14.9.22

Não julgues que me desencaminham as voltas da tua língua. Jamais abandono o meu posto de vigia. É de olhos bem abertos que meço a tua competência e avalio o homem que fizeste do homem que a tua mãe pariu. Podes entrar e sair calado, de tudo o que possas valer o que menos importa é o que digas. O meu ofício é manobrar palavras, sei melhor do que tu como se puxa o lustro a uma mentira e se enreda a história justa ao sonho de cada um. Calado. Nem sequer tentes responder aos meus enigmas, resolver a minha melancolia, mediar os meus conflitos com o mundo. Tenho ambições bem maiores do que a felicidade. 

13.9.22

Há duas semanas que o foco das notícias, análises e preocupações sobre o início das aulas demonstra, uma vez mais, que não vamos ser capazes de ultrapassar a mediocridade habitual. Que volta haverá a dar a uma sociedade cujo sistema de ensino sofre do cancro da burocracia, do défice de visão, do vício das percentagens, da depressão crónica? Repetindo os mesmos erros seremos eternamente obrigados a lidar com os mesmos resultados. E o estado das crianças e adolescentes, a quem tem sido atribuída boa parte da causa do desastre, não é senão a sua maior e mais dramática consequência. 

12.9.22

Tenho lido por aí, entre blogs e jornais, que as tropas russas estão com a moral muito em baixo. Acredito que sim porque ir à guerra, seja qual for o lado da trincheira, é sempre um exercício de imoralidade. Só com um considerável desbaste na moral, enquanto coletivo ou indivíduo, se consegue levar a cabo atos de destruição e desumanidade. Mas o que me parece que querem dizer nos últimos dias é que as tropas estão com o moral em baixo. Ou seja, perderam ânimo e motivação. Estão desmoralizadas. A moral e o moral têm géneros diferentes porque significam coisas distintas. E nem sempre quando falha uma se ressente a outra.

11.9.22

No corpo nu do rapaz voador, aplico os curativos com a suavidade que só as mães e aproveito para adular toda a sua perfeição, de amorosa autoria, que nenhuma chaga corrompe. Não recuo nem vacilo. Mais do que as minhas, são as dores dos meus filhos que me fortalecem. Antes deles, sabia a ideia de que o tempo todas cura ou de alguma forma arruma e isso, por ser verdade, foi sempre o bastante. Mas com as dores deles aprendo a caminhar como os faquires. Não se trata mais do tempo que levarão a curar, mas do quanto me aguento impávida sobre fogo e lâminas para não os deixar tombar. 

8.9.22

Como uma grande parte das mulheres, não só da sua como de outras gerações, a mulher do senhor Pereira é acostumada a acreditar na própria culpa. A culpa das tentações que precipitam grandes desastres mas, miseravelmente, também dos incidentes ligeiros do quotidiano. Por isso vem a correr rua acima, afoita e ruborizada, e, mal abrandando para um cumprimento, justifica-se com o corpo todo torcido, que é a maneira de poder olhar para mim sem descurar o sentido e a urgência da marcha: quase me esquecia de ir ao pão. Não fosse o meu marido lembrar-me e nem uma fatiazianha na mesa. Desculpe a pressa, tenho tudo ao lume. Uma querida, tão grata ao senhor Pereira por lhe avivar a memória das tarefas que, por mútuo acordo, são da sua competência. Sem tempo para responder qualquer coisa cortês e inútil, fico a vê-la sumir na rua, dando magnífica prova da habilidade com que uma mulher pode equilibrar a aflição da criada sobre os elevados sapatos de marca da senhora.

6.9.22

O corpo do menino com cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno transborda da cama. As irregularidades ósseas absorveram já todos os nacos arredondados de carne em cujos sulcos eu perdia o nariz à procura de aromas lácteos, restos de poeira e ventania, vestígios de rebuçado. Às paredes do quarto trepam os cheiros primordiais da adolescência e eu abro a janela com a ilusão de poder espantar aquele futuro iminente, cheio de perigos e corrupção. Queixa-se da corrente de ar, defende-se, mas o tamanho do lençol já é pouco para acudir ao arrepio. Estranho-o como a um animal que ocupasse o ninho alheio. A voz é um rugido sem domínio, o apetite não acha satisfação, os dedos das mãos alongam-se como garras a segurar o travesseiro. Tudo é urgência, importância, paixão, vida ou morte, exuberância, fertilidade. Em tamanho, não tardará a ultrapassar o rapaz voador, ainda que dificilmente o iguale em destreza e ousadia. Longos veraneios a uma sã distância da minha autoridade vão fazendo dele um homenzinho porque, quando é de um cais sólido que se parte, a liberdade nutre toda a substância do corpo e mais ainda a do espírito. E agora que se ouvem os passos do outono nas redondezas, volta para casa assim: com mais um palmo de altura e dois ou três de independência.

31.8.22

Soa-me estranha essa maneira romantizada, eufemística, de tratar os mortos dizendo que desapareceram, partiram ou já não estão entre nós – sei lá eu se estão e apenas não tenho olhos de os ver! Uns, apavorados da própria finitude, talvez creiam que o que não é nomeado não é invocado. Para outros, ignorar a ideia substantiva da morte e o seu par de sílabas concretas pode ser a única forma de lhe recusar o exercício de autoridade sobre os Homens. O que nos é impossível dominar com a ciência, o dinheiro ou a violência, forjamos pela via do verbo.

28.8.22

Não seria de esperar que me custasse cada vez mais suportar as conversas à roda da sabedoria e de outras grandezas da maturidade. São tão férteis em clichés os que falam de cima e com desdém sobre os mais novos, esses que estudaram, trabalharam, casaram, fizeram filhos, multiplicaram-nos por netos, criaram raízes, nutriram bolores, e são agora proprietários de casas, saudosismos, arrogâncias, poupanças, segredos, arrependimentos e ossos fracos. Além de cansaço, o que dão a mais o tempo cumprido de rotina, a voluntária escravatura, a dobra nas costas, as faturas todas pagas no prazo? E mesmo os livros lidos, os consumos pagos de cultura e espetáculo, a dedicação às religiões, os carimbos no passaporte, um ou outro prémio ganho por qualquer coisa em breve esquecida, e até os delitos praticados, as dores provocadas e sofridas, quão mais perto do absoluto e da razão nos levam? Os miúdos de agora, que tristeza, dizem. Tristeza é não haver mais o que fazer com tudo o que se tem a ilusão de ter aprendido e, só porque a marcha vai agora mais lenta e está mais perto de findar, rir dos que ainda vêm lá atrás aos tropeções. 

26.8.22

Às vezes – raras vezes –  dou comigo a julgar que tenho uma certeza. E ter uma certeza, pese embora a insanidade e o equívoco, pode ser a diferença entre pasmar ou dar um passo em qualquer sentido. Infelizmente, ainda antes de dar o passo, esboroa-se em três tempos a certeza porque logo me ponho a analisar todos os matizes do seu reverso. Pensar é um hábito muito civilizado mas está longe de ser uma boa estratégia de sobrevivência.

20.8.22

Lígia, a mais velha das manas Pereira, está a aquecer os nervos para a maratona do próximo ano letivo. A decisão de retirar a sua menina exemplar à guarda do colégio privado que desde os três anos tem sido segunda casa para a largar numa escola pública, pede-lhe uma musculatura emocional nova, resistente aos próprios temores e às opiniões alheias. Mordiscam-lhe já a alma culpas que jamais havia sentido e, entre todas, a pior é a impressão de estar a abandonar a filha. O resto da família só desajuda. Cutucam-lhe as sensibilidades listando toda a sorte de misérias do ensino providenciado pelo Estado, a começar pela incompetência técnica, passando pela anedota das atividades extracurriculares e pela duvidosa qualidade da alimentação e indo, por fim, desaguar ao que lhes é verdadeiramente importante: a exposição a perigos oriundos de certas zonas cavernosas da sociedade, onde a doutrina do vício, da insurreição e da linguagem ordinária é absorvida desde o ventre das mães. Há necessidade de tirar a menina de onde está, se está tão bem? É dinheiro? Que diga, pois isso é o de menos, insistem os avós Pereira. Não, não é dinheiro. Lígia, embora assustada de morte, tem uma convicção que seria comovente se não se tratasse de uma vulgar snobeira, uma bagatela da sociologia do salão de chá:
– Quero que a minha filha tenha contacto com todo o tipo de pessoas.
Pobre mana Pereira, tanto esforço para maquilhar a mediania da inteligência e a ligeireza do caráter, tanto tempo a estudar modos vários de ter opinião própria em workshops e livros de venda fácil, e é isto. Supondo que existe aquilo a que chama de "tipo de pessoa", perguntamo-nos a que tipo terá ela a ilusão de pertencer? Pobre mana Pereira, que atravessa as noites de insónia a cismar nas decisões mínimas do quotidiano, ponderando o peso que cada palavrinha dita ou por dizer terá no futuro da filha, esquematizando os caminhos  e incluindo os atalhos – que desembocam no êxito ou na infelicidade, na grandeza ou na delinquência. E à sua alma confusa, que se distrai na superfície das coisas, não ocorre que estes não sejam destinos alternativos ou opostos, que o mundo pode ser, afinal, um sarilho de sobreposições, uma infinidade de matizes, e que dentro da alma de cada "tipo" que se mostra, há centenas de outros "tipos" que se calam ou morreram, por acasos, no caminho. Sossegue, Lígia, pois onde quer que a sua menina esteja, está invariavelmente com "todo o tipo de pessoas".

18.8.22

Sempre pensei a inveja como uma besta sórdida e rasteira a que a minha superioridade moral não vergaria. É, entre os pecados capitais, o único que não tem como aparentar graça, charme, fibra, desafio, convicção, energia, nem mesmo visto sob o toldo de um estado de enamoramento ou com recurso a eufemismos. Até conheço, com mais ou menos vergonha, o gosto encorpado da soberba e da avareza, assumo os ímpetos cegos e eletrizantes da ira e da luxúria, demoro nos prazeres da gula e da preguiça, a quem poucos negam simpatia. Tenho, como prova da minha humanidade, vontades alimentadas à boca por todos os pecados. Exceto a inveja. Invejar porquê, se toda a medalha tem no reverso gravuras de dor, perda ou desalento? Um destes dias, porém, talvez porque me tenha apanhado sem ocupação de valor ou distraída das coisas fundamentais, a inveja cravou-me os dentes em cheio na razão e pôs-me a correr no sangue esse veneno perverso, que inebria, revira os olhos, sorri pela frente e maldiz no escuro. Lutei contra ela a noite inteira, implorando a minha lucidez de volta, e da batalha sobrou uma desarrumação tal que ao levantar-me pela manhã tinha perdido os pontos cardeais e a firmeza de pisar o solo. Confesso-me assim sem receio de ser julgada porque uma pessoa – qualquer pessoa – tem sentimentos e entre tantos que tem, há sempre alguns que são como os filhos degenerados: uma vergonha para a qual se inventa mil histórias que desculpem. 

12.8.22

Finalmente agosto entristeceu nas ruas da cidade. Agrada-me estar por cá nesta altura, há silêncio e suavidade no ar, ninguém está interessado em grandes resoluções e as pressas são injustificadas. Na avenida, manhã cedo, paira uma névoa doce que me lembra o feliz veraneio da minha infância. Revejo-me de mão dada com a minha irmã mais velha em direção à praia, ela a cantar a Valsinha e eu a sonhar os meus legítimos sonhos sobre um par de pernas bailarinas. 
A professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada passa o seu agosto na resignação costumeira. Desce a alameda a arrastar-se como um animal velho, indisposto às caçadas, sem mais vocação para a sobrevivência. Ainda não foi desta que se meteu num avião para visitar o rapaz em Barcelona e também não consta que ele venha suar os calores do estio nos braços da sua mãe. Há de vir pelo Natal, diz ela todos os anos. E o gesto que faz com a mão imita o das pessoas compreensivas e relaxadas, mas é na verdade tão dorido como o de qualquer desgosto de amor. O rapaz é bom filho, toda a gente sabe. Mas é jovem, tem ganas de espaço e liberdade, vai adiando a mãe porque a mãe é certa e segura, pertence-lhe, já foram corpos de um só corpo, não a concebe morta ou indisponível. Talvez um dia, quando a separação se der definitiva, sofra a culpa de tão longas ausências. 
– Caramba, Barcelona é já ali, num instantinho a sôtora se põe lá. – diz-lhe a cabeleireira, sempre com ganas de pôr a girar os carrosséis da vida. Mas a professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada tem direito ao desalento e à concavidade do sofá. Tem também direito a fingir que a sua solidão adoentada, suja de pastéis, nicotina e ansiolíticos, tem os brilhos charmosos da independência.
– Andar práqui e pracolá não é do meu feitio. Quem me tira o meu sossego, o meu cantinho, os meus livros, tira-me tudo.
– E vai deixar agosto fugir assim... – lamenta a cabeleireira, ansiosa que lhe perguntem em que praia vai ela torrar o corpo, frente e verso, durante a próxima quinzena.
Mas à professora, para quem os dias, as semanas e os meses se sucedem sem grande propósito, como contas de um longo e penoso rosário, à professora agosto não foge, só se converte em setembro. 

8.8.22

Durante a vaga de calor, os meus sonhos noturnos alcançaram o cume da malícia, da desgraça e da glória. Intermitentes e transpirados, enredaram e desenredaram compulsivamente como certas maneiras de narrar que desprezam os rigores da forma para (ou por) efeitos de atordoamento mental. Esqueci-os entretanto quase todos. Não durmo com lápis e papel à cabeceira, embora saiba que das viagens do inconsciente se pode extrair matéria preciosa para fins diversos e quase sempre úteis às artes e à ciência. Só lembro ainda bem, talvez pela estrutura coerente – a memória engata melhor na lógica do que no absurdo – aquele em que a minha amiga Eduarda decidiu voltar para a terra das auroras boreais. Veio despedir-se de mim de madrugada. Dentro do carro, o marido ao volante, as crias chorosas aninhadas no banco traseiro, ela apressando o abraço, depois os acenos, temos de ir, temos de ir, e tudo no seu rosto era pavor e desespero. Não foi a partida dela que me angustiou, somos já habituadas a esta forma de amizade. Foi o breu e a ideia de que a emigração, repetida pela segunda vez na sua vida, não mais era um projeto ambicioso, mas antes uma fuga, uma urgência, um ato clandestino. Qualquer coisa os perseguia com ganas de besta selvagem, qualquer coisa como um colapso, uma miséria, uma vergonha, um crime, um país faminto a chupar até aos ossos a dignidade dos seus filhos. Mais um sussurro pela frincha da janela, adeus, e o automóvel arrancou. A noite abocanhou-os num tumulto de poeira e vento, primeiro engoliu as formas, pouco a pouco a luz dos faróis e finalmente o ronco do motor, até a solidão, por demais aflitiva, me despertar. Mas é sempre tão demorado e difícil o tempo que as impressões dos sonhos levam para se desprenderem do corpo! 

4.8.22

Não ter televisão nem perfil nas redes sociais torna-me beneficiária dos esforços e da piedosa atenção de muita gente. Há uns anos, um rapaz de uma operadora perguntou-me se eu não gostaria de conhecer o incrível privilégio de me estender no sofá ao fim do dia a ver umas noticiazinhas ou um programazinho de entretenimento, sem pensar em mais nada. Fiquei sem fala. Para muitos, aderir, estar e ter são direitos que só por ignorância não se aproveitam. Supõem-me uma retardada, mas é recíproco. Porque para mim, precioso e consciente é o direito de recusar.

3.8.22

Não me causam ciúme, fascínio ou pena as coisas anteriores a mim na tua vida. Sobre elas não perguntarei detalhes, formas, colorações, relevos, menos ainda causas e consequências. Dispenso ouvir as tuas dores, que já as minhas bastam nas rugas do corpo e do lençol. Sei que o lamento dos homens costuma enfeitiçar o coração de mulheres impressionáveis, porque mascara às vezes muito bem os cobardes com o estilo profundo dos sensíveis. Pois a mim só me importa a tua superfície: a pele em toda a amplitude, a temperatura favorável, o sangue a acorrer ao lugar certo, a navegação amorosa, a ternura breve e inócua da manhã seguinte.

2.8.22

Mais tarde, depois de as velhas dispersarem e de a mãe sair para apanhar Alicita na vinda da colónia, a rapariga da papelaria toma o pretexto de um assunto menor para me falar. E, por qualquer razão que me escapa, como se alguma culpa a consumisse, lança-se de repente a explicar.
–  Os homens da minha idade são muito infantis, não me interessam. Este é uma pessoa madura.
Satisfações, sei lá eu por que mas dá. Suponho que ande em busca de quem não lhe aponte a cama onde deva deitar-se só porque tem de ser ou devia ser ou seria melhor que fosse ou isto e aquilo. Não a noto mais leve ou feliz, o que me leva a duvidar da conveniência deste novo amor. Continua vaga, ausente e desambiciosa, como habitando um sonho onde tudo é decidido por ventos e casualidades. Admito que essa melancolia obstinada tenha o seu encanto e por algum motivo o Marco do ginásio ainda pasma defronte da papelaria, sem se importar que os olhos da manicura sonsa reparem no delito. É um homem banal, vive com ganas de derrubar muralhas e quanto mais altas e firmes, mais forte é o ímpeto pois daí lhe virá maior impressão da vitória. Infelizmente para ele, devolver à vida uma alma que por vício e conforto é desiludida requer trabalhos de outra ordem. E nem sempre aquele que tem musculatura para abater o obstáculo a tem para sustentar a consequência. A rapariga da papelaria sabe-o e por isso nunca olhou para ele por mais tempo do que o necessário às contas e trocados. Agora, quem lhe restitui a esperança numa vida que caiba no senso estreito da mãe, das velhas e do seu próprio romantismo – cheios de boas intenções mas nem por isso razoáveis –, é, portanto, uma pessoa madura. Falta-nos só saber como se define tal figura no dicionário de uma tontinha. 

20.7.22

A gente viciada em opinião perde às vezes o sentido da sua economia. Desbarata-a como outros desbaratam tempo ou dinheiro, sem critério ou proporção, empenha-a em tudo o que bule, brilha, mancha e até no que está quieto. Temem que, se calarem, os enfiem no saco dos que consentem. Como se não houvesse tantas evidências opostas ao provérbio, tanto consentimento ruidoso, tanta resignação espalhafatosa, tantos ombros encolhidos em compasso da gritaria.

19.7.22

Toquem os sinos, deitem foguetes, lancem pétalas e confetis, agitem a batuta que ordena a fanfarra, tragam à luz solar as imagens dos santos e das virgens de todas as esperas, agonias e remédios, devolvam aos anjinhos as costas, o sexo e as infâncias terrenas, levantem do chão os que se ajoelharam a pedir, façam transbordar nas taças o vinho guardado para dias raros, sequem as lágrimas e sacudam as penas, porque é chegado o fim do longo inverno sentimental da rapariga da papelaria. Enamorou-se. E vamos repetir, não vá parecer sonho, lapso ou invenção: a rapariga da papelaria enamorou-se. 
Respiram agora aliviadas as velhas que durante os últimos cinco anos viveram dedicadas a imaginar-lhe futuros ao lado de todos os rapazes bem parecidos e sem vícios. Ah, o pavor de a julgarem condenada a dormir de pés frios, eternamente diminuída à condição de mãe solteira! E se Alicita, pondo os olhos nela, lhe seguisse os passos e caísse um dia em igual armadilha? Nem é pelo que os outros pensam, isso é o de menos, garantem as velhas, mas não é triste ser só com tanta gente que há no mundo? 
A rapariga da papelaria sabe que, com a pressa de a acomodar num lugar feliz e seguro, as velhas exageram. E explica-me baixinho, debruçada no balcão: 
– Não é nada, é só uma pessoa um bocado mais especial. 
Mas a mãe, já sabemos, apanha-lhe todas as deixas, vira-as do avesso, mostra-lhe as pontas soltas:
– Dizes isso agora. Não tarda estás perdidinha de amor. Menina para cair na esparrela duas vezes és tu.
A rapariga despacha os assuntos da clientela, avia jornais e raspadinhas, faz e desfaz as contas e os trocos, que a vida continua e custa dinheiro.
– O amor não é para mim, mãe.
Fala com voz grossa ao destino para afugentar mais sofrimentos. Mas as velhas nem consideram o que diz porque já a sonham dignificada por um novo estado civil. Até se perguntam se será sensato casar de branco e se o pai de Alicita não ficará melindrado caso seja a menina a levar as alianças. 
– Então a miúda levou-as ao pai e não havia de as levar à mãe? Era o que faltava! 
A rapariga da papelaria não é tida nem achada. É no que dá ter escancarado o coração. A sua história ganhou autoria coletiva, cada um alvitra um parágrafo, supõe um capítulo, enreda um desfecho. Cá por mim, se me chamassem a dar palpite, escolheria para ela o vestido de noiva, o mais bonito que já vi em toda a minha vida, e que está desde a semana passada na montra da Jesus Peiro. Quem o criou há de ter sido tocado, de véspera, pela visão de um anjo. A rapariga da papelaria, a mais inocente e honesta entre todas as mulheres da vizinhança deste blog, caberia nele com justiça.

8.7.22

Parece mentira: seis horas da tarde e trinta e dois graus na invicta. Tal qual uma onda de calor emanada do asfalto, a viúva atravessa a rua com a subtileza dos infernos disfarçados. Velhos e novos derretem, porque um corpo assim naquela idade só lhes aparece em sonhos ou na televisão. Será, por milagre, ainda fértil? Aquela cintura merece bem o aperto de um braço viril, as costas descobertas estão mesmo a pedir uma língua sôfrega que as trepe até à concavidade da nuca e dali volte a descer até encontrar um tesouro, as nádegas portam-se como as da adolescência, afirmativas e despudoradas, e a viúva sabe muito bem usar nelas vestidos de padrões excêntricos que provocam vertigens ao andar. Ah, tantas curvas perigosas, tão boas de ver, quanto mais de mexer, se ela deixasse! Mas ninguém lhe conhece namorado, amante ou sequer amigo de maior intimidade que ao menos apimente as suas noites sem ficar para o almoço. Que pena gastar-se assim uma viuvez tão graciosa nas mãos de ninguém – hão de suspirar os homens ao revirar os olhos.
Dois caminhos opostos podem ter desembocado neste destino de provocação e distância que a viúva aparenta quando sabe que estão a vê-la passar: ou foi tão feliz com o falecido que por menos não se dá (um coração habituado ao luxo não vai estremecer com pechisbeque), ou, ao contrário, tão desgraçada viveu no casamento que não arrisca repetir e aplica a vingança nos homens sobrevivos, atiçando vontades que não faz tenções de saciar. 
A mãe da rapariga da papelaria, a quem a morte do marido precipitou numa existência de solidão e pessimismo, diz que a viuvez não é um estado civil, é um peso que uma pessoa carrega para o resto da vida. Quando a viúva passa, vira-lhe a cara. Acha-a ordinária e ofensiva. Se não quer refazer a vida, que necessidade tem de andar a exibir-se? pergunta, a fechar com ambas as mãos o casaquinho de malha cinzento sobre o peito há tanto tempo abandonado. Com este calorão, só pode estar doente.

15.6.22

A pretexto dessas formas de paternalismo idiota de que as mulheres são agora beneficiárias para  supõe-se  efeitos de reposição da justiça na poesia, na arte e no mundo em geral, escreveu há dias Diogo Vaz Pinto no "i". Vale muito a pena ler mas recomenda-se a máxima cautela aos simpatizantes de Valter Hugo Mãe e de aduladores da alma feminina em geral.

https://ionline.sapo.pt/artigo/772217/a-questao-feminina-na-poesia-portuguesa?seccao=Mais_i

14.6.22

Duas vezes por mês, a imperatriz vem de Penedono com o menino visitar os avós, mas não é isso que resolve a mágoa do senhor Pereira. O neto em visita pontual, definida por calendário e obrigação, não é o mesmo neto que, sendo herdeiro único do seu sobrenome e beneficiário maior do seu amor, estivesse agregado aos espaços da rotina, aos acasos do dia, às decisões miúdas que resolvem a vida. Este outro Joaquim, a cada quinze dias parece novo. Cresce tão depressa que estira os sentidos e atordoa o coração dos avós, já com pouca ginástica para cambalhotas. É como se, a cada vez, um estranho lhes entrasse em casa e quase é preciso começar do zero o reconhecimento dos rostos, o treino dos afetos, a apreensão das sílabas com que cada um se nomeia: a-vô-Al-mi-ro, a-vó-He-le-na. A piorar, a criança é reservada, ou não tivesse nascido sob essa influência saturnina que dá à gente de janeiro uma certa gravidade – os piegas chamam-lhe frieza – aligeirada ao cabo de largos anos de vida ou com a experiência de um amor sem sombra de dúvida. Pouco permeável a gracinhas, deixa quantas vezes os avós, as tias e até as primas em desânimo por não conseguirem fazê-lo rir com uma lengalenga, um jogo de mãos, um malabarismo. Com os seus olhos de verde aquático, os olhos magníficos da mãe, Joaquim acaba por rir de nada e quando não se espera, ri quando os outros se distraem, ri como se visse o que ninguém supõe que esteja à vista, ri como se tivesse vindo ao mundo pela porta do absurdo, que só costuma abrir a quem já leva uma carga de vidas no lombo ou tem um pé na insanidade.
Mas nem era a minha intenção debruçar-me sobre Joaquim. Já são demais as linhas que, nos últimos três anos, tenho escrito a propósito desta encantadora criança que estilhaçou o universo dos Pereira, revelando um fermento de invejas, rancores e paixões. O que aqui eu vinha contar era do senhor Pereira a dar a curva do pão quente com o peito enfunado, a distribuir boas palavras às senhoras, cumprimentando uma ou outra com mais esmero, interessando-se pelas trivialidades da vizinhança. A mim gaba-me o vestido, os cabelos compridos e arrumados, o livro de poucas páginas, se gastar menos tempo a ler, sobra-lhe para coisas melhores. Pergunta dos meus filhos, emociona-se com as novas que lhe dou do rapaz voador, enternece-se ao saber que, embora crescido, continua de humor robusto o menino com cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno.
– A menina tem sido uma mãe admirável. 
Ao mesmo tempo que me aprumo como se oferecesse o peito para receber a medalha – que tonta! –, forjo a modéstia com filosofia de vão de escada:
– Ora essa, todas as mães são admiráveis.
– Não é bem assim, menina, não é bem assim...
A resposta sai-lhe em esforço, carregadinha de dores. Talvez seja pela lembrança da própria mãe – a velha muito velha a quem Deus esqueceu de dar uns olhos que vissem ternura no mundo –, ou por alguma ideia infeliz sobre as próprias filhas, ou pode até ser que a ferida causada pela imperatriz continue em carne viva no seu peito, sensível à mínima deslocação do ar. Apanhado desprevenido, o meu coração compadece-se daqueles olhos líquidos que a tacanhez apequenou mais do que a idade. Nem sei que diga, como deitar a mão à repentina vulnerabilidade de um homem que, embora jamais me tenha feito mal, desarruma a gente ao seu redor assumindo como seus todos os direitos e toda a razão e dos outros todos os deveres e toda a culpa. Antes, porém, que me ocorra alguma ideia, ele recompõe-se, enfia as mãos nos bolsos e, despudorado, impiedoso:
– Mas, com todo o respeito e cá para nós que ninguém nos ouve, a menina também tem a tarefa facilitada, convenhamos.
– Tenho? – pergunto, medrosa da resposta que há de vir.
Escangalha-se a rir, num gozo infantilóide, quase obsceno:
– Só teve rapazes. Se tivesse tido meninas, nem lhe conto a trabalheira. São o diabo, as meninas, são todas o diabo.
E assim o senhor Pereira me poupa ao esforço de desenrascar paliativos para o acudir. Pelo contrário, despeço-me a pensar nas coisas horríveis que me sinto capaz de dizer-lhe. E em cada golpe que a minha imaginação desfere no seu patético orgulho, invisto toda a minha fúria, verto o supremo veneno das minhas palavras, escancaro as vergonhas que ele nem sonha que sei a seu respeito. Quando dobro a esquina, já o tenho de joelhos na minha mente, embora saiba que, atrás de mim, ele continua ereto e proprietário.

9.6.22

Um morto é sempre muito mais importante do que um vivo. Mas a sua importância só dura até outro morto o matar.

2.6.22

Nada me comovem as pessoas que lamentam ser incapazes de dizer não. A prontidão imediata para fazer jeitos e favores, coser remendos, tapar buracos, abrir portas, tem muito pouco que ver com bondade. Só os servis e os cobardes é que são incapazes de dizer não e a cobardia é, entre todas as debilidades do espírito, a que mais me repugna. 

31.5.22

Embora continuem com ar de enfado e falta de luz própria, levando-me a imaginar que foram concebidas sem o retoque final do êxtase, as meninas exemplares encaminham-se para a adolescência com uma beleza improvável. São resultado de um desses mistérios que leva amiúde dois seres pouco abençoados a combinarem os genes de forma interessante ou, pelo contrário, surpreende um casal de beldades com criaturas feiosas. Nem as manas Pereira nem os maridos invisíveis têm elegância de feições. Salva-os, em aspeto, o esmero com que se vestem e as boas maneiras em que, aliás, foram treinados ao ponto da hipocrisia social. Mas as meninas – primas, embora ligadas como irmãs no tempo que têm passado com a avó – superam essa ascendência e parecem agora redesenhar-se por mão própria, no sentido de uma fisionomia harmoniosa, delicada e fotogénica. 
Também Joaquim, nos primeiros meses de vida, parecia filho de ninguém. Mas com o tempo fomos vendo como nele se impunham as formas e as cores da imperatriz que, sendo recessivas, conseguiram dominar o sangue trivial dos Pereira até não haver, a olho nu, prova alguma da paternidade. As meninas exemplares fizeram caminho inverso, começando agora a libertar-se de pai e mãe ou a aceitar deles apenas os aspetos da herança que possam ser conjugados favoravelmente. A mulher do senhor Pereira é preciosa colaboração. Quando as tem a seu cargo, investe nos penteados, roupas, acessórios e demais mimos que nutrem a forma como espera que elas se façam mulheres. Gaba as senhorinhas e passa com elas na alameda como se exibisse a justa recompensa pelas filhas moralistas e ingratas que criou. As netas dão-lhe a impressão que, finalmente, o destino pagou uma dívida atrasada. Além de lindas, são obedientes e – por quanto tempo? – adoram-na como ninguém jamais. 

27.5.22

Os meus colegas devotam aos personagens das séries uma empatia que recusam à gente real. Gastam horas do dia a analisá-los com profundidade e indulgência, trocam ideias muito civilizadas acerca do que possa motivar os desvarios, os crimes, as vinganças e as molezas de caráter que alimentam o enredo. Compadecem-se: oh, quem nunca? Tanta e tão comovente humanidade, porém, esgota-se em frente ao ecrã. Para os outros, de carne osso, que habitam as durezas exteriores à ficção, os que estacionam em cima da rampa, assaltam o mercadinho da esquina, traem a melhor amiga, para esses é o quero lá saber, por mim até podem morrer, gente dessa não vale nada. A professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada também se deslumbra, nos poetas, com o mesmo que nos alunos lhe causa asco: desgraças morais, maus vícios, cinismo, arrogância, insurreição. Não é muito diferente dos meus colegas. Assemelham-se na preguiça sentimental, desperdiçam a nobreza do coração nas distâncias experimentadas a partir do sofá e da sonolência domingueira, mas cansa-lhes muito a gente insuportável de todos os dias. 

24.5.22

E então – diz-me a minha sobrinha emigrada na vizinhança da guerra – as coisas têm sido mais ou menos assim. 
Pega no telemóvel, dedos para trás e para diante a abrir as cortinas de um espetáculo de sangue e desespero, filmado por dentro. 
Estes são todos portugueses – explica-me – também lá estão mas ninguém diz nada e morrem como tordos no sobrevoo das cidades inflamadas para onde se lançam sem hesitar. Se pensam duas vezes, empurram-nos. É para isto, só para isto e nada mais, que durante meses ou anos se treinam os militares: para aperfeiçoarem a vocação do suicídio. Estes rapazes levantam voo no doce engano do romantismo, a juventude é traiçoeira e troca as voltas à significância dos verbos, fá-los tombar em sacrifício vão, no erro repetido, na desumanidade legitimada. Heróis serão as pessoas quotidianas e vulgares, que resistem a tudo sem uma causa maior, sem chamamento, promessa ou louvor.
E anda uma mãe a criar um filho para isto – suspira agora a minha irmã. Estranho-a, não é habitual socorrer-se de chavões. Mas testemunhando aquele horror, vendo a rapidez com que o fogo consome os paraquedistas como se fossem papel, quem se preocupa em ser elegante ou original? E, verdade seja dita, com meia dúzia de máximas e provérbios se conta a tragédia humana. A culpa de nos supormos maiores ou merecedores de mais é de poetas e dramaturgos.
Acordo então em sobressalto, acendo a luz, agarro-me com unhas, dentes e razão à realidade possível, à solidez do quarto, estarão bem os meus filhos? Na minha cabeça ainda ardem os rapazes, a sua carne viva continua a derreter, a sua bravura desmaterializa-se debaixo dos olhos de deus e da humanidade. São quatro da manhã, a mais imisericordiosa das horas noturnas. Desfaço a cama toda nas voltas do corpo. Os paraquedistas ainda ardem. Creio então que, pela primeira vez na vida, pego num livro no meio da noite e leio, leio, leio, leio até ao canto dos pássaros, que é a salvação dos insones.

18.5.22

Antes de abrir o salão, Gabi passa à porta do ginásio, aninha-se na musculatura do amante e prolonga os beijos como se fossem os últimos. Gosta de exibir os benefícios da sua conquista, sabe que o Marco é o ai jesus das velhas, quantas vezes as ouviu, à roda das raspadinhas, a suspirar pela felicidade dele, tomara que encontre uma mulher que o trate bem. Pois então, ei-la. Pertence-lhe o prémio porque teve o mérito e enganaram-se os que supunham que o destino reservaria para ele um final feliz com a rapariga da papelaria, essa que vive de cara amarrada e a quem o abandono tornou desdenhosa ao invés de humilde. Era o que faltava, o amor não é o fruto de acasos e nem sequer floresce na desarrumação sentimental ou na sombra de espíritos desiludidos. Está escrito nas revistas do salão, seis dicas infalíveis para conquistá-lo e nenhuma é fazer-se de coitada. Gabi aplicou-se muito, riu das graças dele, adequou as maneiras, os interesses, aprendeu sobre proteína e burpees e tornou-se uma dessas ex-fumadoras cheias de moral e arrogância que tomam para si a tarefa de orientar os mais fracos: nem sabes o mal que isso te faz. A cabeleireira encanita-se, querem lá ver que já não se pode fumar um cigarro em paz? e nestas alturas talvez lhe dê uma saudade franca da outra manicura, tão desastrada nas conjugações pronominais como lúcida na análise dos fenómenos amorosos. Podia ter igualado a proposta do salão do centro da cidade e talvez ainda a tivesse por lá, cheia de graça e exuberância, disputando com a dona Maria Isabel a última e mais sabedora palavra nos debates de sábado. Mas as coisas estão difíceis para todos e a inexperiência de Gabi, há que reconhecer, trouxe pelo menos dois benefícios à gestão da casa: disponibilidade e poupança. Talvez o Marco do ginásio tenha uma visão semelhante: quão mais trabalhosa seria a sua vida caso a rapariga da papelaria tivesse ficado com ele? Digam o que se disserem, Gabi é uma bênção.

17.5.22

Não esvazies a dignidade dos teus semelhantes tratando-os de forma paternalista ou piedosa, ofendendo a sua dor com lugares-comuns, afagando-lhes a cabeça como à dos cães mansos, porque te igualas a um desses arrogantes que deixam esmola ao pobre não para que ele coma mas para que notem o seu ato. Cuidado, porque a benfeitoria apressada acaba a tropeçar na tentação da fanfarronice. A dor alheia não é um fosso que possas tapar com palmas de flores e onde laves a tua consciência do pecado da distração quotidiana. É um monumento para visitar em respeito, levantado com sacrifícios que desconheces, porque não eram tuas as mãos nem te atolaste nas funduras de onde sobressaíram os seus alicerces.

11.5.22

O elevador atende à minha chamada urgente e, ao abrir portas, dá-me o retrato da família de cima: o meu vizinho charmoso e inútil, a mulher que geme à noite debaixo dele como um eletrodoméstico, o diabrete a guinchar como se dez garras de monstro lhe arrancassem a alma, as tralhas que carregam para que mais um dia se cumpra sem imprevistos. 
– Cabemos todos, convida ela. 
Sorri de modo tão esforçado que me entristece. Digo não e viro a cara, abro a carteira numa busca falseada de qualquer coisa que pouco importa, chave, telemóvel, bálsamo para os lábios. Tenho pudor em olhar, conhecendo a sua infelicidade do tanto que me contam as paredes mal isoladas. Perturba-me ver neles que grande parte da vida que levamos é dedicada à resolução de enguiços. Saciar a fome, tratar a doença, matar o desejo, mitigar a dor, providenciar o repouso, sacudir as penas, esclarecer mal entendidos, enganar a solidão. Não há o que não seja para ultrapassar um problema, evitar um conflito, contornar uma fatalidade. Escapar a uma coisa é, invariavelmente, a causa maior de conquistarmos outra. Ou vice-versa e tanto faz. As paixões, tomadas como atos libertários e libertadores, não são muito mais do que o esbracejar dos sobrevivos. E gestos nobres, de bravura ou abnegação, são só reforço de capital para não morrer na penúria de caráter, no fosso do esquecimento, na indiferença de deus. É assim que se pinta de cores vivas a ordinária flutuação dos dias, o sobe e desce do elevador. E a vizinha tem razão: cabemos todos. 

2.5.22

A primeira mulher que eu me lembro de querer imitar foi a Maria Emília, empregada interna dos meus vizinhos do andar direito, nascida num fim de mundo que não recordo, com cabelos de seda e saias plissadas acima do joelho. A Maria Emília tinha um quarto só para ela, privilégio que a caçulas de famílias numerosas jamais seria possível. Era uma feminista pura, de vísceras e vontades, mas na ignorância de o ser. Àquele tempo, neste país, o feminismo nomeado como tal só era atribuído a mulheres cultas e iluminadas que publicavam poesia e apareciam na televisão. A Maria Emília disso estava bem longe, mas aos dezoito anos já era desenraizada, sensual, independente e namorava em bancos de jardim sem prestar contas a ninguém. Enquanto cozinhava, limpava ou cosia, contava-me histórias das entranhas esfomeadas do país de onde era migrada, que tinham sempre um tempero de sobrenatural e eram enredadas em torno de invejas, bruxaria, bênçãos e vinganças do além. Na boca dela andava quase sempre o Fadinho da Ti Maria Benta –  não olhes para mim, não olhes / que eu não sou o teu amor / eu não sou como a figueira / que dá fruto sem flor – e estes versos, que ela cantava com alegria meneando as ancas, excitavam cada fibra da fêmea de que a minha meninice era já projeto. 
Creio não ter havido ninguém na infância que me deslumbrasse tanto como a Maria Emília. Eu queria tudo o que ela tinha e tal qual ela tinha, a textura apetecível do cabelo, uma saia curta e umas ancas dançantes, um quarto só para mim ao lado da cozinha para que os adultos não ouvissem os rumores da minha intimidade e um namorado aos domingos, que me desejasse com fervor, me beijasse com competência mas não me aborrecesse muito durante o resto da semana. A Maria Emília foi minha amiga, minha professora, meu modelo inteiro e honesto de mulher. É verdade que as minhas irmãs e a minha mãe eram abençoadas em beleza e inteligência, mas o que tinham não havia sido conquistado com revolução ou sacrifício. E, de resto, quem me salvou das tardes de tédio e dessa espécie de abandono em que caem os caçulas quando a família está cativa de assuntos sérios e entretenimentos sofisticados, foi ela, a Maria Emília, que não era como a figueira.

9.3.22

Homem: venho com um dia de atraso – haja em mim coerência, esse atributo inútil de que só os empedernidos se vangloriam – dizer-te que não precisamos que nos estendas a mão quando subimos ao palanque como se as luzes da ribalta fossem um favor que nos concedes. Nem nos anuncies como se fossemos raras, porque somos vulgares como tu, rameiras ou cientistas somos vulgares, sujeitas aos acasos genéticos e à roleta onde o destino joga em igual proporção a tragédia e o sucesso. Mas falas dos nossos talentos e inteligências de maneira que parecem uma agradável surpresa, uma paisagem desviada do roteiro a merecer manchetes de jornais nos dias em que se divulgam estatísticas, estudos, resenhas, metas. Venho dizer-te ainda que não serão as tuas odes, em verso ou prosa, a erguer-nos o corpo do desastre após o parto e que é inútil sacralizares os ventres quando sangram, pois daí não vem analgesia nem entendimento. Não pagues com paternalismo nem com adulação a dívida que os teus antepassados contraíram quando tomavam o que nos pertencia, virtude, filhos, trabalho, dignidade, dinheiro, paz. A porta que gentilmente seguras para passarmos ofende menos e dá muito mais jeito. 

15.2.22

Que um blog seja fechado a comentários, é-me irrelevante e não vale como critério para a minha fidelidade. Seria demais presumir que ao seu autor importa o que penso ou que o meu juízo acrescenta alguma coisa ao que foi dito e, de resto, parece-me poluente opinar, validar, rebater, questionar ou brilhar sobre tudo o que leio. Mas que não tenha um endereço de e-mail, um canal por onde eu possa – a salvo da atenção gulosa das plateias – agradecer-lhe pela visão que me dá do mundo, isso deixa-me numa ansiedade infantil que, nesta altura da vida, só dá prejuízo e má figura.

14.2.22

Uma semana a pensar em duas linhas que pudesse escrever para ganhar o teu perdão. Que absurdo. Uma pessoa por dinheiro escreve parágrafos gordos de disparates, subverte a realidade em diálogos impossíveis, vende lixo com atributos de ouro, formula teses e racionais de muitas páginas à base de ar, e, no entanto, é incapaz de uma palavra, uma única palavra pela própria salvação. Ah, casa de ferreiro. Habituei-me a manipular as palavras consoante a encomenda e o pagamento, uso-as como ferramenta de serviço em pieguices, parvoíces, politiquices, e faço-o com a distância e o rigor do cirurgião que à hora certa crava na carne o bisturi sem outro sentimento ou sentido além do do dever e no fim lava as mãos e paga as contas. Mas – castigo! – se agora as convoco para a minha própria história, a favor de uma verdade pura, as palavras mal me respeitam, habituaram-se ao jogo, à indisciplina moral, à ausência de escrúpulos. Por isso, olha, de que forma eu haveria de conseguir alegar a minha legítima defesaEntão dito assim é inglório e ninguém decidirá a meu favor: desejar a hora de te ver, importar-me com os teus pensamentos, ter o sono perturbado por essa língua errante e virtuosa ao redor do meu ventre, tudo isso é uma afronta mortal à minha paz. 

8.2.22

Sou todas as mulheres deste blog. Quando conto delas é de mim que falo. Não porque desastres, aventuras ou privilégios iguais me tenham sucedido, mas apenas porque não há uma, entre as suas imoralidades, arrogâncias e mesquinhices, que eu possa jurar nunca ter feito, dito ou pensado. Escrevo sem pena ou condenação, escrevo vendo-as da janela, através do vidro onde reconheço o meu próprio reflexo. Em certos dias chego a confundir as silhuetas.

3.2.22

Há um tipo de gente esmerada em lições sobre a arte de viver e disso faz passatempo. Apoiando-se na experiência individual, em episódios de novelas vizinhas ou na bijuteria filosófica, comete essa imprudência – desaconselhada desde que o mundo é mundo – de dar sermão sem que tenha havido encomenda e presumir como se anda ou deve andar nos sapatos do outro. Até pode ser boa a intenção mas acaba inútil o esforço, principalmente quando se é dono de um pé demasiado balofo para as delicadezas do calçado alheio.

1.2.22

A professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada esbardalhou-se à saída do pingo doce. Não sei o que se passa com as mulheres das redondezas deste blog, por qualquer motivo anda a faltar-lhes firmeza no passo e atenção às trapaças do caminho. Já o tombo da viúva me pareceu uma bizarria. É claro que tombou com brilho e classe e ainda há de ter desfrutado da inconveniência daquela fração de tempo em que as mãos do senhor Pereira mostraram o vasto alcance da sua generosidade. Não vos escandalizeis com o que digo, a viúva sabe muito bem o que quer, o que faz e o que autoriza e, de resto, há mulheres mais abusadas nas mãos insuspeitas dos seus próprios maridos do que em certos jogos que, só por estarem fora do contrato, são mal vistos. 
A professora, porém, não teve a sorte da viúva. O seu corpo descuidado, movido a pastéis, nicotina e comprimidos, sob o comando de uma inteligência que caiu no equívoco de se aplicar muito aos livros e pouco à vida e de um coração que se supõe mais semelhante ao dos poetas do que ao dos seus aprendizes, o seu corpo tombou na hora do almoço de domingo, essa hora que pertence ao reencontro das famílias e à preguiça caseira dos solitários e que, por isso, costuma ser hora morta nos supermercados. Não havia então homem – de sobrenome Pereira ou outro – com a força pronta, levantada, disponível para lhe acudir à fraqueza. Havia, sim, outra coisa qualquer a que a professora jamais chamaria homem e de que se teria afastado caso dominasse absolutamente os seus passos: um adolescente, desses que estão no auge da fealdade, da desproporção e dos maus odores, que caminham como se os membros estivessem prestes a soltar-se pelas articulações e que apunhalam a língua portuguesa amputando-a no essencial e infetando-a com tiques que daqui a cinquenta anos o dicionário será forçado a considerar. Deitou-lhe a mão o adolescente como decerto deitaria à própria mãe. Com muita cerimónia e falta de jeito, mais contrariedade do que empenho, mas deitou. Então ela, inábil na gratidão a esses que não costumam dar-lhe mais do que dores de cabeça e cansaços, tirou da carteira uma nota de cinco euros e disse: toma, compra qualquer coisinha para ti. E com esta oferta a sua alma se teria reerguido da humilhação, não fosse dar-se o caso de o garoto, abanando a cabeça, num é preciso, munt´óbrigado. 
O poder é a mais confortável de todas as invenções da imaginação, decide por nós a que serviços, combates, favores e recompensas temos de nos dispor, livra-nos dessa imensa vulnerabilidade que é a empatia.

28.1.22

O que mais assusta quando se apanha o vírus que anda nas bocas do mundo – e eu apanhei-o já duas vezes – é aquela pergunta que poucos conseguem calar e que disparam antes mesmo de indagarem sobre o nosso bem-estar: "e sabes quem te contagiou?". Que triste. A doença maior, a que verdadeiramente tem dado cabo de nós nos últimos dois anos, a que permite à nossa desumanidade continuar viva nos subterrâneos do civismo e da caridade, é essa: a fome de descobrir todos os dias alguém a quem chamar de irresponsável e ignorante, alguém a quem diminuir para supormos em nós a elevação que não temos. 

26.1.22

O Marco do ginásio parece finalmente ter embarcado nessa viagem simples, de planura amorosa, para a qual Gabi o tem desafiado nas horas vagas. São agora – diria a minha avó – como dois pombinhos a tomar café no pão quente, alheios ao frenesi da clientela e ao escarcéu da máquina de moagem, ensaiando beijos e segredinhos através das máscaras, jogando com os dedos entrelaçados. Mas nada disto eu vi ainda. A cabeleireira, de língua desocupada, é que põe e dispõe da história como se fosse a dela e lança na boca do povo os factos, os floreados, as conjeturas e tudo o mais que da alvoroçada inspiração dos salões costuma emanar. Comenta-se ainda que Gabi – que foi de férias e não pode confirmar ou desmentir – está a deixar de fumar pois sente-se indigna de um homem de físico tão bem amado, sem vícios nem deslizes, que trabalha com afinco para essa causa perdida que é a vida eterna. Ah, muito bem, sim senhora, a gente quando gosta dispõe-se a mudar pelo outro, são as vozes da sabedoria de trazer por casa a fazer o coro da aprovação, enquanto vai a escova e vem o secador. Mas a Dona Maria Isabel, a quem a urgência de opinar não abrevia os caminhos da razão, abana a cabeça e sorri. 
– Então se lhe faz bem deixar de fumar, não é bom? – pergunta-lhe a cabeleireira por saber já de cor a significação dos modos, tiques e trejeitos de cada uma das suas clientes.
– É, filha, se não reincidir mal a coisa arrefeça.
– Como assim, reincidir?
– Quero dizer se não voltar a fumar.
– E como assim, arrefecer?
– Ó filha, não sei o que ganhas em parecer menos esperta do que és. 
A cabeleireira meneia as ancas largas e preguiçosas de um lado para o outro varrendo as sobras dos cabelos cortados e vira a conversa do avesso:
– Gosto de ver aquela rapariga apaixonada, pronto! Ao menos não é como a outra, que amargou como uma velha e agora nenhum homem se chega a ela com medo de levar um banano nos queixos.
outra é a da papelaria. A outra é sempre aquela que ninguém sabe explicar e, por isso, nem se atreve nomear. Mas é enquanto a outra pendura na porta as manchetes do dia que o Marco do ginásio pasma como um imbecil defronte da papelaria, distraído das horas. Gabi há de voltar a fumar.

20.1.22

Alegro-me de saber que Tomás Nevinson já está em Portugal. Há quase um ano que o espero e já reservei para ele as horas mais intocáveis do meu dia. 

19.1.22

Gabo a doçura dos teus modos para afastar suspeitas sobre as minhas intenções. Às vezes, é preciso fazer de conta sem remorso. Não te posso confessar que o que me cativa, como um íman, é o que as outras desprezam: a austeridade, o cinismo, o humor a despropósito, as perguntas poucas e cautelosas, enfim, o abençoado rigor com que te despedes, exatamente antes de o êxtase se precipitar no tédio. Essas sobras difíceis, que noutras sejam causa de melindre e desilusão ou que ofendem os postulados do romantismo, a mim mantêm-me desperta. O romantismo não passa de uma falsificação ostensiva do enamoramento, produziu mais obras de arte do que relações felizes, é muito mais eficaz a rimar versos do que vontades.

15.1.22

Perguntam se não é dever de uma mãe alegrar os seus filhos ao invés de ser cúmplice das suas tristezas e eu penso apre, de quantas inquietações desnecessárias este blog é causador! Sucede que aos meus filhos cedo foi dado a provar o amargor de perdas irreparáveis e eu, pobre de mim, não só não pude protegê-los como fui o cruel mensageiro, minhas foram as palavras que rasgaram ao meio os seus corações de leite. Com que hipocrisia ou traje de circo havia eu de me vestir diante de quem já sabe que, embora digna de celebração, cheia de graças e maravilhas, a vida é um dá e tira, uma corda bamba, uma brecha a estalar debaixo dos nossos pés? Ah, sim, magníficos são esses pais que a toda a hora fabricam a felicidade das suas criaturas com estridências, colorações artificiais, festas e festinhas, bombos e teatros, teorias e estímulos, julgando assim enxotar-lhes toda a espécie de lutos, sombras e desilusões ou evitar que, por falta do que fazer, se viciem na cisma e na observação não condicionada do mundo. Tão pobrezinho deve ser o meu amor que nem sabe pôr disfarces à vida, dá-se com nudez e honestidade, sem fantasias nem manuais de apoio, e, por isso, às vezes, também em silêncio e desolação. Medíocre o resultado: filhos imperfeitos como pedras, fracos como gente, inquietos como vós. 

14.1.22

Ao relembrar certas ilusões da sua infância já abandonada, o mais novo – para sempre o meu bichinho da terra – diz-me que a tristeza de crescer é desmontar a farsa de quase tudo. Os embrulhos com laço de fita que decoram as lojas afinal são caixas ocas, as moedas de cêntimos que todos os dias lhe pingavam no comboio-mealheiro afinal valem para pouco, as cartas comoventes que em todos os natais recebeu afinal não eram escritas pelo punho de um ancião obeso na Lapónia. Estamos de acordo e prestamo-nos juntos ao elogio da inocência e ao exercício da melancolia comendo torradas de pão bijou em cafés vazios frente ao mar e andando de mãos dadas como dois desgraçadinhos que tivessem motivos de merecer a pena alheia ou a quem fosse dedicado o alarido agoirento das gaivotas. Quase cinematográfico este nosso lamento pelas desimportâncias do mundo.

12.1.22

Intrujões que vendem rima com rótulo de poesia 
são como os que chamam vintage a toda e qualquer velharia.

11.1.22

Deve ter havido um ponto, no curso pacato desta nossa existência habituada à democracia, em que, por descrença, desentendimento ou simples desleixo, perdemos a noção de que governar é um serviço e não um jogo. Só isso explica as ganas de vencidos e vencedores com que se comentam os debates dos candidatos às legislativas, a apreciação dos melhores ataques e contra-ataques, a avaliação do grau de espetacularidade da desavença e até o traje com que se apresentam à performance. No meio de tudo, nem nos damos conta que quem perde somos nós, porque, pelo visto, nenhum esclarecimento, nenhuma sensatez, nenhuma honestidade nos é devida. Tampouco a reclamamos, porque isso tornaria o debate demasiado sério, cansativo, incapaz de competir com a fulgurante e atrativa decadência dos reality shows. E para esta diversão inconsequente compramos nós bilhete a cada quatro anos. 

10.1.22

Esta florzinha salvou-me. Diz-me a rapariga da papelaria enquanto disciplina o cabelo de Alice sob o jugo de dois criteriosos totós de elástico cor-de-rosa. Fá-lo com aquele brio que só as mães e a menina nem se queixa, cantarola sozinha melodias da sua imaginação e explora o interior do nariz, deixando a cabeça oscilar para um lado e para o outro, sem resistir aos puxões. Tem crescido muito. Está com os olhos cada vez mais profundos, redondos e espertos e, para alívio da rapariga da papelaria, passou-lhe o vício de negar, contrariar, desdizer e atirar-se para o chão como mártir desse mundo de duvidosas intenções e maus exemplos que é o dos adultos. Fiteira, é uma fiteirinha, a menina! Mas desengane-se esta mãe amorosa se julga que ao seu coração será autorizado repouso. Acabaram as birras por coisa nenhuma, é certo, mas chegaram os porquês e disso se queixa já a avó, desabafando sobre o atrevimento da menina, que tem uma língua sem freio e já lhe causou grandes embaraços diante de vizinhas e clientes. Esta menina tem de ser educada. Coitada de Alice. Reprimem-lhe as ganas de entender o mesmo mundo em que a obrigam a comportar-se. Perguntar é um ato de coragem, de valor moral muito superior ao da inteligência da resposta. Para onde evoluiriam certos pais se não fossem as perguntas dos seus filhos? Mas, enfim, Alicita – diz a avó – terá de habituar-se a estar caladinha. Não é, minha riqueza? E ela, com a cabeça de um lado para o outro, diz que sim só por dizer. Não se habituará. O hábito nunca trouxe nada de bom, ainda que nos tenham impingido o seu valor como base da decência e da estabilidade. Dane-se a estabilidade e junto com ela a decência. Quem precisa de uma ou de outra quando as linhas da vida são curvas, precipitadas e obscenas?

7.1.22

Tarde e a más horas aprendo que não é sensato revelar o que escrevemos a um homem cujo coração estremeça a nosso favor. Seguirá o rasto de todas as entrelinhas até se encontrar. Cheio de conceitos e suposições sobre os propósitos da escrita feminina, desconsidera a ideia de nela haver verbo que não seja vazadouro de mágoas e desejos. As mulheres escrevem mais com o coração. Julgará então que a ele se refere todo o género masculino da ortografia e da sintaxe. Esquece que masculino é também o pai e o filho, o estranho, o passageiro, o acaso e o consumo, masculino é ainda o espelho e o sexo, texto e o retrato, o deus, o anjo e o diabo, o real, o imaginário o esquecimento. 

6.1.22

A pandemia lembra-nos, a todo o instante e por todos os lados, a lógica primordial da existência: sobreviver. Como gente desesperada, vulnerável. O que temos é fundamentalmente uma vida de superfície, sem tempo nem espírito para irmos mais fundo e sermos melhores. Temas de conversa afunilados, relógios acelerados, prioridades reorganizadas. A urgência é encarreirar em filas, levar o quanto antes mais uma dose de salvação, enfiar sondas pelas narinas para conquistar privilégios, reclamar com humildade permissão para circular, trabalhar, viajar, visitar, pedir e dar satisfações sobre com quem, como e a que distância estivemos, temer o colapso, a falência, a doença, os outros, e viver nesse cuidado, como a criança que não se mexe para que não a culpem pela tareia que levará de qualquer modo, esperando a palavra do especialista, as conclusões da reunião, o resumo do parecer, esperando que tudo isto passe e nessa espera avançam os dias, as semanas, os solstícios, as doses, as vagas, as variantes, os governos, avança tudo menos nós. O pensamento definha, as ideias murcham, as crenças desatinadas e sem critério conquistam-nos. Ah, como era afinal de pechisbeque a nossa melancolia de dois-mil-e-antes-disto-tudo, que belos números de solidariedade interpretávamos, que conhecimentos inúteis e distorcidos, embora magníficos, impingimos aos nossos filhos! No fundo, resiliência – que elejo como a palavra mais imbecil, obscena e insultuosa do século –  sempre foi a nossa maior virtude, a nossa única virtude. Com os corpos assim a boiar à tona desta surrealidade, haveremos de ir aonde a força da correnteza nos levar. 

(feliz e desinteressada do que acabei de pensar, abandono a farmácia com mais um passe para a liberdade, válido para um jantar, um concerto e uma sessão de cinema, atenção: expira em quarenta e oito horas)

29.12.21

Interessa-me muito o lixo que os outros fazem. E quanto mais belo e perfumado é o saquinho em que o descartam ou mais engenhoso e debruado é o tapete para onde o varrem, maior é a gula com que me atiro a ele.

20.12.21

Faço-te versos enquanto limpo as portas dos armários da cozinha. A dar aos braços imponho o ritmo e a métrica, sai-me tudo com naturalidade, três, quatro, cinco versos de uma assentada, e repito-os várias vezes em voz alta para os ter de memória quando puder trocar o esfregão pela caneta. Neles celebro a tua língua doce e criteriosa, que não é de poeta, gigante ou herói, é de gente suja e cansada dos dias banais, que se vende e se compra, a quem a alvorada dói nos olhos, mas que sabe, como ninguém, fazer correr os rios em leitos adormecidos. Resultam, porém, os versos frouxos, espumosos, embotados, nada que se compare ao brilho com que deixo as portas dos armários.

15.12.21

Ao fim de semana ocupo-me a lamber as feridas do rapaz voador, enquanto ele conta histórias sobre os dias da sua ausência. É um bom narrador, afia todos os detalhes, imita as vozes, deforma-se, faz-me sonhar, distrai-me das horas, da sopa, do assado, da torneira que pinga. Sempre soube que ele havia de ser como é. Tão cuidadoso a nascer, não me causou dor nem dano, porém, ao invés do irmão, que ao primeiro sopro se agarrou a todas as partes do meu corpo como um bichinho desamparado, este olhou-me com condescendência e profundidade e eu vi, juro que vi, a malha enredada dos seus pensamentos, o voto de lealdade, as ganas de lonjura e adrenalina. Tenho-lhe este amor espantado e ansioso, escolhê-lo-ia entre milhões, ainda que nem uma gota do seu sangue fosse minha.

10.12.21

O presidente da CCDR-Norte, trapalhão, a derrapar no esforço de formalidade que vem com o pacote mofento de certos cargos, comentou as celebrações dos vinte anos sobre a classificação do Douro Vinhateiro como Património da Humanidade. Diz ele, como quem dá merecida esmola, que os festejos e eventos a propósito serão centrados nos durienses, autores da paisagem e da história. Mas quando a repórter lhe pede que levante um pouco o véu do programa, ele salienta, como pontos altos de tão dirigida homenagem, uma ópera e uma prova de ciclismo. Sendo estes os pontos altos, valerá saber como serão os baixos? Que mais tendes, senhores, para honrar a minha gente, o seu chão, o seu xisto, o seu sangue, que pague o preço das cheias, dos naufrágios, das geadas, das baixas, dos infernos? Tertúlias literárias por convite? Passeios de charrete e barcos carregadinhos de tias e tios espantados lá do sul? Cocktails gourmet a servir nos tachos das comissões organizadoras?
O Douro e os durienses são os eternos beneficiários do paternalismo dos engravatados, que em gabinetes obscuros, de solas por raspar, fazem o jeito de os elogiar com palavras fáceis, preguiçosas e parolas como "resiliência" e lhes agradecem com circo, fogo-de-artifício e palmadinhas nas costas. Vai-lhes seguindo o exemplo o país inteiro e certo tipo de gente que nunca diz que não às tendências nem resiste a uma boa selfie junto a citações épicas gravadas em miradouros. A capa da Visão desta semana chama-lhe "joia de Portugal" – é uma pena o cliché, mas por certo o repórter saberá que, cá entre nós, só o que brilha costuma interessar. 
Ao Douro, fora as multidões, tudo chega tarde, de favor e em segunda mão.

8.12.21

Constroem-se como personagens, vestem-se de sarcasmo, ousadia, atrevimento, liberdade, fervor sexual, vontade férrea, generosidade acima de tudo, porque na realidade quotidiana, mansos como cordeiros, mudos como paredes, incrustados como penedos, engolem todas as verdades que por dias nebulosos e noites em claro ruminaram e submetem-se sem uis nem ais à penosa rotação da terra. Bendita a fantasia que salva do tédio dos dias.

6.12.21

Dá-se o caso, já várias vezes aqui sugerido, de o meu vizinho ser um homem atraente e daí vir parte da minha implicância. Aborrece-me que a imaginação alheia, tomando a boa figura como bitola, esteja a léguas da realidade frouxa e incompetente que ele é como pai, marido e amante. Vestiria melhor nele um aspeto vago, um passinho nervoso e miúdo. É das páginas aprendidas ainda na infância que a feição e a essência em muito – senão em quase tudo – discordam, mas não é por as coisas serem por demais sabidas que deixam de ser ardilosas. Antes de nos enamorarmos de alguém, devíamos poder encostar o ouvido à parede da sua casa. 

23.11.21

Esta noite sobrevoei o Marão num helicóptero comprado na Worten pelo produtor da minha equipa, que aprendeu a pilotá-lo em três dias com a ajuda do livro de instruções. Por causa do nevoeiro cerrado, a certa altura tivemos de baixar e seguir praticamente na estrada, atalhando por grutas e veredas que nem eu sabia que ali existiam, de uma obscuridade tropical, cheias de humidade, exuberância e venenos letais. Nada disso, porém, me perturbou. O sobressalto deu-se quando vi, com estes olhos que o fogo comerá antes da terra, um grupo de rapazes arrastando pelos cabelos um corpo nu e desanimado. Pedi ao piloto que voasse mais alto, mas a vegetação era já demasiado densa e as fragas estreitavam os caminhos e fechavam cada vez mais o céu sobre as nossas cabeças.
Há quem me considere sortuda por sonhar tanto. De nada adianta dizer que nem sempre o sonho é pera doce, lugar onde se possa estar a salvo ou aventura que impressione. Quem tenha juízo, nem deve aspirar a ter sonhos. É que, uma vez neles embarcando, dificilmente permitem o regresso antes de subjugar o sonhador a um ciclo de agonias e êxtases, em que a dor pode atingir níveis muito reais e prolongar-se na memória por dias vários, mas infelizmente o prazer esfuma-se num ai ou é interrompido no seu mais sublime lampejo. Um sonho é um compromisso que não deixa sossegar, exige coragem e disposição. Eu durmo muito bem, muito obrigada, sem recurso a chás nem drogas, mas durmo demasiado viva. É leviano o desejo de sonhar quando se tem a sorte de dormir como uma pedra, um anjo ausente ou um morto apaziguado. 

22.11.21

Estão como querem, as manas Pereira. Juízas atentas da imperatriz, feridas de inveja, sempre olhando de viés à espera de um passo em falso para o eu logo vi, eu sempre soube, eu avisei. Ao levar o miúdo, pôr-se longe e – de certezinha – enrolar-se com outro, dá-lhes a razão. Souberam, desde que puseram os olhos nesses outros de verde aquático, tropical, que dali viriam aborrecimentos e que o irmão, um lorpa, sairia a perder de qualquer acordo. A beleza e a inteligência são uma combinação tão improvável que só pode causar prejuízo, avisaram muitas vezes. E não se percebe se, ao desenterrarem este agouro de travo medieval, esta velharia de pretensão filosófica, as manas se desconsideram a si mesmas em beleza, em inteligência ou em ambas. 


Mas ontem, o lorpa, o beneficiário da condescendência materna, o que lá vai para atestar tupperwares de febras, rissóis, feijoadas, bacalhau com natas e tudo o mais que se coma requentado, o lorpa de passo nervoso e miudinho, que sempre está onde lhe mandam que esteja porque não faz grande questão de ir a lado algum, o lorpa escancarou o reverso da sua mansidão. Ah, não foi nada com o trabalho, o pai, as irmãs, a imperatriz ou o filho. Nenhuma causa nobre, nenhuma provação ou resistência heróica. Foi a sacanice de um tipo que lhe ficou com o lugar de estacionamento à porta da casa dos pais. Porque há coisas que não se explicam ou só ousa explicar quem venha bem apetrechado de livros das ciências exatas ou ocultas, o lorpa, artesão acidental dessa joia de família que é Joaquim, disparou de dentro do carro e, com os ímpetos de um cão raivoso, enfiou os braços pela janela do condutor que tão seriamente o ofendeu, agarrou-o pelos colarinhos e só o largou quando lhe foram pedidas as desculpas e lhe foi devolvido o lugar que, por decretos imaginários, assumiu para si. E nós, ao ver o que jamais havíamos visto, ficámos convencidos de que afinal não, ninguém toma um Pereira por lorpa. Era só o que faltava.

10.11.21

A ânsia de parecerdes bonzinhos torna-vos às vezes tão profundamente injustos.

9.11.21

Gabi, a manicura sonsa, faz as contas à hora em que o Marco do ginásio passa e posta-se à entrada do salão, desentendida, como quem só aproveita uma aberta para ligar à mãe ou respirar sem máscara. Interpreta o seu papel, faz o que todos fazemos – uns por interesse, outros por sobrevivência, muitos por hábito simples – até mesmo os que se dizem genuínos e espontâneos pois caso contrário não gastariam um segundo a apregoá-lo. 
Então, aproximando-se a hora em que o Marco passa, Gabi começa a fabricar o seu destino encenando o acaso e impõe a conversa nem que seja pelos assuntos do tempo, que são ótimo engodo para peixe ligeiro. Sorte a dela, ele ser bem educadinho e nunca seguir sem cumprimentar. Esclarecidas as questões climatéricas, outras oportunidades se abrem e ambos investem sempre ali uns cinco a dez minutos de conversa, o tempo de vida do cigarro dela ou de a cabeleireira vir cá fora lembrar quem manda:
– Oupa, filha, que a sotôra Filomena já 'tá à espera.
Nesses pequenos encontros quotidianos, o Marco do ginásio expressa nada mais do que simpatia. Gabi teria de comer muita massa para ser olhada com o assombro com que ele olha a rapariga da papelaria. A trágica, ausente, caprichosa, terna e complexa rapariga da papelaria, sem mais interesse no amor, servindo de bandeja à clientela os seus episódios de fraqueza e derrota, atiça-lhe a curiosidade e o medo. Gabi, a fumar à porta do salão, terrena e maleável, debruçando a conversa sobre os humores do clima e trivialidades afins, simplifica muito a vida, aplana-a, tapa os abismos e põe fora os imprevistos. É pouco fascinante mas, para compensar, nada trabalhosa. Pode mantê-la ali em lume brando sem risco de surpresas. De qualquer coisa que ele diga, por mais imbecil, ela rir-se-á daquele riso que vem inflamado desde o meio das pernas e há de haver uma hora em que ela diga ando cá com umas saudades de comer uns filetinhos de pescada lá prós lados do cabo do mundo e ele não terá como escapar, porque escapar também requer alguma coragem.