9.3.26

A alegria de domingo é redonda e pontual na casa dos meus vizinhos. Por cargas de água que ignoro, tem havido neles uma constante disposição para celebrações e não retomam os afazeres da semana sem uma festa. Gostam de expressar com vigor todos os pretextos da sua alegria, ocupam os silêncios e as horas preguiçosas do ocaso com convidados, palmas, cantilenas, congratulações, riso convulso, tilintar de copos e flutes, discursos de meias frases pontuados de trocadilhos e anedotas. Creio que fogem dos instantes mortos e dos espaços em branco como o diabo da cruz. Porém, se me cruzo com eles nos elevadores, acho-os embaçados, com modos neurasténicos, resignados como gado, não encontro nos seus olhos fulgor equivalente ao escarcéu com que celebram aos domingos, de casa cheia. A mulher estava hoje de manhã cedo à entrada da garagem a trocar os segredos de uma boa sopa com a rapariga do segundo direito. Abordava a velha questão da batata - será de acrescentá-la ou excluí-la? - que continua a dividir a ciência doméstica e as convicções dos influencers. Atenta a todas as fomes do lar e antecipando-as, coitada, estudou tanto para acabar intelectualmente estimulada pelo desafio da angariação de selos do continente, cativa de um itinerário que vai da cozinha à cama com paragens lânguidas por gabinetes e salas de reunião, fúrias largadas no ginásio, a curiosidade embotada e muitos suspiros pelo próximo domingo, quando o sentido da vida for restabelecido.