservada, ou não tivesse nascido sob essa influência saturnina que dá à gente de janeiro uma certa gravidade – os piegas chamam-lhe frieza – aligeirada ao cabo de largos anos de vida ou com a experiência de um amor sem sombra de dúvida. Pouco permeável a gracinhas, deixa quantas vezes os avós, as tias e até as primas em desânimo por não conseguirem fazê-lo rir com uma lengalenga, um jogo de mãos, um malabarismo. Com os seus olhos de verde aquático, os olhos magníficos da mãe, Joaquim acaba por rir de nada e quando não se espera, ri quando os outros se distraem, ri como se visse o que ninguém supõe que esteja à vista, ri como se tivesse vindo ao mundo pela porta do absurdo, que só costuma abrir a quem já leva uma carga de vidas no lombo ou tem um pé na insanidade.
Mas nem era a minha intenção debruçar-me sobre Joaquim. Já são demais as linhas que, nos últimos três anos, tenho escrito a propósito desta encantadora criança que estilhaçou o universo dos Pereira, revelando um fermento de invejas, rancores e paixões. O que aqui eu vinha contar era do senhor Pereira a dar a curva do pão quente com o peito enfunado, a distribuir boas palavras às senhoras, cumprimentando uma ou outra com mais esmero, interessando-se pelas trivialidades da vizinhança. A mim gaba-me o vestido, os cabelos compridos e arrumados, o livro de poucas páginas, se gastar menos tempo a ler, sobra-lhe para coisas melhores. Pergunta dos meus filhos, emociona-se com as novas que lhe dou do rapaz voador, enternece-se ao saber que, embora crescido, continua de humor robusto o menino com cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno.
– A menina tem sido uma mãe admirável. 
Ao mesmo tempo que me aprumo como se oferecesse o peito para receber a medalha – que tonta! –, forjo a modéstia com filosofia de vão de escada:
– Ora essa, todas as mães são admiráveis.
– Não é bem assim, menina, não é bem assim...
A resposta sai-lhe em esforço, carregadinha de dores. Talvez seja pela lembrança da própria mãe – a velha muito velha a quem Deus esqueceu de dar uns olhos que vissem ternura no mundo –, ou por alguma ideia infeliz sobre as próprias filhas, ou pode até ser que a ferida causada pela imperatriz continue em carne viva no seu peito, sensível à mínima deslocação do ar. Apanhado desprevenido, o meu coração compadece-se daqueles olhos líquidos que a tacanhez apequenou mais do que a idade. Nem sei que diga, como deitar a mão à repentina vulnerabilidade de um homem que, embora jamais me tenha feito mal, desarruma a gente ao seu redor assumindo como seus todos os direitos e toda a razão e dos outros todos os deveres e toda a culpa. Antes, porém, que me ocorra alguma ideia, ele recompõe-se, enfia as mãos nos bolsos e, despudorado, impiedoso:
– Mas, com todo o respeito e cá para nós que ninguém nos ouve, a menina também tem a tarefa facilitada, convenhamos.
– Tenho? – pergunto, medrosa da resposta que há de vir.
Escangalha-se a rir, num gozo infantilóide, quase obsceno:
– Só teve rapazes. Se tivesse tido meninas, nem lhe conto a trabalheira. São o diabo, as meninas, são todas o diabo.
E assim o senhor Pereira me poupa ao esforço de desenrascar paliativos para o acudir. Pelo contrário, despeço-me a pensar nas coisas horríveis que me sinto capaz de dizer-lhe. E em cada golpe que a minha imaginação desfere no seu patético orgulho, invisto toda a minha fúria, verto o supremo veneno das minhas palavras, escancaro as vergonhas que ele nem sonha que sei a seu respeito. Quando dobro a esquina, já o tenho de joelhos na minha mente, embora saiba que, atrás de mim, ele continua ereto e proprietário.

9.6.22

Um morto é sempre muito mais importante do que um vivo. Mas a sua importância só dura até outro morto o matar.

2.6.22

Nada me comovem as pessoas que lamentam ser incapazes de dizer não. A prontidão imediata para fazer jeitos e favores, coser remendos, tapar buracos, abrir portas, tem muito pouco que ver com bondade. Só os servis e os cobardes é que são incapazes de dizer não e a cobardia é, entre todas as debilidades do espírito, a que mais me repugna. 

31.5.22

Embora continuem com ar de enfado e falta de luz própria, levando-me a imaginar que foram concebidas sem o retoque final do êxtase, as meninas exemplares encaminham-se para a adolescência com uma beleza improvável. São resultado de um desses mistérios que leva amiúde dois seres pouco abençoados a combinarem os genes de forma interessante ou, pelo contrário, surpreende um casal de beldades com criaturas feiosas. Nem as manas Pereira nem os maridos invisíveis têm elegância de feições. Salva-os, em aspeto, o esmero com que se vestem e as boas maneiras em que, aliás, foram treinados ao ponto da hipocrisia social. Mas as meninas – primas, embora ligadas como irmãs no tempo que têm passado com a avó – superam essa ascendência e parecem agora redesenhar-se por mão própria, no sentido de uma fisionomia harmoniosa, delicada e fotogénica. 
Também Joaquim, nos primeiros meses de vida, parecia filho de ninguém. Mas com o tempo fomos vendo como nele se impunham as formas e as cores da imperatriz que, sendo recessivas, conseguiram dominar o sangue trivial dos Pereira até não haver, a olho nu, prova alguma da paternidade. As meninas exemplares fizeram caminho inverso, começando agora a libertar-se de pai e mãe ou a aceitar deles apenas os aspetos da herança que possam ser conjugados favoravelmente. A mulher do senhor Pereira é preciosa colaboração. Quando as tem a seu cargo, investe nos penteados, roupas, acessórios e demais mimos que nutrem a forma como espera que elas se façam mulheres. Gaba as senhorinhas e passa com elas na alameda como se exibisse a justa recompensa pelas filhas moralistas e ingratas que criou. As netas dão-lhe a impressão que, finalmente, o destino pagou uma dívida atrasada. Além de lindas, são obedientes e – por quanto tempo? – adoram-na como ninguém jamais. 

27.5.22

Os meus colegas devotam aos personagens das séries uma empatia que recusam à gente real. Gastam horas do dia a analisá-los com profundidade e indulgência, trocam ideias muito civilizadas acerca do que possa motivar os desvarios, os crimes, as vinganças e as molezas de caráter que alimentam o enredo. Compadecem-se: oh, quem nunca? Tanta e tão comovente humanidade, porém, esgota-se em frente ao ecrã. Para os outros, de carne osso, que habitam as durezas exteriores à ficção, os que estacionam em cima da rampa, assaltam o mercadinho da esquina, traem a melhor amiga, para esses é o quero lá saber, por mim até podem morrer, gente dessa não vale nada. A professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada também se deslumbra, nos poetas, com o mesmo que nos alunos lhe causa asco: desgraças morais, maus vícios, cinismo, arrogância, insurreição. Não é muito diferente dos meus colegas. Assemelham-se na preguiça sentimental, desperdiçam a nobreza do coração nas distâncias experimentadas a partir do sofá e da sonolência domingueira, mas cansa-lhes muito a gente insuportável de todos os dias. 

24.5.22

E então – diz-me a minha sobrinha emigrada na vizinhança da guerra – as coisas têm sido mais ou menos assim. 
Pega no telemóvel, dedos para trás e para diante a abrir as cortinas de um espetáculo de sangue e desespero, filmado por dentro. 
Estes são todos portugueses – explica-me – também lá estão mas ninguém diz nada e morrem como tordos no sobrevoo das cidades inflamadas para onde se lançam sem hesitar. Se pensam duas vezes, empurram-nos. É para isto, só para isto e nada mais, que durante meses ou anos se treinam os militares: para aperfeiçoarem a vocação do suicídio. Estes rapazes levantam voo no doce engano do romantismo, a juventude é traiçoeira e troca as voltas à significância dos verbos, fá-los tombar em sacrifício vão, no erro repetido, na desumanidade legitimada. Heróis serão as pessoas quotidianas e vulgares, que resistem a tudo sem uma causa maior, sem chamamento, promessa ou louvor.
E anda uma mãe a criar um filho para isto – suspira agora a minha irmã. Estranho-a, não é habitual socorrer-se de chavões. Mas testemunhando aquele horror, vendo a rapidez com que o fogo consome os paraquedistas como se fossem papel, quem se preocupa em ser elegante ou original? E, verdade seja dita, com meia dúzia de máximas e provérbios se conta a tragédia humana. A culpa de nos supormos maiores ou merecedores de mais é de poetas e dramaturgos.
Acordo então em sobressalto, acendo a luz, agarro-me com unhas, dentes e razão à realidade possível, à solidez do quarto, estarão bem os meus filhos? Na minha cabeça ainda ardem os rapazes, a sua carne viva continua a derreter, a sua bravura desmaterializa-se debaixo dos olhos de deus e da humanidade. São quatro da manhã, a mais imisericordiosa das horas noturnas. Desfaço a cama toda nas voltas do corpo. Os paraquedistas ainda ardem. Creio então que, pela primeira vez na vida, pego num livro no meio da noite e leio, leio, leio, leio até ao canto dos pássaros, que é a salvação dos insones.