18.5.22

Antes de abrir o salão, Gabi passa à porta do ginásio, aninha-se na musculatura do amante e prolonga os beijos como se fossem os últimos. Gosta de exibir os benefícios da sua conquista, sabe que o Marco é o ai jesus das velhas, quantas vezes as ouviu, à roda das raspadinhas, a suspirar pela felicidade dele, tomara que encontre uma mulher que o trate bem. Pois então, ei-la. Pertence-lhe o prémio porque teve o mérito e enganaram-se os que supunham que o destino reservaria para ele um final feliz com a rapariga da papelaria, essa que vive de cara amarrada e a quem o abandono tornou desdenhosa ao invés de humilde. Era o que faltava, o amor não é o fruto de acasos e nem sequer floresce na desarrumação sentimental ou na sombra de espíritos desiludidos. Está escrito nas revistas do salão, seis dicas infalíveis para conquistá-lo e nenhuma é fazer-se de coitada. Gabi aplicou-se muito, riu das graças dele, adequou as maneiras, os interesses, aprendeu sobre proteína e burpees e tornou-se uma dessas ex-fumadoras cheias de moral e arrogância que tomam para si a tarefa de orientar os mais fracos: nem sabes o mal que isso te faz. A cabeleireira encanita-se, querem lá ver que já não se pode fumar um cigarro em paz? e nestas alturas talvez lhe dê uma saudade franca da outra manicura, tão desastrada nas conjugações pronominais como lúcida na análise dos fenómenos amorosos. Podia ter igualado a proposta do salão do centro da cidade e talvez ainda a tivesse por lá, cheia de graça e exuberância, disputando com a dona Maria Isabel a última e mais sabedora palavra nos debates de sábado. Mas as coisas estão difíceis para todos e a inexperiência de Gabi, há que reconhecer, trouxe pelo menos dois benefícios à gestão da casa: disponibilidade e poupança. Talvez o Marco do ginásio tenha uma visão semelhante: quão mais trabalhosa seria a sua vida caso a rapariga da papelaria tivesse ficado com ele? Digam o que se disserem, Gabi é uma bênção.