17.2.17

Feminista

Desconforta-me o recurso de certas mulheres à exibição do corpo como forma de reclamar a igualdade de género. O meu corpo de fêmea, não o desbarato nem o renego. Cuido dele com amor, para que a passagem dos anos não me seja muito severa. Não me importo de sangrar. Concedo que os meus humores estejam sujeitos às luas. Prefiro dez filhos a rasgarem-me do que um só bisturi que me corte. Porém, são íntimas e sagradas as minhas linhas, as fontes de alimento e prazer, os lugares onde sou vigiada por sondas com uma regularidade obrigada. Tudo no corpo de fêmea é ponteiro do tempo, arritmia, imprevisto, até traição. Não havendo como contrariar essa natureza ou igualá-la a outras, respeito-a, admiro-a, salvaguardo-a, por mais que doa, nauseie ou deixe mácula. 
É a minha forma de ser feminista e orgulhosa, em nada incompatível com o exercício pleno dos meus direitos. 

16.2.17

Círculo

Cumpridas as voltas da vida, cada um acaba por regressar à sua natureza original. Chame-se o que se quiser ao que somos na essência: estrutura, base, perfil, cultura. É lá que está o conforto, o território conhecido, os assuntos que dominamos, os lugares onde seremos vistos, se não como bons, pelo menos como iguais. Sempre voltaremos, para envelhecer, aonde conhecemos os corredores, os sótãos, as arrecadações, o cheiro da humidade, o percurso exato da luz, aonde nenhuma sombra nos engane, nenhum espanto nos desoriente. Até lá podemos fazer muitas viagens de alma, testar a elasticidade do coração, sentir a força tremenda que impele a quebrar o instituído, revolver, revolucionar, desdizer o nosso íntimo, o nosso medo, o nosso sonho mais ou menos idiota, mais ou menos impossível. No caminho, há por onde evoluir, mas não há como mudar. Mais cedo ou mais tarde, fecha-se o círculo. 

15.2.17

Contenção

Talvez o mundo mereça que de vez em quando se diga bem dele e se confie nas suas intenções. É, porém, difícil escrever sobre o que nos assenta, perfeito, no coração: prados verdes, alvoradas limpas, palavras de amor e lealdade, instantes próximos do absoluto, visões que revelam uma lógica justa e digna, horas em que o mal vivido mostra o seu benigno reverso. As minhas alegrias têm uma pobre equivalência verbal. Diminuem-se quando amarradas na sintaxe. Murcham no rigoroso espartilho de vírgulas e pontos. Valem nada lidas fora do círculo íntimo e pessoal. Além disso, ao contrário das tristezas, dos males, das dúvidas, dos desesperos, as alegrias são para fazer durar. E se as exprimo, começo logo a perdê-las. 

13.2.17

Saudinha

A poucos metros da escola, as mães sem ocupação fazem o seu ninho de maledicência e entretêm-se a incubar boatos. Quando passo, interrompem o cochicho. Bom dia, o seu menino está cada vez mais lindo. Quero devolver a simpatia mas falta-me motivo para tal. Sei de cor o modo subtil, bem intencionado, com que usam bater em porta alheia para depois vasculharem toda a casa, desfazerem as camas, abrirem os armários, cheirarem o lixo. Tantos anos a retribuir-lhes com indiferença e não desistem. Quanto mais trancas meto, mais as atiço. E ontem vi o seu mais velho a descer a avenida de bicicleta. Parecia mal agasalhadinho. Ignoro o que fazem da vida, que propósito é o delas, em que nobres divagações se embrenham, que retorno lhes dá tanto investimento em conversa de esquina. Mas olhe que não ia sozinho, ia com a filha do engenheiro Lima. Conhecem os nomes de toda a gente e neles incluem títulos e profissões porque assim as obriga a longa tradição nacional da subserviência e a curvatura nas costas. Sabe que a mulher dele apareceu-lhe um tumor, não sabe? E sobre as desgraças que germinam no recato de cada lar, informam a vizinhança com a intenção mal disfarçada de tirar crédito a conquistas que a elas não foram destinadas. É por isso que eu digo, quero lá saber de sucesso e dinheiro. Importa é saudinha, que sem ela não vou a lado nenhum. A passo arrastado, acabam por seguir todas juntas para o café da igreja, onde até ao fim da manhã ficam ostentando a sua excelente e inútil saudinha, à volta de meias de leite e croissants mistos.

10.2.17

Distância de segurança

Amadureço inclinada para a solidão. Cabelos brancos só dois, não me doem ossos ou dobras do corpo, tenho um sangue limpo de ameaças. Porém, cresce-me um certo acanhamento social, perco o apetite pelo convívio de ocasião e diminuí o número dos que me seduzem para conversar sobre coisas essenciais. Entristece-me o jeito apagado de certas pessoas, nem boi nem vaca, nem raiva nem paixão, nem para trás nem para adiante. Andaram na escola, namoraram, casaram, empregaram-se e foram ficando, cavando lugar. Depois dos trinta, nada mais lhes aconteceu, nada mais construíram, nada mais transformaram, nada mais estudaram. Estão convencidas de que decidem sobre as suas vidas sempre que vão às urnas ou quando respondem se querem fatura com número de contribuinte. Que hei de eu esperar? O que dirão que deslumbre, assuste ou dispare reação? Que amanhã vai chover? Que os filhos só comem sopa passada? Que tudo é muito relativo? Que este é o país que temos? Que nunca mais chega o fim de semana?
Dou comigo saudosa do tempo em que o meu patrão gritava. As suas barbaridades, fazendo eco no corredor, eram a evidência do muito que ainda havia para rebater e transformar. E, ao menos, acordava-me, acelerava-me o pulso, fazia-me gritar também. Mas até ele arrefeceu, tanto lhe dá, é o que for, logo se vê, pode ser, e a mão dele pousa no meu ombro com frouxidão e indiferença como se fosse o fim do mundo e nada mais houvesse a fazer. 
Mais duas décadas, se as viver, e serei um bicho do buraco. Esquecerei o tempo das minhas grandes interações, dos meus atrevimentos, do gosto de falar para muitos ao mesmo tempo, da vontade de saber quem está comigo e quem está contra. Aos poucos voltarei a ser a menina que fui: tímida, melancólica, tirando as medidas aos outros com a devida distância de segurança. 

2.2.17

Mãe incompetente

O mais novo julga que as ilhas dos Açores são barcaças esquecidas no mar alto há muito tempo. Há nelas, ainda, resíduos de carga explosiva usada em batalhas travadas pelo domínio dos oceanos. Quando as águas fervem ou as bocas dos vulcões cospem brasas e fumaças, é porque ainda rebentam, com mais ou menos força, essas sobras muito bem escondidas na estrutura das barcaças. Tremem amiúde devido à presença de criaturas marinhas que não se conformam com a perturbação do seu habitat e manifestam o desgosto baloiçando caudas, tentáculos e barbatanas. Nunca se sabe quando uma dessas criaturas se revoltará em nome de várias gerações antepassadas sacudindo com violência maior uma ou outra barcaça.
Sendo ele inclinado às ciências exatas, às objetividades enciclopédicas e à face do mundo que os sentidos podem atestar, é fácil perceber que na génese destes equívocos estão insinuações minhas. Não é por mal. Só quero prevenir nele o aborrecimento que mais cedo ou mais tarde dá naqueles que vivem reféns do óbvio, porque o óbvio se esgota depois de lidos todos os factos, decorados todos os nomes, aprendidas todas as características. Sei, por outro lado, que pelos delírios e exercícios de imaginação se pode pagar custo elevado. Logo a seguir à dependência, o medo é o mais pesado. 
À noite vai consultar os livros. Não diz aqui nada disso. Mas, por via das dúvidas, não tenciona pôr os pés nessas barcaças. 

1.2.17

Eutanásia

A morte, que é, entre todos os tabus, o mais injustificado, anda a ser dissecada com pinças e paninhos quentes pelos colunistas que hoje reincidem no tema. Alguns sabem muito de História, de Teologia, de Filosofia, citam nomes grandes, aparentam ter de cor todas as constituições, escudam-se em conhecimento livresco, de acordo com..segundo os princípios elementares da...considerando as teorias de... Serei estúpida por não perceber que verdade, afinal, apregoam, se têm de facto opinião e de onde lhes vem o direito ao lugar cativo de mil carateres por semana, tantas vezes mal escritos e ofensivos para quem tenha dois dedos de testa. O teatro do debate público é isto: qualquer coisa sem chama nem compromisso, que mais baralha do que elucida e que passa rasteira quando parece estar a iluminar o caminho.

(Qualquer um que já se tenha visto na iminência de, com as próprias mãos, dar o golpe de misericórdia, sabe que a voz do médico, do juiz e do padre são ciência vaga, sentença inválida, moral sem aplicação. Direitos? Deveres? Liberdades? Juramentos? Não há cartilha ou lei fundamental que não possam ser esmagadas quando um Deus maior e mais urgente é revelado nos olhos de quem se ama.) 

O melhor é rir

Não sendo trágico, seria, de facto, cómico, e agradeço ao Bruno Nogueira por ter-me lembrado que o melhor é mesmo rir. 
Ao pé dos livros que eu li às escondidas quando tinha doze anos, Valter Hugo Mãe é uma candura.

20.1.17

A cigana e o gatuno

Susana contou do primeiro slow da adolescência e do arranjinho que a deixou nos braços de um grande constrangimento e teve o dom de me fazer vasculhar memórias. O meu primeiro slow foi por ocasião do Carnaval, em casa de uma família abastada cuja filha mais nova era minha colega de turma. Eu tinha uns doze anos, muito aquém dos doze anos das outras meninas. Era miudinha, lisa, tímida, pensativa e melancólica. Porque a época a isso se prestava, estávamos todos fantasiados. Havia, entre os exemplares do género masculino, a habitual abundância de heróis e figuras de respeito: homens-aranha, mosqueteiros, cowboys, polícias, padres, médicos. As meninas contentavam-se em ser japonesas de passo travado e boca fechada, bailarinas de coxinhas ao léu, fadas ou princesas com uma ridícula sobrecarga de maquilhagem. Aos primeiros acordes formavam-se os pares com uma rapidez que me entontecia, dando-me a impressão de estar tudo previamente combinado, e não me restava senão encostar-me a um canto e fazer de conta que nada daquilo me interessava. Igual a mim, mas na outra ponta da sala, havia um rapaz todo vestido de licra preta, encapuzado e enluvado. Foi esse o único que se me dirigiu e, sem grande jeito, estendeu-me a mão, abraçou-me e balançou-me ao ritmo de qualquer música que não recordo. Terminado o primeiro slow, insistiu para o segundo, depois para o terceiro e por aí adiante. Na altura, eu ainda não sabia dizer não. E fiquei o resto da tarde refém de um gatuno, o único que sobrara para mim e para quem eu sobrara, sem lhe ver o rosto e sem perceber mais do que duas mãos de licra, inseguras, no fundo das minhas costas. 
Pode dizer a moral desta história que cada um tem o que merece? Ora, a japonesa foi envolvida na teia do homem-aranha, a bailarina foi detalhadamente auscultada pelo médico, o padre caiu nas boas graças da fada e as princesas deixaram o polícia vulnerável e desautorizado. Eu, vestida de cigana holandesa – e nunca soube muito bem o que era uma cigana holandesa –, pelos vistos mereci o larápio, o invasor de propriedade privada, o amigo do alheio, o rato, o delinquente, o maior pesadelo noturno da minha avó. E ele nem arte teve para me roubar um pedaço de coração. A vergonha foi tal que jurei não voltar a prestar-me às sobras e a ser invisível aos olhos dos heróis. Mas a parte seguinte da história não entra aqui.  

13.1.17

Mãe

Que frágil fica o adolescente na hora do sono. Tão cansado de planear futuros épicos e improváveis, tão desgastado de insistir na marcha em contramão! E o excesso de certezas a forçar indevidamente a delicada musculatura da alma! Eu mudo o pneu. Eu levo-te ao colo. Eu domino o animal. Eu vou ao telhado. Porém, caindo a noite, ei-lo, aninhado nessa sofrível imitação do ventre materno que é o aconchego da cama. Aí baixa os braços. O peito contrai para se proteger do assombro noturno e o sexo envergonha-se de estar vivo. De olhos muito abertos, perscrutando as sombras do quarto, pede-me que repita uma vez mais o que todas as noites, desde o nascimento, lhe digo para manter fantasmas e pesadelos arredados do seu sono. 
Eu, ao deitar-me, imagino que a mão da minha mãe vem de lá do seu eterno descanso para me pousar na testa, tal como quando eu chorava de desgosto ou alguma doença me atirava à cama. Ao contrário de mim, ela não acalentava os filhos com promessas. Um gesto seu bastava para reconstruir o universo.

12.1.17

Galhofa

- Este pão é de quê? 
Pergunto ao rapaz da padaria, cuja delicadeza de modos e feições me lembra os príncipes incorruptos dos contos de fadas. 
Esbelta!
Responde ele, seguro em todas as consoantes.
- Oh, muito obrigada! Só por isso, levo todos os que tem no cesto.
Ao fim da tarde, o rapaz da padaria costuma dar-se muito à brincadeira. Com a colega, que tem idade para ser sua mãe, ri-se baixinho, faz trocadilhos, sussurra malícias. Certa vez, uma cliente disse que depois do pão ainda tinha de ir aos tomates, eles entreolharam-se e escangalharam-se até às lágrimas. A colega, sufocada de riso e muito vermelha, foi agachar-se atrás do balcão do fundo. Depois de a cliente sair, o rapaz pediu-me desculpa pelo tempo que demorou a recompor-se. Arranjaram uma forma de fintar o cansaço, a dureza dos dias, o calor dos fornos, o gesto repetido, sem novidade ou espanto, de encher sacos de pão: galhofando como dois adolescentes que julgam ver o que aos olhos de mais ninguém se revela.
Desta vez, porém, não é trocadilho mas ignorância. Eu entendo como me é conveniente e trago todos os pães de espelta que sobram da última fornada do dia, em jeito de agradecimento. Saio a tentar engolir o riso e, mal arranjo quem me ouça, partilho o episódio e dou azo à minha própria galhofa.

11.1.17

Lista de resoluções

A rapariga da papelaria mostrou-me a sua lista de resoluções para o novo ano com tal entusiasmo que eu julguei que dali vinha a transformação do mundo. Estava no verso de um recibo, pontuada com alertas de prioridade, corações, smileys e outros rabiscos livres. Está provado que anotar tudo ajuda. 
Ah, que desejos profundos seriam os meus se tivesse de os anotar para me lembrar que os sinto? Que verdade teriam as causas que houvesse risco de eu esquecer no espaço de seis horas? Com que segurança eu daria um passo se a vontade que o empurra precisasse de cábula? Anotar, anoto miudezas, compras, contas, obrigações sociais. O resto persegue-me com tamanha veemência e intervalos tão curtos que nem que eu quisesse podia esquecer, fugir ao chamamento ou à culpa de não realizar.
A rapariga da papelaria está encandeada pelas urgências e pelas palavras fáceis que lhe gritam os meios ao alcance. Não há uma, entre as revistas dispostas no balcão, que se iniba de anunciar fórmulas para merecer o prémio da felicidade, todas elas em passos tão simples e rápidos que só um burro cego e surdo não termina 2017 sentado num trono. Ela alinha, convencida de que cede ao mais íntimo e genuíno impulso. Multiplicou a lista por todos os suportes possíveis: o bolso, o telemóvel, o computador, a porta do frigorífico e até um recorte de cartolina que, diz-me, emoldurou para pôr na mesinha de cabeceira. Assim, de manhã até à noite sei no que tenho de me focar e está provado que ajuda. 
Há de saber um dia a rapariga da papelaria que só quando abrir um intervalo, uma distância segura face ao mundo, terá espaço para a germinação da sua verdadeira identidade, do seu propósito e da sua paixão. Nesse dia, dispensará as listas pois o fluxo do próprio sangue lhe apontará o rumo. Mas é claro que isto não está provado.

9.1.17

Um único amor

A um único amor eu tenho sido fiel de forma constante por toda a minha vida: o amor aos livros. Em tantos outros hesitei, enganei ou falhei, fiz promessas falsas, virei costas sem aviso, sucumbi à raiva ou à descrença, mas no amor aos livros tenho vivido como uma mulher devotada, que não perde a fé nem esmorece no prazer e na entrega. É o único que não hipoteca a minha liberdade, em que a rotina não pesa como uma condenação e que não me faz perguntas além das que servem a minha própria curiosidade.
Ignoro quantos livros li desde que tenho entendimento para decifrar códigos e mundos, quantos li no ano que findou, quantos terei lido no desfecho do próximo. Os amores profundos não se rebaixam em contabilizações, tampouco se desperdiçam a pensar objetivos. Desvalorizam compromissos e anúncios públicos. Sei, porém, que os livros roubaram muitas horas ao meu sono e ao tempo de estudo. Mais tarde, tiveram responsabilidade no menosprezo pelas tarefas domésticas. Os meus filhos, conformados com a primazia desse amor, aprenderam cedo a respeitá-lo e a inibir-se de o perturbar. Aconteceu, amiúde, adormecerem com a cabeça encaixada entre o meu peito e o livro, depois de murmurarem o título, o nome do autor, uma ou outra linha que lhes chamava a atenção e ensarilhava as mentes permeáveis. 
Ninguém me ordenou este amor. Mas, desde que me conheço, ele cobre as paredes, repousa nas mesas, ilumina as cabeceiras das camas e chama com letras gordas e nomes de muitas origens, anunciando novos mundos e revelações. Vi o bem que ele ia fazendo nos outros e senti o modo como deixava a casa com a quietude e a frescura de uma catedral. Era um amor que salvava nas noites de insónia, nas doenças que obrigavam ao repouso absoluto, nos dias de chuva persistente. Mais forte e tentador do que qualquer outro chamamento, ele sempre trouxe o espanto, o deleite e a alegria em que os amores verdadeiros nunca falham. Uma vez, numa festa, meti-me a ler o livro que eu própria levara para oferecer ao aniversariante. E, para minha felicidade e alívio, sumiram-se, como no fundo de um poço que despejasse tudo nos antípodas, as vozes dos convivas que debatiam as façanhas dos filhos, as agruras do quotidiano laboral e as manchetes dos jornais. 

4.1.17

Loucura

A loucura não é uma doença, mas uma imperfeição original do ser. Tal como o cancro, que a cada segundo dispara naturalmente em cada organismo e que abortamos sem que a vontade conte e a consciência saiba - até um dia -, também a loucura lateja nos subterrâneos da alma e emerge quando há condições a seu favor. Depois, da mesma forma que ao cancro se usa chamar cabrão e outros insultos próprios para quem vem de fora e vem por mal, à loucura atribuem-se designações várias, complexas, por vezes insuspeitas, e tratamentos com nomes difíceis. Num ou noutro caso, talvez andemos ao engano, amaldiçoando e nomeando o que, afinal, é da nossa natureza e tem o nosso apelido.

3.1.17

*

Com tanta fé posta na passagem do ano, quanta fé sobra para a passagem dos dias?

30.12.16

Escrever

Escrevo para suspender o mundo quando a marcha é veloz e hipnótica. Não presumo ver o que outros não tenham visto nem sequer pensar sobre o que a outros tenha escapado. O universo é de todos e tão escancarada a sua maravilha e evidente o seu absurdo que só quem dorme não se deslumbra, não se ajoelha, não se comove, não se inquieta, não teme. Mas Deus não faz a ninguém o favor de parar tudo e permitir uma vagarosa e detalhada contemplação. Se nos desse tempo para entender, estaria Ele condenado. Então eu escrevo para O desautorizar. E faço-o com o gozo próprio de um vulgar capricho, com a ligeireza de um gesto avulso que, por não ter consequência, jamais terá de prestar contas. Depois, lavo as minhas mãos, retomo o andamento e é como se nada tivesse acontecido.

29.12.16

Rabanadas e panquecas

É com uma satisfação comovida que o senhor Pereira me diz que este ano as filhas vieram consoar e com elas trouxeram maridos e filhos. Já não me lembrava da última vez que tivemos de abrir a mesa toda. Usa as palmas das mãos para esfregar os cantos dos olhos, onde a saudade, a mágoa, a ternura, quem sabe o arrependimento, passam ao estado líquido. Vendo-o assim, fico sem palavra. Não estou habituada a que se exponha frágil, com aquele lábio trémulo e a velhice tão bem aceite e evidente nas linhas do rosto, na curva das costas, nas veias do pescoço. Este senhor Pereira é-me desconhecido. Mesmo sabendo eu que todo o Homem tem o seu avesso e que isso não deve causar estranheza a não ser a quem dá os primeiros passos na observação atenta da espécie.
Também a mim começam a humedecer os olhos, porque penso na minha sobrinha que veio de tão longe, do outro lado do mundo, só para o Natal. E parece que também se curvam as minhas costas. As filhas do senhor Pereira só vieram da freguesia ao lado, mas, enfim, há muitas formas de se medir distâncias e raramente os quilómetros servem com rigor esse propósito.
- E o seu filho? Espero que também esteja bem. - mudo de assunto porque não sei o que fazer à comoção instalada.
Ele funga e leva os olhos, bem abertos, a dar uma volta pelo horizonte. O vento seca-os e ele recompõe-se.
- Esse é que não veio este ano. Foi passar o fim de semana à terra da namorada, que por acaso fica lá para as suas bandas.
A namorada é novidade, mas não percamos tempo com o que pouco importa na história e pode até ser efémero. Ouçamos o senhor Pereira, que ainda tem muito que contar:
- Ela é de... Pena... Pana... Penelongo... ou coisa do género.
Solto o riso sem pudor, porque o senhor Pereira é das poucas pessoas que lidam bem com o meu atrevimento. Ri-se comigo.
- Não é? Diga lá, então...
- Sei lá, será Penedono?
- Olhe... é! Não é lá para os seus lados?
- Nem por isso. Penedono é distrito de Viseu.
- Vai dar no mesmo.
Ofendo-me. Empertigo-me. Transfiguro-me. 
- Não, não vai! Uma coisa é acima do rio. Outra, bem diferente, é abaixo.
Mas o senhor Pereira ignora-me, desinteressado que está em debater as geografias deste país que ele menospreza, renega e humilha em conversa de café ou sozinho, diante da televisão. A sua vontade é, afinal, falar das filhas. E agora que se endireitou novamente, recuperando a autoridade sobre as emoções, está pronto para abordar o assunto ao jeito que lhe conhecemos. 
- Aquelas duas raparigas, valha-me Deus!  Não fazem nadinha! Não sabem fazer umas rabanadas, uma aletria, umas filhós... Dá-me a impressão que nem cozer bacalhau. A mais velha meteu-se agora a estudar outra vez, julga que ainda tem idade para andar na escola...
- Escola? Universidade, presumo.
- Vai dar no mesmo.
Tudo dá no mesmo para o senhor Pereira. É a forma que tem de pedir que desvalorizem a sua ignorância.
- E a mais nova faz voluntariado nos tempos livres. 
- Isso é bom, senhor Pereira.
- Oh! Eu já lhe disse: Ana Isabel, andas a perder tempo a ajudar os outros, mas olha que se precisares ninguém vai perder tempo a ajudar-te a ti.
- Essa sua perspetiva é um bocado triste... 
- É a realidade, menina. Já cá ando há muitos anos. Sabe o que lhe digo, a si e a elas, que são da mesma idade e por isso vai dar no mesmo? Se querem chegar a algum lado, olhem em frente e sigam caminho, não se desviem por ninguém.
- Às vezes é no desvio que está o caminho, senhor Pereira.
Aposto que me vai ignorar outra vez e não me engano. Esfrega as mãos, aquece-as com sopros curtos, bate os pés no chão.
- Olhe, o que eu sei é que já não se fazem mulheres como a minha.
Falando no diabo, abre-se a janela e vem o chamamento esganiçado:
- Miro, filho, anda pra cima que fundiu uma lâmpada da casa de banho!
Antes que eu me despeça e abale, ele levanta uma sobrancelha e, a medo, pergunta:
- Diga-me uma coisa: a menina sabe fazer rabanadas, pois sabe?
- Sei fazer panquecas, mas vai dar no mesmo.

28.12.16

Esforço

Com a desculpa de terem de adormecer os filhos, as mães aninham-se com eles em camas de um corpo só e sucumbem ao cansaço debaixo de estrelas fosforescentes, embaladas pelo próprio canto, certas do único amor que lhes é dado sem reserva ou condição. Uma, duas horas depois, acordam, aflitas pelo descuido a que se deram. Algumas dizem-me que encontram a vida exatamente como antes do sono: a loiça amontoada, as sobras ainda nos pratos, o lixo aberto, os maridos cavando o seu lugar no sofá e lamentando que não passe nada de jeito na televisão. Estás cansada? Eu também. Senta-te aqui comigo. Não sentam, não podem. Vão fazer o que tem de ser feito. Eles ficam. 
No dia seguinte eles preparam um arroz branco e dois bifes e elas falam disso a toda a gente, como quem louva um atrasado mental que venceu mais uma dificuldade e cujo esforço deve ser aplaudido.

20.12.16

Retiro

Creio já o ter dito em anos anteriores: o Natal é o tempo em que sou mais egoísta. Não saio, por nada, de dentro da minha muralha, não abandono a minha mesa. Nem comigo mesma sou solidária, não gasto um segundo a lamber feridas próprias, menosprezo todas as tristezas e dissabores que já vivi, e a minha memória, que costuma ser de invejar, fica curta e fraca. Canto muito. Encho a barriga, sem arrependimento pela abundância. De forma voluntária e plenamente consciente, entrego-me à ilusão de o mundo ser perfeito.
Uma vez, caí na asneira de corromper essa perfeição indo à missa do Galo. O sermão do padre não foi de paz e amor, mas de guerrilha. Durante uma hora serviu-se da palavra do seu Deus para atiçar a indignação e a desconfiança nos nossos corações. Jurei que nunca mais. Eu e a minha família saímos sem beijar os pés do Menino, furando a custo o exército de devotos que caminhava para o altar com as boquinhas estendidas, famintas de perdão. Fomos os únicos. Comungámos à mesa, enquanto a miudagem disputava com fervor o Rossio e a Rua Augusta em volta do tabuleiro de Monopoly, que tem mais de cinquenta anos de uso.

(votos de um Feliz Natal para todos)

19.12.16

Miniaturas

A professora do mais novo compra tudo o que é miniatura. Se é pequenino é bonito, diz ela. Já viu esta torrezinha dos Clérigos, que perfeição, que amor? Sabe que é tolice, não há serventia alguma naquela montra de chinesices que alinha em aparadores, oratórios e cristaleiras e, por tuta-e-meia, engorda a cada semana. Mas ter vícios é de gente normal e ao menos este não mata nem endivida. De resto, ela é uma professora eficiente, a canalha anda com letras e contas na ponta da língua, certinha e bem preparada para o futuro conforme o predizem. 
Com a professora do mais velho, a cantiga era outra. Compreendia, sinceramente, que os olhos das crianças sãs, curiosas, acordadas, mais se importam com o trajeto de uma formiga desalinhada do que com uma soma de frações. Desprezava, sem esconder, as mães para quem a hora da quantificação das virtudes dos filhos era a mais decisiva. É só uma prova, por amor de Deus! Mas já a inocência das criaturas estava irremediavelmente adulterada e, com a purga das ansiedades, encharcava-se o recreio de vómitos e lágrimas. 
Esta mantém a sala bem organizada, ao jeito dos aparadores, oratórios e cristaleiras onde dispõe meticulosamente as miniaturas. Há objetivos. Nenhuma graça ou talento desculpam acentos tortos ou contas mal feitas. Os pequeninos são lindos, mas têm um lugar que deve ser cumprido. Até confio na ternura dela, no cuidado com que trata, no esmero e mais ainda na competência técnica. Mas, em boa verdade, o modo como o mais novo papagueia, sem vacilar, determinante artigo indefinido plural masculino não é coisa que me impressione ou tranquilize particularmente. 

16.12.16

O barqueiro

Éramos dez ou uma dúzia, em idade de muitos sonhos e enganos. Saíamos já tarde, metíamos o pé na estrada nacional sob a mais completa escuridão, com mato de um lado e do outro, as sombras da noite encorpando monstros de braços compridos e faces terríveis. Os rapazes dividiam-se entre a dianteira, para enfrentar eventuais perigos, e a cauda, para proteger a retaguarda. Nós, as miúdas, em segurança entre uns e outros. Não havia cá exacerbação de orgulhos feministas, todas sabíamos que o corpo masculino, pese embora a pieguice com que se rende a uma vulgar constipação ou o desmaio que lhe causa um parto, tem, na maioria dos casos, forças físicas superiores. São dos homens os músculos duros e arredondados, as pernas longas e fortes, a prontidão para guerrear, o gosto por exibições de coragem. Era justo serem eles os protetores e nós as protegidas. Não que houvesse perigo real. Mas era tremendo o silêncio, escura a noite, deserto o cenário e tão fértil a nossa imaginação que pressentíamos malfeitores a saírem detrás das árvores a todo o instante e, antes de cada curva, prendíamos a respiração, fantasiando mil possibilidades. 
Sabíamos de cor o lugar onde um trilho de cabras se abria até ao rio. Descíamos enlaçados, para evitar quedas. Depois, era só gritar bem alto ó barqueiro!, ouvir o eco do chamamento a desassossegar o vale e aguardar que viesse quem havia de nos levar à outra margem. Às vezes demorava. E o medo de ali estarmos, sós e desabrigados, vulneráveis à hora do terror, tinha de ser espantado com tolices, barulho, cantoria e um ou outro beijo que só mesmo no escuro podia vencer hesitações e realizar-se, com tudo incluído. Era uma festa a chegada do barqueiro e, depois, um sossego o ranger dos seus braços de madeira, a travessia da corrente com ritmo, paciência e doçura, o murmúrio da ondulação no casco desbotado. O barqueiro dizia coisas, contava histórias e enternecia-se com a nossa juventude fácil, universitária e urbana. A meio do percurso, sobre o corte mais profundo do leito, com as margens fora do alcance, todos aconchegados numa casca de noz levada à força de pulso por um velho, sem visão a montante nem a jusante, o momento era a síntese do tempo que vivíamos: absolutamente feliz, isento de dúvidas e responsabilidades.
Na outra margem, havia uma taberna de bancos corridos onde os homens do campo viam a bola, jogavam cartas e envenenavam o sangue. Era para lá que íamos, beber sangria, dançar e falar das coisas e das causas que no nosso coração tinham urgência.
De tudo isto me lembrei por causa desta notícia. Não é o mesmo barqueiro, nem o ponto da travessia era este, nem o cais tinha tão útil estrutura, mas como a minha memória é fácil de tocar e despertar, veio dar no mesmo.

15.12.16

Como novo

O senhor Pereira estranha ver-me passar de cara fechada. O seu coração de pai, que só por obstinação não beneficia dos devidos afetos, desassossega-se.
- Então, menina?
- Cá vamos, senhor Pereira.
- Más notícias?
- Oh, não.
- Problemas no trabalho?
- Felizmente, também não.
- São os filhos que a cansam, pois claro.
- De forma alguma!
Farto de bater em vão às portas cerradas da minha intimidade, apoia-se na sabedoria popular:
- Olhe que tristezas não pagam dívidas...
- Tenho as contas em dia...
Suspira, enfia as mãos nos bolsos, levanta duas ou três vezes os calcanhares num balanço que é próprio dos homens em convívio social.
- Menina, seja o que for que a incomoda, esqueça.
O esquecimento é um dom. O senhor Pereira tem-no e por isso, dia após dia, tudo se ajeita no seu interior. Como novo, a cada manhã. Quem o vê, confia sem pé atrás na possibilidade de sermos felizes em absoluto. O ontem é só poeira. Não o soubesse tão materialista e submisso – quase escravo – , tomá-lo-ia como um espírito de elevada sabedoria. 
A uma vulgaridade, respondo eu com outra pior:
- Ah, sim, nada que o tempo não cure.
- Vou dizer-lhe uma coisa, porque vocês, jovens, não valorizam o que têm e às vezes é preciso dar-vos um abanão: eu se tivesse a sua idade não desperdiçava tempo com tristezas.
Vou para lhe dizer que até nem estou triste, foi só um dia ingrato, desses que de vez em quando nascem para nos açoitar até ao pôr do sol, lembrete das nossas fraquezas e dependências. Palmadas miúdas, é certo, mas várias de uma assentada deixam tudo em carne viva e só uma noite bem dormida, com sonhos amáveis, repara. Porém, antes que eu me lance em explicações – bem mais simplistas do que aqui descrevo – ele tira o smartphone do bolso com a vivacidade e o entusiasmo de quem foi assaltado por uma boa ideia.
- Vou-lhe mostrar uma coisa. Vai-se alegrar num instante!
Anda para trás e para a frente com o indicador no écran e um sorriso de paixão juvenil põe-lhe os olhos miudinhos.
- É esta. Não, não é. Espere lá, eu sei que está por aqui. Olhe, ei-la!
Extasiado, vira para mim a imagem de uma carrinha prata, luminosa, respeitável logótipo entre um jogo de faróis a lembrar olhos felídeos. 
- Tenho-o em janeiro. Ano novo, carro novo! Quer dizer, não é novo, novo, novo... mas está como novo. Diga lá se não é um espetáculo!
Tolo o senhor Pereira de julgar que um automóvel havia de me alegrar. A gente passa pelas pessoas todos os dias, aperta-lhes a mão, troca impressões, opina sobre isto ou aquilo, e, no fim, o que sabem de nós é pouco ou nada, inúteis os sinais que demos, aquilo de que nos rimos com menosprezo ou o que de verdade nos espantou. Cada um vê no outro o que quer: um pedaço igual a si, um espelho, qualquer coisa que o consinta e faça eco. 
Num assomo de frustração e ironia, ocorre-me comentar se eu tivesse a sua idade não desperdiçava tempo com futilidades, mas depois lembro-me que hoje já servi uma dose farta de palavras mal ditas. É deixar ir o senhor Pereira em paz, que as culpas dele não me desculpam a mim. 

14.12.16

Uma menina

Uma menina foi atropelada esta manhã diante dos nossos olhos. Ao embate do automóvel, voou como uma folha de papel, desumanizada, e também os meus filhos confirmaram, com horror, que a morte não é apenas um fim mas uma companhia fiel, uma lapa no nosso corpo, uma sombra em cada passo que damos, uma silenciosa iminência. 
Não importa dissecar a banalidade dos sentimentos que se seguiram. Não foi excecional nem raro o aperto no meu coração de mãe, nem o pasmo atemorizado nos olhos deles, nem a fragilidade que no quotidiano esquecemos e que nestas horas parece respirar fundo, como bicho traiçoeiro, em cada uma das nossas células. Importa-me o costume: a fila de automóveis buzinando, indiferente a uma menina prostrada no chão e à sua amiga trémula, chorando de susto. Foi a esta que eu acudi, porque me doeu o seu abandono desesperado, a sua meninice traumatizada, a imagem da tragédia que se lhe terá fixado para sempre na retina. Em boa hora um grupo de adolescentes a ela se juntou, amparando-a, enchendo-a de cuidados. 
São-me cada vez mais insuportáveis os adultos que acusam a miudagem de má formação. Já o disse muitas vezes: estou, estarei sempre, do lado dos mais novos, que é também o lado único da minha esperança. Livre-me Deus de alinhar nessa fila de trânsito tão responsável, cega e ofendida, capaz de pregar os mais nobres e comoventes valores sem erguer o punho para os praticar.

13.12.16

Vende-se

Os dias em que não te encontro, era capaz de os vender num desses mercados online onde um par de horas basta para despachar o que não serve. Vendê-los-ia assim como são, já usados, de corpo anémico, coitados, desbotadinhos, sem espessura nem fôlego. Porém, quantos há que compram inutilidades, sem se importarem com marcas do tempo, pontas soltas, buracos negros? Saber-lhes as razões não importa. Às vezes só querem ocupar um espaço vago, uma hora de apatia, um temor de solidão. Que comprem esses meus dias, cheios de coisas boas que os meus olhos não viram por me faltares. Que a uns dê prazer o que a outros dá tristeza ou transtorno. Que uns recuperem o que para outros é lixo. Não há outra forma de o universo manter o equilíbrio a não ser em movimento.
Ninguém desconfiaria, porque só eu noto, que esses dias levam defeito. E o defeito é tu não estares.

9.12.16

Repouso

Branca como a cal, de joelhos trémulos, pernas incapazes, o cateter enterrado na veia, diz à cunhada, pelo telefone, das últimas novidades:
– ... então ele acusou-me "tu gostas é de hospitais" e já vinha para me bater como de costume, mas eu fiz-lhe peito.
Não é a história que me impressiona. É o modo de contar, sem peso nem gravidade, sem revolta nem comoção. Natural, como quem partilha o dia que acaba de nascer, o sol a leste condenado a pôr-se a oeste. O costume. E o costume instala-se, cava lugar, faz ninho, petrifica e, de repente, é ele a própria vida mais as suas causas e o seu destino. Na hora do balanço, alguém que se responsabilize por isso. Pode ser Deus, se assim entenderem.
– Olha, ele está a ligar-me, depois falamos.
Atende o seu homem e fala-lhe mansamente, tem na voz uma ternura habituada, um timbre de amor crónico, desse que aguenta todas as penas e dores por julgar não haver remédio ou por ver grandeza no que se constrói com sacrifício e cedência.
– Sim, estou bem, a sério.
Quando a enfermeira a vem chamar, desliga sem adeus e levanta-se. É um nico de gente de peito côncavo e mãos infantis, a pedir que a aviem depressa porque tem muito que fazer em casa. Na sala de espera, outros ficam a dormir nas macas, vejo-lhes os buracos nas solas dos sapatos, o recorte descarnado de rótulas e cotovelos, os coágulos de sangue no lençol, o rasto imundo de lágrimas já secas, o cansaço que, chegando ao limite, procura, enfim, uma cama onde se confessar. 
O hospital é o repouso dos miseráveis.

7.12.16

Comigo está tudo bem

Há cada vez mais mulheres a cometerem crimes violentos. Quando uma tragédia nos comove em massa é porque tem uma de duas características: ou abala a nossa exemplar Europa ou as vítimas são jogadores de futebol. Somos pobrezinhos mas, fazendo fé nas sugestões para o Natal, continuamos pirosos e berrantes, com o predomínio do dourado e dos padrões felinos. O homem do snack da esquina usa luvas como mandam as regras de higiene, mas com as mesmas que prepara a comida ampara a boca ao tossir. Na rua, os donos dos cães perguntam-me se os meus filhos são mansos quando eles se chegam para fazer uma festa. A solidariedade é uma mina. A cara do António Costa ao lado dos reis de Espanha lembrou-me a minha, bacoca e deslumbrada, quando um pintor célebre viu os meus desenhos e me fez uma festa na cabeça, tinha eu nove anos. A preocupação com a humanidade continua a ser muito bem simulada: noticia-se o que desde sempre é sabido e conveniente como se tivesse sido acabado de descobrir, desde o mau uso dos medicamentos até à indigna exploração de mão de obra. O mundo é um lugar francamente mau. Não tão mau quanto os jornais nos querem fazer crer, mas pior ainda.

11.11.16

Na manhã seguinte

Não tenho dados nem certezas, mas creio que a morte prefere chegar durante a noite. Clinicamente falando, pode ser pelo mesmo motivo que se agravam as tosses, as dores ou as febres: porque a vulnerabilidade dos organismos aumenta quando o sol se põe. Prefiro pensar que, por misericórdia, a morte não quer ser vista. Que se disfarça nas sombras e se confunde com os ruídos que a imaginação amplia e deforma, o grito de uma ave de mau agoiro, o choro de um bebé sem consolo, o arfar urgente de dois amantes, o ladrar vagabundo de uma matilha, a premonitória tensão dos gatos, a folhagem varrendo o parapeito da janela. E entre o pavor da existência, a sobredimensão do trágico, o remoinho de todos os mistérios do universo, quem desconfia, quem dá por ela, se tão bem encaixa? Não a vendo, ninguém ergue resistência. Não há lugar a combates vãos e desiguais. A dor dos outros acorda na manhã seguinte, sem ter testemunhado o pior. É quando Deus corre a desculpar-se, estendendo o seu braço de luz para dizer que a vida continua.

10.11.16

Eppur si muove

- Já viu? Um tipo daqueles, um anormal, uma besta... como é possível? 
Fiel seguidor de vários canais de televisão, atento aos lençóis opinativos que se estendem para aconchegar os indecisos ou ignorantes, é capaz de repetir tudo o que já leu e ouviu com tiques, termos e interjeições iguais. Blá blá blá blá blá. Não esperava outra coisa. É o senhor Pereira de sempre, uma estaca empedernida, um papagaio engasgado com excesso de informação, as rugas e o ranger dos ossos acentuando-se sem originalidade ou sabedoria. O discurso, que a mulher foi validando com acenos de cabeça, terminou num gesto largo, inspirado, dramático, e no pior dos clichés: o mundo como o conhecemos tem os dias contados. 
Simulo inocência e espanto: ai, credo, isso está na Bíblia? A mulher do senhor Pereira revira os olhos baços, amarelados, de pálpebras frouxas. Sei que lhe falta paciência para os meus comentários e, de quando em vez, precisa de respirar fundo para não me mandar plantar batatas nesse interior pasmado e ignorante onde nasci.
- Lá está a menina, não leva nada a sério... - diz ele, descontente, puxando os ombros à resignação.
Senhor Pereira - não lhe digo - eu de facto só conheço um mundo, tem biliões de anos, é o mesmo que Fernão de Magalhães descobriu por um acaso ser redondo, que Copérnico provou não ser o centro do universo, que Galileu jurou baixinho que se movia. É ainda o mundo onde desde sempre os homens se curvaram a outros homens, onde territórios se ganharam e perderam consoante as ganâncias e dos medos, onde por ordens imaginárias dos deuses se cometeram crimes, corromperam crianças, violentaram mulheres, assassinaram crentes, onde a fome de uns deu de comer a outros, e a glória de alguns custou o sacrifício de muitos. É o mundo onde a ignorância é conforto, o consumo é paliativo, a opinião é entretenimento. É o mundo onde o bem sempre foi imposto pela via do mal e por isso não pega nem medra. O mundo que a Igreja nunca salvou, nem a Europa civilizou, nem a América protegeu, mas que tão perversamente soube alimentar a ilusão do contrário. É, com efeito, o mundo onde a etiqueta se pode aprender até pela internet e onde as leis têm vindo a regular os atos dos homens mas jamais poderão evitar que as suas emoções, desejos e vontades sigam por atalhos onde a justiça não é apenas cega, mas também surda, muda e coxa. Está a dizer-me que tudo isso que existe desde que o mundo é mundo, o bicho é bicho e o homem é homem, tem os dias contados?
Desconhecendo os meus pensamentos, a mulher do senhor Pereira aperta-lhe o braço, espeta-lhe as unhas como quem se agarra ao pouco que tem de segurança e valor:
- E aquele modo de falar, aquele cabelo, aquela pele? É nojento! É nojento! É NO-JEN-TO! Cá para nós que ninguém nos ouve, espero que alguém acabe com ele.

(Sou uma cética de nascença. E isso, pese embora o facto de me manter a esperança em níveis mínimos, também me livra dos contagiosos horrores do pessimismo.) 

2.11.16

Urgência

Cinco anos sem pôr os pés num hospital e cai-me o queixo. O quádruplo em taxas moderadoras, um décimo da eficácia clínica, da qualidade no atendimento e da sensibilidade. O serviço nacional de saúde - que sempre defendi e preferi - cobra mais caro enquanto sucumbe, como outros, à humidade nas paredes, ao azedume dos profissionais, ao cenário de abandono, a dolorosas e solitárias esperas.
Este é o país em que os impostos não servem para manter a segurança, a eficiência e a estabilidade da máquina, mas para tapar buracos. Caro cidadão, empreste-me aí mais cinquenta euros para uma urgência, assim que possível devolvemos, nem que seja preciso pedir a outro. O retorno será sempre na proporção inversa da quantia pedida. Mas está tudo bem comigo, sou imune a certas ilusões, nunca contei ser salva pela esquerda, pela direita e muito menos pelo centro. Não sou tola de confiar numa gestão com mil anos de maus vícios.

27.10.16

Epílogo


Desde que se conformou com o facto de eu não lhe dar moeda, o arrumador conta-me histórias. Antes que me suponham má pessoa, inimiga dos coitados, saibam que à hora a que chego a praceta está deserta, sobeja espaço até para acampar, não preciso que ele me acuda. Porém, conhecendo-lhe o vício da nicotina por vê-lo amiúde a vasculhar os cinzeiros públicos, de quando em vez arranjo-lhe cigarros, que ele agradece dobrando-se numa vénia. E dou-lhe conversa, coisa que nunca desvaloriza e muita gente mendiga. É um homem à entrada da velhice. Polido nos modos. Mesmo quando se abespinha, não se lhe ouve comentário ou insulto, deve ser para dentro que enfia as suas raivas. 
Ontem, apanhando-me a sair do carro, contou-me de um lisboeta que veio cá acima para uma reunião e que, depois de lhe pedir conselho sobre os melhores pratos e restaurantes, acabou numa cervejaria, a comer um prego. O arrumador contava-me isto rindo com gozo e desdém: "e eu disse-lhe ó homem, olhe que é preciso ser muito ignorante para vir ao Norte e comer um prego!" Enquanto falava, caminhava ao meu lado devagar, caminhava como um cavalheiro, de mãos nos bolsos, vertical proprietário dos trapos que vestia, das unhas encardidas, da praceta vazia, sem pedir ou reclamar do que lhe falta. Estava certo de me ter como cúmplice, porque cá no Norte, em todo o Norte, quando se trata de rir à socapa de quem vem de fora, não há barreiras nem inimizades. Enfim, é uma mania de superioridade que temos, absurda como qualquer outra mas tão inócua que até enternece. 
Esgotados os comentários e a risota - até mais logo - ele trocou-me por outra senhora que acabara de estacionar e lançou-se no mesmo relato sobre o lisboeta, mas logo às primeiras palavras ela cortou:
- Não pode ser, não tenho trocos.
Ele estacou, alinhou a pala do boné e, com mais gozo do que incómodo, de si para si:
- Esta deve ser das que vêm aos pregos.
Riu gostosamente, exibindo as abertas na dentadura, e voltou ao seu posto de serviço.

Dezembro 2014


- Diga lá a menina: entre um coelho e um porco-espinho com um ano de idade, quem é o mais velho?
Sem paciência para esperar, logo encadeia a resposta:
- O porco-espinho, porque tem um ano e picos!
É o arrumador. Apanha-me debaixo de um aguaceiro, veio a passo rápido, como é seu costume quando tem mote de conversa. Eu a sair do carro, às aranhas por causa das tralhas que me obrigo a carregar, o saco a deslizar-me do ombro, o fecho da mala encravado, o telemóvel a um passo de mergulhar em poça de água, não me sobra mão para abrir o guarda-chuva, menos ainda para fechar as portas. E ele de mãos nos bolsos, feliz de nada carregar, fazendo depender o seu ritmo da história que urge contar e o seu rumo do lugar onde estiver quem a escute. 
Não compreendo este homem. Bem falante, informado, opinando com lucidez e independência sobre o Charlie, o Salgado, a bola e os insólitos do quotidiano, recusando-se à lamúria e à pedinchice, rindo com uma disposição que, pela fresca da manhã, o português não costuma ter e muito menos oferecer. No passo, nos gestos, nos olhos e no hálito não há sinais de vício pesado. Se é por fado, castigo ou escolha que ali anda, amealhando trocos em bolso roto à custa de apontar lugares vagos, tenho ainda por saber.
Andasse a vida sob a responsabilidade exclusiva da imaginação e arrumá-lo-ia eu onde me fazem sentido os seus modos: num distinto palacete, acomodado em poltrona robusta de tecido adamascado, mastigando um Porto vintage, ao lado uma pilha de livros anotados, ao redor dez netos à espera de o ouvir contar ou, em dias mais ligeiros, de saber que motivos há para aprender a rir de tudo isto. E punha-lhe os dentes que faltam e que mais merece quem não deixa enrijecer os cantos da boca.

Janeiro 2015


Hoje não é feriado, mas o país está fechado para descanso do pessoal. Nem o arrumador compareceu no seu posto de trabalho. Conhece o biorritmo da cidade, sabe que hoje só os tolos madrugam. Os outros, os empenhados, os imprescindíveis, os que se atropelam no trânsito e estão dispostos a pagar por um lugar grátis para não atrasarem as suas imensas responsabilidades, não vieram. Eclipsaram-se-lhes as urgências. Nestes dias, só nestes dias, realizam que, afinal, não é por vinte e quatro horas que lhes vão sentir a falta. 
Amanhã retoma-se o desfile, o fato de lantejoulas, o bamboleio das nádegas, a festa dos talentos, a paliativa distorção do nosso papel no mundo.

Fevereiro 2015


- Já ninguém sabe escrever! 
Disse-me, esta manhã, o arrumador. Sacou do bolso uma página de jornal dobradinha em quatro e estendeu-a no capô do meu carro, alisando muito bem os vincos. Primeiro, fui tomada por uma arrogância provinciana, um elitismo de trazer por casa, e pensei não, isto eu não vou discutir com o arrumador. Saí do carro pronta a fazer ouvidos moucos e a dissuadi-lo com o argumento da pressa e de mil afazeres à minha espera. Mas já ele insistia:
- Isto é uma tristeza! 
É que pouco importa ao arrumador a disposição e a pose de quem chega. No meu caso, que não dou moeda, tem sempre fé nos dois ou três minutos de conversa a que costumo prestar-me. É franco, sem disfarce, o gozo que manifesta quando bato com a roda no passeio ou estaciono onde é sabido que por todo o dia o sol baterá sem filtro nem piedade. Também não tem pudor em fazer ironias com as senhoras que estacionam em segunda fila para ir ao salão arranjar as unhas. Disse-me que qualquer mulher devia saber tratar das suas mãos e que aquelas não mais fazem do que pagar para ter com quem conversar, pois toda a gente sabe que essa é a verdadeira serventia de um salão.
À página do jornal já aberta no capô do meu carro, acrescente-se os olhos dele muito agarrados aos meus e o jeito que não tenho para amanhar desculpas. Com tudo isto, bastou-me meio segundo para converter a arrogância em cumplicidade. E dei comigo a rir com uma maldadezinha inócua que é, no fundo, semelhante ao gozo dele quando eu bato com a roda no passeio:
- Ora mostre lá quem é que escreve mal.
- Leia isto!  - levantou a página do jornal com as duas mãos, como quem tira as medidas a um quadro antes de o pendurar.
Pensava eu ir encontrar um erro de palmatória, um vergonha gritante, e afinal era uma daquelas imprecisões com que só os puristas embirram. Quis dar o desconto, mas a falta de convicção pôs-me a gaguejar:
- Bom... talvez não seja propriamente um erro... vendo a frase no seu todo... quero dizer... e a palavra tem aspas.... ou seja...
Ele recuou e sorriu de lado como os garotos:
- Engane-me, que eu gosto! Só usa aspas quem não está para se dar ao trabalho de encontrar a palavra certa. Portanto, só usa aspas quem não sabe escrever. É ou não é? 
A voz cresceu, crescendo-lhe também o peito, insuflado de satisfação e certezas:
- É OU NÃO É?
Há dias em que o arrumador é a única pessoa a quem ouço dizer alguma coisa que valha. 

Agosto 2015


O arrumador refila contra quem veio chamar-lhe a atenção por dar o pequeno-almoço aos pombos. Pôs-lhes a mesa à sombra de uma árvore e desse modo faz todos os dias e continuará a fazer, garante-me. Com efeito, lá estão os restos de pão atapetando a calçada. E o bando, num alvoroço de fazer vento, vai largando penas e outras porcarias sobre os automóveis, que nesta zona são dos bons e tratados com muito afeto.
Arrisco:
- Diz que os pombos transmitem doenças...
- Ora essa! Já viu alguém morrer por causa de um pombo? Sempre lhes dei de comer e olhe para mim. 
Dá uma voltinha. Está velho, mas, ignorando a dentadura, parece inteiro e robusto.
- Ver, não vi, mas...
- Tretas! Todas as espécies da natureza merecem a consideração. 
- É que os pombos depois proliferam sem controlo e...
- E então? O mundo é muito grande, há lugar para todos e é bom que haja de comer também.
Não sei lá por que cargas de água ou forças ocultas, atrofia-se-me o pensamento e a língua na hora de responder ao arrumador. O pouco que digo não presta nem convence. O melhor é desertar.
- Olhe, tenho de ir, estou em cima da hora para uma reunião.
- É, é...

Setembro 2015


Morreu o arrumador. Foi o que disseram os que logo açambarcaram o seu posto para duplicar rendimentos. Olhe, morreu. Com efeito, já não o vejo há alguns dias e, da última vez, fazia a rota habitual, recolhendo sobras nos cinzeiros públicos, atingindo os medíocres, os malcriados e os oportunistas com o seu riso lateral e a sua indiferença. Para mim, que não tenho televisão, o arrumador era o noticiário, o comentador da atualidade, lúcido e incorruptível, o programa da manhã, a crónica humorística que escancara o avesso do mundo. Fiz dele personagem de alguns textos, forma que arranjei de sacudir das costas o peso, a gravidade e o cinismo das suas sentenças.
Talvez tenha regressado à vida antiga, a que eu lhe imagino, num palacete de labirínticas bibliotecas e madeiras nobres, cheio daquele silêncio que enxota os juízos superficiais. Talvez tenha, portanto, morrido o arrumador, mas tenha renascido o homem. A família veio resgatá-lo. Os filhos decidiram perdoá-lo. Apareceu uma prima emigrada há décadas para o levar daqui. Invento estas e outras possibilidades para acreditar numa justiça que salve em terra.
Esta manhã, à porta do edifício, duas senhoras lamentavam este modo de a morte chegar. Ainda outro dia o vi, nada fazia prever... Nada?! Esquecem que quando alguém nasce, a única coisa que traz escrita é o epílogo? Até lá, claro que a morte é muito insuspeita, nem sempre dobra a espinha ou embaça os olhos ou prepara o leito com vagar e grandeza. Cativos do enredo, os mais distraídos tomam-na por traição, mil insultos lhe gritamos, mil pragas lhe rogamos, mil perguntas lhe fazemos. Chegamos ao ponto – miserável – de lhe insinuar que devia ter levado outros.
Nunca dei uma moeda ao arrumador. Nunca temi que me riscasse o carro ou furasse um pneu. Nunca tive pena dele. Mas sei que houve dias em que ele teve pena de mim.