18.5.22

Antes de abrir o salão, Gabi passa à porta do ginásio, aninha-se na musculatura do amante e prolonga os beijos como se fossem os últimos. Gosta de exibir os benefícios da sua conquista, sabe que o Marco é o ai jesus das velhas, quantas vezes as ouviu, à roda das raspadinhas, a suspirar pela felicidade dele, tomara que encontre uma mulher que o trate bem. Pois então, ei-la. Pertence-lhe o prémio porque teve o mérito e enganaram-se os que supunham que o destino reservaria para ele um final feliz com a rapariga da papelaria, essa que vive de cara amarrada e a quem o abandono tornou desdenhosa ao invés de humilde. Era o que faltava, o amor não é o fruto de acasos e nem sequer floresce na desarrumação sentimental ou na sombra de espíritos desiludidos. Está escrito nas revistas do salão, seis dicas infalíveis para conquistá-lo e nenhuma é fazer-se de coitada. Gabi aplicou-se muito, riu das graças dele, adequou as maneiras, os interesses, aprendeu sobre proteína e burpees e tornou-se uma dessas ex-fumadoras cheias de moral e arrogância que tomam para si a tarefa de orientar os mais fracos: nem sabes o mal que isso te faz. A cabeleireira encanita-se, querem lá ver que já não se pode fumar um cigarro em paz? e nestas alturas talvez lhe dê uma saudade franca da outra manicura, tão desastrada nas conjugações pronominais como lúcida na análise dos fenómenos amorosos. Podia ter igualado a proposta do salão do centro da cidade e talvez ainda a tivesse por lá, cheia de graça e exuberância, disputando com a dona Maria Isabel a última e mais sabedora palavra nos debates de sábado. Mas as coisas estão difíceis para todos e a inexperiência de Gabi, há que reconhecer, trouxe pelo menos dois benefícios à gestão da casa: disponibilidade e poupança. Talvez o Marco do ginásio tenha uma visão semelhante: quão mais trabalhosa seria a sua vida caso a rapariga da papelaria tivesse ficado com ele? Digam o que se disserem, Gabi é uma bênção.

17.5.22

Não esvazies a dignidade dos teus semelhantes tratando-os de forma paternalista ou piedosa, ofendendo a sua dor com lugares-comuns, afagando-lhes a cabeça como à dos cães mansos, porque te igualas a um desses arrogantes que deixam esmola ao pobre não para que ele coma mas para que notem o seu ato. Cuidado, porque a benfeitoria apressada acaba a tropeçar na tentação da fanfarronice. A dor alheia não é um fosso que possas tapar com palmas de flores e onde laves a tua consciência do pecado da distração quotidiana. É um monumento para visitar em respeito, levantado com sacrifícios que desconheces, porque não eram tuas as mãos nem te atolaste nas funduras de onde sobressaíram os seus alicerces.

11.5.22

O elevador atende à minha chamada urgente e, ao abrir portas, dá-me o retrato da família de cima: o meu vizinho charmoso e inútil, a mulher que geme à noite debaixo dele como um eletrodoméstico, o diabrete a guinchar como se dez garras de monstro lhe arrancassem a alma, as tralhas que carregam para que mais um dia se cumpra sem imprevistos. 
– Cabemos todos, convida ela. 
Sorri de modo tão esforçado que me entristece. Digo não e viro a cara, abro a carteira numa busca falseada de qualquer coisa que pouco importa, chave, telemóvel, bálsamo para os lábios. Tenho pudor em olhar, conhecendo a sua infelicidade do tanto que me contam as paredes mal isoladas. Perturba-me ver neles que grande parte da vida que levamos é dedicada à resolução de enguiços. Saciar a fome, tratar a doença, matar o desejo, mitigar a dor, providenciar o repouso, sacudir as penas, esclarecer mal entendidos, enganar a solidão. Não há o que não seja para ultrapassar um problema, evitar um conflito, contornar uma fatalidade. Escapar a uma coisa é, invariavelmente, a causa maior de conquistarmos outra. Ou vice-versa e tanto faz. As paixões, tomadas como atos libertários e libertadores, não são muito mais do que o esbracejar dos sobrevivos. E gestos nobres, de bravura ou abnegação, são só reforço de capital para não morrer na penúria de caráter, no fosso do esquecimento, na indiferença de deus. É assim que se pinta de cores vivas a ordinária flutuação dos dias, o sobe e desce do elevador. E a vizinha tem razão: cabemos todos. 

2.5.22

A primeira mulher que eu me lembro de querer imitar foi a Maria Emília, empregada interna dos meus vizinhos do andar direito, nascida num fim de mundo que não recordo, com cabelos de seda e saias plissadas acima do joelho. A Maria Emília tinha um quarto só para ela, privilégio que a caçulas de famílias numerosas jamais seria possível. Era uma feminista pura, de vísceras e vontades, mas na ignorância de o ser. Àquele tempo, neste país, o feminismo nomeado como tal só era atribuído a mulheres cultas e iluminadas que publicavam poesia e apareciam na televisão. A Maria Emília disso estava bem longe, mas aos dezoito anos já era desenraizada, sensual, independente e namorava em bancos de jardim sem prestar contas a ninguém. Enquanto cozinhava, limpava ou cosia, contava-me histórias das entranhas esfomeadas do país de onde era migrada, que tinham sempre um tempero de sobrenatural e eram enredadas em torno de invejas, bruxaria, bênçãos e vinganças do além. Na boca dela andava quase sempre o Fadinho da Ti Maria Benta –  não olhes para mim, não olhes / que eu não sou o teu amor / eu não sou como a figueira / que dá fruto sem flor – e estes versos, que ela cantava com alegria meneando as ancas, excitavam cada fibra da fêmea de que a minha meninice era já projeto. 
Creio não ter havido ninguém na infância que me deslumbrasse tanto como a Maria Emília. Eu queria tudo o que ela tinha e tal qual ela tinha, a textura apetecível do cabelo, uma saia curta e umas ancas dançantes, um quarto só para mim ao lado da cozinha para que os adultos não ouvissem os rumores da minha intimidade e um namorado aos domingos, que me desejasse com fervor, me beijasse com competência mas não me aborrecesse muito durante o resto da semana. A Maria Emília foi minha amiga, minha professora, meu modelo inteiro e honesto de mulher. É verdade que as minhas irmãs e a minha mãe eram abençoadas em beleza e inteligência, mas o que tinham não havia sido conquistado com revolução ou sacrifício. E, de resto, quem me salvou das tardes de tédio e dessa espécie de abandono em que caem os caçulas quando a família está cativa de assuntos sérios e entretenimentos sofisticados, foi ela, a Maria Emília, que não era como a figueira.

9.3.22

Homem: venho com um dia de atraso – haja em mim coerência, esse atributo inútil de que só os empedernidos se vangloriam – dizer-te que não precisamos que nos estendas a mão quando subimos ao palanque como se as luzes da ribalta fossem um favor que nos concedes. Nem nos anuncies como se fossemos raras, porque somos vulgares como tu, rameiras ou cientistas somos vulgares, sujeitas aos acasos genéticos e à roleta onde o destino joga em igual proporção a tragédia e o sucesso. Mas falas dos nossos talentos e inteligências de maneira que parecem uma agradável surpresa, uma paisagem desviada do roteiro a merecer manchetes de jornais nos dias em que se divulgam estatísticas, estudos, resenhas, metas. Venho dizer-te ainda que não serão as tuas odes, em verso ou prosa, a erguer-nos o corpo do desastre após o parto e que é inútil sacralizares os ventres quando sangram, pois daí não vem analgesia nem entendimento. Não pagues com paternalismo nem com adulação a dívida que os teus antepassados contraíram quando tomavam o que nos pertencia, virtude, filhos, trabalho, dignidade, dinheiro, paz. A porta que gentilmente seguras para passarmos ofende menos e dá muito mais jeito. 

15.2.22

Que um blog seja fechado a comentários, é-me irrelevante e não vale como critério para a minha fidelidade. Seria demais presumir que ao seu autor importa o que penso ou que o meu juízo acrescenta alguma coisa ao que foi dito e, de resto, parece-me poluente opinar, validar, rebater, questionar ou brilhar sobre tudo o que leio. Mas que não tenha um endereço de e-mail, um canal por onde eu possa – a salvo da atenção gulosa das plateias – agradecer-lhe pela visão que me dá do mundo, isso deixa-me numa ansiedade infantil que, nesta altura da vida, só dá prejuízo e má figura.

14.2.22

Uma semana a pensar em duas linhas que pudesse escrever para ganhar o teu perdão. Que absurdo. Uma pessoa por dinheiro escreve parágrafos gordos de disparates, subverte a realidade em diálogos impossíveis, vende lixo com atributos de ouro, formula teses e racionais de muitas páginas à base de ar, e, no entanto, é incapaz de uma palavra, uma única palavra pela própria salvação. Ah, casa de ferreiro. Habituei-me a manipular as palavras consoante a encomenda e o pagamento, uso-as como ferramenta de serviço em pieguices, parvoíces, politiquices, e faço-o com a distância e o rigor do cirurgião que à hora certa crava na carne o bisturi sem outro sentimento ou sentido além do do dever e no fim lava as mãos e paga as contas. Mas – castigo! – se agora as convoco para a minha própria história, a favor de uma verdade pura, as palavras mal me respeitam, habituaram-se ao jogo, à indisciplina moral, à ausência de escrúpulos. Por isso, olha, de que forma eu haveria de conseguir alegar a minha legítima defesaEntão dito assim é inglório e ninguém decidirá a meu favor: desejar a hora de te ver, importar-me com os teus pensamentos, ter o sono perturbado por essa língua errante e virtuosa ao redor do meu ventre, tudo isso é uma afronta mortal à minha paz. 

8.2.22

Sou todas as mulheres deste blog. Quando conto delas é de mim que falo. Não porque desastres, aventuras ou privilégios iguais me tenham sucedido, mas apenas porque não há uma, entre as suas imoralidades, arrogâncias e mesquinhices, que eu possa jurar nunca ter feito, dito ou pensado. Escrevo sem pena ou condenação, escrevo vendo-as da janela, através do vidro onde reconheço o meu próprio reflexo. Em certos dias chego a confundir as silhuetas.

3.2.22

Há um tipo de gente esmerada em lições sobre a arte de viver e disso faz passatempo. Apoiando-se na experiência individual, em episódios de novelas vizinhas ou na bijuteria filosófica, comete essa imprudência – desaconselhada desde que o mundo é mundo – de dar sermão sem que tenha havido encomenda e presumir como se anda ou deve andar nos sapatos do outro. Até pode ser boa a intenção mas acaba inútil o esforço, principalmente quando se é dono de um pé demasiado balofo para as delicadezas do calçado alheio.

1.2.22

A professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada esbardalhou-se à saída do pingo doce. Não sei o que se passa com as mulheres das redondezas deste blog, por qualquer motivo anda a faltar-lhes firmeza no passo e atenção às trapaças do caminho. Já o tombo da viúva me pareceu uma bizarria. É claro que tombou com brilho e classe e ainda há de ter desfrutado da inconveniência daquela fração de tempo em que as mãos do senhor Pereira mostraram o vasto alcance da sua generosidade. Não vos escandalizeis com o que digo, a viúva sabe muito bem o que quer, o que faz e o que autoriza e, de resto, há mulheres mais abusadas nas mãos insuspeitas dos seus próprios maridos do que em certos jogos que, só por estarem fora do contrato, são mal vistos. 
A professora, porém, não teve a sorte da viúva. O seu corpo descuidado, movido a pastéis, nicotina e comprimidos, sob o comando de uma inteligência que caiu no equívoco de se aplicar muito aos livros e pouco à vida e de um coração que se supõe mais semelhante ao dos poetas do que ao dos seus aprendizes, o seu corpo tombou na hora do almoço de domingo, essa hora que pertence ao reencontro das famílias e à preguiça caseira dos solitários e que, por isso, costuma ser hora morta nos supermercados. Não havia então homem – de sobrenome Pereira ou outro – com a força pronta, levantada, disponível para lhe acudir à fraqueza. Havia, sim, outra coisa qualquer a que a professora jamais chamaria homem e de que se teria afastado caso dominasse absolutamente os seus passos: um adolescente, desses que estão no auge da fealdade, da desproporção e dos maus odores, que caminham como se os membros estivessem prestes a soltar-se pelas articulações e que apunhalam a língua portuguesa amputando-a no essencial e infetando-a com tiques que daqui a cinquenta anos o dicionário será forçado a considerar. Deitou-lhe a mão o adolescente como decerto deitaria à própria mãe. Com muita cerimónia e falta de jeito, mais contrariedade do que empenho, mas deitou. Então ela, inábil na gratidão a esses que não costumam dar-lhe mais do que dores de cabeça e cansaços, tirou da carteira uma nota de cinco euros e disse: toma, compra qualquer coisinha para ti. E com esta oferta a sua alma se teria reerguido da humilhação, não fosse dar-se o caso de o garoto, abanando a cabeça, num é preciso, munt´óbrigado. 
O poder é a mais confortável de todas as invenções da imaginação, decide por nós a que serviços, combates, favores e recompensas temos de nos dispor, livra-nos dessa imensa vulnerabilidade que é a empatia.

28.1.22

O que mais assusta quando se apanha o vírus que anda nas bocas do mundo – e eu apanhei-o já duas vezes – é aquela pergunta que poucos conseguem calar e que disparam antes mesmo de indagarem sobre o nosso bem-estar: "e sabes quem te contagiou?". Que triste. A doença maior, a que verdadeiramente tem dado cabo de nós nos últimos dois anos, a que permite à nossa desumanidade continuar viva nos subterrâneos do civismo e da caridade, é essa: a fome de descobrir todos os dias alguém a quem chamar de irresponsável e ignorante, alguém a quem diminuir para supormos em nós a elevação que não temos. 

26.1.22

O Marco do ginásio parece finalmente ter embarcado nessa viagem simples, de planura amorosa, para a qual Gabi o tem desafiado nas horas vagas. São agora – diria a minha avó – como dois pombinhos a tomar café no pão quente, alheios ao frenesi da clientela e ao escarcéu da máquina de moagem, ensaiando beijos e segredinhos através das máscaras, jogando com os dedos entrelaçados. Mas nada disto eu vi ainda. A cabeleireira, de língua desocupada, é que põe e dispõe da história como se fosse a dela e lança na boca do povo os factos, os floreados, as conjeturas e tudo o mais que da alvoroçada inspiração dos salões costuma emanar. Comenta-se ainda que Gabi – que foi de férias e não pode confirmar ou desmentir – está a deixar de fumar pois sente-se indigna de um homem de físico tão bem amado, sem vícios nem deslizes, que trabalha com afinco para essa causa perdida que é a vida eterna. Ah, muito bem, sim senhora, a gente quando gosta dispõe-se a mudar pelo outro, são as vozes da sabedoria de trazer por casa a fazer o coro da aprovação, enquanto vai a escova e vem o secador. Mas a Dona Maria Isabel, a quem a urgência de opinar não abrevia os caminhos da razão, abana a cabeça e sorri. 
– Então se lhe faz bem deixar de fumar, não é bom? – pergunta-lhe a cabeleireira por saber já de cor a significação dos modos, tiques e trejeitos de cada uma das suas clientes.
– É, filha, se não reincidir mal a coisa arrefeça.
– Como assim, reincidir?
– Quero dizer se não voltar a fumar.
– E como assim, arrefecer?
– Ó filha, não sei o que ganhas em parecer menos esperta do que és. 
A cabeleireira meneia as ancas largas e preguiçosas de um lado para o outro varrendo as sobras dos cabelos cortados e vira a conversa do avesso:
– Gosto de ver aquela rapariga apaixonada, pronto! Ao menos não é como a outra, que amargou como uma velha e agora nenhum homem se chega a ela com medo de levar um banano nos queixos.
outra é a da papelaria. A outra é sempre aquela que ninguém sabe explicar e, por isso, nem se atreve nomear. Mas é enquanto a outra pendura na porta as manchetes do dia que o Marco do ginásio pasma como um imbecil defronte da papelaria, distraído das horas. Gabi há de voltar a fumar.

20.1.22

Alegro-me de saber que Tomás Nevinson já está em Portugal. Há quase um ano que o espero e já reservei para ele as horas mais intocáveis do meu dia. 

19.1.22

Gabo a doçura dos teus modos para afastar suspeitas sobre as minhas intenções. Às vezes, é preciso fazer de conta sem remorso. Não te posso confessar que o que me cativa, como um íman, é o que as outras desprezam: a austeridade, o cinismo, o humor a despropósito, as perguntas poucas e cautelosas, enfim, o abençoado rigor com que te despedes, exatamente antes de o êxtase se precipitar no tédio. Essas sobras difíceis, que noutras sejam causa de melindre e desilusão ou que ofendem os postulados do romantismo, a mim mantêm-me desperta. O romantismo não passa de uma falsificação ostensiva do enamoramento, produziu mais obras de arte do que relações felizes, é muito mais eficaz a rimar versos do que vontades.

15.1.22

Perguntam se não é dever de uma mãe alegrar os seus filhos ao invés de ser cúmplice das suas tristezas e eu penso apre, de quantas inquietações desnecessárias este blog é causador! Sucede que aos meus filhos cedo foi dado a provar o amargor de perdas irreparáveis e eu, pobre de mim, não só não pude protegê-los como fui o cruel mensageiro, minhas foram as palavras que rasgaram ao meio os seus corações de leite. Com que hipocrisia ou traje de circo havia eu de me vestir diante de quem já sabe que, embora digna de celebração, cheia de graças e maravilhas, a vida é um dá e tira, uma corda bamba, uma brecha a estalar debaixo dos nossos pés? Ah, sim, magníficos são esses pais que a toda a hora fabricam a felicidade das suas criaturas com estridências, colorações artificiais, festas e festinhas, bombos e teatros, teorias e estímulos, julgando assim enxotar-lhes toda a espécie de lutos, sombras e desilusões ou evitar que, por falta do que fazer, se viciem na cisma e na observação não condicionada do mundo. Tão pobrezinho deve ser o meu amor que nem sabe pôr disfarces à vida, dá-se com nudez e honestidade, sem fantasias nem manuais de apoio, e, por isso, às vezes, também em silêncio e desolação. Medíocre o resultado: filhos imperfeitos como pedras, fracos como gente, inquietos como vós. 

14.1.22

Ao relembrar certas ilusões da sua infância já abandonada, o mais novo – para sempre o meu bichinho da terra – diz-me que a tristeza de crescer é desmontar a farsa de quase tudo. Os embrulhos com laço de fita que decoram as lojas afinal são caixas ocas, as moedas de cêntimos que todos os dias lhe pingavam no comboio-mealheiro afinal valem para pouco, as cartas comoventes que em todos os natais recebeu afinal não eram escritas pelo punho de um ancião obeso na Lapónia. Estamos de acordo e prestamo-nos juntos ao elogio da inocência e ao exercício da melancolia comendo torradas de pão bijou em cafés vazios frente ao mar e andando de mãos dadas como dois desgraçadinhos que tivessem motivos de merecer a pena alheia ou a quem fosse dedicado o alarido agoirento das gaivotas. Quase cinematográfico este nosso lamento pelas desimportâncias do mundo.

12.1.22

Intrujões que vendem rima com rótulo de poesia 
são como os que chamam vintage a toda e qualquer velharia.

11.1.22

Deve ter havido um ponto, no curso pacato desta nossa existência habituada à democracia, em que, por descrença, desentendimento ou simples desleixo, perdemos a noção de que governar é um serviço e não um jogo. Só isso explica as ganas de vencidos e vencedores com que se comentam os debates dos candidatos às legislativas, a apreciação dos melhores ataques e contra-ataques, a avaliação do grau de espetacularidade da desavença e até o traje com que se apresentam à performance. No meio de tudo, nem nos damos conta que quem perde somos nós, porque, pelo visto, nenhum esclarecimento, nenhuma sensatez, nenhuma honestidade nos é devida. Tampouco a reclamamos, porque isso tornaria o debate demasiado sério, cansativo, incapaz de competir com a fulgurante e atrativa decadência dos reality shows. E para esta diversão inconsequente compramos nós bilhete a cada quatro anos. 

10.1.22

Esta florzinha salvou-me. Diz-me a rapariga da papelaria enquanto disciplina o cabelo de Alice sob o jugo de dois criteriosos totós de elástico cor-de-rosa. Fá-lo com aquele brio que só as mães e a menina nem se queixa, cantarola sozinha melodias da sua imaginação e explora o interior do nariz, deixando a cabeça oscilar para um lado e para o outro, sem resistir aos puxões. Tem crescido muito. Está com os olhos cada vez mais profundos, redondos e espertos e, para alívio da rapariga da papelaria, passou-lhe o vício de negar, contrariar, desdizer e atirar-se para o chão como mártir desse mundo de duvidosas intenções e maus exemplos que é o dos adultos. Fiteira, é uma fiteirinha, a menina! Mas desengane-se esta mãe amorosa se julga que ao seu coração será autorizado repouso. Acabaram as birras por coisa nenhuma, é certo, mas chegaram os porquês e disso se queixa já a avó, desabafando sobre o atrevimento da menina, que tem uma língua sem freio e já lhe causou grandes embaraços diante de vizinhas e clientes. Esta menina tem de ser educada. Coitada de Alice. Reprimem-lhe as ganas de entender o mesmo mundo em que a obrigam a comportar-se. Perguntar é um ato de coragem, de valor moral muito superior ao da inteligência da resposta. Para onde evoluiriam certos pais se não fossem as perguntas dos seus filhos? Mas, enfim, Alicita – diz a avó – terá de habituar-se a estar caladinha. Não é, minha riqueza? E ela, com a cabeça de um lado para o outro, diz que sim só por dizer. Não se habituará. O hábito nunca trouxe nada de bom, ainda que nos tenham impingido o seu valor como base da decência e da estabilidade. Dane-se a estabilidade e junto com ela a decência. Quem precisa de uma ou de outra quando as linhas da vida são curvas, precipitadas e obscenas?

7.1.22

Tarde e a más horas aprendo que não é sensato revelar o que escrevemos a um homem cujo coração estremeça a nosso favor. Seguirá o rasto de todas as entrelinhas até se encontrar. Cheio de conceitos e suposições sobre os propósitos da escrita feminina, desconsidera a ideia de nela haver verbo que não seja vazadouro de mágoas e desejos. As mulheres escrevem mais com o coração. Julgará então que a ele se refere todo o género masculino da ortografia e da sintaxe. Esquece que masculino é também o pai e o filho, o estranho, o passageiro, o acaso e o consumo, masculino é ainda o espelho e o sexo, texto e o retrato, o deus, o anjo e o diabo, o real, o imaginário o esquecimento. 

6.1.22

A pandemia lembra-nos, a todo o instante e por todos os lados, a lógica primordial da existência: sobreviver. Como gente desesperada, vulnerável. O que temos é fundamentalmente uma vida de superfície, sem tempo nem espírito para irmos mais fundo e sermos melhores. Temas de conversa afunilados, relógios acelerados, prioridades reorganizadas. A urgência é encarreirar em filas, levar o quanto antes mais uma dose de salvação, enfiar sondas pelas narinas para conquistar privilégios, reclamar com humildade permissão para circular, trabalhar, viajar, visitar, pedir e dar satisfações sobre com quem, como e a que distância estivemos, temer o colapso, a falência, a doença, os outros, e viver nesse cuidado, como a criança que não se mexe para que não a culpem pela tareia que levará de qualquer modo, esperando a palavra do especialista, as conclusões da reunião, o resumo do parecer, esperando que tudo isto passe e nessa espera avançam os dias, as semanas, os solstícios, as doses, as vagas, as variantes, os governos, avança tudo menos nós. O pensamento definha, as ideias murcham, as crenças desatinadas e sem critério conquistam-nos. Ah, como era afinal de pechisbeque a nossa melancolia de dois-mil-e-antes-disto-tudo, que belos números de solidariedade interpretávamos, que conhecimentos inúteis e distorcidos, embora magníficos, impingimos aos nossos filhos! No fundo, resiliência – que elejo como a palavra mais imbecil, obscena e insultuosa do século –  sempre foi a nossa maior virtude, a nossa única virtude. Com os corpos assim a boiar à tona desta surrealidade, haveremos de ir aonde a força da correnteza nos levar. 

(feliz e desinteressada do que acabei de pensar, abandono a farmácia com mais um passe para a liberdade, válido para um jantar, um concerto e uma sessão de cinema, atenção: expira em quarenta e oito horas)

29.12.21

Interessa-me muito o lixo que os outros fazem. E quanto mais belo e perfumado é o saquinho em que o descartam ou mais engenhoso e debruado é o tapete para onde o varrem, maior é a gula com que me atiro a ele.

20.12.21

Faço-te versos enquanto limpo as portas dos armários da cozinha. A dar aos braços imponho o ritmo e a métrica, sai-me tudo com naturalidade, três, quatro, cinco versos de uma assentada, e repito-os várias vezes em voz alta para os ter de memória quando puder trocar o esfregão pela caneta. Neles celebro a tua língua doce e criteriosa, que não é de poeta, gigante ou herói, é de gente suja e cansada dos dias banais, que se vende e se compra, a quem a alvorada dói nos olhos, mas que sabe, como ninguém, fazer correr os rios em leitos adormecidos. Resultam, porém, os versos frouxos, espumosos, embotados, nada que se compare ao brilho com que deixo as portas dos armários.

15.12.21

Ao fim de semana ocupo-me a lamber as feridas do rapaz voador, enquanto ele conta histórias sobre os dias da sua ausência. É um bom narrador, afia todos os detalhes, imita as vozes, deforma-se, faz-me sonhar, distrai-me das horas, da sopa, do assado, da torneira que pinga. Sempre soube que ele havia de ser como é. Tão cuidadoso a nascer, não me causou dor nem dano, porém, ao invés do irmão, que ao primeiro sopro se agarrou a todas as partes do meu corpo como um bichinho desamparado, este olhou-me com condescendência e profundidade e eu vi, juro que vi, a malha enredada dos seus pensamentos, o voto de lealdade, as ganas de lonjura e adrenalina. Tenho-lhe este amor espantado e ansioso, escolhê-lo-ia entre milhões, ainda que nem uma gota do seu sangue fosse minha.

10.12.21

O presidente da CCDR-Norte, trapalhão, a derrapar no esforço de formalidade que vem com o pacote mofento de certos cargos, comentou as celebrações dos vinte anos sobre a classificação do Douro Vinhateiro como Património da Humanidade. Diz ele, como quem dá merecida esmola, que os festejos e eventos a propósito serão centrados nos durienses, autores da paisagem e da história. Mas quando a repórter lhe pede que levante um pouco o véu do programa, ele salienta, como pontos altos de tão dirigida homenagem, uma ópera e uma prova de ciclismo. Sendo estes os pontos altos, valerá saber como serão os baixos? Que mais tendes, senhores, para honrar a minha gente, o seu chão, o seu xisto, o seu sangue, que pague o preço das cheias, dos naufrágios, das geadas, das baixas, dos infernos? Tertúlias literárias por convite? Passeios de charrete e barcos carregadinhos de tias e tios espantados lá do sul? Cocktails gourmet a servir nos tachos das comissões organizadoras?
O Douro e os durienses são os eternos beneficiários do paternalismo dos engravatados, que em gabinetes obscuros, de solas por raspar, fazem o jeito de os elogiar com palavras fáceis, preguiçosas e parolas como "resiliência" e lhes agradecem com circo, fogo-de-artifício e palmadinhas nas costas. Vai-lhes seguindo o exemplo o país inteiro e certo tipo de gente que nunca diz que não às tendências nem resiste a uma boa selfie junto a citações épicas gravadas em miradouros. A capa da Visão desta semana chama-lhe "joia de Portugal" – é uma pena o cliché, mas por certo o repórter saberá que, cá entre nós, só o que brilha costuma interessar. 
Ao Douro, fora as multidões, tudo chega tarde, de favor e em segunda mão.

8.12.21

Constroem-se como personagens, vestem-se de sarcasmo, ousadia, atrevimento, liberdade, fervor sexual, vontade férrea, generosidade acima de tudo, porque na realidade quotidiana, mansos como cordeiros, mudos como paredes, incrustados como penedos, engolem todas as verdades que por dias nebulosos e noites em claro ruminaram e submetem-se sem uis nem ais à penosa rotação da terra. Bendita a fantasia que salva do tédio dos dias.

6.12.21

Dá-se o caso, já várias vezes aqui sugerido, de o meu vizinho ser um homem atraente e daí vir parte da minha implicância. Aborrece-me que a imaginação alheia, tomando a boa figura como bitola, esteja a léguas da realidade frouxa e incompetente que ele é como pai, marido e amante. Vestiria melhor nele um aspeto vago, um passinho nervoso e miúdo. É das páginas aprendidas ainda na infância que a feição e a essência em muito – senão em quase tudo – discordam, mas não é por as coisas serem por demais sabidas que deixam de ser ardilosas. Antes de nos enamorarmos de alguém, devíamos poder encostar o ouvido à parede da sua casa. 

23.11.21

Esta noite sobrevoei o Marão num helicóptero comprado na Worten pelo produtor da minha equipa, que aprendeu a pilotá-lo em três dias com a ajuda do livro de instruções. Por causa do nevoeiro cerrado, a certa altura tivemos de baixar e seguir praticamente na estrada, atalhando por grutas e veredas que nem eu sabia que ali existiam, de uma obscuridade tropical, cheias de humidade, exuberância e venenos letais. Nada disso, porém, me perturbou. O sobressalto deu-se quando vi, com estes olhos que o fogo comerá antes da terra, um grupo de rapazes arrastando pelos cabelos um corpo nu e desanimado. Pedi ao piloto que voasse mais alto, mas a vegetação era já demasiado densa e as fragas estreitavam os caminhos e fechavam cada vez mais o céu sobre as nossas cabeças.
Há quem me considere sortuda por sonhar tanto. De nada adianta dizer que nem sempre o sonho é pera doce, lugar onde se possa estar a salvo ou aventura que impressione. Quem tenha juízo, nem deve aspirar a ter sonhos. É que, uma vez neles embarcando, dificilmente permitem o regresso antes de subjugar o sonhador a um ciclo de agonias e êxtases, em que a dor pode atingir níveis muito reais e prolongar-se na memória por dias vários, mas infelizmente o prazer esfuma-se num ai ou é interrompido no seu mais sublime lampejo. Um sonho é um compromisso que não deixa sossegar, exige coragem e disposição. Eu durmo muito bem, muito obrigada, sem recurso a chás nem drogas, mas durmo demasiado viva. É leviano o desejo de sonhar quando se tem a sorte de dormir como uma pedra, um anjo ausente ou um morto apaziguado. 

22.11.21

Estão como querem, as manas Pereira. Juízas atentas da imperatriz, feridas de inveja, sempre olhando de viés à espera de um passo em falso para o eu logo vi, eu sempre soube, eu avisei. Ao levar o miúdo, pôr-se longe e – de certezinha – enrolar-se com outro, dá-lhes a razão. Souberam, desde que puseram os olhos nesses outros de verde aquático, tropical, que dali viriam aborrecimentos e que o irmão, um lorpa, sairia a perder de qualquer acordo. A beleza e a inteligência são uma combinação tão improvável que só pode causar prejuízo, avisaram muitas vezes. E não se percebe se, ao desenterrarem este agouro de travo medieval, esta velharia de pretensão filosófica, as manas se desconsideram a si mesmas em beleza, em inteligência ou em ambas. 


Mas ontem, o lorpa, o beneficiário da condescendência materna, o que lá vai para atestar tupperwares de febras, rissóis, feijoadas, bacalhau com natas e tudo o mais que se coma requentado, o lorpa de passo nervoso e miudinho, que sempre está onde lhe mandam que esteja porque não faz grande questão de ir a lado algum, o lorpa escancarou o reverso da sua mansidão. Ah, não foi nada com o trabalho, o pai, as irmãs, a imperatriz ou o filho. Nenhuma causa nobre, nenhuma provação ou resistência heróica. Foi a sacanice de um tipo que lhe ficou com o lugar de estacionamento à porta da casa dos pais. Porque há coisas que não se explicam ou só ousa explicar quem venha bem apetrechado de livros das ciências exatas ou ocultas, o lorpa, artesão acidental dessa joia de família que é Joaquim, disparou de dentro do carro e, com os ímpetos de um cão raivoso, enfiou os braços pela janela do condutor que tão seriamente o ofendeu, agarrou-o pelos colarinhos e só o largou quando lhe foram pedidas as desculpas e lhe foi devolvido o lugar que, por decretos imaginários, assumiu para si. E nós, ao ver o que jamais havíamos visto, ficámos convencidos de que afinal não, ninguém toma um Pereira por lorpa. Era só o que faltava.

10.11.21

A ânsia de parecerdes bonzinhos torna-vos às vezes tão profundamente injustos.

9.11.21

Gabi, a manicura sonsa, faz as contas à hora em que o Marco do ginásio passa e posta-se à entrada do salão, desentendida, como quem só aproveita uma aberta para ligar à mãe ou respirar sem máscara. Interpreta o seu papel, faz o que todos fazemos – uns por interesse, outros por sobrevivência, muitos por hábito simples – até mesmo os que se dizem genuínos e espontâneos pois caso contrário não gastariam um segundo a apregoá-lo. 
Então, aproximando-se a hora em que o Marco passa, Gabi começa a fabricar o seu destino encenando o acaso e impõe a conversa nem que seja pelos assuntos do tempo, que são ótimo engodo para peixe ligeiro. Sorte a dela, ele ser bem educadinho e nunca seguir sem cumprimentar. Esclarecidas as questões climatéricas, outras oportunidades se abrem e ambos investem sempre ali uns cinco a dez minutos de conversa, o tempo de vida do cigarro dela ou de a cabeleireira vir cá fora lembrar quem manda:
– Oupa, filha, que a sotôra Filomena já 'tá à espera.
Nesses pequenos encontros quotidianos, o Marco do ginásio expressa nada mais do que simpatia. Gabi teria de comer muita massa para ser olhada com o assombro com que ele olha a rapariga da papelaria. A trágica, ausente, caprichosa, terna e complexa rapariga da papelaria, sem mais interesse no amor, servindo de bandeja à clientela os seus episódios de fraqueza e derrota, atiça-lhe a curiosidade e o medo. Gabi, a fumar à porta do salão, terrena e maleável, debruçando a conversa sobre os humores do clima e trivialidades afins, simplifica muito a vida, aplana-a, tapa os abismos e põe fora os imprevistos. É pouco fascinante mas, para compensar, nada trabalhosa. Pode mantê-la ali em lume brando sem risco de surpresas. De qualquer coisa que ele diga, por mais imbecil, ela rir-se-á daquele riso que vem inflamado desde o meio das pernas e há de haver uma hora em que ela diga ando cá com umas saudades de comer uns filetinhos de pescada lá prós lados do cabo do mundo e ele não terá como escapar, porque escapar também requer alguma coragem.

8.11.21

O podcast 45 graus é o melhor. Sou-lhe fiel e agradecida, quase desde o início. Um dos últimos episódios, com Aires Almeida, sossegou muito o meu espírito intolerante a desfiles de erudição, provas públicas de intelectualidade, adulações húmidas a autores e outras bacoquices derivadas. Interessa-me no 45 graus o facto de ninguém ter razão nem ir na burrada de se bater por ela. É só um tempo – longo – para aprender umas coisas e pensar sobre outras.

5.11.21

Aderimos com entusiasmo ao mercado de jogos, séries e filmes que respiram violência compulsiva e gratuita, de forma amplamente acessível e como entretenimento, viciando-nos, episódio a episódio, em enredos onde a cada passo se rouba, agride, inferniza, mata, destrói, manipula. Pagamos serviços de televisão que são passarelas de brejeirice, preguiça mental, comentário remunerado e cronometrado à medida da conveniência, e jornais que escolhem a dedo os títulos que mais nos adoecem e desesperam e que escancaram o abc do crime quotidiano e impune. Disciplinamos os nossos filhos sob o jugo desse mundo de euforia, sobrestimulação visual, folclore sonoro, falsa moralidade, que gera almas insones, ansiosas, surdas, depressivas e onde, embora parecendo o contrário, a intolerância medra com uma voracidade mortal. 
No entanto  como se nada disto importasse ou fosse  o normal, o velho e o novo normal, o aceitável e necessário normal, o normal onde cada corpo preguiça e paga a peso de ouro a sua concavidade , investimos as nossas sensibilidades, o nosso entendimento e a nossa indignação a censurar os trejeitos eventualmente machistas dos heróis da ficção clássica. Se é cegueira ou hipocrisia, não sei, mas dá no mesmo, porque das mãos de uma e de outra se alimenta o normal com igual apetite.

(o tema Bond já não ferve, eu sei, mas o meu hábito é chegar tarde)

3.11.21

 Déjà vu. O meu vizinho no elevador, a pôr travão às portas com a perna estendida e a ver se embarco ou fico em terra, onde é sabido que os meus pezinhos assentam muito bem.
– Podemos subir juntos...
O sorriso é do bom e do melhor que lhe vi nestes últimos tempos de silêncio e casmurrice conjugal. Mas não se estranhe, já é hábito quando anda desacompanhado da mulher. Os homens enredados em casamentos falidos alegram-se como gaiatos púberes quando estão por sua conta. Tornam-se perigosos. A miséria do quotidiano enche-os de ganas de emoção e por coisa pouca ou nenhuma agarram-se a um devaneio, buscam um êxtase, alimentam uma fantasia. Como as borboletas noturnas em redor das luminescências de estio, que embora intensas são transitórias. Já as mulheres devotam-se aos filhos quando o casamento ameaça ruína, ocupam-se de os mimar, às vezes de os controlar, e nesse encargo, que absorve e empenha o coração por todo, dissolvem o fel do desamor e obtêm a gratificação de uma vida confiada a outra. Mas a seu modo, um e outro fazem de conta para evitar vergonhas ou para não melindrar os frágeis humores da descendência ou só porque qualquer coisa aparenta ser melhor do que uma casa vazia e a estaca zero. Pouco lhes importa o quanto paguem em acusações, mentiras, traições, remorso e más palavras. De resto, também a arte do fingimento se aperfeiçoa com o tempo, cresça o tumor à vontade desde que ninguém o veja. 
Não, não podemos subir juntos. Talvez eu tenha esquecido um saco de compras no carro e precise de voltar para trás, vá subindo, vá subindo, que um homem bonito e infeliz é quase sempre uma trapaça.

15.10.21

– Parece impossível, sou mãe há quatro anos mas dá-me a impressão que tenho sido mãe a vida inteira.
Diz-me a rapariga da papelaria a propósito do aniversário de Alicita, a celebrar esta noite com a família, um bolo de unicórnios e uma data de lambarices que em dias comuns são proibidas. Compreendo o devaneio. A maternidade apropria-se da memória e nela semeia dúvidas e cava buracos negros. Tudo o que precede a turbulência do instante em que se dá à luz é pertença de uma pessoa de substância fictícia, que já não sabemos ser. Ter um filho até parece um ato de continuidade mas é um salto para um curso paralelo. O tempo antes da maternidade não é passado, é alternativo.
– Não sente o mesmo?
– Nunca pensei nisso.
Minto sempre muito à rapariga da papelaria e a coitada sem culpa nenhuma. Minto com propriedade e segurança, de costas direitas, como uma senhora, apesar de saber que ao mentir humilho a sua sentimentalidade, reduzo o seu pensamento a uma tolice, deixo-a só, à mercê do juízo desgostoso da própria mãe:
– Valha-te Deus, tanto vento nessa cabecinha.
Mas a rapariga da papelaria sobrevive. Está mais do que habituada a tirar o coração fora do peito em público e a escancará-lo sem apoio, eco ou entendimento. Não se lembra, mas antes de Alicita nascer já era assim. Em boa verdade, foi por isso que Alicita nasceu.

13.10.21

Um homem de sorte como, apesar de tudo, o senhor Pereira é, está sempre onde deve estar, ou seja, onde os acasos o favorecem. Pertence-lhe aquela hora exata em que o aguaceiro cessa ou o engarrafamento é desfeito ou o pão está mesmo a sair do forno ou a nota de cinquenta rodopia sem dono na calçada ou as mulheres precisam dos cuidados e atenções de um cavalheiro. Tudo isto são modestas conquistas sobre percalços miúdos, eu sei, mas vão servindo de remendo às desgraças maiores e ninguém nega que muitas vezes nos salvam os dias – senão mesmo a dignidade –  já que são indícios de que deus existe e acordou a segurar-nos a mão ou de que o destino pode estar a ganhar algum senso de justiça.
É, porém, sabido que por cada homem que ganha uma banana, há outro que escorrega na casca. E esta metáfora amanhada à pressa é quase retrato literal do que hoje venho contar. 
Encontro o senhor Pereira aqui onde todas as coisas deste blog acontecem e ele, evoluindo da mera cortesia para o sincero entusiasmo, vai-me perguntando das novidades. Mas basta o SUV da viúva dobrar a esquina e ele sobressalta-se, perde o foco e diz coisas de que nem tem consciência, porque toda a sua atenção está agora posta na viúva e eu não tenho como competir com ela nem faço questão pois em casos destes há mais ganho em assistir ao espetáculo do que em ser protagonista. Aselha como é hábito, insensível às subtilezas da máquina e às ratoeiras do espaço, ela estaciona a um metro do passeio enquanto vibra nas colunas do SUV aquela magnificência da música popular brasileira dos anos oitenta – eu quero ser sua canção, eu quero ser seu tom, me esfregar na sua boca, ser o seu batom, o sabonete que te alisa em baixo do chuveiro – e, verso a verso, eu comprovo que até na banda sonora o senhor Pereira beneficia das manhas do acaso.
Já de mãos nos bolsos, crescem-lhe as costas – e sabemos lá o que mais – acima das possibilidades, franze os lábios a conter as ganas de sorrir, prepara-se todo para saudar a viúva, é como um adolescente em estreia, aflito na gestão dos apetites. A viúva sai do carro e vem já a passar perto, com ar de quem aceita e agradece a lista inteira dos adjetivos que lhe atribuem. Mas no instante exato em que vira a cabeça a dizer como está o senhor? e joga todos os seus trunfos num olhar, qualquer coisa súbita e invisível lhe rasteira o passo. A partir daí, tudo em menos de um ai: falha um pé, a seguir o outro, a viúva tomba para o lado, solta um gritinho e o senhor Pereira lança-se com a determinação de um herói para evitar que o esbardalhanço se complete no passeio imundo, onde qualquer um deixa pegadas, cuspidelas, beatas e dejetos. Dada a urgência do momento, as mãos do senhor Pereira acodem ao corpo dela de todas as maneiras e ângulos possíveis, não há tempo para escolher por onde o amparam e eu garanto, por ter visto, que estiveram em todas as partes onde a sua imaginação já derivou. Como condenar? O pudor até pode ser aliado da civilização mas é empecilho à sobrevivência. E, de resto, o saldo positivo atesta a eficiência do método: certamente o senhor Pereira tocou onde não devia mas a verdade é que os joelhos da viúva não tocaram no chão. 
Quando recupera a pose, ela ajeita os cabelos e desvaloriza a inconveniência: ora essa, muito obrigada, senhor Pereira, mas não foi nada, não era preciso. Já sabemos que não se atrapalha com pouco e, no que às coisas do corpo diz respeito, pende mais para o orgulho do que para a vergonha. Quem se lembra de quando a borda da minissaia ficou presa no cós e ela desceu a rua toda com o vento a possuí-la por trás, um fio de renda na cava das nádegas, a atitude superior de uma rainha? 
O senhor Pereira tem o sorriso todo escancarado. Caiu-lhe a viúva nas mãos – literalmente – sem que o possam culpar e não a quer deixar fugir tão cedo, então segura-a pelos braços e insiste em saber se está bem, se não se magoou, se tem já os pés bem assentes em terra. Quer que a leve a casa, minha senhora? Tomara ele! E muito estranho andaria o mundo se, entre todos os homens que da praceta à rotunda a desejam, a viúva favorecesse justamente o senhor Pereira. Apesar de tudo, a sorte é um bem racionado em conta-gotas e por isso é dito que não se pode abusar dela. Do que por acidente ele provou hoje, o mais certo é não voltar a provar. 

3.10.21


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Não é novidade que eu estarei sempre, em qualquer circunstância, do lado dos mais novos. Respeito as rugas e os cabelos brancos - lá chegarei - mas quando imagino, projeto o mundo em que eu gostava de viver, é nos dentes de leite e nas borbulhas que penso pois é deles o caminho que, bem ou mal, se vai fazer. É por eles que alinho a minha consciência política e invisto muito do meu tempo. Paciência para a ladainha dos que por tudo e por nada os censuram ou menosprezam, não tenho ou jamais tive. Cada geração condena sempre a seguinte e nunca tem a humildade de compreender que é totalmente responsável por aquilo em que ela se torna. 
Sei que quem não tem filhos ou já os tem crescidos nunca se importou por aí além com o que se passa nas escolas desde março de 2020. E agora que os dias são de alívio, loucura e ressaca, ou, como dizem os românticos, de libertação, menos ainda. As crianças e os adolescentes ficaram para trás no levantamento de restrições e nas notícias dos jornais, mas que interessa isso a um país onde a visão de futuro tem prazos de quatro anos?

2.10.21

Ontem, os adultos eufóricos, de rosto finalmente escancarado, gratos pela libertação, cheios de esperança, planeando o jantar em grupo e a saída festiva à noite, entregavam no portão da escola, sem qualquer dúvida ou reserva, os seus filhos ainda mascarados, ordeiros e submissos. Foi uma das coisas mais tristes que vi nos últimos tempos, mas também, certamente o mais nítido e simbólico retrato do que somos.

1.10.21

Vade retro o beijo que se dá por dar, o beijo distraído, cerimonioso, etiquetado, afetado, que vai em cantigas de circunstância, o que se dá à troca por rebuçados, o que se presta a desconhecidos e é desbaratado em apresentações, o que se deixa usar sem cuidado e consciência ou se posta em faces que não o pediram nem querem, por demais prolongado e lambuzado. Vade retro o beijo fútil, o oportunista, o comercial, o de oca e despachada simpatia, o que tem tique social – ora um ora dois, consoante o estilo e a proveniência. E vade retro o de judas. 
Abençoado o beijo seletivo, que entre rostos ou bocas transporta sentimento verdadeiro e correspondido, que se dá com intenção e cumplicidade, mesmo que ligeiro e com pressa. Só para esse, felizmente, sobrou lugar depois deste solavanco no mundo.

28.9.21

Faz-me pena a rapariga que veio para a entrevista no departamento oposto ao meu. Pelo vidro da porta, vejo-a muito aplicada no domínio da linguagem corporal, não dobra as costas nem cruza as pernas, põe freio nas ganas de gesticular, inclina ligeiramente a cabeça para se mostrar atenta. Imagino que esteja em esforço para falar corretamente, a sua e todas as outras línguas. Talvez responda ingenuidadeteimosia e perfeccionismo quando lhe perguntarem pelos seus maiores defeitos. Faz-me pena que invista tanto em maneiras de rigor, equilíbrio, sensatez ou educação e tenha a ilusão de que importam. Mais cedo ou mais tarde descobrirá que nos locais de trabalho não se foge à regra da vida em geral, as pessoas endoidecem, embriagam-se, enrolam-se, maldizem, censuram, apaixonam-se, traem-se, culpam-se, derrapam nas contas, gaguejam nas línguas, ajavardam na ortografia. A lucidez não é valor por aí além – tem mais fama do que outra coisa qualquer – e as maneiras só importam consoante o caminho que abrem. O dinheiro, que é a causa e a consequência de se trabalhar, não tem esquisitices: aperta a mão à mediocridade e à excelência com igual vigor. Portanto, se esta garota tem a ideia de que saiu da universidade para entrar num mundo adulto, intelectualmente dotado e moralmente superior, o balde de água fria vai custar. Depois habitua-se. 

24.9.21

A caminho da pré-escola, Alicita vai celebrando as bênçãos e as miudezas da infância. Nenhuma rotina lhe pesa, tudo tem ar de novidade. Como pode a gente adulta enfastiar-se neste mundo sempre em movimento? Não são um espanto as flores a despropósito nas juntas dilatadas do passeio, as nuvens na corrida de outono, os rostos estranhos na paragem de autocarro, as cabriolas do gatinho a assaltar o ecoponto, o ciclista a esforçar-se tanto na subida? Orgulhosa de ser aprendiz de pleno direito, com inscrição e documento, nome bordado na bata, pão com queijo, iogurte e muda de roupa na mochila, Alicita vai com fé. Se houver razões para temer ou duvidar do destino que lhe é imposto, não as provou ainda. Que perfeição. As velhas acenam, atiram beijos e votos de uma jornada de alegrias e êxitos. A avó orienta: anda, minha florzinha, estuda para chegares onde a tua mãe não foi capazEstão cheias de mágoa estas palavras, mas Alicita só reconhece nelas lisonja porque o filtro da inocência retém o que não presta. Ri e diz que sim, que chegará lá onde querem que chegue. Não sente, mas tem a infância toda cravejada pelos estilhaços do desastre sentimental em que a mãe e avó vivem, duas fêmeas orgulhosas, inimigas só por vício e engano, a sangrar de pescoço levantado.

23.9.21

Só com muita faltinha de ambição é que uma rapariga larga o que tem aqui e vai enterrar-se lá na parvónia.
Fala assim – sobre a imperatriz – a mulher do senhor Pereira, esse grande modelo de vontade e sucesso, uma vida inteira exclusivamente dedicada a polir o marido infiel para não macular o retrato de família.

22.9.21

Ao cabo de todos estes anos como leitora de blogs, ainda me pergunto se o anonimato será mais favorável à honestidade ou à impostura. Mas, afinal, concluo sempre da irrelevância da questão. Um bom blog não deve absolutamente nada à verdade, o único compromisso é escusar-se a ofender os leitores servindo-lhes menos do que a sua inteligência merece. Se em dois ou três parágrafos me levarem ao êxtase ou me mostrarem os avessos mal costurados da realidade e me acordarem dos sonos em que me deixo cair e cutucarem o meu pensamento habituado, estou-me nas tintas para a coerência entre o que está escrito e a vida de quem escreve.

21.9.21

Ao fim da tarde, depois do trabalho, pego na bicicleta e vou pela beira do rio a fazer de conta que a minha vida é ligeira e fotogénica como a das mulheres dos anúncios que pedalam no meio das searas de chapéu de palha. Comigo vai apenas o rapaz voador porque o menino com cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno, esse agora usa uns modos novos de estar, costurados com voz grossa, encorpados com ganas de distância e independência. Ultrapassou-me em altura e fez-se uma cópia tão exata do pai que me sobressalto se o vejo, em reflexos de espelhos ou janelas, aproximar-se, rodear-me a cintura, deixar-me um beijo doce na nuca. É hora de o deixar ir e ser o que é, mais o que pensa ser e o que sonha que será. Deixá-lo ir porque voltará na hora justa, de livre vontade, depois de cumprir a grande transformação, visitar as sombras do seu ego, desatar o sarilho de desejos, espreitar a beira dos precipícios, exagerar na vergonha e no orgulho. O rapaz voador também voltou, leal e corajoso, com uma carga de coisas novas que eu não saberia ensinar e agora pedala comigo na beira do rio como se nunca tivesse chegado a ir. 
Essa turba de mães que ocupam os escaparates das livrarias com diários sobre as zonas negras da maternidade e que são elogiadas pela coragem de dizer a verdade - pouco mais fazendo do que imitar-se umas às outras em formato, estilo e ladainha - debruçam-se muito sobre a primeira infância, mas nunca vi nenhuma que fizesse graçolas sobre o que sente a respeito dos seus adolescentes. É a perda do poder absoluto que cala essas mães. Dramatizam histórias vulgares e fazem auto-análise à custa do dia-a-dia dos inocentes ranhosos que, por mais que berrem e deem más noites, acabam subjugados à sua autoridade. Mas a partir dos doze anos só falam das suas performances escolares e dos seus talentos ou condenam-nos pelos feitios insolentes, atrevidos, desorganizados. Nenhuma confessa a melancolia que fica quando a ternura começa a esbater-se, quando o corpo nos transborda do colo, nenhuma consente que o pavor de os sentir largar a nossa mão faz de tudo o que está para trás uma brincadeira de principiante, um passatempo, uma delícia sonolenta, cor-de-rosa e perfumada. 

20.9.21

A propósito da vacinação anti-covid – oh, como chego sempre tarde! –, tenho dificuldade em hierarquizar o grau de toxicidade dos negacionistas e dos evangelizadores, decidir quais entre ambos indiciam mais insanidade e representam maior dano. Envergonha-me o nível das ofensas dos dois lados da barricada, é um jogo de esgrima fraco, de lâminas rombas, infantilóide e em desespero. A acefalia não está indexada a ideologias em concreto e o mundo parece tão absurdamente desajeitado quando falam os que fanaticamente recusam como os que devotamente cumprem. Uns vestidos de rebeldes, outros com a farda de moralistas, monopolizam as conversas, os tempos de antena, os artigos de opinião, debitam insultos, sátiras, papers e assim se serve o grande banquete do entretenimento, antecâmara da política e, neste caso, cemitério da Ciência.

10.9.21

Cada um teve o seu agosto e o meu foi intelectualmente miserável, fútil e preguiçoso. Andei a arrastar o espírito pela superfície das coisas e não peguei em livros a não ser para os emprestar ou mudar de sítio. Não lamento ou sequer me envergonho. O calor tolhe-me o raciocínio e leva-me cedo para a cama, faz-me desinteressada e desinteressante, sem tolerância aos esforços e à complexidade. De inverno vivo mais atenta e criativa.
O meu vizinho saiu esta manhã de calça bege, camisa azul-clarinho e sapato castanho, que é a farda dos homens ajuizados e comprometidos. Durante mais de um mês não lhe pus a vista em cima. Também teve direito ao seu agosto, há de ter aproveitado para pôr em dia as leituras e o sexo, gastar as solas nos passadiços, regar bem o marisco com alvarinho, levar o diabrete às cavalitas e aferroá-lo com cócegas, prender o cabelo da mulher atrás da orelha para rever a sua face esquecida. 
A rapariga da papelaria arrancou do calendário a página de agosto sem ter tirado vantagem. Porta aberta de segunda a domingo, manchetes novas escancaradas na montra todas as manhãs, a fila para os jogos da sorte nem perdeu espessura. Agosto não abranda a rotação da terra nem deixa em repouso as desgraças e os vícios. As férias de Alicita com o pai ficaram em águas de bacalhau, porque a madrasta entrou no último trimestre de gravidez e agravaram-se-lhe as cismas a vírus, fungos, bactérias, amigos e parentes. Ninguém lhe vê um pé fora de casa. A rapariga da papelaria pede contas, como é que é?, a menina precisa e tem direito às férias com o pai, mas ele apresenta um rol de desculpas e razões com eloquência, afinal, é um malandro, sempre foi – garante a avó –, e malandro que preste usa quase tão bem o verbo como as mãos. 
Para a professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada, agosto já era e pronto. Ainda esteve para se meter num avião e visitar o rapaz em Barcelona, mas tem andado mal das costas e da cabeça, falta-lhe o apetite, formigam-lhe as mãos, o chão foge de manhã ao levantar – enquanto desabafa expulsa o fumo do cigarro em todas as direções, pede um éclair e cai como pasta mole na cadeira da esplanada. Há de vir ele cá no Natal, passa num instantinho. De qualquer maneira o mundo está do avesso, antes vale não sair do seu canto, tem de poupar forças para a nova turba de adolescentes desrespeitosos, alienados, incultos, a quem vai meter na cabeça, pela repetição, as regras, medidas e recursos que domesticaram a loucura do poeta na hora de estender o verso genial.

7.9.21

Da realidade, esperamos desfechos apoteóticos e surpreendentes como os que os guionistas de americanices tramam, mas a vida acaba por ser quase sempre só uma história de decadência pontuada com êxtases e passatempos, mais ou menos abençoada, mais ou menos dolorosa. Não há um clímax a precipitar revelações e a resolver de uma vez o conflito. Na maioria das vezes, o epílogo é só uma singela despedida, um acidente ou façanha que jamais são capa do jornal, um segredo que mal acicata a curiosidade de bairro, um monte de tralha que fica para arrumar, um rascunho, um amor muito aquém da eternidade, um dia de morrinha como o de hoje. Somos heróis de trazer por casa, o nosso infortúnio pessoal é invisível e resignado, os nossos êxitos são fogachos insuficientes para desenredar dúvidas, medos ou más memórias, e só raramente iluminam o caminho adiante.
Na qualidade de mensageira – a única a que me arrisco –, lamento a vulgaridade do que aqui se conta. Lamento que a imperatriz vá embora com Joaquim e que não haja rumor de nenhum duelo, nenhuma verdade oculta a vir à tona, nenhum homem de joelhos, nenhum escândalo, descontrolo ou ameaça na hora em que ela aperta os cintos da cadeirinha do menino, fecha a porta do carro, diz adeus e arranca para Penedono. 

4.9.21

Em contagem decrescente para a partida de Joaquim, os Pereira fazem a gestão atabalhoada das emoções e encontram na atribuição de culpas o mais rápido dos paliativos. Se é grande o rancor que neste momento os une, muitos são os que os separam. Nenhum teve a coragem bastante para desafiar a imperatriz nem humildade para lhe pedir que reconsiderasse a decisão, em nome do futuro de Joaquim e da felicidade de todos. Então, calada e acobardada a raiva que ganharam à mãe do menino, travam entre eles uma batalha de egos e disparam acusações, cada um achando que os outros têm responsabilidade no desfecho. 
Curiosamente, agora o senhor Pereira mantém-se longe deste ajuste de contas e cede àquela melancolia que dá nos velhos quando notam que para tudo se fez já demasiado tarde, uma melancolia sem charme nem romantismo que só na morte encontra cura. A graça de Joaquim no seu quotidiano foi breve, como um prémio atribuído por engano. Deus desfere golpes traiçoeiros, dá com uma mão para a seguir tirar com a outra, há quem se console com o eufemismo da porta que se fecha e da janela que se abre, mas tudo se resume a um jogo para nos manter despertos, porque em repouso somos imprestáveis, só medidas pares de amor e raiva podem manter a rotação do mundo no ponto exato e tenso, tão a salvo de ser consumido pelo fogo como de se lançar ao infinito. Joga quem souber, quem não jogar enlouquece.

26.8.21

No ano passado, Gaspar prescindiu da horta para criar mais lugares de estacionamento. Uma pena, porque a horta, a bem dizer, resgatava à ignorância muita canalha que vinha das cidades a julgar que a troncha nasce nos lineares do pingo doce. Era o modesto mas bem-intencionado contributo de Gaspar para o esclarecimento da Humanidade. Sucede que agora, com o vírus e o medo de passar fronteiras, as famílias vêm em romaria ao interior aliviar os stresses e reconectar-se com a natureza, então Gaspar teve de escolher entre continuar a salvar as crianças do provincianismo urbanita ou criar novos espaços de estacionamento para responder à procura. Neste fim de mundo, nesta orelha arrebitada do país, onde tudo são miragens, rigores e maus feitios, qualquer coisa pouca pode fazer a diferença entre a ruína e o sucesso de um negócio, entre a parolice renegada e o lifestyle a qualquer preço. Ainda por cima esta gente é com cada carrão que cá aparece! Não é que isso o impressione, pelo contrário. É dono orgulhoso de uma lata que o leva ao Porto em pouco mais de duas horas e sempre em quinta. É aquele acolá, o vermelho. Pelo aspeto duvido, mas concedo. Gaspar empenha-se muito em mostrar simplicidade e desprendimento, só na hora em que aviso que estou de partida é que deixa a fanfarronice respirar um bocadinho: a minha filha, essa é que comprou uma bomba, venha cá, venha num instante ver.

18.8.21

A dúvida é indício de um pensamento vivo e de uma sociedade atenta, move o crescimento individual e o progresso coletivo. Poupemo-nos à bacoquice de apregoar sempre a nossa como prova de inteligência e a dos outros como sinal de ignorância.

6.8.21

A dor é uma bandeira de guerra. É legítimo agitá-la numa investida desapiedada sobre os seus causadores. E, no entanto, de bom grado teríamos evitado o banho de sangue. Mandámos sinais, avisos, disposição para ceder sem contrapartida o território onde já não temos interesses, vantagens, rotas nem comércios. Recusaram. Não era o território que nos queriam tomar, era a proximidade da raia, o rodeio quotidiano, o cerco que jamais avança ou recua porque evita perder ou ganhar, teme tanto a vergonha como o domínio. E por julgar que não disparando também não causam dano, mal imaginam que num dia vulgar, de humores insuspeitos, possam ser abatidos sem misericórdia com um único golpe. 
Talvez no futuro se lamente a desproporção do ato e muitos hão de perguntar que paz alcançamos com um desfecho assim. Acontece que a dor, sobretudo a que se faz de esquecida e não encontrou entendimento, vai ganhado o seu próprio senso de justiça e a sentença que dela vem acaba a ter mais crédito do que a dos tribunais e mais força do que a dos deuses. Nessa hora, que embora tardia não será vã, já nenhuma insegurança trava o golpe. E o tempo, para quem sacudimos a responsabilidade de todas as resoluções, passará a sua mão branda sobre as feridas e delas fará apenas mais uma de muitas histórias.

4.8.21

Nas cidades vazias de agosto pode conduzir-se de um extremo ao outro sem resistência, no tempo de uma ou duas músicas. O que sobra do êxodo, o que é abandonado e fica a piscar nos semáforos, a remoinhar na sarjeta, a empoeirar as soleiras das casas trancadas, é incorpóreo, paira mas não se opõe. Porque destoam do colorido das bagagens, minam a vibração da mudança, poluem os sonos dóceis do estio, os fantasmas são deixados para trás e ficam só a dar corda aos relógios, para que ninguém jamais se distraia da hora de voltar. 

27.7.21

Não havendo reviravolta ou imprevisto, é em setembro que Joaquim e a mãe abalam para viver em Penedono. Como os Pereira são desses que gastam o tempo do luto a maldizer a morte, negam-se à conciliação com o inevitável e a cada dia fecham mais o riso, inflamam mais a ferida, cavam mais o fosso. Que tortura imaginar o neto nas rotinas provincianas, sujeito a mil descuidos e doenças, sempre com odor de fumeiro nos cabelinhos, e – pior – que escola, que aprendizagens, que tipo de amigos terá? Ah, tão míseras as ambições que a imperatriz tem para Joaquim mas tão vasta a arrogância com que põe e dispõe dele.
– Ela julga o quê? Que lá por ser mãe o menino lhe pertence?
Pobre senhor Pereira, sempre mais perto da verdade do que supõe. Estou solidária com a sua perda, mas lembre-se do que ensinam os que desde sempre vivem em territórios de disputas e conflitos: quem domina a nascente domina o rio. 

26.7.21

A cabeleireira entra no pão quente como um foguete de festa, abre os braços, dá duas voltas sobre si mesma, finaliza a coreografia em pose de pin-up e anuncia: já estou toda vacinadinha, toda! Estouram palmas e vivas. A dona do pão quente, que tem vocativos de realeza para todas as clientes sem olhar a modos, porte ou traje, investe logo cuidados especiais:
– Senta-te, minha princesa, que já te levo um café e ofereço-te um brigadeiro.
 Brigadeiro não, que me vai direitinho p'rás ancas. Traz só o café.
Escolhe uma mesa, senta-se, alonga um suspiro, olha ao redor a certificar-se que é notada. Vibra nela a felicidade de quem resolveu uma dívida antiga ou se livrou de um marido inútil. E é tanta a leveza que vai para tirar a máscara, mas em menos de um ai soam os alarmes da censura pública porque, afinal, vigiavam a iminência do deslize os mesmos que antes felicitavam pela conquista.
 Olhe que não pode tirar isso!
E por todo o pão quente, a ressoar como o eco nos fins de mundo e nas amplidões desertas: não pode, não pode, não pode, não pode. 
Não sei se é nos ouvidos ou na alma que me agride o folclore. Pago depressa a minha meia dúzia de moletes  é tudo, princesa?  e saio a invejar a cabeleireira. Ai o tanto que me apetecia um brigadeiro e quem dera que me fosse todo para as ancas.

23.7.21

Costumam vender-se com predicados apelativos, mas são muito intrujonas as pessoas que garantem fazer omeletes sem ovos e abusadoras as que pedem que se faça. Sem ovos eu também faço coisas extraordinárias, mas só desonesta lhes chamaria omeletes. Certas gracinhas e artifícios de linguagem podem até abrilhantar discursos e deslumbrar ingénuos, mas não honram o talento de ninguém.

20.7.21

Se não há um gato em cada casa deste país, deve ser verdade que há pelo menos um gato numa janela defronte de cada casa deste país. A mim coube-me a graça quotidiana de um branco e cinzento, que vive num parapeito do outro lado da rua. Não há quem, antes dele, saúde a alvorada ou seja tão disposto à adulação do astro-rei. Claro que tudo é feito de forma discreta e indolente porque a descendência felina, ainda que abastardada pelo cruzamento com os hábitos humanos, não bajula por dá cá aquela palha nem com modos que diminuam. O gato prefere a calada e os rodeios que, no comércio bem aprendido de carícias, lhe garantem sempre a margem superior de lucro. Porta-se como um amante ocasional, cujo segundo maior talento é ir embora antes de entediar e por isso faz sempre desejado o seu retorno.

15.7.21

O progresso tem passo rápido e engole o que obstar a sua marcha. Em três anos fez desaparecer o caminho que eu fazia com os miúdos, de bicicleta, nas manhãs de domingo. Devorou os campos de girassóis, as bouças e os eucaliptais, o prado onde parávamos para invejar a santa vida dos bovinos e rejubilávamos com a novidade dos vitelinhos à sombra dos corpos das suas mães. Apropriou-se de terrenos, derrubou velhas moradias e por ali rasgou estradas, desviou cursos, estendeu asfalto, levantou viadutos e arredondou os cruzamentos problemáticos. Reposicionou até as estruturas dos outdoors, onde agora os candidatos às juntas de freguesia exibem magníficas próteses dentárias.

14.7.21

Manso, sem vícios nem queda para confusões, o Marco do ginásio tem a simpatia das senhoras. Que rico marido dava. É pontual e correto, contorna os conflitos, vira costas aos aborrecimentos, dá-se bem com toda a gente. Lê sempre o mesmo jornal, treina e come a horas certas, tem a contabilidade das calorias organizada. Há de dedicar-se a uma só mulher a vida toda, nenhum devaneio o arrancará à firmeza do terreno que escolher. O hábito desaprova a generalidade das paixões e a disciplina é um caminho egocêntrico, que faz voz grossa quando fala ao coração. O mais provável é que o Marco do ginásio não seja lembrado por nenhum feito grandioso, mas ao menos também não poderão culpá-lo de nenhuma desgraça. Raparigas como a da papelaria mal olham para ele. Por mais que sonhem com um amor eterno e seguro, não confiam em espíritos de pouca ambição sentimental. Já Gabi, a manicura sonsa, talvez veja as coisas de outro modo.