28.7.16

Recordações menores

Não sei se é da pasmaceira, de ignorar a quantas anda o relógio, do borbulhar das águas que embala o espírito, mas tenho sido visitada por recordações menores, episódios distantes e de tão pouca importância que me aborreço de saber o meu cérebro ocupado com trivialidades, quando não faltam por aí grandes e nobres causas para alimentar o pensamento. Deito-me à sombra, dorida dos pequenos prazeres - doem-me as pernas de tanto pedalar, a barriga de muito comer e a cabeça de não lhe dar uso - e mal fecho os olhos, elas começam a chegar numa lentidão traiçoeira, uma puxando outra como se viessem unidas por lógicas que não distingo.
Lembro-me, por exemplo, do dia em que cuspi uma batata cozida quando comia ao balcão da dona Arminda, foi há vinte anos, um excesso de tempo para tão irrelevante memória. Expliquei-lhe que a batata sabia mal, a veneno, uma coisa terrível, engolir nem pensar. A dona Arminda empertigou-se, como se a batata lhe tivesse saído do ventre e custado uma vida de sangue e suor. Aqui é tudo muito limpinho, que é que julga? Não duvido, é só mesmo para alertar, outras podem estar iguais... Virou-me costas, a dona Arminda, praguejando entredentes, os outros é que lhe deviam e ninguém lhe pagava. Depois desta, outras recordações semelhantes vêm e dou comigo a espantá-las com gestos à volta da cabeça, num desespero miudinho de querer fugir ao que não importa nem fez diferença.

O senhor Pereira vai fazer milhares de quilómetros para se enfiar num resort de águas mornas e passarada exótica, com tudo incluído. Mais uma vez, realiza o sonho. Trabalhou muito para isto, diz a cada passo. Foram décadas e décadas a fazer horas extraordinárias, quantas vezes sem ver os filhos acordados, sacrificando até os fins de semana. Não que tivesse um cargo de responsabilidade, pelo contrário, era um funcionário comum num departamento com dezenas iguais. O que o senhor Pereira fez foi agarrar todas as oportunidades, oferecendo-se para lá da hora, disponibilizando-se em todas as situações, servindo sem bufar, sujeitando-se a tudo o que lhe acrescentasse uns contos à remuneração. Calculo que tenha sido nesse tempo que aprendeu a vergar-se e a cumprimentar, no modo baboso que lhe conheço, como está a senhora doutora? Agora, diz-me com propriedade que neste país não dá para passar férias. Uma pessoa come mal, paga muito, a água é fria, o povo não tem maneiras e somos mal tratados por qualquer funcionariozeco. Lá fora é outra coisa. São pormenores, menina, são pormenores. O modo como nos falam, a vénia que nos fazem, arranjam-se de outra maneira, bebe-se outras coisas. Não lhe digo, só penso, que ele é tolo de achar que, enfiando-se num resort, está lá fora. Mas sorrio, condescendente. Também o senhor Pereira está a tentar enxotar as suas recordações por, certamente, as cuidar menores.

25.7.16

Biquíni

Nove horas da manhã, a luz ainda ao comprido, e o casalinho namora sentado na beira da piscina. Namora é modo de dizer, que mal se tocam, ele é que se inclina a pretexto de sussurros e enrosca o nariz nos caracóis dela, que ri de favor, sem se virar. Vai insistindo ele no seu jogo de sedução e, como é rapaz novo, presumo que esteja na posse de competências que bastem para dobrar uma mulher à roda dos vinte, mas a indiferença dela tem causa superior: é o biquíni que não está bem. Vai com uma mão ao soutien, penteia com os dedos as franjinhas que oscilam sobre a lisura do ventre. Ai, que chatice, desabafa alto para ninguém. Ele inclina-se de novo, olha de viés para o peito dela, que é rijo e generoso, diz-lhe mais qualquer coisa. Ela ajeita agora as alças. Não contente, desfaz o laço na nuca, volta a fazê-lo.
- Estás bem... - diz-lhe ele em tom apaziguador.
Não, talvez não. As franjinhas estão outra vez desalinhadas e a simetria parece não estar garantida, porque ela puxa para a direita, depois ajusta para a esquerda, por fim enfia as mãos por dentro e acomoda melhor os seios. Ele continua a falar-lhe baixinho, roça um ombro, pelo sorriso se vê que o palavreado é quente. Ela, se o ouve é mal e com interesse nenhum. Pelo menos mais três vezes penteia as franjinhas, ajeita as alças, puxa para um lado e repuxa para o outro, impacienta-se, bufa. Nada do que ele diga o faz merecer, sequer, um breve olhar, um sorriso de cumplicidade.
É dos livros que o mais comum é o inverso: são elas que falam, contam e divagam, enquanto eles se ausentam, libertando a mente em campos relvados, automóveis potentes, rabos de outras saias ou mesmo superiores preocupações com assuntos de finanças e gestão. Mas aquilo a que muitas mulheres já se habituaram, talvez poucos homens se submetam. Este, pelo menos, farta-se agora de falar e não ser escutado.
- Deixa-te mas é de merdas! Achas que com umas mamas dessas alguém repara no biquíni?
Levanta-se, ergue os braços e cai na água sem fazer ondas, como um sabre afiado. Só volta a vir à tona quando está bem longe, na outra ponta do tanque, e de lá lhe despacha um aceno antes de tornar a mergulhar.

18.7.16

Pudor

Durante muitos anos tive pudor em dizer às outras mulheres que podia comer do que quisesse sem engordar. Aos comentários acerca da minha magreza, eu respondia humilde, quase culpada, que era só herança genética. Não obstante esses meus cuidados, elas descuravam os seus. Muitas delas, munidas daquele extraordinário saber clínico que os maldizentes, os pessimistas e os hipocondríacos costumam debitar, diagnosticaram-me coisas terríveis: cancro, hipertiroidismo, bicha solitária, anorexia nervosa, bulimia ou mera ruindade de feitio. Falharam em tudo. Além dos diagnósticos, também prenunciaram uma série de desgraças, por estranha coincidência todas relacionadas com a minha condição de fêmea. E enumeravam-nas com altivez, como quem avisa e, por isso, meu amigo é. Infertilidade. Ou, caso assim não fosse, pelo menos impossibilidade de parir como a natureza manda. Ou, caso assim não fosse, partos demorados, sofridos e com marcas feias. Falharam em tudo. Por fim, reservaram-se a satisfação de prever a minha menopausa, lembrado-me a toda a hora que a gordura, mas mulheres, não é escolha mas destino. Falharão também. E entretinham-se olhando-me de viés, perguntando por onde me agarrava o meu homem, se eu levantava com as rajadas de vento e outras crueldades socialmente legitimadas pelo simples facto de andarem na boca das maiorias. Enquanto isso, faziam aulas de ginástica com umas bermudas de plástico que se dizia que queimavam gorduras e passavam semanas a fazer dietas à base de rissóis e folhas de alface. Não eram gordas, eram só desorientadas.
Quando, enfim, reconheci que ao meu receio de as ofender elas sempre responderiam com o que de pior reside no íntimo da condição feminina, passei a dar o troco em moeda igual e sem paninhos quentes. E passei a desfilar de cabeça alta, orgulhosa, não da minha magreza, que não é virtude nem defeito, mas daquilo em que sobre elas levo realmente vantagem: a imunidade à inveja, único pecado que nunca cometi.

E tendo escrito este texto como se me referisse sempre às mesmas mulheres, devo esclarecer que isso não é facto. Eram umas há trinta anos, outras há vinte, outras há dez, como são outras hoje. Mas é curioso que parecessem uma só, uma mulher universal, potentíssima, perversa, reencarnando e reincidindo do mesmo modo, desbocada pelas mesmas fraquezas e temores, triste de nunca ser cúmplice do corpo que Deus lhe deu para sua casa, seu abrigo e seu cuidado.
Ora, posto isto, os leitores imaginarão que sou um esqueleto ambulante, de clavículas e costelas à vista, rosto e abdómen cavados, joelhos e cotovelos como armas brancas. Podeis ficar com essa ideia, mas lembrai-vos também que toda a frustração distorce o olhar com vista ao consolo de quem dela sofre.

15.7.16

Respirar

O mais velho atribui-me a virtude de analisar profundamente antes de agir. Fazendo fé nas suas palavras, esse é o meu grande trunfo, o que me faz ganhar jogos, discussões e amigos. Acomodo-me no colo dele, seguro-me na musculatura das suas coxas, e confesso-lhe que não é exatamente assim, já tanto fiz por impulso, paixão, fúria, desatino e até capricho! Travo a língua a tempo e poupo-o ao que ele não tem ainda idade para entender: se tivesse profundamente analisado antes de agir, não teria tido filhos.  Mas – tola – julguei que o melhor que podia fazer pelo mundo era educar um ser humano para o bem. 
Ontem à noite, enquanto eu lhe ensinava o modo certo de respirar para aquietar as pernas e adormecer em paz, o mundo voltava a dizer que não, que é inútil, que o nosso destino é vivermos sufocados, sem pingo de sangue, sem sonho possível.

(Estás feliz, meu amor? A única coisa que eu quero é que tu sejas feliz! - sussurrava ternamente esta manhã uma mulher, falando ao telemóvel.)

12.7.16

Um homem

Um homem vindo dos arredores da capital bateu-me. Bom, não em mim, mas no meu carro. Muita gente passou e não parou a não ser para apreciar o dano material, que o dano causado aos nervos importa pouco. Até os conhecidos, depois de satisfeita a curiosidade, logo seguiram acenando até amanhãEra dia de jogo da seleção, havia muita pressa e ansiedade nas ruas. 
Quase uma semana depois, recebo, desse homem que me bateu e prontamente pagou, a mais inesperada e improvável de todas as mensagens. Chegou-me às primeiras horas da manhã, valeu para o resto do dia, valerá por toda a semana e por muitos anos.
Não sei se é mais triste ou mais reconfortante isto de encontrar em estranhos o que dos que estão perto muitas vezes não se recebe. O mundo raramente é o que julgamos. O melhor é não julgar coisa alguma, manter a confiança mas nunca a desbaratar.

11.7.16

O meu país *

Quando olho para o meu país vejo uma criança a brincar descalça, com cabelos principescos, de ouro fino e delicado, mas umas unhas sujas de esgravatar a terra. Irresponsável, como se nunca mais chegasse, como se nunca mais tivesse de chegar o tempo de se preocupar com coisa alguma. Não quer saber de filhos, nem de netos, nem da vida que lhes há de dar, tem tempo para pensar nisso, um dia, quando crescer. Logo se verá. Só conta a hora que passa. Anda a correr, de papagaio de papel na mão, à espera que o vento sopre de feição. Se o papagaio cai murcho no chão, não faz mal, toca a correr para o outro lado a ver se levanta outra vez. O meu país acredita que a sorte vira. A sorte.
Quando olho para o meu país vejo-o assim infantil, descomprometido, desresponsabilizado e, no entanto, cheio de sonhos e horizontes. Mil anos de história e uma maturidade que não há forma de chegar. O meu país não cresce, não perde este hábito de pôr a língua de fora e desatar correr como se não fosse nada com ele para depois, logo a seguir, aparecer a desfazer-se em lágrimas e beicinhos. Tenho até medo que, por um qualquer fenómeno sobrenatural, o meu país salte diretamente desta infância mental para a menopausa e fique seco, estéril, flácido. E tão exausto que prefira morrer. Como em todas as crianças, vejo no meu país uma alegria espontânea e genuína, contudo uma insistente tendência para cruzar os braços e fazer birra. Como em todas as crianças, vejo no meu país uma lucidez, uma sabedoria, um conhecimento original que me encanta, contudo uma permanente tentação por transgredir, desrespeitar, fazer de conta que não sabia de nada. E como todas as crianças, o meu país tem um sorriso que, no final, me enternece e me faz cair de joelhos: é o seu gosto húmido a sal, o cheiro da maresia, o namoro fiel entre o verde e o azul, a língua exata, exigente e expressiva e uma verdade confortável onde posso encostar-me e sossegar de vez em quando. Então, desculpo-o por tudo e percebo porque é que somos sangue do mesmo sangue.

* post de 2010

8.7.16

Movimento "Queremos ouvir os bloggers a declamar poesia"

Entendi que estava na altura de embarcar também nos desafios blogosféricos do venerável Dom Pipoco e da surpreendente Tia Palmier. Porém...


7.7.16

Paz

Tendo para a crença de que tudo se organiza naturalmente de forma a que as coisas e as pessoas cheguem, cumpram e vão, no tempo certo. Inútil é meter as mãos e forçar a entrada ou a saída seja do que for, seja de quem for, nas nossas vidas. Desejar é legítimo, rejeitar idem, mas na prática um e outro são puro desgaste enquanto as condições se opõem às nossas vontades. 
Não insistir, portanto, para que alguém saia das nossas vidas. A paciência é virtude sábia, terreno fértil. Antes esperar que um deslize as faça escorregar para o lugar do nosso esquecimento. E perdoar, não para que sigam elas em paz mas para que nos seja possível, a nós, evoluir num caminho benigno e tranquilo. 
Constato esta verdade com alívio, recordando como quase todas as batalhas em que entrei me deram vitórias breves e de todas as vezes em que aguardei obtive paz duradoura.

29.6.16

Atentados

Talvez a maioria de nós nunca tenha sido feliz em Bruxelas ou em Istambul. Mas em Paris quase todos o fomos e por isso chorámos tanto dessa vez e escrevemos lençóis de poética intenção e pintámos as identidades virtuais com as cores da França e impingimos as nossas memórias da cidade das luzes presumindo que a todos interessariam e, naquele dia, mais valeriam. Até na solidariedade somos egocêntricos. O que damos é muitas vezes à troca de uma recordação, um espelho, uma ideia que nos dê sentido à caminhada, qualquer coisa que nos lembre que somos vivos e sensíveis.

Ou então estamos apenas a habituar-nos. 

28.6.16

Pontualidade

De manhã cedo, antes do trabalho, às vezes vou ver o mar. Desço até ao Castelo do Queijo e sigo devagar pela marginal até à fortaleza de São João. A essa hora, a Foz é zona livre de perigos. Ou já trabalham ou dormem ainda aqueles que transformam as esplanadas em recintos de feira e desfilam bronzeados, roupas e automóveis na passarela de asfalto. Está tudo limpo, a luz é branca e honesta, as águas rebrilham com a subtileza das mais sofisticadas preciosidades, a ondulação é só um afago, ninguém diria que, ano após ano, este mar engole mais uma dose de areal e que, em dias feios, chega a varrer a avenida. 
Não me perco de amores pelo mar. Ainda que me fascinem as suas profundezas, à superfície vejo-o como uma metáfora de certos modos de vida. Para lá e para cá, numa rebentação inútil, levantando e assentando areias, bramindo noite e dia, humores instáveis, ora enchendo ora vazando conforme as luas, quantas vezes tomando o que não lhe pertence para no dia seguinte se pôr ajoelhadinho e humilde, a chamar e a pedir perdão. Prefiro os rios, que têm origem, rota, destino, os seus cursos são como o sangue a pulsar, vivo e rico, nas artérias do mundo. Em todo o caso, a marginal deserta às primeiras horas da manhã faz o mar parecer mais belo e eu encanto-me por esse horizonte mal definido, que olho com a testa franzida e a alma cheia de inquietações miúdas.
Quando chega a altura, volto, penetro na densidade urbana, encaixo-me no cortejo, submeto-me ao para-arranca, resigno-me à inversão de importâncias. A cada pausa nos semáforos, deito o olho para o lado e lamento pelos que tomam um pequeno-almoço de iogurte magro e bolachinha em andamento, pelos casais que se despedem com beijos de raspão e pelas mulheres que, entre todas as artes possíveis, aprimoram a de fazer um risco preciso de eyeliner ao volante. Talvez durmam demasiado, penso. Eles dirão, certamente, que vivem é demasiado. E eu, que por esta hora já estou mais do que lavada, arranjada, de barriga cheia e olhos bem dilatados, vou devagar, não tenho pressa de chegar aonde sou paga para convencer os outros a fazer o que eu desprezo. Ainda assim, sou pontual.

27.6.16

O massacre

Parece-me agora é hábito massacrar as pessoas que não têm animais tanto quanto era costume massacrar-se as mulheres que não tinham filhos. Eu cá antipatizo com insistências e perseguições deste e de todos os géneros, pois sabe de si cada um e não vejo porque há de ser valoroso quem tem filhos e bichos e não há de sê-lo, por outros e vários motivos, quem quer viver por sua conta.
Vem isto a propósito da cena a que assisti na bucólica esplanada onde gosto de me sentar ao fim de semana por meia horinha, tempo suficiente para beber um café, ler as gordas dos jornais e vasculhar absurdos nas conversas que giram em redor. Juntaram-se na mesa ao lado quatro jovens casais, três deles trazendo cachorrinhos, dois com filhos, um deles sem filhos, cães, gatos, chinchilas ou periquitos, conforme adiante percebi. O encontro foi festivo, muitos abraços e beijos, certamente ali tinha havido ausência e saudade. Desfiaram os comentários habituais: os miúdos estão enormes, cortaste o cabelo, estás preto, que fizeste para emagrecer? Serenado o entusiasmo dos cumprimentos iniciais, mandaram vir os cafés e meteram-se à conversa. Desde logo os cachorrinhos tornaram-se o centro das atenções. Primeiro comentaram as delícias do pelo e do olhar, depois avançou-se para a troca de experiências, contando uns aos outros da dedicação incondicional, das façanhas e gracinhas dos seus bichos, do nascer ao pôr-do-sol. Por fim, lançaram-se nas opiniões acerca dos modos de cuidar, tratar, educar, limpar, exercitar. 
Ao casal sem animais não restava senão ir acenando com a cabeça para não ficar de todo à margem e, simpaticamente, demonstrar algum interesse pela conversa. Mas eis senão quando a interpelação de um dos jovens do grupo os faz passar, num segundo, de espetadores a protagonistas:
- E vocês, quando é que pensam em arranjar um bicho para vos alegrar os dias?
- Os nossos dias já são bem alegres, garanto-te. – entreolharam-se, cúmplices, quase maliciosos. Ele pousou-lhe a mão na perna, fincou-lhe os dedos na carne.
- Sim, mas uma coisinha destas preenche-nos, estás a compreender? – acrescentou uma amiga.
- Não dá, animais nem pensar, é muita responsabilidade e nós ainda agora fomos morar juntos. A casa nem está toda mobilada, calma lá...
- Que tem isso a ver? – de novo o amigo.
- Olha, não queremos estar presos, para já é viajar, divertirmo-nos, andar com os nossos projetos...
- Isto não é uma prisão, é um amor... E há sempre alguém que aceita e cuida dos animais nas férias... – outro amigo.
- Está bem, mas é sempre preocupação. Por enquanto não é o que queremos.
- Por cada preocupação que te dá, um animal compensa-te com mil alegrias. Olha pra isto, olha pra esta coisa mais linda –  e a amiga que dizia isto embalava o cachorro no colo, dando-lhe beijos repenicados à troca de sôfregas lambidelas.
Entretanto as crianças esparramadas nas cadeiras, dedilhando fervorosamente nos tablets, olhos convergentes, pés balouçando. O casal perdia as forças para continuar a discutir, ela chamou o funcionário e pediu uma água com gás e limão, ele acendeu um cigarro e desviou o assunto, comentou o tempo quente, como este Verão tardara! Mas um dos outros, ainda cheio de fôlego, decidiu falar ao coração:
- Há tantos animais abandonados... Vocês não têm pena? Se cada pessoa adotasse um, olha o bem que se fazia...
- Sim, mas é preciso dedicar-lhes tempo e nós...
- Se calhar isso é uma visão um bocado egoísta, não? –  outra vez a amiga.
- De qualquer forma, neste momento não temos condições para... 
- Nunca ouviram dizer que onde comem dois comem três? –  o amigo, obtendo o coro dos restantes. 
Levantou-se o casal. Que desculpassem, mas estavam a precisar de esticar as pernas e ainda tinham de passar no supermercado. Com um aceno vigoroso e apressado: um dia destes ligamos para combinar qualquer coisa.
Ligam, ligam.

17.6.16

Perfumes e companhias

Dizem que os perfumes identificam quem os usa, mas a minha ideia é oposta. Vendem-se em frascos, às coleções, às séries, em quantidades industriais, não vejo como isso possa dar um toque pessoal a quem quer que seja. Estranho que se pague às largas dezenas de euros para ter o mesmo cheiro do vizinho, do colega, do patrão, da atriz da novela, da designer de moda. Podeis poupar-me à explicação de que a fragrância se torna única ao reagir com a pele e que o que nuns fica enjoativo noutros lembra a frescura de prados verdejantes. O único aroma que nos individualiza é o nosso. Andando bem frescos e lavadinhos, somos mais atraentes, interessantes e fica garantida a singularidade que, a todo o custo, procuramos nas lojas e pela qual gostamos de pagar.
É fácil concluir que dispenso perfumes e que tenho um nariz cheio de cismas, relutâncias e sensibilidades. Acontece, porém, que não consigo livrar-me deles porque é costume a gente usá-los de um modo que se impõe e contamina. Não bastassem já as roupas e a quinquilharia, não fosse suficiente falar alto, bater os tacões, interromper, buzinar, ainda é preciso um cheiro que berre ao mundo "eu estou aqui!". E logo às primeiras horas da manhã reparo que, só por ter tocado no puxador da casa de banho, na máquina do café, por ter apertado a mão a este ou àquele, por não sei quem me ter afagado um ombro, sou uma mescla de Jean Paul Gaultier, Dolce & Gabbana, Chanel, Zara Kids, Frozen ou coisa que o valha. Ao almoço, o meu palato é corrompido pela profusão de fragrâncias químicas. O gosto de uma alheira com grelos e ovo estrelado deforma-se. O aroma do azeite com alho e coentros é abafado. Até uma punheta de bacalhau perde para um Armani qualquer. O que sinto não é a presença de gente e menos ainda de indivíduos - afinal, quantos cheiram ao mesmo? 
Por isso me dá para rir quando ela, à passagem do diretor, se põe muito excitadinha a suspirar ele cheira tão bem! E ele, consciente, encorpa-se, simula indiferença com um aceno preguiçoso. Nenhum dos dois se lembra que o cheiro não é dele, é do frasco de perfume. E milhões usam igual. Sorte teria ela se ele lhe desse a conhecer o seu próprio aroma, o original, o verdadeiro.

10.6.16

A educação proibida

O documentário que abaixo publico tem quatro anos, talvez muitos já o conheçam. Diz que na altura em que foi lançado tornou-se viral mas temo que isso seja falso, pelo menos em Portugal, ou então o facto de eu viver a leste das redes sociais impediu-me de detetar o fenómeno.
São duas horas e vinte de reflexão sobre o sistema de ensino global. Não estou à espera que em fim de semana prolongado e soalheiro alguém vá investir tempo a ver. A minha fé de que isto interesse a alguém diminui ainda mais quando me lembro de que as preocupações de pais, professores e instituições deste país nunca incidem sobre a raiz, a pertinência e o objetivo do sistema de ensino, antes giram torno das performances nos exames, dos resultados nas pautas e do financiamento dos colégios. Acresce o cansaço de que, nesta altura no ano letivo, todos querem finalmente libertar-se, que a corrida terá sido longa e penosa para muitos.
Em todo o caso, para quem desconhece, aqui fica "A educação proibida". Estou certa de que quem vê até ao final agradece, não a mim, claro, mas a quem se dá ao trabalho de nos lembrar o que, todos os dias, somos forçados a esquecer.

9.6.16

Estrada nacional

Uma mulher caiu de joelhos na berma da estrada nacional, sentido inverso ao dos peregrinos. Bateu com a têmpora esquerda no muro, abriu um lanho até ao olho. Logo parou um portentoso camião e dele saiu o motorista, acorrendo com a rapidez, a inteligência e o sangue-frio de um bombeiro. Do outro lado, veio uma jovem loira, de trança e calças floridas. À mulher, corria o sangue por entre os dedos da mão com que amparava a cabeça, pingando-lhe no colo e empapando o avental de xadrez. A jovem loira ajoelhou-se também para conversar com ela, enquanto o motorista tocava nas casas próximas em busca de auxílio. Atrás do camião foram-se acumulando outros veículos, ignorantes do que se passava. Em menos de um ai, a fila chegou à estação de serviço. Depois começaram a ganir as buzinas e era quem mais tentava passar sem ver por onde, menosprezando regras, prioridades e intenções alheias, que é sempre grande a urgência daquele que nunca olha para o lado e sempre lhe pertencem as questões de vida ou de morte e sempre é valioso o seu tempo, acima do dos outros.
Em sentido contrário, seguimos com tranquilidade ao perceber que a mulher estava bem entregue. Parar, só por curiosidade leviana ou por alguma dessa pena que a gente se põe a sentir quando precisa de encontrar consolo na própria sorte. Na nossa faixa, é provável que ninguém se tenha atrasado. Mas o motorista do camião poderá sofrer as consequências por qualquer coisa que agora não me ocorre nem consigo nomear. A rapariga loira, aonde quer que fosse chegará tarde. Os outros tarde chegarão, não lhes há de ter valido a impaciência e o escarcéu das buzinas. Havia uma mulher de joelhos na berma da estrada nacional, a sangrar. 

3.6.16

Os dias que passam e nos deixam

Comovi-me de ouvi-lo dizer-me uns versos de Pessoa. Orgulho tolo de mãe não foi, que para dizer uns versos basta lê-los e ter memória que os guarde. Minha riqueza de menino, também não. Versos de Pessoa estão à disposição de todos os meninos e qualquer um os recita, disseca e comenta quanto à métrica e às figuras de estilo. Comovi-me de, naquele instante, ao jorrarem os versos da sua boca com o ritmo e a entoação de um humilde dizer, sem farsa nem drama, estarmos juntos num lugar onde ainda não nos havíamos encontrado. Olhos nos olhos, pois somos agora da mesma altura e não voltaremos a ser – ele avançará, eu ficarei. É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte*
O meu irmão costuma dizer-me tu choras por tudo e por nada, caramba! Mas é falso. Eu não choro por tudo, eu só choro por nada. Sólida num funeral, numa despedida, na notícia de uma doença grave, talvez até na iminência do fim do mundo, porém escangalho-me, dissolvo-me diante de uma perfeição, miudeza que seja, coisa que aconteça sem deixar rasto ou herança, um nadinha ou ainda menos, uns versos que um menino diga e que qualquer outro pode dizer.

*Sou lúcido, Álvaro de Campos

31.5.16

Aproveitamento escolar

Por causa de uma conversa sobre o Tempo, desassosseguei o mais velho. Culpa dele. Conhecendo-me há tantos anos, devia ter adivinhado que a inocência do seu comentário podia ser a ponta de um novelo que eu iria puxar, durante os dez quilómetros de percurso, até instalar a dúvida e o caos. Dois mil e dezasseis não está a passar, está a voar. Gastámos o caminho à volta disto, o para-arranca para colocar hipóteses, as estradas abertas para arriscar respostas – e poupo os leitores aos detalhes da reflexão não só para evitar o enfado mas também porque, sendo coisa nossa, tem valor que não pretendo dividir. 
A espaços, o silêncio. Então, em que estás a pensar? Nisso, não consigo parar de pensar nisso do Tempo, com quem é que eu posso falar melhor? Talvez com a professora de Física, sugeri sem convicção. Riu-se com aquele desdém adolescente que não sei se mais irrita ou mais promete. Essa?! Mandá-lo-ia sentar-se e calar, anotar o sumário, copiar as fórmulas do quadro. Imita-lhe a voz nasalada e os olhos revirados: lá vem o menino com disparates, depois queixe-se se não tiver aproveitamento. Rimos. E concordamos que "aproveitamento" é apenas uma entre as muitas palavras ocas, ridículas, que suportam a máquina do ensino. Repito que o assunto é do âmbito da Física. Inútil. Ele é que sabe. E a professora de Ciências? Mais aberta, sim, talvez se interessasse, mas anda sempre cheia de pressas, deixá-lo-ia pendurado. Falar sobre o Tempo com quem a toda a hora se queixa de não o ter? 
Já perto da escola, avisa-me que abordará o tema com o professor de Língua Portuguesa. Franzo a testa, interrogo, que tem Camões a ver com isto? E vêm ao caso aliterações ou complementos oblíquos? Ele é o único que não anda aqui só para dizer cenas, é um homem preocupado com a nossa inteligência, tenho de aproveitar.

27.5.16

O tempo vai mudar

O senhor Pereira é um homem de ambições menores: um carro vistoso, férias em hotéis com praia de acesso restrito, a vitória nas discussões do quotidiano. Junta uns trocos e realiza as duas primeiras. Levanta um pouco a voz e alcança a terceira. Assim, poupa-se ao sofrimento, a devaneios e frustrações, e por isso mantém a coluna direita, olha em frente, não aponta para o chão como é tendência dos deprimidos nem para as nuvens como fazem os sonhadores. Que o amor não lhe assista, que a mulher não se lhe entregue, que as filhas não lhe falem, que o filho não o admire, importa? Ninguém vê, alguns suspeitam mas nenhum pode jurar. A vizinhança elogia-lhe a organização e o pragmatismo. Ele limpa as poeiras do dia-a-dia com gestos simples. Conselhos para a vida não, mas ajuda para pequenos enguiços e obstáculos muitos lhe pedem. É um homem que resolve. Tem destreza para contas de cabeça, sabe quantas horas de voo são daqui à República Dominicana e quando se deve mudar a correia de distribuição. Temos de estar preparados para tudo, diz ele, agradecendo o crédito que lhe dão. Em público, a mulher manifesta algum orgulho nisso, mas não basta. Preferia que ele gostasse de conversar sobre os divinos mistérios da matemática, o colonialismo na América Central, ou a desolação dos mundos onde um automóvel dura até ser só carcaça. Porém, desistiu e esqueceu. Largos anos de casamento ensinaram-lhe a vantagem das futilidades e a simplificação da vida. Com um gesto preguiçoso e bem treinado, diz-lhe:
-  Miro, põe um casaquinho pelas costas que o tempo vai mudar.

24.5.16

No lugar de Julieta

Fez-se com brevidade o luto por Julieta. O meu sentimento de culpa pela queda fatal de que foi vítima ficou resolvido. E fui aceitando a ideia de que, ainda que eu tivesse redobrado os cuidados, acariciado as folhas, sussurrado palavras de incentivo, não a espevitaria. Para me tranquilizarem, os meus filhos foram-me lembrando o que eu própria lhes digo: que as coisas da natureza são imperfeitas e transitórias, cheias de caprichos e sinais que escapam à sensibilidade humana. Culpa, remorso e revolta são gastos inúteis de energia.
No lugar de Julieta será, assim, colocada uma nova orquídea. Decidi, porém, que há de ser de outra cor porque o branco, apesar de luminoso e inspirador, tem uma inocência que fragiliza. Preciso de uma orquídea forte, de boa linhagem, que tenha teimosia de viver, nada de tiques de aristocracia e futilidades. Será violeta. E há de dar-me mais paz do que preocupações. 
O mais velho, fascinado por tragédias de amor, sugeriu desde já que lhe chamássemos Inês e, numa visão que me estremeceu da cabeça aos pés, pressenti uma vida tão breve como a de Julieta, culminando com penas e ais. Nem pensar. Era o que faltava, ver de novo uma bela flor morrer pela insistência numa paixão sem espaço nem futuro. 
Entre Dalila e Madalena, será feita a minha escolha. Certa de que não a livro da morte, conto, ao menos, livrá-la de tolices.

23.5.16

Contradições

Temem de morte as correntes de ar mas julgam-se seguros com aparelhos de climatização. Viram a cara aos estranhos na rua e seguem gente que não conhecem nas redes sociais. Tratam obsessivamente o corpo com sementes e cereais exóticos e reservam para a alma comprimidos e resignações. Aceitam toda a espécie de lixo para se orgulharem de, mais tarde, o separar no ecoponto. Creem que um vírus morre mesmo com cêgripe mas desconfiam dos benefícios da meditação. Choram de não ter tempo para nada e compram oitenta canais de tevê. Acreditam piamente que neste país já lá vão as ameaças de ditadura, que poder escolher é a sua maior fortuna: escolher o canal que veem, a marca do aparelho de compram, os pedidos de amizade que aceitam, a cor do contentor onde põem o lixo. Estranho que nada disto os apazigue ou lhes dê sonos tranquilos.

14.5.16

Grata

O mais novo é a melhor pessoa que eu conheço. 
Não estava nos planos, gerou-se furtivamente, escapando ao controlo e às probabilidades. Grata pelo acaso, que me encheu os dias com inteligência, justiça e compaixão.
Se eu tivesse de nomear alguém para salvar o Futuro, nomeá-lo-ia a ele.

13.5.16

Os sapatos da viúva

Lá vai a viúva, muito emproadinha, cheia de vaidade nos atributos que Deus lhe deu e a maturidade não lhe tira, nádegas firmes e redondas, seios espertos, o nariz farejando adiante, uma pele cuja luz eu me apanho a invejar de boca escancarada.
Há nela uma elegância sem época, indiferente a modas, que a livra da massa e da vulgaridade, como se não pertencesse, não devesse nem temesse. Podia ser mulher de qualquer tempo: deusa pré-histórica da fertilidade, rainha do Barroco, musa de Hitchcock, embalagem plástica do futuro. Seria igualmente sólida e ajustada.
No modo de se vestir e apresentar, a viúva não é de gritaria ou escarcéu. A excentricidade, manifesta-a em sussurros e esgares. Pode prender a atenção apenas com o perfume, a cor rara do batom ou, como hoje, um par de sapatos pretos com corações vermelhos. Atravessa a rua de paralelo em cima deles, num equilíbrio que poucas mulheres alcançam, a coluna vertebral como uma estaca bem ancorada no ventre da Terra, nenhuma parte do corpo é frouxa ou indecisa, os olhos não se distraem e as mãos têm lugar certo. É difícil fazê-la rir e também não há indícios de que chore. 
O senhor Pereira é agora indiferente à sensualidade desta rigidez. Nada obteve dela a não ser estímulos à imaginação. Eu continuo a fascinar-me ao vê-la, numa busca vã do enredo ideal para a encaixar. Mas a viúva escapa a qualquer história, entra no SUV, acelera, desaparece nas voltas da rotunda.

12.5.16

Julieta volta à janela *

*Republicado, para atender a um pedido.

Por causa da rapariga da papelaria, quase matei a minha Julieta. Hesito antes de contar como tudo aconteceu pois sei que o facto de vedar comentários não é o que me livra de juízos e sentenças, apenas de os enfrentar e ter a trabalheira de mais uma gestão, como se não bastassem as muitas que já me ocupam. E, neste caso, estou certa, acusar-me-ão de tolice. 
Arrisquemos.
Desde o dia em que a rapariga da papelaria manifestou à experiente velhinha a sua descrença no verdadeiro amor, não calhou eu voltar a pôr lá os pés. Mas encontrei-a na semana passada, na rua, e espantei-me ao reparar que mudou de visual. Pintou e soltou o cabelo, tirou o piercing e vestia cores de primavera, longe dos tons de viuvez que era seu hábito usar. Achei-a também de ânimo renovado, mais desprendida, com riso fácil e muito dada à conversa. A minha conclusão foi imediata: ora, pôs-se bonita para atrair o amor! Mas por não haver confiança bastante, nada perguntei. Limitei-me a apreciar o natural desabrochar daquela flor que só por falta de esperança foi, muito tempo, um caule seco e tristonho. 
Mas se é uma verdade universal que a beleza pode apaixonar, também acontece o vice-versa: a paixão embeleza. E, ao mesmo tempo que organizei no meu íntimo este pensamento, lembrei-me da haste da Julieta, que desde o outono dorme, hirta, introvertida e melancólica, num vaso azul, sem indício de voltar a dar flor. 
Regressei a casa decidida. Aproveitando o tempo de feição, ocorreu-me que se pusesse Julieta do lado de fora da janela, bem exposta, talvez o gato vadio que a namorou no verão passado se perdesse novamente de amores por ela. Julieta está pouco ou nada atrativa, bem sei, mas um gato tem instinto, num relance perceberia que continuam firmes as suas raízes e cheia de promessas a seiva que lhe corre por dentro. Assim, voltando o gato a adorá-la, não poderia ela desabrochar de novo?
Com Julieta do lado de fora da janela, pronta para ser amada e florir, fui dedicar-me a outras tarefas e nem dei conta que, ao fim da manhã, se levantou uma dessas ventanias repentinas que mudam o tempo e pressagiam desastre. Só depois de almoçar e arrumar a mesa com vagares de fim de semana, percebi o resultado da minha irresponsabilidade, quando dei pela falta dela e me debrucei na janela. Lá em baixo, o vaso azul multiplicara-se em cacos no meio dos arbustos e Julieta estava prostrada nas lajetas, com as raízes abraçadas a um resto de terra. Pronto, o mais velho desceu para buscá-la, enquanto o mais novo, solidário, fazia eco dos meus lamentos. 
Julieta regressou com as folhas torcidas, maceradas, aninhada nos braços do meu filho. Primeiro, penitenciei-me pelo descuido. Depois, culpei-a, tão preguiçosa para viver que me obriga a estes disparates. E, como é óbvio, acabei a rogar pragas ao gato, sacana dum raio, que nunca mais apareceu.

05-02-2016

11.5.16

Não é o que dizem?

Para escrever como se quer, talvez eu devesse ser infeliz. Não é o que dizem? Que a arte é exorcismo de agudos e recalcados tormentos?
Tenho dores – quem as não tem? Mas arrumam-se em cantos cujo pó limpo ao meu modo para evitar o mofo, a doença, a decomposição. Uso-as de vez em quando, quero a sua maleabilidade garantida, preciso delas para o árduo exercício do perdão. Apesar disso, falta-me o sentimento da desgraça própria, memórias de desamor e até certas tentações: a do vício, a do sono, a da morte. Falta-me crer que o mundo pesa inteiro sobre as minhas costas, que os fantasmas me procuram no escuro e que sou pioneira de todas as angústias e interrogações. Que o amor que vivo ou já vivi é superior e, só por isso, mal entendido com o mundo. Narcisismo também não tenho que chegue. Se por vezes me debruço no lago, o que me espanta e distrai é ver o meu rosto transformar-se de acordo com a direção dos ventos. 
A minha vulgaridade é um terreno estéril para criações que valham. 
Podia, portanto, desistir, dar-me a outros passatempos, mudar de profissão, tentar novas aventuras. Mas a minha crença a respeito do impulso da escrita é outra, bem mais objetiva e, sem dúvida, muito menos fascinante. Além disso – lembro-me agora – escrever é o meu único sustento.

10.5.16

Cortejo

Quando eu era pequena, a minha mãe levava-me todos os anos para ver o cortejo académico e ficávamos quase sempre na curva de Sá da Bandeira, junto ao teatro onde se exibiam obscenidades. Naquele tempo, a cidade parava a ver os estudantes desfilar e punha-se muita fé nas ironias e parangonas com que decoravam os carros. Achava eu então que os universitários eram seres iluminados, que o ensino superior lhes abria a consciência cívica e intelectual, graças ao contacto com saberes elevados e docentes esclarecidos. O que eu via naquele desfile, na cantoria, nas encenações humorísticas e na criatividade sem censura, era uma promessa de viragem, um romantismo que havia de mudar o mundo, limpá-lo de pó e equívocos, fazê-lo sair da linha de montagem, desatar-lhe os grilhões, arrancá-lo aos espartilhos. Encantava-me. 
A minha mãe ajudava à missa: tinha também um fascínio pela vida académica, havia nela uma nostalgia mal resolvida que a visão das capas negras, das fitas e das cartolas inflamava. Muitos, muitos anos antes, a minha avó cortara-lhe as asas na hora em que manifestou o desejo de ir para Coimbra estudar engenharia. Iria para a universidade, sim, mas no Porto, sob apertada vigilância. Rapariga sozinha e longe é que não. Assim, a minha mãe cursou o que não queria e jamais terminou ou exerceu. À custa desse amor proibido, nunca consumado, criou belíssimas odes à cidade do Mondego, na sua letra quase pictográfica, em papel de carta. E naqueles dias da semana académica ela recordava, assistindo, o que ficara por cumprir. 
Ano após ano, fomos aguardando com expectativa diferentes cores, conforme os meus irmãos iam crescendo, tomando o seu rumo e ganhando um posto no imenso cortejo. Começámos por procurar o vermelho e branco. Depois o azul escuro. A seguir o azul claro. Por fim o vermelho sólido. E parecia-me tudo muito lindo, as flores de crepe eram briosas, as parangonas cheias de graça, o INEM era chamado poucas vezes, respiravam-se grandes esperanças.
Quando chegou a minha vez, do desfile já sobrava mais vidro partido, poças de vomitado e comas alcoólicos do que outra coisa qualquer. No primeiro ano, os meus colegas de curso foram manchete do jornal com um título que ainda hoje recordo: Alunos de Comunicação Social portam-se como primatas irracionais. Não quis fazer parte do cortejo, pus-me à margem assim que a minha doce inocência se desfez e percebi que, afinal, a vida universitária não era a antecâmara de um mundo melhor, mas uma passagem, desesperançada e desajustada, entre a idade dos sonhos e o tempo da resignação.  

6.5.16

Cartão de cidadão

Sonhei esta noite que tinha perdido o cartão de cidadão. Vasculhei a carteira para responder à ordem da agente de polícia mas só me saíam documentos de validade expirada, o meu primeiro bilhete de identidade, a carta de condução, o cartão de contribuinte, cartões de atleta, recibos desbotados, papéis com recadinhos amorosos, moedas de um cêntimo. Perante o meu desespero, a agente afinava a sua autoridade, endireitando mais e mais as costas. Olhava-me com a distância com que se olham espécies opostas, estranhas, sem matéria ou sentimento em comum. Eu ia gaguejando banalidades, não compreendo, estava mesmo aqui. E nos olhos dela pairava, terrível, a dúvida a meu respeito. 
Tremia-me o corpo, esvaziando-se de sangue e presença, não pelo medo de ser punida, mas pela angustiante hipótese de ter deixado de existir e de me cobrarem quinze euros para voltar a ser quem sou, dar a medida exata do meu corpo, fazer prova daqueles que me conceberam, não bastando que os seus traços vivam em cada um dos meus, e lembrar que sou gémea do solstício de inverno, depois de mim a luz venceu e os dias só cresceram. Como um saco plástico vazio, frouxo, vulnerável aos caprichos do ar, creio que naquele instante preferi morrer. 
O acordar não foi instantâneo. Demorei a livrar-me dos dedos da agente de polícia no meu braço, como um torniquete, e da minha mão paralisada, roxa, sem pingo de vida.

5.5.16

Poeira molhada

Ao sair do edifício, a mulher deteve-se, inspirou como se precisasse de recuperar a vida e revirou os olhos: ah, que cheirinho a terra molhada! 
Tola! A terra molhada só cheiram as intimidades do mundo: campos, aldeias, florestas. Aí dentro, há entre a chuva e a terra uma troca justa de favores e propósitos que mantém a harmonia, gera flor e fruto. Aqui, na cidade, onde a chuva serve para fazer correr água imunda nas sarjetas e atrapalhar o trânsito, o cheiro é apenas a poeira molhada, mas essa reles imitação é quanto basta para exaltar os sentidos de quem os tem dormentes e acordar memórias de liberdade e inocência. Qualquer canteirinho húmido pode provocar uma catarse.
A mim, este cheiro a poeira molhada, que é urbano e inconsequente, lembra-me o dia em que me disseste, com a devida cautela para não detonar as minhas fúrias, que as coisas não podiam ser conforme eu queria, nem sequer conforme esses teus sonhos, tão vagos que jamais seriam senão sonhos. Ficou-me. É por isso que, ao contrário do cheiro a terra molhada - que faz vibrar em mim uma felicidade pura e me recorda o essencial do universo -, o cheiro a poeira molhada lembra-me a supremacia do que é material, a autoridade do medo, o poder daquilo que há muito deixou de me fascinar ou servir. 
Quando chove na cidade, é só isto: a poeira levanta-se, os sentidos inquietam-se, mas tudo torna a assentar.

26.4.16

Liberdade

Há muito que não tenho, com o senhor Pereira, um encontro que mereça relato. Ou porque ele anda menos espirituoso ou porque o que diz tem passado ao lado das minhas inflamações crónicas. Ontem, porém, talvez o feriado e o bom tempo o tenham espevitado e tenham reacendido em mim algumas sensibilidades. Vendo que pela fresquinha da manhã já andávamos no laréu, perguntou-me se íamos comemorar a liberdade. Qual liberdade?, perguntei. Não esperava que ele compreendesse a ironia, tampouco era meu desejo provocá-lo ao ponto de encetar debate. A única intenção era escapar ao absurdo da pergunta. Ele reagiu sem novidade: uma gargalhada superior, uns olhos ternos, paternais, e, por fim, a sentença já esperada.
- Vocês, jovens, não têm cultura nenhuma nem valorizam nada!
O mais novo, que volta e meia se mete a ler coisas impróprias para a idade e gosta de se exibir, puxou-lhe pela manga da camisa:
- Por acaso sabe quem foi o primeiro presidente da república da liberdade?
Primeiro, o senhor Pereira fez-se muito hirto e fugiu com os olhos, numa atrapalhação evidente. Mas depois, o riso vivo e ansioso do mais novo, com os dentes definitivos ainda por acomodar, enterneceu-o. E nessa ternura viu a tábua para se salvar da humilhação:
- Uma delícia, este seu pequenito! Uma delícia!
Ia repetindo isto e ganhando distância, desceu o passeio, atravessou a rua com acenos de despedida e, meio aos ziguezagues, acabou por atracar na mulher que o esperava na esquina oposta, adorando uma montra de vestidos de cerimónia. Seguiram de braço dado, como dois elos de uma corrente empedernida, ferrugenta, que nenhuma revolução é capaz de quebrar.

21.4.16

Revista de imprensa

Não meço a grandeza de um miradouro pela amplidão do horizonte, mas pela surpresa que a sua perspetiva me causa. Assombra-me mais a novidade do ângulo do que a lonjura da vista. Para lá do mar, já sei que está mais mar. Para lá de um monte, adivinho que outro está. Não preciso de ver longe, antes quero ver diferente.
Já estive em quase todos os miradouros que a Fugas sugere. É-me difícil perdoar a ausência de S. Leonardo de Galafura e de S. Salvador do Mundo nesta lista.

O "i" partilha connosco as nove dicas que a "Time" deu aos que sistematicamente chegam atrasados. Entre o bullshit habitual e muita condescendência pelos caóticos, esqueceu-se do único conselho que vale e cujo incumprimento a vida moderna não desculpa: tenha respeito pelos outros

O JN diz que "três funcionários das finanças arrecadaram 1,4 milhões de euros". Está mal, não está? Foram dois funcionários e uma funcionária, é preciso fazer a distinção. Há mulheres corruptas e a isso deve dar-se a justa importância.

20.4.16

O filho de Magda (4)

Na morte de Magda, ninguém o viu chorar. Mas durante muito tempo andou macambúzio, abusou da cerveja e do sofá, cumpriu a vida como um autómato, tanto se lhe dava que chovesse ou fizesse sol. Verdade seja dita, nem era grande desvio. Caráter marcante nunca tivera, da sua boca jamais saíra coisa que impressionasse. Entusiasmo? Por nada. Tão imune à paixão como ao desespero. 
A mulher, que já então tinha a memória dorida de um par de estalos, tirou algum alívio desse luto introvertido. Parecia que ele nem existia e, não existindo, evitava lembrar-se ela a toda a hora do erro que cometera. Quantos anos tinha? Vinte? Vinte e dois? Era uma rapariga tão bonita, tão esperta. Podia ter-se dado a outro. Tinha-a cortejado o Vasco, mas andava com um pé no Porto a estudar engenharia, por certo dava-se às noitadas e a outras raparigas, não era de confiar. Chegara a namorar o Carlos, mas achava-o muito instável e ambicioso, acossado por ideias de mudança, esquecer-se-ia dela quando realizasse os seus sonhos, melhor cortar o mal pela raiz. Teria até dado uma oportunidade ao Álvaro, bem quisera ele, mas o Álvaro escrevia no jornal todas as semanas sobre as vergonhas políticas lá da terra, com modos críticos e atrevidos, tinha inimizades, estava sujeito. Uma mulher não quer nada disto. 
Dizia-lhe o pai: de tanto escolheres hás de ficar sozinha. Sozinha é que não. Então, um dia, a mãe: já reparaste no Jorge Manuel, que é tão bom rapazinho? Tinha maneiras, era discreto, paciente e responsável, tão amigo de Magda, nunca se ouvira dizer dele o que quer que fosse. Só a madrinha tinha contrariado a maioria. E para que serve um bom rapazinho?, perguntara. A vida é paixão e combate, um bom rapazinho não se aguenta, falta-lhe fôlego, coragem e até defeitos. Depois, puxara a afilhada para um canto:
- E diz-te quem sabe, minha querida Luísa: um bom rapazinho nunca será um bom amante. Cuidado.
Com efeito, o primeiro beijo pareceu-lhe a lambidela de um cachorrinho. Acabou por rir disso muitos anos depois, quando exausta de chorar.

15.4.16

Intervalo inevitável

Perguntaram-me se acaso pretendia eu insinuar, no texto de ontem, que os gordos deveriam morrer. Que hei de responder?

Dizia há dias o Xilre, um dos raríssimos blogues aonde não vou por rotina mas por devoção, que as mulheres quando contam histórias mostram, ao invés dos homens, que insistem em dizer. Presunçosamente, incluí-me naquele elogio, até porque com a idade vou perdendo o hábito de afirmar e ganhando o gosto de contar. Pois se já nem eu sei que diga do tanto que vejo!!! Talvez por isso tenha guardado os textos antigos deste blogue, muitos deles pareciam-me excessivos em certezas e as certezas embaçam os horizontes, põem-nos o pé no travão. 
Do que se conta, conclui cada um o que mais lhe importa, magoa ou alivia. Já lá vai o tempo em que eu cuidava que o desentendimento era ou culpa de quem mal fala ou culpa de quem mal ouve. Hoje sei que a culpa é do intervalo inevitável que há entre a gente, do espaço vago e fértil onde tudo cabe, tudo se supõe, tudo se espera e de tudo se duvida. E esse tudo é mentira, perspetiva, ilusão.