29.2.20


Oh, muito obrigada, já não era sem tempo, que as magras também são filhas de Deus.

(nem a rtp se livra da pressa e da falta de cuidado na redação dos títulos)

28.2.20

Bastou-me enfiar uma vez as minhas mãos entre as de Gabi, a nova manicura, para concluir que não chega aos calcanhares da outra. Uma vez não são vezes, é certo, e também sei que a precipitação embota qualquer juízo, mas a verdade é que quem lembra a antiga manicura concordará que este é um daqueles casos em que é muito difícil haver rei posto à altura do rei morto. E nem é de unhas que falo. Esperta e atrevida, essa rapariga que agora, espero eu, brilha e faz brilhar num salão do centro da cidade, não falhava um tiro. E da ironia das suas balas as senhoras mal podiam defender-se, não só pela precisão do disparo mas também, e sobretudo, por remexerem naquelas inconveniências que o pudor prefere manter enterradas ou em fundos falsos dos armários. Porém, embora desbocada e até um pouco caprichosa, tinha um coração nobre e um delicioso à vontade nos assuntos do amor, sobre o qual todos alvitram mesmo que apenas tenham experimentado versões fajutas.
Aparentemente, o mundo está mais tranquilo com Gabi, que nos modos é contida e no vestir anda muito longe da ousadia e do espalhafato da sua antecessora. Como fala baixinho, as senhoras não receiam o troar de verdades chocantes a lembrar que o pior cego é aquele que não quer ver. Também o facto de a cabeça lhe pender constantemente para baixo lhe dá um ar humilde, quase submisso e muitas vezes tristonho, a pedir piedade e festinhas, ao invés da outra, cujo queixo levantava acima do que as senhoras consideravam razoável para a sua condição de empregada de cabeleireiro (mudam-se os tempos, mas - perdoe-me o poeta - as vontades e o ser não acompanham). Há, então, um clima de satisfação geral no salão e a engrenagem funciona agora de modo silencioso mas bem oleada: Gabi confidencia baixinho, a uma senhora de cada vez, que novidades lhe constaram a respeito das outras, enquanto vai e vem com a lima. Encantadas com o que daquela boquinha doce retiram de pormenores sobre o alheio, as senhoras até esquecem o óbvio: que nas costas dos outros vemos as nossas. Assim Gabi vai sabendo e contando e contando e sabendo, com a mesma paciência que usa para amaciar cutículas e passar vernizes. E quem entra agora no salão já só ouve o ronco dos secadores e o folhear distraído das revistas cor-de-rosa.

24.2.20

Admiro aqueles raros, raríssimos, que conseguem escrever publicamente sobre os mortos sem meterem o próprio ego à frente no caminho. A generalidade das homenagens é precedida de uma prova de velha amizade ou relato de alguma experiência comum, uma reunião, um jantarinho, um projeto. Às primeiras linhas estoira logo um eu, nas mais das vezes travestido com falsos tiques de  humildade. Impressiona mesmo: ninguém tem tantos, tão leais e expressivos amigos e discípulos como um cadáver.

22.2.20

A professora que vive no prédio em frente com três gatos pretos e um rol impressionante de tralha acumulada, fuma à porta do pingo doce com ar de quem se apartou da realidade. Leva o cigarro à boca num automatismo muito lento e o seu olhar escuro, embotado, descaído, passa através das coisas. Mesmo que me ponha diante dela, sei que não me verá e ainda bem. Contar-me-ia, pela enésima vez, quão miserável é pedir aos alunos que escrevam o que pensam acerca de um facto ou ideia e eles ei, ó stora, sei lá eu o que penso. Depois, já sei, lamentaria a falta de interesse e a indisciplina desta geração que vai precipitar o mundo no caos. Cansam-me muito estes lugares comuns, a lente viciada com que olhamos para aqueles cujo estado é fruto do nosso, esta recusa em aceitar que uma coisa, seguindo-se a outra, leva sempre o seu adn, a sua herança, as suas culpas, as faturas que ficaram por pagar, a consequência dos seus atos. São os adultos, não os miúdos, quem anda a descartar as responsabilidades. E a professora, só porque não teve filhos, julga que pode falar de cima e à parte. Oh, como se engana! Olho para ela, parece-me um buraco negro, lamento que o interesse e a disciplina não a tenham salvo da infelicidade. 

21.2.20

Um dia, o professor de uma disciplina do ensino básico que nos anos oitenta se chamava "trabalhos oficinais" perguntou se algum de nós queria estar a duzentos e vinte volts. Nenhum professor faria hoje tal proposta mas como à época éramos ordeiros e submissos, o risco era moderado. Quem se chegou à frente, seduzido pela ideia de alcançar um estado fulminante e dele regressar sem dano, foi o Afonso. O professor sentou-o em cima de uma mesa, enfiou um fio de arame na tomada de uma extensão e advertiu-o várias vezes para que não pousasse os pés no chão. Em poucos segundos, o Afonso estava com a ponta do dedo no fio de arame, os pés a balouçarem no ar e uma deliciosa, invejável, expressão de gozo farto, enquanto a corrente elétrica lhe percorria o corpo. Tudo isto perante o pasmo silencioso dos colegas e ao mesmo tempo que o professor, agitando os braços no ar, gritava:
- Ninguém lhe toca! Absolutamente ninguém lhe toca!  
É sempre isto que me vem à cabeça quando a viúva passa.

18.2.20

O mais velho adoece e eu abuso de forma descarada da sua prostração. Gulosa, a pretexto de lhe sentir a febre cubro-o de beijos na testa, nas faces, no pescoço. És meu, és meu, jamais te livrarás de me pertencer – é o que sinto, mas não penso. Pela tarde toda, o meu ventre repousa debaixo da cabeça dele. E durante a noite, de cada vez que ouço chamar, num fio de voz doce, dependente, vulnerável, mãe!, consolo-me de pensar que há coisas que não mudam, não terão como mudar.
O amor tem uma face tão desprezível, tão egoísta.

17.2.20

Devem ter posto a viúva no mundo para o entortar. Sinto que quando passa, tudo desliza atrás dela e a rua descai com o peso. Olhos, cobiças, invejas, desejos, maledicências, piropos, salamaleques e o mais que ali andar agarra-se ao corpo dela, àquele busto muito, muito cheio de dignidade e à cabeleira negra – pintada, é certo, mas de um negro que reluz e dá vertigens. Bem se vê que não teve filhos. É firme e lisinha, salvo onde a natureza ordenou que se arredondassem as fêmeas para fins de procriação e deleites vários. O senhor Pereira, fantasiando com a ideia de que ela possa ter recuperado a virgindade, continua a retirar desta visão boa parte do seu sustento. Mas não é o único. Muitos outros matam a fome comendo-lhe as pernas com os olhos e enterram a imaginação entre aquele par de nádegas, cuja generosidade não tem fim. Quando chega ao fundo da rua, a viúva é um íman com a realidade toda atrás e o mundo inclina-se como no princípio de um naufrágio. 

15.2.20

Uma opinião parte sempre de uma crença. Quando contestamos alguém, diminuindo a pertinência e o valor daquilo em que acredita, estamos só a impor outra crença que, por ser nossa, parece ter contornos mais firmes, mais factuais, mais ajustados ao real. Eu também tenho a minha crença e dela, somente dela, vem a minha opinião a respeito da eutanásia. Não a vendo como universal, não a imponho a ninguém, pois não está escrita em lado algum nem me foi sussurrada por vozes do firmamento. A minha crença é naquilo que vivi e todos os dias a memória me devolve. Tem a mesma solidez, teimosia, valor e objetividade de qualquer outra. E não mudou desde a última vez que aqui a partilhei:

Qualquer um que já se tenha visto na iminência de, com as próprias mãos, dar o golpe de misericórdia, sabe que a voz do médico, do juiz e do padre são ciência vaga, sentença inválida, moral sem aplicação. Direitos? Deveres? Liberdades? Juramentos? Não há cartilha ou lei fundamental que não possam ser esmagadas quando um deus maior e mais urgente é revelado nos olhos de quem se ama. 
(post de março de 2017)

13.2.20

Não é por nada que ele tenha dito ou ousado, até porque ao contrário do mais velho, que é um rapaz voador, este é aninhado como a cria no marsúpio. É pelo cheiro que sei: a infância do mais novo está a dar o último suspiro.

12.2.20

– Então fazes tenções de continuar sozinha? Por acaso julgas que vai haver sempre homens a cair-te aos pés, que essa carinha laroca não enruga como as outras, que podes viver de paixonetas aqui e acolá sem te cansares? Se não aproveitas enquanto és nova, se não arranjas já um homem que te ponha feliz, que te dê segurança a ti e afeto à tua filha, azedas como o leite antes de chegares à minha idade
– Quero voltar a estudar, mãe.
– Valha-te Deus, que essa cabecinha não para, rapariga. Atrás de uma tolice tem de vir logo outra. 
– Quero ter a minha vida, há mal?
– Já tens a vida em que te meteste por seres parva. Agora devias era assentar.
– Assentar, sim. Enterrar-me é que não, mãe. 
Separam-se mãe e filha na esquina, nenhuma delas dá por mim que vou atrás. A mãe atravessa a rua para a paragem do autocarro. A filha tira as chaves da carteira e, com dois abanões vigorosos, abre o gradeamento de segurança da papelaria.

11.2.20

Tive uma infância feliz, maculada por uma única tristeza: a de não poder usar o cabelo comprido. Ao cabo de cinco filhos, julgo que a minha mãe ficou sem disposição para cuidados extremos, tranças, lacinhos e caracolinhos e, chegando eu, sobreveio o pragmatismo. Não a condeno, éramos muitos e a manter a ordem pouco sobrava de tempo para investir em beleza. Queixas também não tenho – se por ter sido a última a nascer fui obrigada a cortes de cabelo mais austeros, por outro lado beneficiei de todos os privilégios que o afrouxamento da autoridade propicia. 
É dos livros, porém, a dificuldade em contentar seres humanos, sejam novos ou maduros, e, pese embora tudo o que eu tinha, ainda me doía o que me faltava. Lembro-me de uma das minhas três irmãs, a loirinha, ao espelho a perguntar-me: achas que fico melhor assim ou assim? e ora punha o cabelo para a frente, ora o puxava para trás e de qualquer das formas era magnífico, farto, brilhante, expressivo, e os rapazes cobiçavam-no, dispostos a aguentar o desdém e a má cara com que ela lhes pagava os atrevimentos. No carnaval, eu remediava o desgosto fazendo cabeleiras com serpentinas, tarefa que me exigia paciência de chinês mas era largamente compensada pela sensação das fitas soltas pelas costas abaixo, deslizando para a frente se eu me inclinava, escondendo-me o rosto se me envergonhava, exaltando a minha elegância se as passava por detrás da orelha num gesto vagaroso e feminino. Até quando fui recrutada para o papel de Virgem Maria numa peça de teatro, mais me entusiasmou a ideia da cabeleira que teria de usar do que os valores cristãos a transmitir com a minha seráfica postura. 
Só por volta dos treze anos fui autorizada a usar o cabelo conforme me desse na gana e então deixei que crescesse caótico e solto. A minha avó, sempre com prenúncio de desgraça debaixo da língua: corta-me essa melena, rapariga, que assim vais sofrer das vistas, vais apanhar piolhos, vais tropeçar no caminho. Nem sofri das vistas nem apanhei piolhos, quanto aos tropeções a história é outra mas não vem ao caso. Hoje, quando passo diante da porta do salão e a cabeleireira vem tomar-me a consistência aos cabelos e propor-me que lhes dê outro corte, outra cor, um reflexo, um artifício, viro-lhe as costas e é como se hasteasse ainda, tantos anos depois, a bandeira da minha liberdade. 

10.2.20

Jamais compreenderei o espanto que causa nos outros o facto de eu não ter televisão e a pena que sentem dos meus filhos por isso. No seu irrefletido e viciado juízo, a generalidade das pessoas acredita que os privo de um direito fundamental, que os mantenho ignorantes do mundo e sem fontes de entretenimento. E pensam de certeza de nós o mesmo que eu penso delas: que miséria.
Ai, coitados, ouvi ontem, ao menos têm telemóvel?  

7.2.20

Este hálito morno que subitamente vem da terra, este repouso mais tardio do sol, esta cama que a natureza faz para que se cumpra a renovação das espécies e a convalescença dos corações em frangalhos, ensaiando acertos melódicos entre brisas, águas e cantos e libertando no ar ingredientes vários de feitiçaria, tudo isto afrouxa qualquer disciplina sentimental e dá cabo das minhas boas intenções. 
Demorará o regresso da chuva?

4.2.20

Nas horas em que dei à luz e o universo inteiro se estilhaçou a partir do meu ventre e por mim escoaram os seus pilares e as suas fórmulas e entre as coxas vi surgir, ainda com a serena feição da morte, o rosto de todas as possibilidades e realizei que tinha caído na mais enredada das armadilhas, sim, talvez tenha havido um instante, um fragmento de tempo independente, paralelo, apartado do caos, em que pedi quero voltar atrás. 

3.2.20

Muito tempo depois dos acontecimentos, as mulheres ainda continuavam a subir a rua com a dor ao colo e os homens mantinham o hábito de a diluir no tasco em três rodadas. Uns e outros começavam o dia sem acreditar no que diziam: o que não tem remédio, remediado está. Mas diziam e era como se procurassem exterminar um tumor com colherinhas de chá. As crianças eram salvas pela inocência, que as impedia de medir a amplitude do dano. Viriam a sofrer com ele muitos anos depois, ou pela tortura da memória, que quanto mais tarde acorda com mais força se levanta, ou porque o destino, escrito na palma da mão, cobra até dos que supõem fintá-lo ao viajarem para longe, sonharem alto, oporem-se às probabilidades. É espantoso como a dor estabelece contratos individuais. Alguns de muito longo prazo, outros extintos quase na hora com um preço elevadíssimo, muitos exibidos como trunfo ou troféu, quantos escondidos no fundo de gavetas na esperança de que tarde ou nunca se faça o ajuste das contas. E aquele que julga entender da dor do outro ao ponto de presumir ter sobre ela o juízo lúcido, o conselho sábio, o remédio santo, o caminho certo, é só um arrogante a querer enfiar-se, à força e em vão, num traje de solidário.