Os escritores têm vindo a tornar-se uma tribo de narcisistas. Vão aos festivais cultivar o próprio génio, participam em mesas redondas para debater a singularidade que se atribuem, lamentar a mágoa das suas infâncias incompreendidas que, felizmente, acabou por aprimorar neles o talento de manobrar o verbo, divagar sobre a dimensão paralela que habitam, cheia de deveres sacrificiais. Vão perdendo a arte de viver por trás da obra, agora são eles os protagonistas e o seu nome é, na capa, maior do que o título do livro. São a razão e o alvo dos porquês e das transações, prestam-se bem a autógrafos e entrevistas, respondem com paixão à mais idiota e vulgar de todas as perguntas "o que é preciso para ser um bom escritor?", seguros de que têm a fórmula, logo, é ponto assente que são bons (nunca vi nenhum que respondesse com espanto e humildade não faço ideia, mas se souber diga-me).
No meu tempo - que não se mede em anos e não passa de uma demarcação ilusória das coisas que penso e em que creio - os escritores ocupavam-se do mundo, das suas misérias e do seu encantamento. Chocalhavam-no por meio de personagens inesquecíveis, enfiavam os dedos nas suas feridas, apertavam-lhe os testículos, espremiam-lhe o ventre, expunham-no em carne viva e ainda derramavam álcool por cima, sem piedade, pudor ou grilhões ideológicos. Era esse o seu papel e, em boa verdade, continuam a afirmá-lo, a defendê-lo publicamente com unhas e dentes. Infelizmente, creio que não lhes sobra grande tempo para o exercer.