15.6.21

 – 'Tás a ver a cena de sentires que fazes tudo por amor, mano?
Quanta inocência há no entusiasmo dos dois garotos que seguem na minha frente, de mochila às costas, sem barba nem pressa, chutando ao acaso as pedrinhas da rua. E o que faz por amor um inocente senão começar, lentamente, a corromper-se?

12.6.21

Dez da manhã de sábado e já os homens se pegam no tasco por causa da bola. Cá fora o ar está espesso, arde na pele, ferve na garganta. Uma aragem muito seca, de mau agoiro, desinquieta as páginas do meu livro. Lá dentro ecoam insinuações, ofensas e ameaças veladas. Uma grande penalidade injusta, um fora de jogo dúbio, a memória de um mau resultado na época passada... A cada trouxa de roupa suja que se lava, o desentendimento aproxima-se mais da violência. Assuntos de família e contas antigas já são chamados ao barulho. Felizmente alguém se lembra: ó Moreira, outra rodada para todos, que pago eu, e nesse mesmo instante se dilui a desavença, troam gargalhadas e saudações.
É desconcertante ver que com tão pouco se magoa a honra dos homens e com menos ainda se adormece as suas fúrias.

11.6.21

Dona Maria Isabel vem poucas vezes a este blog. Há de ter mais que fazer do que enredar-se nas tramas do meu vulgar quotidiano e como é pouco faladora também não se põe a jeito. Mas hoje a cabeleireira viu-a passar e chamou-a ao barulho, curvando-se toda para lhe lamber os degraus académicos: 
– Há quanto tempo não dá um jeito às unhas, sotôra? Caramba, sotôra...
À dona Maria Isabel nunca falta aquela delicadeza própria dos que, embora sejam postos adiante, jamais se arrogam ou condenam os que ficam para trás, porque sabem que da mesma forma que nem sempre o êxito é questão de inteligência e esmero, também sucede a mediania e a estreiteza de vistas serem uma consequência mais de circunstâncias do que de escolhas. Então sorri como as mães usam sorrir, com ternura e infinita paciência, reconhecendo o quanto a cabeleireira merece que a vida lhe corra bem.
– No próximo fim de semana passo cá, minha querida.
A cabeleireira vai sacando do cigarro e do isqueiro e olha-a de alto a baixo.
– A pandemia envelheceu-nos a todas, mas a sotôra continua es-pe-ta-cul-lar! Dá nervos. Chegasse eu à sua idade nesse estado...
Dona Maria Isabel enrola os dedos nas contas do colar, sem pressa de responder. Não embarcará no facilitismo de uma gratidão sonsa e na vulgaridade da falsa modéstia. Nem será um elogio avulso e pouco original que a vai fazer ganhar o dia. A mulher que ainda antes da maioridade fugiu para casar e sobre o desgosto resultado levantou toda a sua magnificência, preferirá sempre o silêncio à ideia de abrir a boca para despachar. Jamais desconsidera a inteligência do outro supondo que o satisfará com pouco. Por isso se entendia tão bem com a antiga manicura, ambas disparavam para acertar, não porque fossem movidas por agressividade mas antes por uma visão amorosa do mundo, que é atenta às suas feridas e nelas derrama o que arde na esperança sincera de curar. E se a manicura aplicava o tratamento à mangueirada, dona Maria Isabel verte uma gota a espaços. 
– O que te envelhece não é a pandemia, minha querida.
A cabeleireira concorda sem pensar muito. 
– Tem razão, esta porcaria é que dá cabo de mim.
E com um gesto apaixonado, quase teatral, esmaga o cigarro que nem a meio vai, entra no salão a despedir-se:
– Quero vê-la aqui no fim de semana!

10.6.21

Nunca, como na adolescência, temos tão lúcida e honesta noção da nossa esquizofrenia. Talvez o tempo passado no quarto, de portas fechadas, com o pensamento em remoinho, orelhas moucas a avisos e sermões, sob repetida acusação de egocentrismo e desleixo, talvez esse tempo permita alguma clarividência sobre a própria natureza. Nessa idade deve haver poucos que não se atordoem ao descobrir a quantidade de gente que lhes vai na alma: um que se esconde no fundo, outro que se aparenta para cumprir, outro ainda que chama em sonhos e sabe-se lá mais quantos a multiplicar por cada receio, vontade e convicção.
Diagnósticos com rede científica chamam a isto a busca pela identidade, condescendem e garantem que o tempo resolve ou ameniza, mas para mim tem outros nomes, todos sinónimos da condição humana e nem sequer passa, antes se calca, silencia, gere ou castiga, para que não venham acusar-nos de doideira. Chegando a adultos, adjetivamo-nos com uma confiança ridícula e vivemos a renegar o sarilho interior, convencendo os outros de que temos a nossa razão de ser e nela estamos sólidos e absolutamente genuínos, certos quanto à forma e ao feitio, seguros do que faríamos no lugar dos outros, ora essa, temos valores, jamais isso ou aquilo, sempre isto, sou uma pessoa que.
A inveja subterrânea que temos aos mais novos, muito mal disfarçada de descrédito e menosprezo, não é só pelo tempo que ainda têm por viver, mas porque lhes é desculpada toda a honestidade que em nós é censurada.

4.6.21

Bela é a imperatriz, que parece não conhecer a fadiga nem sucumbir ao desânimo. Qualquer coisa – ou a química ou o karma – a abençoa, mantendo-a longe do vórtice da infelicidade. Naquele corpo, que é sempre vestido de transparências, lenços e florinhas, encaixa o filho Joaquim como se ainda não tivesse acabado de o dar à luz. Sustenta-o no ilíaco, à maneira das mães de antigamente, e o menino abandona a cabeça no ombro dela e consola-se a jogar com aquela cabeleira de fogo, enrolando e desenrolando os deditos nos caracóis. And if you say run i'll run with you, and if you say hide we'll hide, because my love for you... vai ela cantando baixinho e Joaquim, que ainda é desajeitado na fala, corre atrás dos versos improvisando o idioma: aiuaiô aiu, aiuaiai uiaiiiii... 
Perguntaram-me se vai por diante a ideia de ambos irem definitivamente para Penedono, mas por enquanto nada sei. A pandemia trocou as voltas aos enredos de tantas vidas e eu ainda estou à nora, à espera que as minhas personagens larguem o casulo e deem sinais. De algumas ignoro o paradeiro e sobre outras tento agarrar o fio da meada, andando pelas ruas muito atenta, lendo os lábios e as entrelinhas da face, apanhando no ar as coisas ditas, imaginando daí as que se calam. Até pode dar-se o caso de a imperatriz e Joaquim viverem já em Penedono e estarem só de visita. Mas o que sei é apenas o que vejo e é igual ao que vi ontem e ao que, provavelmente, verei amanhã: a imperatriz e Joaquim descendo a rua na direção da casa dos Pereira, onde, sem esforço, só pela graça que têm, são responsáveis por olear todos os corações enguiçados. 

2.6.21

A fama que às mulheres é atribuída, tem dela proveito inteiro o meu vizinho. Balançam-lhe os humores conforme as luas, de maneira que não surpreende dar com ele a maldizer entredentes a sorte que lhe coube logo depois de o ter ouvido assobiar ou imitar as apoteoses de um tenor. A mulher, que gemia na cama com a cadência de um eletrodoméstico enquanto ele galopava até ao êxtase, é cada vez melhor a fazer de morta. A palidez do seu olhar está sempre ao abandono num ponto fixo e ao cumprimentar sorri com uma ternura cansada. Quem governa agora lá em casa é o diabrete que conceberam. Grita de manhã à noite, mas nada que se pareça com mimo ou desconforto. Tem antes o timbre e o despudor de um líder de arruaças, um instigador de revoltosos, parece gente crescida que passou pela infância sem dela recolher doçuras e, no entanto, mal completou três aninhos. Ontem, na garagem, de chucha na boca e olhos endemoninhados, guinchava como se lhe arrancassem partes do corpo. A mãe, a empurrá-lo no carrinho de passeio, desabafou: onde é que eu terei errado? Não respondi nem censurei. A culpa é o legítimo tormento de todos os pais. Deus deve ser o único que não se faz esta pergunta quando observa as falhas da sua criatura. 

1.6.21

Poucos são os jornalistas que resistem a perguntar às figuras mediáticas da literatura o que é preciso para ser um bom escritor. Num delírio passageiro, imagino sempre que o entrevistado vai descompor o pragmatismo infantilóide da abordagem com uma ironia qualquerMas parece que boa parte da gente das letras não só leva o manual de instruções a sério como tem na vaidade o pecado de estimação e, apoiando-se no disfarce roto da terceira pessoa, o escritor responde sempre prontamente com um resumo dos próprios hábitos, traços de personalidade e até mágoas. Nesse momento, milhares de almas no mundo caem num rodopio de ansiedade, umas a verificar que cumprem os requisitos, outras a pensar como hão de cumpri-los. 

31.5.21

No dia em que conheceu o pai dos meus filhos, a minha avó pediu-lhe, pelo amor de todos os santos, que me domesticasse. Foi por convicção, e não por escassez de vocabulário, que escolheu o termo domesticar. Pese embora o seu próprio desgosto amoroso, atribuía aos homens o mérito de salvar a dignidade das mulheres, que deveriam recompensá-los com tanta justiça na mesa como na cama e consentir que recorressem a outras para trabalhos mais experientes ou indignos de senhoras casadas. Estaria garantida a paz do senhor e a rotação da Terra se elas não reclamassem, até porque da trabalheira de pensar diferente ou querer melhor raras vezes vem rendimento e menos ainda conforto. Por isso as insatisfeitas eram perigosas, faziam descambar o casamento em tragédia, a família em vergonha, até o mundo em guerra. Então, para a minha avó nenhum acontecimento nefasto tinha a inocência ou a fatalidade dos frutos do acaso. Tendia a procurar sempre a mão feminina que lhe tivesse dado origem e, na dúvida, via em todas as mulheres sinais das almas que o diabo corrompeu e que aos outros sugam a energia, fecham os caminhos, rasteiram os êxitos. Para ela, tratando-se de mulheres, a presunção da inocência não passava de um ato de caridade, um polimento civilizacional, um descargo de consciência, em suma, um prazo que de favor nos concedemos para preparar o embate com a perversidade original. 

27.5.21

Os pais justificam aos filhos a disciplina, os castigos, as exigências, os sermões e até algumas injustiças com o argumento de que estão a prepará-los para a vida, como se a vida fosse qualquer coisa que só acontece depois dos vinte anos. Esgotam-lhes a infância e a adolescência a treiná-los para se habituarem ao mundo que eles próprios começam a lamentar assim que se levantam da cama. 

26.5.21

Julgo que as comadres resolveram as suas tricas ou naturalmente as esqueceram por não compensar a inimizade. Verdade seja dita, só uma provocava. E a outra, que me parece gente bem intencionada, nem se ocuparia a responder não fosse dar-se o caso de as alfinetadas serem ouvidas por outros. As provocações subtis, essas que deslizam num cumprimento cordial ou sob o disfarce de um largo sorriso, são as que mais cutucam os nervos e funcionam como imanes para quem não gosta de perder nem a feijões. Porém, se esperavam que um cavalheiro as levasse a dançar para as distrair daquele jogo de bem falante hipocrisia, correu mal. Diz-se que entre marido e mulher não se mete a colher, mas para um certo tipo de homens é entre mulher e mulher que convém ficar à margem e evitar tomar partidos, não vá a vida dar voltas que os levem ao regaço delas e é bom que então sejam recebidos sem mágoas para uma dança que lhes apeteça, seja minuete ou sarabanda.
Acontece que uma alma por natureza desassossegada precisa de transpirar muito durante o dia para, caindo a noite, alcançar alguma paz. E se destas duas comadres que se juntam à conversa nos salões há uma que só vai para se distrair das dores quotidianas, a outra espera dali genuína diversão e por isso investe muita energia a arrastar os folhos e os excessos do seu traje para trás e para diante, abrindo alas e impondo-se entre os pares dançantes, dando batidinhas com o leque nos ombros deste e daquele, tirando as medidas aos modos e às vestimentas, deixando um reparo aqui, outro acolá, sempre com a ideia de que é muito desejada a sua opinião e por isso dando-a como quem faz um favor e só por caridade não manda fatura. Acabará o dia certa de que por onde andou fez justiça, deixou a palavra merecida, avisou do que devia, pôs cada qual no lugar. Há de ser deveras cansativo ocupar-se a varrer os salões da freguesia com a cauda do vestido. E imagino que se não cair à cama por, enfim, ter o espírito apaziguado, cairá certamente por já não poder com um gato pelo rabo. 

20.5.21

Saio finalmente de casa à procura do mundo mais fraterno e consciente que os otimistas juraram que havia de erguer-se dos destroços. Estava sinceramente disposta a repreender-me por descrer da humanidade e ter menosprezado o poder de um vírus na transformação das coisas essenciais. Ensaiei o sermão que, na volta, me daria ao espelho. Agoirenta, fraco exemplo para os filhos, onde raio vou buscar motivos para duvidar que o que vem é sempre melhor? Mas quando saio só reencontro o caos. Os automóveis levados em solidão, os insultos pelas frinchas dos vidros, o lixo amontoado nos contentores, as crianças com as costas vergadas ao peso injusto de mochilas, instruções e avisos. Lá está a rapariga que madruga para suar no crossfit, à mesma hora de antigamente, sovando as palmas das mãos do treinador com uma ladainha de motivação que não há de diferir muito da que a minha avó rezava à virgem Maria. Nos semáforos do cruzamento maior, os gatos vadios desarrumam o ecoponto e os toxicodependentes mendigam a sobrevivência. Um deles, de barba e cabelo ruços, parece-me um cristo a perguntar porque o abandonaram depois de o deixarem cair em tentação.  Ouço dizer que à porta das lojas de roupa e sapatos as filas são tão grandes e teimosas que parece dali esperar-se o pão para a boca. Todas as artérias estão entupidas e se não é pelo trânsito há de ser pelas obras. É preciso insistir na transformação da cidade, agir como se nada fosse, cavar fundações, alargar estradas, abrir terraços com vista, operar os fluxos subterrâneos. O progresso continua, valente, ruidoso, cheio de ideias e estratégias, mas que cura traz ao desespero e ao cansaço? Abre e fecha, tira e põe, faz e repete, repete, repete, repete, repete. 
Lá longe, o mar está tão bonito e eu podia fazer dele um verso ou um retrato, elogiar as maravilhas do mundo, dar graças aos deuses pelas magnificências da sua criação, legendar as sobras aproveitáveis do dia com a importância das pequenas coisas. E depois seguir em frente, a fazer de conta que sobre o resto não ouço, não vejo, não sei.

18.5.21

Sem robustez de intelecto e estabilidade nas emoções, desista quem tiver intenção de fazer do escárnio e da maledicência uma graça que dê gosto a quem lê. É que se por descuido vaza nas entrelinhas o cheiro fétido da inveja ou a poeira de um rancor guardado, num instante fica desacreditado quem pretende desacreditar. Então, antes de tentar a arte de descompor alguém publicamente, é bom ter ao alcance um espelhinho de bolso e, por via das dúvidas, verificar se nos túneis assombrados da própria consciência algum fantasma acordou a pedir libertação.

13.5.21

Daniel Oliveira - não o que faz chorar mas o outro - perguntou se os homens terão a noção da fronteira entre a sedução e o assédio. E não foi o único a levantar a dúvida. Ora, não bastassem os que são tratados como mentecaptos pelas suas próprias mãezinhas e esposas, que os louvam e gabam quando eles se encarregam do tacho, dão banho à cria, escolhem flores ou vão ao supermercado sem ajuda, como se grandes favores fizessem e de complexas empreitadas se tratasse, por este andar qualquer dia está-se a bater palminhas aos que têm noção do alcance dos seus atos e a atirar confetis àqueles cuja moral não derrape na fronteira. 

8.5.21

Agora que as árvores da alameda começaram a florir, vejo pela primeira vez a mulher do senhor Pereira a passear sem urgência e com as netas pela mão. Embora tenham crescido muito, as meninas exemplares continuam desengraçadas, com olhos de animal de pasto, sem cintilação nem curiosidade, mas capazes daquela arrogância defensiva com que certas crianças dão sinal evidente do erro cometido na sua educação. No encontro, ao qual não tenho como fugir, gabo-as por cortesia, digo que estão quase umas mulheres. E logo a avó, ajeitando os fios rebeldes do cabelo das meninas, corrige: não, estão é umas senhorinhas, é o que é, como se mulher fosse um erro de sintaxe, uma indignidade na gramática familiar dos Pereira. 

5.5.21

Violeta-de-prateleira 
muita história tem contado. 
Cada dia uma maneira, 
uma arma e um recado. 

Primeiro era de navalha, 
depois mostrou o chinelo, 
por fim aumentou a tralha 
com a foice e o martelo. 

Vejam só como reage 
quando não resta mais nada. 

No princípio ela jurou 
meter-nos a todas na linha, 
nenhuma planta poupou 
a esta ameaça mesquinha. 

Mas agora, meus senhores, 
desmonta-se a fantasia: 
a alma de certas flores 
é bem dada à cobardia. 

Afinal não se aguenta 
com bravura de felino. 
Então mima a suculenta 
e acarinha o pepino. 

Eis as artes de graxista 
que movem esta megera.
É assim que ela conquista 
a nata da blogosfera. 

...

Veio-me agora uma ideia
em que ambas podemos ganhar: 
pôr um fim à verborreia 
com dois copos pra brindar. 

Não é por fôlego esgotado 
nem por medo de perder. 
O leitor é que, coitado, 
já está farto de me ler. 

Valeu a pena a batalha, 
Violeta, minha querida. 
Isabela (deus me valha!) 
já chora com a despedida.

4.5.21

Compreendemos agora que esta habitante de serenas prateleiras em fundos minimalistas onde se fazem "destralhes" radicais à la Marie Kondo para simular a empatia com os simples, acabou a sentir falta de um propósito de vida. Por desfastio, terá esticado a haste até às poeiras da biblioteca, enfiou as pétalas nas páginas de Proudhon, depois Marx, e pensou que para efeitos de diversão talvez lhe assentasse bem o traje da rebeldia social e os trejeitos do velho ressabiamento anti-burguês. Muito bem. Prevemos que não tardará a rebelar-se contra a mão que a rega, rebentará o vaso de onde cospe revoltas adolescentes e juntar-se-á às camaradas selvagens que tanto venera, as do campo, as que suportam ventos e aguaceiros, as que de sol a sol trabalham a terra com as próprias raízes e murcham por falta do tratamento merecido. Aplaudimos. Basta, porém, olhar para ela para saber que, uma vez por mês, tornará a casa para se limpar da poeira e do cheiro a erva e, claro, recolher a mesada, cuja proveniência, nessa hora, pouco lhe importará. 
Mas não é a única. Outras espécies se entusiasmam à procura de um sentido para a vida que tenha feição verdadeiramente revolucionária e original. Eis uma suculenta a apregoar os nobres valores da diversidade e da inclusão, tentando comover e ganhar likes. Contudo, repare-se como subtilmente descarta a alface para fora do seu vaso, que é como quem diz somos todos iguais, desde que não me atrapalhes
Enquanto isso, Isabela boceja. Não mexe uma pétala para se defender. Aristocrata, burguesa, mimada, intriguista, tudo isso e o que mais quiserdes. 

3.5.21

Prega o senso comum que entre os efeitos colaterais de provas e provações está tanto o reforço dos laços entre os que de verdade se querem bem como o afastamento definitivo daqueles que só por engano ou conveniência estavam perto. Por mais que doa, a prática confirma sempre o cliché. Um monte de destroços só pode servir de trincheira ou de muralha. 

2.5.21

A orquídea cujo nome não repetimos para manter este espaço livre de impurezas, coitadinha, perdeu a firmeza e a fibra. Recordamo-nos de se ter apregoado rija e sanguinária, fêmea de guerra e faca na liga, protagonista de números de circo e crimes passionais, levando-nos a imaginar que já enfeitara balcões de taberna, psichés de prostíbulo, covis de máfias e contrabando. Mas, oh, não é ela que vemos assomar agora à marquise gradeada do rés-do-chão/trás  de onde só em sonhos saiu , desvairada em exclamações e interjeições, ofendida desde a raiz, abespinhada até ao labelo, "eu não sou nada disso, ai que eu sou isto e faço aquilo"?   
Ah, paroles, paroles, paroles...

1.5.21

É sabido que em enredos fantasiosos se perde forçosamente um advogado de causas inúteis ou desonestas. O rol de argumentos, enumerados em jeito de façanha, procura convencer a audiência do que não é óbvio nem sensato e assim, não sendo pela razão, julga vencer pelo espanto. É um caminho legítimo, embora de fôlego curto. Nós preferimos outro. Aqui, não se pratica o alarde de virtudes, pois isso é próprio dos desesperados ou dos que estão à venda e o retrato de Isabela é quanto basta para notar que ela não é uma coisa nem outra. Já outras, rugindo isto e aquilo, que fazem e acontecem, que cospem e castram, só têm para mostrar uma corola. É bela, sim senhores, mas afinal, oh... toda aberta, tão recetiva, quase suplicante, revelando que afinal não floresce para guerrilhar mas apenas para dar-se às bicadinhas de um pássaro ou à vibração das asas de um inseto, amarrada a uma estaca, que é, entre todas as formas de submissão, a favorita das orquídeas comuns. 
Cuidado com as palavras: Isabela não tomba. Isabela repousa, estende-se e dá-se ao prazer, aproveitando as brisas para se balouçar no couro rijo do tamborete. Em menos de um ai, a primavera vai-se e seria de pouca esperteza gastá-la em conflitos e atritos, onde mais depressa cansaria a sua beleza do que ganharia por ela as justas medalhas. De resto, para quê dar provas, detalhes, justificações, pormenores ou apreciações à lupa, em altíssima definição e contraste, como há também quem faça para seduzir à pressa, sem notar o risco que corre? Nada disso. Aquela que quer continuar a deslumbrar com o seu bailado jamais deve cair no erro de mostrar, de perto e descalços, os pés com que dança.

Andam por aí outras orquídeas que, por razões não identificadas, se presumem superiores a Isabela. Mas é difícil ultrapassar Isabela porque Isabela nem entra sequer na corrida para a mais aprumada, a mais vertical, a que mais se aproxima do céu, dos pássaros, das rainhas, dos ministros, dos deuses, dos astros. Embora a natureza tenha mandado que assim fosse, o destino opôs-se, a dona descuidou-se e assim ela acabou por desabrochar na direção da terra, sua mãe. Não a censuro, pois de cada vez que olho para uma fileira de orquídeas comuns tenho a impressão de ver um exército de fêmeas com a função única de servir beleza ao olhar desconsolado dos seus donos. Então Isabela é isto, este luxo estirado no colo antigo de um tamborete, esta languidez, livre de estacas, dívidas e ganâncias. Quem chegar perto até ouve o suspiro que vaza de cada uma das suas corolas e pressente o frémito, a ternura e a expectativa de uma virgem que está prestes a confiar-se ao primeiro amante. 

30.4.21

Arrasada por vagas tumultuosas de trabalho e, nos intervalos, distraída com futilidades, apanhou-me de surpresa o desabrochar de Isabela. Ontem eram brotos, hoje oito flores de escancarada doçura, desenhadas com um rigor que mais espanta quanto mais em detalhe se lhes tira as medidas e aprecia os ângulos. Incapaz de suportar sozinha o peso de tanto talento, Isabela apoia o braço num velho tamborete que eu, tendo por costume e defeito antecipar tragédias, ali coloquei à disposição de sua excelência. Com isso, fica o tamborete a parecer luxuosamente estofado porque Isabela derrama sobre ele os seus folhos de veludo branco, mais ricos ainda com o oiro e rubi de uns labelos perfeitos. Que esperta é. Ao invés de se enamorar de gatos pretos sem nome nem residência fixa, resigna-se ao ombro de um velho tamborete. Apático, mas ao menos de confiança. E o tamborete, encostado por falta de serventia, ganha em troca a mais bela de todas as oportunidades que já teve na vida. Ora, se ambos saem valorizados não vejo como há de esta história acabar mal, por mais que vasculhe as sombras férteis do meu pessimismo.

25.4.21

A liberdade, de todos os valores o que aparenta mais fibra e firmeza, palavrões na boca, braços no ar, armas na mão, está na verdade sempre por um fio, mal notando como dá os pulsos a grilhões que toma por necessidade ou vantagem. Nem o amor, que é o amor, reputado de cego e ingénuo e sempre distraído do caminho a olhar para o céu, nem o amor é abalroado por tantos equívocos.

23.4.21

A Flor,

num dos poucos blogs em que confio e onde vou de joelhos, diz que os títulos fazem falta e eu sinto o dedo tocar-me na ferida, baixo a cabeça como as crianças que asnearam mas não tenciono emendar-me. Um título não é só uma trabalheira em que dificilmente vou além da mediocridade. Um título é como uma coroa posta à cabeça da obra que se supõe digna e se dá por acabada. Portanto, adorna ou encerra e nenhuma dessas hipóteses me interessa quando escrevo. 

22.4.21

Sentada na soleira da papelaria, de vestido cor-de-rosa como um leque ao seu redor, Alice parece uma florzinha que a mãe tivesse posto ali para alegrar os dias de quem passa. Se é esse o propósito, resulta. A menina dá-se à conversa com toda a gente, não teme estranhos e até embarca nos jogos de faz de conta que as velhas usam para a provocar. De quem é esta menina tão linda que eu nunca tinha visto? Como vive luxuosamente sem máscara, Alice pode exibir-lhes o sorriso, o perfil ordeiro dos dentinhos de leite, o nariz arrebitado à caça de mundo e outros sinais exteriores de riqueza. Quase a cantarolar, responde às velhas que é da avó e, de lá de dentro, o orgulho da rapariga da papelaria não demora a acusar o abalo: como é que é?! o que é que disseste?! Mas a menina só conta três anos, não está para servir de tapa poros às inseguranças da mãe. Interpretar o real e descobrir nele o lugar e a razão dos próprios desejos, deslumbramentos e temores já basta como desafio para a criança que é, não tem de levar às costas a carga de outrem. Então, desvalorizando aquela tosca manifestação de autoridade, volta a disparar sem culpa nem misericórdia: Licita é da avó. E a rapariga da papelaria, que tanto desesperou por um grande amor, um amor com olhos só para ela, que não lhe falte, não a troque, não a use e deite fora, esquece que é mãe e não poupa na vingança: olha, logo não te dou chocolate nem te conto uma história. Mas Alice nem ouve, concentrada que está a sondar o interior do nariz com a pontinha do dedo e a tomar o gosto ao resultado da colheita. 
As velhas apertam os lábios. Querem rir da tolice que precipitou a desavença mas o melhor é não pôr achas na fogueira. A rapariga também é a menina delas, conheceram-na ainda adolescente, viram-na fazer-se mulher, tornar-se mãe, deram-lhe ouvidos e conselhos, estimam-na como aos do mesmo sangue. Vão continuar do lado dela: isso filha, tens de ter mão na catraia agora, senão faz de ti o que quer. O apoio das velhas é quanto basta para a rapariga da papelaria recuperar da estocada. Endireita-se, faz as contas, dá o troco. Há de segurar Alicita, ao menos Alicita. 

20.4.21

Começando a semana da Queima das Fitas, íamos três seduzir o pai da Débora. Se não houvesse ritual de pedinchice, de preferência algum espetáculo de humilhação, ele não a deixava sair, nem para um café, quanto mais para uma noitada. Enquanto for eu quem te sustenta, fazes conforme eu mando e um dia que te cases, aí entendes-te com o teu marido. 
Era uma moradia de dois andares que ele se envaidecia de ter levantado com as próprias mãos, numa travessa da zona oriental da cidade. Quando lhe entrávamos pela sala dentro, esforçava-se muito para encobrir a ofensa que a nossa disposição lhe causava e punha-se logo a ensaiar modos do cavalheiro que não era: ó Maria, traz os calcezinhos e a garrafa de vinho do Porto pr'estas meninas. Nem por favor. A mulher saía detrás dele como um passarinho, muita vergonha e uma bandeja com quatro cálices embaçados, conta certa para ele e para nós, que por decisão do senhor mãe e filha não bebiam. Depois, de onde éramos, se os paizinhos não nos punham horas para chegar, se namorávamos, bebíamos ou fumávamos, quem nos levava, quem nos trazia. Dávamos todas as respostas como se de facto lhas devêssemos mas mentindo em algumas porque sem artimanhas a Débora ficaria por casa. Também não doía assim tanto, o essencial era conter bem todos os ímpetos que nos moviam à festa, usar beicinho e humildade, vá lá, por favor, deixe, prometemos que não a perdemos de vista, e misturar muito bem as falsidades que nos ocorriam, que casa linda, que zona calma, que vinho incrível.
Quando se achava satisfeito com a bajulação e seguro do seu poder, vá, desta vez deixo. Acompanhava-nos até à rua e aí inventava pretexto para mais dois dedos de conversa, dando tempo à vizinhança de testemunhar o êxito do cinquentão todo espraiado na vida e bem relacionado com a juventude. Depois, com um gesto teatral sacava do bolso um maço de notas e lambia o dedo para fazer deslizar duas: toma, paga um sumo às tuas amigas. Um sumo, com certeza.
A Débora sabia que na manhã seguinte ia apanhar, por motivo real ou imaginado, mas não só estava disposta a pagar o preço como a considerá-lo justo. Amava o seu carcereiro com devoção e orgulho. Louvava-lhe a têmpera, contava de ele ter atravessado intacto uma infância mal amada, depois uma juventude de penúria, mil infortúnios e indignidades, e ao cabo de tudo, assim que se fez homem, com quase nada nas mãos construíra aquela casa. Desde então, nem um dia de férias. Tudo para a criar, mantê-la em escola privada, dar-lhe a carta, o ensino superior e tudo o mais que ela precisasse, filha única, princesa, joia do seu coração. Sair é que nem pensar, que tirasse a ideia de namorar ou exibir-se em esplanadas, festas e discotecas. Muitas vezes, incapaz de engolir as ganas de liberdade, a Débora virava-se a ele mesmo sabendo que levaria o troco na pele e de cinto. E se depois lamentava não era pela dor da tareia, mas pela certeza absoluta e quase feliz de que não se paga com insurreição àqueles a quem tudo devemos. Então, chorava o arrependimento no colo da mãe, uma santa que a ensinava a levar pela calada a água ao seu moinho. 
Por isso, quando a certa altura – fatal como o destino – a Débora me pedia imita o sotaque lá da tua terra para o meu pai ouvir, ó pai, é tão cómico como as pessoas falam no interior, como se eu fosse um macaco migrado de lonjuras atrasadas e incivilizadas, eu chegava a perguntar-me se os meus pais, sempre tão cheios de justiça, sensatez e diálogo, me teriam educado convenientemente.

16.4.21

Como uns se lançam em limpezas e arrumações frenéticas para enganar o caos que vai no seu íntimo, eu meto-me a restaurar velharias para amaciar as penas que sinto pelo correr do tempo. Quando a imaginação está um antro de fantasmas e más companhias, vale-nos o domínio sobre o espaço e a matéria. Uma ferramenta na mão – e dá no mesmo uma esfregona, um bisturi, uma trincha, uma caneta, um cinzel ou uma enxada – torna possível ludibriar quase toda a realidade. 

10.4.21

Vivo num país onde mais rapidamente se é apedrejado pelas opiniões que se dá do que punido pelos crimes que se comete. Aqui, dorme melhor quem rouba do que quem pensa. 

7.4.21

 – Então, eu também tenho os meus defeitos, mas ao menos admito-os.
Prega a rapariga da papelaria à mãe mas, em boa verdade, é por toda a fila de espera que quer ser ouvida. Está num daqueles dias de fulgor e otimismo que costumam suceder abruptamente a outros de pasmo e melancolia. As velhas usam mil cautelas antes de lhe dirigirem a palavra porque se calha brincarem com ela num dia em que acordou de humor caído ainda se põe a chorar, muito ofendida. Mas se está como hoje, ai de quem for ali queixar-se do mundo ou de má sorte, porque toda ela se empolga a varrer sem piedade pessimistas, descrentes e seus cúmplices. Nunca é certa, mas atire a primeira pedra quem de entre nós for.
– Admites, admites… 
Responde a mãe, a revirar os olhos nas costas da filha para que a ironia não escape à plateia.
– Se quer falar, fale, mãe! Ou julga que me envergonho?
– Olha, pra começar, és teimosa.
– E teimosa é lá defeito? Sou mas é burra, é o que sou. Burra! E só eu sei onde já estava se não fosse…
Sorri levemente, a mostrar que se perdoou os erros cometidos. Já a mãe, essa apruma-se na cadeira, ajeita as bordas do casaquinho de malha como se para um instante de solenidade a chamassem de repente, e dispara:
– Sais ao teu pai.
As velhas agitam-se com a ofensa ao defunto. Dona Fátima, por amor de deus, acabámos de sair da páscoa e das igrejas, os corações ainda estão perfumados com resquícios de fé e condescendência cristã e já estamos a maldizer os que o senhor escolheu salvar chamando para junto de si? De resto, sublinham, a rapariga é burra coisa nenhuma e quem o disser fala de cor porque salta à vista como é educada, bem falante, mãe extremosa e com muito brio no atendimento. A cabeleireira, que em boa hora o desconfinamento ressuscitou, espreita à porta e acena, mas, duvidando do ar que lá dentro se respira, só atira de fugida: teve um azar, prontos, mas ninguém está livre. 
A mãe da rapariga da papelaria encolhe os ombros, envergonhada do que disse, orgulhosa demais para desdizer. A filha continua a sorrir e se for verdade que alcançou o mérito de enfrentar as próprias falhas, nomeá-las e perdoar-se por elas, não será para os outros que vai armar-se em juíza. Mas quando tudo parece apaziguado, eis que Alicita se levanta detrás da fotocopiadora, de entre uma feliz desarrumação de papéis e lápis de colorir. E apontando o dedito à rapariga da papelaria – que calha de ser sua mãe – põe-se a cantarolar, com a alegria própria dos inocentes que, apesar de ignorarem o mal, se envaidecem de tão depressa e bem o aprenderem:
– Burra! Burra! Burra!

6.4.21

Quando aviso a estagiária que os adjetivos são o atalho descritivo das mentes preguiçosas, responde-me que não foi isso que aprendeu na escola. Dou-lhe razão – a escola não ensina a usar o adjetivo com o devido respeito pela dignidade do substantivo. Ela faz-me a pergunta a que até hoje nenhum dos meus estagiários resistiu: onde é que eu posso aprender mais sobre isso? E eu também não vario na resposta: em todos os livros do mundo.

2.4.21

O amor vive fundamentalmente de uma vocação epidérmica. 
Tem doença ou desumanidade quem se conforma em subjugá-la às orientações do Estado.

30.3.21

O meu menino de cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno, um dia destes acordou e era outro. Tinha a voz e as vontades distorcidas e contradizia-me por vulgar impulso, limão se eu dissesse laranja, verde se eu pensasse azul, ar se eu avançasse terra. Desconfiada, ainda assim beijei-o, notei que tinha o ventre liso, os dedos das mãos alongados, pescoço de animal corredor. Então verifiquei as marcas de nascença, contei os sinais hereditários, senti fraco o cheiro de vento e poeira e, na dúvida, perguntei-lhe onde escondeste o meu bebé? Respondeu-me como um assaltante no cúmulo da adrenalina, os olhos rebrilhando de gozo: praí numa dessas gavetas.
Não posso dizer que me seja estranha a impostura. Há uns anos, da noite para o dia, também fui dar com um rapaz cheio de gravidade e introspeção no lugar do mais velho, que antes vivia de trepar árvores, construir jangadas e fazer conversa com estranhos. Porém, ser mais sabedora não me faz menos fracaNenhum proveito o meu coração tira de estudos, conselhos, filosofias. A experiência vale tanto como argumento e nada como armadura! E a memória, de onde só resgatamos para uso futuro o que convém, tenho-a completamente subjugada, refém do exercício ruminante da saudade, sem qualquer utilidade prática. 
Que triste me é o fim da infância. 

26.3.21

Faz tempo que as duas comadres se provocam à distância. É um jogo dócil, quase despercebido, que cada uma faz para desacreditar a outra. O veneno vaza em conta-gotas nas entrelinhas de uma exemplar cortesia. Suspeito que se tenha tornado passatempo, forma de resgatar o cérebro ao torpor da clausura e à relação desigual com os livros, que no remate de cada capítulo não esperam do leitor opinião, acordo, adenda ou consentimento. Talvez deem ares de que competem em lucidez, independência ou destreza de intelecto e, com efeito, há que reconhecer que o verbo não lhes cai na lama e que os humores aparentam robustez e delicadeza de bambu. Mas eu vejo-as num salão de festas barroco, abanando os leques com um fervor desassossegado, olhando-se de viés, cada uma invejando a hora em que a outra é levada por um digno e experiente cavalheiro para um minuete (por deus, não vos descuideis com as vogais).

17.3.21

Daqui do canto ouço o mais novo, numa aula qualquer: 
– Ó stor, se não viu esse filme veja, porque é bué de interessante. 
Lembro-me tão bem da minha própria preguiça lexical. Na idade dele, quantas vezes despachei tudo com coiso e cenas porque a pressa de contar era grande e dar à forma a primazia sobre a ideia é uma perda de tempo a que, por natureza, a adolescência não pode dispor-se. O meu pai, um purista da língua, que se fechava horas a fio a rever, espremer e polir parágrafos, não se gastou nem me agastou com sermões. Aproveitava as minhas tontices para gracejar ou fazer trocadilhos. E foi nisto que dei: incapaz de uma frase com sentido, de articular uma ideia, de pensar pela própria cabeça.

12.3.21

Esta gente portou-se muito mal, não há dúvida que isto é um país de ignorantes, diz o senhor Pereira na fila do pão quente, com aquela lendária dignidade que faz crescer o peito do roto quando supõe falar ao nu. Há muito que o não via e, confesso, não sei se me desconcerta ou alivia que esteja igual. Se não é a imperatriz são as filhas, se não são as filhas são os vizinhos e se não os vizinhos então Portugal inteiro, todos incapazes, a precisar de autoridade, pai, marido, dono, rédea curta, reprimenda. Enfim, continua a fazer parte da mais ruidosa e cansativa subespécie de cobardes  os moralistas. Investe tempos livres a ensaiar sermões depois de ruminar, de costas repousadas na poltrona, o que de bandeja e cortadinho em pedaços lhe é servido nos parlatórios televisivos. Pobre senhor Pereira, sempre com o pensamento à trela pelo pulso de outrem e no entanto fala com a propriedade de quem tivesse sido convidado a subir ao palanque. Diante daquela plateia de braços cruzados e olhos ainda mal abertos, que aguarda vez para levar o pão, o senhor Pereira vai dizendo como foi, como devia ter sido e como doravante era bom que fosse. Por fim, dando como perdida a causa, remata: é o país que temos. E porque mais lá atrás na fila alguém se entusiasma  agora é que o senhor disse tudo  ele incha, acreditando que foi chave de ouro o que não passou de bijuteria embaçada e fora de moda. 

10.3.21

Os brotos de Isabela encaminham-se para dar lindas flores que hão de compensar-me pelas amarras do confinamento. Eis a minha orquídea, uma vez mais a esfregar-me na cara a sua fibra. Voltou a dobrar o outono e tem quase o inverno feito. À vista do seu caule seco, repousado na janela, caíram os primeiros aguaceiros, vieram depressões nomeadas como gente, vergaram-se os ciprestes aos tumultos ciclónicos, preguiçou a geada nos telhados, esvaziaram-se as ruas sob ameaça de multa, tornaram os aguaceiros, por fim o sol começou a demorar-se para lá da hora habitual. E eu ia dando como certo o óbito, sem notar a nova haste que desde a raiz se alongava para nascente, muito seivosa e verdinha.
 

9.3.21

Humilha-me a alegria com que certas mulheres aceitam a generosa e paternalista oportunidade anual de se mostrarem em peças jornalísticas sobre o seu sucesso. O mundo é como um zoo temático, com dias e circuitos dedicados a determinadas espécies sobre cujo comportamento social e evolução se debruçam simpáticos visitantes, aplaudindo as cabriolas e façanhas. “Vês, filho? As mulheres também fazem coisas extraordinárias como nós, tens de as respeitar e ajudar”, apontam os papás, muito esforçados em modernizar-se. Como recompensa pelas espantosas acrobacias demonstradas, vale atirar amendoins. 

8.3.21

Quase três da madrugada e desperta-me o ranger da cama do vizinho. Mas não, o que escuto não é a cadência de um galope amoroso. São as voltas do tédio e do desespero. Ele ou ela, um dos dois se atormenta pela demora do amanhecer, luta para se desfazer do peso do corpo e desligar a consciência, que a estas horas insiste sempre em operar a favor dos fantasmas. Acordada, logo me torno também presa fácil de duas ou três inquietações e quando dou conta já as oportunistas se enrolaram comigo nos lençóis. À falta de outra, talvez esta possa ser uma forma de solidariedade entre vizinhos.

6.3.21

Nesta conversa em podcast a escritora assume que viveu este ano e o confinamento muito zangada, com raiva e revolta. “Com vontade de processar o governo português se tivesse dinheiro. Porque estou presa em casa. Porque politicamente tudo isto deveria ter sido gerido de forma a proteger os frágeis, mas deixar a liberdade e a autonomia sob a responsabilidade daqueles que podem ser responsáveis. Ou seja, gostaria de não ser tratada de forma paternalista como tenho sido até agora. Não quero que haja um jornalista na televisão a dizer-me 'tenham noção'. Não quero ser tratada dessa forma nem por jornalistas, Presidentes da República ou primeiro-ministros.”

Grata a Isabela Figueiredo por este bocadinho.
(em entrevista no jornal "Expresso")

5.3.21

Tarde e a más horas reconheço a importância de uma mentira bem contada. Mentir é feio, costumam dizer os adultos na sua sobranceria de caráter, pretendendo enfiar no mesmo saco, com notório e atabalhoado esforço, a maturidade e a verdade. Mas feio é que não é. Mentir requer uma arte fina e construtiva a que não pode negar-se o mérito de poupar vidas. Num balanço que fiz por razões minhas, contabilizei as verdades que nenhum bem ou vantagem me trouxeram, antes me subtraíram forças e esperança. Que moral, princípio ou orgulho têm património bastante para justificar e cobrir o prejuízo? 
Claro que é difícil encontrar quem minta como deve ser, que nos proteja de desgostos com grandeza e imaginação e não se descosa ao insistir em frases feitas – sou incapaz de mentir! digo sempre o que tem de ser dito! – e noutros espalhafatos. Como em qualquer outro ato de generosidade, a mentira de boa intenção resulta melhor quando parece distraído e despojado o seu autor. De resto, para que nunca se torne um pecado, basta nunca ser confessada.

25.2.21

Esgotado o argumento literário do frio, explorámos o da chuva e agora o que nos tem dado assunto são os indícios da primavera. Como acontece nas relações de circunstância, nos dias miseráveis, ou quando evitamos perguntas que magoam e constrangem, o tempo que faz hoje e o que para amanhã se espera salvam-nos desta enorme desolação, deste silêncio absoluto.

22.2.21

Como a catraia a quem descontassem tempo de castigo, encho-me de euforia quando me pedem que dê um salto à empresa. Nos primeiros minutos do caminho dá-me a impressão do princípio do mundo, as coisas são absurdamente estranhas, há névoa e vagar como nas manhãs de domingo, a cidade não cheira porque não transpira as fumaças do seu labor e da sua correria. Enquanto conduzo, ouço a minha playlist de função energizante, mais de quarenta músicas cirurgicamente escolhidas para me manter os nervos firmes, livrá-los da melancolia, da preguiça, do desalento ou outras semelhantes, fazer o pé mais pesado no acelerador. O ritmo é tão oposto ao do real que soa a histeria e futilidade, mas ignoro a dissonância e sigo, brincando ao faz de conta que é um dia como os de antes. Ignoro também depois as salas vazias, os gabinetes às escuras, os telefones mudos, a copa abandonada, sento-me, ligo o computador, ponho os auscultadores para iludir a surdez. Revejo as varandas do prédio defronte, os ficus alinhados no terceiro andar, as redes de segurança das crianças do quinto, as poltronas de verga do primeiro, onde nunca vi ninguém sentar-se e assistir ao pôr-de-sol. Ora essa, tudo na mesma, assim me convenço ou fantasio. Para sobreviver, todos vamos retirando camadas do que somos. Retiramos, por esta ou outra ordem, a inocência, a rebeldia, a ambição. E, em dias assim, se for preciso, se nos poupar, retiramos até a consciência, a visão, a lucidez. Um dia entraremos na morte despojados de todas as camadas, um naco de carne pronto a ajoelhar-se diante do grande mistério, sem argumento ou contestação. 
Volto para casa e ao rodar a chave na fechadura quase me parece um fim de tarde vulgar. O mais novo anuncia-me que fez um bolo de chocolate, o mais velho foi correr, Isabela mostra-se grávida de seis brotos carnudos, apontados a levante. É hora de tratar do jantar mas, entretanto, esqueci a ordem das coisas. Então caio no sofá e ponho-me a escolher destinos de férias. A liberdade é um fôlego contagioso e galopante, um perigo absoluto.

16.2.21

Infelizmente, são precisos tempos delicados para vir à tona e ao entendimento o facto de que o mundo gira, sempre girou, a duas velocidades. Noto, com tristeza, que muito boa gente julgava, ou fazia de conta, que no carro mágico do futuro embarcavam todos por igual e com lugar sentado. Agora pasmam e enchem-se de piedade por verem que nas aldeolas que visitavam aos fins de semana para se inteirarem  pela rama  das graças da ruralidade e da vida simples ou nos bairros onde os candidatos ao poder se prestam a copos e bailaricos, há crianças para quem as aulas hoje, deste modo, são uma absoluta impossibilidade. Está certo que acordar é sempre uma vantagem e antes tarde do que nunca. Porém, tenho para mim que quando o carro mágico retomar o giro vertiginoso e magnético a que estávamos acostumados, cheio de festas, de cores e brilhos, com tudo fácil e pronto, de novo nos ajeitaremos na fila para a crista do futuro, aos magotes e empurrões, sem olhar para trás.

12.2.21

Não há órgão que tão rapidamente vicie na preguiça como o cérebro. É dar-lhe dois ou três dias de facilidades, poupá-lo a cálculos e construções, perdoar-lhe atalhos verbais e frases cujos complementos o bom entendedor faça o jeito de adivinhar, e ei-lo, encolhido na caixa craniana, sem ganas de ir além, comendo o que de digestão ligeira lhe levarem e que, de qualquer modo, para o gasto também chega. Não lhe peçam favores, receitas, soluções. Menos ainda argumentos. A certa altura, o tontinho há de preferir mudar de opinião ao trabalho de sustentar aquilo em que acredita. 

10.2.21

O dia todo ouço, dentro da minha própria casa, os professores dos meus filhos a imporem a sua autoridade e a exporem a sua ciência. É certo que os auscultadores foram feitos para evitar estes constrangimentos e se cada um de nós, no seu cantinho de trabalho, os usasse, mais silêncio reinaria no mundo e nem as minhas reuniões importunariam as matemáticas de um nem a anatomia dos adutores do outro interferiria nos meus scripts. Mas já basta termos de andar de boca coberta, se nos sujeitamos a passar oito horas do dia também com os ouvidos tapados só nos faltam mesmo as palas nos olhos.

4.2.21

Aos sábados de tarde, o Eduardo, que morava duas portas adiante, aparecia para brincar com o mais velho. Empoleiravam-se os dois nas copas das árvores e por lá moravam horas a fio, maquinando estratégias de batalha enquanto esculpiam arcos e flechas com paciência de chinês. À sua bravura e astúcia haviam de sucumbir exércitos de sanguinários que vinham do norte, pragas apocalípticas, malfeitores que surgiam detrás dos arbustos disfarçados de clérigos ou mendigos e outras tramas da imaginação. Um dia, quieta e calada para não perturbar tão justa infância, vi pela janela que deram com um pardalito morto no chão. Vasculharam-no em busca de uma causa edificante, um sinal de tragédia, martírio ou atentado que pudesse fazê-lo personagem daqueles enredos de faz de conta. Porque se é verdade  e muitos dizem  que faz sempre falta à realidade um pouco de fantasia, também dá muito jeito à fantasia, para melhor se compor, tomar alguns factos de empréstimo à realidade. Mas o pardalito, oh, era apenas um cadáver sem graça nem história, pronto a servir aos vermes. Com um ar todo de lamento e cerimónia, a imitar o que os adultos usam à beira de um caixão, foi o Eduardo quem assinou a autópsia: coitado, deve ter morrido de saúde

3.2.21

De alguma forma, todo o ato de desobediência tem a sua grandeza. As maiores conquistas civilizacionais e os mais preciosos direitos são devidos aos que recusaram acatar e calar. Mas quem perfeitamente se incrustou na ordem e no sossego doméstico considera que desobedecer é uma entre várias formas de revelar má criação, falta de princípios ou ignorância. Claro, a insurreição dá medo, rasteira os pés, puxa o tapete e sacode-o, mas, enfim, toda a evolução tem mácula, todo o parto é uma dor terrível que o bem que traz faz esquecer. A professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada também esquece a má vida dos poetas que venera como a deuses e a génese sombria, marginal, daquele verso pronto e acabado que agora docemente a conforta nos lençóis. Tudo dá no mesmo. 
Eu tenho um fascínio apaixonado pela desobediência quando a coragem moral a sustenta. O que desprezo é o desobediente indigno, borrado, manhoso, em causa própria e menor, sem peito nem bandeira. Envergonham-me, de uma vergonha que não devia sobrar para mim, as maroscas por indevidas vacinas, os clientes do restaurante que fugiram à multa pelo túnel de esgoto, a notícia, ainda fresca, de que Portugal perdeu lugar na lista de países "totalmente democráticos".

28.1.21

Ah, feliz é a rapariga da papelaria que fracassou no amor, largou os estudos pelo meio e atrás do balcão se chora do pouco que fez pela vida, mas tem hoje, apesar de tudo isso e a todas as horas, uma fila de clientes à porta. Sem mãos a medir, escoa jornais, revistas, títulos de viagem, tabaco, raspadinhas, bom dia e boa tarde, chove muito, chove menos, já lhe dei o troco?, adeus, até amanhã, como num dia banal de um mundo tão antigo e tão ciente que já nada o desarranja.

25.1.21

O que daqui a vinte, cinquenta ou cem anos possa dizer-se sobre os dias de hoje, ignoro e nem em imaginação pondero. Quem figurará na galeria dos ilustres, quantas linhas terá a súmula vaga e desinteressante que há de incluir-se nos manuais da escola, em que museu repousarão os restos mortais e morais, que literatura se fará à roda de amores consumados sem língua nem tato? Não vale a pena, então, ter pressa, querer a autoria das melhores frases e das teses mais elaboradas, dar como certas as contas feitas ao futuro. A História escreve arrastando o punho pelos anos, tantas vezes rasurando, trocando, nas suas voltas, o lugar das vítimas, dos heróis e dos traidores. E, de resto, também não é durante o crime que se faz o julgamento.

5.12.20

O blog da Raquel Varela foi das melhores coisas que encontrei neste ano de dois mil e vinte. Vénia. 
(escusa de lá ir quem não tenha tempo nem dúvidas)

28.11.20

Sempre que o mais velho se põe a ouvir pagode brasileiro, sei que a felicidade anda a rondá-lo de maneiras femininas e urgentes. O que mais quero é te dar um beijo / e o seu corpo acariciar / você bem sabe que eu te desejo / está escrito no meu olhar. O mais novo, que ainda não reconhece ao amor a benfazeja competência de embriagar a carne e vive descansado com versões platónicas, de casta doçura e pressa nenhuma, franze a testa à cantoria. Há uma idade em que as crianças ficam parecidas com velhos moralistas: a sensualidade desconforta-as, suspeitam dela como de uma conspiração. E quando nesta forma tosca e dura se vai convertendo a inocência, é porque está perto de caducar.

25.11.20

À porta do salão, a cabeleireira dá conta da sua existência com o espalhafato habitual. É a pausa para o cigarro e, nesta hora, não há quem passe e se livre de lhe ouvir um comentário, uma simpatia, uma festa, uma pergunta indiscreta, uma receita, um aviso ou, nos dias maus, até uma ou outra cobrança. Enfim, é humana, mas escusava de ser tão chata. Hoje escapo-lhe porque se entretém demais com o Marco do ginásio, estranho que um rapaz com tanta classe ainda não tenha ninguém. Por cortesia ele sorri, a timidez dá-lhe um ar garoto mas esforça-se por embarcar na conversa sem perder dignidade: estou à espera da pessoa certa. Na boca fumegante da cabeleireira rebenta uma dessas gargalhadas com que as pessoas maduras costumam ridicularizar a ternura e o desejo dos inocentes. A possante musculatura não salva o Marco da vergonha, mas logo a cabeleireira, a remediar o mal ou, quem sabe, a fazê-lo pior, pousa-lhe no ombro a mão com artísticas terminações em gel: vou-te dar um conselho, meu querido, e aprende hoje que eu posso estar morta amanhã. Oh, azar o meu, que já não ouço e dobro a esquina a pensar como admiro, mas nem por sombras invejo, estas pessoas como a cabeleireira, sempre muito vivas, todas envoltas em lantejoulas, agitando bandarilhas e chocalhos, dando sem cansaço à manivela da caixa de música, estourando foguetes por tudo e por nada. Gabo-lhes ainda a criatividade, a arte de impingirem carapau ao preço do robalo, chavões ao estilo de filosofia e cambalhotas de bobo como acrobacias de risco.

22.11.20

Desde Junho que me arranjo para ir ao cinema ou a qualquer sala de espetáculos como para uma festa. Se for jantar fora nem se fala. Creio que a solenidade é imposta pela sensação de que a qualquer momento esses prazeres podem ser-me vedados ou tornarem-se tão raros e difíceis que eu própria desista deles. Lembro-me de antigamente zombar daqueles que nas tardes de domingo vinham de longe trajados a rigor só para uma voltinha na marginal da cidade ou no shopping, eles de fato e gravata, elas de dourados e saltos muito altos, as crianças com as roupas da comunhão. E de me parecerem absurdos, excessivos, os vestidos e a maquilhagem que a minha avó usava quando ia votar. Envergonho-me de não ter compreendido que, em ambos os casos, de alguma forma o caminho para aquele benefício era ou tinha sido longo e custoso. Cerimónia era o mínimo que a ocasião merecia.

20.11.20

Para me distrair da longa espera, o mais novo conta, com os detalhes, as reviravoltas e o suspense dos bons narradores, de como Édipo precipitou o seu destino, julgando na verdade opor-se-lhe. Presto muita atenção, a fingir que desconheço a história. Sentadas a três metros bem medidos, uma mulher e a filha adolescente pousam os telemóveis para ouvir também e a outra mais ao lado, que tem um bebé ao colo, nem nota que o embala com a cadência da narrativa. Que riqueza de catraio, diz a mulher, e eu ponho os braços à volta dele, beijo-lhe os cabelos de oiro velho, a testa, o ninho doce que tem entre os olhos. É meu, não se vê que é igualzinho a mim? A adolescente franze a testa na hora em que Édipo mata o próprio pai, a mãe simula um arrepio. Como é possível que as voltas da vida levem a equívocos tamanhos? O mais novo explica tudo com notas de margem e rodapé e eu gosto de o ver consolado, certo de que pode aliviar-me qualquer angústia contando uma história, por mais gasta e trágica que seja. 

19.11.20

A dignidade da viúva é indestrutível. Ninguém pode apontar-lhe má intenção ou maledicência. Nunca foi vista a vender-se ou a dobrar-se, menos ainda a ser pisada. Não consta que tenha agredido, roubado ou ofendido. É imune à tentação do cochicho, evita as horas de ponta no pão quente, ri de si mesma quando o vento lhe desarruma a minissaia. Claro que pode haver quem veja defeito gravíssimo na sua excentricidade ou no gozo evidente que tem em olear a libido da vizinhança adormecida, mas isso, enfim, é a esmola que ela dá ao falatório de vão de escada, que com pouco sobrevive.
Por mais que sonhe ou imite, a mulher do senhor Pereira jamais poderá igualá-la. O alarde que faz das suas vantagens e virtudes é demasiado para fazer crer que tem uma consciência sólida. Porém, se entre ambas se travasse uma batalha pela simpatia do mundo, ganharia. A gente dá sempre a vitória àqueles que não inveja. Ao pobre, ao aleijão, ao enlutado, à mulher estúpida que deu todos os seus valores à troca por um casamento e acabou traída, cedemos de boa vontade o elogio e o pedestal sem nos roermos. E até dormimos melhor.

17.11.20

O meu vizinho comprou um SUV castanho dourado, igual ao da viúva, e estaciona-o com uma destreza performática ao lado da minha carroça. Antes de abrir a porta e sair olha-me daquela sua nova elevação, sabe-se lá com que sacrifício ou crédito atingida, e faz uma vénia ligeira. Reconheço-lhe a boa figura, embora note o quanto ensaia para se ajustar, receando descoser-se e deixar às escancaras um avesso indigno de conduzir tal máquina. Ah, um homem pode ser dono de defeitos vários, mais ou menos censurados, mais ou menos consentidos, mas ninguém lhe aponte desleixo na compostura ao volante do automóvel que merece.
Já em casa, a salvo do meu olhar desconfiado mas não dos meus ouvidos, tenta impor disciplina ao diabrete que concebeu mas sobre o qual não tem qualquer autoridade. Descontrolado e inútil, tão oposto à figura exibida na garagem! Vou contar até três para te calares. Um.... estou a avisar... dois... vou-te pôr esse rabo a arder... três! Mas o diabrete já sabe que o pai é cão que ladra sem morder e a ameaça dá-lhe ainda mais fôlego para o berreiro. A mulher, alertando para o óbvio: tu não vês que o teu filho nem sequer acredita em ti? 
Além do SUV castanho dourado, não há nada que o meu vizinho saiba conduzir.

14.11.20

Depois de mortas, as pessoas tornam-se demasiado perfeitas para algum dia terem sido reais. Ou não fossem a ausência e a distância as linhas com que se cosem as mais rebuscadas fantasias. 

11.11.20

Vou sabendo do que se conta e pouco mais: a imperatriz vai embora para apoiar a mãe, que murcha em solidão lá nas encorrilhas do monte. O seu colo desdobrar-se-á em dois. É hora de retribuir a vida que amorosamente lhe foi dada mas sem descurar a que ela própria pôs no mundo e por isso vai de armas e bagagens. A causa é nobre e foi certamente ponderada à custa de más noites, com prós e contras bem medidos nas voltas do lençol. Para impedir que o neto seja criado onde judas perdeu as botas, o senhor Pereira confia que o vírus jogará a seu favor. Esta pandemia ainda vai piorar muito e não pode desertar à toa quem mais falta faz nos hospitais daqui. Tantas regras e proibições para todos e iam autorizar uma enfermeira, numa hora destas, a transferir-se para a província? Era o que faltava! Se não há um pai ou um marido, ao menos o governo há de pôr freio nesta rapariga.

9.11.20

Fiz uma chávena de chocolate quente, espesso, temperado com gengibre e canela, e aninhei-me a ver mais um episódio de "Gambito de Dama", mas apesar do consolo na alma não houve conserto no mundo. É magnífico - e invejável - haver quem seja capaz de salvar o seu dia com um gole de chá, uma manta, um livro, um filme ou o mais que faça esquecer da parte e da culpa que temos no resto.

4.11.20

Pequena é a ambição dos pais que dizem aos seus filhos um dia vais dar-me razão. Em certos casos, chega a ser mau agoiro. 

3.11.20

Durante o confinamento, naquele março que vai tão longe, uma das coisas que mais me assustou foi ver quanta gente havia satisfeita com o silêncio do mundo e elaborava tratados românticos, doces, quase felizes, sobre a clausura. Cheguei a ouvir a alguém dizer que sonhara a vida toda com um momento assim. Tive mais medo destas pessoas, todas juntas, do que de cada reajustamento que o governo fazia às medidas aplicadas. Incapazes de ver para lá do seu conforto domiciliário, da sua despensa farta, do seu aqui e agora, mostraram como a voz do egoísmo, além de sentimentaloide, consegue ser despudorada. Redimiam-se picando o ponto na varandas para cantar loas ao pessoal dos hospitais ou apiedando-se dos velhinhos, que precisavam de tudo - e de tanto! - menos de piedade. 
Com o tempo fui notando que a generalidade dessas pessoas que faziam o elogio do isolamento enquanto brincavam ao neolítico amassando pão e congratulando-se com a descoberta de aromas florais e passarinhos, não tinham filhos ou os tinham já graúdos e dispersos. Por isso se marimbavam para o abalo do mais nobre e estrutural dos pilares de uma sociedade que se quer próspera: a educação. Também intuí que boa parte delas teria laços frouxos com a família, que os seus amigos seriam habitualmente ausentes ou mesmo inexistentes e talvez tirassem consolo de pensar que, por uns tempos, ao invés de uma sentença pesada, a solidão podia dar-lhes a grandeza de um sacrifício, o brio de um ato heroico. 
A certos iluminados ocorreu que houvesse uma mensagem do universo, essa entidade que os gurus da autoajuda têm vindo a descredibilizar. Eis a oportunidade de reverter o mal feito ao planeta e a nós mesmos, assim diziam muitos, travestidos de uma humildade forçada e verborreica. E até a mim, que sou simpatizante de Buda e tenho rituais diários de meditação e yoga, esta ideia soou a bugiganga espiritual. Mas serviu de pretexto para a reprodução desenfreada de sermões sobre como os outros se haviam portado muito mal ao preterir os afetos e a solidariedade em favor do consumo e do descarte. 
Pareciam pouco importados com a evidência de que a sociedade começava nesse instante a resvalar. Que a órbita do mundo seria redesenhada, sim, mas não no sentido do retorno àquilo a que chamavam as coisas essenciais sem noção de que falavam de privilégios e que ofendiam uma parte considerável do país e da humanidade: o livro lido com vagar, a paisagem silenciosa apreciada do terraço, a perceção das unidades de tempo, o aroma do café de saco. Na perspetiva estreita de quem tinha os empregos salvaguardados pelas circunstâncias ou pelo Estado e um bom seguro de saúde, eram estas, e outras similares, as coisas essenciais. 
Agora que novas restrições se anunciam, tudo isto me vem à memória e sei, tenho a certeza ou quero tê-la, de que quem viu desta forma romântica uma tragédia com tantas, tão amplas e tão duradouras sequelas, agora sabe mais, tem outra perspetiva, é capaz de mais empatia e de uma solidariedade mais genuína. Ou, se nada disto, ao menos mais pudor. 

30.10.20

Da maneira que isto está, já deviam ter-nos mandado todos outra vez para casa, diz a professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada, enquanto toma o café em goles lentos, a máscara suspensa numa orelha, o ar sedado do costume.
Consigo facilmente imaginá-la trancada por longos dias, do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para a sala. O silêncio alivia-a tanto que se emociona. Nas cristaleiras tinem serviços de pechisbeque, souvenirs das férias pela Europa com o ex-marido e o rapaz, objetos avulsos sem serventia, porta-chaves, moedas de escudo, esferográficas secas, rolos fotográficos, pins. Nos armários, jogos de lençóis coçados, fronhas sem par, vestidos e casacões que deixaram de servir depois da cirurgia, roupa de quando o rapaz era pequeno, fantasias de carnaval, chapéus de inverno, de praia e de chuva. Nas estantes, os peixinhos-da-prata banqueteiam-se na desarrumação das capas de dossier, cópias de fichas e manuais, faturas, cartas, comprovativos, requisições, calendários, agendas, cadernos de receitas, álbuns, jornais velhos, revistas de moda passada. No chão, literatura em montículos de dúzia serve de mesa de apoio a candeeiros, velas e correspondência por abrir. Ela contorna tudo com a sua obesidade cinzenta e um desalento clinicamente comprovado, sem tropeçar nos gatos que lhe rodeiam os tornozelos a cobrar festas.
Ainda em jejum, acende um cigarro, mira o prédio defronte, o alinhamento das marquises traseiras, as roupas abertas nos estendais, os vasos desbotados pelo sol, o padrão exposto das vidas comuns. Afaga os bichos por hábito e instinto, põe-lhes comida, recolhe as fezes. Almoça lasanha requentada e uma maçã para limpar. Liga ao rapaz, que agora vive em Barcelona com uma irlandesa de humor magnético e tão elegante que mete nojo. Enquanto toma café na varanda, roga pragas aos que desafiam a autoridade e saem à rua, deviam ter sido educados com mão firme, o mundo assim não vai a lado nenhum. A professora esqueceu quão insurretos, sujos, torturados, viciados e imensos foram os autores dos poemas que leva para os alunos e que não lhes interessam porque ela não lhes conta das fragilidades, não lhes diz que eram pecadores, que tinham pesadelos e desejos ingovernáveis. Fala deles como deuses e a juventude não precisa de religiões. 
À noite, com os dedos muito ágeis entre as coxas, a professora fantasia versões alternativas ao amor que conheceu e lhe falhou. Para descolar da memória a imagem dos adolescentes eufóricos, cheios de ganas e saúde, lembra versos censurados de Bocage  ao menos é Bocage. No fundo da cama, os três gatos pretos assistem à demora do êxtase.

27.10.20

Como a generalidade dos homens da sua geração, o senhor Pereira trata as próprias dores com mão firme, mordaça e perpétua clausura. Isso explica o ar ligeiro, quase feliz, com que apareceu no pão quente para comprar uma roca. Só de olhar, ninguém diria: a sua mãe ainda agora morta, o seu casamento um moribundo de plumas, as filhas sempre amuadas, o filho uma pasta de gente amorfa cuja única grande realização – Joaquim – foi por acidente, a imperatriz a preparar-lhe o mais duro de todos os golpes. Mas a farsa é uma arte aplicada com muito brio ao sentimento familiar, nenhum outro teatro se lhe assemelha em magnificência e duração. Uma família pode manter-se anos e anos em palco, brilhando nos papéis atribuídos, sem hesitar numa deixa ou tropeçar nas pontas soltas da vestimenta. Enterra os seus cadáveres com vergonhas e passados inconvenientes, tudo junto e embrulhado em arranjos florais, e vai acenando, à boca de cena, como se nada fora. Tantas são as mágoas que podem atormentar um ser humano comum e, de todas, a que mais o envergonha é a deriva da sua família, o fracasso do seu ideal.

23.10.20

Ah, minhas senhoras, eu faço tudo, tudo, pelos vossos filhos, falou o jovem diretor de turma dando um jeito distraído ao cabelo. Pelas vinte quadrículas do écran multiplicou-se um risinho de clandestina satisfação, deleite ou luxúria. Parecia ter caído um daqueles aguaceiros benfazejos de verão, que aliviam as securas do mundo, soltam a terra, despertam as corolas. Depois de um pediatra sensível e paciente, não há como um professor dedicado para superar certos maridos.

21.10.20

Uma desgraça nunca vem só e para confirmar estes e outros ditos vê-se, uma vez mais, a família Pereira abalada na sua folclórica estabilidade. Bom, talvez não se possa chamar desgraça ao natural apagamento de uma vida quase centenária. A velha muito velha foi-se em fim de tempo, como é próprio do que, por sorte, escapa no caminho a acidentes e agressões. Desgraça, isso sim, foi a decisão tomada pela imperatriz e anunciada no rescaldo do luto. 
Nunca os Pereira sonharam depender tanto dos humores de uma rapariga vinda da província para hastear a bandeira do feminismo e da independência precisamente ali, na casa onde estava tudo tão betonado que nem as traições faziam grande mossa (as birras levadas a cabo pelas manas não entram na contabilidade, já que se fizeram e desfizeram com mais ligeireza do que as da primeira infância). Sequer os avós Pereira imaginavam que aquela que lhes deu a maior graça das suas vidas ao abençoar a família com uma descendência viril poderia ser outra coisa senão o que até agora tem sido: uma mãe sensata, inteligente, disposta a salvaguardar as necessidades e direitos do filho, contribuindo de forma exemplar  e sabe-se lá com que sapos atravessados na garganta  para que Joaquim construa por si uma relação com a família paterna, de valores tão opostos aos dela. 
Não haverá muitas capazes de um malabarismo tal e a quem passe ao lado a tentação mesquinha de entrar com as desavenças, os rancores e as faturas na educação dos filhos. Porém, a imperatriz é pouco dada a rivalidades estéreis, além de que Joaquim não é para ela um troféu, um instrumento ou uma salvação, mas um feliz incidente, uma trapaça do corpo, enfim, um delicioso acaso. E a pureza dos acasos  porque não são delineados ou corrompidos por nenhum projeto ou ambição, porque desafiam a vontade e a convertem   é um valor a preservar. De resto, o amor que a imperatriz tem ao filho justifica os esforços e as concessões. Por ele, suporta os Pereira e o seu desejo de atribuírem a Joaquim a responsabilidade de desfazer o sarilho de disparates e conveniências em que vivem. 
Nós, que assistimos a rir e pensamos que seria de outro modo caso fossemos os protagonistas, ainda assim comovemo-nos ao ver o senhor Pereira desmoronar-se diante do neto. Pese embora o machismo subjacente a este afeto privilegiado, sempre tivemos fé de que daqui viesse uma revolução de lógicas e princípios capaz de destituir a frieza da autoridade vigente e abrir caminhos novos, mais apaziguados para toda a família, onde até as manas se sentissem mais ouvidas e amadas e o mano inútil ganhasse finalmente um brilho próprio. Mas a vida, enfim, dá as voltas que sabemos e apanha-nos na curva, quase sempre distraídos e de mãos nos bolsos.

E toda esta conversa para quê? Os factos, sendo o que são, não podem ser amenizados nem evitadas as suas consequências só porque fazemos esta resenha de prós e contras, com perspetivas e contrapontos. Mandar a razão à frente para aplanar terreno a ver se suaviza o derrapanço, nem sempre resulta. Mas a verdade é que também a mim me custam certos episódios e adio a hora de os contar. E ter dito logo, a frio e à cabeça deste texto, que a imperatriz vai voltar a viver em Penedono e leva com ela Joaquim, como se viesse a propósito ou fosse coisa menor, não me parecia bem. Não me parecia nada bem. 

17.10.20

No dia em que cessar o meu contrato de fertilidade com o corpo, farei um luto orgulhoso sobre o qual dispenso consolo. Toda a ideia de envelhecer me repugna, de forma alguma nos outros, mas apenas em mim mesma. E digo-o com a verdade a que tenho direito e que ninguém pode censurar, nem em nome dos paninhos quentes com que se disfarçam as inconveniências de viver. 

15.10.20

Hoje a rapariga da papelaria não vem trabalhar. É o aniversário de Alicita, lembra-se?, pergunta-me a avó, que está a fazer as vezes da filha no atendimento. Como não? A menina, nem três mil gramas de gente e ainda assim teimosa, fincou os pés no ventre materno, sair só à força de bisturi ou pela mão de um carrasco. Alicita não havia de querer fazer sofrer a mãe, mas fez. Submeteu-a a tantas horas de espera, dor e sufoco, que deu tempo de acordarem dois sóis. Da cesariana, a rapariga saiu a jurar que nunca mais, julgando, na legítima e conveniente ingenuidade de quem sobrevive ao esforço de parir, que o pior da maternidade ficara para trás, no bloco, diluído em sangue, placenta, líquido amniótico e outros destroços animais. Um dia, a mãe contará à filha sobre esse quinze de outubro de dois mil e dezassete. De como, na manhã seguinte, enquanto ambas restauravam, docemente, sem mágoa, os estilhaços da violência que atravessaram juntas e se entregavam à placidez daquele amor acabado de inaugurar, as gordas dos jornais escancaravam o inferno e a vergonha no balcão da papelaria.

14.10.20

Agradeço a quem se aflige por me supor infeliz no trabalho e na vida em geral, mas é preocupação injustificada. Não devem confundir-se as linhas que escrevo com as que tenho na palma da mão. Já o disse noutras ocasiões: não faço disto um divã, tampouco um diário, falta-me vocação para o esbanjamento da minha intimidade e seria demais presumir que ela importa a outros além dos que me são próximos. Isto é só um caderno de exercícios onde me agrada alinhar as irregularidades da vida ou chupar-lhe os ossinhos, consoante os dias e a disposição. Lançar, de vez em quando, um olhar irónico sobre a minha própria realidade, desarrumar a minha paz e reduzir a nada os meus privilégios, faz parte do mais fundamental desses exercícios.

12.10.20

Por baixo do vestido de festa, a carne podre. E eu trabalho de costureira, das nove às seis, exercitando o pesponto miúdo, cobrindo tudo de sedas e rendas finas, cerzindo com fio dourado as malhas caídas e pregando o acabamento em lantejoulas. Depois, sacudo dos ombros a minha consciência suja, deixo-a ficar na cadeira de escritório e volto para casa com o sono, a disposição e o apetite intactos.
Quando em jovem eu bradava que jamais me venderia, mal sabia quantas formas há de nos comprarem. Também em mim, concluo, assentam bem certos vestidos.

9.10.20

"Novo normal" é uma das mais patéticas expressões que a contemporaneidade inventou, uma espécie de quinquilharia sociológica que nos últimos meses se usa, como se fosse uma joia, no comentário, na conclusão e na aceitação. "Normal" já era vocábulo com pouca coisa lá dentro, de uso tão amplo, diverso e vago que serviu e serve de igual modo todas as correntes, culturas, ciências e religiões, e ampara sentimentos que podem ir da repulsa – credo, isso não é normal – até à desvalorização – deixa lá, isso é normal. A ambiguidade do "normal" vê-se na facilidade com que sempre foi trabalhado como plasticina, gerando enganos, negligências, marginais, doentes, frustrações, desconfianças. Precedê-lo do adjetivo não lhe dá uma feição diferente, mais firme ou concreta, nem torna intrínseca a moral que jamais lhe pertenceu mas de que sempre se dourou. Mas ao evitar que notemos o seu oposto - o anormal -, o "novo" amacia os nossos espíritos e convida-nos a instalarmo-nos sem reservas.

6.10.20

É uma dessas manhãs em que, sem outro motivo além da consciência de existir, venho pela rua a fazer o inventário dos meus privilégios, cantarolando, exercendo a vida com tudo o que por sorte me foi dado ou por empenho conquistei. Por isso é grande a estocada quando vejo a mãe dos filhos com olhos de azeitona preta, que não via desde que nos fechamos todos em casa. Vai sozinha, ao contrário do hábito. Durante anos e anos fez aquele percurso a carregar duas crianças, mais tarde carregando uma e arrastando outra, ultimamente apenas de mão dada com a menina, porque o rapaz seguia à frente, apressado para ser homem. Do bairro à escola, da escola ao bairro, numa comovente obediência ao seu destino, aquela mãe precoce a quem nunca escutei uma palavra, de pernas grossas e joelho valgo, que todos os dias enviúva do mesmo delinquente, jamais se atrasou ou fez outro caminho. Porém, os filhos com olhos de azeitona preta prescindem agora do abrigo e da boleia do seu corpo. Cresceram, estão expostos às próprias possibilidades de corrupção e infortúnio, são jogadores autónomos na lotaria da vida, vamos esperar que encontrem um caminho para lá da miserável condição em que nasceram.
Chego a casa e não tenho apetite. O mais velho preocupa-se, o que tens? E quando digo quem vi pede-me que não conte, pois sabe que também pousará os talheres. Ah, felizes os que andam entretidos na sua roda viva e dormitam na sua quietação murada e praticam opiniões diante dos cortejos televisivos e só conhecem a tragédia de a folhear em verso e salivam sobre a fartura das suas mesas e doam os excessos porque precisam de limpar armários. Aproveitem, porque a felicidade que há no mundo é pouca e distribuída de forma mais desigual que o dinheiro. Têm-na toda os deuses e um ténue vislumbre dela os humanos. 

1.10.20

À porta da escola secundária por onde passo todos os dias a pé, vibram de novo as energias apaixonadas da adolescência. É a vida a tentar recompor-se, a sacudir a poeira da sua hibernação, a reacender os projetores, a desatar as engrenagens. Naquele formigueiro vejo acontecerem, nuns casos por descuido, noutros por vontade, todas as coisas que o pavor demonizou – beijos, abraços, sussurros, rodas de convívio – e alegro-me com isso, como se respirasse fundo ao vir à tona de um pesadelo. Mas logo me culpo pelos meus sentimentos e decido não conversar sobre isto com ninguém, sob pena de a censura popular, que é rígida no pensamento e rápida no gatilho, me acertar o passo. Que tristes nos tornamos. E pobre juventude, esta, que já não sabe o que dela se espera. Até agora criticados, desvalorizados na sua inteligência e sensatez por passarem demasiado tempo nos telemóveis, acusados de só investirem em vidas virtuais, escutando sermões sobre os convívios de antigamente. E veja-se a ironia do destino, o mistério das voltas do mundo: condenados de repente pelos hábitos justos, sãos, humanos, pela vida real que a sua natureza pede, que o corpo precisa, que a alma merece. Enfim, de uma forma ou de outra, ser-lhes-á imputada a culpa pelo fim do mundo. Por onde quer que sigam, seguem em contramão. 

30.9.20

Desconfio sempre de quem se mete a definir o amor e porque o vive ou viveu, nele se arruinou ou se salvou, atribui-lhe um alfabeto linear e organiza-o com suposições universais, julgando ter desvendado todos os seus segredos e propósitos e sobre isso criando máximas, filosofias, teoremas, carapuças de tamanho único e o mais que vale tanto como um sopro do vento. Sou avessa a definições. E, acima da definição, aborrece-me quem define. Eu, nem que quisesse teria como dar verbo aos magníficos lugares onde vi o amor chegar. E só um grande desentendimento do mundo poderia fazer-me supor que o que vale para mim vale para todas as almas em todas as camas e todas as casas de todos os tempos.