18.2.20

O mais velho adoece e eu abuso de forma descarada da sua prostração. Gulosa, a pretexto de lhe sentir a febre cubro-o de beijos na testa, nas faces, no pescoço. És meu, és meu, jamais te livrarás de me pertencer – é o que sinto, mas não penso. Pela tarde toda, o meu ventre repousa debaixo da cabeça dele. E durante a noite, de cada vez que ouço chamar, num fio de voz doce, dependente, vulnerável, mãe!, consolo-me de pensar que há coisas que não mudam, não terão como mudar.
O amor tem uma face tão desprezível, tão egoísta.

17.2.20

Devem ter posto a viúva no mundo para o entortar. Sinto que quando passa, tudo desliza atrás dela e a rua descai com o peso. Olhos, cobiças, invejas, desejos, maledicências, piropos, salamaleques e o mais que ali andar agarra-se ao corpo dela, àquele busto muito, muito cheio de dignidade e à cabeleira negra – pintada, é certo, mas de um negro que reluz e dá vertigens. Bem se vê que não teve filhos. É firme e lisinha, salvo onde a natureza ordenou que se arredondassem as fêmeas para fins de procriação e deleites vários. O senhor Pereira, fantasiando com a ideia de que ela possa ter recuperado a virgindade, continua a retirar desta visão boa parte do seu sustento. Mas não é o único. Muitos outros matam a fome comendo-lhe as pernas com os olhos e enterram a imaginação entre aquele par de nádegas, cuja generosidade não tem fim. Quando chega ao fundo da rua, a viúva é um íman com a realidade toda atrás e o mundo inclina-se como no princípio de um naufrágio. 

15.2.20

Uma opinião parte sempre de uma crença. Quando contestamos alguém, diminuindo a pertinência e o valor daquilo em que acredita, estamos só a impor outra crença que, por ser nossa, parece ter contornos mais firmes, mais factuais, mais ajustados ao real. Eu também tenho a minha crença e dela, somente dela, vem a minha opinião a respeito da eutanásia. Não a vendo como universal, não a imponho a ninguém, pois não está escrita em lado algum nem me foi sussurrada por vozes do firmamento. A minha crença é naquilo que vivi e todos os dias a memória me devolve. Tem a mesma solidez, teimosia, valor e objetividade de qualquer outra. E não mudou desde a última vez que aqui a partilhei:

Qualquer um que já se tenha visto na iminência de, com as próprias mãos, dar o golpe de misericórdia, sabe que a voz do médico, do juiz e do padre são ciência vaga, sentença inválida, moral sem aplicação. Direitos? Deveres? Liberdades? Juramentos? Não há cartilha ou lei fundamental que não possam ser esmagadas quando um deus maior e mais urgente é revelado nos olhos de quem se ama. 
(post de março de 2017)

13.2.20

Não é por nada que ele tenha dito ou ousado, até porque ao contrário do mais velho, que é um rapaz voador, este é aninhado como a cria no marsúpio. É pelo cheiro que sei: a infância do mais novo está a dar o último suspiro.

12.2.20

– Então fazes tenções de continuar sozinha? Por acaso julgas que vai haver sempre homens a cair-te aos pés, que essa carinha laroca não enruga como as outras, que podes viver de paixonetas aqui e acolá sem te cansares? Se não aproveitas enquanto és nova, se não arranjas já um homem que te ponha feliz, que te dê segurança a ti e afeto à tua filha, azedas como o leite antes de chegares à minha idade
– Quero voltar a estudar, mãe.
– Valha-te Deus, que essa cabecinha não para, rapariga. Atrás de uma tolice tem de vir logo outra. 
– Quero ter a minha vida, há mal?
– Já tens a vida em que te meteste por seres parva. Agora devias era assentar.
– Assentar, sim. Enterrar-me é que não, mãe. 
Separam-se mãe e filha na esquina, nenhuma delas dá por mim que vou atrás. A mãe atravessa a rua para a paragem do autocarro. A filha tira as chaves da carteira e, com dois abanões vigorosos, abre o gradeamento de segurança da papelaria.

11.2.20

Tive uma infância feliz, maculada por uma única tristeza: a de não poder usar o cabelo comprido. Ao cabo de cinco filhos, julgo que a minha mãe ficou sem disposição para cuidados extremos, tranças, lacinhos e caracolinhos e, chegando eu, sobreveio o pragmatismo. Não a condeno, éramos muitos e a manter a ordem pouco sobrava de tempo para investir em beleza. Queixas também não tenho – se por ter sido a última a nascer fui obrigada a cortes de cabelo mais austeros, por outro lado beneficiei de todos os privilégios que o afrouxamento da autoridade propicia. 
É dos livros, porém, a dificuldade em contentar seres humanos, sejam novos ou maduros, e, pese embora tudo o que eu tinha, ainda me doía o que me faltava. Lembro-me de uma das minhas três irmãs, a loirinha, ao espelho a perguntar-me: achas que fico melhor assim ou assim? e ora punha o cabelo para a frente, ora o puxava para trás e de qualquer das formas era magnífico, farto, brilhante, expressivo, e os rapazes cobiçavam-no, dispostos a aguentar o desdém e a má cara com que ela lhes pagava os atrevimentos. No carnaval, eu remediava o desgosto fazendo cabeleiras com serpentinas, tarefa que me exigia paciência de chinês mas era largamente compensada pela sensação das fitas soltas pelas costas abaixo, deslizando para a frente se eu me inclinava, escondendo-me o rosto se me envergonhava, exaltando a minha elegância se as passava por detrás da orelha num gesto vagaroso e feminino. Até quando fui recrutada para o papel de Virgem Maria numa peça de teatro, mais me entusiasmou a ideia da cabeleira que teria de usar do que os valores cristãos a transmitir com a minha seráfica postura. 
Só por volta dos treze anos fui autorizada a usar o cabelo conforme me desse na gana e então deixei que crescesse caótico e solto. A minha avó, sempre com prenúncio de desgraça debaixo da língua: corta-me essa melena, rapariga, que assim vais sofrer das vistas, vais apanhar piolhos, vais tropeçar no caminho. Nem sofri das vistas nem apanhei piolhos, quanto aos tropeções a história é outra mas não vem ao caso. Hoje, quando passo diante da porta do salão e a cabeleireira vem tomar-me a consistência aos cabelos e propor-me que lhes dê outro corte, outra cor, um reflexo, um artifício, viro-lhe as costas e é como se hasteasse ainda, tantos anos depois, a bandeira da minha liberdade. 

10.2.20

Jamais compreenderei o espanto que causa nos outros o facto de eu não ter televisão e a pena que sentem dos meus filhos por isso. No seu irrefletido e viciado juízo, a generalidade das pessoas acredita que os privo de um direito fundamental, que os mantenho ignorantes do mundo e sem fontes de entretenimento. E pensam de certeza de nós o mesmo que eu penso delas: que miséria.
Ai, coitados, ouvi ontem, ao menos têm telemóvel?  

7.2.20

Este hálito morno que subitamente vem da terra, este repouso mais tardio do sol, esta cama que a natureza faz para que se cumpra a renovação das espécies e a convalescença dos corações em frangalhos, ensaiando acertos melódicos entre brisas, águas e cantos e libertando no ar ingredientes vários de feitiçaria, tudo isto afrouxa qualquer disciplina sentimental e dá cabo das minhas boas intenções. 
Demorará o regresso da chuva?

4.2.20

Nas horas em que dei à luz e o universo inteiro se estilhaçou a partir do meu ventre e por mim escoaram os seus pilares e as suas fórmulas e entre as coxas vi surgir, ainda com a serena feição da morte, o rosto de todas as possibilidades e realizei que tinha caído na mais enredada das armadilhas, sim, talvez tenha havido um instante, um fragmento de tempo independente, paralelo, apartado do caos, em que pedi quero voltar atrás. 

3.2.20

Muito tempo depois dos acontecimentos, as mulheres ainda continuavam a subir a rua com a dor ao colo e os homens mantinham o hábito de a diluir no tasco em três rodadas. Uns e outros começavam o dia sem acreditar no que diziam: o que não tem remédio, remediado está. Mas diziam e era como se procurassem exterminar um tumor com colherinhas de chá. As crianças eram salvas pela inocência, que as impedia de medir a amplitude do dano. Viriam a sofrer com ele muitos anos depois, ou pela tortura da memória, que quanto mais tarde acorda com mais força se levanta, ou porque o destino, escrito na palma da mão, cobra até dos que supõem fintá-lo ao viajarem para longe, sonharem alto, oporem-se às probabilidades. É espantoso como a dor estabelece contratos individuais. Alguns de muito longo prazo, outros extintos quase na hora com um preço elevadíssimo, muitos exibidos como trunfo ou troféu, quantos escondidos no fundo de gavetas na esperança de que tarde ou nunca se faça o ajuste das contas. E aquele que julga entender da dor do outro ao ponto de presumir ter sobre ela o juízo lúcido, o conselho sábio, o remédio santo, o caminho certo, é só um arrogante a querer enfiar-se, à força e em vão, num traje de solidário.

29.1.20

A rapariga da papelaria admite que talvez o seu sonho de amor a tenha distraído da vida. Não fosse o tempo gasto a pasmar e a desenhar mentalmente vestidos de noiva e beijos de comprometimento, podia ter ido mais longe, um curso superior, um emprego de jeito, umas férias à vontade. Por si tanto dá, nunca foi ambiciosa, mas custa-lhe não ser exemplo para Alicita. A filha merecia um modelo de persistência e realização, ao invés de ouvir falar da mãe como uma tonta que cumpriu os mínimos e gastou-se em suspiros ao balcão de uma papelaria. Buscando talvez um estímulo, uma ideia, um caminho, pergunta-me o que faço eu da vida e se gosto. Digo que gosto e que, em boa verdade, grande parte do tempo nem faço nada, só penso. Meu deus, eu lá teria cabeça para ser paga só pelo que penso! Compadeço-me e aproveito a deixa da sua humildade para exercitar a minha: não é bem assim, pagam-me por pensamentos efémeros, sem profundidade ou consequência, que berram muito hoje, amanhã são gemidos de moribundo e numa semana estão reduzidos a pó. E queixa-se? pergunta-me, como se eu tivesse disparado uma ofensa diretamente àquele peito já tão inflamado. Mas antes que eu diga não, o trabalho é coisa de que nunca me queixo, ela desata na goela um riso nervoso e, com a voz entrecortada, pica o ponto na sua rotina de auto-comiseraçãodos meus pensamentos nem o homem que eu amava quis saber.

28.1.20

Tenho observado que ao invés dos homens, sempre ansiosos por uma descendência que lhes siga as pisadas, as mulheres inquietam-se quando os filhos as imitam nos talentos ou na vocação profissional. Não faças isso, nem sabes no que te vais meter. As mães procuram sempre salvar os filhos, os pais esperam às vezes ser salvos por eles.

25.1.20

Escrevi o teu nome em maiúsculas arredondadas, à cabeça de um rascunho de versos que não eram sobre as camas incandescentes onde o sol se deita para o pasmo dos sonhadores, nem falavam de amantes perigosamente debruçados no abismo da saudade, nem cantavam a autoridade das fases da lua sobre os enredos de amor, nem diziam nada sobre flores colhidas na orla fecunda dos bosques para a coroa das noivas e a lapela dos namorados. Eram sobre um rio cheio, musculado, a correr com ânsia a sua língua pelas curvas da terra e a penetrar, enfim, no colo do mar, onde celebra, repete e perpetua a própria morte.

23.1.20

O que verdadeiramente desgosta o senhor Pereira é que o neto tenha sido nomeado como um lavrador. A Joaquim, diz, falta nobreza e estilo, há de trazer sempre à lembrança a ideia de couves, galochas, tratores, bosta de vaca, se me desculpa a indelicadeza da linguagem. Está acocorado junto do mercedes e tira as medidas ao risco que descobriu ainda agora na lateral traseira, perto da roda. E se dá na cabeça de alguém chamar-lhe Quim? Ou Quinzinho? Nem pense nisso, sou eu a tranquilizar o senhor Pereira, que leva o dedo indicador à língua e, com uma entrega comovente, quase terna, tenta devolver a perfeição à chapa metalizada do automóvel. Garanto-lhe: na zona da cidade onde são arquitetadas as regras da boa figura que, por imitação, vão alastrando até à ala oriental e aos subúrbios, têm nascido Joaquins. E nos colégios que monopolizam o topo dos rankings há cada vez mais assim chamados. Alguns brilham no quadro de honra, não só pela prova quantificada dos seus dotes intelectuais como pela obediência. Dê-lhes tempo, senhor Pereira, e os Joaquins hão de substituir a dinastia de salvadores e santiagos que destronaram a dos lourenços e bernardos, depois de estes terem acabado com a dos martins e tomás, esses implacáveis exterminadores de afonsos. Ele não me ouve. Esfrega ainda, e cada vez mais freneticamente, o risco na pintura. Com o esforço posto no vaivém do dedo, as feições dele crispam-se e os modos exaltam-se, até lhe sai um palavrão sem se dar conta nem pedir as desculpas de costume. Mas um risco destes não é coisa que se limpe ou disfarce com saliva. Uma aparência impecável exige um investimento muito mais trabalhoso.

22.1.20

Quando descobrem que ao dizer qualquer um pode errar, somos todos humanos são-lhes perdoadas as faltas sem atribuição de castigo, coima ou consequência, certas pessoas embarcam comodamente no vício do erro e da desresponsabilização. Igual lógica tem aquele que, sob o falso pretexto da frontalidade, diz o que quer a quem lhe dá na gana e sem modéstia para se desculpar pelo que mal disse, sai-se com um estava a brincar, que falta de sentido de humor. E há o outro, pouco vocacionado para atos de nobreza ou generosidade, que sacode a água do capote a dizer a vida é injusta, como se as suas deficiências de ética decorressem de um propósito universal, atávico e de sentido obrigatório. Enfim, a eloquência dos miseráveis tem uma certa linearidade e socorre-se nas mesmas muletas. Bom, isso é tudo muito relativo, responder-me-á, sem real noção da verdade que diz, aquele que por via das dúvidas quer manter um bom entendimento comigo, com Deus e com o Diabo. 

20.1.20

Ah, o que fizeram ao Poeta – viraram-no do avesso, arrancaram-lhe as vísceras, espremeram-nas, cozinharam-nas para enchidos e petiscos que vendem no mercado com selo de garantia de origem. Não sendo o Poeta em si, sempre é qualquer coisa de poeta, já moída, condimentada, de fácil digestão, servida de palito ou com enfeite. Cebolada de maus fígados de poeta. Coração quebrado de poeta em azeite virgem. Nervos de poeta salteados em lume forte. Assim se consolam os glutões e os apressados, enchendo num instante a boca com o Poeta, acumulando estrofes na bochecha para debitar a propósito. E assim se nutrem os anoréticos que, nada seduzidos pelo gosto do Poeta, podem fazer de conta que deveras apreciam debicando alguns versinhos em convívios. Uns e outros, pelo meio, também engolem apócrifos sem darem por ela.

18.1.20

O dia em que percebi que a infância do mais velho tinha ficado para trás, lembro-o pelo que me doeu. Não foi quando me ultrapassou em tamanho, nem na hora em que levantou o queixo a perguntar se também podia beber uma cerveja e tampouco quando me disse, cheio de cuidado, mau era se eu pensasse apenas conforme o que me ensinaste. Foi no dia em que decidiu mudar o quarto e desprezou, arrumando em caixas de tampa rija, todas as miudezas passadas, ternuras, cartas, bilhetes, mimos, fotografias, projetos, pinturas. Ficou a cama, a escrivaninha, um relógio, um candeeiro, quatro paredes nuas. Parecia o quarto de alguém que houvesse morrido e era-o, de certa forma. Imaginei que, dali em diante, naquele quarto habitaria uma indefinição, um rebelde, um sonhador, um poeta de escárnio, um aventureiro, um desesperançado, um romântico, um cavaleiro, um conquistador, um desnorteado, um teimoso, um indiferente, um bailarino, um companheiro, um estranho, um vaidoso, um desleixado. E perguntei-me quantos anos ainda teria de esperar até que daí nascesse um Homem.

16.1.20

Fui a casa dos Pereira beber um Porto pelo aniversário de Joaquim. Abordada na rua e arrancada com violência a devaneios pouco dignos de relato, não arranjei desculpa. Violência é modo de dizer. Foi antes entusiasmo, mas tão exacerbado que tive a impressão de me puxarem pelos cabelos, como gente do povo medieval que, sem contemplações, é obrigada a prestar culto à realeza, remetendo todos os seus afazeres e necessidades para o plano do inútil. Numa derradeira tentativa de fuga, mesmo à porta, ainda inventei que os meus filhos me esperavam, mas a mulher do senhor Pereira reprovou-me, escandalizada, com a sua cosmopolita afetação, ora essa, os meninos têm de se fazer homenzinhos! É extraordinário: quanto mais embaçados os nossos espelhos, mais rápidos somos a apontar dedos, ditar leis e a sugerir caminhos. Entrei, portanto, resignada e disposta já a colaborar na festa, puxando à cara o meu melhor sorriso e as boas maneiras que esqueço quando o traje que me obrigam a vestir é apertado ou de fraco corte.  
No hall, tive de venerar a fotografia de Joaquim – impressa em tela e ladeada por dois ramalhetes de tecido vermelho-escuro – e concordar que sim, que o menino se fará um homem magnífico e que a sua pose, com as mãozinhas levantadas como as de um bandarilheiro, é já indício de uma disposição rara para enfrentar corajosamente as agruras da vida. Foi este o retrato que me disseram, por vias travessas, ter acordado as divergências familiares logo após o Natal. Nutrida por um perigoso cocktail de raiva, mágoa e ciúme que certamente ferve em lume brando no seu peito há muito tempo, a primogénita acusou os pais de todas as injustiças que de memória lhe ocorreram, culminando no facto de os retratos das netas, além de mais pequenos e modestamente emoldurados, terem ido parar a uma outra parede, onde a luz é só um suspiro ao fim do dia, para darem lugar ao retrato do menino, sempre o menino, o menino, o menino, o filho daquela que se julga maior e melhor e que, ouçam o que vos digo, há de enredar tudo e todos na teia dos seus caprichos. 
O chorrilho de acusações, com que a irmã mais nova acabou a fazer coro e que o irmão não teve fôlego nem caráter para rebater, mudou tudo. Doravante souberam a fel as rabanadas e desapareceram, juntamente com os laços dourados e os papéis de embrulho, a alegria e a gratidão pelos presentes trocados na véspera. As manas Pereira arrastaram os maridos invisíveis e as meninas exemplares dali para fora sem um beijo aos pais e assim ruiu o presépio que com tão magnânimas intenções o senhor Pereira quis compor, julgando que na magia de uma noite santa podiam dissolver-se mágoas de uma vida inteira.

14.1.20

É evidente que a maneira menos arriscada de sonhar é acordado. A única desvantagem é a permanente vigilância da razão, que quase sempre obriga a manter um certo nível de lógica e subsequente mediocridade. Uma destas noites, por exemplo, era certamente profundo o meu sono quando atravessaste toda a plateia ao meu encontro, apoiando-te nas costas das cadeiras para evitares tropeçar nas pernas das senhoras e nas cerimónias dos homens. Eu preparei-me, supondo que tencionavas apertar-me a mão e, afinal, o que tinhas para me dar era um beijo. Foi assim que fiquei a conhecer por dentro a tua boca. Que surpresa. Julgava que tivesses um beijo mecânico, cheio de rigores, aprendido em diagramas e manuais ou domesticado por uma só mulher a vida inteira. Felizmente, nem isso nem as aflições púberes de que padecem certos homens na maturidade. Mas se agora, bem desperta, me ponho a pensar nesse beijo em busca de palavras que o descrevam, que deem as medidas da sua temperatura, duração e consistência, creio que não só perderei tempo como me arrisco a esquecê-lo. O verbo deslassa a memória, deixa ir, diminui, perspetiva, facilita, por isso se recomenda a escrita como terapia. E eu quero lembrar assim a magnífica reputação que construí para o teu beijo na periferia alvoroçada da minha consciência, enquanto dormia profundamente. Deus nos livre, a ambos, de algum dia verificar que o meu sonho pecou pela generosidade.

12.1.20

Assino de cruz e olhos fechados o acordo que me levará a enfrentar o maior dos meus medos e dou início à contagem decrescente. Não são horas nem dias, mas semanas. Terei tempo para vestir não sei que fato de proteção, empunhar não sei que arma de defesa, socorrer-me não sei de que fé, tomar não sei que conselho, comprimido ou porção de álcool. Derrubando este, não me sobrará nenhum medo risível, de que me envergonhe em confissão e faça das crianças e dos ignorantes os meus únicos pares. Quem vence um medo, de certa maneira vence a morte. É dela o rosto grave com que nos perseguem todos os nossos fantasmas, tenham eles a dimensão de uma vespa ou de uma doença rara.

10.1.20

A mãe da rapariga da papelaria aconselha-me a não deixar o mais novo andar sozinho na rua, a cidade é povoada de gabirus bem falantes que vingam a perda da própria inocência corrompendo a dos outros. Que exagero, comento, absolutamente segura das minhas decisões, só depois percebendo que não é comigo que ela fala, mas com os seus fantasmas. A inocência, acrescenta, é a mais rara de todas as pérolas. Por ela se fizeram já acordos em que, no fim, só a infelicidade lucrou. Alice, dócil borboleta atraída por todas as luzes, cores e perfumes da vida, felizmente não percebe o lamento da avó que, ao tomar-lhe o rosto entre as mãos, suspira desde o fundo do seu ventre envelhecido: minha riqueza, em que mundo te foi meter a tonta da tua mãe!