9.12.16

Repouso

Branca como a cal, de joelhos trémulos, pernas incapazes, o cateter enterrado na veia, diz à cunhada, pelo telefone, das últimas novidades:
– ... então ele acusou-me "tu gostas é de hospitais" e já vinha para me bater como de costume, mas eu fiz-lhe peito.
Não é a história que me impressiona. É o modo de contar, sem peso nem gravidade, sem revolta nem comoção. Natural, como quem partilha o dia que acaba de nascer, o sol a leste condenado a pôr-se a oeste. O costume. E o costume instala-se, cava lugar, faz ninho, petrifica e, de repente, é ele a própria vida mais as suas causas e o seu destino. Na hora do balanço, alguém que se responsabilize por isso. Pode ser Deus, se assim entenderem.
– Olha, ele está a ligar-me, depois falamos.
Atende o seu homem e fala-lhe mansamente, tem na voz uma ternura habituada, um timbre de amor crónico, desse que aguenta todas as penas e dores por julgar não haver remédio ou por ver grandeza no que se constrói com sacrifício e cedência.
– Sim, estou bem, a sério.
Quando a enfermeira a vem chamar, desliga sem adeus e levanta-se. É um nico de gente de peito côncavo e mãos infantis, a pedir que a aviem depressa porque tem muito que fazer em casa. Na sala de espera, outros ficam a dormir nas macas, vejo-lhes os buracos nas solas dos sapatos, o recorte descarnado de rótulas e cotovelos, os coágulos de sangue no lençol, o rasto imundo de lágrimas já secas, o cansaço que, chegando ao limite, procura, enfim, uma cama onde se confessar. 
O hospital é o repouso dos miseráveis.

7.12.16

Comigo está tudo bem

Há cada vez mais mulheres a cometerem crimes violentos. Quando uma tragédia nos comove em massa é porque tem uma de duas características: ou abala a nossa exemplar Europa ou as vítimas são jogadores de futebol. Somos pobrezinhos mas, fazendo fé nas sugestões para o Natal, continuamos pirosos e berrantes, com o predomínio do dourado e dos padrões felinos. O homem do snack da esquina usa luvas como mandam as regras de higiene, mas com as mesmas que prepara a comida ampara a boca ao tossir. Na rua, os donos dos cães perguntam-me se os meus filhos são mansos quando eles se chegam para fazer uma festa. A solidariedade é uma mina. A cara do António Costa ao lado dos reis de Espanha lembrou-me a minha, bacoca e deslumbrada, quando um pintor célebre viu os meus desenhos e me fez uma festa na cabeça, tinha eu nove anos. A preocupação com a humanidade continua a ser muito bem simulada: noticia-se o que desde sempre é sabido e conveniente como se tivesse sido acabado de descobrir, desde o mau uso dos medicamentos até à indigna exploração de mão de obra. O mundo é um lugar francamente mau. Não tão mau quanto os jornais nos querem fazer crer, mas pior ainda.

11.11.16

Na manhã seguinte

Não tenho dados nem certezas, mas creio que a morte prefere chegar durante a noite. Clinicamente falando, pode ser pelo mesmo motivo que se agravam as tosses, as dores ou as febres: porque a vulnerabilidade dos organismos aumenta quando o sol se põe. Prefiro pensar que, por misericórdia, a morte não quer ser vista. Que se disfarça nas sombras e se confunde com os ruídos que a imaginação amplia e deforma, o grito de uma ave de mau agoiro, o choro de um bebé sem consolo, o arfar urgente de dois amantes, o ladrar vagabundo de uma matilha, a premonitória tensão dos gatos, a folhagem varrendo o parapeito da janela. E entre o pavor da existência, a sobredimensão do trágico, o remoinho de todos os mistérios do universo, quem desconfia, quem dá por ela, se tão bem encaixa? Não a vendo, ninguém ergue resistência. Não há lugar a combates vãos e desiguais. A dor dos outros acorda na manhã seguinte, sem ter testemunhado o pior. É quando Deus corre a desculpar-se, estendendo o seu braço de luz para dizer que a vida continua.

10.11.16

Eppur si muove

- Já viu? Um tipo daqueles, um anormal, uma besta... como é possível? 
Fiel seguidor de vários canais de televisão, atento aos lençóis opinativos que se estendem para aconchegar os indecisos ou ignorantes, é capaz de repetir tudo o que já leu e ouviu com tiques, termos e interjeições iguais. Blá blá blá blá blá. Não esperava outra coisa. É o senhor Pereira de sempre, uma estaca empedernida, um papagaio engasgado com excesso de informação, as rugas e o ranger dos ossos acentuando-se sem originalidade ou sabedoria. O discurso, que a mulher foi validando com acenos de cabeça, terminou num gesto largo, inspirado, dramático, e no pior dos clichés: o mundo como o conhecemos tem os dias contados. 
Simulo inocência e espanto: ai, credo, isso está na Bíblia? A mulher do senhor Pereira revira os olhos baços, amarelados, de pálpebras frouxas. Sei que lhe falta paciência para os meus comentários e, de quando em vez, precisa de respirar fundo para não me mandar plantar batatas nesse interior pasmado e ignorante onde nasci.
- Lá está a menina, não leva nada a sério... - diz ele, descontente, puxando os ombros à resignação.
Senhor Pereira - não lhe digo - eu de facto só conheço um mundo, tem biliões de anos, é o mesmo que Fernão de Magalhães descobriu por um acaso ser redondo, que Copérnico provou não ser o centro do universo, que Galileu jurou baixinho que se movia. É ainda o mundo onde desde sempre os homens se curvaram a outros homens, onde territórios se ganharam e perderam consoante as ganâncias e dos medos, onde por ordens imaginárias dos deuses se cometeram crimes, corromperam crianças, violentaram mulheres, assassinaram crentes, onde a fome de uns deu de comer a outros, e a glória de alguns custou o sacrifício de muitos. É o mundo onde a ignorância é conforto, o consumo é paliativo, a opinião é entretenimento. É o mundo onde o bem sempre foi imposto pela via do mal e por isso não pega nem medra. O mundo que a Igreja nunca salvou, nem a Europa civilizou, nem a América protegeu, mas que tão perversamente soube alimentar a ilusão do contrário. É, com efeito, o mundo onde a etiqueta se pode aprender até pela internet e onde as leis têm vindo a regular os atos dos homens mas jamais poderão evitar que as suas emoções, desejos e vontades sigam por atalhos onde a justiça não é apenas cega, mas também surda, muda e coxa. Está a dizer-me que tudo isso que existe desde que o mundo é mundo, o bicho é bicho e o homem é homem, tem os dias contados?
Desconhecendo os meus pensamentos, a mulher do senhor Pereira aperta-lhe o braço, espeta-lhe as unhas como quem se agarra ao pouco que tem de segurança e valor:
- E aquele modo de falar, aquele cabelo, aquela pele? É nojento! É nojento! É NO-JEN-TO! Cá para nós que ninguém nos ouve, espero que alguém acabe com ele.

(Sou uma cética de nascença. E isso, pese embora o facto de me manter a esperança em níveis mínimos, também me livra dos contagiosos horrores do pessimismo.) 

2.11.16

Urgência

Cinco anos sem pôr os pés num hospital e cai-me o queixo. O quádruplo em taxas moderadoras, um décimo da eficácia clínica, da qualidade no atendimento e da sensibilidade. O serviço nacional de saúde - que sempre defendi e preferi - cobra mais caro enquanto sucumbe, como outros, à humidade nas paredes, ao azedume dos profissionais, ao cenário de abandono, a dolorosas e solitárias esperas.
Este é o país em que os impostos não servem para manter a segurança, a eficiência e a estabilidade da máquina, mas para tapar buracos. Caro cidadão, empreste-me aí mais cinquenta euros para uma urgência, assim que possível devolvemos, nem que seja preciso pedir a outro. O retorno será sempre na proporção inversa da quantia pedida. Mas está tudo bem comigo, sou imune a certas ilusões, nunca contei ser salva pela esquerda, pela direita e muito menos pelo centro. Não sou tola de confiar numa gestão com mil anos de maus vícios.

27.10.16

Epílogo


Desde que se conformou com o facto de eu não lhe dar moeda, o arrumador conta-me histórias. Antes que me suponham má pessoa, inimiga dos coitados, saibam que à hora a que chego a praceta está deserta, sobeja espaço até para acampar, não preciso que ele me acuda. Porém, conhecendo-lhe o vício da nicotina por vê-lo amiúde a vasculhar os cinzeiros públicos, de quando em vez arranjo-lhe cigarros, que ele agradece dobrando-se numa vénia. E dou-lhe conversa, coisa que nunca desvaloriza e muita gente mendiga. É um homem à entrada da velhice. Polido nos modos. Mesmo quando se abespinha, não se lhe ouve comentário ou insulto, deve ser para dentro que enfia as suas raivas. 
Ontem, apanhando-me a sair do carro, contou-me de um lisboeta que veio cá acima para uma reunião e que, depois de lhe pedir conselho sobre os melhores pratos e restaurantes, acabou numa cervejaria, a comer um prego. O arrumador contava-me isto rindo com gozo e desdém: "e eu disse-lhe ó homem, olhe que é preciso ser muito ignorante para vir ao Norte e comer um prego!" Enquanto falava, caminhava ao meu lado devagar, caminhava como um cavalheiro, de mãos nos bolsos, vertical proprietário dos trapos que vestia, das unhas encardidas, da praceta vazia, sem pedir ou reclamar do que lhe falta. Estava certo de me ter como cúmplice, porque cá no Norte, em todo o Norte, quando se trata de rir à socapa de quem vem de fora, não há barreiras nem inimizades. Enfim, é uma mania de superioridade que temos, absurda como qualquer outra mas tão inócua que até enternece. 
Esgotados os comentários e a risota - até mais logo - ele trocou-me por outra senhora que acabara de estacionar e lançou-se no mesmo relato sobre o lisboeta, mas logo às primeiras palavras ela cortou:
- Não pode ser, não tenho trocos.
Ele estacou, alinhou a pala do boné e, com mais gozo do que incómodo, de si para si:
- Esta deve ser das que vêm aos pregos.
Riu gostosamente, exibindo as abertas na dentadura, e voltou ao seu posto de serviço.

Dezembro 2014


- Diga lá a menina: entre um coelho e um porco-espinho com um ano de idade, quem é o mais velho?
Sem paciência para esperar, logo encadeia a resposta:
- O porco-espinho, porque tem um ano e picos!
É o arrumador. Apanha-me debaixo de um aguaceiro, veio a passo rápido, como é seu costume quando tem mote de conversa. Eu a sair do carro, às aranhas por causa das tralhas que me obrigo a carregar, o saco a deslizar-me do ombro, o fecho da mala encravado, o telemóvel a um passo de mergulhar em poça de água, não me sobra mão para abrir o guarda-chuva, menos ainda para fechar as portas. E ele de mãos nos bolsos, feliz de nada carregar, fazendo depender o seu ritmo da história que urge contar e o seu rumo do lugar onde estiver quem a escute. 
Não compreendo este homem. Bem falante, informado, opinando com lucidez e independência sobre o Charlie, o Salgado, a bola e os insólitos do quotidiano, recusando-se à lamúria e à pedinchice, rindo com uma disposição que, pela fresca da manhã, o português não costuma ter e muito menos oferecer. No passo, nos gestos, nos olhos e no hálito não há sinais de vício pesado. Se é por fado, castigo ou escolha que ali anda, amealhando trocos em bolso roto à custa de apontar lugares vagos, tenho ainda por saber.
Andasse a vida sob a responsabilidade exclusiva da imaginação e arrumá-lo-ia eu onde me fazem sentido os seus modos: num distinto palacete, acomodado em poltrona robusta de tecido adamascado, mastigando um Porto vintage, ao lado uma pilha de livros anotados, ao redor dez netos à espera de o ouvir contar ou, em dias mais ligeiros, de saber que motivos há para aprender a rir de tudo isto. E punha-lhe os dentes que faltam e que mais merece quem não deixa enrijecer os cantos da boca.

Janeiro 2015


Hoje não é feriado, mas o país está fechado para descanso do pessoal. Nem o arrumador compareceu no seu posto de trabalho. Conhece o biorritmo da cidade, sabe que hoje só os tolos madrugam. Os outros, os empenhados, os imprescindíveis, os que se atropelam no trânsito e estão dispostos a pagar por um lugar grátis para não atrasarem as suas imensas responsabilidades, não vieram. Eclipsaram-se-lhes as urgências. Nestes dias, só nestes dias, realizam que, afinal, não é por vinte e quatro horas que lhes vão sentir a falta. 
Amanhã retoma-se o desfile, o fato de lantejoulas, o bamboleio das nádegas, a festa dos talentos, a paliativa distorção do nosso papel no mundo.

Fevereiro 2015


- Já ninguém sabe escrever! 
Disse-me, esta manhã, o arrumador. Sacou do bolso uma página de jornal dobradinha em quatro e estendeu-a no capô do meu carro, alisando muito bem os vincos. Primeiro, fui tomada por uma arrogância provinciana, um elitismo de trazer por casa, e pensei não, isto eu não vou discutir com o arrumador. Saí do carro pronta a fazer ouvidos moucos e a dissuadi-lo com o argumento da pressa e de mil afazeres à minha espera. Mas já ele insistia:
- Isto é uma tristeza! 
É que pouco importa ao arrumador a disposição e a pose de quem chega. No meu caso, que não dou moeda, tem sempre fé nos dois ou três minutos de conversa a que costumo prestar-me. É franco, sem disfarce, o gozo que manifesta quando bato com a roda no passeio ou estaciono onde é sabido que por todo o dia o sol baterá sem filtro nem piedade. Também não tem pudor em fazer ironias com as senhoras que estacionam em segunda fila para ir ao salão arranjar as unhas. Disse-me que qualquer mulher devia saber tratar das suas mãos e que aquelas não mais fazem do que pagar para ter com quem conversar, pois toda a gente sabe que essa é a verdadeira serventia de um salão.
À página do jornal já aberta no capô do meu carro, acrescente-se os olhos dele muito agarrados aos meus e o jeito que não tenho para amanhar desculpas. Com tudo isto, bastou-me meio segundo para converter a arrogância em cumplicidade. E dei comigo a rir com uma maldadezinha inócua que é, no fundo, semelhante ao gozo dele quando eu bato com a roda no passeio:
- Ora mostre lá quem é que escreve mal.
- Leia isto!  - levantou a página do jornal com as duas mãos, como quem tira as medidas a um quadro antes de o pendurar.
Pensava eu ir encontrar um erro de palmatória, um vergonha gritante, e afinal era uma daquelas imprecisões com que só os puristas embirram. Quis dar o desconto, mas a falta de convicção pôs-me a gaguejar:
- Bom... talvez não seja propriamente um erro... vendo a frase no seu todo... quero dizer... e a palavra tem aspas.... ou seja...
Ele recuou e sorriu de lado como os garotos:
- Engane-me, que eu gosto! Só usa aspas quem não está para se dar ao trabalho de encontrar a palavra certa. Portanto, só usa aspas quem não sabe escrever. É ou não é? 
A voz cresceu, crescendo-lhe também o peito, insuflado de satisfação e certezas:
- É OU NÃO É?
Há dias em que o arrumador é a única pessoa a quem ouço dizer alguma coisa que valha. 

Agosto 2015


O arrumador refila contra quem veio chamar-lhe a atenção por dar o pequeno-almoço aos pombos. Pôs-lhes a mesa à sombra de uma árvore e desse modo faz todos os dias e continuará a fazer, garante-me. Com efeito, lá estão os restos de pão atapetando a calçada. E o bando, num alvoroço de fazer vento, vai largando penas e outras porcarias sobre os automóveis, que nesta zona são dos bons e tratados com muito afeto.
Arrisco:
- Diz que os pombos transmitem doenças...
- Ora essa! Já viu alguém morrer por causa de um pombo? Sempre lhes dei de comer e olhe para mim. 
Dá uma voltinha. Está velho, mas, ignorando a dentadura, parece inteiro e robusto.
- Ver, não vi, mas...
- Tretas! Todas as espécies da natureza merecem a consideração. 
- É que os pombos depois proliferam sem controlo e...
- E então? O mundo é muito grande, há lugar para todos e é bom que haja de comer também.
Não sei lá por que cargas de água ou forças ocultas, atrofia-se-me o pensamento e a língua na hora de responder ao arrumador. O pouco que digo não presta nem convence. O melhor é desertar.
- Olhe, tenho de ir, estou em cima da hora para uma reunião.
- É, é...

Setembro 2015


Morreu o arrumador. Foi o que disseram os que logo açambarcaram o seu posto para duplicar rendimentos. Olhe, morreu. Com efeito, já não o vejo há alguns dias e, da última vez, fazia a rota habitual, recolhendo sobras nos cinzeiros públicos, atingindo os medíocres, os malcriados e os oportunistas com o seu riso lateral e a sua indiferença. Para mim, que não tenho televisão, o arrumador era o noticiário, o comentador da atualidade, lúcido e incorruptível, o programa da manhã, a crónica humorística que escancara o avesso do mundo. Fiz dele personagem de alguns textos, forma que arranjei de sacudir das costas o peso, a gravidade e o cinismo das suas sentenças.
Talvez tenha regressado à vida antiga, a que eu lhe imagino, num palacete de labirínticas bibliotecas e madeiras nobres, cheio daquele silêncio que enxota os juízos superficiais. Talvez tenha, portanto, morrido o arrumador, mas tenha renascido o homem. A família veio resgatá-lo. Os filhos decidiram perdoá-lo. Apareceu uma prima emigrada há décadas para o levar daqui. Invento estas e outras possibilidades para acreditar numa justiça que salve em terra.
Esta manhã, à porta do edifício, duas senhoras lamentavam este modo de a morte chegar. Ainda outro dia o vi, nada fazia prever... Nada?! Esquecem que quando alguém nasce, a única coisa que traz escrita é o epílogo? Até lá, claro que a morte é muito insuspeita, nem sempre dobra a espinha ou embaça os olhos ou prepara o leito com vagar e grandeza. Cativos do enredo, os mais distraídos tomam-na por traição, mil insultos lhe gritamos, mil pragas lhe rogamos, mil perguntas lhe fazemos. Chegamos ao ponto – miserável – de lhe insinuar que devia ter levado outros.
Nunca dei uma moeda ao arrumador. Nunca temi que me riscasse o carro ou furasse um pneu. Nunca tive pena dele. Mas sei que houve dias em que ele teve pena de mim. 

26.10.16

O tempo deles

Pelo cheiro das alvoradas, o mais novo sabe o tempo que vai fazer. Quando lhe pergunto se choverá, abre a janela, fecha os olhos, respira fundo e avisa: sim, mas só de tarde. Ou vai limpar e vem aí calor. Nunca se engana. Às vezes brinco com ele, digo-lhe que é como os velhos, que têm os indícios do tempo nas dobradiças do corpo. Com legitimidade, ofende-se, alegando que, no seu caso, não se trata de uma condenação mas de uma arte. Já lhe sugeri que aprendesse o método de interpretar as nuvens, de onde se recolhem infalíveis previsões com razoável antecedência. Mas, ao contrário do mais velho, este não é de andar com a cabeça lá em cima. É um bichinho da terra, um escavador, um colecionador de objetividades. À custa do tato, do toque e do faro faz o percurso, decifra o segredo e fabrica o ninho. Por isso não me larga o colo e ainda tem ganas de enterrar o nariz na curva do meu pescoço. Ri-se das asas do irmão, com um menosprezo sóbrio e desconcertante, lembrando-lhe as quedas em que sempre culminam os grandes voos. 
E enquanto um adivinha, sem erro, o tempo que vai fazer, o outro sonha com o dia em que se há de fazer o tempo desejável. Fazem-me os dois muito jeito neste andamento incerto e desesperançado que, às vezes, a vida tem.

19.10.16

Ão, ão, ão

Desce à rua a jovem mulher a passear o cão. Caminha com a pose de passear o cão, veste a roupa de passear o cão, tem o penteado de passear o cão, ri com estilo para o cão, tudo uma exibição, certo na proporção, calculado desde a meia ao travessão. Depois, o cão baixa o rabo e borra o chão. A mulher com pose, roupa, penteado e riso próprios de passear o cão, faz de conta, simula distração. No passeio e no relvado, deixa o cão o seu torrão. Que limpem os que são pagos para essa obrigação. Ela, Deus a livre de sujar a mão! Então, passa o homem que vem para a reunião, caminhando com a pose de quem vem para a reunião, o fato de reunião, a pasta e os papéis de reunião, a segurança de quem vai ganhar a reunião mal disfarçando uma ruga de tensão. Ela olha-o de raspão. Ele atrapalha-se com a visão, perde o rumo e a atenção. E o sapato, que por acaso também era sapato de reunião, acerta em cheio com o tacão na merda fresca do cão. 
Da janela eu aprecio e ganho a convicção: para quê a ficção se o real é perfeição? E que fácil é a rima entre um pavão, uma mulher que se julga um avião e o excremento no chão. Sem arte nem imaginação, retrata-se a confusão. Só falta mesmo dar nomes aos personagens da ação. Para ele escolho Simão, ela fica Conceição. Mas quanto à raça do cão, graças à coincidência, dispensa-se a invenção.

18.10.16

Exercícios

Já lá vai o tempo em que o mais velho fazia exercícios de matemática ao som de Bach e, por favor, que ninguém lhe interrompesse o raciocínio ou lhe tirasse os auscultadores dos ouvidos. Depois entrou nele à má-fé a adolescência, por todas as portas que a infância deixa inocentemente escancaradas - pele, alma, nervos, sentidos. Começou a correr-lhe nas veias um sangue obstinado e transformador e o ritmo da sua respiração pôs-se em dissonância com o dos clássicos e nas folhas de quadrícula evidenciaram-se as grades de um cárcere. Subverteram-se-lhe as vontades. As hormonas encorparam-lhe a vocação para o sonho e para a recusa do que é disponível e concluído. Inflamam-se as contradições como as borbulhas. Às vezes ainda o apanho distraído a cantarolar Bach. Achando-se observado, muda a frequência para uma modernice qualquer de rimas fáceis e acordes esquizofrénicos.
Num exercício de memória que me desperta a ternura e a compreensão, lembro o tempo em que a língua portuguesa dissecada no caderno era o pior dos meus tédios e o instante em que o meu pai se sentava na poltrona a escutar ópera e a fumar, a maior das torturas. Mas se, por recordar e me rir das voltas da vida, me ocorresse dizer ao mais velho um dia vais dar-me razão, perder-se-ia o encanto disto tudo.

14.10.16

Bob Dylan e um beijo

Eu tinha uns quinze ou dezasseis anos quando o Bruno, apanhando-me com um livro de Eugénio de Andrade, me perguntou se alguma vez eu tinha lido as canções de Bob Dylan. Não. Então devias ler. Mas o Bruno era o totó, o filhote da professora, meio bambo das pernas e atrasado nas hormonas, nem barba nem ombros, só borbulhas e fraquezas, havia de lhe dar ouvidos? Uma vez pediu-me, por favor, que lhe desse a provar a consistência de um beijo. Não via modo de o obter por paixão, ao menos que fosse por generosidade. Um único beijo, um beijo misericordioso, compassivo, só para saber como era. A ti não te custa nada e para mim é muito. E pediu-mo com tal humildade que me comovi e vacilei. Mas porque nunca fui de beijos por favor nem de leituras a conselho, virei as costas ao Bruno. 
Afinal, ele era um visionário. Por onde andará?

13.10.16

Órbita

No final do dia de ontem, assisto a uma inesperada desgraça que, por solidariedade, tomo como se fosse minha, perdendo o sono e a quietude. 
Ah, não bastassem os aguaceiros e as trovoadas, a crescente antecipação da noite, o véu melancólico que cobre e uniformiza todos os rostos, ainda acontecem outras coisas, indiferentes aos ciclos, estações, climas e estados. Pouco importa a Deus ou ao Destino que, para alguns, o cansaço de viver já tenha levado a melhor. E pouco importa que se creia num ou noutro, já que nenhum se faz notar com bom conselho ou carinho na hora do desespero. Antes dá mais um aperto, um beliscão, joga um imprevisto, provoca um equívoco fatal, de preferência num dia de paz, desses em que se admite baixar a guarda e reaver a esperança. 
Quem está vivo que aguente, puxe pelos braços, invente forças, desenterre coragem, pinte quadros, escreva poemas, cante versos, faça discursos. E que se matem uns poucos para que muitos, assustados, redobrem forças na fuga à tragédia. E que uma minoria tenha a paz, a sorte, o prémio, para semear a crença geral de que, perseverando, tudo melhora. Assim a dor faz o mundo girar na sua órbita.
A quem servimos com este espetáculo cíclico de luzes, sangue, comédia e lágrimas, que faz a noite suceder ao dia e arranca a folha depois de dado o fruto? 

6.10.16

Os meus inimigos

Muitos dos meus inimigos, venci-os sem desembainhar a espada. Findas as batalhas, reparei como eles se haviam transformado. Nos seus olhos, que eu jurava chisparem, havia apenas o brilho vital das emoções. No modo de incharem o peito, onde eu vira arrogância e tirania, havia só o medo do chão rasteiro onde nos sepultam e esquecem. Até as palavras, que me pareciam amargas e cortantes, não eram mais do que o assomo de velhos fantasmas, más memórias, sonhos descartados. E reparando com vagar e consciência nisto tudo, constatei, pela primeira vez, que eles nem sequer estavam armados. 

4.10.16

Admito que há um país...

... onde a qualidade de vida é tão magnética que para lá migram os que não se contentam com a mediocridade e a solidão. Multiplicam-se oportunidades e amigos, e para todos os sonhos guardados há uma saída, um palco, um gabinete, um banco, um palácio.
E a paisagem? Ah, a beleza de um horizonte recortado pela geometria do betão! E os cânticos nas ramadas de asfalto? Um buzina, logo outro responde, e outros entram no coro, como os pássaros no seu alvoroço primaveril! E a azáfama organizada dos enxames que zumbem nos hipermercados, nos centros comerciais, nas esplanadas? E quando a noite cai, como é magnífica a cintilância da iluminação pública, capaz de apagar as luzes do céu e as luas do mês. Para notar os ciclos bastam os saldos e as temporadas das séries.
O tempo aqui é um recurso tão abundante que as pessoas podem dar-se ao luxo de gastar uma ou duas horas por dia em repouso dentro dos automóveis, dinamizando as circulares e cinturas internas e externas que ligam os centros às periferias e as periferias aos subúrbios e os subúrbios entre si. Impossível a solidão instalar-se e vingar, pois tudo é construído para a proximidade e o aconchego. Bastam as paredes, os exaustores, os sistemas de ventilação, o alta-voz, para sabermos uns dos outros. E caso o que se sabe seja coisa de assustar, há polícia, bombeiros e hospitais a rodos, que acorrerão como é seu dever, não exigindo cuidados e preocupações aos vizinhos. 
Às vezes, neste país, ninguém consegue dormir. É quase Nova Iorque!
Posto isto, havendo tantas oportunidades, organização, tempo, espaço e convivência, como entender que haja muitos em desespero, desabafando estou farto, um dia destes largo tudo dedico-me à agricultura? Julgam por certo que ser agricultor é ficar na sombra de uma árvore aguardando a queda do fruto e viver com entretenimento semelhante ao das quintas pedagógicas.

(tendo em conta isto)

3.10.16

Reverso da virtude

A menina, por mais anos que passem, há de parecer sempre uma menina.
É assim que o senhor Pereira me faz saber que não tenho motivo para preocupação. Fica claro que é inocente o modo de me afagar o ombro, que só há ternura no beijinho repenicado, que é de orgulho paternal o elogio ao meu corte de cabelo ou à roupa que levo. 
O senhor Pereira só fraqueja diante das mulheres. Mas para aos seus olhos ser mulher, é preciso ser distante e superior. Bater os tacões, avançar o peito, cumprimentar de fugida, olhar de lado, mover-se como quem chama. É preciso ter uma virtude escancarada e o seu diabólico reverso. A viúva de corpo selado e lábios muito vermelhos, a afrodite tatuada, a doutora com gosto de humilhar, só essas são mulheres. Eu sou uma menina. E a minha meninice proteger-me-á dos seus delírios. Não espreitará o meu decote nem se embalará ao ver-me passar. Não hei de provocar-lhe tensão, sonho e sofrimento ao mesmo tempo.  É por isso que lhe digo sem receio o quanto me agrada encontrá-lo. Mole e inofensivo, dá-me a palmadinha habitual no rosto: a menina é uma querida. Nem imagina que é do mote para uma história que estou à espera. Eis o reverso da minha virtude.

30.9.16

Retrato

Há coisas que lembro como se fossem retratos. Desses em que, num único segundo, num divino vislumbre, se revela, congelado, o sintoma de todo o absurdo, angústia, paixão, miséria, grandeza ou enigma do mundo. Não sou protagonista de nenhum desses retratos. Mas alguns perseguem-me, aparecem como lembretes depois de uma curva, no despontar da madrugada, ou naqueles instantes em que a tranquilidade me sustém, deliciosamente, na antecâmara de um sono profundo.
Porque a moldura é apertada, nunca recordo o supérfluo: em que dia foi, que tempo fazia, como começou e o que se deu depois. Não há ar, profundidade de campo, paisagem. Não os havia esta manhã, quando vi um garoto da idade do meu filho, bonito, limpo e bem vestido como ele, de mochila às costas, sovando a cabeça da rapariga com quem ia de mão dada. Vi pelo retrovisor, travei de repente, por um triz me bateram atrás, os condutores que me seguiam enlouqueceram, dispararam as buzinas, o garoto e a namorada desapareceram no virar da esquina. Terrível fatalidade: rua de sentido único.
O resto do caminho chorei como não é meu hábito chorar. Começou por chorar, angustiado, o meu coração de mãe. Depois chorou de raiva o meu coração de mulher. E chorou também de medo o meu coração de filha. Por fim, quando estacionei o carro à porta do trabalho, chorei somente como cúmplice. 
E o retrato ficou.

29.9.16

Visões do amor

A rapariga da papelaria insiste que só há de ser mãe de homens e pede a Deus que ajude, fazendo, não conforme a Sua vontade, mas a dela. Muito saudosa do que ainda tem por viver e que não dispensa a dádiva de um amor fecundo e, de preferência, eterno, inclina a cabeça e olha para os meus filhos, espreguiçando-se num sorriso: eles têm cá uma adoração por si... Vou para corrigi-la, adorar não é o termo, mas desarma-me todo aquele romantismo. Além disso, noto-a cada vez mais descrente. A mudança de visual deu em nada, as velhas lá da rua continuam a querer impingir-lhe homens sem graça nem emoções, é deixá-la ao menos supor, fantasiar.
Ouço dizer que as meninas, a certa altura, tornam-se inimigas das mães, explica-me ela, e não estou para isso. Já os meninos, ah!, tratam a mãe como princesa, rascunham nela as primeiras visões do amor e hão de escolher as namoradas por comparação, lembrados do seio, das papinhas, do cuidado pronto e sábio. Ao dizer isto, cruza os braços sobre o peito, fecha os olhos e embala o filho imaginado que a há de compensar por tanto tempo à espera do verdadeiro amor. Depois, as mãos escorregam até ao ventre, onde deposita a esperança desse ajuste de contas com a vida, e, ignorante e leviana, sussurra-me: invejo-a tanto.
Disfarço o arrepio, deixo votos de felicidade e saio sem lhe dar as costas.

28.9.16

Sementeira

Eles sustentam o ânimo com futebol. Elas com o diz-que-disse. Noutros assuntos, se alguém os puxar, fingem interesse e até alguma preocupação, envolvem-se na medida do possível, recorrendo a frases feitas para se livrarem de aprofundar o debate, "nada a fazer, é o país que temos""é inútil discutir porque não se chega a conclusão", "não percas tempo a indignar-te". 
Mas é ver como se iluminam e respiram do alívio de quem retorna a casa se a conversa volta a cair na nova aquisição do clube ou em suposições sobre a outra que ali vai. Assim se preserva um bom ambiente, uma duradoura camaradagem que é feita, não de afinidades de alma e intelecto, não de enriquecimento mútuo, mas do consumo dos mesmos paliativos. Nada disto seria tão insano se a maioria não vivesse em permanente temor do que o outro julga a seu respeito, cuidando muito bem dos seus gestos, do modo como atende e sorri, do falso elogio que dirige, da babosa disponibilidade para o favorzinho de circunstância que não dê muito trabalho. 
Há lugares que parece que foram especialmente talhados para sementeira de hipocrisias. Na hora de colher, é o grau de maleabilidade do caráter que determina quem mais açambarca.

27.9.16

Há um país...

... em ambos os extremos da autoestrada número um, onde se romantiza com o cheiro de lenha queimada e se toma o odor dos canteirinhos encharcados do condomínio pelo aroma franco da terra molhada. Orgulham-se quando lhes dizemos que ali é que é, cultura a rodos, ao nível das melhores da Europa, os guias turísticos não mentem, o futuro está mesmo para ficar. Há muito que fazer e, felizmente, o ruído é tanto que até parece que a festa é comum ao mundo inteiro. Nesse país, são facilmente seduzidos pelo "genuíno-gourmet" e acham bonito, louvável, que se recuperem os sabores do passado pelo quádruplo do preço, desde que a torta e as compotas da avó sejam servidas nas zonas mais in, com talheres de design, por pessoas pós-graduadas de cabelos bem alisados, e tenham sido recomendadas na secção de lifestyle. Levam os filhos para que eles aprendam a importância das tradições e valorizem o empreendedorismo que favorece a preservação da identidade nacional. E tão querida – porque assética – é a identidade nacional quando devidamente confinada a um restaurante, a uma loja, ou a uma galeria! Enquanto comem, fotografam e publicam os pratos e ficam satisfeitos ao verificar a quantidade de gente que, àquela hora, não faz mais do que pôr gostos.
No momento de fazer a conta, cada um recorre à calculadora do smartphone para dividir o total por dois. É só mesmo para evitar demoras, porque, afinal, tempo é dinheiro. E se um escasseia, ao menos que abunde o outro.
É um país que há mil anos se suporta a si mesmo todos os dias. E que acredita ser já passado, raro e insólito o que, por mero acaso, lhe surja no caminho repetido: uma boca sem dentes, uma casa sem luz, uma criança sem livros, uma porta entreaberta para a miséria, a ignorância e a solidão.

(em oposição a isto)

19.9.16

Semáforo

De favor e de raspão, beijam-se os casais na despedida. É para isto que misericordiosamente se faz o vermelho dos semáforos e mais tempo não é necessário para elas se apearem e eles reporem os olhos no ponto de fuga da estrada. Motorista e passageira. Pelos lábios se encontram como quem lava os dentes, calça as meias ou faz a cama: corpo e pensamento em dissonância.
Imagino raivas, neuras e egoísmos de quem tem mau acordar. Ou a derradeira vitória do silêncio sobre ajustes de contas quotidianos. Ouvi dizer que se fazem de modo exasperado e insistente até por causa de tampas de retrete. Também me ocorre que se tenham endividado para o carro que os leva, tal como se terão endividado para a casa, quem sabe ainda para as férias sonhadas e que num instante se foram. E o amor - oh, Deus! - afinal não chega para saldar tanto. Amontoa-se então a vida sob a forma de tralha indivisível, assinada por ambos e avalizada pelos construtores de prisões de alta segurança. 
Cai o verde. Pisca o alerta a quem mudar de direção. Eles arrancam, inexpressivos como barro, e já elas viram a esquina com as malinhas a tiracolo, as blusas lisas, sem o rasto de mãos que exploram e desejam a horas impróprias, e o batom por esborratar. Segue cada um com a sua razão, o seu sono e pouco mais. É preciso avançar, é preciso cumprir.
Talvez alguns destes amores se recomponham no final do dia. Se a televisão não falar mais alto, poderão esclarecer motivos, lamber feridas, perdoar o que por impulso ou leviandade se tenha dito. Depois, com o sexo, a bandeira branca e o alívio. E a cama voltará a ser aconchego, ponto de encontro dos sonhos que a mais ninguém se confessa. Já passou, a vida é mesmo assim, um deles dirá. Até amanhã.
Mas outros destes amores, sem remédio, continuarão mudos, pálidos e pavorosos, como um cadáver a quem ninguém tem coragem de fechar os olhos e enterrar de vez.

15.9.16

Regresso às aulas

Junto ao portão da escola, dois garotos desdentados, de braço dado:
- Chove a sério!
- Sabes o que isso quer dizer?
- Que chove a sério!
- Pois, mas quer dizer que Deus está a chorar.
- Ah, sim, boa!
- Mas sabes outra coisa? - o tom de voz baixa, vem aí segredo.
- Diz...
- Deus só chora por um olho.
- Oh! Porquê?
- Porque com o outro está a vigiar o mundo.
O amigo primeiro franze a testa, depois alcança a iluminação:
- Então deve ser por isso que ele chora!
A dois passos, as mães conversam:
- Estás a ver, Susana? Tem-me a mania que é poeta ou o caraças. Digo-te uma coisa: se este ano correr como o anterior, não sei se aguento. Nem a tabuada do dois me sabe!  
- Deixa, o meu é igualzinho. Ainda noutro dia virou-se e ó mãe, o que é que eu vou ser quando morrer? E eu, não é quando morreres, é quando cresceres. E ele, quando crescer vou ser piloto de aviões, mas quero saber o que vou ser quando morrer. E eu deito as mãos à cabeça, valha-te Deus! agora tenho de meter a louça na máquina, depois perguntas isso na catequese.
- Olha, pelo menos são rapazes, isto com o tempo passa-lhes e qualquer dia já só querem saber de bola. Se fossem meninas eram mais ingratas de criar.
Mas já a outra se desinteressou e sintoniza em frequência oposta:
- Sabes o que é que me chateia, Paula? Esta humidade. Frisa-me o cabelo todo! Tanto trabalhinho de manhã pra nada!

7.9.16

Setembro

Esta semana, a cidade começou a compor-se. O sangue acelerou e a tensão fez renascer os êmbolos nos lugares habituais: avenida AEP, nó da Via Norte, túnel de Águas Santas, nó de Francos. O arrumador recuperou a sua utilidade e anda outra vez com os bolsos cheios de trocado e de beatas apanhadas do chão e dos cinzeiros públicos. As sirenes voltaram a gemer e às oito da manhã já as buzinas gritam por dá cá aquela palha – sai da frente, chega-te para lá, deixa-me passar que sou mais importante do que tu, ó domingueiro. Ninguém diria que esta gente relaxou, amou e se divertiu em agosto tanto quanto jura e exibe. De um dia para o outro, emergiram do fundo da alma os seus tormentos, adormecidos que estavam pelo sal das águas, que tem afamados poderes anti-infamatórios e desobstrutivos. 
As mulheres comentam a queda do cabelo: que outono tão precoce e injusto este, ao engano meteu-se a desbastar penteados em vez de árvores. Perante a insistência da velha mendiga, os homens desesperam, apalpam-se e pedem muitas desculpas por faltarem à obrigação da caridade, que está a ser vigiada por mil sondas. "Não tem dinheiro?", pergunta a velha endurecendo os seus olhos tão bem vestidos de abandono."Como não tem?" E eles prestam contas com detalhe, vulgares subalternos de um poder que respira em todas as ruas mas que ninguém vê. Um deles até abre e mostra a carteira, a jurar que não tem nada. Uma aflição de causar pena."Então veja lá se prá próxima...", ameaça a velha, oh, tão doce e coitada ela é!
Também já se ouve o choro das mães que se preparam para entregar os filhos na escola. Os meus só voltaram agora para casa. Cheiro-os, meço-os, percorro-lhes o corpo com as mãos abertas em busca de mossas, nódoas, atestados de fracasso e medalhas de coragem. Está tudo bem. Já não são os mesmos, olho para cima para falar com o mais velho, preciso de pensar três vezes para entender o mais novo, mas está tudo bem, conforme a natureza dita e eu acato, agradecida.

3.9.16

Ausente

Quando o meu filho atravessou a fronteira sem mim e eu andei de joelhos a recolher os destroços do cordão umbilical, onde estavas? E quando me estatelei num beco sombrio e me condenaram a olhar o teto por trinta dias? Onde estava o teu escudo e a tua determinação quando foram disparadas setas contra mim? E quando enfiaram dedos e sondas nas minhas cicatrizes? E quando eu agonizava de todas as folhas estarem ainda em branco, onde estavas? Em que cómodo resguardo te encontravas enquanto eu escalava montes à força de pulso com os meus filhos no colo? E quando adoeci, acaso as tuas mãos me mediram a febre e prepararam o caldo? Nas raras noites de mau dormir, quantas gotas de alfazema pingaste na minha almofada? Onde estavas nos imprevistos e nos dias em que os mortos se levantavam? E, enfim, onde estavas quando o território da minha felicidade se expandia ou quando a luz mostrava os contornos da verdade ou quando eu estoirava a rolha do espumante? Quando fui a melhor, a mais querida, a mais celebrada, onde? Em que chão tinhas os pés repousados quando eu inaugurava caminhos novos?
Apesar de tudo, dedicaste-me a tua vida em sonhos e devaneios. Muitas vezes terás acordado a meio da noite ereto e desnorteado, porque entre as sombras rompeu, iluminada, a visão da minha nudez e do meu cálice. Julgo que chegaste a casar comigo na enorme catedral da tua imaginação e abençoou-nos um coro de anjos que foste buscar a vidas passadas e a suposições futuras. Juraste-me fidelidade diante de um padre sem olhos e desautorizado por Deus. E assim te idealizaste meu guardião, meu amigo, meu amante, feliz de poderes ver a curva do meu pescoço, a prega da minha saia, a aura do meu suspiro. Mas nada disso tem grandeza alguma a não ser quando é dito em verso e pela boca dos poetas.

2.9.16

Descobrir as diferenças

Não bastando a fórmula elementar do dicionário, cá está a vida para desfazer equívocos e simplificar a distinção: aquele que, por cortesia e sentido do dever, comparece à necessidade é atencioso. O que se move pelo nobre sentido da dádiva, superior a expectativas e à cartilha dos bons modos, e nisso vê um sentido para ser, é generoso. E se ao primeiro é preciso pedir ou dar sinal, o segundo até de olhos fechados sabe para onde conduzir a sua mão.
Também o primeiro espera que lhe agradeçam para ter estímulo a repetir o ato de valor. O segundo, de nenhum pagamento depende, pois é consigo mesmo que tem por hábito acertar contas.

1.9.16

O método do amor

O príncipe William baixa-se para falar com o filho e a imprensa entusiasma-se. Chamam psicólogos, pediatras, pedopsiquiatras, para explicar que se trata de "escuta ativa" e que tem motivações claras e efeitos cientificamente comprovados. Confiai, portanto. Isto tem um nome e foi concluído por gente estudiosa, que o amor por si só não chega lá nem é credível como argumento. Deus nos livre de agir por puro e desinteressado afeto. Não se baixe um pai por cumplicidade, mas por estratégia. Não olhe nos olhos por magnetismo, mas por critério. Não ouça com atenção por gozo, mas por dever. Tudo com método, senhores, tudo com método, coordenadas e objetivos, que o instinto é dos bichos, não dos homens. 

(lembrei-me do senhor Casimiro, o antigo porteiro da escola do mais novo, que se baixava para falar com os que nem seus filhos eram. Duvido que ele conheça os estudos, suas conclusões e nomenclaturas. Mais certa estou da sua inteligência e humanidade. Mas, enfim, ao pé de um príncipe, que há de ter um porteiro de uma escola para ensinar ao mundo?)

30.8.16

A vida não é assim

O discurso de que as crianças precisam de se adaptar a um mundo injusto, duro e desigual, não me comove nem conquista. Gerar um filho esperando dele que enrijeça e sobreviva é uma ambição medíocre. Quase uma negligência. É a prova de que ninguém quer a mudança, à maioria bastam o conforto da lamúria, espaço para indignações sem pernas para andar e herdeiros que lhe façam eco. 
No mundo ideal, a criança vem para transformar, jamais para se alinhar. Calem-se os amargos, os descrentes e os resignados. Também eu tenho queixas, penas e limitações, mas não serão elas a apontar o caminho aos mais novos. A vida é assim é um crime contra o futuro.

29.8.16

Primavera

Nasci sob um signo de terra e faço jus a essa minha condição astrológica. Não me apanharás em grandes devaneios, ímpetos ou distorções. Quero com nitidez, amo com lealdade, sofro com disciplina. Mas porque vim no tempo da secura, do frio e das sombras, diante de qualquer coisa que respire, cante ou brilhe, eu estremeço, abro os olhos e começo a sonhar, julgando estar aí a primavera.

25.8.16

Um rio

Disse ele:
- Desculpe lá, não leve a mal, sou assim, sou transmontano.
Rematei eu:
- Desculpe lá também, não leve a mal, sou assim, sou duriense.
Ficou a olhar-me, fixo e mudo. Conto que tenha percebido que a raiz é justificação medíocre, recurso de quem se descobre vazio de argumentos e põe fora a responsabilidade. Nem tudo o que nos define nos desculpa. Transmontano, duriense, algarvio, beirão, minhoto... no crime, no pecado ou no sucesso, a terra de onde brotámos está absolutamente inocente. Só na arte ficam bem as geografias do caráter. 
Nem o ermo fraguedo dele nem os meus socalcos doridos são a causa do que, mal ou bem, fizemos e dissemos. No fim, acabámos por nos entender. Bem vistas as coisas, é o mesmo, e de mítico feitio, o rio que nos liga.

24.8.16

Microscopia

Duvido que algum dia este blogue se livre do relato das miudezas do quotidiano. É o modo como sei olhar. Não que não dê atenção às coisas enormes, às catástrofes, às mudanças, às polémicas, às descobertas. Mas em tudo o que há de grande, eu gosto de ver o pequenino. Está sempre ao meu lado, no meu dia-a-dia, na minha rua, no meu percurso, no meu trabalho, na minha praia, na minha vista, nas histórias que os meus filhos trazem, até no meu lado negro, a causa de todas as coisas serem o que são.
Os que julgam que vivo alheada ou indiferente ao que se passa no mundo e rola nas notícias, saibam que me agrada mais pensar na semente quando vejo que há sururu em torno da copa da árvore. É nula a utilidade disso, eu sei. Mas, como eu disse, é o meu modo de olhar. Não o escolhi, cresci com ele e acabei viciada. 
Quando penso na mulher que durante as festas abandonou o marido – tão feliz e serena eu a julgava! – e vejo que ele tem de ir à churrasqueira para comer e ouço os seus tormentos noturnos e a sua linearidade diurna, por exemplo, eu descodifico uma parte dos acontecimentos do mundo. Quando a mulher do Senhor Pereira chama coitadinhos aos meus filhos eu descodifico outra. Quando a rapariga da papelaria muda a roupa e o cabelo para atrair o verdadeiro amor, outra. E o arrumador, esta manhã, gesticulando, saltando, apontando, gritando "aqui chefe, aqui!", julgando-se imprescindível à hora em que, na realidade, a praça estava tão vazia que até um comboio podia entrar aos piões! 
A humanidade não precisa de grandes teses para ser explicada. Qualquer bairro serve.

23.8.16

Festas da Nossa Senhora daqui

Terminada a procissão, o povo reconciliou-se com a sua natureza original. Desfizeram-se os arranjos de flores, recolheram-se as velinhas. A fanfarra dispersou e os automóveis tiveram autorização para voltar a chiar os travões e pingar óleo no santo caminho, tão devotamente enfeitado por três dias. Devolveram a Nossa Senhora daqui à penumbra fresca do altar, de onde não pode ver como é rija e persistente a matéria das ofensas que lhe fazem. Os anjinhos desembaraçaram-se de asas e auréolas e voltaram à sua terrena inocência, que se exprime no desacato e no prazer, tem olhos ávidos, joelhos sujos e um sexo que há de vir a ser discutido. O presidente da junta pôde finalmente dobrar as costas, livrar-se do fato escuro e de outras solenidades de ocasião e fazer-se uma pessoa comum, cheia de fome, sede, ganas de abanar o capacete. 
Seguiram todos para a banda oeste da freguesia. Invadiram a estrada principal caminhando aos magotes pelo asfalto, com determinação e euforia, como se um destino de merecidas grandezas os chamasse. Esperava-os na praça meia dúzia de barraquinhas de comes e bebes, geridas por mulheres de muito brio a troco de nada, e um cantor suficiente para reproduzir todas essas pimbalhadas que autorizam novos e velhos a escoar a malícia. Ajoelhou, vai ter de rezar. E a insuspeita marinada em que, por cautela, se preservam as emoções quotidianas, levantou fervura, empurrou a tampa, escaldou as ruas. Pela noite dentro, a gente esqueceu como se leva as mãos ao peito com fervor - pelo menos ao próprio. Cumpriu-se a festa tal qual nos outros anos. O fogo de artifício foi pobre, à medida do orçamento, mas ninguém perdeu o dom de se maravilhar e aplaudiram-no com orgulho, como a mãe aplaude o filho só por ele ser seu ainda que não valha muito.
Muitos homens foram para casa bêbados e andaram às voltas antes de acertar na rua, praguejando com fantasmas e duvidando da sanidade do mundo. As garotas ficaram até mais tarde, deram-se à conversa e à vontade dos rapazes, porque em nome da Nossa Senhora daqui foram alargados os horários e as permissões. Por muitas horas ouvi mulheres debaixo da minha janela entretidas na elaboração de suposições acerca da vida alheia e, deste modo, adiando o regresso à cama.
Nessa noite, outras coisas aconteceram aqui nas redondezas, mas foram abafadas pela chinfrineira do arraial. Por exemplo, uma mulher fez a mala e partiu para sempre com a filha, abandonando o marido aos cuidados da churrasqueira da rotunda. É bom homem, mas muito fraco dos nervos, cheio de cismas e terrores. E o amor não sobrevive a tudo.

22.8.16

Compromissos publicitários

A publicidade é uma ofensa explícita. Berrasse menos e talvez desse para disfarçar, mas tão escancarada e presente... como não perceber? Trabalhá-la só me diverte porque me concentro no processo e me abstraio da intenção e da consequência. Postas as coisas cá fora, nas paragens de autocarro, nas revistas, nas autoestradas, nos intervalos das novelas, envergonho-me e renego tudo. O mais novo, às vezes, aponta com o dedo: mãe, olha o que tu fizeste! Mas o que nele é apenas orgulho, pesa-me como uma acusação. 
Para me consolarem, alguns dizem-me que a publicidade é incentivo ao consumo e que o consumo põe a economia a mexer, sugerindo que afinal eu cá também dou o meu valioso contributo para tirarmos os pés da lama de uma vez por todas. E depois, se não fosse a publicidade, como se saberia das novidades, dos pacotes, das promoções? Como fazer as melhores escolhas, como saber o que presta e não presta, do que são feitas as coisas, que causas e valores defendem as marcas, com quais nos identificamos? E não é bom ver que os produtos se vão aperfeiçoando, cuidando para que nada nos falte, perseguindo a nossa felicidade e bem-estar?
E ao ouvir tudo isto que me dizem concluo que afinal não: não é o meu trabalho que sustenta e promove o consumo, é a ingenuidade da multidão.