26.11.14

Todo o país é inocente até a sentença transitar em julgado

Os políticos não caem do céu nem são eleitos por Deus para a superior missão de salvamento das nações. São paridos entre as coxas das suas mães, mulheres que, como todas as outras, conceberam nos cúmulos do desejo e do prazer. Nascem vulneráveis e sangrentos, chorosos e famintos. Podem nada, além de mendigar alimento e calor. É bom de ver que não vieram ao mundo com pureza divina ou desnecessitados das consolações da carne e do espírito.
Crescerão como todos: uns sujeitos a rigorosa disciplina, na ilusão de que isso seja garantia de rigoroso caráter. Outros, por sua conta e risco desde os primeiros passos, por força de sacrifícios laborais e ausências da família, sem que isso garanta que no futuro sejam solidários com semelhantes. E, como todos, será natural que muitos andem à porrada, fumem charros, apalpem nádegas nas filas da cantina, comparem o tamanho dos sexos no balneário, vendam cromos a preços inflacionados, comprem aos marrões da turma os trabalhos da escola ou a eles se encostem na hora de formar grupos. E se uns o farão porque estão habituados ao que querem e lhes apetece, outros o farão para se sentirem livres de regras e grilhões, outros ainda só porque sim, porque o gozo, o prazer e o exercício das mais simples formas de poder, a todos chamam em murmúrios sedutores. Diz-se que só os níveis superiores de humanidade e sabedoria lhes são surdos. Ora isto se aplicará às meninas em igual modo, é questão de mudar uma ou outra palavra na concisa e banalíssima lista que enumerei. Ninguém se livra de sentimentos impróprios, o que nos distingue são os valores que acima deles levantamos. E o que, eventualmente, não fazemos por tino, bom senso ou pudor, será pensado, imaginado, habitará nos fundos da consciência como num mundo paralelo e até legítimo, mas acabará por ser posto à prova ao longo da vida. É nesses instantes, e não nas conversas de café, nos discursos de circunstância ou nas colunas de jornal, que se revelam as traves do caráter. Aí, e só aí, virá à tona o ditador, o ganancioso, o lambe-botas, o deslumbrado, como poderá vir - assim fosse sempre! - o bravo, o altruísta, o íntegro, o despojado.
Por aqui, nos blogues, nos facebooks, na imprensa, todos nós sabemos e afirmamos que queremos mais, que não merecemos esta indignidade em que os nossos políticos nos têm obrigado a viver, esta baixeza aonde tantas vezes temos descido, uns por vontade, outros por empurrão. Mas o resto é silêncio e conivência, às vezes humor (o melhor laxante para os apertos da alma), pois se é verdade que hoje somos os ofendidos, resta saber se amanhã, soprando o vento de feição, não seremos os oportunistas. Por alguma razão andamos nisto há tanto tempo. 

25.11.14

Proteção

Riem-se quando eu digo que me sinto protegida tendo os meus filhos por perto. Não tendo ainda corpo maior que o meu, não terão força para me defender ou braços para me carregar. Acontece que a sua inocência me resguarda e as suas vontades mantêm-me a esperança acesa e a confiança que me depositam afasta-me de certos pecados e a sua visão de longínquos futuros me põe a salvo da mortalidade. 

(Vi-a, por estes dias, a olhar para mim num corpo que tombou ao lado. A mortalidade. Seus olhos, de um insuportável e abstrato cinismo, atiraram-me à cara a ligeireza com que às vezes vivo e os grandes propósitos que tenho adiado para dias que nenhum calendário contempla. Uma grande banalidade esta, a roçar a pieguice, digna de um powerpoint com golfinhos ao pôr-do-sol. Mas é facto: das banalidades se vão retirando as forças que nos aguentam na hora em que o destino mostra a mais banal das suas faces)

23.11.14

Lição de democracia?

Não tenho tido problemas de visão. Até ver, escapei à sentença genética que por toda a família tem distribuído miopia e cataratas, nalguns casos em idades bem tenrinhas. Porém, ontem de manhã, folheando uma revista desatualizada enquanto tomava café no bar da piscina, ocorreu-me que os meus olhos possam estar finalmente a ganhar defeito ou que já o tenham desde que nasci. Em entrevista de várias páginas, a Maria de Medeiros dizia, a propósito da revolução dos cravos, que Portugal deu uma grande lição de democracia ao mundo. Mas que anda esta gente a ver que não tenha eu alcançado? Desfocou-se-me o cenário? Vislumbro mal ao longe ou será pior ao perto? Estarei a ver baço e nevoento o que afinal tem tanto brilho e viço? Será a lição tão grandiosa e exemplar que nem me cabe nos olhos e, por isso, não a distingo? 
O meu país lembra-me às vezes aquelas crianças que, chegando a hora de ir para a escola e evoluir nas responsabilidades, continuam presas à chupeta que as serenou em tempos idos. Quando entram na sala de aula, tudo se lhes afigura demasiado confuso e difícil, acelera-lhes o coração pela terrível insegurança de fazer o seu próprio caminho para o futuro. Não sabem se mais as deslumbra ou desnorteia a amplidão dos espaços, o mundo de possibilidades, a suprema liberdade de mais saber e poder fazer. Escondida nos fundos da mochila, levam a chupeta puída e gretada e é com o pensamento nela que se convencem de que está tudo bem. Assim que podem, agarram-na para estabilizar emoções e mergulhar em sonos profundos, duradouros, plenos de ilusão e alegria. 

22.11.14

Promessa

Sabem-no os que aqui desde logo marcaram o seu lugar como leitores, em 2008, e os que, ao longo destes anos, me foram perguntando por estranharem que não batesse a bota com a perdigota: devo ao Sócrates, não apenas a criação deste blogue, como também o nome despropositado que tem e que chama, ao engano, visitantes em busca de dicas de puericultura e aventuras de muda-fralda-come-a-papa-e-vai-à-escola.
Se o homem for preso eu mudo o nome. Fica em jeito de promessa, que é o que se faz quando muito se deseja mas pouco se pode.

21.11.14

É meio-dia

Cada pessoa é um país inteiro. E se eu mandasse em cada pessoa, dando azo à costela ditadora que desde pequena me comicha cá nos fundos e que me inibo de mascarar com bondades que não tenho, começaria por proibir a marcação de reuniões para o meio-dia. Pormenor. Mas, indo-se a ver, começando a reunião ao meio-dia, como o português gosta - alegando que antes disso não tem tempo - ninguém se livra antes das duas da tarde. De mais a mais porque, em bandas lusas, não há reunião em que não se divague, a espaços, em torno dos mais despropositados assuntos, desde a comida do cachorro até aos tecidos dos pijamas de inverno, passando pelas memórias das últimas férias e chegando até às íntimas delicadezas dos princípios religiosos. É preciso que, de vez em quando, uma alminha lúcida e realmente ocupada diga vamos focar-nos no essencial, com modos de professor da velha guarda. Ora, às duas da tarde, o tipo que há de ter marcado a reunião para o meio-dia levanta-se, transpira, bufa, dá pena vê-lo naquelas aflições, incapaz de parar o relógio. Antecipadamente percebemos que vai falar de outra reunião que tem dali a meia hora e do tempo que não terá para almoçar, aliás, já não come em condições há três semanas, só trinca uma sandes dentro do carro, no caminho entre um compromisso e outro. Queixar-se-á ainda que o trabalho é tanto e as requisições são tamanhas que a jornada prolongar-se-á por horas indefinidas, não poderá ler uma história ao filho, felizmente a mulher é disponível, tem profissão ligeira e até engraçada. Ah, valham-nos as mulheres! Calaremos toda a nossa insatisfação enquanto mantiverem de pé as paredes da nossa casa! Pela noite dentro trabalhará, sabe-se lá em quê, mas presume-se que tenha ele o bendito azar de atrair os clientes mais importantes, com mais dinheiro para investir e os prazos mais apertados para cumprir. O resto do país anda a brincar às mercearias. No dia seguinte, o corpo ressente-se, impossível pôr a pé a horas dignas, toca então a marcar a próxima reunião também para o meio-dia, mas nem a essa hora a pontualidade será virtude, porque cairá um e-mail urgente, um contratempo, um bug, um restart, um portuguesinho, chico esperto estacionado em segunda fila que o atrasa. A meio da reunião, qualquer coisa poderá ser mote para que fale dos filhos, que aos três anos já dominam as novas tecnologias e são os mais altos do jardim de infância. O telemóvel, a que não se teve o cuidado e a educação de tirar o som, tocará em cima da mesa tantas vezes quantas o passarinho piar lá fora. Há que dar prova do quanto se é requisitado. Almoçará meia sandes de fugida. Ao entrar na reunião seguinte repetirá a ladainha, falará do cliente novo que ganhou nos antípodas e que tem 70% da quota de mercado no setor, exigente a valer mas, sem ele, não poderia ter trocado de carro (isto não se diz, só se mostra). É preciso sacrifícios para dar a volta à crise. Nestas horas se vê quem são os tipos com quem o país pode contar para tirar os pés da lama.
Eu rio-me para dentro, garotinha ignorante das exigências da vida. Será por causa de gente como eu - que ri mais do que trabalha - que o país não sai disto, deste sobe e desce no emprego, no capital, nos impostos, nos direitos, nos deveres, na educação, na decência e na felicidade? 
Então, se eu mandasse, só se marcariam reuniões para as oito da manhã e implementar-se-ia um sistema de choques eléctricos que faria saltar na cadeira quem desviasse o assunto para as desimportâncias. Ao fim do dia, todos conversariam em paz sobre a comida do cachorro, os tecidos dos pijamas de inverno, as memórias das últimas férias e as delicadezas dos princípios religiosos. 

18.11.14

A agenda

Lígia é uma dessas desgraçadinhas a quem não faltam recursos, oportunidades e imaginação para ter do que se queixar. Sofreu horrores na preparação da semana de férias com a família no Oriente, enerva-se até às pontas dos cabelos com as freirinhas do colégio das miúdas, rende-lhe uma hora de lamúrias a luz que volta e meia acende no painel da carrinha, revira os olhos quando conta que a filha mais nova só pensa na brincadeira.
Tento fugir-lhe, mas sou fraca e repetitiva na estratégia. Ver-me de cabeça mergulhada num livro, simulando a evasão absoluta, não é coisa que a afaste. Cumprimenta-me com um festival desproporcionado de carinhos e elogios, alapa, diz que vem cansada, sempre cansada da corrida na marginal ao final do dia. Insulta o aparelhinho que lhe dá música, dinheiro pró lixo. A testa enruga ao questionar se a empregada terá deixado o jantar pronto no forno. 
- O que está a ler?
Fecho o livro para que ela veja a capa. Faz-me a pergunta típica dos que não apreciam leituras:
- Ah... muito bem. De que é que trata?
Digo que não sei, ainda vou no prefácio. Mentira da boa, que a ambas convém.
- Também gosto muito de ler, mas falta-me o tempo.... Ainda por cima agora, com o que me aconteceu...
O que aconteceu? Foi a assistente, secretária, o que quiser chamar-lhe. Há dias achou-a no chão do gabinete, sem cor nem sentidos. O senso comum diagnosticou: quebra de tensão. Mas, por via das dúvidas, a rapariga deu um saltinho ao médico, fizeram-se exames. E descobriu-se coisa feia, muito feia, a marinar lá num canto secreto do corpo. Sucede que não há tempo a perder, o bicho é guloso, rápido a comer as entranhas e não tem misericórdia. Está agora a caminho de Espanha, onde se prometem tratamentos de vanguarda. Regressará viva?
Vazou um suspiro e o desabafo veio à boleia:
- Estou tão incomodada! 
Vendo-a naquele estado, pronta me pus para lhe afagar o ombro e em dois tempos preparei umas palavras de consolo: que haveria de correr tudo bem, hoje em dia a medicina pode quase tanto como Deus, quiçá é ela o Seu maior instrumento, que algumas malignidades detetadas a tempo eliminam-se com um só golpe e uma vida regrada... E que eu bem compreendia o incómodo, anos e anos de convívio e fidelidade podem criar laços de fazer inveja aos de sangue. 
Porém, ela mesma me poupou a um discurso que seria desajustado e vão:
- É que agora... caramba! Tenho a minha agenda num caos, onde é que eu vou arranjar quem me deite a mão?
Lígia ficaria bem como personagem de uma dessas telenovelas de horário nobre, que alvoroçam os sentimentos dos espetadores e os deixam ansiosos pelos justos castigos e recompensas. Mas assim, real e encorpada, sentada ao meu lado em certos finais de tarde, quando busco a reconciliação com o mundo, parece uma enviada dos Céus avisando-me que o melhor é endurecer e pôr de lado as ilusões.

17.11.14

Satisfação

Tenho andado submersa numa campanha fashion, navegando por um mundo blogosférico feliz e encantado, adormecendo a ver desfilar coordenados em vez de carneiros, vendo a realidade por uma lente que a tudo acrescenta pós, cor, brilho, maquilhagem e alegria, escrevendo em letras gordas aquilo de que eu própria me rio. O meu cérebro sintonizou numa frequência que me incapacita de partilhar aqui o que quer que seja de interesse para os meus leitores habituais.
A emissão prossegue assim que eu recuperar a consciência.

9.11.14

*

Naquele colectivo de mulheres, justo é que declare, vislumbram alguns uma fortaleza intransponível, e é como se a linguagem que utilizam entre si fosse uma floresta de enganos, para a travessia da qual seria aconselhável prudência bastante, se o mais destemido dos homens nela se arriscasse a penetrar.

Mário Cláudio, "Triunfo do Amor Português"

7.11.14

Horizonte

Por causa do texto anterior, perguntaram-me se não havia, na minha casa, uma televisão que me poupasse ao tédio de andar a medir a inclinação de um cipreste nos dias de tempestade. Pois claro que sim! Acontece, porém, que à época só havia dois canais, um deles funcionando a meio tempo. E os programas para crianças eram apenas ao fim de semana, pela manhã, se eu tivesse paciência para esperar que o engenheiro Sousa Veloso acabasse de falar naqueles modos de conversa informal já raros em televisão, substituídos que foram por trejeitos robotizados, sendo agora indiferente que nos fale a Maria ou o Manel, desde que arregale muito os olhos, sorria e mantenha as costas direitas. Adiante: sucede ainda que eu era caçula de uma família numerosa e se, por isso, era privilegiada nos mimos e cuidados, era também ignorada nas tomadas de decisão, não sendo ouvida nem achada na escolha dos programas que se via. Gostando, ia a reboque, não gostando, que inventasse o que fazer. Acrescente-se também o facto de o meu pai achar que ver televisão a mais fazia mossas no corpo e outras, piores ainda, no espírito. Esta sua convicção agudizava-se durante os espaços publicitários, esses instantes mágicos a quem os pais de hoje dão graças por permitirem enfiar seis colheres de sopa na boca distraída da pequenada por cada anúncio de trinta segundos. 
Com tudo isto, ainda bem que eu vivia num quarto andar com amplas vistas sobre a cidade e tinha um cipreste brincalhão no horizonte.

4.11.14

O cipreste

No tempo em que o instituto de meteorologia não emitia alertas de cor, era a oscilação de um cipreste que me dizia da força das tempestades. Via-o da janela da sala de estar, majestosamente erguido sobre os telhados das moradias, com uma densa e permanente musculatura cónica, fazendo braço de ferro com os ventos. À falta do que fazer, sempre se pode entreter uma criança com o espetáculo da natureza. Digo eu, não sei. É que isto era no tempo em que, para ocupação dos tempos livres, não havia mais do que a rua, os livros, os baralhos de cartas, os papéis e os lápis, e quem nisto não achasse contentamento, que fosse vasculhar à imaginação ou aproveitasse para arrumar as gavetas e armários. 
Assistia eu a esta luta com infantil ansiedade, pois, nos dias piores, em que Deus soprava as suas fúrias sem misericórdia, revirando, arrancando e fustigando, era de esperar o momento de ver o cipreste definitivamente vencido, quebrado pelo meio, a abrir sepultura num telhado próximo. Porém, o cipreste nunca quebrou, nem nos dias em que o Anthímio de Azevedo prenunciava ventos ciclónicos. Muitas vezes se vergou em ângulos incríveis e em cada uma dessas vezes me parecia que nunca antes havia chegado a tal ponto. Mas era ilusão minha, talvez pelo desejo de ser testemunha de uma tragédia, coisa que certamente engrandeceria a minha nula experiência nas invulgaridades da vida. O cipreste, crescido com hábitos de flexibilidade, aprendera a brincar com os ventos, como aconselham as antiquíssimas filosofias orientais. Resignado se dobrava, ora para um lado, ora para o outro, consoante o sentido da vergastada, e, amainado o temporal, era vê-lo assumir de novo a sóbria verticalidade de um príncipe. Não se tratava, afinal, de uma luta.
Às vezes, nesses dias terríveis em que o cipreste me parecia na iminência de tombar de vez, uma das minhas irmãs do meio fazia-nos papas de aveia. Punha ao lume um tacho de leite com os flocos e a cozinha enchia-se de um aroma lácteo, infantil, profundamente terno. Não há maior afago do que uma taça quente de flocos de aveia com uns pozinhos de canela. Ainda hoje é meu aconchego em certos finais de tarde invernosos como o de ontem. Como-a, às vezes, mirando um trio de ciprestes que tenho diante da casa onde agora vivo, mas estes quase nem bolem, ou porque são de outra têmpera ou porque eu, crescendo, deixei de ansiar por tragédias. Aliás, fosse-me permitido, e abdicaria de todas aquelas a que fui assistindo por força de outros ventos, bem mais traiçoeiros e sem o justo prenúncio.

2.11.14

Carne viva

Tenho saudades de uma boa crónica de jornal. Dessas escritas com brio, que mexem nas feridas com dedos cirúrgicos, de forma limpinha, sem fazer sangue, mas moendo até a gente se encolher. E das que generosamente nos abrem janelas para outros horizontes ao invés de, narcisicamente, nos abrirem a porta das suas próprias casas, com quarto e casa de banho incluídos na visita. Pensarão talvez os cronistas que esforço maior não é necessário. É que anda o país tão em carne viva, que basta entornar uma gotinha de álcool para vê-lo sacudir-se, espernear e revirar os olhos.

31.10.14

...



Que me perdoe o Chico, o contador entre os cantadores, por aqui preferir outra voz que não a sua, mesmo sabendo que é dele o mérito de versejar assim pelas mulheres.

30.10.14

Habitação

No prédio aqui defronte, fuma à janela da lavandaria uma mulher nova, com o cabelo metodicamente apanhado no cocuruto. Enquanto chupa e bafeja o cigarro, purgante rápido para quase todas as ansiedades, dedilha no telemóvel com fervores de adolescente. Vai sorrindo de entremeio, lendo o que mais ninguém lê, escrevendo o que mais ninguém sabe, e, a espaços, foge-lhe por um canto da boca uma malícia tão leve que talvez seja injusto assim chamar-lhe. Rodopia o olhar pelos céus - busca ideia ou desenterra memória? - e logo se lança de novo a dedilhar. Depois, mata o cigarro num pires, inclina-se sobre o parapeito e cruza os braços, aprofundando, para melhor navegabilidade, o leito que tem entre os seios. Por trás, há uma cortina de lençóis cor-de-rosa e uma fileira de camisas brancas penduradas no estendal, que tanto podem ser do marido como do patrão. É difícil saber quantas mulheres podem habitar em cada uma.

28.10.14

Cardiologia

No mesmo quarto do hospital foram acolhidos, por quebra do coração, o lavrador, o médico e o ranger. Os três apanhados de surpresa. Nenhum deles adivinhara que a angústia e a falta de ar, sentidas de passagem, eram a morte dando-se a provar num trago curto e indolor, em jeito de aviso. Não o adivinhara o lavrador, tão esperto acerca dos caprichos da natureza, nem o médico, décadas a fio a estudar e vasculhar o corpo dos outros, nem o ranger, treinado para não subestimar os movimentos do inimigo nem mesmo na paz dos deuses. 

O coração é um músculo involuntário. E isso, que é do senso comum, pode servir como alegação de defesa para os românticos e outros que não encontrem modo legítimo de justificar impulsos. Diz-se, ainda, que as suas razões são pela própria razão desconhecidas e a ela francamente superiores. À custa destes argumentos se fez do coração o senhor dos sentimentos, o sujeito do poema e da canção, o mais elevado poder que em território alheio urge conquistar. O resto desculpa-se, pois segue a reboque. Garante-se que é por ordem dele que o corpo se desgoverna, entregando-se no amor, atirando-se no desespero ou atacando no ódio. 
Porém, o seu poder é fantasiosa sublimação numa interioridade que é apenas visceral e sobrevive à custa de trocas, interesses, dependências e pactos, tudo desenhado pelas mãos dos deuses, da mesma forma que os génios desenham máquinas. Não é poder absoluto nem reino independente. Razões que a razão desconhece, mistérios e desmandos, tem-nos o corpo inteiro, pois em todo ele está escrita a origem em letra microscópica e, por herança, azar ou mau hábito, se vai escrevendo o destino, tantas vezes sem dar contas nem alertas.

Ao lavrador, logo foram, como que de enxada, abrir sulco no terreno para repor os fluxos. O médico, precisam de estudá-lo melhor antes de tomar decisões. Para o ranger, vim embora sem saber que combate se desenha na mente dos cardiologistas. Estavam os três de disposição plena, comendo com ensejo, prova provada de que não advêm do coração nem as forças do espírito nem as vontades do corpo.

25.10.14

*

No amor é como na morte: a gente pede mais um minuto de vida, convencido que depois renunciará de vez. E mal o minuto nos é concedido, já estamos a pedir outro.

Miguel Torga, "Diário VI"

24.10.14

A maternidade e o lifestyle

Ser mãe em full-time (assim o dizem, como se houvesse outro tipo de maternidade que não fosse em full-time) tornou-se um alvo das abordagens ao lifestyle. Para isso têm contribuído os enquadramentos românticos, as associações às marcas e aos espaços culturais ou comerciais, alguma literatura (salvaguardando-se a ambiguidade do conceito) e determinados pressupostos sobre a consistência e o longo prazo da felicidade.
A maternidade, seu exercício, seus direitos e possibilidades, já não é, portanto, uma questão familiar ou social, mas uma questão de lifestyle, esse termo que agora serve para arrumar tudo e um par de botas e faz conviver nas mesmas páginas de jornal as sugestões de restaurantes gourmet e a forma como se ama os filhos. É tudo uma questão de estilo, charme, imagem. Crise vai, crise vem, crise vai e não saímos do mesmo, não aprendemos. O que apenas diria respeito a valores e possibilidades, rapidamente se impõe como tendência. E a tendência deste século é competir para mostrar quem ama mais e é mais feliz. Em segundo plano talvez fiquem as questões do corpo, do automóvel, das roupas caras, porque o dinheiro escasseia, mas nem por isso nos afastamos da ditadura das aparências. 
Descansai. Não é isto um manifesto pela defesa das mães que trabalham nem um ataque às que assumiram outras tarefas. Também não será hoje que vou expor aqui minhas escolhas, causas, prioridades, rotinas ou limitações. Nem condenarei as dos outros, que eu cá não sou juiz da felicidade alheia, a não ser que ela me insulte ou insulte a sociedade. Tenho religioso respeito pelo caminho que cada um faz, principalmente quando o amor lhe guia os passos. De resto, também a minha mãe o foi em full-time, como agora dizem. De seis filhos. Mulher admirável, cultíssima, inteligente, paciente, generosa, doce, inspirada, elegante, cheia de graça e absolutamente discreta acerca de tudo isso. A sua forma de ser fez a minha infância feliz e inteira. 
O que não posso conceber, nem me apetece, cá no íntimo, aceitar, é a abordagem. Esta subtileza a virar o bico ao prego, de forma a que se sintam inúteis e desapegadas as mães que, porque precisam ou preferem, estão a trabalhar. O que não posso conceber é que as palavras "prioridade", "entrega", "amor", "família", "abnegação", estejam a ser reclamadas para um território específico. É que as modas... ah, valha-me Deus! as modas têm tanta força, mas tanta força na mente dos indivíduos e, por contaminação, das sociedades, que se torna assustadora a sua capacidade de interferir na moral e nos afetos. Essa é a perversão da coisa. Quanto ao resto, perfeito. Cada um onde quer ou onde pode, pelo bem de todos. 
Mas não deveis esquecer-vos de uma coisa: toda a mãe, esteja onde estiver, a que horas e de que forma, é uma mãe em full-time. A maternidade não é uma agenda. Amai os vossos filhos, amai como vos for possível, com o tempo, o gesto, a palavra, o colo, o amparo que vos for possível. Mas amai com honestidade e respeito. E não me enrolem com pieguices.

23.10.14

Na província, a imaginação...

O provinciano é também o que se inquieta com o sossego do vizinho. Aborrece-o que ele não se dê à conversa fiada no portão nem revele certos hábitos e intimidades capazes de alentar os espíritos desinteressados do próprio quotidiano. Toca então de lhe inventar um amante secreto, um cadáver oculto, um propósito suspeito, um inimigo a abater. A província - vem nos livros - é, sobretudo, uma enorme pasmaceira interior, que busca desesperadamente por ação e entretenimento. 
Se certas pessoas tivessem generosidade e talento para a escrita em doses iguais às que têm em imaginação, voltaríamos ao tempo dos grandes romances, dos enredos magnéticos, dos desenlaces que sovam o estômago e fazem cair o queixo.

21.10.14

Ler como amar (9)

Sentir que o que lemos foi escrito a pensar em nós - eis um dos muitos equívocos que disparam a magia, geram a expectativa e alimentam a dependência.

20.10.14

Legítima defesa

A desonestidade não é o sintoma de um casamento arruinado. É antes a arma a que, invariavelmente, é preciso recorrer para o salvar. Nessa hora de aflição, em legítima defesa, com o pânico de ficar só e à deriva, não há diferenças: qualquer manso vai buscá-la aos fundos obscuros do caráter e faz uso dela sem pensar duas vezes.

19.10.14

Traição

A partir de certa idade, vigia-se o ventre de uma mulher como a uma rede de conspiradores. Nunca se sabe quando, no silêncio e na fundura, congemina o momento de atirar à cara tudo o que deu e fazer-se cobrar. E pode dar-se então a ironia de a carta que anuncia a morte ter o mesmo remetente da que convidou ao amor e anunciou a vida. 

18.10.14

Urgências

Podia escrever mais vezes o que penso sobre factos e acontecimentos, mas o que penso não tem relevância nenhuma num mundo onde toda a gente pensa em tudo mais depressa do que eu. Não posso competir com likes, citações e sentenças instantâneas. Chegarei sempre tarde e a despropósito, como uma dor de costas num serviço de urgência já lotado de cardíacos.

17.10.14

Carta de amor

O rapazito a dizer-me, como quem confessa uma vergonha, que tinha recebido uma carta de amor ridícula. Pelo tom leviano e a pouca idade, logo imaginei que o seu julgamento nada tivesse a ver com o do poeta. Desdenhou dos corações espalhados no papel, da promessa de fidelidade, do encontro que ela marcava, para esse final da tarde, no dobrar de uma esquina ali perto, e da assinatura, que era uma nuvem de batom rosa e perfumada.
- Parece-me igual a todas as cartas de amor das meninas da vossa idade...
- Oh, minha senhora... Nem imagina quem ma enviou...
Se eu visse, entenderia o desdém. Explicou, por palavras que não foram estas: a miúda era feia de assustar. Um olho insubordinado. Cabelos lisos, sem gracinha nenhuma, quando ele se perdia era por um festival de caracóis. Incisivos desumanos, coisa para empecilhar um beijo. Tão magra que, das duas, uma: ou passava fome e metia dó, ou era ruim e fazia medo. Mas o mais repugnante era o tique nervoso: afagava constantemente o lóbulo da orelha, como fazem os bebés rendidos ao sono.
- Ao menos respondeste-lhe a dizer que não vais aparecer?
- A carta já 'tá no lixo, rasgada em pedacinhos. 
Suas razões eram óbvias, garantiu-me que qualquer outro faria o mesmo. Uma carta de amor vale consoante quem a escreveu. Vinda de quem vinha, era nada.
- E se fosse uma nota de cem euros?
- Isso já era diferente! Uma nota de cem euros vale sempre cem euros, não importa de onde vem!
- Quem disse?
- Sei lá... Deus?
E foi-se. Os pés trôpegos como barbatanas fora de água, meio rabo à vista por não lhe caber nas calças, o tique de encolher os ombros a cada passo, como uma marioneta. Lentamente, está a caminho de ser Homem mas vai já tão trapalhão do corpo e confuso das ideias que temo que se espalhe antes de lá chegar.

16.10.14

Espetos de pau

A gente ouve os professores, os psicólogos e os pediatras em suas profundas dissertações e advertências - quase ralhetes! - sobre educação e valores e imagina os seus filhos como anjos de bondade, incapazes de desacato, desde o berço conscientes das obrigações,  acordando e adormecendo sem sinal de trauma, nódoa ou inquietação. Adivinha-lhes nobres futuros como cabeças de quadro de honra, voluntários contra a fome, chefes de famílias imaculadas, pacifistas, despojados, desinteressados, desmaterializados, partilhando seu pão, cedendo o seu lugar, dividindo o seu ganho.
Até que um dia se cruza com eles no supermercado.

15.10.14

Post-scriptum (poesia)

Não. A matemática não é a disciplina das contas
A matemática é a ciência que organiza o real, até ao infinito. O raciocínio matemático não limita. Expande. É a mais fascinante das linguagens do universo, que abre a porta a todas as outras. A matemática traduz o rigor da infinitude, a ordem do abstrato, a lógica invisível do equilíbrio. Decompõe a relação entre todas as coisas. É belíssima.  
É pela matemática que sabemos, por exemplo, que um triângulo escaleno, esse que parece sempre que tem um braço mais atrevido, a querer chegar onde não deve, continua, ainda assim, a resultar em 180º quando somados os seus ângulos internos. Exatamente como um triângulo equilátero, aparente modelo de perfeição e harmonia.

14.10.14

Poesia

Faz-me pena a poesia medíocre.
Só quem sabe de música e de matemática, ainda que possa ser analfabeto, faz um poema que valha.

Livro de sonhos

Ganas e ambições, ainda são muitas as que lhe puxam a carroça. Mas sonhos, mundos de irrealidade ou sublime elevação, tem quase nenhuns. A idade foi descartando o devaneio, já lá vai o tempo de suspirar pelo impossívelPorém, enquanto dorme, a magia acontece. Confidenciou-me que renasce numa existência paralela. Sonha com tal grandeza, lógica, duração e detalhe que acorda sem saber se mais vive de olhos abertos ou fechados. Cruza todos os que conhece com aqueles que mal lembra, outros que já morreram e alguns a quem nunca viu o rosto. Versões complexas e intrincadas, cheias de absurdos que não o serão tanto assim, picos de intensidade dramática, amantes, feridos, mortos, partos, suspeitas, revelações, catástrofes, felicidades que em mil anos da vida que tem não alcançaria. E o incrível é tudo ter uma sequência narrativa que bem podia ser obra da realidade. Sabes que mais? Se eu tivesse jeito para escrever, até podia fazer um livro de sonhos...
Aqui há dias - e o tom de voz acanha-se - sonhou que namorava com o Cristiano Ronaldo. Ignora o que lhe passou pela cabeça, o rapaz podia ser seu filho e, tirando as pernas, que não são mais que a sua obrigação, não vê nele atrativo. Se tivesse sonhado que assistia a um jogo e lhe aplaudia os golos, ou que ganhava um autógrafo e um retrato a dois para o facebook, compreendia-se. Mas andar com ele, mão na mão, feliz da vida, vendo montras, trocando impressões e carinhos, cumprimentando estranhos? Isso é que não engolia. Tanto homem que lhe podia encher os sonhos de prazer e satisfação e saia-lhe aquilo. Acordara com o sentimento de perda de tempo. Passar a noite em miminhos e pieguices com o miúdo mais lhe parecera um castigo do que a oportunidade de uma vida. Repara, isto não é sonho de mulher, é sonho de adolescente...
O sonho é uma dimensão dolorosa. Assistimos de mãos atadas, desautorizados no avanço e no desfecho, sujeitos ao que uns dizem ser a vontade inconsciente, outros garantem ser um esboço do destino ou um caldeirão mágico de recordações. Afirma-se, mas eu não estou certa: os sonhos são criação exclusiva do nosso cérebro. Urdimos a teia onde acabamos enredados, muitas vezes a espernear até ao sufoco. Acordar pode ser o maior de todos os alívios, mas fica sempre a impressão de um pé preso do outro lado. 
Mal menor que o pé lhe tenha ficado entre os do Cristiano Ronaldo. 

12.10.14

Tudo isto é triste

Comecei a cantar Tudo isto é fado para embalar o mais novo. A infância, quando é a valer, cobra tudo ao corpo no final do dia. Ficam as crianças como um saco vazio e frouxo, as pernas reclamam das correrias, os braços queixam-se dos arremessos, todos os sentidos exigem o justo repouso pela aprendizagem da vida. Não havendo local adequado para dormir, há que procurar um colo pois é sabido que aí se faz a melhor cama, não apenas para o corpo mas também para o espírito. 
Perguntaste-me outro dia se eu sabia o que era o fado... O meu timbre controlado, quase um sussurro ao ouvido, chamou a atenção de outros dois com idade aproximada. Chegaram-se devagar. O rapazinho prontamente disse o nome, Eu sou o Gui, também posso ouvir? A menina, mais recuada, preferiu ficar anónima mas generosamente mostrou a falta dos incisivos. Continuei a cantar baixinho, o meu filho entorpecendo nos meus braços, com um olho neste mundo e outro a caminho do sonho. O Gui pousou no chão o tablet que trazia debaixo do braço, sem cerimónia alapou numa das minhas pernas - a outra estava ocupada por direito inalienável -, a menina desdentada veio por trás, começou a fazer-me uma trança no cabelo com a autoridade própria de certas crianças, que não perguntam nem esperam. E de repente eu vi-me como uma árvore de três frutos pendurados, cantando tristezas para receber o Outono. 
Enquanto cantei, ninguém falou ou mudou de lugar. Mas quando eu disse choram guitarras, eles arregalaram os olhos, descaíram-lhes os queixos, e a menina, num assombro: Podes dizer isso outra vez? Retomei o refrão e quando voltei ao choram guitarras, já não era só o espanto, mas o encantamento que lhes dilatava os olhos. O Gui, de mãozinhas sapudas tapando a boca escancarada, como se tivesse visto maravilha que não coubesse neste mundo: Como é possível?! As guitarras também choram? A menina queria mais: Espera aí... Eu não percebi muito bem o que é o fado. Podes cantar tudo do início? Cantei. E cantei. Voltei a cantar. A cabeça tombada do meu filho suava no aconchego do meu peito, o Gui e a menina desdentada quietos e reverentes diante de mim, a trança ao abandono, desfazendo-se com vagar nas minhas costas. 
Antes de vir embora, disse-lhes que pedissem aos pais para ouvir guitarras e então comprovariam como elas choram quando tocadas com mestria. Tão delicadas e sensíveis que são! Dando-se o caso de não lhes verem as lágrimas, que fechassem os olhos e as imaginassem, deslizando nas cordas como pelas rugas de uma face muito antiga. Depois fugi com o meu filho ao colo, temendo que alguém viesse pedir-me contas por andar a dizer às criancinhas que o mundo está repleto de belíssimas tristezas, de uma harmonia tal que apetece agradecer aos que padecem de dor. 
Não se faz.

10.10.14

Mas...

... se é comum a todos este mal-estar, se a cada um consome o sentimento de girar em contramão e mói o peso do mal e da injustiça, se todos se confessam, em maior ou menor grau, alvos da inveja e vítimas do egoísmo, se, no íntimo, ninguém escapa à convicção de estar certo entre errados, de ser direito entre tortos, de sentir entre os insensíveis, de se preocupar entre os indiferentes, de se achar bonzinho entre bestas e carrascos, de estar inocente entre os manipuladores, se ao espelho cada um se vê diferente, marginal, distinto e, às vezes, profundamente só, se todos, invariavelmente, se doem do mesmo, então... 
Então em que metade do mundo estão os responsáveis pelo caos, pela perversidade, pela injustiça, pela pancada que levamos ao acordar de manhã julgando estar aquém do que merecemos ou acima do que realmente somos? Serão eles a outra metade de cada um e estará a falha apenas no facto de não nos vermos do avesso e negarmos as linhas com que nos cosemos? 
Quem nunca ouviu o ignorante chorar a ignorância do mundo?

9.10.14

O grande amor

Não tenho por que invejar os que conhecem um grande amor, pois também tenho a minha bagagem. Mas invejo, com uma inveja atinada, da que morde os lábios e logo ajoelha para se redimir, os raríssimos que são capazes de o escrever à altura.

8.10.14

Teoria da "relativização"

Depois de seres mãe, deixarás de te importar com coisas pequenas. 
Assim me diziam os mais velhos. Que, com a maternidade, eu havia de aprender a relativizar. Que a importância de uma vida nos meus braços, em dependência de alimento e afetos, diminuiria o peso das realidades quotidianas. Deixariam de me doer certas ofensas. Tornar-se-iam miudezas as causas pelas quais erguia antes o punho. As minhas preocupações, revoltas e paixões acomodar-se-iam no canto da alma onde a indiferença é rainha. E com uma lucidez impressionante, eu distinguiria o que é história do que é apenas cenário. 
No embalo de um amor novo, com o centro de gravidade reposicionado, passariam a importar-me antes os sonos, os vírus, a magia dos instantes e da rotina, o esforço de dar o meu corpo, a minha entrega abnegada. Um sorriso dele e eu esqueceria tudo, o mundo retomaria o seu eixo. Um espirro, um ataque de tosse ou um assomo de febre, e teriam a dimensão de insetos os problemas do trabalho, as notícias do jornal, os gemidos noturnos da vizinha. Os primeiros passos que ele desse sem apoio, tornariam ridículas e levianas todas as alegrias que movem os que não têm filhos.
Enganaram-me. Ou enganei-me eu no curso da vida e, mais cedo ou mais tarde, talvez vá rebentar-me por circular em contramão. Porque tudo me parece cada vez mais imenso e importante, vieram à tona outros prazeres e outras dores que não habitam a minha casa mas em que reparo porque vivo mais atenta, de janela sempre aberta. Meus olhos são divergentes. Tenho um sobre os meus filhos e o outro retorcido, fugidio, às voltas por este mundo e por outros de que só suspeito.
Recordo, porém, de modo vivo e com os órgãos dos sentidos ainda inflamados, o dia em que me foi dada oportunidade rara para mudar de ideias e dar razão aos experientes. Faz agora uns quatro anos, que duvido terem passado ao ritmo do calendário. Não mais esquecerei, a não ser que os meus neurónios se empreguicem de vez. Havia polícia, bombeiros, sangue, vomitado, delírio, ele de olhos brancos e ausentes deste mundo, no ar a ameaça de uma sentença irreversível. Mas até nesse momento, e sobretudo nesse momento, com as pernas falhas de pânico e o coração num desatino que não mais conheci, tudo me pareceu maior e mais relevante ainda, cada partícula com o peso tremendo do universo, cada rosto estranho a esperança da salvação. No longo tempo de espera pelo regresso dele, uma bolacha Maria evitou-me o desmaio, um afago anónimo refreou-me os espasmos do ventre, uma parede deslavada foi meu único amparo, um grão de pó foi prova de vida, subindo e descendo com a corrente do respirar. Tantas coisas pequenas sustentando-me o corpo e o espírito! E a minha relativização continuou a ser inversa à que me haviam prenunciado.
Não há por que empequenar certas coisas depois da maternidade. Tudo me importa cada vez mais. O tempo importa, em todas as suas conjugações, importa toda a realidade, todo o ser humano, toda a solidão e todo o ruído, miudezas, rotina, trivialidades, gente má, gente feia e gente boa. Importa-me até uma pedra no chão, pois não sei se será minha arma na hora de me defender. Sou permeável e comovida. E são mais, muitas mais, as razões para a minha indignação, neste ou noutros cantos da Terra.
Depois de seres mãe, deixarás de te importar com coisas pequenas. Não existem coisas pequenas.