24.5.16

No lugar de Julieta

Fez-se com brevidade o luto por Julieta. O meu sentimento de culpa pela queda fatal de que foi vítima ficou resolvido. E fui aceitando a ideia de que, ainda que eu tivesse redobrado os cuidados, acariciado as folhas, sussurrado palavras de incentivo, não a espevitaria. Para me tranquilizarem, os meus filhos foram-me lembrando o que eu própria lhes digo: que as coisas da natureza são imperfeitas e transitórias, cheias de caprichos e sinais que escapam à sensibilidade humana. Culpa, remorso e revolta são gastos inúteis de energia.
No lugar de Julieta será, assim, colocada uma nova orquídea. Decidi, porém, que há de ser de outra cor porque o branco, apesar de luminoso e inspirador, tem uma inocência que fragiliza. Preciso de uma orquídea forte, de boa linhagem, que tenha teimosia de viver, nada de tiques de aristocracia e futilidades. Será violeta. E há de dar-me mais paz do que preocupações. 
O mais velho, fascinado por tragédias de amor, sugeriu desde já que lhe chamássemos Inês e, numa visão que me estremeceu da cabeça aos pés, pressenti uma vida tão breve como a de Julieta, culminando com penas e ais. Nem pensar. Era o que faltava, ver de novo uma bela flor morrer pela insistência numa paixão sem espaço nem futuro. 
Entre Dalila e Madalena, será feita a minha escolha. Certa de que não a livro da morte, conto, ao menos, livrá-la de tolices.

23.5.16

Contradições

Temem de morte as correntes de ar mas julgam-se seguros com aparelhos de climatização. Viram a cara aos estranhos na rua e seguem gente que não conhecem nas redes sociais. Tratam obsessivamente o corpo com sementes e cereais exóticos e reservam para a alma comprimidos e resignações. Aceitam toda a espécie de lixo para se orgulharem de, mais tarde, o separar no ecoponto. Creem que um vírus morre mesmo com cêgripe mas desconfiam dos benefícios da meditação. Choram de não ter tempo para nada e compram oitenta canais de tevê. Acreditam piamente que neste país já lá vão as ameaças de ditadura, que poder escolher é a sua maior fortuna: escolher o canal que veem, a marca do aparelho de compram, os pedidos de amizade que aceitam, a cor do contentor onde põem o lixo. Estranho que nada disto os apazigue ou lhes dê sonos tranquilos.

14.5.16

Grata

O mais novo é a melhor pessoa que eu conheço. 
Não estava nos planos, gerou-se furtivamente, escapando ao controlo e às probabilidades. Grata pelo acaso, que me encheu os dias com inteligência, justiça e compaixão.
Se eu tivesse de nomear alguém para salvar o Futuro, nomeá-lo-ia a ele.

13.5.16

Os sapatos da viúva

Lá vai a viúva, muito emproadinha, cheia de vaidade nos atributos que Deus lhe deu e a maturidade não lhe tira, nádegas firmes e redondas, seios espertos, o nariz farejando adiante, uma pele cuja luz eu me apanho a invejar de boca escancarada.
Há nela uma elegância sem época, indiferente a modas, que a livra da massa e da vulgaridade, como se não pertencesse, não devesse nem temesse. Podia ser mulher de qualquer tempo: deusa pré-histórica da fertilidade, rainha do Barroco, musa de Hitchcock, embalagem plástica do futuro. Seria igualmente sólida e ajustada.
No modo de se vestir e apresentar, a viúva não é de gritaria ou escarcéu. A excentricidade, manifesta-a em sussurros e esgares. Pode prender a atenção apenas com o perfume, a cor rara do batom ou, como hoje, um par de sapatos pretos com corações vermelhos. Atravessa a rua de paralelo em cima deles, num equilíbrio que poucas mulheres alcançam, a coluna vertebral como uma estaca bem ancorada no ventre da Terra, nenhuma parte do corpo é frouxa ou indecisa, os olhos não se distraem e as mãos têm lugar certo. É difícil fazê-la rir e também não há indícios de que chore. 
O senhor Pereira é agora indiferente à sensualidade desta rigidez. Nada obteve dela a não ser estímulos à imaginação. Eu continuo a fascinar-me ao vê-la, numa busca vã do enredo ideal para a encaixar. Mas a viúva escapa a qualquer história, entra no SUV, acelera, desaparece nas voltas da rotunda.

12.5.16

Julieta volta à janela *

*Republicado, para atender a um pedido.

Por causa da rapariga da papelaria, quase matei a minha Julieta. Hesito antes de contar como tudo aconteceu pois sei que o facto de vedar comentários não é o que me livra de juízos e sentenças, apenas de os enfrentar e ter a trabalheira de mais uma gestão, como se não bastassem as muitas que já me ocupam. E, neste caso, estou certa, acusar-me-ão de tolice. 
Arrisquemos.
Desde o dia em que a rapariga da papelaria manifestou à experiente velhinha a sua descrença no verdadeiro amor, não calhou eu voltar a pôr lá os pés. Mas encontrei-a na semana passada, na rua, e espantei-me ao reparar que mudou de visual. Pintou e soltou o cabelo, tirou o piercing e vestia cores de primavera, longe dos tons de viuvez que era seu hábito usar. Achei-a também de ânimo renovado, mais desprendida, com riso fácil e muito dada à conversa. A minha conclusão foi imediata: ora, pôs-se bonita para atrair o amor! Mas por não haver confiança bastante, nada perguntei. Limitei-me a apreciar o natural desabrochar daquela flor que só por falta de esperança foi, muito tempo, um caule seco e tristonho. 
Mas se é uma verdade universal que a beleza pode apaixonar, também acontece o vice-versa: a paixão embeleza. E, ao mesmo tempo que organizei no meu íntimo este pensamento, lembrei-me da haste da Julieta, que desde o outono dorme, hirta, introvertida e melancólica, num vaso azul, sem indício de voltar a dar flor. 
Regressei a casa decidida. Aproveitando o tempo de feição, ocorreu-me que se pusesse Julieta do lado de fora da janela, bem exposta, talvez o gato vadio que a namorou no verão passado se perdesse novamente de amores por ela. Julieta está pouco ou nada atrativa, bem sei, mas um gato tem instinto, num relance perceberia que continuam firmes as suas raízes e cheia de promessas a seiva que lhe corre por dentro. Assim, voltando o gato a adorá-la, não poderia ela desabrochar de novo?
Com Julieta do lado de fora da janela, pronta para ser amada e florir, fui dedicar-me a outras tarefas e nem dei conta que, ao fim da manhã, se levantou uma dessas ventanias repentinas que mudam o tempo e pressagiam desastre. Só depois de almoçar e arrumar a mesa com vagares de fim de semana, percebi o resultado da minha irresponsabilidade, quando dei pela falta dela e me debrucei na janela. Lá em baixo, o vaso azul multiplicara-se em cacos no meio dos arbustos e Julieta estava prostrada nas lajetas, com as raízes abraçadas a um resto de terra. Pronto, o mais velho desceu para buscá-la, enquanto o mais novo, solidário, fazia eco dos meus lamentos. 
Julieta regressou com as folhas torcidas, maceradas, aninhada nos braços do meu filho. Primeiro, penitenciei-me pelo descuido. Depois, culpei-a, tão preguiçosa para viver que me obriga a estes disparates. E, como é óbvio, acabei a rogar pragas ao gato, sacana dum raio, que nunca mais apareceu.

05-02-2016

11.5.16

Não é o que dizem?

Para escrever como se quer, talvez eu devesse ser infeliz. Não é o que dizem? Que a arte é exorcismo de agudos e recalcados tormentos?
Tenho dores – quem as não tem? Mas arrumam-se em cantos cujo pó limpo ao meu modo para evitar o mofo, a doença, a decomposição. Uso-as de vez em quando, quero a sua maleabilidade garantida, preciso delas para o árduo exercício do perdão. Apesar disso, falta-me o sentimento da desgraça própria, memórias de desamor e até certas tentações: a do vício, a do sono, a da morte. Falta-me crer que o mundo pesa inteiro sobre as minhas costas, que os fantasmas me procuram no escuro e que sou pioneira de todas as angústias e interrogações. Que o amor que vivo ou já vivi é superior e, só por isso, mal entendido com o mundo. Narcisismo também não tenho que chegue. Se por vezes me debruço no lago, o que me espanta e distrai é ver o meu rosto transformar-se de acordo com a direção dos ventos. 
A minha vulgaridade é um terreno estéril para criações que valham. 
Podia, portanto, desistir, dar-me a outros passatempos, mudar de profissão, tentar novas aventuras. Mas a minha crença a respeito do impulso da escrita é outra, bem mais objetiva e, sem dúvida, muito menos fascinante. Além disso – lembro-me agora – escrever é o meu único sustento.

10.5.16

Cortejo

Quando eu era pequena, a minha mãe levava-me todos os anos para ver o cortejo académico e ficávamos quase sempre na curva de Sá da Bandeira, junto ao teatro onde se exibiam obscenidades. Naquele tempo, a cidade parava a ver os estudantes desfilar e punha-se muita fé nas ironias e parangonas com que decoravam os carros. Achava eu então que os universitários eram seres iluminados, que o ensino superior lhes abria a consciência cívica e intelectual, graças ao contacto com saberes elevados e docentes esclarecidos. O que eu via naquele desfile, na cantoria, nas encenações humorísticas e na criatividade sem censura, era uma promessa de viragem, um romantismo que havia de mudar o mundo, limpá-lo de pó e equívocos, fazê-lo sair da linha de montagem, desatar-lhe os grilhões, arrancá-lo aos espartilhos. Encantava-me. 
A minha mãe ajudava à missa: tinha também um fascínio pela vida académica, havia nela uma nostalgia mal resolvida que a visão das capas negras, das fitas e das cartolas inflamava. Muitos, muitos anos antes, a minha avó cortara-lhe as asas na hora em que manifestou o desejo de ir para Coimbra estudar engenharia. Iria para a universidade, sim, mas no Porto, sob apertada vigilância. Rapariga sozinha e longe é que não. Assim, a minha mãe cursou o que não queria e jamais terminou ou exerceu. À custa desse amor proibido, nunca consumado, criou belíssimas odes à cidade do Mondego, na sua letra quase pictográfica, em papel de carta. E naqueles dias da semana académica ela recordava, assistindo, o que ficara por cumprir. 
Ano após ano, fomos aguardando com expectativa diferentes cores, conforme os meus irmãos iam crescendo, tomando o seu rumo e ganhando um posto no imenso cortejo. Começámos por procurar o vermelho e branco. Depois o azul escuro. A seguir o azul claro. Por fim o vermelho sólido. E parecia-me tudo muito lindo, as flores de crepe eram briosas, as parangonas cheias de graça, o INEM era chamado poucas vezes, respiravam-se grandes esperanças.
Quando chegou a minha vez, do desfile já sobrava mais vidro partido, poças de vomitado e comas alcoólicos do que outra coisa qualquer. No primeiro ano, os meus colegas de curso foram manchete do jornal com um título que ainda hoje recordo: Alunos de Comunicação Social portam-se como primatas irracionais. Não quis fazer parte do cortejo, pus-me à margem assim que a minha doce inocência se desfez e percebi que, afinal, a vida universitária não era a antecâmara de um mundo melhor, mas uma passagem, desesperançada e desajustada, entre a idade dos sonhos e o tempo da resignação.  

6.5.16

Cartão de cidadão

Sonhei esta noite que tinha perdido o cartão de cidadão. Vasculhei a carteira para responder à ordem da agente de polícia mas só me saíam documentos de validade expirada, o meu primeiro bilhete de identidade, a carta de condução, o cartão de contribuinte, cartões de atleta, recibos desbotados, papéis com recadinhos amorosos, moedas de um cêntimo. Perante o meu desespero, a agente afinava a sua autoridade, endireitando mais e mais as costas. Olhava-me com a distância com que se olham espécies opostas, estranhas, sem matéria ou sentimento em comum. Eu ia gaguejando banalidades, não compreendo, estava mesmo aqui. E nos olhos dela pairava, terrível, a dúvida a meu respeito. 
Tremia-me o corpo, esvaziando-se de sangue e presença, não pelo medo de ser punida, mas pela angustiante hipótese de ter deixado de existir e de me cobrarem quinze euros para voltar a ser quem sou, dar a medida exata do meu corpo, fazer prova daqueles que me conceberam, não bastando que os seus traços vivam em cada um dos meus, e lembrar que sou gémea do solstício de inverno, depois de mim a luz venceu e os dias só cresceram. Como um saco plástico vazio, frouxo, vulnerável aos caprichos do ar, creio que naquele instante preferi morrer. 
O acordar não foi instantâneo. Demorei a livrar-me dos dedos da agente de polícia no meu braço, como um torniquete, e da minha mão paralisada, roxa, sem pingo de vida.

5.5.16

Poeira molhada

Ao sair do edifício, a mulher deteve-se, inspirou como se precisasse de recuperar a vida e revirou os olhos: ah, que cheirinho a terra molhada! 
Tola! A terra molhada só cheiram as intimidades do mundo: campos, aldeias, florestas. Aí dentro, há entre a chuva e a terra uma troca justa de favores e propósitos que mantém a harmonia, gera flor e fruto. Aqui, na cidade, onde a chuva serve para fazer correr água imunda nas sarjetas e atrapalhar o trânsito, o cheiro é apenas a poeira molhada, mas essa reles imitação é quanto basta para exaltar os sentidos de quem os tem dormentes e acordar memórias de liberdade e inocência. Qualquer canteirinho húmido pode provocar uma catarse.
A mim, este cheiro a poeira molhada, que é urbano e inconsequente, lembra-me o dia em que me disseste, com a devida cautela para não detonar as minhas fúrias, que as coisas não podiam ser conforme eu queria, nem sequer conforme esses teus sonhos, tão vagos que jamais seriam senão sonhos. Ficou-me. É por isso que, ao contrário do cheiro a terra molhada - que faz vibrar em mim uma felicidade pura e me recorda o essencial do universo -, o cheiro a poeira molhada lembra-me a supremacia do que é material, a autoridade do medo, o poder daquilo que há muito deixou de me fascinar ou servir. 
Quando chove na cidade, é só isto: a poeira levanta-se, os sentidos inquietam-se, mas tudo torna a assentar.

26.4.16

Liberdade

Há muito que não tenho, com o senhor Pereira, um encontro que mereça relato. Ou porque ele anda menos espirituoso ou porque o que diz tem passado ao lado das minhas inflamações crónicas. Ontem, porém, talvez o feriado e o bom tempo o tenham espevitado e tenham reacendido em mim algumas sensibilidades. Vendo que pela fresquinha da manhã já andávamos no laréu, perguntou-me se íamos comemorar a liberdade. Qual liberdade?, perguntei. Não esperava que ele compreendesse a ironia, tampouco era meu desejo provocá-lo ao ponto de encetar debate. A única intenção era escapar ao absurdo da pergunta. Ele reagiu sem novidade: uma gargalhada superior, uns olhos ternos, paternais, e, por fim, a sentença já esperada.
- Vocês, jovens, não têm cultura nenhuma nem valorizam nada!
O mais novo, que volta e meia se mete a ler coisas impróprias para a idade e gosta de se exibir, puxou-lhe pela manga da camisa:
- Por acaso sabe quem foi o primeiro presidente da república da liberdade?
Primeiro, o senhor Pereira fez-se muito hirto e fugiu com os olhos, numa atrapalhação evidente. Mas depois, o riso vivo e ansioso do mais novo, com os dentes definitivos ainda por acomodar, enterneceu-o. E nessa ternura viu a tábua para se salvar da humilhação:
- Uma delícia, este seu pequenito! Uma delícia!
Ia repetindo isto e ganhando distância, desceu o passeio, atravessou a rua com acenos de despedida e, meio aos ziguezagues, acabou por atracar na mulher que o esperava na esquina oposta, adorando uma montra de vestidos de cerimónia. Seguiram de braço dado, como dois elos de uma corrente empedernida, ferrugenta, que nenhuma revolução é capaz de quebrar.

21.4.16

Revista de imprensa

Não meço a grandeza de um miradouro pela amplidão do horizonte, mas pela surpresa que a sua perspetiva me causa. Assombra-me mais a novidade do ângulo do que a lonjura da vista. Para lá do mar, já sei que está mais mar. Para lá de um monte, adivinho que outro está. Não preciso de ver longe, antes quero ver diferente.
Já estive em quase todos os miradouros que a Fugas sugere. É-me difícil perdoar a ausência de S. Leonardo de Galafura e de S. Salvador do Mundo nesta lista.

O "i" partilha connosco as nove dicas que a "Time" deu aos que sistematicamente chegam atrasados. Entre o bullshit habitual e muita condescendência pelos caóticos, esqueceu-se do único conselho que vale e cujo incumprimento a vida moderna não desculpa: tenha respeito pelos outros

O JN diz que "três funcionários das finanças arrecadaram 1,4 milhões de euros". Está mal, não está? Foram dois funcionários e uma funcionária, é preciso fazer a distinção. Há mulheres corruptas e a isso deve dar-se a justa importância.

20.4.16

O filho de Magda (4)

Na morte de Magda, ninguém o viu chorar. Mas durante muito tempo andou macambúzio, abusou da cerveja e do sofá, cumpriu a vida como um autómato, tanto se lhe dava que chovesse ou fizesse sol. Verdade seja dita, nem era grande desvio. Caráter marcante nunca tivera, da sua boca jamais saíra coisa que impressionasse. Entusiasmo? Por nada. Tão imune à paixão como ao desespero. 
A mulher, que já então tinha a memória dorida de um par de estalos, tirou algum alívio desse luto introvertido. Parecia que ele nem existia e, não existindo, evitava lembrar-se ela a toda a hora do erro que cometera. Quantos anos tinha? Vinte? Vinte e dois? Era uma rapariga tão bonita, tão esperta. Podia ter-se dado a outro. Tinha-a cortejado o Vasco, mas andava com um pé no Porto a estudar engenharia, por certo dava-se às noitadas e a outras raparigas, não era de confiar. Chegara a namorar o Carlos, mas achava-o muito instável e ambicioso, acossado por ideias de mudança, esquecer-se-ia dela quando realizasse os seus sonhos, melhor cortar o mal pela raiz. Teria até dado uma oportunidade ao Álvaro, bem quisera ele, mas o Álvaro escrevia no jornal todas as semanas sobre as vergonhas políticas lá da terra, com modos críticos e atrevidos, tinha inimizades, estava sujeito. Uma mulher não quer nada disto. 
Dizia-lhe o pai: de tanto escolheres hás de ficar sozinha. Sozinha é que não. Então, um dia, a mãe: já reparaste no Jorge Manuel, que é tão bom rapazinho? Tinha maneiras, era discreto, paciente e responsável, tão amigo de Magda, nunca se ouvira dizer dele o que quer que fosse. Só a madrinha tinha contrariado a maioria. E para que serve um bom rapazinho?, perguntara. A vida é paixão e combate, um bom rapazinho não se aguenta, falta-lhe fôlego, coragem e até defeitos. Depois, puxara a afilhada para um canto:
- E diz-te quem sabe, minha querida Luísa: um bom rapazinho nunca será um bom amante. Cuidado.
Com efeito, o primeiro beijo pareceu-lhe a lambidela de um cachorrinho. Acabou por rir disso muitos anos depois, quando exausta de chorar.

15.4.16

Intervalo inevitável

Perguntaram-me se acaso pretendia eu insinuar, no texto de ontem, que os gordos deveriam morrer. Que hei de responder?

Dizia há dias o Xilre, um dos raríssimos blogues aonde não vou por rotina mas por devoção, que as mulheres quando contam histórias mostram, ao invés dos homens, que insistem em dizer. Presunçosamente, incluí-me naquele elogio, até porque com a idade vou perdendo o hábito de afirmar e ganhando o gosto de contar. Pois se já nem eu sei que diga do tanto que vejo!!! Talvez por isso tenha guardado os textos antigos deste blogue, muitos deles pareciam-me excessivos em certezas e as certezas embaçam os horizontes, põem-nos o pé no travão. 
Do que se conta, conclui cada um o que mais lhe importa, magoa ou alivia. Já lá vai o tempo em que eu cuidava que o desentendimento era ou culpa de quem mal fala ou culpa de quem mal ouve. Hoje sei que a culpa é do intervalo inevitável que há entre a gente, do espaço vago e fértil onde tudo cabe, tudo se supõe, tudo se espera e de tudo se duvida. E esse tudo é mentira, perspetiva, ilusão.

Mães

Foi há largos anos, na Terra Quente Transmontana, andava o Outono a matizar a natureza com os tons do cansaço. A casa onde havíamos de pernoitar pertencia a uma família pequena, que nos acolheu cobrando o preço justo pelas comodidades e oferecendo bónus em simpatia. Eu ia carregada de esperança, levava no ventre pouco mais que um feijão, e, conversa puxando conversa, a dona da casa acabou por intuir a minha gravidez ainda sem evidências. Então, uma afeição nasceu, espontânea, e estendeu-se a todos os que estavam comigo. E onde era suposto apenas dormirmos, porque para mais não havia condições nem tabela de preços, acabámos por comer. À mesa se acrescentaram quatro cadeiras e se reuniram, assim, duas famílias. Durante os dias seguintes, entre boa comida e conversa melhor ainda, a dona da casa presenteou-me com fruta da época, compotas acabadas de fazer, mimos e palavras que só as mães dão. Agora precisa de comer por dois, dizia. Uma ignorância que vem de longe e se perdoa pela generosidade que vale. Estendia-me taças de romãs que preparava só para mim e parecia ter ela mais consolo nisso do que eu a lambuzar-me.
Assim me foi enchendo o estômago e o coração, emocionada com a minha gravidez, o meu ventre invisível, o meu filho incompleto. Só compreendi o apego e o excesso de cuidados quando ela, numa manhã, nos confessou que lhe morrera uma filha, já fazia alguns anos. Um brutal acidente no IP4, durante a viagem de regresso da faculdade para o fim de semana em família. Os dias nunca mais foram iguais. Tinha mais um filho, mas desde quando uma vida compensa outra que se foi? Fosse a sua menina viva e teria a minha idade, era assim o seu género e tudo. E depois, não tardaria muito, eu seria mãe e que mãe não se enternece com o nascimento de outra mãe? Durante algum tempo falou sobre a sua dor, divagando em torno de adjetivos imprecisos, insistindo que o dicionário não contempla certos estados de alma, ainda que vasculhado sílaba a sílaba. 
No último dia, enquanto preparei o saco e carreguei o carro, ela andou às voltas na cozinha e, à despedida, deu-me, ainda fervente, mais um frasco de compota de pera. Comi-o na viagem, com os dedos, até não haver sobra. Ao fim de algumas horas, estava de novo no Porto, onde a minha mãe cumpria com serenidade o quotidiano, alheia à iminência da própria morte, que marinava já no seu ventre de seis frutos.

14.4.16

O gordo e o magro

O mais velho contou-me: para não se ofender o gordo, havia eu, o magro, de morrer. Não se estranhe já a conjugação verbal, que mais adiante ficará esclarecida. Imenso, vermelho, transpirado, sem forças para se carregar, o tal gordo vive desde sempre com as dificuldades que se sabe e a que ninguém é indiferente, uns por genuína solidariedade, outros por mero dever social. Se é falha congénita de metabolismo, ignoro, mas, ainda que seja, parece que na família ninguém se importa, pois é comum ver-lhes os lábios e as mãos reluzindo da gordura e do sal com que o empanturram. Perdeu autoridade sobre o próprio corpo. Depois da educação física está mais morto que vivo e, para se recompor, mete a mão à mochila e de lá desenterra o que aos outros, mesmo aos gulosos, causa espanto: cola zero, folhadinhos de salsicha, sandes de chocolate empacotadas. 
No dia em que o país inteiro se meteu a ensaiar os comportamentos a ter durante um sismo, partilhava o mais velho a mesa da sala de aula com o gordo. Dada a ordem, a turma tratou de se pôr a salvo e, entre empurrões, risadinhas e sabe-se lá que segredos e atrevimentos, cada um acomodou-se como pôde por baixo da sua mesa. Com muita dificuldade o gordo se deixou escorregar pela cadeira e, depois de um combate que o deixou afogueado, arfando e sem fala, acabou por se arranjar, monopolizando todo o espaço disponível por baixo da mesa e deixando o mais velho de fora, sozinho no meio da sala, como cachorro esquecido na aflição de uma fuga. 
Por esta altura, fazendo-se realidade do que à imaginação se obrigou, estaria já a terra toda a tremer para ajustar as entranhas, e as lâmpadas, o projetor, as calhas dos estores estariam caindo com a facilidade da chuva, estilhaçando-se, quebrando sem ver o quê. Por esta altura também, achando-se vulnerável à catástrofe simulada, o mais velho fez notar à professora o facto de não lhe ter sobrado espaço para se abrigar e ela, coitada, tolhida por medos, pruridos, vícios de peninha e solidariedades de duvidosos princípios: shiuu! respeite o seu colega!
Não se pode verdadeiramente ensaiar uma tragédia. O simulacro não contempla o desespero e o pânico. Na hora da verdade, falaria mais alto o instinto do que as boas maneiras e trocar-se-iam os paninhos quentes pelas armas que melhor garantem a sobrevivência. Mas em imaginação, o mais velho, magro de se lhe notarem as irregularidades ósseas, porém forte, ágil, resistente e sadio, morreu. Seria muito feio se de outro modo acontecesse. 

8.4.16

Frases feitas

O meu patrão é um homem de frases feitas e o pior das frases feitas nem é o facto de não acrescentarem nada, mas a impossibilidade de as contradizer. Hoje, por exemplo, começou o dia lembrando que ninguém dá nada a ninguém, tudo se paga e assim calou o interlocutor e encerrou a conversa. Saiu vitorioso, inchado de razão. No dia em que abandonei uma reunião a meio e lhe apontei o dedo, acusando-o de estar a cometer uma terrível injustiça, respondeu-me com outra frase feita: a vida é injusta. Eu estava de pé, ele sentado, eu estava firme, ele de cabeça baixa, eu conhecia os factos, ele estava na ignorância, eu tinha a razão, ele tinha falhado. E, ainda assim, a frase feita deitou-me por terra, desarmou-me, venceu-me. Vi-me ao comprido, rendida, com a lâmina do óbvio encostada ao pescoço, engolindo em seco.
Nas horas quentes, no cume de uma discussão, uma frase feita é aquela pobreza terrível que nos deixa mudos, a afirmação do circuito inquebrável, o raio de luz súbito que nos cega. Para contrariar quem as diz, só obrigando a reviver, a nascer de novo, a olhar a vida de outro modo.
Também eu, ontem, diante do trágico, sem chão ou palavra original que valesse e desse amparo, dei comigo a dizer uma frase feita: a esperança é a última a morrer. E para me contrariarem, para me mostrarem que a verdade é outra, era preciso obrigar-me a reviver, fazer-me nascer de novo, ensinar-me a olhar a vida de modo diferente.

6.4.16

Ginásio

No grupo de mulheres que a meio da manhã desce para fumar um cigarro, há uma que tem a liderança: é a mais queixosa, a mais egocêntrica, a que mais ironiza com a própria vida, fazendo das desgraças graças. As outras não falam se ela não falar, acomodam-se num silêncio que é de subserviência, esperam mote, autorização. Superior, ela encosta-se ao muro, fecha os olhos para receber o sol, aparenta indiferença mas a verdade é que está a cismar lá por dentro, em busca do que dizer para que as outras fechem o círculo ao seu redor. De repente, ai, era quem me desse agora uma caminha. Como se tivesse dito grande coisa, as outras desatam a rir e vão-se aproximando.
- Tens sono?
- Se tivesses um puto comó meu, que dorme de dia e quer baile de noite!
Riem outra vez, seguem-na com os olhos aguardando que desenvolva e lhes dê mais trela. Às vezes ela não dá, limita-se a mudar de lugar sabendo que, como massa homogénea e amorfa, as outras a acompanham. Sentar-se-ão onde ela se sentar. Levantar-se-ão se ela se levantar. Apagarão o cigarro assim que ela apague o dela. Outras vezes, mais espirituosa e inspirada, ela desfia o rol das suas desventuras maternais, sempre as mesmas, coisas menores, roupa bolçada, sopas rejeitadas, birras na hora de ir dormir, jornais rasgados. Soubesse ela que a maternidade era isto e tinha fugido a tempo para as Caraíbas, deixava o catraio com os avós antes de o amar ao ponto de não suportar mais de duas horas sem lhe ouvir a voz. Nascera para a preguiça e o prazer. Mas, quê?! A sorte não queria nada com ela. Se ao menos fosse rica! As outras continuam a rir, acham-lhe uma graça desproporcionada, anseiam pela próxima palavra, pelo queixume seguinte. 
- E o pai?
- Mas que esperas tu de um pai? Quer dizer, que esperas tu de um homem? 
Gargalhadas. Tomara eu ter um riso tão fácil como estas mulheres, por dá cá aquela palha entusiasmam-se, dobram-se, agarram-se ao estômago, contorcem-se, até se engasgam com o fumo.
- E agora que passa a vida no ginásio... só pensa naquilo... tem lá uns objetivos...
- Parece que os homens andam todos com essa mania...
- Olha, e eu nem percebo para quê... Não há lá máquinas que desenvolvam o cérebro!
Foi a tirada do dia, talvez a da semana. Unem-se as mulheres contra a raça masculina com toda a pujança, já lhes falta o ar de tanto rir. Como de outras vezes, o segurança espreita, desaquietado pelo bulício. Ao fim do dia, estas mulheres estarão tão exaustas de rir que se hão de deitar mansas, frágeis, vulneráveis, repousando a cabeça no peito desses homens que desprezam, gozam e insultam, falando docemente, amando sem reservas, morrendo de medo da solidão.

5.4.16

O filho de Magda (3)

Diz que o filho de Magda foi sempre muito enojado. Franzia-se todo por qualquer mau cheiro, arrepiava-se com as caganitas dos pombos na soleira e, até casar, quem lhe despiu as meias foi a mãe, porque a ele repugnava o próprio suor. Quando a mulher pariu as gémeas, coisas lá da sua imaginação devem ter-lhe perturbado os sentidos porque foi-se afastando, fugindo ao toque dela, amolecendo o braço com que lhe amparava cintura, espaçando as desajeitadas provas de afeto. Na hora de dar a mama, ele de cara virada, escondido atrás de um jornal. A mudança das fraldas, que vómito! E a nudez das pequenitas, que derretia a mulher e pedia mil beijos nos refegos, nas plantas dos pezinhos e nos gomos do peito, era um constrangimento quase dor. Estava no seu direito. Então não é dos livros que os homens são mal talhados para certas demonstrações de carinho? O seu amor era focado, responsável, atento aos prazos de pagamento, às paredes da casa, à estabilidade da família. Não esperassem que visse poesia em animalidades. E se as respeitava, era mais pelo medo de se intrometer no que desconhecia e lhe parecia avassalador, do que por amorosa consideração. Digo eu que, de ouvir e me espantar com os factos, fui-me entretendo no esboço dos sentimentos.
Com tanto nojo aos delírios de pele e aos odores do corpo, pergunte-se de que artes se terá socorrido para fazer os filhos. Talvez as mesmas que o mantiveram hirto e frio quando o patrão, desbocado pelo tinto num jantar da empresa, à queima-roupa e sem propósito: Jorge Manuel, você até nem é mau homem mas falta-lhe brilho, está-me a compreender? Dessa vez, lembrou os conselhos da mãe e sorriu, medroso e servil, para os colegas que testemunharam a humilhação. Dando assim a outra face, pelo menos não haviam de ter o que dizer dele.

4.4.16

O filho de Magda (2)

Foi a estagiária quem me disse que o filho de Magda nunca autorizou a mulher a pintar-se. É muito velho? perguntei. Cinquentas...
Uma vez, tendo ela roído um sabugo, correu sangue e, mesmo depois de lavar, ao redor da unha secou um fiozinho vermelho-escuro. Julgando serem restos de verniz clandestinamente usado, ele perguntou de onde vinha o disparate e, sem querer resposta, assentou-lhe a mão na cara duas vezes seguidas. Foi o primeiro ato de desprezo pelos conselhos maternos. Nessa mesma noite, conceberam o terceiro filho. Sabem que assim foi porque havia muito tempo que não se tocavam nem voltaram a tocar-se depois. E quem contou à estagiária foi uma das filhas mais velhas, pronta a arranjar desculpa para aquela miséria. Pelo menos o meu pai não é um malandro, estudou e é trabalhador. Ninguém tem o que dizer dele.

1.4.16

O filho de Magda

Do filho de Magda nunca ninguém disse que havia de ir longe. Nem ela o quereria. Para ir longe é preciso, às vezes, caminhar sozinho ao longo das raias do perigo e da loucura, esgotar forças na contracorrente e, pior, desapegar-se do chão e da casa. Fora longe o filho de Alice e ela nunca mais o vira. Fora longe o filho de Marília e morreu do coração antes dos quarenta. Fora longe o filho de Teresa e, com a fama, tinham vindo mulheres a mais, debilidades nervosas, incertezas financeiras. 
Para que ele aprendesse a proteger-se, tal como umas ensinam orações, Magda ensinou o filho a nunca destratar as mulheres, contrariar os patrões ou dar aos outros o que não tivesse garantia de retorno. Que desse pão esperando ter pão de volta, sim. Mas se desse o seu tempo e o seu afeto, não contasse ser retribuído. Não pode cobrar-se a dívida do que não se palpa. Como medir os montantes, fazer as contas, calcular juros?
O rapaz cresceu transparente e moderado, ninguém dava por ele. Nunca teve um assomo, foi imune à paixão, resistiu aos devaneios da juventude. Foi um bom aluno, com solidez na caligrafia, pontualidade e uma atenção que só os muito devotados prestam. Porém, falho de talentos, incapaz de um rasgo, de uma surpresa, de uma tirada que fizesse cair o queixo, fosse por inteligência, criatividade ou humor. Voluntário na distribuição de roupas e comida aos pobres, virava costas e passava de fininho se ouvisse chorar um colega. De resto, nem sequer aprendera a consolar, era desajeitado nos abraços que só praticava em festas e funerais. Beijos, os da mãe, com conta, peso e medida, que o amor é muito bonito mas não resolve a vida de ninguém, andor mas é estudar para ser gente e ganhar o seu. 
Ele obedeceu mas Magda, desaquietada por vocação, temerosa dos acasos e das ratoeiras do destino, nem assim. Na busca de mais certezas, levou-o à bruxa, ela pôs-lhe as cartas, debitou trivialidades mais prováveis do que a chuva e, no fim, há de casar e ter três filhos. Magda pagou o que foi pedido por aquele derradeiro consolo e com os anos soube que não tinha sido intrujada. Ele casou e teve os filhos prometidos, dois de uma assentada e um fora de tempo, quase neto. Morreu ela primeiro, conforme quis. Não havia de vê-lo sofrer e partir como sucedera às amigas. Finou-se no alívio de o saber seguro entre quatro paredes, com a cama quente, as contas pagas, os filhos limpos e um patrão tão bondoso, que lhe dava os vinte e dois dias de férias e o deixava despegar às seis e meia. Ninguém tinha o que dizer dele. Infelizmente, nunca ninguém disse dele o que quer que fosse.

17.3.16

Notas

Na vida, é tão grande o meu esforço em avançar como o de qualquer outro ser humano. Certa de estar longe do meu próprio ideal e de ser tão vasto e imprevisível o caminho que tenho pela frente como o que já percorri, não baixo os braços no trabalho, colho todos os ensinamentos dos meus filhos, leio o mais que posso para enriquecer, persisto em mudanças, por mais pequenas, e jamais tomarei como definitivo o que hoje sou, tenho, posso ou me falta. Tão diferente do que há dez anos era, pergunto-me como serei quando outro tanto passar. O destino tem uma palavra a dizer, mas a resposta quem a dará se não eu própria?
Porém, aqui não venho para desfilar as vitórias e os fracassos que, neste avançar, me sucedem. Importam pouco as minhas maiores experiências, tentativas, planos, perdas ou desilusões. Venho aqui para um merecido repouso. Venho para contar do que vi nos intervalos da corrida, miudezas, trivialidades, fragmentos, curvas ligeiras, incidências de luz, coisas que acidentalmente me ocorrem, verdades passageiras, nada que explique o mundo, muito menos que o salve. Este não é o meu palco, a minha prova de forças, talento, resistência ou caráter. Este é só o caderno de notas de uma vulgar espetadora. Preservo-o com a esperança de que o que vejo me torne melhor no papel que me cabe.

16.3.16

De mal com a vida

Foi embora o senhor Casimiro, o porteiro de mil olhos, mil braços e voz doce, o único que conheci disposto a pôr-se de cócoras para falar com as crianças de igual para igual, ciente de que não é pelo tamanho que se ganha respeito e autoridade. Não lhe terão renovado o contrato, sina infeliz que é de muitos os que andam ao serviço do estado, desmerecedores de poiso certo, de confiança, mendigando a própria dignidade. Por dois meses não houve porteiro. No controlo das entradas e saídas revezaram-se as funcionárias de outros pelouros, as da cantina, as da limpeza e as do apoio às atividades curriculares. 
Depois, veio o senhor Tomé. 
À primeira vista, achei-o seco nos modos e entrevi na dureza das suas feições uma história de carências, desamores e amarguras. Falsamente hirto e seguro, desapossado de emoção, às crianças nem bom dia nem boa tarde, nenhum esgar, nenhum gesto. Impressionou-me ainda a maledicência que lhe fui ouvindo sobre pais e mães, falando a uns nas costas de outros, zombando dos bons automóveis, dos saltos altos das senhoras, dos modos ariscos da miudagem, e com isso distraindo-se de quem entrava e de quem saía. Lembrei-me de como o senhor Casimiro poupava na conversa fiada para poder ser um mãos-largas no cuidado e na atenção às crianças. O mais novo deve ter intuído os meus pensamentos, que não partilhei porque evito orientar os meus filhos pelos desânimos que sofro. Chegando à escola, mais compassivo do que incomodado, à boleia de um beijo sussurrou-me: este homem está de mal com a vida
Julgo que aprendeu a expressão com o mais velho, que há três ou quatro anos chega a casa queixando-se que os professores andam de mal com a vida. Tento pôr água na fervura, que é preciso compreender, dadas as condições em que trabalham, o stress, as metas, o insuportável bulício da canalha. Mas logo ele me fala da cozinheira da cantina, mulher pequenina e enérgica, sorria tanto que até dava luz, quanta paciência e alegria numa pessoa só, ali enfiada numa cozinha, atrás de um balcão, o cheiro a comida entranhado na roupa e nos cabelos, os ouvidos saturados das esquisitices, das indecisões e da gritaria infernal que se propaga até onde a fila termina, tudo isso por quanto ao fim do mês? Que eu havia de a ter conhecido, diz-me ele. Só pode ser gente feliz. Era ela quem, às escondidas, lhe triplicava a dose de sopa e lhe trocava as batatas por mais pepino e honestamente lamentava quando ele se queixava que aquilo não era peixe, era glomérulo de espinhas. Chamava-lhe meu querido, e como isso pode fazer o dia num lugar que é selva, distância, desumanização!
Infelizmente, também a cozinheira foi embora este ano. 
E este vaivém faz com que uns se obriguem a desfazer os laços, deixando saudade, e a outros não se dê tempo para os criar, para amaciar durezas, para embainhar a espada. Pergunto-me se haverá algum estudo manhoso de uma universidade qualquer do cu de Judas que tenha concluído o prejuízo causado pelas relações humanas à competitividade ou de como o crescimento de um país se faz à custa da solidão e do narcisismo, pois quanto mais desatentos ao outro, mais eficazes na corrida, mais força para a engrenagem. 

11.3.16

Queda

Só hoje, passando os olhos pelas notícias, vi que o cantor Anselmo Ralph tropeçou e caiu para não dar as costas ao presidente da República. Que bem ficou representado neste incidente o espírito português, que, de tanto confundir respeito com subserviência, se espalha ao comprido na própria subida.
Se ao menos o presidente tivesse acorrido a deitar-lhe a mão...

9.3.16

Juventude

Não sou uma dessas mulheres que acha conforto na ideia de que a juventude de espírito é que conta. Tenho medo de envelhecer. Se quiser posso mentir na idade, a genética favoreceu-me, muitos duvidam que seja mãe dos meus filhos. Mas qual o ganho? O meu corpo há de ir morrendo como qualquer outro. Os ossos amolecerão, o ventre secará, esquecerei miudezas, terei medo de estar só. Posso insistir em usar cabelos longos, calças de ganga, saias rodadas, mas à noite há de faltar-me a coragem de despir tudo em frente ao espelho e embater na minha própria nudez.
De resto, também não havia de ser a juventude de espírito a valer-me. Sou pouco foliona, pouco crente e pouco surpreendida. Quando começar a envelhecer por fora, já estarei velha por dentro há muito tempo. 

8.3.16

Os perigos

Que triste deve parecer a realidade aos olhos de certas crianças! A conselho dos próprios pais e antes mesmo de darem os primeiros passos, acatam a ideia de que o mundo é armadilhado, cheio de más intenções, não obstante a mão sábia e bondosa que se diz assinar a sua criação. O cão ferra, o frio constipa, o sol faz mal à cabeça, a terra é porca, o médico dá picas, o polícia prende, o professor castiga, o estranho rouba. Os doces fazem formigas na barriga. A queda é fatal para os que ousam. Depois da curva pode haver um precipício. 
Que lhes resta? O colo e a obediência, a restrição a um perímetro modesto, aventuras de plástico, personagens de ficção, corridas de polegar. Infelizmente, é à sombra da ignorância que os perigos fermentam, mas de um modo tão silencioso e ordeiro que nem se dá por eles.

5.3.16

Uma valente poda

Nunca se subestime o que se passa dentro de um salão de cabeleireiro. Pode sempre revelar-se mais do que aquilo que as frivolidades aparentam.
Esta manhã, ao entrar, a cabeleireira recebeu-me com calorosas festas, mas logo avançou para o ralhete. Não tinha jeito nenhum estar sem aparecer desde setembro, os cabelos não podem andar tanto tempo sem cuidados, muito menos quando se usam assim compridos e soltos. O costume, expliquei, só corto o cabelo na proximidade dos equinócios. Se isso era crendice, perguntou. Nada, são só alturas em que me acho mais disposta às mudanças. Não tinha mal algum, garantiu-me ela, o que eu devia era passar lá mais vezes para cortar as pontinhas, digamos, fazer a poda. Os cabelos são como as plantas, se não forem podados de tempos a tempos estragam-se, debilitam-se, as raízes adoecem, e depois só com tratamentos especiais. 
Eu não queria ofender a cabeleireira, por isso não lhe disse que me limito a duas visitas anuais porque me custa estar ali, perturba-me aquele excesso de vida, o turbilhão de emoções fortes que à volta de tudo rodopia. Hoje, por exemplo, fiquei a saber que a enteada da Zézinha está a divorciar-se e que esse facto tem sido causa de muitos desatinos entre ambas. A Zézinha diz que está farta, a vida toda a enteada lhe causou problemas, aturou-os com a firmeza de uma rocha e o sangue-frio que nenhuma mãe teria, o divórcio foi a gota de água. O que lá vai lá vai, mas é difícil esquecer a noite em que ela foi parar à esquadra por causa de um saquinho de erva, mais a vez em que se descobriu que tinha desistido do curso de direito e marinava em segredo a transferência para as belas-artes, já para não falar de quando se envolveu com um rapaz casado e foi a mulher dele lá a casa ajustar contas. Uma vergonha, tudo uma vergonha!
- Não é que eu dê valor a isso, mas o sobrenome dele ficava-lhe tão bem...
- Então, Zézinha? O que importa é que ela seja feliz!
Surpreendente, esta tirada da cabeleireira. Assim pareceu, pelo entusiasmo que colheu em todo o salão. Só a Zézinha se dobrou, deixou cair os olhos nas franjas da écharpe e penteou-as melancolicamente com os dedos:
- Ela não quer ser feliz. Tem outros interesses...
Soube também que o filho da manicura já se livrou das fraldas, pelo menos durante o dia. Quem está feliz é o pai, diz que agora há mais um homem lá em casa. O seu marido diz isso?, pergunta a Zézinha. Empertigou-se a manicura, que não era marido, era companheiro, a ela ninguém havia de a acorrentar pela via de papéis e registos, isso era antigamente. A gente amamo-nos e isso é que conta. Conta, mas o casamento sempre aperta mais o laço, avisa a cabeleireira.
- Ora, é isso que eu não quero! Assim se um dia descobrir que ele me engana, é menos trabalho para lhe virar as costas e sair porta fora.
- Mas então estás a contar que ele te engane...
- E havia de contar com o quê, Gracinha? Se eu não conhecesse os homens...
Quando entrou a Joaninha, rapariga à volta dos trinta, o sururu abrandou como se a presença dela impusesse moderação.
- Então, Joaninha?
- Então, Gracinha? O seu rapaz já se decidiu?
- Era bom, era... Na semana passada queria ser arquiteto, hoje já acordou a cismar em ser mecânico de automóveis. Não sei quanto tempo mais vai andar nesta indecisão, não faz nada, põe-se a pé ao meio-dia, vê filmes, vai tomar café, volta, vê mais filmes, à noite é copos com os amigos, miúdas... O que isto tem de bom é que quando eu chego a casa ele já fez o jantar, é só sentar-me e comer. Mas dá-me cá uma angústia vê-lo tão inútil, ao Deus dará.
- Vai ver que um dia de repente acorda... sei lá, isso às vezes é das pessoas muito inteligentes. Não se contentam, pronto!
- Olha, e a tua mãe como vai?
- Acamada. Já nem me conhece.
- Mas fala?
- Só disparates, até palavrões...
Embarga-se a voz da Joaninha, a cabeleireira faz-lhe um mimo:
- Tens de ser forte, filha. Que vens fazer hoje?
- Só lavar e secar, tenho um jantar de aniversário. O meu irmão diz que fica com a minha mãe.
A Joaninha deita a mão à trança negra que lhe cai até ao estômago, puxa o elástico e, com uma dedilhação muito rápida e ágil, liberta uma cabeleira de impressionar. A outra interrompe-me o corte, recua, espanta-se, faz-me girar a cadeira de modo a pôr-me de frente para a Joaninha:
- Está a ver, menina? Esta Joaninha... Está ou não está a precisar de uma valente poda?
Olho a Joaninha de alto a baixo, não a tinha visto com olhos de ver. Muito sóbria e escura no vestir, o peito encolhido, o olhar embaçado, toda ela um acanhamento de juventude mal vivida. Os cabelos assim tão compridos, envolvendo-a como o manto de uma viúva, negro, espesso, pesado, tanto podiam ser desleixe como promessa ou gosto que quisesse dar a alguém, até a si mesma, se bem que não parecesse rapariga de amores-próprios.
- Credo, Gracinha! Uma valente poda, não. Estou habituada assim. Acho que nem ia conseguir olhar-me ao espelho.
- Oh Joaninha, depois de uma poda como deve ser, uma mulher fica como nova! Mais brilho, mais frescura, mais leveza...
- Deixe estar assim. Só mesmo um jeitinho com o secador.
Nos outros não sei, mas neste salão de cabeleireiro todas as mulheres se tratam com diminutivos. Exceção abre-se para a dona Maria Isabel, mais pelo respeito que mete o seu enorme poder intelectual do que pelo avanço da idade. Mas hoje a dona Maria Isabel não estava, para fechar a conversa com chave de ouro como é seu uso e explicar que uma valente poda é quando apetece a cada um e não quando os outros presumem necessária. 
A mim chamam-me só menina. Creio que nunca disse o meu nome. Quando vou com os meus filhos, olha a menina e os meninos! E está muito bem assim.

4.3.16

Carta de amor

Devem inibir-se de afirmar que já não se escrevem cartas de amor aqueles que, na verdade, há muito não recebem uma carta de amor. Generalizar conforta, mas falseia. Escrevem-se muitas e eu tenho uma nas mãos. Infelizmente, não me estava destinada mas era para gente da minha casa e autorizaram-me a lê-la quantas vezes eu quisesse. É sabido que uma carta de amor pode ler-se repetidamente sem fastio. A cada leitura acha-se uma entrelinha, desenterra-se uma memória, recupera-se a esperança num mundo que se mova apenas por impulsos benignos. 
A que tenho nas mãos é uma dessas que se dizem extintas, em papel, devidamente endereçada, datada e assinada. A caligrafia beneficiou de amorosos cuidados, os parágrafos são quebrados com rigor, a pontuação tem a cadência do respirar, as palavras estão acentuadas na importância que têm. O sentimento que nela vem revelado e descrito - desde as miudezas psicossomáticas até à visão da eternidade -, toda a gente conhece e não há, entre novos e velhos, quem o sinta de outro modo. Enganado está aquele que se julga capaz de viver um novo amor de forma nova. Porque nesta carta, escrita pelo punho de uma adolescente, eu leio exatamente as mesmas palavras que tenho ouvido a tantos da minha idade e a outros, mais maduros, que garantiam estar na posse de tal experiência que não mais se deixariam apanhar na trama, no delírio, na luz que por vezes mais encandeia do que ilumina, nas ganas de envelhecer e morrer de mão dada sem imaginar o que isso seja. 
Não foi um impulso nem se escreveu de uma assentada, é o que me parece. Vem com sangue-frio, mais obediente à razão do que precipitada por febres, o que, enfim, não a livra de equívocos. Dividida em partes, entra com brandura para não assustar, depois avança a explicar-se e vai crescendo, esmiuçando, interpretando o milagre que atordoa e angustia. É verdade que usa alguns floreados, mas quem resiste a eles na hora de falar de amor? Seco no verbo ele ficaria desengraçado, objetivo na ideia tornar-se-ia vulgar, terreno na intenção levantaria a triste suspeita de ser passageiro. No fim das contas, o floreado é a única vestimenta original com que se pode apresentar uma emoção. Escolha cuidadosamente as palavras quem quiser convencer que há raridade no mais comum dos sentimentos. 
Já me custa lembrar a última carta de amor que recebi em papel. Nos anos recentes, têm-me chegado por e-mail. E algumas, concisas e urgentes, mais ao jeito de bilhete, até vieram por sms. Mas duvido que essas - tão fáceis de corrigir, ajeitar e enviar - sejam verdadeiras cartas de amor. Não há palavra que, por si só, faça prova de um sentimento. É essencial o plano, a trabalheira, o cuidado para manter a folha limpa, a firmeza de não deixar descair as linhas. E também lhe acrescentam valor todos os fracassos e as hesitações, os rascunhos que acabaram no cesto dos papéis, os ensaios mentais que distraíram o amante do quotidiano, a tinta que a transpiração nublou, o caráter deformado por um súbito tremor. Garantido tudo isto, que importa depois que o final da carta seja o que sempre é? Um jorro de falsidades sem propósito de o serem, a ingenuidade a falar alto, a ilusão da vida eterna, doces promessas, levianas promessas, fundamentais promessas. 
Com as arrumações feitas, a casa limpa de pó e as velharias definitivamente guardadas em armários, retomo. Para mais do que esta simples organização não tenho veia nem pachorra, enfeites e bibelôs nunca foram o meu forte.
Em falta está a pintura da fachada, que é coisa que levará o seu tempo, mas instalo-me assim mesmo e volto às rotinas deixando os brancos da parede à vista enquanto espero. Não sendo atraente aos olhos de quem passe, também não é mal que venha ao mundo para o virar do avesso. 

2.3.16

Ainda não voltei, mas...

Parece-me óbvio o motivo pelo qual continuamos a festejar o 25 de abril como se ainda vivêssemos no dia seguinte. Porque, com efeito, não avançámos, não atravessámos a linha que nos separa definitivamente da vergonha do que já fizemos. A liberdade de expressão, por exemplo, está por realizar. Somos donos de uma moral castradora e acusatória, que nos impele a condenar publicamente, com insulto e ameaça, quem exprime pensamento que não caia no goto. Somos como o papá que dá um tabefe ao filho enquanto lhe diz não se bate nos outros! O direito a dizer o que se pensa tem sido comemorado com muita festarola, comes e bebes, ao jeito que gostamos, mas está longe de ser praticado com civismo. 
Incapazes de distinguir o trigo do joio, só olhamos de raspão e ouvimos por alto. É que o tempo não para e é implacável nas exigências. E então a gente, não podendo dar-se ao luxo de ficar para trás a ponderar, sob pena de nos julgarem sem opinião, recorre às estantes e às gavetas, onde se guarda o que já está devidamente nomeado e catalogado. Direita é direita. Esquerda é esquerda. Infiéis são infiéis. Mulheres são mulheres. Depressivos são depressivos. Cancerosos são cancerosos. Patrões são patrões. Sem-abrigo são sem-abrigo. Uns na ala das vítimas, outros na ala dos carrascos, dependendo de quem olha. Matem-se uns. Dê-se sopas e colinho a outros. Não há tonalidades de cinza. 
O país está a reduzir-se a uma praceta e a um pelourinho.