23.4.14

Palavras

Não me apregoo como honesta, bondosa, justa, criativa ou trabalhadora. Não digo de mim o que só o tempo, as oportunidades e os atos podem revelar ou garantir. Posso dizer que sou gira e, ainda assim, com a ressalva da subjetividade. Mas, curiosamente, esta é a afirmação que, aos olhos dos outros, fará de mim uma presunçosa.

22.4.14

Pão e poesia

A cabeleireira já é uma mulher resignada com o meu silêncio. Sabe que aproveito aquele tempo ao espelho para íntimas divagações e acertos de contas, olhos nos olhos. É uma oportunidade rara para fazê-lo com vagar.
Em troca do sossego, deixo-a mexer-me no cabelo pelo tempo que quiser, ela gosta, enfia os dedos com paixão e sensibilidade, como quem trabalha barro, sorri de satisfação, dispersa-se, sonha com o dia em que eu lhe hei de dizer hoje faça o que lhe der na gana
As duas entretidas, cada uma a seu modo, ficamos bem. Mas foi com esforço que ela se acostumou ao fracasso nas tentativas de vasculhar a minha intimidade e outras que por acaso eu conhecesse. E foi muita a diplomacia que eu precisei para que da minha relutância à conversa fiada nunca resultasse um deslize da tesoura. Logo eu, que por defeito apanho tudo o que acontece sem ter de perguntar ou aturar, as histórias que eu sei, quantas horas de entretenimento e deleite podia proporcionar naquele salão.
Na última vez, por exemplo, podíamos ter passado a manhã à volta do rapaz que faz o melhor pão e os melhores húngaros mesmo ali ao lado. Eu estava sentada na esplanada, ele veio cá fora com as mãos cheias de farinha para atender uma chamada e acendeu um cigarro. Estava abatido, daquele abatimento dos que descreem de tudo ou estão atacados por doença. Ao cabo de algumas palavras trocadas, ele encerrou a conversa ao telefone com qualquer coisa como isto:
- Olha, por favor, deixa-me estar. Eu estou bem sem ti. Assim como se estivesse a morrer: no cúmulo da agonia mas com a certeza que daqui a pouco vou a ter a paz definitiva.
Desligou, deu três passas seguidas no cigarro com as mãos a tremer, matou-o com a sola da sapatilha e voltou, para fazer o pão. 
E ainda estive eu, portanto, vai que não vai para contar isto à cabeleireira com o intuito de a distrair da teimosia em fazer-me umas madeixas, coisa pouca, só uns reflexos dourados, vai ver que quase nem se nota. Mas depois - pus-me a pensar - ela ia perder-se em suposições sobre quem seria a moça e que raio lhe teria ela feito, estariam ou não a viver juntos, haveria filhos e casa hipotecada ao barulho. E eu teria de voltar a pôr os olhos no espelho para lamentar sozinha a agonia de um homem que faz o melhor pão e sente como se fosse um poeta, que é o quanto basta para alimentar a sério uma mulher.

21.4.14

Atrasados

Era adulto, quase nos trinta, mas tinha um atraso - assim me explicavam por eu lhe estranhar os trejeitos infantis, o timbre de voz mole e fino e a ausência crónica. Lembro-me de ele ter os olhos vagos e fixos num ponto, como quem atenta ao invisível, inexistente ou ignorado. Tinha um atraso. E, tendo um atraso, ficava no seu canto, não propriamente esquecido ou abandonado, mas por ser impossível o entendimento e inútil a comunicação.
Certa vez, estava eu à procura de flores - porque as flores, sendo belas e cheirosas, teriam de ser minhas - e dei com ele no jardim, muito ereto e solene, de mãos nos bolsos, a pasmar. Andava a passarada numa contagiante euforia de primavera, seduzindo e namorando. As folhas das árvores dançavam as melodias do vento e o ar estava delicadamente perfumado de flor de laranjeira. O céu era uma apaziguadora imensidão, limpa de ameaças e maus presságios, enquanto o sol do entardecer tudo exaltava com brilhos, reflexos dourados, bailados de sombras, promessas de renovação. Não sei se foi a realidade que o deslumbrou, ou se foi agraciado por alguma aparição divina, um ovni, qualquer assombro vedado aos comuns. Sei que a sua boca estremeceu num sorriso, o mais doce, humilde e brando que alguma vez vi na vida, como se tivesse tido uma revelação e o universo ganhasse sentido num círculo perfeito e iluminado, com todas as respostas. Sem ruído nem comentário, indiferente ao meu corrupio entre as flores, ali ficou nem sei quanto tempo, com o sorriso suspenso e os olhos quietos, diante de uma visão que eu não alcancei talvez por ser pequena, distraída e ansiosa.
Fico às vezes a pensar no que será isso de ter um atraso, uma deficiência, um desvio. Olho para nós, tão certos e ordeiros na rotina, cumprindo com obediência e sem questão as etapas necessárias - estudar, trabalhar, casar, procriar, investir, acumular  - cheios de pressas e razões, por vezes sem saber ao que vamos, mas sempre proprietários da verdade, juízes do comportamento alheio, terapeutas do sofrimento universal, senhores do deve-e-haver, pagando ginásios, psicólogos, centros de estética, massagens zen e aulas de ioga para que nos desinfetem as profundidades e nos alinhem com a felicidade possível. Qual o nosso grau de atraso e de desvio, de que deficiência somos arrogantes portadores para presumirmos a lucidez, a ética e o amor do nosso lado e arrumarmos do outro, como desadequados, os que não encaixam e sobre isso não nos dão satisfações? Quem são os que realmente vivem alheados, numa realidade paralela, num lugar obscuro onde quase nada faz sentido?

Companheiros

Tenho sorte, os meus filhos são bons companheiros de viagem. A ansiedade em relação ao destino é moderada, por isso mantêm a tranquilidade essencial para apreciar o caminho, ainda que seja o que já tão bem conhecem. Diferentes de mim, que, com a idade deles, começava a massacrar os meus pais logo à saída de casa e a cada cinco minutos os inquiria sobre o tempo que faltava para chegar. Os meus filhos querem chegar, há sentimentos de que nem miúdos nem graúdos se libertam. Mas quando chegarem, chegam. E até lá tudo lhes é motivo de espanto e surpresa, obrigando-me a mim também a desviar os olhos do ponto de fuga da estrada e ver de novo o que há muitos anos vejo. Sempre as árvores lhes parecem mais frondosas ou mais nuas e as encostas mais áridas ou mais exuberantes e o rio mais barrento ou mais brilhante do que da última vez. Os aerogeradores são uma eterna novidade. Se estão parados, que estranheza!, se se movem, que magnífico! Parecem enormes, maiores do que no mês passado, talvez sejam outros. Sobre nuvens, crepúsculos ou nascentes, quem os ouvisse julgaria que até então eram cegos ou prisioneiros, tal é o entusiasmo. As curvas parecem mais apertadas, as retas mais longas, ou o oposto, dependendo da hora, da estação do ano, do sentimento que levam. Telhado, chaminé, varanda, quintal, estrada, estradinha e estradão, ora porque é grande, pequeno, belo, desfasado, difícil, solitário, ideal, lamentável e por aí fora, quilómetro a quilómetro.
E de todas as vezes tenho de lhes contar exatamente as mesmas histórias, provérbios e explicações, que também escutam com um encanto de primeira vez. A lenda dos três rios, quem manda para lá do Marão, as saias que salvaram Dona Antónia, as moedas de ouro que afundaram James Forrester, quanto medem as pás dos aerogeradores, folhas caducas e folhas persistentes... E assim vamos, entre a ficção e a realidade, a ciência e o saber popular, a certeza e o sonho, a origem e o destino.
É fácil encontrar companheiros exultantes quando o percurso é diferente, o destino novo e a surpresa verídica. Mas companheiros assim, que na rotina se alegram porque veem sempre o hoje como se houvesse mais do que ontem e o ali tão extraordinário como o acolá, são aqueles com que podemos contar.

17.4.14

*

O comandante olhou para Fermina Daza e viu nas suas pestanas os primeiros pingos de um orvalho de Inverno. Depois olhou para Florentino Ariza, o seu domínio invencível, o seu amor impávido, e ficou assustado pela suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, que não tem limites.
- E até quando pensa o senhor que podemos continuar neste ir e vir dum caralho? - perguntou-lhe.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada há já cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com todas as suas noites.
- Toda a vida - disse.

Fim

* O amor nos tempos de cólera, Gabriel García Marquez

16.4.14

Mais um

Se ainda houver por aí interesse nos meus palpites sobre o Paiz Vinhateiro, aqui está mais um.

Abril

Não sei que enredos e cruzamentos se fazem espontaneamente na minha cabeça, mas em abril lembro-me sempre da Maria Emília. Nenhuma outra mulher me fascinou tanto como ela. Ignoro-lhe o rumo mas tenho a certeza de que também se lembrará de mim, não sei é em que meses do ano. Lembra-se, porque eu era a única naquele prédio a querer ouvir as suas perturbadoras histórias sobre o interior do país, cheias de misérias, mortos e aleijões, mas sempre com uma justiça vencedora nem que fosse por divina imposição. Aos meus olhos, claro.

15.4.14

Sabedoria

Invejo essas pessoas que afirmam, como ainda ontem a Manuela Moura Guedes, que a maturidade lhes deu calo, que a experiência de vida as endureceu e as tornou capazes de assistir a certas realidades e cenários com imunidade e estrutura. Chamam-lhe sabedoria e falam dela aos mais novos, de cima para baixo.
A mim nada disso acontece. Nunca fui, como essas pessoas, capaz de converter os anos que vivi em tal imunidade, calo ou dureza. Pelo contrário, sou cada vez mais vulnerável. Pode ser falha de fabrico, inscrita nos genes, ou deficiência adquirida. Tudo aquilo que já vi, as perdas que sofri, os filhos que pari, as quedas que dei e os esforços que fiz para retomar, me diminuíram e amoleceram. A minha comoção é cada vez mais fácil, os meus olhos e ouvidos mais sensíveis, a minha pele mais fina e permeável, a minha alma menos resistente à indignação e à ternura. 
Tenho crescido sem sabedoria alguma, muito menos essa, elevada e rigorosa, que, pelos vistos, permite assistir à realidade sem abalo.

14.4.14

E há cura para isto?

Se metade do país tem a arte de deitar poeira para os olhos, a outra metade tem a esperteza de a aceitar para que as coisas continuem a correr tranquilas e com as conveniências que a todos servem. É um velho faz de conta, perfeito enquanto o dinheiro abunda e é fácil, e desmascarado com revolta por todos os que com ele pactuaram quando ficamos com uma mão à frente e outra atrás. É o que acontece agora, com esta crise que é o eco de todas as anteriores, porque mais não sabemos do que gozar calados quando temos muito para depois nos sentirmos injustiçados e ofendidos quando falta tudo. 
Têm mais de vinte e cinco anos as vezes em que eu ouvia o meu pai, médico exclusivo do serviço público, queixar-se do dinheiro desbaratado em exames e medicamentos por dá aquela aquela palha. 
- Os portugueses não têm noção dos milhões, MILHÕES de contos que se gastam por ano em radiografias inúteis e desnecessárias. 
E contava que não apenas os médicos os prescreviam com leviandade, como os doentes os exigiam com propriedade, havendo casos em que o médico era tido por incompetente se se limitasse a palpar para detetar fraturas ou se mandasse o doente embora sem receita pelo simples facto de não haver problema algum. Uns e outros saíam portanto mais felizes se fosse feita uma catadupa de exames e receitado, pelo menos, um anti-inflamatoriozinho.
Dizia eu, portanto, que me lembro de ouvir o meu pai queixar-se desde há uns vinte e cinco anos, sendo que talvez se queixasse antes mas eu não ouvia ou não era assunto que importasse a uma criança. Mas é facto que as coisas foram correndo serenas. Farmacêuticas ao rubro, médicos tranquilos e premiados, doentes sem encargos que lhes pesassem nas costas. O dinheiro circulava, o estado garantia, a gente aproveitava para sanar as dores que tinha e que não tinha.
Mas veio a crise, essa coisa estranha de que todos foram vítimas inocentes e desprevenidas. E agora é passatempo nacional descobrir os podres que tão à vista estavam mas que a ninguém, absolutamente ninguém, interessava questionar. Cá está, por exemplo, a comunicação social, que é um rebanho ordeiro, limitado a engolir e regurgitar, anunciando a pólvora que, pasmem-se, só agora descobriram. 
A mim causa-me pena viver num país onde a ignorância é consentida e a cegueira voluntária. O dinheiro é a única coisa que nos mantém calados e quietos, que nos faz acreditar que vivemos num país digno, livre e harmonioso. Venham-nos ao bolso e desenterraremos aquilo que jamais se imaginaria e de que nós próprios andámos a beneficiar. 

13.4.14

Sete e quinhentos

Estive hoje numa das praias da minha infância. Volto lá de vez em quando, são algumas dezenas de quilómetros que nunca dou como desperdício. Deixei os filhos para trás, que eles têm os olhos cheios de futuro e de perguntas e isso causa-me interferência nas recordações, tão certinhas e redondas.
Está tudo muito diferente, acelerado, poluído, desordenado. Mas, mesmo sabendo-o, não resisto a chafurdar na memória, vasculhando nela o que não volta e já nenhum lugar me pode prometer: eu, pequena e crente, os meus irmãos e os meus pais, verticais e poderosos, todos nós anteriores às mortes, às distâncias e a outras vergastadas com que a vida sempre nos vai acertando o passo. Juntos num areal imenso, onde não havia ainda cheiro de pizzas e quinquilharia chinesa, mas apenas os aromas frescos e honestos de pinhal e maresia. De manhã cedo, a neblina era tão espessa que desencorajava e a avenida em direção ao mar, silenciosa, percorríamo-la eu e a minha irmã como se fossemos únicas no mundo, cantando a Valsinha do Chico Buarque - para sempre a minha canção de embalar. Agora, é um cortejo de automóveis com os vidros abertos, competindo na potência da aparelhagem de som, com ritmos e vozes indiferenciados, sem ternura nem poesia.
Felizmente, a praia da minha infância tem outro lado, um avesso inviolável, que ainda é brilho e planura e onde não se fazem romarias porque não há areia nem comércio nem fastfood. Para lá fugi e, em boa companhia, lambuzei-me com carapaus e cerveja, voltada para um horizonte tão manso, limpo e azul que os olhos finalmente se aquietaram e não lamentaram mais. E por toda a tarde caminhei para trás e para diante, conversando sobre livros, política, história, pobreza, ensino, juncos e morraça. Mas o que me apetecia era não falar de nada, por nada saber e por nada ser tão importante como o gelado de laranja que a minha mãe haveria me de comprar, ao fim da tarde, por sete e quinhentos.

12.4.14

Personalidade

- Olhe, o senhor não desespere, que a esperança é a última a morrer e se Deus quiser há de encontrar um trabalho decente. Olhe eu, há quanto tempo ando nisto, tenho uma filha com quatro aninhos, não tenho dívidas mas o pai tem e não contribui com nada, recebo cento e trinta e cinco euros por ser mãe solteira, isto enquanto der pra comer dá, no dia em que não der, vou roubar. A psicóloga há dias até me disse Oh Juliana não diga isso, que não lhe faz bem e eu respondi Ó doutora, que safôda, quero lá saber, isto está que não se pode, não conheço uma casa, uma família onde todos estejam empregados, há  dez anos os salários eram de oitocentos contos - isto em contos - agora são de oitenta contos - isto em contos - não dá pra nada, pró que dá, diga-me?, Mas não desespere, vai ver que tudo se resolve desde que não falte vontade, o que e preciso é vontade, olhe eu, com a miúda - quatro aninhos - quase tenho de pagar para trabalhar, mas se nos faltar de comer, já disse, entre morrer ou matar eu mato, ai mato, mato, que a psicóloga até me disse Juliana você está mesmo mal e eu disse Que safôda, não sou eu que estou mal, é o país que é esta merda que se vê. Olhe o meu tio, cinquenta e seis anos, pimba! pró desemprego. Com aquela idade, coitado, mandou-se e está na Noruega a trabalhar nas obras, se isso é emprego digno para um homem! Ganha mil e quinhentos euros mas os filhos da mãe têm o vinho a um preço que não se aguenta, um homem nem uma garrafinha tem dinheiro para comprar. Não sei que vai ser de nós.
Viro a cabeça, preparada para encontrar a imagem do sacrifício, o borboto na roupa, as meias-solas gastas, uns olhos que sejam de cansaço e descrença. Mas cai-me o queixo quando vejo um cabelo com a lisura e o brilho próprios de quem acaba de sair do salão, sapatilhas que despertam namoros platónicos e um iPhone pousado na mesa.
- O que me vale é a minha menina, anda cá meu doce!, olhe para ela, teimosinha que só o diabo, mas é a minha alegria.
- Que linda, toda de cor-de-rosinha - comenta o homem a quem, pelos vistos, a desgraça entrou em casa.
- Ah isso é, só aceita vestir cor-de-rosinha e tem de ser tudo lá com a bonecada que ela gosta, as princesas e o caraças! Tão pequena e já com tanta personalidade. Saiu à mãe.

11.4.14

O corpo da mulher dói

O corpo de uma mulher não é um abrigo seguro para acomodar a alma. O corpo de uma mulher é um sacrifício carregado para toda a parte, que acusa e castiga em todas as frestas e curvas. O que a mulher não fez deixa mancha e o que fez deforma. Por cada filho que não concebe, paga sangrando. Por cada filho que dá, ainda mais se endivida e hipoteca-se-lhe o ventre, os seios, os braços, as costas. O corpo da mulher dói de qualquer maneira. Porque sangra ou serve, como quem vai à guerra, dói. Ovulando, menstruando, inchando, parindo, amamentando, amparando, dói. Rumores, fremências, moinhas, tenazes, lâminas, agulhas, tudo o atravessa e o consome. 
Disfarçamos. Oh, ironia! fracas pareceríamos se soubessem que lideramos uma reunião vertendo sangue em espasmos dolorosos ou que o leite encaroçado nos queima o peito enquanto lavamos escadas. As vozes de fora, que se tornaram já as vozes de dentro, sussurram-nos que devemos comportar-nos com rijeza e indiferença, fazendo de conta que um útero se assemelha a um par de testículos e que a terra é tão fácil como a chuva.

[A cerimónia]

Não separarás, disse ele
com a mão sobre a minha cabeça,
o que foi unido pela dor e pelo dinheiro.

Não cometerás adultério,
nem voltarás 
pelo mesmo caminho 
quando regressares.

Não te afastarás mais 
do que te permitirem
a metade das tuas forças
e a cor, ao longe, do teu telhado.

À tua mesa se sentarão
os aduladores e os caluniadores
sem que os inquietes com a tua reprovação.

E pagarás com trigo
do teu celeiro
aos teus assassinos
e dos teus filhos,
e os abrigarás
se forem perseguidos,
disse ele com uma mão sobre a minha boca
e outra sobre os meus ouvidos.

Manuel António Pina
in "Poesia, saudade da prosa"

9.4.14

Cordas

Certas vidas são como cordas muito retesadinhas e bem apertadas, sem folga para fazer laços.

8.4.14

Pôr-do-sol

Leio à janela, de onde posso ir deitando o olho à brincadeira dos miúdos. Nem sempre é fácil vê-los, porque fazem os acampamentos atrás dos arbustos mais densos e a erva, que não tem sido aparada, só lhes deixa a cabeça de fora. De há uns tempos para cá, as ovelhas andam a invadir-lhes o território, espalham-se como quem faz demarcação, deitam-se e ficam a pasmar. Provocadores, eles correm de um lado para o outro simulando balidos, depois tentam desencaminhá-las para a brincadeira através de aproximações mais ternas e compreensivas, mas a inércia delas desconcerta-os. 
Entendo-os porque sempre tive o hábito de mexer no está quieto e quanto mais quieto mais apetece abanar e provocar. Sucede que cresci e agora, olhando-os à janela diante do rebanho, sei bem que cada um nasce para o que é. Dificilmente uma ovelha abandona o seu tranquilo cantinho à sombra, junto dos seus pares, a sua rotina de pasmaceira e indiferença, o trajeto apontado pelo cajado do pastor. É perda de tempo e energia aliciá-la para outras emoções. A sua existência é limitada e objetiva.
Por isso, é com satisfação que os vejo desistirem do rebanho e vasculharem um arbusto, de onde se liberta, alvoroçado, um enxame de abelhas. O mais novo sai disparado como bala e rindo como doido. O mais velho, doutor em bicharada miúda, faz-se estátua. Por sorte ou sobrenatural entendimento, saem ambos ilesos. Nem sempre assim acontecerá, mas falta-me vontade e convicção para lhes dizer que não se mexe no que está quieto.

7.4.14

Tempo

São muitos os que têm tempo para abrandar a marcha e espreitar a tragédia. São quase todos, os que o gastam a comentar. São raros, os que o arranjam para fazer um desvio e deitar a mão. 
Um dia, quando Deus me der juízo, também eu aprenderei a dizer "não tive tempo, não houve hipótese, nem para me coçar" - sou, como os outros, pessoa com responsabilidades superiores e intermináveis afazeres, cabe-me esse direito. E posso inteirar-me depois dos pormenores, quando tiver a garantia que já ninguém me vai pedir que abandone o carreiro da labuta, a linha de trânsito, a coluna militar, a fila dos condenados, para um simples abraço ou uma palavra de ternura.

3.4.14

*

Andamos sempre tão obcecados com o futuro dos nossos filhos mas, a certa altura da vida, o que importa mesmo é ter um passado.

1.4.14

Beijos

Com vergonhoso atraso, mais um texto publicado em blogue conterrâneo

Baralhar e dar

Não vos baralheis. Não sou marxista, nem feminista, nem ateia e contra o casamento tenho rigorosamente nada. O que eu tenho é asco a farsas, palhaços e lantejoulas, e têm estes tendência a predominar em certos quadrantes, doutrinas e instituições. 
As correntes de pensamento não são coisa que me arraste e comprometa, por isso posso sentir o que quiser. Posso ter afeto às prostitutas da zona industrial, mais do que o que tenho por certas mulheres, que, de forma semelhante mas abençoada, se vendem aos seus maridos. Posso achar, em pleno abril, que os portugueses só lá vão com fascistas e ditadores, porque não sabem tomar conta de si mesmos, são como a canalha que eternamente se fica pela hora do recreio até que lhes deem dois berros. E posso preservar, sã e às escancaras, uma costela anarquista. Posso acreditar profundamente em Deus, não falhar, em cada noite, as minhas orações, mas, ainda assim, ter pena das criancinhas que papagueiam o pai-nosso, sem escolha nem consciência, ao sábado à tarde. Posso achar que certos casamentos são o modo mais caro, festivo e pomposo de morrer devagarinho e posso amar um homem na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na alegria e na tristeza, por todos os dias da minha vida e para além dela.
E posso dizer hoje uma coisa e outra amanhã, apenas porque me deu para pensar melhor ou porque tive uma visão. Essa é talvez a minha única liberdade, a que outros chamarão inconstância, esquizofrenia ou falta de chão onde assentar os pés.

30.3.14

Zona industrial

As prostitutas da zona industrial apodrecem como fruta ao abandono. À sombra dos eucaliptos, onde se depositam lixos e esquecimentos e a humidade faz doer os ossos, acomodadas em banquinhos de piquenique, assistem à passagem dos carros e do tempo. Encarquilham, desbotam, desdentam, incham, infetam. Entram em decomposição antes mesmo de darem o corpo à morte, são restos onde os vermes chafurdam e cospem excreções. É vê-los chegar, inquietos, aos ziguezagues, e encostarem os mercedes e os audis na berma da estrada, que com carros destes só sobra dinheiro para sexo decrépito em matas de eucaliptos na zona industrial. O negócio faz-se rápido. Elas ganham à peça e eles, pelo ouro que brilha no dedo, terão gente em casa à espera.
Lembro-me da minha avó, nascida no início do século passado, quando me dizia um homem precisa, tem necessidades. Mereciam eles desconto igual ao que se dá às mulheres pelas suas futilidades, cada género tem seus caprichos, há que entender para segurar um casamento. Mudam-se os tempos, as vontades nem tanto. E rezam ainda hoje os entendidos que o amor, por ser uma plantinha frágil e cheia de mistérios, só com muito sacrifício e condescendência ganha viço.
Mas, ao contrário de outras senhoras, as prostitutas da zona industrial não se dão às futilidades. As farsas dispensam-se quando a troca de favores é assumida. É certo que às vezes as vejo com um espelho de bolso, retocando os lábios, mas imagino que o façam com princípio igual ao meu quando afio o lápis ou ao do cirurgião quando esteriliza as mãos: preparam o instrumento de trabalho. De resto, não fossem as cores que berram nas roupas, desapareceriam na lixeira.

28.3.14

Delicadeza

Esta noite, o selvagem tocará Verdi. Os vizinhos continuam proibidos de brincar com ele, desordeiro e sujo, sempre borrado de terra e de tinta. É claro que virão pedir-lhe auxílio quando a bola escapar para o outro lado do muro, porque saltar muros não é para meninos bem-educados, exímios na arte de bem manobrar consolas e papaguear o pai nosso ao sábado à tarde. 
Quem tocará Verdi esta noite, por convite e insistência, é o selvagem. 

25.3.14

Osmose

Levo os meus filhos à revisão. A pediatra, mulher da velha guarda a quem bastam as pontas dos dedos e a intuição, abraça-me à chegada, ainda na sala de espera. É um abraço que transcende a clínica, tem a força da solidariedade maternal. 
- Diz-me, minha querida, o que é que te preocupa?
Nadinha, digo, é rotina. Tem este hábito de me tratar assim, como trata os pequenos, quase me pega ao colo e encosta o ouvido ao meu peito. Sempre é preciso perceber como respira uma mãe antes de auscultar os filhos. Igual no mimo que nos dá, parece que entre eles e eu não vê grande diferença. Sabe que cada um de nós é frágil ao seu modo. Porque mãe só parece leoa nas horas vagas e nas lendas. Nas horas realmente difíceis, pode enrolar-se como bicho-de-conta e nem por isso ser menos mãe. 
Fala-me a seguir da filha dela, tem a minha idade mas não lhe deu genro nem netos e de vez em quando precisa de ajuda para pagar as contas, que são maiores que o saldo.
- A vida está difícil para todos... - suspira devagar, os olhos minguam, as costas dobram e as mãos amparam-nas à altura dos rins. O estetoscópio dá-lhe a volta ao pescoço e ausculta o próprio coração, mas não há ouvidos nos extremos.
À despedida vem outro abraço e tão apertado que temo que choremos ambas, nem sei de quê, talvez cada uma do cansaço da outra. Um abraço verdadeiro é uma osmose.
- Fica atenta à visão do mais velho e à audição do pequeno. Mas não ponhas cá os pés tão cedo, que eles estão tão bons... Visão e audição, está bem? Adeus, adeus, minha querida.

18.3.14

Coincidência?

Os escritores que mais me despertaram a vergonha do país que somos foram também os que me fizeram sentir mais orgulho na língua que falamos.

15.3.14

Pedrada

Ensinaram-me a viver atenta e a retirar o extraordinário do que tiver diante de mim: paisagem, silêncio, música, palavra, traço, afeto, diferenças, ciclos, universo. Por causa disso, com esta idade ainda atinjo facilmente elevados níveis de delírio onde outros podem encontrar rotina e frustração. Nunca precisei de substâncias ilícitas para sentir que o mundo é um paraíso, a vida uma revelação e o inferno uma iminência. Para uma pedrada das boas basta-me às vezes pensar em sinapses ou na Lei da Gravitação Universal.

14.3.14

Desespero de causa

Hoje, era de abrir caixa de comentários e deixar a pergunta: qual é a música que vai melhor quando se escreve, capaz de abafar a conversa à roda do futebol e animar as ideias que tenho, espartilhadinhas, suplicando ar? 

13.3.14

Eu sou livre mas tu não!

Somos um povo que defende com unhas e dentes a liberdade de expressão mas que, no fundo, não a suporta no Outro. Na hora de a reivindicar, arregaçamos mangas, avançamos sem medo na linha da frente, subimos o tom de voz. Mas na hora de a aguentar, muda o caso de figura. Salvo nos casos em que quem se exprime faz coro connosco, o discurso alheio desperta-nos raivas e faz-nos desbocados, dispostos ao insulto e à ofensa que, claro, alegamos ser por direito à liberdade de expressão. Se alguém pensa diferente de nós, o melhor é que se cale e não nos inquiete, tire o sono ou toque nas feridas. 
Dizemos na cara, sem tremer das pernas. Somos frontais, é o que gostamos de apregoar - sempre fomos bons nos eufemismos. Insultamos o ministro, o cronista, a dondoca, a funcionária da Zara, é direito nosso, ora bolas!, conquistámo-lo com uma revolução. Mas se o ministro, o cronista, a dondoca ou a funcionária da Zara dizem diferente de nós, cai o Carmo e a Trindade. Que direito têm eles? Mas quem se julgam? Não têm noção? Ah, bando de frustrados e mal-amados! Toca de lhes desenterrar o passado, descobrir os podres, qualquer coisa que os descredibilize e lhes tire o direito de pensar e dizer.
Eu cá não sou ministra, cronista,  dondoca ou funcionária da Zara, mas tenho um blogue que não é patrocinado nem desenhado por encomenda. Nele, confesso, gosto de provocar e acender. Está-me na massa do sangue, é por herança e educação que tenho o gozo de reenquadrar, perspetivar, e se...?. Mas as calúnias e injúrias, que são a arma dos desargumentados* , essas não me cabem no discurso. Prefiro compo-lo com brio e elegância, como os leitores merecem. Por isso, muito me espanta ser insultada por quem se encontra e afirma feliz no casamento e decidiu escrever-me, movido sabe-se lá por que profundo desassossego ou mágoa. Parece que o último post incomodou, lá terá mexido onde não se queria e vai de discorrer ofensas. 
Defraudei expectativas? Pois quem mandou tê-las? O que vos prometi que não recorde de momento? Passar a mão no pelo das ovelhas? Óleo para a engrenagem? Romantismo? Sonhos cor-de-rosa? Ansiolíticos?
Antes de ser uma lei, a liberdade de expressão é um valor. Antes da Constituição, deve estar na consciência. Os nossos cartazes nas ruas e gloriosas citações nos facebooks soam ridículos se a nossa verdadeira perspetiva for intolerante, egoísta, violenta e obcecada com ajustes de contas por dá cá aquela palha. E agora que andamos todos entusiasmados com o marketing à volta dos 40 anos do 25 de abril, era bom aproveitarmos para ponderar se queremos continuar a ser porcos indignos de pérolas ou se, de uma vez por todas, vamos abrandar, calar, refletir e aprender o alcance e o propósito da palavra liberdade. Que, tal como o nome de Deus, não deve ser invocada em vão.

*este termo não existe, mas foi o único que me satisfez.

12.3.14

*

O casamento é um processo de domesticação mútua que pode deixar qualquer um incapaz de voltar a viver de acordo com a sua própria natureza. Nada que ver com amor.

9.3.14

Acerto de contas

Num imaginário acerto de contas, podia exigir-te de volta tudo o que te dei. Mas como reaver um segredo ou repor um suspiro na profundidade de onde saiu? Ordenar-te que aqui, na minha mão, entregues já o cheiro e a consistência do meu cabelo, como? E as coisas que escrevi em teu nome? Como desmontar as orações e as palavras em partes miúdas e depois em letras avulsas que eu fizesse regressar, com insensível rigor, ao alfabeto? Resultaria alegar que é só empréstimo o que de mim te faz melhor e mais feliz? Que autoridade ou negociação me valeriam na hora de resgatar todo o meu ser aos teus pensamentos?

8.3.14

Diferenças

Amo os meus filhos de formas diferentes e os três o sabemos. Amo um com fascínio e angústia, de queixo caído. Amo outro com uma doida, insuportável ternura, que me põe em carne viva logo pela manhã. Porém, aos olhos dos outros, não há motivo para amá-los senão de uma mesma forma - tranquila e consistente - pois que dormem bem, comem o que se lhes põe no prato, alimentam boa conversa e não negligenciam as regras da boa educação.
Há um lado terrivelmente solitário no sentimento da maternidade. Nem as mães, entre si, podem presumir compreender-se.