22.8.14

Chico

Ouço-o praticamente desde que nasci e sempre invejei o tanto que ele conta em pequeníssimas histórias e palavras simples. Não compõe sobre amores imensos e eternos, heróis, romantismos, superioridades ou luxos da vida e do coração. É antes sobre o corriqueiro, a dor que mói e não mata, a vida atrás das portas, as rugas sob a maquilhagem, os sonhos clandestinos, o lixo escondido, a obscena e belíssima consagração do amor. E gosto da ternura com que afaga e perdoa derrotados, azeiteiros, aleijões, infiéis, descrentes, parasitas, condenados, tristes de profunda e incurável tristeza. 
Que linda é a rotação da Terra quando o Chico a canta. 

21.8.14

*

Usa os sentidos para conhecer o mundo, a inteligência para o ver do avesso e a imaginação para o tornar melhor. 

20.8.14

O tanque e o pelourinho

Vejo da minha janela um tanque público onde se encontram as mulheres para lavar roupa suja, um hábito que não se perde e alimenta outros. A uma dezena de metros fica a praceta do pelourinho. Não havendo mais que fazer, ali se reúne a freguesia, depois de encher a barriga, para comentar os assuntos do dia, pedir ao presidente da junta que interceda por um tapete de asfalto à sua porta, fazer a vénia ao padre, amplificar tragédias, saciar curiosidades, emborcar cerveja. Os mais irrequietos atiram caroços às persianas fechadas da casa amarela, que tem palmeiras e uma piscina das boas. Trôpegas nos saltos altos, maquilhadas à pressa na casa de banho do café, as garotas enxotam a rapaziada de língua solta e mãos atrevidas. 
No íntimo, todos acreditam que merecem melhor e por engano Deus os plantou ali. Aos que são de fora, queixam-se que aquilo é só mesquinhez, inveja, maledicência, leva-e-traz, vistas curtas. Porém, é certo que no dia seguinte de novo levarão a roupa suja ao tanque público. Mais tarde, à volta do pelourinho girará, como sempre girou, o mundo inteiro.
E isto que se vê da minha janela, pode ver-se de todas as outras.

18.8.14

As mães despreocupadas

Estas mães que conquistaram as colunas de periódicos e afins escrevem na primeira pessoa do plural com uma espantosa propriedade, como se os dramas de todas as mães do mundo fossem a dificuldade em maquilhar o rosto na paz dos deuses, caber no biquíni do ano passado ou interromper sistematicamente a leitura do último best-seller para responder a perguntas difíceis. Solidárias entre si, fazendo-se eco umas das outras, imitando-se no vocabulário, nas piadas e nos trocadilhos, mas jamais lembradas das que não se lhes assemelham, nem em oportunidades nem em preocupações. De tempos a tempos, havendo facto público que o exija ou figura mediática envolvida, escrevem o previsível sobre a dor alheia - também com espantosa propriedade -, mas a rusga segue porque valores mais altos se alevantam.
Valha-nos o facto de a sua função ser apenas a de entreter. Para mais do que isso, seria preciso humildade, visão periférica e desinteresse pelo palanque.

Provincianos

O provinciano não é o que está encafuado no interior do país, não vive na ignorância e no espanto do google e dos QR Codes, não cheira a mofo nem a fumeiro, não é o que se mete num taxi para ver o mar, aquele a quem cai o queixo quando vê o Centro Cultural de Belém, a livraria Lello, as esplanadas mais cotadas nos guias e revistas, não é o que se ficou pela quarta classe, o que usa os animais para aliviar tensões ou parou no tempo da outra senhora. O provinciano português, tão mal disfarçado que chega a enternecer, tão antigo e presente que pode assustar, é o que comete a proeza linguística de compor por justaposição a arrogância e a subserviência, tem prazer em estender o pé para que lhe engraxem as botas enquanto se curva para as lamber a outros, e este modo empertigado de ajeitar a roupinha para logo a seguir a tirar e se virar de costas.

14.8.14

A mulher do senhor Pereira

A mulher do senhor Pereira sabe que a viúva do SUV o excita. Lembra-se também do dia, recente, em que pegou no telemóvel dele, buscou a última chamada, premiu a tecla verde e, do outro lado, Sim, amor. A mulher do senhor Pereira compreende que acabou o tempo da fidelidade, a casa está construída, as contas pagas, os filhos cresceram e pelos netos não vale a pena sustentar equívocos. Que mais devem um ao outro? Porém, sente nele uma mansidão e uma disponibilidade que não conhecia. Não para amá-la, mas para pôr a mesa, limpar a louça, puxar as orelhas à cama, dobrar as meias. A mulher do senhor Pereira vai calar-se e aproveitar, quarenta anos de cansaço justificam. Deus perdoará e talvez considere justo este oportunismo de quem serviu cozinhando, cosendo, lavando, parindo. E, de resto, pior humilhação do que não mais ser desejada por ele é ter um corpo que não acende mais desejo em nenhum outro.

13.8.14

Ler como amar (7)

No final das contas, o leitor é sempre o leitor. Busca fragmentos de prazer, bilhetes de viagem, companheiros e inimigos para encorpar suas paixões, rever seus sentimentos, definir suas filosofias, dar um rosto aos seus fantasmas. Lê e concorda ou discorda, gosta ou desgosta, porque à distância umas ou outras são fáceis. O leitor não quererá estar onde as palavras nascem porque se aperceberia de uma extrema e dececionante fragilidade, com a qual não poderia ser solidário. E ainda que pergunte, como às vezes acontece, onde foste buscar isto?, também não deve, jamais, contar que quem escreve lhe vá responder a verdade.

10.8.14

A ler

Milhões de anos de vida, amor e morte neste planeta. E ainda há quem tenha a grandeza de as escrever como quem denuncia uma novidade, uma descoberta, uma súbita inversão do sentido de tudo isto, um brilho revelado em estanque superfície de pó.

9.8.14

Adolescência (2)

No xadrez ainda lhe falta fôlego e estrutura, mas no pingue-pongue vence já sem grande esforço. Cansa-me, obrigando-me a correr de um lado para o outro, dou comigo um bicho atordoado, sem rapidez e precisão para responder. Joga seguro e focado. Afinal, não precisa já de mim para praticar, sobram por aí adversários que lhe exigem o aperfeiçoamento sem as condescendências do amor maternal. A cada ponto ganho, sorri moderadamente, inibindo-se de me ofender com a sua alegria. Sei que a vontade é de pulos e gargalhadas, está orgulhoso de poder desdizer a minha experiência, as minhas artes, os meus anos de vida. Mas contém-se, aperta-me a mão, está tudo bem, foi só um jogo, eu que sossegue, serei sempre a mãe e ele o filho, não há volta a dar.
Vai agora uma partidinha de xadrez?, pergunto-lhe, com a ânsia de recuperar a soberania do território. Hoje não estou com cabeça, mãe. Retiro-me, com o civismo necessário para disfarçar a inquietação que me causam certas derrotas. 

7.8.14

A dois tempos

Enquanto se escreve, passa voando o tempo da realidade e moroso o tempo da imaginação. Correm vinte noturnos de Chopin, vem um camião buscar as tralhas dos vizinhos insolventes, a minha amiga faz o check-in e embarca, o patrão fecha os negócios que me hão de dar de comer, meus filhos constroem amizades à menor afinidade, o cão nega a quimioterapia e prepara-se para morrer. E, entretanto, pode uma mulher não fazer mais nada além de um movimento desajeitado e inútil para afastar o cabelo dos olhos.

6.8.14

União europeia

Ilusão minha, acabei por comprovar, mas pareceu-me hoje ver nesta rua a dinamarquesa que conheci há uns vinte anos, num verão passado em Paris. Ruiva, cabelo em ângulos retos, olho azul, poucas falas, muitos encantos.
Uma noite, não lhe resistiram Dimitri e Thierry, dois amigos franceses que há alguns dias a rondavam. Mas tão pacíficos e concordantes eram eles, que não se deram ao aborrecimento de a disputar. Enquanto dançavam, no átrio da casa onde todos estávamos alojados, encostou-se-lhe um por trás e o outro pela frente e ali mesmo, sem obstáculos nem vergonhas, tomaram a consistência do seu corpo e perderam-se nas suas curvas e provaram a sua macia e firme juventude. O ar dela não era o de quem se divertia a valer, mas o de quem fazia o jeito para serenar a cobiça, apagar os fogos e ficar em paz no dia seguinte.
Depois, porque ninguém tinha de testemunhar os desvarios a que os corpos se consentem quando se querem, embrulharam-se os três numa enorme bandeira da União Europeia. E a seguir subiram para o quarto, muito juntinhos, eles com os olhos revirados e as línguas descaídas, ela no meio, vertical e sóbria como uma autêntica rainha nórdica. Ao cimo das escadas, à média luz, já só se percebia a agitação miúda e urgente debaixo do céu azul cheio de estrelas.

5.8.14

Porto

Hoje, ao final da tarde, descendo a Avenida da Boavista a uma velocidade inconveniente, ocorreu-me que o mar do Porto é o mais belo de todos. Vulgar seria agora eu dizer que foi coisa dos meus olhos, há dias assim, em que a predisposição da alma e dos sentidos é para atentar no que antes ignoravam ou descobrir novidade no que se repete. Mas não, porque eu levava a alma virada para dentro, entretida com o que a ninguém diz respeito, e os olhos ansiosos pelo verde dos semáforos e compenetrados nas manobras. Foi coisa dele, do mar, mérito da natureza, milagre que se deu com o ângulo perfeito da luz, revelação de invulgar serenidade e plenitude. Dizem que esta cidade é cinzenta e ensimesmada e talvez da fama ninguém a livre. Eu própria, que aqui me enxertei há tanto tempo, desdenho dela, viro-lhe as costas quando posso, nego o seu poder de sedução, relativizo a originalidade que lhe atribuem. Mas hoje, ao ver o mar tão pacificamente ajoelhado, como se outra coisa não tivesse de fazer a não ser adorá-la, luminoso como um apaixonado de fresco, aproveitando-se do pôr do sol para exaltar sua grandeza, brilhando como se fosse um anel de mil pedras preciosas que se oferece para eterno compromisso, pareceu-me tudo muito bem. Era o mais belo mar de todos e não seria uma cidade qualquer que havia de merecê-lo, fazendo amor naquele doce vaivém.
Um dia hei de passar as minhas férias no Porto, como se fosse estranha e estrangeira e tivesse bilhete com data marcada para partir.

4.8.14

Orientação

A idade deu-lhe o direito a viajar à frente e com isso vieram novos hábitos, deveres e responsabilidades. Exijo-lhe que saiba os pontos cardeais - no mínimo, onde está o Norte -, que interprete a sinalética de estradas e o mapa aberto sobre as pernas e, levantando-se a dúvida, que tenha a humildade de perguntar a quem conhece, sabe ou já viu.
Podes não saber para onde vais - e a alguém poderia pedir-se tal coisa? - mas nunca percas a noção de onde estás.

É mais útil espalhar do que comentar

3.8.14

Ainda o plágio


"Precisei de vinte anos para escrever isto que acabo de dizer." 
Marguerite Duras, in "Escrever"


(algumas pessoas acham que o protesto é sobrevalorização. Se até o vento leva as palavras, porque não hão de levá-las os outros? Um texto não passa de um texto e do tempo que demorou a digitar. Aceita-se que algum trabalho dê a compor-se a coisa, vá, mas não muito, porque, lendo, parece tudo óbvio e clarinho como a água. A palavra só podia ser aquela, logo, não deve ter demorado muito a encontrar. A frase está curta, é porque foi feita num segundo. Ou está longa e terá sido porque saiu tudo de enfiada, como jorro espontâneo de água. As mais raras e tocantes dever-se-ão talvez a rasgos no duche, visões noturnas, sussurro de deuses ou fantasmas, pozinhos que caem dos céus e acertam, por um acaso, na cabeça. Ler deu prazer, fez viajar, feriu, excitou, atingiu? Apenas porque o leitor é interessado e sensível. Opinião, perspetiva, sentimento? Ora, quantos já se tinham lembrado do mesmo, só lhes faltava era paciência e tempo para organizar a ideia. E de resto, isto são fragmentos. Ainda se fosse um romance! Mas o quotidiano? Morte, amor, trabalho, solidão, corpo, sexo, dores, medo, maravilhas, impulsos, ternura... afinal, que valor ou individualidade pode haver no que, mais cedo ou mais tarde, bate à porta de nós todos?) 

1.8.14

O privilégio de traulitar

Todo o mal tem o reverso da medalha. Ou a gente busca-o, para recuperar a esperança na humanidade e vislumbrar a luz onde o domínio é das sombras. O caso do "Traulitar", blogue que vive única e exclusivamente do pensamento e criação alheios, não é exceção. Pelo menos para mim que, com surpresa, me vi unida pelas palavras a dois dos (apenas) quatro blogues que leio diariamente: o Tempo Contado e o Assim na Terra como no Céu. Um parágrafo da Mãe aqui, uma reflexão da CF ali, um remate brilhante de J. Rentes de Carvalho acolá, e dou comigo a achar que, afinal, isto de traulitar foi uma honra para mim. Foi como sentar-me à mesa com quem tanto admiro e aprendo, ainda que o encontro tenha sido forçado na casa do ladrão. E agora, de barriga cheia e ideias expostas, partilhadas e ligadas em espaço comum, fiquem os restos para quem anda a morrer à fome.

Olha que traulitada!

Parece que temos mais uma figura que gosta de alinhavar mantinhas de retalhos com textos alheios. Até parece gente profunda e reflexiva, mas o tempo que gasta a picar daqui e dali não deve deixar sobra para pensamento próprio. Por lá fui dar com alguns textos meus e outros de gente que muito prezo. A minha "Maçada de Peixe" enfiada num texto sobre a seleção no mundial, veja-se a bizarraria! A vocação para a tristeza da minha Luisinha como fajuta introdução de uma abordagem às pessoas más, que a outrem deve ter sido roubado. A minha visão "a uma hora da capital" para encabeçar a questão do BES, e, claro, o Haja Norte em todo o seu esplendor.
Não há como vivermos a nossa vidinha para nos escusarmos de ir buscar a dos outros. Por mais vazia e vã que a nossa história possa parecer, há que dar a volta, virar o bico ao prego e fazer alguma coisa que deixe marca digna, mesmo que subtil. Se não, ao ritmo que isto avança, qualquer dia estamos todos na abertura dos noticiários, ao lado dos Isaltinos e dos Salgados.

Luas

Não é ainda adolescente, mas quase, a menina que vem sentar-se perto, abalroando as cadeiras com estrondo. Finca os cotovelos na mesa e desata num pranto raivoso, espuma-se, descabela-se, esperneia. Com ela, sentam-se duas mulheres de idade que, em vão, murmuram consolos.
- Estou farta disto, farta de vocês as duas, farta de esplanadas! – grita, sem noção de que tem público. É bonita, muito loira e bronzeada, os olhos parecem o mar em dias de nevoeiro. Um anjo, perfeitinha no conjunto e no detalhe, mas um anjo endemoninhado.
- Olha, Vó, fica sabendo que já passo a vida em esplanadas com a mãe e agora venho práqui e é isto? Eu estou farta, estás a perceber? Farta de te aturar a ti e ao avô, não vos aguento mais, chatos, insuportáveis, percebes? Percebes ou não percebes? Não vos aguento!
As lágrimas são em torrente, a voz é desmesurada, assustadora. Numa carinha de anjo, assentaria bem a moderação do tom e das maneiras. Mas, enfim, na hora da conceção, ao harmonizar os genes, a natureza faz o que tem a fazer ignorando que, a seguir, a educação e o mundo vão acrescentando a sua parte e o mais certo é causarem estragos. De resto, aparência e conteúdo dissonantes é o que mais vai havendo por aí, sendo às vezes difícil saber qual levará vantagem.
As duas mulheres falam-lhe baixo, tentam pôr freio à má criação, ao menos para evitar que daquilo se faça espetáculo, mas a esta altura já são poucos os indiferentes. Sabemos, portanto, que uma é a avó e a outra também não demoramos a perceber quem é:
- E tu, tia, saturas-me, cansas-me com as tuas falas, as tuas resmunguices, já nem posso olhar pra ti, percebes? Chatas! Chatas como o caraças!
A tia contém-se, creio que lhe faltam as palavras e sobeja a vontade de marcar cinco dedos na cara da pirralha. Porém, tendo-a à sua guarda, as duas mulheres certamente ouviram soberanas recomendações dos pais e entre elas não se incluirá o tabefe, porque, a julgar pelos especialistas em linhas de montagem de crianças, quem o apanha degenera. Por outro lado, diz-se que os que não apanham ficam na ignorância das contrariedades da vida e acabam por degenerar também. Talvez o mundo andasse melhor falando o bom senso mais alto do que os especialistas e suas dicas para educar, adormecer, calar, entreter, que hoje são umas e amanhã, é certo e sabido, serão outras, mas quando esse amanhã chegar logo se vê. Um dia aceitar-se-á, enfim, que cada caso é um caso e que das linhas de montagem em série sai muitas vezes peça torta ou com defeito.
Depois, não sei o que aconteceu. Avó e neta sussurram e levantam-se, a primeira arrastando com esforço duas pernas grossas como troncos, a segunda saltitando como um cabrito, ruela acima. Voltam em dez minutos, na mão da menina vem um saquinho de compras, abre-o, despeja em cima da mesa um sem número de bugigangas, colares, brincos, pulseiras, laçarotes. Tem agora um sorriso largo, ajeita os cabelos por trás das orelhas com delicadeza e até lhe apetece comer uma sopinha ali mesmo, na esplanada. Magia. Foi-se a raiva, secou a lágrima, do anjo endemoninhado não há sequer rasto, só a candura salta à vista. A avó é agora a melhor do mundo, sobre a tia já esqueceu o que disse e até lhe oferece um colar.
- Olha, tia, comprei para ti, vai mesmo bem com o teu vestido.
É tarde para a generosidade. A tia, derrubada pela mágoa e pela vergonha, ignora o presente que a menina faz oscilar nos dedos, como se agitasse uma cenoura diante de um burro.
- Experimenta! Vais ficar gira.
A resposta é de quem se ausentou: 
- Não quero, guarda. 
A avó está solidária com a tia. Caladas, descansam os olhos no mar, que leva e traz, cativa e assusta, tem humores conforme as luas. E no fim de tudo, quando varrida a mágoa, talvez ambas até concluam que a menina é apenas temperamental. Os eufemismos sustentam muitas vidas, retocam as aparências, remendam penas e vergonhas. São atalhos perfeitos para desembocar no esquecimento e no perdão.

31.7.14

Contratos

Certas relações, ditas amorosas, com ou sem papel, parecem-se cada vez mais com os contratos de emprego em funções competitivas. É essencial ter boa apresentação, saber trabalhar por objetivos e exige-se uma proatividade tal que vai para o olho da rua quem se der a fraquezas ou distrações. Casos há em que, com o tempo, se revela ainda a impossibilidade de manter vida própria, gostos, hobbies ou entretenimentos individuais. Em contrapartida, pedem-se prémios de motivação e o justo pagamento pelo que se deu a mais, em horas ou serviços. 
Mal ou bem, o certo é que ter um poiso estável parece ser motivo para agradecer a Deus e razão que baste para vender a alma ao Diabo.

30.7.14

A uma hora da capital

Entre um caminho corta-fogo e as águas límpidas da barragem onde os veraneantes se passeiam de lancha e afogam as suas angústias citadinas, uma fileira de seis casas de portas e janelas cerradas. A primeira fechou-se quando os seus donos emigraram. Na segunda, desavenças familiares, discórdia entre herdeiros, tiroteio, roubo, já ninguém sabe a quem pertencem as paredes, o telhado, o naco de terra por lavrar. Na terceira, um homem suicidou-se com veneno para ratos. Na quarta, estranharam o silêncio prolongado e foram dar com a proprietária na cama, já em decomposição, morta de velhice e abandono. Na quinta, um casal de idosos perdeu a saúde para enfiar as mãos na terra e dela retirar sustento e foi-se para Lisboa, em busca de colo nos filhos doutores. A sexta "aluga-se para férias" mas ao que parece ninguém a quer. Agora, ali só passa o vento e a poeira, talvez o sussurro de fantasmas, o pé de quem se enganou no caminho ou procurou atalho. Um incómodo numa paisagem tão bela, uma nódoa num paraíso azul e verde, que só não tira o sossego a quem não souber.
Em Portugal, este país pequeníssimo onde o intervalo entre a abundância e a miséria é sempre tão breve e ora se está com os olhos no cume de uma montanha ora com um pé na lama, onde tão depressa nos perdemos nos excessos como no fundo deserto dos vales, este país rico em autoestradas e viadutos construídos sobre caminhos de cabras, em Portugal parece quase impossível que se viva desde sempre na ignorância do vizinho do lado. Os que podem viram a cara e vão para longe, embarcam em aviões, escondem-se em museus, cegam estendidos ao sol. Os outros, tantos, não veem porque os seus olhos estão fixos, desesperadamente fixos na ingrata tarefa da sobrevivência.

17.7.14

Que maçada!

Havendo-as, boa parte das críticas negativas que aparecem sobre hotéis, residenciais, estalagens e afins, diz respeito à escassez de canais por cabo. Não me surpreende, mas num país de gente que se repete na ladainha da crise e da penúria, impressiona saber que há tantos a investir dinheiro em bilhetes de avião, gasolina, portagens e alojamentos para ver televisão. Queixinhas de pobre, frivolidades de rico.

15.7.14

Adolescência

Pouco a pouco, deixam de lhe interessar as árvores. Trepá-las ou colher-lhes os frutos já não é desafio nem prazer. Amor torna-se assunto reservado, piegas quando o abordam os adultos, risível quando dele falam as crianças. De certas conversas já só retira motivo para confronto ou menosprezo. Sua mochila de verão é cada vez mais volumosa e secreta. Silenciosamente, cava túneis dentro de si mesmo, por onde possam circular, ao abrigo do juízo alheio, pensamentos que são susto e maravilha. Considera o que lhe ensinam com o mesmo respeito com que se considera uma herança de valor: admira, guarda, mas raramente usa, pois o tempo é novo e a vida é outra. 
É deixá-lo ir, digo-me baixinho, já saudosa da inocência e da incorruptibilidade que pus no mundo. Não irá longe, porque não é ainda a ânsia de sabedoria que o impele. Vai movido por cismas, desejos fortuitos, curiosidades menores. É deixá-lo ir. Oito, dez, doze anos demorará para voltar a Casa, ao amparo que é e sempre será toda a mãe que, lutando contra o medo, resistiu a prender e generosamente vai ao cais de embarque dizer adeus, sorrindo por fora para que não se veja, pela segunda vez, o ventre em espasmo e a porta dos amores abrindo à força.

14.7.14

Acontece

Pode depender do contexto, variar com a personalidade, estar aquém ou além do imaginado, mas é verdade que há, para todos nós e pelo menos uma vez na vida, um momento cuja superioridade faz de tudo o resto desimportância, poeira, figuração. Acontece às mães quando dão à luz, aos viajantes quando alcançam certos lugares e a outros por motivos que a ninguém compete medir ou validar.
Tenho sorte porque me acontece amiúde, e às vezes por tão pouco, esse entendimento súbito com o universo, bandeira branca ao passado e ao futuro, prazer livre de razões, promessas, trocas, rostos, quotidiano. Uma espécie de egoísmo primário, território cercado em torno de uma visão, onde nada nem ninguém é essencial, porque não há desejo ou lembrança. É coisa passageira mas que revolve, limpa e transforma.

11.7.14

Linhas paralelas

Porto, 10 de Julho de 2014
Duas linhas paralelas 
muito paralelamente 
iam passando entre estrelas 
fazendo o que estava escrito: 
caminhando eternamente 
de infinito a infinito. 
Seguiam-se passo a passo 
exactas e sempre a par 
pois só num ponto do espaço 
que ninguém sabe onde é 
se podiam encontrar 
falar e tomar café. 
Mas farta de andar sozinha 
uma delas certo dia 
voltou-se para a outra linha 
sorriu-lhe e disse-lhe assim: 
“Deixa lá a geometria 
e anda aqui para o pé de mim…” 
Diz-lhe a outra: “Nem pensar! 
Mas que falta de respeito! 
Se quisermos lá chegar 
temos de ir devagarinho 
andando sempre a direito 
cada qual no seu caminho!” 
Não se dando por achada 
fica na sua a primeira 
e sorrindo amalandrada 
pela calada, sem um grito 
deita a mãozinha matreira 
puxa para si o infinito. 
E com ele ali à frente 
as duas a murmurar 
olharam-se docemente 
e sem fazerem perguntas 
puseram-se a namorar 
seguiram as duas juntas. 
Assim nestas poucas linhas 
fica uma história banal 
com linhas e entrelinhas 
e uma moral convergente: 
o infinito afinal 
fica aqui ao pé da gente! 

José Fanha - "Romance ingénuo de duas linhas paralelas"

10.7.14

Idade (2)

Ainda fresco o texto anterior e já me acusaram de o ter escrito como uma velha. Não sei. Falei em idade, importa qual? O que digo aos quarenta, muitos podem descobrir aos vinte e outros nem com as costas vergadas e um pé na cova realizam.
A idade é a contabilização possível do correr do tempo. E o tempo, já diziam os relógios Citizen, é o que dele fazemos. O que não vale é tentar pará-lo.

Idade

O que ontem disse já não me serve hoje. Das coisas que jurei, sou capaz de me rir. Onde me pareceu haver terreno firme, agora há pântano e abismos. Correm águas e desabrocha vida onde, por despeito, já presumi aridez. Dou a mão que antes usei para sovar e a que guardava no bolso com ares de elegância serve-me agora para me defender. Tombaram deuses, estátuas e gigantes. Outros se ergueram, e crenças que em tempos julguei tolas podem ter-se tornado o meu maior amparo. 
Ao contrário do que os mais velhos garantem, o tempo faz-me mudar cada vez mais de ideias, desatar convicções, afastar certezas. Meu cuspo acertou-me na cabeça, em cheio na razão, e confirmei a sua consistência vaga e a sua intenção leviana. A minha fórmula da felicidade é aberta, não tem mais constantes nem números redondos.
A idade é uma desconstrução. E, não parecendo, mais seguro é estar ao vento do que à sombra da muralha.

8.7.14

Eletrocardiograma

- Muito bem, menina, pode ir tranquila que o eletrocardiograma está normal, o seu coração está ótimo.
- Como disse?
- Está tudo normal, pode ir. Repetimos quando for necessário.
- Deve ter-se enganado...
- Não, este é o seu número.
- Nem uma arritmia? Não pode ser...
- Tudo perfeito! 
- Ouça, eu não cheguei a esta idade, que suponho ser o meio do caminho, eu não me sujeitei a isto tudo para me dizer agora que o meu eletrocardiograma está normal. Normal há de estar o dos outros. Eu tenho vícios, vícios terríveis. Ignoro avisos e advertências, trepo aonde o oxigénio rareia e já vi o inferno concentrado num metro quadrado de terra. Cartas de amor, versos dedicados, músicas em meu nome, olhe... perdi-lhes a conta e desculpe lá a vaidadezinha, mas que seria de nós se não fossemos amados? Meu coração bate-me às vezes fora do peito, expõe-se em carne viva, sujeita-se a correntes de ar, cobiça e assaltos, anda pela boca e pelas mãos, desce-me até ao ventre, é um malabarismo que só visto, posso jurar, há dias em que se estende a partir dele uma dor que me apanha o braço todo quando levanto o punho... Outras vezes, doutor, é como se uma mão gigante o esmagasse com a força de Deus ou do Diabo, sei lá bem qual dos dois lhe mexe mais vezes... não é essa exatamente a impressão de um enfarte agudo? Olhe... uma paragem! Veja aí se não tive já o coração parado durante sete horas seguidinhas. Veja se esses picos aguçados não são escarpas, navalhas, ofensas, visões do outro mundo...  É que nem durante a noite estou a salvo!
- Menina, dormindo o coração abranda...
- O meu coração não dorme, doutor. Ainda a noite passada, não sabe quantos quilómetros fiz a pé, na escuridão, para levar um pai e um filho pequeno de volta a casa, fomos assaltados no caminho, adiante desmoronou-se uma torre decrépita onde habitavam centenas de famílias, junto a uma comunidade de imigrantes japoneses que estavam a preparar um almoço à base de mariscos. Num repente, apareceu água de todo o lado, uma onda gigante de água opaca e esverdeada, não sei quanto tempo estive submersa, quem me deitou a mão foi um homem loiro que estava a meditar numa varanda cheia de espanta-espíritos, senão a esta hora o doutor assinava-me o óbito.
- Oh, valha-me Deus! Isto é só um eletrocardiograma e está normal...
- Portanto, está a dizer-me que não tenho marca? Sequer um naco de tecido isquémico que me valha como troféu, como prova do que fiz e me fizeram? Dor, saudade, impulso, desejo, orgulho, êxtase, melancolia.... Nada?
- Vou fazer-lhe um desenho. O coração é um músculo, está a ver? Uma víscera desprovida de romantismo. Bate com uma cadência que responde às necessidades da engrenagem. Se tiver mossa, adoece, falha ou morre. Não há mistério.
- Sim, o coração dos outros é um músculo. O meu não. 
- O seu é igual.
- Está a dizer que eu sou uma pessoa vulgar? Era o que me faltava...
- Precisamente. Agora, se não se importa, tenho outros para atender com o mesmo problema.
- Problema?! Eu?! Então não disse que estava tudo bem com o meu eletrocardiograma?
- Vá para a cama, menina. Adormecer no sofá não dá bom resultado.

7.7.14

Ler como amar (6)

Se um livro me desilude por não ter história que valha, frase que brilhe, visão que perturbe, sentido que enriqueça, vai para a parte de trás da estante, onde está o que não tenciono levar até ao fim e prefiro até manter longe da vista. É triste quando se faz capa vistosa e sinopse distorcida para o que não é mais do que panfleto, anúncio classificado ou balde de despejo. 

4.7.14

Retorno

Com vocação hereditária para a tristeza, mal-entendida com o mundo quase de nascença, habituada a deitar-se vencida e a amanhecer descrente, Luisinha cortou os pulsos quando, pela primeira vez na vida, se achou feliz. Visão estranha andava a ter: uma luz evidenciando formas e contornos, uma súbita justiça na ordem das coisas, um propósito que lhe apontava horizontes e sugeria caminhos. E tanta vontade de sorrir, tanto desejo de se dar, tanto prazer nas banalidades, nos instantes, nas palavras. 
Mas a maravilha, por ser desconhecida, de repente pareceu-lhe uma doideira. E a doideira converteu-se em susto. E o susto encorpou-se e virou pânico. Às apalpadelas na memória, no inconsciente, no verso da nova realidade, procurou o retorno à sua dor crónica. Nada lhe era tão familiar como a dor. Nada era tão consistente e seguro como a certeza de que o mundo girava no sentido contrário ao dever. Foi uma busca em vão. Estava realmente feliz. Pois então, que morresse feliz, conforme é desejo de todo o ser humano que, por se estimar, quer partir com as melhores memórias e a melhor cara.
Descobriram-na a tempo, internaram-na, repuseram-lhe a serenidade dos fluxos e dos ritmos. E, por decisão médica, ficou proibida de voltar a alegrar-se nos próximos tempos.

3.7.14

Estágios (9)

Em jeito de boas-vindas aos meus estagiários, pouso-lhes sempre na mesa um papel com o excerto sobre as lavadeiras de Alagoas, de Graciliano Ramos. Nunca nenhum deles comentou, perguntou ou quis debater. Desconheço que rumo dão a estas sábias palavras. Se lhes servem como marcador de livros, se as guardaram em caixinha própria para as recordações em desuso, se lhes deram caráter de lembrete na porta do frigorífico. Ou se, por as acharem desconcertantes, desprovidas de romantismo, incapazes de comover e alimentar o bichinho, as remeteram para o lixo, desdenhando de quem enfia no mesmo saco o ofício da escrita e as tristes e invisíveis rotinas de uma lavadeira.