15.10.21

– Parece impossível, sou mãe há quatro anos mas dá-me a impressão que tenho sido mãe a vida inteira.
Diz-me a rapariga da papelaria a propósito do aniversário de Alicita, a celebrar esta noite com a família, um bolo de unicórnios e uma data de lambarices que em dias comuns são proibidas. Compreendo o devaneio. A maternidade apropria-se da memória e nela semeia dúvidas e cava buracos negros. Tudo o que precede a turbulência do instante em que se dá à luz é pertença de uma pessoa de substância fictícia, que já não sabemos ser. Ter um filho até parece um ato de continuidade mas é um salto para um curso paralelo. O tempo antes da maternidade não é passado, é alternativo.
– Não sente o mesmo?
– Nunca pensei nisso.
Minto sempre muito à rapariga da papelaria e a coitada sem culpa nenhuma. Minto com propriedade e segurança, de costas direitas, como uma senhora, apesar de saber que ao mentir humilho a sua sentimentalidade, reduzo o seu pensamento a uma tolice, deixo-a só, à mercê do juízo desgostoso da própria mãe:
– Valha-te Deus, tanto vento nessa cabecinha.
Mas a rapariga da papelaria sobrevive. Está mais do que habituada a tirar o coração fora do peito em público e a escancará-lo sem apoio, eco ou entendimento. Não se lembra, mas antes de Alicita nascer já era assim. Em boa verdade, foi por isso que Alicita nasceu.

13.10.21

Um homem de sorte como, apesar de tudo, o senhor Pereira é, está sempre onde deve estar, ou seja, onde os acasos o favorecem. Pertence-lhe aquela hora exata em que o aguaceiro cessa ou o engarrafamento é desfeito ou o pão está mesmo a sair do forno ou a nota de cinquenta rodopia sem dono na calçada ou as mulheres precisam dos cuidados e atenções de um cavalheiro. Tudo isto são modestas conquistas sobre percalços miúdos, eu sei, mas vão servindo de remendo às desgraças maiores e ninguém nega que muitas vezes nos salvam os dias – senão mesmo a dignidade –  já que são indícios de que deus existe e acordou a segurar-nos a mão ou de que o destino pode estar a ganhar algum senso de justiça.
É, porém, sabido que por cada homem que ganha uma banana, há outro que escorrega na casca. E esta metáfora amanhada à pressa é quase retrato literal do que hoje venho contar. 
Encontro o senhor Pereira aqui onde todas as coisas deste blog acontecem e ele, evoluindo da mera cortesia para o sincero entusiasmo, vai-me perguntando das novidades. Mas basta o SUV da viúva dobrar a esquina e ele sobressalta-se, perde o foco e diz coisas de que nem tem consciência, porque toda a sua atenção está agora posta na viúva e eu não tenho como competir com ela nem faço questão pois em casos destes há mais ganho em assistir ao espetáculo do que em ser protagonista. Aselha como é hábito, insensível às subtilezas da máquina e às ratoeiras do espaço, ela estaciona a um metro do passeio enquanto vibra nas colunas do SUV aquela magnificência da música popular brasileira dos anos oitenta – eu quero ser sua canção, eu quero ser seu tom, me esfregar na sua boca, ser o seu batom, o sabonete que te alisa em baixo do chuveiro – e, verso a verso, eu comprovo que até na banda sonora o senhor Pereira beneficia das manhas do acaso.
Já de mãos nos bolsos, crescem-lhe as costas – e sabemos lá o que mais – acima das possibilidades, franze os lábios a conter as ganas de sorrir, prepara-se todo para saudar a viúva, é como um adolescente em estreia, aflito na gestão dos apetites. A viúva sai do carro e vem já a passar perto, com ar de quem aceita e agradece a lista inteira dos adjetivos que lhe atribuem. Mas no instante exato em que vira a cabeça a dizer como está o senhor? e joga todos os seus trunfos num olhar, qualquer coisa súbita e invisível lhe rasteira o passo. A partir daí, tudo em menos de um ai: falha um pé, a seguir o outro, a viúva tomba para o lado, solta um gritinho e o senhor Pereira lança-se com a determinação de um herói para evitar que o esbardalhanço se complete no passeio imundo, onde qualquer um deixa pegadas, cuspidelas, beatas e dejetos. Dada a urgência do momento, as mãos do senhor Pereira acodem ao corpo dela de todas as maneiras e ângulos possíveis, não há tempo para escolher por onde o amparam e eu garanto, por ter visto, que estiveram em todas as partes onde a sua imaginação já derivou. Como condenar? O pudor até pode ser aliado da civilização mas é empecilho à sobrevivência. E, de resto, o saldo positivo atesta a eficiência do método: certamente o senhor Pereira tocou onde não devia mas a verdade é que os joelhos da viúva não tocaram no chão. 
Quando recupera a pose, ela ajeita os cabelos e desvaloriza a inconveniência: ora essa, muito obrigada, senhor Pereira, mas não foi nada, não era preciso. Já sabemos que não se atrapalha com pouco e, no que às coisas do corpo diz respeito, pende mais para o orgulho do que para a vergonha. Quem se lembra de quando a borda da minissaia ficou presa no cós e ela desceu a rua toda com o vento a possuí-la por trás, um fio de renda na cava das nádegas, a atitude superior de uma rainha? 
O senhor Pereira tem o sorriso todo escancarado. Caiu-lhe a viúva nas mãos – literalmente – sem que o possam culpar e não a quer deixar fugir tão cedo, então segura-a pelos braços e insiste em saber se está bem, se não se magoou, se tem já os pés bem assentes em terra. Quer que a leve a casa, minha senhora? Tomara ele! E muito estranho andaria o mundo se, entre todos os homens que da praceta à rotunda a desejam, a viúva favorecesse justamente o senhor Pereira. Apesar de tudo, a sorte é um bem racionado em conta-gotas e por isso é dito que não se pode abusar dela. Do que por acidente ele provou hoje, o mais certo é não voltar a provar. 

3.10.21


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Não é novidade que eu estarei sempre, em qualquer circunstância, do lado dos mais novos. Respeito as rugas e os cabelos brancos - lá chegarei - mas quando imagino, projeto o mundo em que eu gostava de viver, é nos dentes de leite e nas borbulhas que penso pois é deles o caminho que, bem ou mal, se vai fazer. É por eles que alinho a minha consciência política e invisto muito do meu tempo. Paciência para a ladainha dos que por tudo e por nada os censuram ou menosprezam, não tenho ou jamais tive. Cada geração condena sempre a seguinte e nunca tem a humildade de compreender que é totalmente responsável por aquilo em que ela se torna. 
Sei que quem não tem filhos ou já os tem crescidos nunca se importou por aí além com o que se passa nas escolas desde março de 2020. E agora que os dias são de alívio, loucura e ressaca, ou, como dizem os românticos, de libertação, menos ainda. As crianças e os adolescentes ficaram para trás no levantamento de restrições e nas notícias dos jornais, mas que interessa isso a um país onde a visão de futuro tem prazos de quatro anos?

2.10.21

Ontem, os adultos eufóricos, de rosto finalmente escancarado, gratos pela libertação, cheios de esperança, planeando o jantar em grupo e a saída festiva à noite, entregavam no portão da escola, sem qualquer dúvida ou reserva, os seus filhos ainda mascarados, ordeiros e submissos. Foi uma das coisas mais tristes que vi nos últimos tempos, mas também, certamente o mais nítido e simbólico retrato do que somos.

1.10.21

Vade retro o beijo que se dá por dar, o beijo distraído, cerimonioso, etiquetado, afetado, que vai em cantigas de circunstância, o que se dá à troca por rebuçados, o que se presta a desconhecidos e é desbaratado em apresentações, o que se deixa usar sem cuidado e consciência ou se posta em faces que não o pediram nem querem, por demais prolongado e lambuzado. Vade retro o beijo fútil, o oportunista, o comercial, o de oca e despachada simpatia, o que tem tique social – ora um ora dois, consoante o estilo e a proveniência. E vade retro o de judas. 
Abençoado o beijo seletivo, que entre rostos ou bocas transporta sentimento verdadeiro e correspondido, que se dá com intenção e cumplicidade, mesmo que ligeiro e com pressa. Só para esse, felizmente, sobrou lugar depois deste solavanco no mundo.

28.9.21

Faz-me pena a rapariga que veio para a entrevista no departamento oposto ao meu. Pelo vidro da porta, vejo-a muito aplicada no domínio da linguagem corporal, não dobra as costas nem cruza as pernas, põe freio nas ganas de gesticular, inclina ligeiramente a cabeça para se mostrar atenta. Imagino que esteja em esforço para falar corretamente, a sua e todas as outras línguas. Talvez responda ingenuidadeteimosia e perfeccionismo quando lhe perguntarem pelos seus maiores defeitos. Faz-me pena que invista tanto em maneiras de rigor, equilíbrio, sensatez ou educação e tenha a ilusão de que importam. Mais cedo ou mais tarde descobrirá que nos locais de trabalho não se foge à regra da vida em geral, as pessoas endoidecem, embriagam-se, enrolam-se, maldizem, censuram, apaixonam-se, traem-se, culpam-se, derrapam nas contas, gaguejam nas línguas, ajavardam na ortografia. A lucidez não é valor por aí além – tem mais fama do que outra coisa qualquer – e as maneiras só importam consoante o caminho que abrem. O dinheiro, que é a causa e a consequência de se trabalhar, não tem esquisitices: aperta a mão à mediocridade e à excelência com igual vigor. Portanto, se esta garota tem a ideia de que saiu da universidade para entrar num mundo adulto, intelectualmente dotado e moralmente superior, o balde de água fria vai custar. Depois habitua-se. 

24.9.21

A caminho da pré-escola, Alicita vai celebrando as bênçãos e as miudezas da infância. Nenhuma rotina lhe pesa, tudo tem ar de novidade. Como pode a gente adulta enfastiar-se neste mundo sempre em movimento? Não são um espanto as flores a despropósito nas juntas dilatadas do passeio, as nuvens na corrida de outono, os rostos estranhos na paragem de autocarro, as cabriolas do gatinho a assaltar o ecoponto, o ciclista a esforçar-se tanto na subida? Orgulhosa de ser aprendiz de pleno direito, com inscrição e documento, nome bordado na bata, pão com queijo, iogurte e muda de roupa na mochila, Alicita vai com fé. Se houver razões para temer ou duvidar do destino que lhe é imposto, não as provou ainda. Que perfeição. As velhas acenam, atiram beijos e votos de uma jornada de alegrias e êxitos. A avó orienta: anda, minha florzinha, estuda para chegares onde a tua mãe não foi capazEstão cheias de mágoa estas palavras, mas Alicita só reconhece nelas lisonja porque o filtro da inocência retém o que não presta. Ri e diz que sim, que chegará lá onde querem que chegue. Não sente, mas tem a infância toda cravejada pelos estilhaços do desastre sentimental em que a mãe e avó vivem, duas fêmeas orgulhosas, inimigas só por vício e engano, a sangrar de pescoço levantado.

23.9.21

Só com muita faltinha de ambição é que uma rapariga larga o que tem aqui e vai enterrar-se lá na parvónia.
Fala assim – sobre a imperatriz – a mulher do senhor Pereira, esse grande modelo de vontade e sucesso, uma vida inteira exclusivamente dedicada a polir o marido infiel para não macular o retrato de família.

22.9.21

Ao cabo de todos estes anos como leitora de blogs, ainda me pergunto se o anonimato será mais favorável à honestidade ou à impostura. Mas, afinal, concluo sempre da irrelevância da questão. Um bom blog não deve absolutamente nada à verdade, o único compromisso é escusar-se a ofender os leitores servindo-lhes menos do que a sua inteligência merece. Se em dois ou três parágrafos me levarem ao êxtase ou me mostrarem os avessos mal costurados da realidade e me acordarem dos sonos em que me deixo cair e cutucarem o meu pensamento habituado, estou-me nas tintas para a coerência entre o que está escrito e a vida de quem escreve.

21.9.21

Ao fim da tarde, depois do trabalho, pego na bicicleta e vou pela beira do rio a fazer de conta que a minha vida é ligeira e fotogénica como a das mulheres dos anúncios que pedalam no meio das searas de chapéu de palha. Comigo vai apenas o rapaz voador porque o menino com cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno, esse agora usa uns modos novos de estar, costurados com voz grossa, encorpados com ganas de distância e independência. Ultrapassou-me em altura e fez-se uma cópia tão exata do pai que me sobressalto se o vejo, em reflexos de espelhos ou janelas, aproximar-se, rodear-me a cintura, deixar-me um beijo doce na nuca. É hora de o deixar ir e ser o que é, mais o que pensa ser e o que sonha que será. Deixá-lo ir porque voltará na hora justa, de livre vontade, depois de cumprir a grande transformação, visitar as sombras do seu ego, desatar o sarilho de desejos, espreitar a beira dos precipícios, exagerar na vergonha e no orgulho. O rapaz voador também voltou, leal e corajoso, com uma carga de coisas novas que eu não saberia ensinar e agora pedala comigo na beira do rio como se nunca tivesse chegado a ir. 
Essa turba de mães que ocupam os escaparates das livrarias com diários sobre as zonas negras da maternidade e que são elogiadas pela coragem de dizer a verdade - pouco mais fazendo do que imitar-se umas às outras em formato, estilo e ladainha - debruçam-se muito sobre a primeira infância, mas nunca vi nenhuma que fizesse graçolas sobre o que sente a respeito dos seus adolescentes. É a perda do poder absoluto que cala essas mães. Dramatizam histórias vulgares e fazem auto-análise à custa do dia-a-dia dos inocentes ranhosos que, por mais que berrem e deem más noites, acabam subjugados à sua autoridade. Mas a partir dos doze anos só falam das suas performances escolares e dos seus talentos ou condenam-nos pelos feitios insolentes, atrevidos, desorganizados. Nenhuma confessa a melancolia que fica quando a ternura começa a esbater-se, quando o corpo nos transborda do colo, nenhuma consente que o pavor de os sentir largar a nossa mão faz de tudo o que está para trás uma brincadeira de principiante, um passatempo, uma delícia sonolenta, cor-de-rosa e perfumada. 

20.9.21

A propósito da vacinação anti-covid – oh, como chego sempre tarde! –, tenho dificuldade em hierarquizar o grau de toxicidade dos negacionistas e dos evangelizadores, decidir quais entre ambos indiciam mais insanidade e representam maior dano. Envergonha-me o nível das ofensas dos dois lados da barricada, é um jogo de esgrima fraco, de lâminas rombas, infantilóide e em desespero. A acefalia não está indexada a ideologias em concreto e o mundo parece tão absurdamente desajeitado quando falam os que fanaticamente recusam como os que devotamente cumprem. Uns vestidos de rebeldes, outros com a farda de moralistas, monopolizam as conversas, os tempos de antena, os artigos de opinião, debitam insultos, sátiras, papers e assim se serve o grande banquete do entretenimento, antecâmara da política e, neste caso, cemitério da Ciência.

10.9.21

Cada um teve o seu agosto e o meu foi intelectualmente miserável, fútil e preguiçoso. Andei a arrastar o espírito pela superfície das coisas e não peguei em livros a não ser para os emprestar ou mudar de sítio. Não lamento ou sequer me envergonho. O calor tolhe-me o raciocínio e leva-me cedo para a cama, faz-me desinteressada e desinteressante, sem tolerância aos esforços e à complexidade. De inverno vivo mais atenta e criativa.
O meu vizinho saiu esta manhã de calça bege, camisa azul-clarinho e sapato castanho, que é a farda dos homens ajuizados e comprometidos. Durante mais de um mês não lhe pus a vista em cima. Também teve direito ao seu agosto, há de ter aproveitado para pôr em dia as leituras e o sexo, gastar as solas nos passadiços, regar bem o marisco com alvarinho, levar o diabrete às cavalitas e aferroá-lo com cócegas, prender o cabelo da mulher atrás da orelha para rever a sua face esquecida. 
A rapariga da papelaria arrancou do calendário a página de agosto sem ter tirado vantagem. Porta aberta de segunda a domingo, manchetes novas escancaradas na montra todas as manhãs, a fila para os jogos da sorte nem perdeu espessura. Agosto não abranda a rotação da terra nem deixa em repouso as desgraças e os vícios. As férias de Alicita com o pai ficaram em águas de bacalhau, porque a madrasta entrou no último trimestre de gravidez e agravaram-se-lhe as cismas a vírus, fungos, bactérias, amigos e parentes. Ninguém lhe vê um pé fora de casa. A rapariga da papelaria pede contas, como é que é?, a menina precisa e tem direito às férias com o pai, mas ele apresenta um rol de desculpas e razões com eloquência, afinal, é um malandro, sempre foi – garante a avó –, e malandro que preste usa quase tão bem o verbo como as mãos. 
Para a professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada, agosto já era e pronto. Ainda esteve para se meter num avião e visitar o rapaz em Barcelona, mas tem andado mal das costas e da cabeça, falta-lhe o apetite, formigam-lhe as mãos, o chão foge de manhã ao levantar – enquanto desabafa expulsa o fumo do cigarro em todas as direções, pede um éclair e cai como pasta mole na cadeira da esplanada. Há de vir ele cá no Natal, passa num instantinho. De qualquer maneira o mundo está do avesso, antes vale não sair do seu canto, tem de poupar forças para a nova turba de adolescentes desrespeitosos, alienados, incultos, a quem vai meter na cabeça, pela repetição, as regras, medidas e recursos que domesticaram a loucura do poeta na hora de estender o verso genial.

7.9.21

Da realidade, esperamos desfechos apoteóticos e surpreendentes como os que os guionistas de americanices tramam, mas a vida acaba por ser quase sempre só uma história de decadência pontuada com êxtases e passatempos, mais ou menos abençoada, mais ou menos dolorosa. Não há um clímax a precipitar revelações e a resolver de uma vez o conflito. Na maioria das vezes, o epílogo é só uma singela despedida, um acidente ou façanha que jamais são capa do jornal, um segredo que mal acicata a curiosidade de bairro, um monte de tralha que fica para arrumar, um rascunho, um amor muito aquém da eternidade, um dia de morrinha como o de hoje. Somos heróis de trazer por casa, o nosso infortúnio pessoal é invisível e resignado, os nossos êxitos são fogachos insuficientes para desenredar dúvidas, medos ou más memórias, e só raramente iluminam o caminho adiante.
Na qualidade de mensageira – a única a que me arrisco –, lamento a vulgaridade do que aqui se conta. Lamento que a imperatriz vá embora com Joaquim e que não haja rumor de nenhum duelo, nenhuma verdade oculta a vir à tona, nenhum homem de joelhos, nenhum escândalo, descontrolo ou ameaça na hora em que ela aperta os cintos da cadeirinha do menino, fecha a porta do carro, diz adeus e arranca para Penedono. 

4.9.21

Em contagem decrescente para a partida de Joaquim, os Pereira fazem a gestão atabalhoada das emoções e encontram na atribuição de culpas o mais rápido dos paliativos. Se é grande o rancor que neste momento os une, muitos são os que os separam. Nenhum teve a coragem bastante para desafiar a imperatriz nem humildade para lhe pedir que reconsiderasse a decisão, em nome do futuro de Joaquim e da felicidade de todos. Então, calada e acobardada a raiva que ganharam à mãe do menino, travam entre eles uma batalha de egos e disparam acusações, cada um achando que os outros têm responsabilidade no desfecho. 
Curiosamente, agora o senhor Pereira mantém-se longe deste ajuste de contas e cede àquela melancolia que dá nos velhos quando notam que para tudo se fez já demasiado tarde, uma melancolia sem charme nem romantismo que só na morte encontra cura. A graça de Joaquim no seu quotidiano foi breve, como um prémio atribuído por engano. Deus desfere golpes traiçoeiros, dá com uma mão para a seguir tirar com a outra, há quem se console com o eufemismo da porta que se fecha e da janela que se abre, mas tudo se resume a um jogo para nos manter despertos, porque em repouso somos imprestáveis, só medidas pares de amor e raiva podem manter a rotação do mundo no ponto exato e tenso, tão a salvo de ser consumido pelo fogo como de se lançar ao infinito. Joga quem souber, quem não jogar enlouquece.

26.8.21

No ano passado, Gaspar prescindiu da horta para criar mais lugares de estacionamento. Uma pena, porque a horta, a bem dizer, resgatava à ignorância muita canalha que vinha das cidades a julgar que a troncha nasce nos lineares do pingo doce. Era o modesto mas bem-intencionado contributo de Gaspar para o esclarecimento da Humanidade. Sucede que agora, com o vírus e o medo de passar fronteiras, as famílias vêm em romaria ao interior aliviar os stresses e reconectar-se com a natureza, então Gaspar teve de escolher entre continuar a salvar as crianças do provincianismo urbanita ou criar novos espaços de estacionamento para responder à procura. Neste fim de mundo, nesta orelha arrebitada do país, onde tudo são miragens, rigores e maus feitios, qualquer coisa pouca pode fazer a diferença entre a ruína e o sucesso de um negócio, entre a parolice renegada e o lifestyle a qualquer preço. Ainda por cima esta gente é com cada carrão que cá aparece! Não é que isso o impressione, pelo contrário. É dono orgulhoso de uma lata que o leva ao Porto em pouco mais de duas horas e sempre em quinta. É aquele acolá, o vermelho. Pelo aspeto duvido, mas concedo. Gaspar empenha-se muito em mostrar simplicidade e desprendimento, só na hora em que aviso que estou de partida é que deixa a fanfarronice respirar um bocadinho: a minha filha, essa é que comprou uma bomba, venha cá, venha num instante ver.

18.8.21

A dúvida é indício de um pensamento vivo e de uma sociedade atenta, move o crescimento individual e o progresso coletivo. Poupemo-nos à bacoquice de apregoar sempre a nossa como prova de inteligência e a dos outros como sinal de ignorância.

6.8.21

A dor é uma bandeira de guerra. É legítimo agitá-la numa investida desapiedada sobre os seus causadores. E, no entanto, de bom grado teríamos evitado o banho de sangue. Mandámos sinais, avisos, disposição para ceder sem contrapartida o território onde já não temos interesses, vantagens, rotas nem comércios. Recusaram. Não era o território que nos queriam tomar, era a proximidade da raia, o rodeio quotidiano, o cerco que jamais avança ou recua porque evita perder ou ganhar, teme tanto a vergonha como o domínio. E por julgar que não disparando também não causam dano, mal imaginam que num dia vulgar, de humores insuspeitos, possam ser abatidos sem misericórdia com um único golpe. 
Talvez no futuro se lamente a desproporção do ato e muitos hão de perguntar que paz alcançamos com um desfecho assim. Acontece que a dor, sobretudo a que se faz de esquecida e não encontrou entendimento, vai ganhado o seu próprio senso de justiça e a sentença que dela vem acaba a ter mais crédito do que a dos tribunais e mais força do que a dos deuses. Nessa hora, que embora tardia não será vã, já nenhuma insegurança trava o golpe. E o tempo, para quem sacudimos a responsabilidade de todas as resoluções, passará a sua mão branda sobre as feridas e delas fará apenas mais uma de muitas histórias.

4.8.21

Nas cidades vazias de agosto pode conduzir-se de um extremo ao outro sem resistência, no tempo de uma ou duas músicas. O que sobra do êxodo, o que é abandonado e fica a piscar nos semáforos, a remoinhar na sarjeta, a empoeirar as soleiras das casas trancadas, é incorpóreo, paira mas não se opõe. Porque destoam do colorido das bagagens, minam a vibração da mudança, poluem os sonos dóceis do estio, os fantasmas são deixados para trás e ficam só a dar corda aos relógios, para que ninguém jamais se distraia da hora de voltar. 

27.7.21

Não havendo reviravolta ou imprevisto, é em setembro que Joaquim e a mãe abalam para viver em Penedono. Como os Pereira são desses que gastam o tempo do luto a maldizer a morte, negam-se à conciliação com o inevitável e a cada dia fecham mais o riso, inflamam mais a ferida, cavam mais o fosso. Que tortura imaginar o neto nas rotinas provincianas, sujeito a mil descuidos e doenças, sempre com odor de fumeiro nos cabelinhos, e – pior – que escola, que aprendizagens, que tipo de amigos terá? Ah, tão míseras as ambições que a imperatriz tem para Joaquim mas tão vasta a arrogância com que põe e dispõe dele.
– Ela julga o quê? Que lá por ser mãe o menino lhe pertence?
Pobre senhor Pereira, sempre mais perto da verdade do que supõe. Estou solidária com a sua perda, mas lembre-se do que ensinam os que desde sempre vivem em territórios de disputas e conflitos: quem domina a nascente domina o rio. 

26.7.21

A cabeleireira entra no pão quente como um foguete de festa, abre os braços, dá duas voltas sobre si mesma, finaliza a coreografia em pose de pin-up e anuncia: já estou toda vacinadinha, toda! Estouram palmas e vivas. A dona do pão quente, que tem vocativos de realeza para todas as clientes sem olhar a modos, porte ou traje, investe logo cuidados especiais:
– Senta-te, minha princesa, que já te levo um café e ofereço-te um brigadeiro.
 Brigadeiro não, que me vai direitinho p'rás ancas. Traz só o café.
Escolhe uma mesa, senta-se, alonga um suspiro, olha ao redor a certificar-se que é notada. Vibra nela a felicidade de quem resolveu uma dívida antiga ou se livrou de um marido inútil. E é tanta a leveza que vai para tirar a máscara, mas em menos de um ai soam os alarmes da censura pública porque, afinal, vigiavam a iminência do deslize os mesmos que antes felicitavam pela conquista.
 Olhe que não pode tirar isso!
E por todo o pão quente, a ressoar como o eco nos fins de mundo e nas amplidões desertas: não pode, não pode, não pode, não pode. 
Não sei se é nos ouvidos ou na alma que me agride o folclore. Pago depressa a minha meia dúzia de moletes  é tudo, princesa?  e saio a invejar a cabeleireira. Ai o tanto que me apetecia um brigadeiro e quem dera que me fosse todo para as ancas.

23.7.21

Costumam vender-se com predicados apelativos, mas são muito intrujonas as pessoas que garantem fazer omeletes sem ovos e abusadoras as que pedem que se faça. Sem ovos eu também faço coisas extraordinárias, mas só desonesta lhes chamaria omeletes. Certas gracinhas e artifícios de linguagem podem até abrilhantar discursos e deslumbrar ingénuos, mas não honram o talento de ninguém.

20.7.21

Se não há um gato em cada casa deste país, deve ser verdade que há pelo menos um gato numa janela defronte de cada casa deste país. A mim coube-me a graça quotidiana de um branco e cinzento, que vive num parapeito do outro lado da rua. Não há quem, antes dele, saúde a alvorada ou seja tão disposto à adulação do astro-rei. Claro que tudo é feito de forma discreta e indolente porque a descendência felina, ainda que abastardada pelo cruzamento com os hábitos humanos, não bajula por dá cá aquela palha nem com modos que diminuam. O gato prefere a calada e os rodeios que, no comércio bem aprendido de carícias, lhe garantem sempre a margem superior de lucro. Porta-se como um amante ocasional, cujo segundo maior talento é ir embora antes de entediar e por isso faz sempre desejado o seu retorno.

15.7.21

O progresso tem passo rápido e engole o que obstar a sua marcha. Em três anos fez desaparecer o caminho que eu fazia com os miúdos, de bicicleta, nas manhãs de domingo. Devorou os campos de girassóis, as bouças e os eucaliptais, o prado onde parávamos para invejar a santa vida dos bovinos e rejubilávamos com a novidade dos vitelinhos à sombra dos corpos das suas mães. Apropriou-se de terrenos, derrubou velhas moradias e por ali rasgou estradas, desviou cursos, estendeu asfalto, levantou viadutos e arredondou os cruzamentos problemáticos. Reposicionou até as estruturas dos outdoors, onde agora os candidatos às juntas de freguesia exibem magníficas próteses dentárias.

14.7.21

Manso, sem vícios nem queda para confusões, o Marco do ginásio tem a simpatia das senhoras. Que rico marido dava. É pontual e correto, contorna os conflitos, vira costas aos aborrecimentos, dá-se bem com toda a gente. Lê sempre o mesmo jornal, treina e come a horas certas, tem a contabilidade das calorias organizada. Há de dedicar-se a uma só mulher a vida toda, nenhum devaneio o arrancará à firmeza do terreno que escolher. O hábito desaprova a generalidade das paixões e a disciplina é um caminho egocêntrico, que faz voz grossa quando fala ao coração. O mais provável é que o Marco do ginásio não seja lembrado por nenhum feito grandioso, mas ao menos também não poderão culpá-lo de nenhuma desgraça. Raparigas como a da papelaria mal olham para ele. Por mais que sonhem com um amor eterno e seguro, não confiam em espíritos de pouca ambição sentimental. Já Gabi, a manicura sonsa, talvez veja as coisas de outro modo.

10.7.21

Corroborando a ideia de que a beleza e a tragédia estão destinadas uma à outra, Isabela adoeceu de um mistério qualquer. Espalhou-se por todas as partes do seu corpo uma substância pegajosa sem cor nem cheiro, algumas flores definharam e nas que sobrevivem há pintas pretas e alaranjadas, que também apareceram na borda das folhas. Afastei-a do tamborete e das plantas próximas e pedi ao auxílio ao google. Em vão. Também no mundo das plantas a sabedoria é um universo de lugares ambíguos, cinzentos, onde a verdade tem faces antagónicas e tantas vezes se assemelham os indícios da morte e da vida, da doença e da regeneração, do veneno e da purga. E como é difícil, entre os resultados, distinguir os sábios dos manhosos e os que estudam dos que copiam!
Mesmo imaginando que, por parecer enjoadinha, afetada e elitista, Isabela nunca terá colhido a simpatia dos leitores, arrisco vir aqui pedir ajuda, certa de que os bons sentimentos predominam sobre os partidos tomados em velhas batalhas. Sei também que quem conhece as curas para o sofrimento alheio  ainda que seja só de uma flor  é sempre dotado de coração bastante para não virar as costas sequer a uma lágrima silenciosa, quero eu dizer, a umas pintas mofentas. 
Isabela agradece desde já o que para a sua salvação for sugerido pela via do endereço de e-mail que está sempre no fundo desta página.

8.7.21

Que trabalho tão doce e digno trouxe hoje Patrícia Sequeira às salas de cinema. Para quem, como eu, era uma garotinha de ganchos dourados e saia escocesa à entrada dos anos oitenta e desse tempo tenha lembranças capazes de sustentar a alma pela vida inteira, este Bem Bom pode ter sido o presente mais bem embrulhadinho, a alegria mais justa, a hora mais suave do impossível ano que corre.

7.7.21

(Cedo ou tarde, havia de rebentar esta guerra. É para isso que serve o tempo de paz e se fazem pactos e acordos e se distribuem partes, posses e rendimentos: para que todos repousem e sejam devidamente munidos de convicção e energia. Assim, na hora em que por velhas razões se inflamarem as sensibilidades e se violarem as regras, partirão para o combate com a força inteira e voluntariamente dispostos. O tempo de paz é sempre breve. Fosse longo e entorpecer-se-iam as paixões, as certezas, as ganas, os músculos. )


Alice tem os deditos suspensos sobre as teclas e a rapariga da papelaria, a imaginar a filha nas luzes da ribalta, pede sossego à audiência – a avó, duas ou três velhas, o Marco do ginásio com o Notícias sob o bíceps, e eu, que fui retida a caminho da farmácia. Silêncio, que a menina vai alinhar-se com os deuses e o pianinho de brinquedo revelará o quão próximo deles chegam os que, eleitos entre humildes e anónimos, são talhados para deslumbrar os corações humanos. Alicita espreita a mãe pelo canto do olho e levanta os braços a imitar os trejeitos desses génios estereotipados da música erudita. Mas, ao invés de os pousar nas teclas com a delicadeza esperada, deixa-os cair desastradamente e põe-se a bater com um ritmo e uma violência que só ao bombo da fanfarra conviriam. As velhas sobressaltam-se. O Marco do ginásio sorri, maroto, solidário com a infância. A rapariga da papelaria encolhe os ombros. Que deceção.
Alicita ignora as reações, ninguém mandou que empenhassem nela tão grandes expectativas. A avó explica que a menina anda arisca desde que é sabido que vai ter um irmãozinho. Um meio-irmão, corrige a rapariga da papelaria, com o indicador levantado. E uma impressão de poder, de exclusividade, fá-la levantar o queixo acima do hábito. As velhas distraem-se das raspadinhas e arrebitam a orelha:
 Como assim, dona Fátima?
É o que é: a mulher do pai de Alicita está de cinco meses. 
– Mas isso é uma alegria para a menina, que rico presente é um irmão!
Meio-irmão, insiste a rapariga, uma fúria adolescente rebrilha nos seus olhos, pousa com estrondo a resma de jornais no balcão. Meio ou inteiro, também não é o que vem ao caso, esclarece a avó. Parece que, assustada com as coisas da pandemia e receando que o coronavírus faça mal ao bebé, a grávida não sai de casa há três meses nem autoriza ninguém a entrar. Então, a menina nunca mais viu a madrasta nem chega perto para ajudar a preparar a chegada do irmão. Meeeeeeeeio, a rapariga está a um passinho do descontrolo. Nos fins de semana que lhe cabem, o pai vem buscá-la e passeiam-se o dia todo em ruas e jardins – shoppings quando calha chover – à noite devolve-a, vai para casa, despe-se todo à entrada, lava-se e só depois lhe é permitido chegar-se à mulher. Com isto ninguém espera que os nervos da menina resistam, anda teimosa, birrenta, provocadora, dorme mal, come pior. As velhas condescendem:
 As crianças sentem tudo, mesmo o que não percebem.
E os adultos também! e, como se lhe desatassem um nó, a rapariga da papelaria vaza em torrente o que lhe ordena o sarilho recalcado de mágoas, memórias, raivas e razões: o pai de Alicita é um banana, a mulher é que manda nele, que espécie de pai deixa que lhe imponham as regras de estar ou não estar com a própria filha, se escolheu casar com ela que a aguente, mas não submeta a menina ao mando dela, ah, bastou tê-la visto numa ocasião e de relance para perceber que não era boa rês, vá-se lá perceber com que inteligência chegou a engenheira, tem mesmo arzinho de cábula ou graxista, isto não se faz a uma criança, ela que se vacine, que se mate, que vá pró diabo que a carregue, mas rejeitar a menina como se tivesse sarna? E o palerma ámen, ámen. Banana, palhaço, inútil, queira deus que dele não tenha Alice herdado muita coisa. Qualquer dia quem não a deixa mais ir sou eu e a justiça há de estar do meu lado.
Tudo isto lhe sai de uma assentada e em ninguém encontra resistência ou discordância. A avó, as velhas e mais quem ali passe, todos sabem que é perdido o tempo que se invista a apaziguar o coração ofendido de uma mãe, pois são dele todas as razões e mais algumas.
Por esta hora, o Marco do ginásio já desertou com o Notícias. Não tem musculatura para isto. A rapariga da papelaria é bonita, bem feita, engraçada, esperta, doce e generosa como poucas, mas tem humores que requerem entendimento, uma carga que dá muito trabalho e disposição para guerras que não são as dele.

6.7.21

Encontram-se numa esquina da avenida. No passeio à direita, espera ela com o cão. Ele atravessa do lado oposto, ajoelha-se na calçada, enche o animal de festas, beija-lhe o focinho, fala-lhe em segredo, coça-lhe as orelhas, o pescoço, as costas e o peito. Entre pinotes e lambidelas, o cão goza do privilégio e quantos carinhos é possível receber de um ser humano, ele recebe sem preço ou condição. O homem e o seu animal dão ali o exemplo do amor simples e honesto, celebram a banalidade do encontro quotidiano, preenchem com ternura todos os vazios do corpo e do espírito de modo a que não sobre espaço para perguntas, nem se permita à imaginação derivar em suspeitas, traições e finais dramáticos. Depois – muito tempo depois – ele levanta-se e, sem olhar, beija de raspão a boca da rapariga. Com um gesto breve ganha a posse da trela. Ela vai descendo a rua de mãos a abanar enquanto ele atrasa o passo, a perpetuar o desencontro. Parece difícil amar incondicionalmente quem não vive para nos lamber os dedos.

2.7.21

Com a sua coleção de rancores familiares, Ana Isabel, a mais nova das manas Pereira, tem vindo a perder brilho. É-lhe inútil o investimento no voluntariado. Acarinhar a desgraça alheia não a salva da indigesta combinação do hábito de maldizer com a incapacidade de profundamente perdoar. Coitada, pratica a solidariedade como quem faz férias: quanto mais longe de casa melhorÀ cara da mãe atira a inconsistência de princípios e esfrega sempre a mesma fatura, como se os filhos fossem os únicos e justos credores nas contas mal feitas do casamento dos pais. Supõe-se uma rebelde por se levantar da mesa, virar as costas e desaparecer durante meses, mas é, em boa verdade, herdeira de uma fraqueza muito antiga: chora-se uma vítima da geração anterior e exige da geração seguinte o que não deu. E se estou certa disto é porque de passagem ouço o sussurro com que impõe a autoridade à sua menina exemplar: sou tua mãe, sou mais velha e experiente, nem te admito que ponhas em causa o que digo, 'tás a perceber?

15.6.21

 – 'Tás a ver a cena de sentires que fazes tudo por amor, mano?
Quanta inocência há no entusiasmo dos dois garotos que seguem na minha frente, de mochila às costas, sem barba nem pressa, chutando ao acaso as pedrinhas da rua. E o que faz por amor um inocente senão começar, lentamente, a corromper-se?

12.6.21

Dez da manhã de sábado e já os homens se pegam no tasco por causa da bola. Cá fora o ar está espesso, arde na pele, ferve na garganta. Uma aragem muito seca, de mau agoiro, desinquieta as páginas do meu livro. Lá dentro ecoam insinuações, ofensas e ameaças veladas. Uma grande penalidade injusta, um fora de jogo dúbio, a memória de um mau resultado na época passada... A cada trouxa de roupa suja que se lava, o desentendimento aproxima-se mais da violência. Assuntos de família e contas antigas já são chamados ao barulho. Felizmente alguém se lembra: ó Moreira, outra rodada para todos, que pago eu, e nesse mesmo instante se dilui a desavença, troam gargalhadas e saudações.
É desconcertante ver que com tão pouco se magoa a honra dos homens e com menos ainda se adormece as suas fúrias.

11.6.21

Dona Maria Isabel vem poucas vezes a este blog. Há de ter mais que fazer do que enredar-se nas tramas do meu vulgar quotidiano e como é pouco faladora também não se põe a jeito. Mas hoje a cabeleireira viu-a passar e chamou-a ao barulho, curvando-se toda para lhe lamber os degraus académicos: 
– Há quanto tempo não dá um jeito às unhas, sotôra? Caramba, sotôra...
À dona Maria Isabel nunca falta aquela delicadeza própria dos que, embora sejam postos adiante, jamais se arrogam ou condenam os que ficam para trás, porque sabem que da mesma forma que nem sempre o êxito é questão de inteligência e esmero, também sucede a mediania e a estreiteza de vistas serem uma consequência mais de circunstâncias do que de escolhas. Então sorri como as mães usam sorrir, com ternura e infinita paciência, reconhecendo o quanto a cabeleireira merece que a vida lhe corra bem.
– No próximo fim de semana passo cá, minha querida.
A cabeleireira vai sacando do cigarro e do isqueiro e olha-a de alto a baixo.
– A pandemia envelheceu-nos a todas, mas a sotôra continua es-pe-ta-cul-lar! Dá nervos. Chegasse eu à sua idade nesse estado...
Dona Maria Isabel enrola os dedos nas contas do colar, sem pressa de responder. Não embarcará no facilitismo de uma gratidão sonsa e na vulgaridade da falsa modéstia. Nem será um elogio avulso e pouco original que a vai fazer ganhar o dia. A mulher que ainda antes da maioridade fugiu para casar e sobre o desgosto resultado levantou toda a sua magnificência, preferirá sempre o silêncio à ideia de abrir a boca para despachar. Jamais desconsidera a inteligência do outro supondo que o satisfará com pouco. Por isso se entendia tão bem com a antiga manicura, ambas disparavam para acertar, não porque fossem movidas por agressividade mas antes por uma visão amorosa do mundo, que é atenta às suas feridas e nelas derrama o que arde na esperança sincera de curar. E se a manicura aplicava o tratamento à mangueirada, dona Maria Isabel verte uma gota a espaços. 
– O que te envelhece não é a pandemia, minha querida.
A cabeleireira concorda sem pensar muito. 
– Tem razão, esta porcaria é que dá cabo de mim.
E com um gesto apaixonado, quase teatral, esmaga o cigarro que nem a meio vai, entra no salão a despedir-se:
– Quero vê-la aqui no fim de semana!

10.6.21

Nunca, como na adolescência, temos tão lúcida e honesta noção da nossa esquizofrenia. Talvez o tempo passado no quarto, de portas fechadas, com o pensamento em remoinho, orelhas moucas a avisos e sermões, sob repetida acusação de egocentrismo e desleixo, talvez esse tempo permita alguma clarividência sobre a própria natureza. Nessa idade deve haver poucos que não se atordoem ao descobrir a quantidade de gente que lhes vai na alma: um que se esconde no fundo, outro que se aparenta para cumprir, outro ainda que chama em sonhos e sabe-se lá mais quantos a multiplicar por cada receio, vontade e convicção.
Diagnósticos com rede científica chamam a isto a busca pela identidade, condescendem e garantem que o tempo resolve ou ameniza, mas para mim tem outros nomes, todos sinónimos da condição humana e nem sequer passa, antes se calca, silencia, gere ou castiga, para que não venham acusar-nos de doideira. Chegando a adultos, adjetivamo-nos com uma confiança ridícula e vivemos a renegar o sarilho interior, convencendo os outros de que temos a nossa razão de ser e nela estamos sólidos e absolutamente genuínos, certos quanto à forma e ao feitio, seguros do que faríamos no lugar dos outros, ora essa, temos valores, jamais isso ou aquilo, sempre isto, sou uma pessoa que.
A inveja subterrânea que temos aos mais novos, muito mal disfarçada de descrédito e menosprezo, não é só pelo tempo que ainda têm por viver, mas porque lhes é desculpada toda a honestidade que em nós é censurada.

4.6.21

Bela é a imperatriz, que parece não conhecer a fadiga nem sucumbir ao desânimo. Qualquer coisa – ou a química ou o karma – a abençoa, mantendo-a longe do vórtice da infelicidade. Naquele corpo, que é sempre vestido de transparências, lenços e florinhas, encaixa o filho Joaquim como se ainda não tivesse acabado de o dar à luz. Sustenta-o no ilíaco, à maneira das mães de antigamente, e o menino abandona a cabeça no ombro dela e consola-se a jogar com aquela cabeleira de fogo, enrolando e desenrolando os deditos nos caracóis. And if you say run i'll run with you, and if you say hide we'll hide, because my love for you... vai ela cantando baixinho e Joaquim, que ainda é desajeitado na fala, corre atrás dos versos improvisando o idioma: aiuaiô aiu, aiuaiai uiaiiiii... 
Perguntaram-me se vai por diante a ideia de ambos irem definitivamente para Penedono, mas por enquanto nada sei. A pandemia trocou as voltas aos enredos de tantas vidas e eu ainda estou à nora, à espera que as minhas personagens larguem o casulo e deem sinais. De algumas ignoro o paradeiro e sobre outras tento agarrar o fio da meada, andando pelas ruas muito atenta, lendo os lábios e as entrelinhas da face, apanhando no ar as coisas ditas, imaginando daí as que se calam. Até pode dar-se o caso de a imperatriz e Joaquim viverem já em Penedono e estarem só de visita. Mas o que sei é apenas o que vejo e é igual ao que vi ontem e ao que, provavelmente, verei amanhã: a imperatriz e Joaquim descendo a rua na direção da casa dos Pereira, onde, sem esforço, só pela graça que têm, são responsáveis por olear todos os corações enguiçados. 

2.6.21

A fama que às mulheres é atribuída, tem dela proveito inteiro o meu vizinho. Balançam-lhe os humores conforme as luas, de maneira que não surpreende dar com ele a maldizer entredentes a sorte que lhe coube logo depois de o ter ouvido assobiar ou imitar as apoteoses de um tenor. A mulher, que gemia na cama com a cadência de um eletrodoméstico enquanto ele galopava até ao êxtase, é cada vez melhor a fazer de morta. A palidez do seu olhar está sempre ao abandono num ponto fixo e ao cumprimentar sorri com uma ternura cansada. Quem governa agora lá em casa é o diabrete que conceberam. Grita de manhã à noite, mas nada que se pareça com mimo ou desconforto. Tem antes o timbre e o despudor de um líder de arruaças, um instigador de revoltosos, parece gente crescida que passou pela infância sem dela recolher doçuras e, no entanto, mal completou três aninhos. Ontem, na garagem, de chucha na boca e olhos endemoninhados, guinchava como se lhe arrancassem partes do corpo. A mãe, a empurrá-lo no carrinho de passeio, desabafou: onde é que eu terei errado? Não respondi nem censurei. A culpa é o legítimo tormento de todos os pais. Deus deve ser o único que não se faz esta pergunta quando observa as falhas da sua criatura. 

1.6.21

Poucos são os jornalistas que resistem a perguntar às figuras mediáticas da literatura o que é preciso para ser um bom escritor. Num delírio passageiro, imagino sempre que o entrevistado vai descompor o pragmatismo infantilóide da abordagem com uma ironia qualquerMas parece que boa parte da gente das letras não só leva o manual de instruções a sério como tem na vaidade o pecado de estimação e, apoiando-se no disfarce roto da terceira pessoa, o escritor responde sempre prontamente com um resumo dos próprios hábitos, traços de personalidade e até mágoas. Nesse momento, milhares de almas no mundo caem num rodopio de ansiedade, umas a verificar que cumprem os requisitos, outras a pensar como hão de cumpri-los. 

31.5.21

No dia em que conheceu o pai dos meus filhos, a minha avó pediu-lhe, pelo amor de todos os santos, que me domesticasse. Foi por convicção, e não por escassez de vocabulário, que escolheu o termo domesticar. Pese embora o seu próprio desgosto amoroso, atribuía aos homens o mérito de salvar a dignidade das mulheres, que deveriam recompensá-los com tanta justiça na mesa como na cama e consentir que recorressem a outras para trabalhos mais experientes ou indignos de senhoras casadas. Estaria garantida a paz do senhor e a rotação da Terra se elas não reclamassem, até porque da trabalheira de pensar diferente ou querer melhor raras vezes vem rendimento e menos ainda conforto. Por isso as insatisfeitas eram perigosas, faziam descambar o casamento em tragédia, a família em vergonha, até o mundo em guerra. Então, para a minha avó nenhum acontecimento nefasto tinha a inocência ou a fatalidade dos frutos do acaso. Tendia a procurar sempre a mão feminina que lhe tivesse dado origem e, na dúvida, via em todas as mulheres sinais das almas que o diabo corrompeu e que aos outros sugam a energia, fecham os caminhos, rasteiram os êxitos. Para ela, tratando-se de mulheres, a presunção da inocência não passava de um ato de caridade, um polimento civilizacional, um descargo de consciência, em suma, um prazo que de favor nos concedemos para preparar o embate com a perversidade original. 

27.5.21

Os pais justificam aos filhos a disciplina, os castigos, as exigências, os sermões e até algumas injustiças com o argumento de que estão a prepará-los para a vida, como se a vida fosse qualquer coisa que só acontece depois dos vinte anos. Esgotam-lhes a infância e a adolescência a treiná-los para se habituarem ao mundo que eles próprios começam a lamentar assim que se levantam da cama. 

26.5.21

Julgo que as comadres resolveram as suas tricas ou naturalmente as esqueceram por não compensar a inimizade. Verdade seja dita, só uma provocava. E a outra, que me parece gente bem intencionada, nem se ocuparia a responder não fosse dar-se o caso de as alfinetadas serem ouvidas por outros. As provocações subtis, essas que deslizam num cumprimento cordial ou sob o disfarce de um largo sorriso, são as que mais cutucam os nervos e funcionam como imanes para quem não gosta de perder nem a feijões. Porém, se esperavam que um cavalheiro as levasse a dançar para as distrair daquele jogo de bem falante hipocrisia, correu mal. Diz-se que entre marido e mulher não se mete a colher, mas para um certo tipo de homens é entre mulher e mulher que convém ficar à margem e evitar tomar partidos, não vá a vida dar voltas que os levem ao regaço delas e é bom que então sejam recebidos sem mágoas para uma dança que lhes apeteça, seja minuete ou sarabanda.
Acontece que uma alma por natureza desassossegada precisa de transpirar muito durante o dia para, caindo a noite, alcançar alguma paz. E se destas duas comadres que se juntam à conversa nos salões há uma que só vai para se distrair das dores quotidianas, a outra espera dali genuína diversão e por isso investe muita energia a arrastar os folhos e os excessos do seu traje para trás e para diante, abrindo alas e impondo-se entre os pares dançantes, dando batidinhas com o leque nos ombros deste e daquele, tirando as medidas aos modos e às vestimentas, deixando um reparo aqui, outro acolá, sempre com a ideia de que é muito desejada a sua opinião e por isso dando-a como quem faz um favor e só por caridade não manda fatura. Acabará o dia certa de que por onde andou fez justiça, deixou a palavra merecida, avisou do que devia, pôs cada qual no lugar. Há de ser deveras cansativo ocupar-se a varrer os salões da freguesia com a cauda do vestido. E imagino que se não cair à cama por, enfim, ter o espírito apaziguado, cairá certamente por já não poder com um gato pelo rabo. 

20.5.21

Saio finalmente de casa à procura do mundo mais fraterno e consciente que os otimistas juraram que havia de erguer-se dos destroços. Estava sinceramente disposta a repreender-me por descrer da humanidade e ter menosprezado o poder de um vírus na transformação das coisas essenciais. Ensaiei o sermão que, na volta, me daria ao espelho. Agoirenta, fraco exemplo para os filhos, onde raio vou buscar motivos para duvidar que o que vem é sempre melhor? Mas quando saio só reencontro o caos. Os automóveis levados em solidão, os insultos pelas frinchas dos vidros, o lixo amontoado nos contentores, as crianças com as costas vergadas ao peso injusto de mochilas, instruções e avisos. Lá está a rapariga que madruga para suar no crossfit, à mesma hora de antigamente, sovando as palmas das mãos do treinador com uma ladainha de motivação que não há de diferir muito da que a minha avó rezava à virgem Maria. Nos semáforos do cruzamento maior, os gatos vadios desarrumam o ecoponto e os toxicodependentes mendigam a sobrevivência. Um deles, de barba e cabelo ruços, parece-me um cristo a perguntar porque o abandonaram depois de o deixarem cair em tentação.  Ouço dizer que à porta das lojas de roupa e sapatos as filas são tão grandes e teimosas que parece dali esperar-se o pão para a boca. Todas as artérias estão entupidas e se não é pelo trânsito há de ser pelas obras. É preciso insistir na transformação da cidade, agir como se nada fosse, cavar fundações, alargar estradas, abrir terraços com vista, operar os fluxos subterrâneos. O progresso continua, valente, ruidoso, cheio de ideias e estratégias, mas que cura traz ao desespero e ao cansaço? Abre e fecha, tira e põe, faz e repete, repete, repete, repete, repete. 
Lá longe, o mar está tão bonito e eu podia fazer dele um verso ou um retrato, elogiar as maravilhas do mundo, dar graças aos deuses pelas magnificências da sua criação, legendar as sobras aproveitáveis do dia com a importância das pequenas coisas. E depois seguir em frente, a fazer de conta que sobre o resto não ouço, não vejo, não sei.

18.5.21

Sem robustez de intelecto e estabilidade nas emoções, desista quem tiver intenção de fazer do escárnio e da maledicência uma graça que dê gosto a quem lê. É que se por descuido vaza nas entrelinhas o cheiro fétido da inveja ou a poeira de um rancor guardado, num instante fica desacreditado quem pretende desacreditar. Então, antes de tentar a arte de descompor alguém publicamente, é bom ter ao alcance um espelhinho de bolso e, por via das dúvidas, verificar se nos túneis assombrados da própria consciência algum fantasma acordou a pedir libertação.

13.5.21

Daniel Oliveira - não o que faz chorar mas o outro - perguntou se os homens terão a noção da fronteira entre a sedução e o assédio. E não foi o único a levantar a dúvida. Ora, não bastassem os que são tratados como mentecaptos pelas suas próprias mãezinhas e esposas, que os louvam e gabam quando eles se encarregam do tacho, dão banho à cria, escolhem flores ou vão ao supermercado sem ajuda, como se grandes favores fizessem e de complexas empreitadas se tratasse, por este andar qualquer dia está-se a bater palminhas aos que têm noção do alcance dos seus atos e a atirar confetis àqueles cuja moral não derrape na fronteira. 

8.5.21

Agora que as árvores da alameda começaram a florir, vejo pela primeira vez a mulher do senhor Pereira a passear sem urgência e com as netas pela mão. Embora tenham crescido muito, as meninas exemplares continuam desengraçadas, com olhos de animal de pasto, sem cintilação nem curiosidade, mas capazes daquela arrogância defensiva com que certas crianças dão sinal evidente do erro cometido na sua educação. No encontro, ao qual não tenho como fugir, gabo-as por cortesia, digo que estão quase umas mulheres. E logo a avó, ajeitando os fios rebeldes do cabelo das meninas, corrige: não, estão é umas senhorinhas, é o que é, como se mulher fosse um erro de sintaxe, uma indignidade na gramática familiar dos Pereira. 

5.5.21

Violeta-de-prateleira 
muita história tem contado. 
Cada dia uma maneira, 
uma arma e um recado. 

Primeiro era de navalha, 
depois mostrou o chinelo, 
por fim aumentou a tralha 
com a foice e o martelo. 

Vejam só como reage 
quando não resta mais nada. 

No princípio ela jurou 
meter-nos a todas na linha, 
nenhuma planta poupou 
a esta ameaça mesquinha. 

Mas agora, meus senhores, 
desmonta-se a fantasia: 
a alma de certas flores 
é bem dada à cobardia. 

Afinal não se aguenta 
com bravura de felino. 
Então mima a suculenta 
e acarinha o pepino. 

Eis as artes de graxista 
que movem esta megera.
É assim que ela conquista 
a nata da blogosfera. 

...

Veio-me agora uma ideia
em que ambas podemos ganhar: 
pôr um fim à verborreia 
com dois copos pra brindar. 

Não é por fôlego esgotado 
nem por medo de perder. 
O leitor é que, coitado, 
já está farto de me ler. 

Valeu a pena a batalha, 
Violeta, minha querida. 
Isabela (deus me valha!) 
já chora com a despedida.

4.5.21

Compreendemos agora que esta habitante de serenas prateleiras em fundos minimalistas onde se fazem "destralhes" radicais à la Marie Kondo para simular a empatia com os simples, acabou a sentir falta de um propósito de vida. Por desfastio, terá esticado a haste até às poeiras da biblioteca, enfiou as pétalas nas páginas de Proudhon, depois Marx, e pensou que para efeitos de diversão talvez lhe assentasse bem o traje da rebeldia social e os trejeitos do velho ressabiamento anti-burguês. Muito bem. Prevemos que não tardará a rebelar-se contra a mão que a rega, rebentará o vaso de onde cospe revoltas adolescentes e juntar-se-á às camaradas selvagens que tanto venera, as do campo, as que suportam ventos e aguaceiros, as que de sol a sol trabalham a terra com as próprias raízes e murcham por falta do tratamento merecido. Aplaudimos. Basta, porém, olhar para ela para saber que, uma vez por mês, tornará a casa para se limpar da poeira e do cheiro a erva e, claro, recolher a mesada, cuja proveniência, nessa hora, pouco lhe importará. 
Mas não é a única. Outras espécies se entusiasmam à procura de um sentido para a vida que tenha feição verdadeiramente revolucionária e original. Eis uma suculenta a apregoar os nobres valores da diversidade e da inclusão, tentando comover e ganhar likes. Contudo, repare-se como subtilmente descarta a alface para fora do seu vaso, que é como quem diz somos todos iguais, desde que não me atrapalhes
Enquanto isso, Isabela boceja. Não mexe uma pétala para se defender. Aristocrata, burguesa, mimada, intriguista, tudo isso e o que mais quiserdes. 

3.5.21

Prega o senso comum que entre os efeitos colaterais de provas e provações está tanto o reforço dos laços entre os que de verdade se querem bem como o afastamento definitivo daqueles que só por engano ou conveniência estavam perto. Por mais que doa, a prática confirma sempre o cliché. Um monte de destroços só pode servir de trincheira ou de muralha. 

2.5.21

A orquídea cujo nome não repetimos para manter este espaço livre de impurezas, coitadinha, perdeu a firmeza e a fibra. Recordamo-nos de se ter apregoado rija e sanguinária, fêmea de guerra e faca na liga, protagonista de números de circo e crimes passionais, levando-nos a imaginar que já enfeitara balcões de taberna, psichés de prostíbulo, covis de máfias e contrabando. Mas, oh, não é ela que vemos assomar agora à marquise gradeada do rés-do-chão/trás  de onde só em sonhos saiu , desvairada em exclamações e interjeições, ofendida desde a raiz, abespinhada até ao labelo, "eu não sou nada disso, ai que eu sou isto e faço aquilo"?   
Ah, paroles, paroles, paroles...

1.5.21

É sabido que em enredos fantasiosos se perde forçosamente um advogado de causas inúteis ou desonestas. O rol de argumentos, enumerados em jeito de façanha, procura convencer a audiência do que não é óbvio nem sensato e assim, não sendo pela razão, julga vencer pelo espanto. É um caminho legítimo, embora de fôlego curto. Nós preferimos outro. Aqui, não se pratica o alarde de virtudes, pois isso é próprio dos desesperados ou dos que estão à venda e o retrato de Isabela é quanto basta para notar que ela não é uma coisa nem outra. Já outras, rugindo isto e aquilo, que fazem e acontecem, que cospem e castram, só têm para mostrar uma corola. É bela, sim senhores, mas afinal, oh... toda aberta, tão recetiva, quase suplicante, revelando que afinal não floresce para guerrilhar mas apenas para dar-se às bicadinhas de um pássaro ou à vibração das asas de um inseto, amarrada a uma estaca, que é, entre todas as formas de submissão, a favorita das orquídeas comuns. 
Cuidado com as palavras: Isabela não tomba. Isabela repousa, estende-se e dá-se ao prazer, aproveitando as brisas para se balouçar no couro rijo do tamborete. Em menos de um ai, a primavera vai-se e seria de pouca esperteza gastá-la em conflitos e atritos, onde mais depressa cansaria a sua beleza do que ganharia por ela as justas medalhas. De resto, para quê dar provas, detalhes, justificações, pormenores ou apreciações à lupa, em altíssima definição e contraste, como há também quem faça para seduzir à pressa, sem notar o risco que corre? Nada disso. Aquela que quer continuar a deslumbrar com o seu bailado jamais deve cair no erro de mostrar, de perto e descalços, os pés com que dança.

Andam por aí outras orquídeas que, por razões não identificadas, se presumem superiores a Isabela. Mas é difícil ultrapassar Isabela porque Isabela nem entra sequer na corrida para a mais aprumada, a mais vertical, a que mais se aproxima do céu, dos pássaros, das rainhas, dos ministros, dos deuses, dos astros. Embora a natureza tenha mandado que assim fosse, o destino opôs-se, a dona descuidou-se e assim ela acabou por desabrochar na direção da terra, sua mãe. Não a censuro, pois de cada vez que olho para uma fileira de orquídeas comuns tenho a impressão de ver um exército de fêmeas com a função única de servir beleza ao olhar desconsolado dos seus donos. Então Isabela é isto, este luxo estirado no colo antigo de um tamborete, esta languidez, livre de estacas, dívidas e ganâncias. Quem chegar perto até ouve o suspiro que vaza de cada uma das suas corolas e pressente o frémito, a ternura e a expectativa de uma virgem que está prestes a confiar-se ao primeiro amante. 

30.4.21

Arrasada por vagas tumultuosas de trabalho e, nos intervalos, distraída com futilidades, apanhou-me de surpresa o desabrochar de Isabela. Ontem eram brotos, hoje oito flores de escancarada doçura, desenhadas com um rigor que mais espanta quanto mais em detalhe se lhes tira as medidas e aprecia os ângulos. Incapaz de suportar sozinha o peso de tanto talento, Isabela apoia o braço num velho tamborete que eu, tendo por costume e defeito antecipar tragédias, ali coloquei à disposição de sua excelência. Com isso, fica o tamborete a parecer luxuosamente estofado porque Isabela derrama sobre ele os seus folhos de veludo branco, mais ricos ainda com o oiro e rubi de uns labelos perfeitos. Que esperta é. Ao invés de se enamorar de gatos pretos sem nome nem residência fixa, resigna-se ao ombro de um velho tamborete. Apático, mas ao menos de confiança. E o tamborete, encostado por falta de serventia, ganha em troca a mais bela de todas as oportunidades que já teve na vida. Ora, se ambos saem valorizados não vejo como há de esta história acabar mal, por mais que vasculhe as sombras férteis do meu pessimismo.

25.4.21

A liberdade, de todos os valores o que aparenta mais fibra e firmeza, palavrões na boca, braços no ar, armas na mão, está na verdade sempre por um fio, mal notando como dá os pulsos a grilhões que toma por necessidade ou vantagem. Nem o amor, que é o amor, reputado de cego e ingénuo e sempre distraído do caminho a olhar para o céu, nem o amor é abalroado por tantos equívocos.

23.4.21

A Flor,

num dos poucos blogs em que confio e onde vou de joelhos, diz que os títulos fazem falta e eu sinto o dedo tocar-me na ferida, baixo a cabeça como as crianças que asnearam mas não tenciono emendar-me. Um título não é só uma trabalheira em que dificilmente vou além da mediocridade. Um título é como uma coroa posta à cabeça da obra que se supõe digna e se dá por acabada. Portanto, adorna ou encerra e nenhuma dessas hipóteses me interessa quando escrevo. 

22.4.21

Sentada na soleira da papelaria, de vestido cor-de-rosa como um leque ao seu redor, Alice parece uma florzinha que a mãe tivesse posto ali para alegrar os dias de quem passa. Se é esse o propósito, resulta. A menina dá-se à conversa com toda a gente, não teme estranhos e até embarca nos jogos de faz de conta que as velhas usam para a provocar. De quem é esta menina tão linda que eu nunca tinha visto? Como vive luxuosamente sem máscara, Alice pode exibir-lhes o sorriso, o perfil ordeiro dos dentinhos de leite, o nariz arrebitado à caça de mundo e outros sinais exteriores de riqueza. Quase a cantarolar, responde às velhas que é da avó e, de lá de dentro, o orgulho da rapariga da papelaria não demora a acusar o abalo: como é que é?! o que é que disseste?! Mas a menina só conta três anos, não está para servir de tapa poros às inseguranças da mãe. Interpretar o real e descobrir nele o lugar e a razão dos próprios desejos, deslumbramentos e temores já basta como desafio para a criança que é, não tem de levar às costas a carga de outrem. Então, desvalorizando aquela tosca manifestação de autoridade, volta a disparar sem culpa nem misericórdia: Licita é da avó. E a rapariga da papelaria, que tanto desesperou por um grande amor, um amor com olhos só para ela, que não lhe falte, não a troque, não a use e deite fora, esquece que é mãe e não poupa na vingança: olha, logo não te dou chocolate nem te conto uma história. Mas Alice nem ouve, concentrada que está a sondar o interior do nariz com a pontinha do dedo e a tomar o gosto ao resultado da colheita. 
As velhas apertam os lábios. Querem rir da tolice que precipitou a desavença mas o melhor é não pôr achas na fogueira. A rapariga também é a menina delas, conheceram-na ainda adolescente, viram-na fazer-se mulher, tornar-se mãe, deram-lhe ouvidos e conselhos, estimam-na como aos do mesmo sangue. Vão continuar do lado dela: isso filha, tens de ter mão na catraia agora, senão faz de ti o que quer. O apoio das velhas é quanto basta para a rapariga da papelaria recuperar da estocada. Endireita-se, faz as contas, dá o troco. Há de segurar Alicita, ao menos Alicita. 

20.4.21

Começando a semana da Queima das Fitas, íamos três seduzir o pai da Débora. Se não houvesse ritual de pedinchice, de preferência algum espetáculo de humilhação, ele não a deixava sair, nem para um café, quanto mais para uma noitada. Enquanto for eu quem te sustenta, fazes conforme eu mando e um dia que te cases, aí entendes-te com o teu marido. 
Era uma moradia de dois andares que ele se envaidecia de ter levantado com as próprias mãos, numa travessa da zona oriental da cidade. Quando lhe entrávamos pela sala dentro, esforçava-se muito para encobrir a ofensa que a nossa disposição lhe causava e punha-se logo a ensaiar modos do cavalheiro que não era: ó Maria, traz os calcezinhos e a garrafa de vinho do Porto pr'estas meninas. Nem por favor. A mulher saía detrás dele como um passarinho, muita vergonha e uma bandeja com quatro cálices embaçados, conta certa para ele e para nós, que por decisão do senhor mãe e filha não bebiam. Depois, de onde éramos, se os paizinhos não nos punham horas para chegar, se namorávamos, bebíamos ou fumávamos, quem nos levava, quem nos trazia. Dávamos todas as respostas como se de facto lhas devêssemos mas mentindo em algumas porque sem artimanhas a Débora ficaria por casa. Também não doía assim tanto, o essencial era conter bem todos os ímpetos que nos moviam à festa, usar beicinho e humildade, vá lá, por favor, deixe, prometemos que não a perdemos de vista, e misturar muito bem as falsidades que nos ocorriam, que casa linda, que zona calma, que vinho incrível.
Quando se achava satisfeito com a bajulação e seguro do seu poder, vá, desta vez deixo. Acompanhava-nos até à rua e aí inventava pretexto para mais dois dedos de conversa, dando tempo à vizinhança de testemunhar o êxito do cinquentão todo espraiado na vida e bem relacionado com a juventude. Depois, com um gesto teatral sacava do bolso um maço de notas e lambia o dedo para fazer deslizar duas: toma, paga um sumo às tuas amigas. Um sumo, com certeza.
A Débora sabia que na manhã seguinte ia apanhar, por motivo real ou imaginado, mas não só estava disposta a pagar o preço como a considerá-lo justo. Amava o seu carcereiro com devoção e orgulho. Louvava-lhe a têmpera, contava de ele ter atravessado intacto uma infância mal amada, depois uma juventude de penúria, mil infortúnios e indignidades, e ao cabo de tudo, assim que se fez homem, com quase nada nas mãos construíra aquela casa. Desde então, nem um dia de férias. Tudo para a criar, mantê-la em escola privada, dar-lhe a carta, o ensino superior e tudo o mais que ela precisasse, filha única, princesa, joia do seu coração. Sair é que nem pensar, que tirasse a ideia de namorar ou exibir-se em esplanadas, festas e discotecas. Muitas vezes, incapaz de engolir as ganas de liberdade, a Débora virava-se a ele mesmo sabendo que levaria o troco na pele e de cinto. E se depois lamentava não era pela dor da tareia, mas pela certeza absoluta e quase feliz de que não se paga com insurreição àqueles a quem tudo devemos. Então, chorava o arrependimento no colo da mãe, uma santa que a ensinava a levar pela calada a água ao seu moinho. 
Por isso, quando a certa altura – fatal como o destino – a Débora me pedia imita o sotaque lá da tua terra para o meu pai ouvir, ó pai, é tão cómico como as pessoas falam no interior, como se eu fosse um macaco migrado de lonjuras atrasadas e incivilizadas, eu chegava a perguntar-me se os meus pais, sempre tão cheios de justiça, sensatez e diálogo, me teriam educado convenientemente.

16.4.21

Como uns se lançam em limpezas e arrumações frenéticas para enganar o caos que vai no seu íntimo, eu meto-me a restaurar velharias para amaciar as penas que sinto pelo correr do tempo. Quando a imaginação está um antro de fantasmas e más companhias, vale-nos o domínio sobre o espaço e a matéria. Uma ferramenta na mão – e dá no mesmo uma esfregona, um bisturi, uma trincha, uma caneta, um cinzel ou uma enxada – torna possível ludibriar quase toda a realidade. 

10.4.21

Vivo num país onde mais rapidamente se é apedrejado pelas opiniões que se dá do que punido pelos crimes que se comete. Aqui, dorme melhor quem rouba do que quem pensa. 

7.4.21

 – Então, eu também tenho os meus defeitos, mas ao menos admito-os.
Prega a rapariga da papelaria à mãe mas, em boa verdade, é por toda a fila de espera que quer ser ouvida. Está num daqueles dias de fulgor e otimismo que costumam suceder abruptamente a outros de pasmo e melancolia. As velhas usam mil cautelas antes de lhe dirigirem a palavra porque se calha brincarem com ela num dia em que acordou de humor caído ainda se põe a chorar, muito ofendida. Mas se está como hoje, ai de quem for ali queixar-se do mundo ou de má sorte, porque toda ela se empolga a varrer sem piedade pessimistas, descrentes e seus cúmplices. Nunca é certa, mas atire a primeira pedra quem de entre nós for.
– Admites, admites… 
Responde a mãe, a revirar os olhos nas costas da filha para que a ironia não escape à plateia.
– Se quer falar, fale, mãe! Ou julga que me envergonho?
– Olha, pra começar, és teimosa.
– E teimosa é lá defeito? Sou mas é burra, é o que sou. Burra! E só eu sei onde já estava se não fosse…
Sorri levemente, a mostrar que se perdoou os erros cometidos. Já a mãe, essa apruma-se na cadeira, ajeita as bordas do casaquinho de malha como se para um instante de solenidade a chamassem de repente, e dispara:
– Sais ao teu pai.
As velhas agitam-se com a ofensa ao defunto. Dona Fátima, por amor de deus, acabámos de sair da páscoa e das igrejas, os corações ainda estão perfumados com resquícios de fé e condescendência cristã e já estamos a maldizer os que o senhor escolheu salvar chamando para junto de si? De resto, sublinham, a rapariga é burra coisa nenhuma e quem o disser fala de cor porque salta à vista como é educada, bem falante, mãe extremosa e com muito brio no atendimento. A cabeleireira, que em boa hora o desconfinamento ressuscitou, espreita à porta e acena, mas, duvidando do ar que lá dentro se respira, só atira de fugida: teve um azar, prontos, mas ninguém está livre. 
A mãe da rapariga da papelaria encolhe os ombros, envergonhada do que disse, orgulhosa demais para desdizer. A filha continua a sorrir e se for verdade que alcançou o mérito de enfrentar as próprias falhas, nomeá-las e perdoar-se por elas, não será para os outros que vai armar-se em juíza. Mas quando tudo parece apaziguado, eis que Alicita se levanta detrás da fotocopiadora, de entre uma feliz desarrumação de papéis e lápis de colorir. E apontando o dedito à rapariga da papelaria – que calha de ser sua mãe – põe-se a cantarolar, com a alegria própria dos inocentes que, apesar de ignorarem o mal, se envaidecem de tão depressa e bem o aprenderem:
– Burra! Burra! Burra!