17.12.14

Coração de ouro

O mais novo acredita que eu tenho um coração de ouro. Já lhe expliquei que não, que é pechisbeque comprado numa dessas lojas de acessórios, vale tanto como um par de meias mal acabadas. Mas ele, que está na idade de mais avaliar as coisas pelo brilho do que pela consistência, segura-o nas pontinhas dos dedos com as habituais delicadezas e exclama o seu fascínio, afirmando ser aquele o aspeto das coisas de supremo valor que só as mulheres muito chiques são dignas de usar. 
Adianto – certa de que ainda não compreende mas crendo que registará – que, nos dias que correm, é tolice exibir certas riquezas pois logo atiçariam o desejo e a inveja. Um coração de ouro é sempre muito apelativo. Em três tempos, uma mão criminosa se lançaria a arrancar-mo para depois o dar à troca de coisas menores. É por essas e por outras que todos passeamos o que nos fica bem e nem sempre o que mais vale. As joias verdadeiras têm tendência a ficar onde é costume também guardar os esqueletos: no fundo do armário.

16.12.14

Vir ao mundo

Dezembro foi o mês de eu vir ao mundo. Apesar de cumpridas todas as luas, era tão miudinha que deslizei sem exigir da minha mãe grandes esforços e poupando-a à dor extrema. Foram as mãos de uma freira, de nome Maria, que me ampararam na chegada. Porém, nasci silenciosa, quieta como os mortos, numa preocupante negação em abrir a goela e acusar o desconforto de existir por conta própria. Só à força o meu corpo autorizou a primeira lufada de oxigénio e então, finalmente, terei sentido o susto, o frio, a fome. Escreveram no meu livrinho, como informação de relevância clínica: bebé com morte aparente
A minha mãe, coitada, passou o resto da vida a tentar parir-me devagar pois que demorei a abandonar-lhe o colo e a cama, aonde sempre gostei de recolher. Não que tenha prolongado a minha recusa em vir ao mundo, bem pelo contrário, mas de vez em quando acontecia, e ainda acontece, pôr-me como à nascença: silenciosa, quieta, vivendo no avesso por me parecer impróprio e excessivo o que vem de fora. Fazendo fé na astrologia, ela confirma e explica: com gente que nasceu sob o meu signo é preciso ter paciência. A espaços, até vou sendo conivente com o mundo e gozo, com um prazer real, orgânico, inteiro, todas as suas possibilidades. Mas nesses dias, naturalmente, não escrevo.

12.12.14

Uma boa sexta-feira

Os meus blogues preferidos são os meus blogues preferidos porque, além de contarem como quem conversa à mesa de jantar, me vão sovando o estômago e, ao mesmo tempo, passando ternamente a mão pelos cabelos. 
Uma boa sexta-feira, aqui e aqui.

10.12.14

Grandes revelações

Enquanto me penteia com os dedos, o mais velho vai-me contando como é a vida. Ele, que agora entrou nessa idade de presumir tudo saber (e que, em alguns casos, dura mais anos do que devia), fala como se me desse novidade ou me fizesse grandes revelações sobre tempos e lugares que eu desconheço. Conta-me do repetente, a quem não há forma de meterem juízo na cabeça. Há quem diga que anda com um canivete no bolso, nunca ninguém viu mas, pelo sim pelo não, o melhor é não lhe desafiarem os limites da paciência, que é escassa. Em dois tempos, converte-se em fúria a preguiça com que se recosta na aula como se estivesse na praia. Levanta-se, pega nos livros, diz que não está para aquilo, sai, a porta bate com estrondo, a papelada voa, os colegas arregalam os olhos. Um insurrecto de primeira.
E a professora, não faz nada? 
Não. A diretora chama-o de vez em quando, mas acho que é só porque é o dever dela. São casos perdidos, mãe, tu não tens noção... 
Tenho, mas não quero ser eu a dizer-lhe que a esperança na salvação pode ser uma tremenda perda de tempo ou um atalho para sofrimento ainda maior. As mães devem impedir-se de usar as suas penas para sinalizar o caminho aos filhos. O repetente dá medo, continua. Nem é pela suspeita do canivete, porque, indo-se a ver, o mais provável é que seja mito. São os olhos dele, encará-lo provoca frio na espinha, pânico do mundo inteiro, temor do que está ao virar da esquina, dentro do armário, atrás da porta. Até o porteiro, que é tão implacável com todos, se inibe de lhe exigir que passe o cartão no sensor, vira costas, faz de conta que está a conversa e que nem o viu. Melhor assim, não vá o canivete existir mesmo.
Só há uma pessoa que lhe faz frente.
É uma miúda, tão banal que nem cinco tostões se aposta na sua coragem. Sucede, às vezes, o repetente passar por ela e apalpar-lhe o rabo com a naturalidade de quem sabe que tem caminho aberto por estar imune às regras.
E ela?
Cinco dedos na cara dele, sem ponderar. Às vezes é com a mochila, o estojo, o que estiver mais à mão. Um assombro! Secretamente, todos lhe fazem vénia pois ela realiza o que é a vontade comum: acabar com a ditadura daquele olhar, arriscar tudo para pôr na linha quem torto anda, elevar a dignidade acima do medo. Por outro lado, sabendo da ousadia da rapariga e da sua recusa em se deixar mandar, também a diretora lhe tem algum receio. Apanhou-a há dias a fumar, dentro da escola. Sendo qualquer outro, tal flagrante daria direito a uma hora de interrogatório, telefonema aos pais, reunião de emergência, alerta ao gabinete de psicologia, mancha negra na ficha individual.
E com ela não?
Nada. A diretora só lhe disse que fosse fazer aquilo para outro lado. Mas voltando ao repetente, parece que na semana passada roubou o telemóvel ao Alex, de modo tão fácil como apalpar o rabo às miúdas. Foi só passar, estender a mão, abrir o fecho e tirar o que lhe convinha. Antes que eu ajuíze sobre os factos, o meu filho esclarece-me: há que ter em conta que andou o Alex a apregoar aos ventos que recebera pelos anos o mais recente modelo da Apple. Exibira o aparelho todo inchado de orgulho, aproveitando para desdenhar dos modelos dos outros, frisando bem que aquilo ia para cima de quinhentos euros e não era para qualquer um. Fora adiantando, a alto e bom som, que a crise era coisa que não lhe tocava e abrira o porta-moedas para que todos vissem: duas notas e um cartão de débito. O assalto até parecera o castigo pela gabarolice. Não é bonito, mas apetece dizer que estava a pedi-las.
Em que ficou essa história?
Em nada, porque o que o Alex tem a mais em lábia tem a menos em coragem, e não fez queixa. Mas puseram-no os pais de castigo por uma semana. Que aprendesse a esconder as suas coisinhas como deve ser.
Ele passa-se.
Quem? O repetente?
Não, o Alex.
Porquê?
Gosta de uma rapariga diferente todas as semanas, vai tentando a sua sorte mas nenhuma lhe dá cavaco. Deve ser por isso que dá tanta importância ao dinheiro, se namorasse veria tudo de outra forma. E quem dele se aproveita é o repetente, que por sua vez apanha da miúda a quem apalpa o rabo. E da ousadia dela se aproveitam, para satisfação interior, todos aqueles que vivem com medo. E dos que vivem com medo se aproveita a diretora para fazer interrogatórios e alertar o gabinete de psicologia, com a ilusão de que isso organiza o sistema e implementa a paz. E do medo da diretora se aproveitam o repetente e a miúda que fuma onde lhe dá na gana.
O meu filho conta-me isto tudo enquanto me penteia com os dedos, julgando, portanto, que me faz grandes revelações sobre a vida.

5.12.14

Cento e cinquenta canais

Que coragem!
É o que me diz a menina da operadora de telecomunicações quando, pela enésima vez, repito que não quero canais de televisão, que a televisão me enfastia, enfastiam-me os pandas, os disneys, os comentadores políticos 24 horas por dia, as séries exibidas em série, os documentários sobre origem e o fim do mundo, e até o mágico poder de andar oito dias para trás. 
Minha querida, isto não é coragem. Coragem é outra coisa. Coragem é a sua, que às dez horas de uma noite gelada - quando eu estou já recolhida na minha morada, de pés quentes e barriga cheia, aninhada entre os meus, livre de prazos e metas - tem de estar no posto de trabalho, provavelmente depois de engolir à pressa um cheeseburguera telefonar a meio mundo para ganhar uns cêntimos, a impingir pacotes e promoções, enumerando vantagens por vinte minutos seguidos com o programa sistematicamente a crashar e a reiniciar, a pedir desculpa, a mendigar paciência, a repetir tudo de novo, para no fim ouvir obrigada, mas não estou interessada, a televisão enfastia-me e, ainda assim, não perder o ânimo para fazer outra chamada e quantas forem necessárias, um dia após o outro, e por dezenas, centenas ou até milhares deles. 
Não há coragem alguma em não ver televisão. Há só um tremendo cansaço, que começa nos ouvidos e, se eu deixar, apanha-me o cérebro todo. Na verdade sou fraca, não aguento a sobredosagem de inutilidades administrada por cento e cinquenta canais, nem mesmo a vinte e quatro euros e noventa e nove cêntimos. 

4.12.14

O riso

Desde que se conformou com o facto de eu não lhe dar moeda, o arrumador conta-me histórias. Antes que me suponham má pessoa, inimiga dos coitados, saibam que à hora a que chego a praceta está deserta, sobeja espaço até para acampar, não preciso que ele me acuda. Porém, conhecendo-lhe o vício da nicotina por vê-lo amiúde a vasculhar os cinzeiros públicos, de quando em vez arranjo-lhe cigarros, que ele agradece dobrando-se numa vénia. E dou-lhe conversa, coisa que nunca desvaloriza e muita gente mendiga. É um homem à entrada da velhice. Polido nos modos. Mesmo quando se abespinha, não se lhe ouve comentário ou insulto, deve ser para dentro que enfia as suas raivas. 
Ontem, apanhando-me a sair do carro, contou-me de um lisboeta que veio cá acima para uma reunião e que, depois de lhe pedir conselho sobre os melhores pratos e restaurantes, acabou numa cervejaria, a comer um prego. O arrumador contava-me isto rindo com gozo e desdém: e eu disse-lhe ó homem, olhe que é preciso ser muito ignorante para vir ao Norte e comer um prego! Enquanto falava, caminhava ao meu lado devagar, caminhava como um cavalheiro, de mãos nos bolsos, vertical proprietário dos trapos que vestia, das unhas encardidas, da praceta vazia, sem pedir ou reclamar do que lhe falta. Estava certo de me ter como cúmplice, porque cá no Norte, em todo o Norte, quando se trata de rir à socapa de quem vem de fora, não há barreiras nem inimizades. Enfim, é uma mania de superioridade que temos, absurda como qualquer outra mas tão inócua que até enternece. 
Esgotados os comentários e a risota - até mais logo - ele trocou-me por outra senhora que acabara de estacionar e lançou-se no mesmo relato sobre o lisboeta, mas logo às primeiras palavras ela cortou:
- Não pode ser, não tenho trocos.
Ele estacou, alinhou a pala do boné e, com mais gozo do que incómodo, de si para si:
- Esta deve ser das que vêm aos pregos.
Riu gostosamente, exibindo as abertas na dentadura, e voltou ao seu posto de serviço.

3.12.14

Lifestyle, pois claro

Não me surpreende, mas parece-me sempre espantosa a forma como um oportunista acaba por se transformar numa grande oportunidade.
Se há coisa em que o meu país nunca me desilude é na capacidade de encadear os factos para que, de alguma forma, todos fiquem a lucrar. Por cá, as penas e as indignações duram pouco. Berram durante uns dias, berram com força, histeria e a devida justeza em todos os sentidos, mas morrem assim que alguém se lembra de como tirar proveito da situação. Num ápice, a tragédia vira negócio e sem pudor que disfarce os argumentos, pois as referências a Sócrates e ao EPE vão aparecendo à boleia. 
Secção? Lifestyle, pois claro. 

28.11.14

Boas-vindas

Muito agradeço a elogiosa referência que, a propósito dos novos dilemas da maternidade, foi feita a este meu cantinho, mas receio que, por causa disso, tenha duplicado a quantidade de gente que vem aqui ao engano e que se dececiona logo à entrada. Perdoai-me, mas, neste lugar, não se veste a melancolia de cor-de-rosa, mostra-se o corpo por dentro, toma-se banho em água gelada e as referências aos filhos só servem de mote para questões que desconcertam. 
Se os pari a sangue frio ou adormecida, se mamaram ou foram despachados a biberão, se dormem na minha cama ou no andar de cima, se praticam natação ou karaté, são coisas que certamente não aquecem nem arrefecem para lá das paredes da minha casa. Dando-se o caso de, mesmo assim, gostarem disto e compreenderem que, por mais que vos façam a cabeça, não reside nessas questões avulsas o segredo para um mundo melhor, então sejam bem-vindos. E sentai-vos, pois haverá dias em que daqui não sairá nada mais além do convite para uma sestinha na penumbra.

Autocensura

Sou contrária aos que dizem que hoje em dia não há valores. Nunca, em toda a história da Humanidade, houve tantos e tão elevados valores. Acontece que, para os cumprir, estamos a viver contrariando a nossa própria natureza. Trabalhamos para a harmonia, o comportamento exemplar, a consciência apaziguada. Vigiam-nos as instituições, as doutrinas, as tendências, os vizinhos, as redes sociais. Somos autocensurados e, por isso, temos o sofrimento a crescer para dentro. Endoidecemos do avesso. Volta e meia, dá-se a explosão. O indivíduo que era manso como um cordeiro, educado como um senhor, saca de um bastão e parte um vidro só porque lhe buzinaram. Ou outro, culto e defensor dos mais nobres princípios, engole uma caixa de comprimidos de uma assentada. Mais aquele - parecia tão carinhoso e dedicado! - que espeta a faca nas costas da mulher. E as crianças, orientadinhas, acompanhadas e estudadas como nunca, dá-se com elas a responder torto aos velhos e a desdenhar disto tudo, quando viram costas os pais.

27.11.14

Susto

Acabaram de me dizer que morreu o engenheiro Sousa Veloso, dez dias depois de ter morrido o meteorologista Anthímio de Azevedo, vinte dias depois de eu ter feito referência a ambos, em textos distintos mas seguidos. 
É caso para me inibir de voltar a mencionar nomes de vivos neste blogue. 

26.11.14

Todo o país é inocente até a sentença transitar em julgado

Os políticos não caem do céu nem são eleitos por Deus para a superior missão de salvamento das nações. São paridos entre as coxas das suas mães, mulheres que, como todas as outras, conceberam nos cúmulos do desejo e do prazer. Nascem vulneráveis e sangrentos, chorosos e famintos. Podem nada, além de mendigar alimento e calor. É bom de ver que não vieram ao mundo com pureza divina ou desnecessitados das consolações da carne e do espírito.
Crescerão como todos: uns sujeitos a rigorosa disciplina, na ilusão de que isso seja garantia de rigoroso caráter. Outros, por sua conta e risco desde os primeiros passos, por força de sacrifícios laborais e ausências da família, sem que isso garanta que no futuro sejam solidários com semelhantes. E, como todos, será natural que muitos andem à porrada, fumem charros, apalpem nádegas nas filas da cantina, comparem o tamanho dos sexos no balneário, vendam cromos a preços inflacionados, comprem aos marrões da turma os trabalhos da escola ou a eles se encostem na hora de formar grupos. E se uns o farão porque estão habituados ao que querem e lhes apetece, outros o farão para se sentirem livres de regras e grilhões, outros ainda só porque sim, porque o gozo, o prazer e o exercício das mais simples formas de poder, a todos chamam em murmúrios sedutores. Diz-se que só os níveis superiores de humanidade e sabedoria lhes são surdos. Ora isto se aplicará às meninas em igual modo, é questão de mudar uma ou outra palavra na concisa e banalíssima lista que enumerei. Ninguém se livra de sentimentos impróprios, o que nos distingue são os valores que acima deles levantamos. E o que, eventualmente, não fazemos por tino, bom senso ou pudor, será pensado, imaginado, habitará nos fundos da consciência como num mundo paralelo e até legítimo, mas acabará por ser posto à prova ao longo da vida. É nesses instantes, e não nas conversas de café, nos discursos de circunstância ou nas colunas de jornal, que se revelam as traves do caráter. Aí, e só aí, virá à tona o ditador, o ganancioso, o lambe-botas, o deslumbrado, como poderá vir - assim fosse sempre! - o bravo, o altruísta, o íntegro, o despojado.
Por aqui, nos blogues, nos facebooks, na imprensa, todos nós sabemos e afirmamos que queremos mais, que não merecemos esta indignidade em que os nossos políticos nos têm obrigado a viver, esta baixeza aonde tantas vezes temos descido, uns por vontade, outros por empurrão. Mas, de resto, vivemos em silêncio e conivência, às vezes com humor (o melhor laxante para os apertos da alma), pois se é verdade que hoje somos os ofendidos, resta saber se amanhã, soprando o vento de feição, não seremos os oportunistas. Por alguma razão andamos nisto há tanto tempo. 

25.11.14

Proteção

Riem-se quando eu digo que me sinto protegida com os meus filhos por perto. Não tendo ainda corpo maior que o meu, não terão força para me defender ou braços para me carregar. Acontece que a sua inocência me resguarda e as suas vontades mantêm-me a esperança acesa e a confiança que me depositam afasta-me de certos pecados e a sua visão de longínquos futuros me põe a salvo da mortalidade. 

(Vi-a, por estes dias, a olhar para mim num corpo que tombou ao lado. A mortalidade. Seus olhos, de um insuportável e abstrato cinismo, atiraram-me à cara a ligeireza com que às vezes vivo e os grandes propósitos que tenho adiado para dias que nenhum calendário contempla. Uma grande banalidade esta, a roçar a pieguice, digna de um powerpoint com golfinhos ao pôr-do-sol. Mas é facto: das banalidades se vão retirando as forças que nos aguentam na hora em que o destino mostra a mais banal das suas faces)

23.11.14

Lição de democracia?

Não tenho tido problemas de visão. Até ver, escapei à sentença genética que por toda a família tem distribuído miopia e cataratas, nalguns casos em idades bem tenrinhas. Porém, ontem de manhã, folheando uma revista desatualizada enquanto tomava café no bar da piscina, ocorreu-me que os meus olhos possam estar finalmente a ganhar defeito ou que já o tenham desde que nasci. Em entrevista de várias páginas, a Maria de Medeiros dizia, a propósito da revolução dos cravos, que Portugal deu uma grande lição de democracia ao mundo. Mas que anda esta gente a ver que não tenha eu alcançado? Desfocou-se-me o cenário? Vislumbro mal ao longe ou será pior ao perto? Estarei a ver baço e nevoento o que afinal tem tanto brilho e viço? Será a lição tão grandiosa e exemplar que nem me cabe nos olhos e, por isso, não a distingo? 
O meu país lembra-me às vezes aquelas crianças que, chegando a hora de ir para a escola e evoluir nas responsabilidades, continuam presas à chupeta que as serenou em tempos idos. Quando entram na sala de aula, tudo se lhes afigura demasiado confuso e difícil, acelera-lhes o coração pela terrível insegurança de fazer o seu próprio caminho para o futuro. Não sabem se mais as deslumbra ou desnorteia a amplidão dos espaços, o mundo de possibilidades, a suprema liberdade de mais saber e poder fazer. Escondida nos fundos da mochila, levam a chupeta puída e gretada e é com o pensamento nela que se convencem de que está tudo bem. Assim que podem, agarram-na para estabilizar emoções e mergulhar em sonos profundos, duradouros, plenos de ilusão e alegria. 

22.11.14

Promessa

Sabem-no os que aqui desde logo marcaram o seu lugar como leitores, em 2008, e os que, ao longo destes anos, me foram perguntando por estranharem que não batesse a bota com a perdigota: devo ao Sócrates, não apenas a criação deste blogue, como também o nome despropositado que tem e que chama, ao engano, visitantes em busca de dicas de puericultura e aventuras de muda-fralda-come-a-papa-e-vai-à-escola.
Se o homem for preso eu mudo o nome. Fica em jeito de promessa, que é o que se faz quando muito se deseja mas pouco se pode.

21.11.14

É meio-dia

Cada pessoa é um país inteiro. E se eu mandasse em cada pessoa, dando azo à costela ditadora que desde pequena me comicha cá nos fundos e que me inibo de mascarar com bondades que não tenho, começaria por proibir a marcação de reuniões para o meio-dia. Pormenor. Mas, indo-se a ver, começando a reunião ao meio-dia, como o português gosta - alegando que antes disso não tem tempo - ninguém se livra antes das duas da tarde. De mais a mais porque, em bandas lusas, não há reunião em que não se divague, a espaços, em torno dos mais despropositados assuntos, desde a comida do cachorro até aos tecidos dos pijamas de inverno, passando pelas memórias das últimas férias e chegando até às íntimas delicadezas dos princípios religiosos. É preciso que, de vez em quando, uma alminha lúcida e realmente ocupada diga vamos focar-nos no essencial, com modos de professor da velha guarda. Ora, às duas da tarde, o tipo que há de ter marcado a reunião para o meio-dia levanta-se, transpira, bufa, dá pena vê-lo naquelas aflições, incapaz de parar o relógio. Antecipadamente percebemos que vai falar de outra reunião que tem dali a meia hora e do tempo que não terá para almoçar, aliás, já não come em condições há três semanas, só trinca uma sandes dentro do carro, no caminho entre um compromisso e outro. Queixar-se-á ainda que o trabalho é tanto e as requisições são tamanhas que a jornada prolongar-se-á por horas indefinidas, não poderá ler uma história ao filho, felizmente a mulher é disponível, tem profissão ligeira e até engraçada. Ah, valham-nos as mulheres! Calaremos toda a nossa insatisfação enquanto mantiverem de pé as paredes da nossa casa! Pela noite dentro trabalhará, sabe-se lá em quê, mas presume-se que tenha ele o bendito azar de atrair os clientes mais importantes, com mais dinheiro para investir e os prazos mais apertados para cumprir. O resto do país anda a brincar às mercearias. No dia seguinte, o corpo ressente-se, impossível pôr a pé a horas dignas, toca então a marcar a próxima reunião também para o meio-dia, mas nem a essa hora a pontualidade será virtude, porque cairá um e-mail urgente, um contratempo, um bug, um restart, um portuguesinho, chico esperto estacionado em segunda fila que o atrasa. A meio da reunião, qualquer coisa poderá ser mote para que fale dos filhos, que aos três anos já dominam as novas tecnologias e são os mais altos do jardim de infância. O telemóvel, a que não se teve o cuidado e a educação de tirar o som, tocará em cima da mesa tantas vezes quantas o passarinho piar lá fora. Há que dar prova do quanto se é requisitado. Almoçará meia sandes de fugida. Ao entrar na reunião seguinte repetirá a ladainha, falará do cliente novo que ganhou nos antípodas e que tem 70% da quota de mercado no setor, exigente a valer mas, sem ele, não poderia ter trocado de carro (isto não se diz, só se mostra). É preciso sacrifícios para dar a volta à crise. Nestas horas se vê quem são os tipos com quem o país pode contar para tirar os pés da lama.
Eu rio-me para dentro, garotinha ignorante das exigências da vida. Será por causa de gente como eu - que ri mais do que trabalha - que o país não sai disto, deste sobe e desce no emprego, no capital, nos impostos, nos direitos, nos deveres, na educação, na decência e na felicidade? 
Então, se eu mandasse, só se marcariam reuniões para as oito da manhã e implementar-se-ia um sistema de choques eléctricos que faria saltar na cadeira quem desviasse o assunto para as desimportâncias. Ao fim do dia, todos conversariam em paz sobre a comida do cachorro, os tecidos dos pijamas de inverno, as memórias das últimas férias e as delicadezas dos princípios religiosos. 

18.11.14

A agenda

Lígia é uma dessas desgraçadinhas a quem não faltam recursos, oportunidades e imaginação para ter do que se queixar. Sofreu horrores na preparação da semana de férias com a família no Oriente, enerva-se até às pontas dos cabelos com as freirinhas do colégio das miúdas, rende-lhe uma hora de lamúrias a luz que volta e meia acende no painel da carrinha, revira os olhos quando conta que a filha mais nova só pensa na brincadeira.
Tento fugir-lhe, mas sou fraca e repetitiva na estratégia. Ver-me de cabeça mergulhada num livro, simulando a evasão absoluta, não é coisa que a afaste. Cumprimenta-me com um festival desproporcionado de carinhos e elogios, alapa, diz que vem cansada, sempre cansada da corrida na marginal ao final do dia. Insulta o aparelhinho que lhe dá música, dinheiro pró lixo. A testa enruga ao questionar se a empregada terá deixado o jantar pronto no forno. 
- O que está a ler?
Fecho o livro para que ela veja a capa. Faz-me a pergunta típica dos que não apreciam leituras:
- Ah... muito bem. De que é que trata?
Digo que não sei, ainda vou no prefácio. Mentira da boa, que a ambas convém.
- Também gosto muito de ler, mas falta-me o tempo.... Ainda por cima agora, com o que me aconteceu...
O que aconteceu? Foi a assistente, secretária, o que quiser chamar-lhe. Há dias achou-a no chão do gabinete, sem cor nem sentidos. O senso comum diagnosticou: quebra de tensão. Mas, por via das dúvidas, a rapariga deu um saltinho ao médico, fizeram-se exames. E descobriu-se coisa feia, muito feia, a marinar lá num canto secreto do corpo. Sucede que não há tempo a perder, o bicho é guloso, rápido a comer as entranhas e não tem misericórdia. Está agora a caminho de Espanha, onde se prometem tratamentos de vanguarda. Regressará viva?
Vazou um suspiro e o desabafo veio à boleia:
- Estou tão incomodada! 
Vendo-a naquele estado, pronta me pus para lhe afagar o ombro e em dois tempos preparei umas palavras de consolo: que haveria de correr tudo bem, hoje em dia a medicina pode quase tanto como Deus, quiçá é ela o Seu maior instrumento, que algumas malignidades detetadas a tempo eliminam-se com um só golpe e uma vida regrada... E que eu bem compreendia o incómodo, anos e anos de convívio e fidelidade podem criar laços de fazer inveja aos de sangue. 
Porém, ela mesma me poupou a um discurso que seria desajustado e vão:
- É que agora... caramba! Tenho a minha agenda num caos, onde é que eu vou arranjar quem me deite a mão?
Lígia ficaria bem como personagem de uma dessas telenovelas de horário nobre, que alvoroçam os sentimentos dos espetadores e os deixam ansiosos pelos justos castigos e recompensas. Mas assim, real e encorpada, sentada ao meu lado em certos finais de tarde, quando busco a reconciliação com o mundo, parece uma enviada dos Céus avisando-me que o melhor é endurecer e pôr de lado as ilusões.

17.11.14

Satisfação

Tenho andado submersa numa campanha fashion, navegando por um mundo blogosférico feliz e encantado, adormecendo a ver desfilar coordenados em vez de carneiros, vendo a realidade por uma lente que a tudo acrescenta pós, cor, brilho, maquilhagem e alegria, escrevendo em letras gordas aquilo de que eu própria me rio. O meu cérebro sintonizou numa frequência que me incapacita de partilhar aqui o que quer que seja de interesse para os meus leitores habituais.
A emissão prossegue assim que eu recuperar a consciência.

9.11.14

*

Naquele colectivo de mulheres, justo é que declare, vislumbram alguns uma fortaleza intransponível, e é como se a linguagem que utilizam entre si fosse uma floresta de enganos, para a travessia da qual seria aconselhável prudência bastante, se o mais destemido dos homens nela se arriscasse a penetrar.

Mário Cláudio, "Triunfo do Amor Português"

7.11.14

Horizonte

Por causa do texto anterior, perguntaram-me se não havia, na minha casa, uma televisão que me poupasse ao tédio de andar a medir a inclinação de um cipreste nos dias de tempestade. Pois claro que sim! Acontece, porém, que à época só havia dois canais, um deles funcionando a meio tempo. E os programas para crianças eram apenas ao fim de semana, pela manhã, se eu tivesse paciência para esperar que o engenheiro Sousa Veloso acabasse de falar naqueles modos de conversa informal já raros em televisão, substituídos que foram por trejeitos robotizados, sendo agora indiferente que nos fale a Maria ou o Manel, desde que arregale muito os olhos, sorria e mantenha as costas direitas. Adiante: sucede ainda que eu era caçula de uma família numerosa e se, por isso, era privilegiada nos mimos e cuidados, era também ignorada nas tomadas de decisão, não sendo ouvida nem achada na escolha dos programas que se via. Gostando, ia a reboque, não gostando, que inventasse o que fazer. Acrescente-se também o facto de o meu pai achar que ver televisão a mais fazia mossas no corpo e outras, piores ainda, no espírito. Esta sua convicção agudizava-se durante os espaços publicitários, esses instantes mágicos a quem os pais de hoje dão graças por permitirem enfiar seis colheres de sopa na boca distraída da pequenada por cada anúncio de trinta segundos. 
Com tudo isto, ainda bem que eu vivia num quarto andar com amplas vistas sobre a cidade e tinha um cipreste brincalhão no horizonte.

4.11.14

O cipreste

No tempo em que o instituto de meteorologia não emitia alertas de cor, era a oscilação de um cipreste que me dizia da força das tempestades. Via-o da janela da sala de estar, majestosamente erguido sobre os telhados das moradias, com uma densa e permanente musculatura cónica, fazendo braço de ferro com os ventos. À falta do que fazer, sempre se pode entreter uma criança com o espetáculo da natureza. Digo eu, não sei. É que isto era no tempo em que, para ocupação dos tempos livres, não havia mais do que a rua, os livros, os baralhos de cartas, os papéis e os lápis, e quem nisto não achasse contentamento, que fosse vasculhar à imaginação ou aproveitasse para arrumar as gavetas e armários. 
Assistia eu a esta luta com infantil ansiedade, pois, nos dias piores, em que Deus soprava as suas fúrias sem misericórdia, revirando, arrancando e fustigando, era de esperar o momento de ver o cipreste definitivamente vencido, quebrado pelo meio, a abrir sepultura num telhado próximo. Porém, o cipreste nunca quebrou, nem nos dias em que o Anthímio de Azevedo prenunciava ventos ciclónicos. Muitas vezes se vergou em ângulos incríveis e em cada uma dessas vezes me parecia que nunca antes havia chegado a tal ponto. Mas era ilusão minha, talvez pelo desejo de ser testemunha de uma tragédia, coisa que certamente engrandeceria a minha nula experiência nas invulgaridades da vida. O cipreste, crescido com hábitos de flexibilidade, aprendera a brincar com os ventos, como aconselham as antiquíssimas filosofias orientais. Resignado se dobrava, ora para um lado, ora para o outro, consoante o sentido da vergastada, e, amainado o temporal, era vê-lo assumir de novo a sóbria verticalidade de um príncipe. Não se tratava, afinal, de uma luta.
Às vezes, nesses dias terríveis em que o cipreste me parecia na iminência de tombar de vez, uma das minhas irmãs do meio fazia-nos papas de aveia. Punha ao lume um tacho de leite com os flocos e a cozinha enchia-se de um aroma lácteo, infantil, profundamente terno. Não há maior afago do que uma taça quente de flocos de aveia com uns pozinhos de canela. Ainda hoje é meu aconchego em certos finais de tarde invernosos como o de ontem. Como-a, às vezes, mirando um trio de ciprestes que tenho diante da casa onde agora vivo, mas estes quase nem bolem, ou porque são de outra têmpera ou porque eu, crescendo, deixei de ansiar por tragédias. Aliás, fosse-me permitido, e abdicaria de todas aquelas a que fui assistindo por força de outros ventos, bem mais traiçoeiros e sem o justo prenúncio.

2.11.14

Carne viva

Tenho saudades de uma boa crónica de jornal. Dessas escritas com brio, que mexem nas feridas com dedos cirúrgicos, de forma limpinha, sem fazer sangue, mas moendo até a gente se encolher. E das que generosamente nos abrem janelas para outros horizontes ao invés de, narcisicamente, nos abrirem a porta das suas próprias casas, com quarto e casa de banho incluídos na visita. Pensarão talvez os cronistas que esforço maior não é necessário. É que anda o país tão em carne viva, que basta entornar uma gotinha de álcool para vê-lo sacudir-se, espernear e revirar os olhos.

31.10.14

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Que me perdoe o Chico, o contador entre os cantadores, por aqui preferir outra voz que não a sua, mesmo sabendo que é dele o mérito de versejar assim pelas mulheres.

30.10.14

Habitação

No prédio aqui defronte, fuma à janela da lavandaria uma mulher nova, com o cabelo metodicamente apanhado no cocuruto. Enquanto chupa e bafeja o cigarro, purgante rápido para quase todas as ansiedades, dedilha no telemóvel com fervores de adolescente. Vai sorrindo de entremeio, lendo o que mais ninguém lê, escrevendo o que mais ninguém sabe, e, a espaços, foge-lhe por um canto da boca uma malícia tão leve que talvez seja injusto assim chamar-lhe. Rodopia o olhar pelos céus - busca ideia ou desenterra memória? - e logo se lança de novo a dedilhar. Depois, mata o cigarro num pires, inclina-se sobre o parapeito e cruza os braços, aprofundando, para melhor navegabilidade, o leito que tem entre os seios. Por trás, há uma cortina de lençóis cor-de-rosa e uma fileira de camisas brancas penduradas no estendal, que tanto podem ser do marido como do patrão. É difícil saber quantas mulheres podem habitar em cada uma.

28.10.14

Cardiologia

No mesmo quarto do hospital foram acolhidos, por quebra do coração, o lavrador, o médico e o ranger. Os três apanhados de surpresa. Nenhum deles adivinhara que a angústia e a falta de ar, sentidas de passagem, eram a morte dando-se a provar num trago curto e indolor, em jeito de aviso. Não o adivinhara o lavrador, tão esperto acerca dos caprichos da natureza, nem o médico, décadas a fio a estudar e vasculhar o corpo dos outros, nem o ranger, treinado para não subestimar os movimentos do inimigo nem mesmo na paz dos deuses. 

O coração é um músculo involuntário. E isso, que é do senso comum, pode servir como alegação de defesa para os românticos e outros que não encontrem modo legítimo de justificar impulsos. Diz-se, ainda, que as suas razões são pela própria razão desconhecidas e a ela francamente superiores. À custa destes argumentos se fez do coração o senhor dos sentimentos, o sujeito do poema e da canção, o mais elevado poder que em território alheio urge conquistar. O resto desculpa-se, pois segue a reboque. Garante-se que é por ordem dele que o corpo se desgoverna, entregando-se no amor, atirando-se no desespero ou atacando no ódio. 
Porém, o seu poder é fantasiosa sublimação numa interioridade que é apenas visceral e sobrevive à custa de trocas, interesses, dependências e pactos, tudo desenhado pelas mãos dos deuses, da mesma forma que os génios desenham máquinas. Não é poder absoluto nem reino independente. Razões que a razão desconhece, mistérios e desmandos, tem-nos o corpo inteiro, pois em todo ele está escrita a origem em letra microscópica e, por herança, azar ou mau hábito, se vai escrevendo o destino, tantas vezes sem dar contas nem alertas.

Ao lavrador, logo foram, como que de enxada, abrir sulco no terreno para repor os fluxos. O médico, precisam de estudá-lo melhor antes de tomar decisões. Para o ranger, vim embora sem saber que combate se desenha na mente dos cardiologistas. Estavam os três de disposição plena, comendo com ensejo, prova provada de que não advêm do coração nem as forças do espírito nem as vontades do corpo.

25.10.14

*

No amor é como na morte: a gente pede mais um minuto de vida, convencido que depois renunciará de vez. E mal o minuto nos é concedido, já estamos a pedir outro.

Miguel Torga, "Diário VI"

24.10.14

A maternidade e o lifestyle

Ser mãe em full-time (assim o dizem, como se houvesse outro tipo de maternidade que não fosse em full-time) tornou-se um alvo das abordagens ao lifestyle. Para isso têm contribuído os enquadramentos românticos, as associações às marcas e aos espaços culturais ou comerciais, alguma literatura (salvaguardando-se a ambiguidade do conceito) e determinados pressupostos sobre a consistência e o longo prazo da felicidade.
A maternidade, seu exercício, seus direitos e possibilidades, já não é, portanto, uma questão familiar ou social, mas uma questão de lifestyle, esse termo que agora serve para arrumar tudo e um par de botas e faz conviver nas mesmas páginas de jornal as sugestões de restaurantes gourmet e a forma como se ama os filhos. É tudo uma questão de estilo, charme, imagem. Crise vai, crise vem, crise vai e não saímos do mesmo, não aprendemos. O que apenas diria respeito a valores e possibilidades, rapidamente se impõe como tendência. E a tendência deste século é competir para mostrar quem ama mais e é mais feliz. Em segundo plano talvez fiquem as questões do corpo, do automóvel, das roupas caras, porque o dinheiro escasseia, mas nem por isso nos afastamos da ditadura das aparências. 
Descansai. Não é isto um manifesto pela defesa das mães que trabalham nem um ataque às que assumiram outras tarefas. Também não será hoje que vou expor aqui minhas escolhas, causas, prioridades, rotinas ou limitações. Nem condenarei as dos outros, que eu cá não sou juiz da felicidade alheia, a não ser que ela me insulte ou insulte a sociedade. Tenho religioso respeito pelo caminho que cada um faz, principalmente quando o amor lhe guia os passos. De resto, também a minha mãe o foi em full-time, como agora dizem. De seis filhos. Mulher admirável, cultíssima, inteligente, paciente, generosa, doce, inspirada, elegante, cheia de graça e absolutamente discreta acerca de tudo isso. A sua forma de ser fez a minha infância feliz e inteira. 
O que não posso conceber, nem me apetece, cá no íntimo, aceitar, é a abordagem. Esta subtileza a virar o bico ao prego, de forma a que se sintam inúteis e desapegadas as mães que, porque precisam ou preferem, estão a trabalhar. O que não posso conceber é que as palavras "prioridade", "entrega", "amor", "família", "abnegação", estejam a ser reclamadas para um território específico. É que as modas... ah, valha-me Deus! as modas têm tanta força, mas tanta força na mente dos indivíduos e, por contaminação, das sociedades, que se torna assustadora a sua capacidade de interferir na moral e nos afetos. Essa é a perversão da coisa. Quanto ao resto, perfeito. Cada um onde quer ou onde pode, pelo bem de todos. 
Mas não deveis esquecer-vos de uma coisa: toda a mãe, esteja onde estiver, a que horas e de que forma, é uma mãe em full-time. A maternidade não é uma agenda. Amai os vossos filhos, amai como vos for possível, com o tempo, o gesto, a palavra, o colo, o amparo que vos for possível. Mas amai com honestidade e respeito. E não me enrolem com pieguices.

23.10.14

Na província, a imaginação...

O provinciano é também o que se inquieta com o sossego do vizinho. Aborrece-o que ele não se dê à conversa fiada no portão nem revele certos hábitos e intimidades capazes de alentar os espíritos desinteressados do próprio quotidiano. Toca então de lhe inventar um amante secreto, um cadáver oculto, um propósito suspeito, um inimigo a abater. A província - vem nos livros - é, sobretudo, uma enorme pasmaceira interior, que busca desesperadamente por ação e entretenimento. 
Se certas pessoas tivessem generosidade e talento para a escrita em doses iguais às que têm em imaginação, voltaríamos ao tempo dos grandes romances, dos enredos magnéticos, dos desenlaces que sovam o estômago e fazem cair o queixo.

21.10.14

Ler como amar (9)

Sentir que o que lemos foi escrito a pensar em nós - eis um dos muitos equívocos que disparam a magia, geram a expectativa e alimentam a dependência.

20.10.14

Legítima defesa

A desonestidade não é o sintoma de um casamento arruinado. É antes a arma a que, invariavelmente, é preciso recorrer para o salvar. Nessa hora de aflição, em legítima defesa, com o pânico de ficar só e à deriva, não há diferenças: qualquer manso vai buscá-la aos fundos obscuros do caráter e faz uso dela sem pensar duas vezes.

19.10.14

Traição

A partir de certa idade, vigia-se o ventre de uma mulher como a uma rede de conspiradores. Nunca se sabe quando, no silêncio e na fundura, congemina o momento de atirar à cara tudo o que deu e fazer-se cobrar. E pode dar-se então a ironia de a carta que anuncia a morte ter o mesmo remetente da que convidou ao amor e anunciou a vida.