31.3.20

Aqueles que esfregam as mãos ao supor as contrariedades que o isolamento traz aos outros e as lições que hão de eles aprender agora, são a evidência de que embora as grandes convulsões reorganizem as sociedades, reformulem leis e sistemas de governação, desloquem fronteiras, inspirem correntes, estruturas e abordagens na arte e no pensamento, nada, através dos tempos – nem praga, nem guerra, nem tsunami –  é suficiente para lavar as nódoas que empestam o ego humano.

29.3.20

Separado da mãe, que labora no grande exército contra o perigo invisível, Joaquim resguarda-se no ninho da família paterna sem saber quando voltará a cheirar o corpo que o pariu e alimentou em esforços de sangue e suor. A imperatriz tem a força, o instinto e a inteligência ao serviço de uma única causa, mas não é a sua nem a do tão amado filho. Disto fico a saber no tempo breve de um aceno, quando o senhor Pereira caminha para norte no passeio a poente e eu para sul no passeio a levante, sem que o ronco brusco de nenhum automóvel interfira na conversa. Veja a menina como nem tudo é mau. A desgraça que varre o mundo traz-lhe a felicidade de partilhar a clausura com o neto porque o filho, mais uma vez, foi de armas e bagagens lá para casa, aterrorizado de se ver sozinho com a cria nos braços em tempos tão incertos. É claro que lamenta pela imperatriz, que sempre que pode fala com Joaquim por chamada de vídeo e chora como jamais um Pereira imaginou que ela chorasse. Está só e extenuada. Nem sequer pode visitar a mãe lá nas dobras áridas da serra, aquilo é que é isolamento a valer, que vírus é que tem interesse em lá chegar, caramba? O senhor Pereira ri da própria estupidez mas apressa-se a remediá-la quando nota que não alinho. Coitada daquela rapariga, diz, e é pior a emenda que o soneto. Ah, incapaz de resistir a fazer uso da arrogância nesta hora, troca as voltas à história e diminui a mãe do neto pela via da piedade. É a primeira vitória do senhor Pereira sobre a imperatriz, uma vitória suja, mas ele levanta o troféu várias vezes coitada, coitada, coitada, queira deus que não lhe aconteça nada.
Os Pereira desconheciam a força de abalos imprevistos porque a vida inteira trabalharam pela linearidade e constância e foram sendo de tal forma bafejados pela sorte e protegidos pela condescendência divina que até os pequenos desaires e vergonhas lhes aconteceram na medida certa para esconder no fundo do armário e debaixo dos tapetes. Agora, parece-lhes impossível que a ciência, chegada aos cúmulos a que chegou, não tenha já na manga a solução. De modo que de hoje para amanhã, vai-se a ver e foi só o susto. Nem este desastre eles consideram como tal, não há nada que esfrangalhe a sua superioridade. Os outros é que, coitados.

28.3.20


Chuva miúda, Luís Landero

27.3.20

Este nojo físico que aprendemos a ter uns pelos outros, que cultivámos até se tornar num automatismo, que tiraniza agora todos os nossos gestos, movimentos e ideias, assusta-me. Algum dia tornaremos a obedecer, de ânimo leve, ao instinto? Voltará a soar-nos razoável a ideia de que a epiderme é o mais profundo e honesto de todos os lugares onde o sentimento se manifesta? Estenderemos de novo a mão, sem filtro ou reserva, para amparar um estranho que vacile ao nosso lado? Passada a tormenta, seremos capazes de resgatar aos escombros a forma original de reconhecer, desejar e confrontar os outros?

25.3.20

Eu já não tinha uma orquídea desde a morte de Julieta, caída da janela por amor a um gato vadio, de cor preta, que em patinhas de lã nos rondava a casa despertando sonhos impossíveis naquela corola tão aberta e inocente. Deu-se a tragédia, se bem recordo, numa manhã de sábado e eu tomei para mim as culpas que não tinha, acusei-me de negligência grave e condenei-me a nunca mais ter à minha responsabilidade flor alguma, muito menos espécies sensíveis que se apaixonam por gatos sem nome nem residência fixa e por eles se debruçam fatalmente nas janelas. Passei a rodear-me apenas de plantas dispostas a aceitar a vida como ela é, sem sentimentalismos ou caprichos desajustados à sua condição e que me dão mais benefícios do que aqueles que me exigem. Enfim, confesso que até vejo na resignação uma virtude meritória se me facilitar os dias. De modo que tenho a casa cheia de lírios da paz, espadas de são jorge, arecas, dracenas, clorofitos, heras, todas em pacífica e feliz coabitação.
Mas uma orquídea foi desenhada para desarrumar os corações humanos, há de ser obra do demo ou das horas vagas de deus, quando ele já não sabia o que fazer à criação e, para se entreter, a polvilhou de miúdos venenos, feitiços e armadilhas. Os poucos que resistem a orquídeas é certamente porque nunca tiveram uma. Uma vez postos os olhos na sua beleza, em estreita afeição e cuidado, está tudo perdido.
Trouxe então, há quase um ano, uma nova orquídea para esta casa mas decidi não lhe dar grande importância, que é logo modo de pôr travão aos abusos. Nem sequer escolhi a mais bonita. E por receio de uma vez mais ser inútil o investimento de tempo em estudos detalhados sobre água e iluminação, pousei-a onde me deu jeito e por lá ficou, borrifada ou regada se calhasse eu lembrar-me. Depois de lhe caírem todas as pétalas – pela imposição dos ciclos da natureza, note-se –, mudei-a de lugar e escondi aquele desconcertante esqueleto debaixo de uma areca, regando-o de longe a longe com um desleixo propositado, como quem diz: toma lá e faz-te mulher, se for para sobreviveres, sobrevives de qualquer maneira. Passaram meses, até que a Luísa reavivou a memória das orquídeas e eu fui espreitar e dei com seis botões muito verdes e redondinhos no braço mais longo desta, que – juro! – nem lembro de que cor é. Entusiasmei-me, claro. Mas, por via das dúvidas, depois de tirar o retrato à janela voltei a enfiá-la junto da areca, não vá dar-lhe a mania das grandezas e, como a outra, apetecer-lhe provar do que não lhe é destinado.



24.3.20

Do que tenho lido pela blogosfera, noto que estamos mais virados para a guerra do que para a paz e que aqui, nesta crise inesperada que atravessamos, muitos sovam aflitivamente o ar num combate com os próprios fantasmas. É a esquerda, é a direita, é o que devia fazer-se, é o que está mal feito, é o que vai acontecer, é o que não é bem assim, bate agora aqui, a seguir além, todos incompetentes, todos falsos, todos oportunistas, eu dizia-lhes como se faz, eu que estou acima e mais além, eu que domino as ciências, as exatas, as abstratas, as sociais e as ocultas, eu que já sabia que isto ia acontecer, deste meu sofá via tudo antes de vós, eis as previsões, aqui as suposições, ali as curvas e agora as contracurvas, eu logo disse, eu bem avisei, agora amanhem-se, agora unam-se, agora escondam-se, agora ergam-se, agora demitam-se, agora tratem-se, irresponsáveis, paranoicos, negligentes, alienados, todos burros, todos errados.
*
Por favor. Se não podeis ou não sabeis ajudar, então um pouco de silêncio. É preciso calar para escutar, para saber, para aprender. Recolhei essas armas porque não servem nesta luta, só cortam o ar e o ânimo, é melhor uma história, um retrato, uma graça, uma visão, um verso que acrescente, um pensamento que brilhe. Amanhã mudamos as leis, os decretos, os partidos, os governos, as cabeças, as ideias, e quem achar que é assim tão diferente dos outros, que está mais certo e melhor, mude até de mundo, outro ao seu gosto talvez haja num universo tão vasto. Guardai para amanhã as raivas, as ganas e as cegas convicções. Toda a energia e segurança que delas parece emanar será necessária para a nossa reconstrução.

23.3.20

Saio para levar jornais e revistas a quem só pode andar na rua pelos mínimos. A tarefa proporciona-me a felicidade de entrar papelaria adentro como a criança a quem dão duas moedas para uma mancheia de lambarices. Entrincheirada atrás do balcão, a rapariga recebe-me com uma alegria serena, invulgarmente dócil, como se o seu coração se tivesse expandido para lá do velho desgosto de amor. Enquanto me trata dos periódicos que listei, conta-me da luta que tem sido para manter a mãe em casa e resigná-la a uma injusta e desproporcionada condição de inválida. É verdade, a insurreição dos velhos anda agora nas bocas apartadas do mundo, enfim, há sempre alturas em que as lógicas se invertem, não sei se para efeitos de vingança, de empatia ou ambas. Todos os dias, é certinho, chega a casa e está a mãe na rua, à conversa com duas vizinhas, trocando novidades miúdas do quotidiano, como se a vida continuasse na ignorância de possibilidades como epidemias ou desastres económicos. A uma delas, veja se isto cabe na cabeça de alguém, ainda há duas semanas nem dirigia palavra, desentendidas que estavam por assuntos do condomínio mal explicados e pior resolvidos. Agora parece que a ideia do fim do mundo desfez certos equívocos e azedumes, embora tenha despertado outros. Juro-lhe: tenho de levantar a voz, mandá-la para dentro, obrigá-la a mudar de roupa e a lavar as mãos. Não sabe se chora ou ri ao lembrar quantas vezes a mãe fez igual com ela, numa ou noutra noite arrastando-a por uma orelha diante do pasmo dos amigos, vergonhas destas a gente não esquece mas era assim que se disciplinava a canalha, por cada desobediência, cada saída à revelia, cada minuto de atraso sobre a hora marcada, um dia inteiro de castigo sem televisão ou sem telefone. Nunca percebemos porque nos aprisionam aqueles que nos querem bem até ao dia em que vestimos o fato do carcereiro e os motivos que tanto repudiámos se tornam urgências ou bandeiras.
– E Alicita, como vai?
Diga-se o que se disser, é no coração das crianças que germina o dia de amanhã e eu preciso de ouvir falar de graça, luz, futuro. A rapariga da papelaria pousa o troco no balcão para evitar que eu lhe toque e, com um suspiro, faz notar a frágil condição do mundo e dos Homens.
– Já só espero que Deus lhe dê o privilégio de uma vida em liberdade.

20.3.20

Ainda tenho os sonhos afinados pela vida de antigamente, quero dizer, a vida da semana passada. A profundidade da minha consciência tarda a sintonizar as novas frequências, não acata as normas de distanciamento nem assume o rigor calculista dos movimentos. Esta noite, por exemplo, nem imaginas, dançámos juntos, arrancando a respiração à boca do estômago com os rostos encostados. Dois autênticos primitivos, insubordinados, reles marginais a precipitar a morte e o fim do mundo. 

O presente demora sempre a instalar-se. Quando ganha o seu espaço e o sedimenta, estamos já no futuro. É então que muitos de nós, às vezes com anos de atraso, começam a ser perseguidos pela noite dentro. 

19.3.20

Da ideia de deus – insistes – tens uma impressão de bondade e por isso esperas dele que faça os consertos ao mundo com justiça. Mas a bondade é o prato leve da balança, que perde para qualquer perda, qualquer pena, qualquer pedra. Deus não tem moral, é um milagre neutro, subentendido, desenhou as coisas com espanto e defeito, acertos e desacertos, leis matemáticas. Ignora as noções de bem e de mal. Não estalará os dedos contra ou a favor de ninguém, mas sempre e só para preservar intacta a magnífica totalidade da sua criação. 

18.3.20

Sobe? pergunta o meu vizinho, com uma perna esticada para o sensor e, ao colo, de feições dóceis, insuspeitas, o diabrete que concebeu. Olho para dentro do elevador e, pela primeira vez, tiro-lhe as medidas exatas para concluir que não, não é de bom senso enfiar-me em tão diminuta área com aquele homem e a sua criatura. Já lá vai o tempo. Agora, não há encantos, modos ou perfumes que justifiquem aproximações. Verdadeiramente atraente, só aquele que, por milagre, feliz acaso ou potencial genético, tenha imunidade garantida ao novo coronavírus.

17.3.20

Enquanto estendia a roupa ao sol e ouvia o bulício dos pássaros, pensei outra vez na minha irmã no campo de batalha, olhos nos olhos com a bicharada através de uma lente, ora de noite, ora de dia, e envergonhei-me da placidez do meu recolhimento, das pragas que roguei ao universo por – oh, coitadinha de mim – não conseguir descodificar o erro na instalação de software.

15.3.20

Tão esplêndido o rubro nascer do sol a que assisti ontem como a chuva que agora vejo cair doce e melancólica. A natureza olha para nós com a mesma grandeza, sobranceria e tranquilidade. Tudo nela mantém a cor e o ritmo, nada disto que vivemos interfere no seu humor. Já era sabido - embora por arrogância tenhamos suposto o contrário - que não é de nós que depende para continuar.

14.3.20

Não creio que inspirem qualquer tipo de fascínio as pessoas que, dentro ou fora das redes, ajuízam do comportamento alheio com espuma na boca e quatro pedras na mão. Se em tempos serenos é verdade, nos de crise é notório: o ódio pelo semelhante é tão ou mais nocivo do que qualquer postura de negligência ou paranoia. Mas preservemos a fé porque tal como as do corpo, também as mazelas do caráter podem ser vencidas com disciplina, contenção e até isolamento.

13.3.20

Hoje sim, todos os nós da VCI finalmente desatados. E à porta da escola secundária, uma adolescente quase em lágrimas, para a amiga: como é que eu vou aguentar, se não fui feita para estar em casa... A outra responde liga-me quando quiseres, eu estou sempre contigo, mas o abraço que de forma tão perfeita remataria a conversa está proibido. Mais de um metro as separa, os olhos líquidos, as bocas trémulas, os ombros descaídos. Passo por elas com a cabeça baixa, talvez seja a vergonha pela parte que me toca, pelas décadas serenas que tenho vivido, pela paz, pela pedra, pela rede, por tudo o que era seguro e com um nada se esboroa, por tudo o que confortavelmente se comprou e vendeu, fez e desfez, atou e desatou, casou e descasou, investiu e empenhou, usou e descartou, sem acautelar nenhum deslize, nenhuma fraqueza, nenhum inferno. Pelo que lhes ensinámos e afinal era mentira.

11.3.20

Há quem discorde mas eu acho o Porto na mesma. De manhã, não lhe noto mudança de ritmos, modos ou feições, o trânsito escoa com a lentidão habitual, a rádio anuncia os trombos de sempre no nó de Francos, na saída da VCI para o Campo Alegre, no túnel de Águas Santas, os toxicodependentes envenenam-se debaixo do viaduto, as crianças formigam à entrada das escolas, o metro segue apinhado, faltam lugares para estacionar. Porém, na empresa cheira a lixívia por todo o lado. É um produto que não uso e cujo cheiro me dá náuseas, abro as janelas para respirar mas há sempre quem proteste por medo das correntes de ar. A cada dez minutos, os meus colegas desinfetam as mãos e fazem refresh à página das notícias. As reuniões são rápidas, não há conversas paralelas em sussurro, decide-se o essencial em tempo útil. Muitos de nós, se quisermos, estamos autorizados a trabalhar a partir de casa, mas eu escolho ficar, agrada-me a vida de qualquer modo, adiarei o cárcere e a solidão enquanto puder, tenho idade e saúde para isso. Quando saio, passo no supermercado porque o leite dos miúdos está no fim. As prateleiras foram varridas, uma mulher leva dezoito embalagens de grão de bico e um velho açambarcou todas as caixas de minis e casal garcia que couberam no carrinho. Quando me dá o troco e o talão, a funcionária da caixa diz-me que tudo corra bem consigo, meu amor, adeus, com o tom de um soldado a despedir-se dos companheiros de trincheira antes de enfrentar o inimigo. Faz-me falta o meu pai e a sua superior inteligência e lucidez no modo de explicar o comportamento desta bicharada ruim e invisível. É ele quem procuro imitar quando alerto os meus filhos para os vírus e para os perigos letais da ignorância, da perversidade e da histeria.
De resto, estou bem. Nada ameaça as partes de mim que te desejam.

9.3.20

Ao fim da manhã de ontem, o senhor Pereira descia a rua com o saco do pão, um bouquet de rosas cor de sangue mais o jornal entalado numa axila, prestes a cair. Vendo-o aflito, a contorcer-se e a sussurrar esconjuros não sei a que demónios, acudi-o amparando o jornal e ele, grato, fez-me a festa do costume. Contou-me depois, enquanto suspirava os seus cansaços e alívios, que só por um triz se safou de aborrecimentos com a mulher. Esquecido da data, porque ao domingo se uma pessoa repousa é para repousar por todo, até nas ideias, nada tinha comprado para lhe oferecer peloito de março. As filhas podiam tê-lo lembrado mas, enfim, a juventude menospreza esses pequenos agrados que mantêm o laço do casamento apertado até à morte e é por isso que as coisas andam da maneira que se vê. O que o salvou, então, foi a insistência da mulher para que lhe fizesse o favorzinho de ir à rua buscar meia dúzia de carcaças, já que a chuva miudinha podia dar cabo do trabalho que, na véspera, a cabeleireira lhe fizera. Foi contrariado e ao chegar ao pão quente fez-se luz, não propriamente por obra do acaso ou do divino mas porque se cruzou com a viúva e ela, magnífica como é uso, faça sol ou faça chuva, em dias úteis ou inúteis – a menina não concorda? –, perguntou-lhe se já tinha mimado a mulher. Num repente, o senhor Pereira desatordoou o cérebro, que vinha naquele sono domingueiro a que um homem – caramba! – tem direito, e correu à florista adiante da rotunda, de porta aberta e escancarada desde as nove em benefício dos pereiras desta vida. 
Agora, a caminho de casa, deitava as mãos à cabeça só de imaginar as consequências que a sua distração poderia acarretar, sem saber a quem mais devia a sua gratidão: se à mulher por tê-lo obrigado a sair, ou à viúva, tão atenta e preocupada. Num ou noutro caso, tinha assegurada a sua paz por largos dias, até semanas, lá em casa. Altura ideal para pedir um arroz de cabidela e talvez continuar adiar a verificação do aplique que anda com mau contacto, sem que daí venham lamúrias e problemas.
– E a menina, alguém lhe ofereceu flores hoje?
– Ah, a mim não, senhor Pereira. 
Ele redistribuiu com mil cuidados a carga que levava, endireitou as costas e antes de se despedir:
– Não me leve a mal, mas a menina se calhar também não faz por merecer.

6.3.20

Agora que os fins de tarde se amenizam e prolongam, às vezes as meninas do colégio descem a rua ao encontro dos rapazes da escola pública. Gosto de as ver à espera deles do lado de fora do portão, com os cabelos alisadinhos e uma nesga de perna à vista, doce e branca, entre as meias altas e a bainha do kilt. Os rapazes da escola pública comportam-se como astutos traficantes de emoções, têm motas, mata-velhos e cigarros, cabelos sem governo, horários flexíveis, dezoitos e vintes só com desmedido suor, pais que nem sempre sabem onde eles andam. Provocam-nas com piadas subversivas, mas logo usam um gesto terno ou chegam o nariz ao pescoço delas para endireitar a situação. E o riso que riem juntos é o riso da desordem e do excesso, um riso sem propósito nem freio, por isso os adultos que passam desconfiam e temem que daquela leviandade venha o fim do mundo. 
A adolescência não é o mais seguro nem o mais razoável tempo das nossas vidas, mas é provavelmente o mais honesto. 

5.3.20

O facto de ser mais ou menos certo que só a mediania gera consenso não significa que tudo o que é controverso seja de produção genial.

3.3.20

Quando dizemos que antigamente é que era bom não é de outras épocas que sentimos falta. Do que realmente temos saudades é de estarmos mais longe da nossa própria morte. Não suspiramos pelo tempo em que vivíamos, mas pelo tempo que tínhamos ainda de sobra, pela inocência, pela energia, pela paixão. O sentimento que provoca o desdém de cada geração pela seguinte é a inveja.

2.3.20

Tenho pela escrita um amor estrutural, velhinho, genético, de que desfruto sozinha e em sossego. Nenhum outro se lhe pode sobrepor, dele tiro pão e prazer. Se me perguntam porque acontece assim, mal sou capaz de explicar e talvez essa seja a mais justa e honesta resposta a dar sobre o amor. Mas, confesso, escrever não me dá o gozo libertino, quase perverso, que sinto quando estou atrás das câmaras, a mexer no caldeirão onde são cozinhadas as mais impossíveis ilusões. A farsa, o efeito, manipular, transfigurar, construir, distorcer, fazer chuva, fazer sol, conceber um desejo e um desastre, abreviar o tempo, solucionar a desordem, implementar esse regime de ditadura sobre a visão dos outros, dar o ecrã como quem dá a vida inteira de modo a que não se note a ridícula dimensão do fragmento, enfim, contar uma historia em que tudo é verdade ainda que nada, rigorosamente nada, seja real.

29.2.20


Oh, muito obrigada, já não era sem tempo, que as magras também são filhas de Deus.

(nem a rtp se livra da pressa e da falta de cuidado na redação dos títulos)

28.2.20

Bastou-me enfiar uma vez as minhas mãos entre as de Gabi, a nova manicura, para concluir que não chega aos calcanhares da outra. Uma vez não são vezes, é certo, e também sei que a precipitação embota qualquer juízo, mas a verdade é que quem lembra a antiga manicura concordará que este é um daqueles casos em que é muito difícil haver rei posto à altura do rei morto. E nem é de unhas que falo. Esperta e atrevida, essa rapariga que agora, espero eu, brilha e faz brilhar num salão do centro da cidade, não falhava um tiro. E da ironia das suas balas as senhoras mal podiam defender-se, não só pela precisão do disparo mas também, e sobretudo, por remexerem naquelas inconveniências que o pudor prefere manter enterradas ou em fundos falsos dos armários. Porém, embora desbocada e até um pouco caprichosa, tinha um coração nobre e um delicioso à vontade nos assuntos do amor, sobre o qual todos alvitram mesmo que apenas tenham experimentado versões fajutas.
Aparentemente, o mundo está mais tranquilo com Gabi, que nos modos é contida e no vestir anda muito longe da ousadia e do espalhafato da sua antecessora. Como fala baixinho, as senhoras não receiam o troar de verdades chocantes a lembrar que o pior cego é aquele que não quer ver. Também o facto de a cabeça lhe pender constantemente para baixo lhe dá um ar humilde, quase submisso e muitas vezes tristonho, a pedir piedade e festinhas, ao invés da outra, cujo queixo levantava acima do que as senhoras consideravam razoável para a sua condição de empregada de cabeleireiro (mudam-se os tempos, mas - perdoe-me o poeta - as vontades e o ser não acompanham). Há, então, um clima de satisfação geral no salão e a engrenagem funciona agora de modo silencioso mas bem oleada: Gabi confidencia baixinho, a uma senhora de cada vez, que novidades lhe constaram a respeito das outras, enquanto vai e vem com a lima. Encantadas com o que daquela boquinha doce retiram de pormenores sobre o alheio, as senhoras até esquecem o óbvio: que nas costas dos outros vemos as nossas. Assim Gabi vai sabendo e contando e contando e sabendo, com a mesma paciência que usa para amaciar cutículas e passar vernizes. E quem entra agora no salão já só ouve o ronco dos secadores e o folhear distraído das revistas cor-de-rosa.

24.2.20

Admiro aqueles raros, raríssimos, que conseguem escrever publicamente sobre os mortos sem meterem o próprio ego à frente no caminho. A generalidade das homenagens é precedida de uma prova de velha amizade ou relato de alguma experiência comum, uma reunião, um jantarinho, um projeto. Às primeiras linhas estoira logo um eu, nas mais das vezes travestido com falsos tiques de  humildade. Impressiona mesmo: ninguém tem tantos, tão leais e expressivos amigos e discípulos como um cadáver.

22.2.20

A professora que vive no prédio em frente com três gatos pretos e um rol impressionante de tralha acumulada, fuma à porta do pingo doce com ar de quem se apartou da realidade. Leva o cigarro à boca num automatismo muito lento e o seu olhar escuro, embotado, descaído, passa através das coisas. Mesmo que me ponha diante dela, sei que não me verá e ainda bem. Contar-me-ia, pela enésima vez, quão miserável é pedir aos alunos que escrevam o que pensam acerca de um facto ou ideia e eles ei, ó stora, sei lá eu o que penso. Depois, já sei, lamentaria a falta de interesse e a indisciplina desta geração que vai precipitar o mundo no caos. Cansam-me muito estes lugares comuns, a lente viciada com que olhamos para aqueles cujo estado é fruto do nosso, esta recusa em aceitar que uma coisa, seguindo-se a outra, leva sempre o seu adn, a sua herança, as suas culpas, as faturas que ficaram por pagar, a consequência dos seus atos. São os adultos, não os miúdos, quem anda a descartar as responsabilidades. E a professora, só porque não teve filhos, julga que pode falar de cima e à parte. Oh, como se engana! Olho para ela, parece-me um buraco negro, lamento que o interesse e a disciplina não a tenham salvo da infelicidade. 

21.2.20

Um dia, o professor de uma disciplina do ensino básico que nos anos oitenta se chamava "trabalhos oficinais" perguntou se algum de nós queria estar a duzentos e vinte volts. Nenhum professor faria hoje tal proposta mas como à época éramos ordeiros e submissos, o risco era moderado. Quem se chegou à frente, seduzido pela ideia de alcançar um estado fulminante e dele regressar sem dano, foi o Afonso. O professor sentou-o em cima de uma mesa, enfiou um fio de arame na tomada de uma extensão e advertiu-o várias vezes para que não pousasse os pés no chão. Em poucos segundos, o Afonso estava com a ponta do dedo no fio de arame, os pés a balouçarem no ar e uma deliciosa, invejável, expressão de gozo farto, enquanto a corrente elétrica lhe percorria o corpo. Tudo isto perante o pasmo silencioso dos colegas e ao mesmo tempo que o professor, agitando os braços no ar, gritava:
- Ninguém lhe toca! Absolutamente ninguém lhe toca!  
É sempre isto que me vem à cabeça quando a viúva passa.

18.2.20

O mais velho adoece e eu abuso de forma descarada da sua prostração. Gulosa, a pretexto de lhe sentir a febre cubro-o de beijos na testa, nas faces, no pescoço. És meu, és meu, jamais te livrarás de me pertencer – é o que sinto, mas não penso. Pela tarde toda, o meu ventre repousa debaixo da cabeça dele. E durante a noite, de cada vez que ouço chamar, num fio de voz doce, dependente, vulnerável, mãe!, consolo-me de pensar que há coisas que não mudam, não terão como mudar.
O amor tem uma face tão desprezível, tão egoísta.

17.2.20

Devem ter posto a viúva no mundo para o entortar. Sinto que quando passa, tudo desliza atrás dela e a rua descai com o peso. Olhos, cobiças, invejas, desejos, maledicências, piropos, salamaleques e o mais que ali andar agarra-se ao corpo dela, àquele busto muito, muito cheio de dignidade e à cabeleira negra – pintada, é certo, mas de um negro que reluz e dá vertigens. Bem se vê que não teve filhos. É firme e lisinha, salvo onde a natureza ordenou que se arredondassem as fêmeas para fins de procriação e deleites vários. O senhor Pereira, fantasiando com a ideia de que ela possa ter recuperado a virgindade, continua a retirar desta visão boa parte do seu sustento. Mas não é o único. Muitos outros matam a fome comendo-lhe as pernas com os olhos e enterram a imaginação entre aquele par de nádegas, cuja generosidade não tem fim. Quando chega ao fundo da rua, a viúva é um íman com a realidade toda atrás e o mundo inclina-se como no princípio de um naufrágio. 

15.2.20

Uma opinião parte sempre de uma crença. Quando contestamos alguém, diminuindo a pertinência e o valor daquilo em que acredita, estamos só a impor outra crença que, por ser nossa, parece ter contornos mais firmes, mais factuais, mais ajustados ao real. Eu também tenho a minha crença e dela, somente dela, vem a minha opinião a respeito da eutanásia. Não a vendo como universal, não a imponho a ninguém, pois não está escrita em lado algum nem me foi sussurrada por vozes do firmamento. A minha crença é naquilo que vivi e todos os dias a memória me devolve. Tem a mesma solidez, teimosia, valor e objetividade de qualquer outra. E não mudou desde a última vez que aqui a partilhei:

Qualquer um que já se tenha visto na iminência de, com as próprias mãos, dar o golpe de misericórdia, sabe que a voz do médico, do juiz e do padre são ciência vaga, sentença inválida, moral sem aplicação. Direitos? Deveres? Liberdades? Juramentos? Não há cartilha ou lei fundamental que não possam ser esmagadas quando um deus maior e mais urgente é revelado nos olhos de quem se ama. 
(post de março de 2017)

13.2.20

Não é por nada que ele tenha dito ou ousado, até porque ao contrário do mais velho, que é um rapaz voador, este é aninhado como a cria no marsúpio. É pelo cheiro que sei: a infância do mais novo está a dar o último suspiro.

12.2.20

– Então fazes tenções de continuar sozinha? Por acaso julgas que vai haver sempre homens a cair-te aos pés, que essa carinha laroca não enruga como as outras, que podes viver de paixonetas aqui e acolá sem te cansares? Se não aproveitas enquanto és nova, se não arranjas já um homem que te ponha feliz, que te dê segurança a ti e afeto à tua filha, azedas como o leite antes de chegares à minha idade
– Quero voltar a estudar, mãe.
– Valha-te Deus, que essa cabecinha não para, rapariga. Atrás de uma tolice tem de vir logo outra. 
– Quero ter a minha vida, há mal?
– Já tens a vida em que te meteste por seres parva. Agora devias era assentar.
– Assentar, sim. Enterrar-me é que não, mãe. 
Separam-se mãe e filha na esquina, nenhuma delas dá por mim que vou atrás. A mãe atravessa a rua para a paragem do autocarro. A filha tira as chaves da carteira e, com dois abanões vigorosos, abre o gradeamento de segurança da papelaria.

11.2.20

Tive uma infância feliz, maculada por uma única tristeza: a de não poder usar o cabelo comprido. Ao cabo de cinco filhos, julgo que a minha mãe ficou sem disposição para cuidados extremos, tranças, lacinhos e caracolinhos e, chegando eu, sobreveio o pragmatismo. Não a condeno, éramos muitos e a manter a ordem pouco sobrava de tempo para investir em beleza. Queixas também não tenho – se por ter sido a última a nascer fui obrigada a cortes de cabelo mais austeros, por outro lado beneficiei de todos os privilégios que o afrouxamento da autoridade propicia. 
É dos livros, porém, a dificuldade em contentar seres humanos, sejam novos ou maduros, e, pese embora tudo o que eu tinha, ainda me doía o que me faltava. Lembro-me de uma das minhas três irmãs, a loirinha, ao espelho a perguntar-me: achas que fico melhor assim ou assim? e ora punha o cabelo para a frente, ora o puxava para trás e de qualquer das formas era magnífico, farto, brilhante, expressivo, e os rapazes cobiçavam-no, dispostos a aguentar o desdém e a má cara com que ela lhes pagava os atrevimentos. No carnaval, eu remediava o desgosto fazendo cabeleiras com serpentinas, tarefa que me exigia paciência de chinês mas era largamente compensada pela sensação das fitas soltas pelas costas abaixo, deslizando para a frente se eu me inclinava, escondendo-me o rosto se me envergonhava, exaltando a minha elegância se as passava por detrás da orelha num gesto vagaroso e feminino. Até quando fui recrutada para o papel de Virgem Maria numa peça de teatro, mais me entusiasmou a ideia da cabeleira que teria de usar do que os valores cristãos a transmitir com a minha seráfica postura. 
Só por volta dos treze anos fui autorizada a usar o cabelo conforme me desse na gana e então deixei que crescesse caótico e solto. A minha avó, sempre com prenúncio de desgraça debaixo da língua: corta-me essa melena, rapariga, que assim vais sofrer das vistas, vais apanhar piolhos, vais tropeçar no caminho. Nem sofri das vistas nem apanhei piolhos, quanto aos tropeções a história é outra mas não vem ao caso. Hoje, quando passo diante da porta do salão e a cabeleireira vem tomar-me a consistência aos cabelos e propor-me que lhes dê outro corte, outra cor, um reflexo, um artifício, viro-lhe as costas e é como se hasteasse ainda, tantos anos depois, a bandeira da minha liberdade. 

10.2.20

Jamais compreenderei o espanto que causa nos outros o facto de eu não ter televisão e a pena que sentem dos meus filhos por isso. No seu irrefletido e viciado juízo, a generalidade das pessoas acredita que os privo de um direito fundamental, que os mantenho ignorantes do mundo e sem fontes de entretenimento. E pensam de certeza de nós o mesmo que eu penso delas: que miséria.
Ai, coitados, ouvi ontem, ao menos têm telemóvel?  

7.2.20

Este hálito morno que subitamente vem da terra, este repouso mais tardio do sol, esta cama que a natureza faz para que se cumpra a renovação das espécies e a convalescença dos corações em frangalhos, ensaiando acertos melódicos entre brisas, águas e cantos e libertando no ar ingredientes vários de feitiçaria, tudo isto afrouxa qualquer disciplina sentimental e dá cabo das minhas boas intenções. 
Demorará o regresso da chuva?

4.2.20

Nas horas em que dei à luz e o universo inteiro se estilhaçou a partir do meu ventre e por mim escoaram os seus pilares e as suas fórmulas e entre as coxas vi surgir, ainda com a serena feição da morte, o rosto de todas as possibilidades e realizei que tinha caído na mais enredada das armadilhas, sim, talvez tenha havido um instante, um fragmento de tempo independente, paralelo, apartado do caos, em que pedi quero voltar atrás. 

3.2.20

Muito tempo depois dos acontecimentos, as mulheres ainda continuavam a subir a rua com a dor ao colo e os homens mantinham o hábito de a diluir no tasco em três rodadas. Uns e outros começavam o dia sem acreditar no que diziam: o que não tem remédio, remediado está. Mas diziam e era como se procurassem exterminar um tumor com colherinhas de chá. As crianças eram salvas pela inocência, que as impedia de medir a amplitude do dano. Viriam a sofrer com ele muitos anos depois, ou pela tortura da memória, que quanto mais tarde acorda com mais força se levanta, ou porque o destino, escrito na palma da mão, cobra até dos que supõem fintá-lo ao viajarem para longe, sonharem alto, oporem-se às probabilidades. É espantoso como a dor estabelece contratos individuais. Alguns de muito longo prazo, outros extintos quase na hora com um preço elevadíssimo, muitos exibidos como trunfo ou troféu, quantos escondidos no fundo de gavetas na esperança de que tarde ou nunca se faça o ajuste das contas. E aquele que julga entender da dor do outro ao ponto de presumir ter sobre ela o juízo lúcido, o conselho sábio, o remédio santo, o caminho certo, é só um arrogante a querer enfiar-se, à força e em vão, num traje de solidário.

29.1.20

A rapariga da papelaria admite que talvez o seu sonho de amor a tenha distraído da vida. Não fosse o tempo gasto a pasmar e a desenhar mentalmente vestidos de noiva e beijos de comprometimento, podia ter ido mais longe, um curso superior, um emprego de jeito, umas férias à vontade. Por si tanto dá, nunca foi ambiciosa, mas custa-lhe não ser exemplo para Alicita. A filha merecia um modelo de persistência e realização, ao invés de ouvir falar da mãe como uma tonta que cumpriu os mínimos e gastou-se em suspiros ao balcão de uma papelaria. Buscando talvez um estímulo, uma ideia, um caminho, pergunta-me o que faço eu da vida e se gosto. Digo que gosto e que, em boa verdade, grande parte do tempo nem faço nada, só penso. Meu deus, eu lá teria cabeça para ser paga só pelo que penso! Compadeço-me e aproveito a deixa da sua humildade para exercitar a minha: não é bem assim, pagam-me por pensamentos efémeros, sem profundidade ou consequência, que berram muito hoje, amanhã são gemidos de moribundo e numa semana estão reduzidos a pó. E queixa-se? pergunta-me, como se eu tivesse disparado uma ofensa diretamente àquele peito já tão inflamado. Mas antes que eu diga não, o trabalho é coisa de que nunca me queixo, ela desata na goela um riso nervoso e, com a voz entrecortada, pica o ponto na sua rotina de auto-comiseraçãodos meus pensamentos nem o homem que eu amava quis saber.

28.1.20

Tenho observado que ao invés dos homens, sempre ansiosos por uma descendência que lhes siga as pisadas, as mulheres inquietam-se quando os filhos as imitam nos talentos ou na vocação profissional. Não faças isso, nem sabes no que te vais meter. As mães procuram sempre salvar os filhos, os pais esperam às vezes ser salvos por eles.

25.1.20

Escrevi o teu nome em maiúsculas arredondadas, à cabeça de um rascunho de versos que não eram sobre as camas incandescentes onde o sol se deita para o pasmo dos sonhadores, nem falavam de amantes perigosamente debruçados no abismo da saudade, nem cantavam a autoridade das fases da lua sobre os enredos de amor, nem diziam nada sobre flores colhidas na orla fecunda dos bosques para a coroa das noivas e a lapela dos namorados. Eram sobre um rio cheio, musculado, a correr com ânsia a sua língua pelas curvas da terra e a penetrar, enfim, no colo do mar, onde celebra, repete e perpetua a própria morte.

23.1.20

O que verdadeiramente desgosta o senhor Pereira é que o neto tenha sido nomeado como um lavrador. A Joaquim, diz, falta nobreza e estilo, há de trazer sempre à lembrança a ideia de couves, galochas, tratores, bosta de vaca, se me desculpa a indelicadeza da linguagem. Está acocorado junto do mercedes e tira as medidas ao risco que descobriu ainda agora na lateral traseira, perto da roda. E se dá na cabeça de alguém chamar-lhe Quim? Ou Quinzinho? Nem pense nisso, sou eu a tranquilizar o senhor Pereira, que leva o dedo indicador à língua e, com uma entrega comovente, quase terna, tenta devolver a perfeição à chapa metalizada do automóvel. Garanto-lhe: na zona da cidade onde são arquitetadas as regras da boa figura que, por imitação, vão alastrando até à ala oriental e aos subúrbios, têm nascido Joaquins. E nos colégios que monopolizam o topo dos rankings há cada vez mais assim chamados. Alguns brilham no quadro de honra, não só pela prova quantificada dos seus dotes intelectuais como pela obediência. Dê-lhes tempo, senhor Pereira, e os Joaquins hão de substituir a dinastia de salvadores e santiagos que destronaram a dos lourenços e bernardos, depois de estes terem acabado com a dos martins e tomás, esses implacáveis exterminadores de afonsos. Ele não me ouve. Esfrega ainda, e cada vez mais freneticamente, o risco na pintura. Com o esforço posto no vaivém do dedo, as feições dele crispam-se e os modos exaltam-se, até lhe sai um palavrão sem se dar conta nem pedir as desculpas de costume. Mas um risco destes não é coisa que se limpe ou disfarce com saliva. Uma aparência impecável exige um investimento muito mais trabalhoso.

22.1.20

Quando descobrem que ao dizer qualquer um pode errar, somos todos humanos são-lhes perdoadas as faltas sem atribuição de castigo, coima ou consequência, certas pessoas embarcam comodamente no vício do erro e da desresponsabilização. Igual lógica tem aquele que, sob o falso pretexto da frontalidade, diz o que quer a quem lhe dá na gana e sem modéstia para se desculpar pelo que mal disse, sai-se com um estava a brincar, que falta de sentido de humor. E há o outro, pouco vocacionado para atos de nobreza ou generosidade, que sacode a água do capote a dizer a vida é injusta, como se as suas deficiências de ética decorressem de um propósito universal, atávico e de sentido obrigatório. Enfim, a eloquência dos miseráveis tem uma certa linearidade e socorre-se nas mesmas muletas. Bom, isso é tudo muito relativo, responder-me-á, sem real noção da verdade que diz, aquele que por via das dúvidas quer manter um bom entendimento comigo, com Deus e com o Diabo. 

20.1.20

Ah, o que fizeram ao Poeta – viraram-no do avesso, arrancaram-lhe as vísceras, espremeram-nas, cozinharam-nas para enchidos e petiscos que vendem no mercado com selo de garantia de origem. Não sendo o Poeta em si, sempre é qualquer coisa de poeta, já moída, condimentada, de fácil digestão, servida de palito ou com enfeite. Cebolada de maus fígados de poeta. Coração quebrado de poeta em azeite virgem. Nervos de poeta salteados em lume forte. Assim se consolam os glutões e os apressados, enchendo num instante a boca com o Poeta, acumulando estrofes na bochecha para debitar a propósito. E assim se nutrem os anoréticos que, nada seduzidos pelo gosto do Poeta, podem fazer de conta que deveras apreciam debicando alguns versinhos em convívios. Uns e outros, pelo meio, também engolem apócrifos sem darem por ela.

18.1.20

O dia em que percebi que a infância do mais velho tinha ficado para trás, lembro-o pelo que me doeu. Não foi quando me ultrapassou em tamanho, nem na hora em que levantou o queixo a perguntar se também podia beber uma cerveja e tampouco quando me disse, cheio de cuidado, mau era se eu pensasse apenas conforme o que me ensinaste. Foi no dia em que decidiu mudar o quarto e desprezou, arrumando em caixas de tampa rija, todas as miudezas passadas, ternuras, cartas, bilhetes, mimos, fotografias, projetos, pinturas. Ficou a cama, a escrivaninha, um relógio, um candeeiro, quatro paredes nuas. Parecia o quarto de alguém que houvesse morrido e era-o, de certa forma. Imaginei que, dali em diante, naquele quarto habitaria uma indefinição, um rebelde, um sonhador, um poeta de escárnio, um aventureiro, um desesperançado, um romântico, um cavaleiro, um conquistador, um desnorteado, um teimoso, um indiferente, um bailarino, um companheiro, um estranho, um vaidoso, um desleixado. E perguntei-me quantos anos ainda teria de esperar até que daí nascesse um Homem.

16.1.20

Fui a casa dos Pereira beber um Porto pelo aniversário de Joaquim. Abordada na rua e arrancada com violência a devaneios pouco dignos de relato, não arranjei desculpa. Violência é modo de dizer. Foi antes entusiasmo, mas tão exacerbado que tive a impressão de me puxarem pelos cabelos, como gente do povo medieval que, sem contemplações, é obrigada a prestar culto à realeza, remetendo todos os seus afazeres e necessidades para o plano do inútil. Numa derradeira tentativa de fuga, mesmo à porta, ainda inventei que os meus filhos me esperavam, mas a mulher do senhor Pereira reprovou-me, escandalizada, com a sua cosmopolita afetação, ora essa, os meninos têm de se fazer homenzinhos! É extraordinário: quanto mais embaçados os nossos espelhos, mais rápidos somos a apontar dedos, ditar leis e a sugerir caminhos. Entrei, portanto, resignada e disposta já a colaborar na festa, puxando à cara o meu melhor sorriso e as boas maneiras que esqueço quando o traje que me obrigam a vestir é apertado ou de fraco corte.  
No hall, tive de venerar a fotografia de Joaquim – impressa em tela e ladeada por dois ramalhetes de tecido vermelho-escuro – e concordar que sim, que o menino se fará um homem magnífico e que a sua pose, com as mãozinhas levantadas como as de um bandarilheiro, é já indício de uma disposição rara para enfrentar corajosamente as agruras da vida. Foi este o retrato que me disseram, por vias travessas, ter acordado as divergências familiares logo após o Natal. Nutrida por um perigoso cocktail de raiva, mágoa e ciúme que certamente ferve em lume brando no seu peito há muito tempo, a primogénita acusou os pais de todas as injustiças que de memória lhe ocorreram, culminando no facto de os retratos das netas, além de mais pequenos e modestamente emoldurados, terem ido parar a uma outra parede, onde a luz é só um suspiro ao fim do dia, para darem lugar ao retrato do menino, sempre o menino, o menino, o menino, o filho daquela que se julga maior e melhor e que, ouçam o que vos digo, há de enredar tudo e todos na teia dos seus caprichos. 
O chorrilho de acusações, com que a irmã mais nova acabou a fazer coro e que o irmão não teve fôlego nem caráter para rebater, mudou tudo. Doravante souberam a fel as rabanadas e desapareceram, juntamente com os laços dourados e os papéis de embrulho, a alegria e a gratidão pelos presentes trocados na véspera. As manas Pereira arrastaram os maridos invisíveis e as meninas exemplares dali para fora sem um beijo aos pais e assim ruiu o presépio que com tão magnânimas intenções o senhor Pereira quis compor, julgando que na magia de uma noite santa podiam dissolver-se mágoas de uma vida inteira.

14.1.20

É evidente que a maneira menos arriscada de sonhar é acordado. A única desvantagem é a permanente vigilância da razão, que quase sempre obriga a manter um certo nível de lógica e subsequente mediocridade. Uma destas noites, por exemplo, era certamente profundo o meu sono quando atravessaste toda a plateia ao meu encontro, apoiando-te nas costas das cadeiras para evitares tropeçar nas pernas das senhoras e nas cerimónias dos homens. Eu preparei-me, supondo que tencionavas apertar-me a mão e, afinal, o que tinhas para me dar era um beijo. Foi assim que fiquei a conhecer por dentro a tua boca. Que surpresa. Julgava que tivesses um beijo mecânico, cheio de rigores, aprendido em diagramas e manuais ou domesticado por uma só mulher a vida inteira. Felizmente, nem isso nem as aflições púberes de que padecem certos homens na maturidade. Mas se agora, bem desperta, me ponho a pensar nesse beijo em busca de palavras que o descrevam, que deem as medidas da sua temperatura, duração e consistência, creio que não só perderei tempo como me arrisco a esquecê-lo. O verbo deslassa a memória, deixa ir, diminui, perspetiva, facilita, por isso se recomenda a escrita como terapia. E eu quero lembrar assim a magnífica reputação que construí para o teu beijo na periferia alvoroçada da minha consciência, enquanto dormia profundamente. Deus nos livre, a ambos, de algum dia verificar que o meu sonho pecou pela generosidade.

12.1.20

Assino de cruz e olhos fechados o acordo que me levará a enfrentar o maior dos meus medos e dou início à contagem decrescente. Não são horas nem dias, mas semanas. Terei tempo para vestir não sei que fato de proteção, empunhar não sei que arma de defesa, socorrer-me não sei de que fé, tomar não sei que conselho, comprimido ou porção de álcool. Derrubando este, não me sobrará nenhum medo risível, de que me envergonhe em confissão e faça das crianças e dos ignorantes os meus únicos pares. Quem vence um medo, de certa maneira vence a morte. É dela o rosto grave com que nos perseguem todos os nossos fantasmas, tenham eles a dimensão de uma vespa ou de uma doença rara.

10.1.20

A mãe da rapariga da papelaria aconselha-me a não deixar o mais novo andar sozinho na rua, a cidade é povoada de gabirus bem falantes que vingam a perda da própria inocência corrompendo a dos outros. Que exagero, comento, absolutamente segura das minhas decisões, só depois percebendo que não é comigo que ela fala, mas com os seus fantasmas. A inocência, acrescenta, é a mais rara de todas as pérolas. Por ela se fizeram já acordos em que, no fim, só a infelicidade lucrou. Alice, dócil borboleta atraída por todas as luzes, cores e perfumes da vida, felizmente não percebe o lamento da avó que, ao tomar-lhe o rosto entre as mãos, suspira desde o fundo do seu ventre envelhecido: minha riqueza, em que mundo te foi meter a tonta da tua mãe!