30.9.14

Guia turístico

A blogosfera está a abarrotar de "lideres de opinião", dela nascidos e por ela mantidos. Na sua maioria, já não se trata, porém, de pessoas que influenciam e ajudam a formular ideias e pensamentos, mas de gente a quem basta repetir o que qualquer comum mortal sabe e diz, com a única vantagem do razoável domínio da sintaxe e da ortografia. Não abre caminho. Limita-se a ir à frente num itinerário que, por ser em círculo, está mais do que aberto, palmilhado e decorado. E vai comentando o que vê como qualquer guia turístico, com ladainha decorada.

29.9.14

Os cortes continuam

Não sei se foi por causa da árvore, mas fui também eu tomada por uma enorme vontade de cortar. Uma motosserra começou de repente a zumbir dentro de mim com dentes afiados, vibrantes, farejando excessos e inutilidades. Cheguei ao trabalho com a frescura da manhã que me despertou, pronta para começar a cortar. O ímpeto era tal que nem tirei o casaco. Atirei as minhas coisas para cima da cadeira e disse ao jovem designer "sai daí, quero cortar". Então cortei. Agucei as pontas dos dedos e cortei. Cortei palavras, frases, parágrafos inteiros que tinha demorado dias e dias a escrever. Cortei com uma clarividência feliz, como se as palavras realmente essenciais me saltassem à vista, vivas, expressivas e gordas, estrangulando as outras, as fúteis, ao ponto de estas me pedirem o golpe de misericórdia. Cortei com ligeireza o que um dia antes cuidava ser imprescindível. Depois de eu cortar, cortar e cortar, satisfeita com esta súbita e rara lucidez, o rapaz sorriu, igualmente satisfeito: agora já respira melhor. O branco das páginas florira, expandira-se, como revelação de possibilidades ou apenas um humilde, necessário e oportuno intervalo.
A escrita é um extraordinário exercício para quase tudo na vida.
(Abril de 2012)

Continuo a trabalhar para reduzir em tamanho e redobrar em força. Cortar, limpar, polir, afiar. Sonho com o dia em que, com meia dúzia de palavras, possa criar uma frase capaz de golpear como um sabre, iluminar como um relâmpago, espantar como a aparição de um morto.

27.9.14

Envelhecer

Tenho pânico de envelhecer. A meio da vida que estou, às vezes experimento a nostalgia. E assusta-me imaginar o dia em que ela se torne a maior de todas as tentações, o único prazer consentido.

25.9.14

Não, não é por aí...

Entre todos aqueles que conhecem o "Cântico Negro" de José Régio, chegará quase aos cem por cento os que afirmam que o poema podia ter sido escrito por eles - se tivessem o dom, pois claro. 
E acha uma pessoa que veio ao mundo para desflorar florestas virgens só por estar descontente com o estado do país, por, de vez em quando, lhe saltar a tampa e pedir o livro de reclamações, por ser vegetariano, ter gosto em passear sem destino ou por se atrever a usar saias compridas quando a moda está para as curtas! 

24.9.14

Terrivelmente amados e amantes

À entrada da escola, a criança berra como um cabrito, tem as faces a arder, baba e ranho por todo o lado. Sem largar as pernas da mãe, atira um pontapé à mochila para que fique claro o menosprezo por isto das lições e o despudor em exibi-lo ao mundo. Solidária, acode uma avó que está por perto. No esforço de apaziguar o coração da mãe, faz-se valer da sua experiência com dois filhos e três netos. O melhor é virar costas ao menino, em dez minutos há de calar-se. Duvida? Então que venha espreitar mais tarde, à socapa, e confirme que está tão feliz como os outros. O mal é quando os pais são frouxos e mais medrosos que a canalha, acrescenta, com o cuidado de voltar o rosto para o outro lado. O porteiro concorda: há que ser firme, está quase a tocar para dentro, a professora chegou, seis anos é mais do que idade para saber das obrigações e aceitá-las. 
Mas a mãe, não é bem assim, tremem-lhe as mãos e a voz, tem o coração partido e o cabelo desgrenhado de tanto o remexerem duas mãos desesperadas. Com os puxões à blusa, há um seio quase de fora. O menino continua em aflição, como se às portas do inferno. Não governa braços nem pernas e vai acertando onde não deve. Abeira-se outra mulher, pousa a mão no ombro da mãe:
- Tenha calma... Criança realmente feliz e amada, é natural que não queira separar-se da mãe. O amor é assim mesmo...
Cai-me o queixo. Eis o amor, argumento do desespero, alegação de defesa para todos os desacatos e desmandos, os pontapés às mochilas e os rasgões na roupa, o bofetão de um homem na sua mulher, que passará a tareia da pesada dando-se o caso de tão bom sentimento aumentar. O desnorteamento, o medo, a insegurança, os nós cegos e apertados entre as pessoas, a tudo isso, parece-me, a tudo isso se vai chamando amor, uma romântica conveniência, que cala e desarma, mas por que carga de água nunca dá paz?
De longe, vejo o meu filho prestes a entrar na sala, volta-se, atira-me um aceno ligeiro, ri-se de boca desdentada. E sujeito-me à vergonha pública de não sermos assim, terrivelmente amados e amantes.

23.9.14

Novelo

Raramente conto histórias sobre homens porque não me puxam pela imaginação. Sejam engravatados de hábitos militares, adolescentes de cuecas à mostra, arrumadores nas lutas pelo poder local, pais que esperam seus filhos no portão da escola, bêbados, ociosos, boa onda, intelectuais, proprietários, estudantes, de esquerda ou de direita, os homens são o que está à vista ou o que, pragmaticamente, contam. E o que não se vê é porque se esconde tão fundo que só a psicanálise alcança, a almofada sabe ou em momento extremo se revela. Eles o dizem, dando graças: não complicam nem se enredam e, felizmente, só têm cinco sentidos. Confiemos.
Mas diante de uma mulher, muda o caso de figura. Arrebito a orelha e olho pelo canto. Uma mulher tem mais qualquer coisa, há sempre uma nesga aberta na sua face, uma denúncia no seu olhar, um gesto mínimo traindo a sua intimidade, um modo de andar que não é só da perna, um suspiro ou um esgar fora de tempo, que desarmonizam e por isso chamam a atenção. A gente agarra o fio, puxa, e parece que desenrola lá de dentro, como um novelo, o mundo inteiro. 

22.9.14

Ler como amar (8)

Certos livros deviam aparecer-nos apenas em final de vida, porque, depois deles, todos os outros parecem mornos, a sua invenção um embuste, a sua moral arrancada a ferros, as suas pequenas falhas imperdoáveis. Vagueio pela estante mas nada salta à vista no ordeiro alinhamento das lombadas. E, na mesinha de cabeceira, arrastam-se coisas que me enfastiam e que só pela esperança de uma súbita revelação levarei até ao fim. Algumas com nome grande, prémio conquistado e aplauso unânime, porém, a cada página fico com a impressão de ter ganho rigorosamente nada.

19.9.14

Inversão

Quanto mais vejo, em menos creio.
Sou uma triste inversão de São Tomé. 

17.9.14

As meninas (2)

Os passeios quebrados, os azulejos das fachadas, as horas em que a passagem de nível fecha, Mariana já decorou. Há seis anos que faz o caminho sozinha. No primeiro dia - ainda tinha dentes de leite - repetiram os avisos até ela lhes ser indiferente. Que não fizesse desvios nem respondesse a estranhos, lobos como o da história há por aí a rodos, com fala igualmente mansa e muito menos pelo. Avançou. Uma menina a caminho da escola, a mais pequenina entre os pequeninos, sem guia nem amparo, tomando conta dos seus passos. Espera-se que o mundo a trate bem, que tenha respeito pela sua inocência, compaixão pelas suas dúvidas, cuidado com a sua fragilidade. Amanhã há de ser mulher e mulher quer-se inteira, depois se verá para o quê.
Agora, Mariana também toma conta de recados. São coisas menores, mas sem elas o quotidiano da família não se cumpre. Na volta da escola, já tem autorização para fazer desvios: passar no talho, na papelaria, no sapateiro. Não há mal em esquecer alguma coisa, a mãe é branda de feitio e não pode dar-se ao luxo de investir em guerras sem justíssima causa.  
Toma ainda conta do irmão. Apanha-o na escola primária, luta para lhe vestir o casaco porque ele é tão buliçoso que tira a paciência a um santo. Mas que fazer para o domesticar se, de facto, é uma alegria seguir pela rua pontapeando pedrinhas, trepando aos postes, ensinando o caminho ao diabo, já que tem quem lho ensine a ele? Mariana pergunta-lhe o que há de novo nos cadernos, em casa lancham, fazem os exercícios, quando a mãe chegar estarão frescos e lavados, prontos para o jantar. Ainda há meninas assim, começam cedo a ser mães dos filhos que não pariram. A sua infância é avessa, desdiz as teorias dos entendidos, mas pode até dar-se o caso de ser feliz. É engano pensar que sempre falta amor onde abundam trabalhos.
Tenho-a hoje à minha frente. Espanto-me. Cresceu como crescem as meninas nesta idade: da noite para o dia. Arredondou-se nos sítios certos, a testa e o queixo são um carnaval de sebo e borbulhas, tem outro modo de se mexer, sorri só de um lado e os caracóis andam livres pelas costas. 
- Já sabe da novidade?
- Qual novidade?
- É que este ano calhei com o seu filho. 
Muito abertos, os olhos dela brilham como duas safiras, líquidos de orgulho e alegria. O seu excesso de luz entontece-me. E com o filho beijado, a minha boca adoça até ao êxtase pois tenho um coração de sentimentos vulgares e universais. Levo um abraço sem precisar de me curvar. Trocamos votos de um bom dia, bom ano, boas notas, bom trabalho, tudo de bom. Um adjetivo basta para todos os desejos do mundo, que a felicidade é poupadinha nas palavras, a tristeza é que tem por hábito encher-se de lantejoulas e exibir malabarismos, superlativos, figuras de muito estilo. 
Depois:
- E não se preocupe. Eu tomo conta dele. 

16.9.14

As meninas

No reencontro, junto ao portão da escola, elas mostram que aprenderam cedo o que parece inevitável virem a ser. São ainda meninas, mas já cheias dos vícios e dos tiques que dão fama à condição feminina. Alguns são clássicos, vêm nos livros, outros são herdados das mães, tias e irmãs, bastantes serão ditados pela televisão e as revistas. É com estridência que se aproximam umas das outras, abraçam-se, soltam gritinhos histéricos, fazem-se festas, elogiam-se na cor das unhas, mostram espanto com o arranjo do cabelo que uma, mais ousada, experimentou. E as sapatilhas, que giras! Onde compraste? Gosto imenso da tua saia! Estás o máximo! Posso fazer-te uma trança? Trouxeste os batons? Mas, para o caso de haver quem, precipitadamente, julgue que as meninas só pensam em moda, saiba-se que há quem fuja à regra. Houve uma que chegou a correr, abalroou outra de surpresa saltando-lhe para as cavalitas, e, num guincho, anunciou a quem quisesse ouvir:
- Ó minha sortuda de merda, ficaste na turma do gajo mais bom da escola!
Os tempos mudam, mas as vontades nem tanto e seria ilusão esperar outra coisa. A diferença é que, quando tinha eu a idade delas, estas coisas eram ditas em sussurro, às escondidas, tantas vezes por escrito em papelinhos clandestinos. Não apenas porque tínhamos a noção do ridículo, mas sobretudo porque o segredo era a alma das grandes amizades.

12.9.14

Vindima

Quando eu era pequena, parecia um mundo estranho e coitado esse de apanhar a uva e fazer o vinho. No Porto, os meus colegas da escola apalermavam com a lonjura de onde eu vinha. Santo Deus, existia tal coisa? Havia estrada para lá? Tínhamos automóvel ou carro de bois? O rio era o mesmo? Impossível. E por que carga de água então eu não andava descalça, não tinha sotaque, nem o ranho me pingava do nariz, se a minha terra era atraso, vida selvagem, ignorância pura? 
O meu pai aprendera cedo a rir-se disso e também cedo começou a avisar-me que tivesse cuidado, porque, dizia-me, os maiores parolos podem estar nas cidades grandes, apanhando sol nas esplanadas, vendo montras em carreirinho, entretidos a tirar medidas uns aos outros. Pasmavam com uma galinha, enojavam-se com a ideia tosca de uma pisa, roga não era mais do que a terceira pessoa do verbo "rogar", cardanha soava-lhes a nome de doença contagiosa e mortal. E de tudo isso riam e desdenhavam, pois lhes parecia que, havendo miséria de recursos no interior, também haveria certamente miséria de sabedoria, de prazeres e de coração. Coitada de mim, azarada de ter nascido no fundinho do país. 
Trinta anos passados e tantas voltas deu o mundo, tantos canais e linhas se abriram, tanto cansaço súbito dos centros comerciais, das vias rápidas, das pressas, do consumo e das consumições. E eis agora o gosto desenfreado pelo que chamam de "regresso às origens" e de "genuinidade", desde que seja tudo gourmet e encenado a gosto, claro.
É Setembro, passo os olhos pelos jornais e revistas, não há um que fuja às sugestões de vindima no Douro, seus encantos e finezas para desfrutar à luz do lifestyle. Temperam tudo com histórias do passado porque a desgraça, vista pelos olhos de quem está a salvo, tem, afinal, um irresistível romantismo. É apenas questão de dar a moldura certa. E o rio, que é de todos e sempre foi, que não pede licença para correr, não paga portes de envio, nem se faz cobrar pelo desfile, é agora o trunfo que aumenta o preço dos quartos e dos restaurantes. Qualquer coisa como pagar a água da chuva num hotel sem telhado. 
Agora, é outro o discurso que ouço: feliz de mim, privilegiada por ter ali ter nascido. 

11.9.14

Regresso às aulas




* Obrigada ao meu Professor, que me enviou isto. 

É meia hora de entrevista, nem vale a pena clicarem se estiverem muito ocupados.

10.9.14

Conta-me histórias

Não percas muito tempo a dizer-me as tuas opiniões. Menos ainda se forem longas e rigorosas, enredadas com a pompa dos discursos políticos, proferidas com a assertividade sujeito-predicado-complemento direto, temperadas com o isto à luz daquilo ou na perspetiva daquele. Se és a favor ou contra o acordo, a lei, o rico, o pobre, o ontem, o hoje, a vingança, o amor, acabarei por saber na hora de te mexeres. Formas de pensar nem sempre são formas de ser e, muitas das vezes, não passam de modos de dizer. Além disso, sabes o que acho das convicções: são suicídio. Quando a gente insiste num lado, começa logo a morrer dos outros. Poupemo-nos à terrível humilhação de nos faltar o ar quando estamos no cimo do palanque. 
Conta-me histórias. Prefiro que me contes histórias, nem que as inventes. Antes ser iludida pela tua imaginação do que pelos teus juízos. Dá-me a visão do que viste. Dá-me os detalhes, as paisagens, o pó das estradas, dobra-te quando contares da velhice, encolhe-te para falar dos miseráveis, encorpa a voz pelos poderosos. Quero ver ainda como és os amantes separados, os que morrem sozinhos, os que nascem com ferros, os que perdem memória, os conquistadores, os arrogantes, os desatinados, os felizes, os teus pais, filhos e irmãos, os bichos e as bestas. 
Poupa-me a moral, sentença ou epílogo. Para contar uma história é preciso hipotecar o coração e logo ficarei a saber o quanto ele vale.

9.9.14

As dores (2)

Quando dei à luz pela segunda vez, partilhei o quarto com duas mães profundamente doridas da cicatriz no ventre, porta aberta à força quando o corpo faz birra e a natureza não está para generosidades. As noites foram-lhes difíceis, custosos os movimentos, pesadas as mais elementares tarefas. Foi graças às enfermeiras que os seus bebés se mantiveram limpos, aliviados de gases e satisfeitos de afagos. 
À hora das refeições, as duas mães tinham uma atenção: ofereciam-me as suas sobremesas, alegando que aquilo lhes ia tudo para as ancas, nem pensar em engordar mais, bastava-lhes a sopa. Já eu... parecia tão frágil! E o meu filho, credo! nem três quilos, coitadito, precisava de muita mama para medrar.... 
Agradecendo, eu recusava. Ora essa, que comessem elas, o seu corpo também levara uma sova, amamentar não ia ser pera doce, as noites em claro exigem reforços. Quanto sangue e seiva perde uma mulher a dividir-se por dois! Em vão. Tinham reservas, garantiam-me. Não se via? E afastavam os lençóis. Diante do desperdício, vendo fatias de bolo e gomos de fruta fresca a voltarem para trás - sabe-se lá com que destino -, e tendo eu um estômago de elevados e frequentes caprichos, acabava então por aceitar. Assim nos víamos as três felizes. Eu saciada em triplo e elas consoladas só de me ver comer - o instinto maternal tem estas artes de se estender ao mundo, mãe de um gosta, às vezes, de ser mãe de todos.
Ao fim das quarenta e oito horas da praxe, tive alta. Recuperei a verticalidade, arrumei as coisas, preparei o meu filho para as brisas traiçoeiras da primavera e encaixei-o em mim. 
- Já vai embora? 
- Sim.
- Mas só cá está há dois dias. Não são três?
- Dois...
- Quê? Não diga que não fez cersiana...
- Não, não fiz.
Até hoje, não sei se o que lhes arregalou os olhos foi o espanto, a indignação ou a fúria. Porque, depois de me despedir, fazer um carinho aos bebés, desejar felicidades, agradecer por tudo e mais alguma coisa que me ocorresse e virar as costas, ouvi, saído entredentes:
- Foda-se! Se eu soubesse não lhe tínhamos dado as sobremesas!

8.9.14

As dores

Em horas de enfrentar o mundo, aguentar de pé as contrariedades, sofrer amputações, sangrar das cicatrizes, escutar as verdades, também já me aconteceu desdenhar do tolo que pasma e conversa com as árvores, do bebé a quem basta chorar para ganhar, do ricaço dormitando em hotéis de luxo, do gato que vive de calor e afagos. Depois, fui constatando que a vida acaba por pesar igual para todos, só muda o lugar onde se leva a carga. Nuns pode ir bem à vista, às costas, nas mãos ou nos olhos. Noutros, pode ir fundo e escondido, no peito, no estômago, nos cromossomas, na memória. No limite, vai na certeza da morte e na dúvida do seu instante e da sua causa.
É por arrogância que presumimos a nossa dor a única, a maior, a que mais atenção, penas e perdões merece. "Se um dia passares pelo que eu passei, vais ver", é coisa que não se diz a ninguém, pois nunca se sabe verdadeiramente por onde passam, se perdem, se arrastam ou está escrito que irão desaguar os outros. 

7.9.14

*

O mundo que critica os que exibem tudo o quanto fazem, é o mesmo que duvida e reclama provas daquilo que não vê.

6.9.14

Ice Bucket Challenge

Sou achacada aos pequenos incidentes na vida de estranhos e anónimos. Raro é o fim de semana em que eu consigo o merecido descanso, o benefício dos prazeres egoístas, o retiro que a alma precisa para se recompor de cinco dias de lutas, sucessos e dissabores. Por que carga de água não sei, nem importa, mas quando tento ler um livro, passar os olhos no jornal, caminhar sozinha, ao meu lado há de sempre aparecer uma criança perdida, um homem a asfixiar, uma velha estatelada no chão, um solitário em pranto convulsivo e tantos outros que, se enumerasse, vos encheria de tédio. Vale-me, nestes casos, ser pessoa de sangue-frio e ter noções de primeiros socorros acima do elementar.
Não foi hoje a exceção. Ao meu lado calhou desfalecer, sem aviso, uma mulher da minha idade, por sinal belíssima, acompanhada de duas filhas pequenas a quem descaíram os queixos de susto e correram lágrimas de pânico. Acudi como soube. Estava cheia a confeitaria, mas a televisão era valor mais alto que prendia todas as atenções, bem se sabe como é fácil a desgraça vista pelos ângulos retos de uma caixa, só nos reclama pena, comentário e nada mais. À custa de muito arrastar cadeiras e mesas, sem que ninguém deitasse a mão, peguei nela, coloquei-a na posição que me pareceu adequada, fiz-lhe o que tinha a fazer, incluindo as perguntas da praxe. Num fio de voz, murcha e pálida como a própria morte, ao fim de muito tempo e insistência a mulher disse-me que era dadora de sangue e talvez tivesse abusado na corrida que deu logo após a colheita.
Nada de grave, concluiu-se. Ela foi ganhando cor e ânimo, as filhas secaram as lágrimas, passou o susto. Um alívio para aqueles que olhavam de soslaio, com medo de serem pedidos reforços. Tratou-se de telefonar ao marido - igualmente belo -, e, mais coisa menos coisa que não vem ao caso, fomos todos à nossa vida. 
Porém, e é destes acasos que os puzzles se vão compondo, assim que saí da confeitaria, caiu uma chuvada dessas que tão generosamente aliviam os abafos do verão. Medonha, abundante, escura e sem tenção de parar. Quando alcancei o meu destino, toda eu era água escorrendo, roupa pingando, pele arrepiada, mas a minha figura era triste e desinteressante, pois calhou hoje não ter vestido roupa branca e ter o cabelo preso num rabo-de-cavalo. Como se não bastasse a desimportância de uma mulher tombada numa confeitaria, nada mais houve digno de registo ou imagem!
Believe it or not, sucedeu isto quarenta e oito horas depois de me terem desafiado - com algumas nuances - para o Ice Bucket. Considero-o espontaneamente cumprido, graças ao desmaio de uma dadora de sangue e com uma mãozinha da mãe natureza. E pensai duas vezes antes de me dizerem que a vítima não era esta, que era sobre outras que devia recair a nossa atenção e solidariedade, que me enganei na razão e no propósito, que um desmaio pouco vale, que isto não tem força nem dá vídeo que preste.
Pelas regras ditadas, era agora minha obrigação passar a outros este desafio. Mas (e perdoai-me o desdém por estas coisas da blogosfera) é aos meus filhos que o passo, pois é neles que aposto a minha pouca esperança na humanidade. Talvez aí resida a justificação para o nome - desconcertante e nada sexy - deste blogue.

(dando-se a bizarra coincidência de a mulher a quem hoje ajudei ser leitora deste blogue, que me perdoe a exposição destes factos)

5.9.14

Interiormente

Nasci em cidade pequena do interior. Lá, habituei-me às portas abertas, aos horizontes a trezentos e sessenta graus, a um céu que me empequena quando tenho a tentação de me arrogar e a um sossego tal que me obrigo a pensar, por falta do que fazer. O convívio com os bichos miúdos nem sempre me agrada, mas tolero-os porque o mesmo valem para a rotação da Terra a minha vida e a deles. Devagar chego a todo o lado num instante e por isso também me acostumei a não ter pressa. Só não me aproximo do cais. Evito assistir ao alarde e à urgência com que os turistas buscam motivos para se deslumbrar e à ternura superior com que escutam a fala cantada das rebuçadeiras e dos vendedores de chapéus.

3.9.14

Bandeiras

Tenho aprendido pouco da vida. Não por falta de tabefes ou de atenção às lições, mas porque em nada disto vejo ciência exata e a fórmula que ontem deu conta certa hoje pode resultar em incógnita. De uma coisa, porém, me vou lembrando: que certos apegos são inúteis. Que o "abrigo", o "porto seguro", a "estrutura", a "terra firme" são conceitos fantasiosos, esculturas da nossa debilidade. Que o melhor é manter a disposição para mudar de rumo. Que não há casa que não possa desmoronar-se, caminho que não possa desembocar em precipício, dinheiro que não arda, vida que não tombe em sepultura. Caminhe-se com bons companheiros e vistas amplas, mas não se presumam apropriações, moradas definitivas, territórios cercados, contratos vitalícios.
É tolice espetar bandeiras num mundo que não para de girar.

31.8.14

(Não é equívoco, porque tenho sempre comigo um dicionário aberto. É necessidade: uso, às vezes, palavras que não existem. Avisei uma vez, depois deixei-me disso, um asterisco é poeira suficiente para arranhar um texto. Queixai-vos apenas no dia em que não estiver claro o que pretendo dizer ou que a invenção seja menos exata do que o léxico autorizado.)

30.8.14

Trabalhos

Pergunta-me o meu filho porque é que, de uma vez por todas, não me meto a escrever um livro, coisa em grande e à séria. Aproveita-se das hesitações com que reajo e prossegue a sua lógica: se escrever é o meu valor e a minha alegria, que carga de água me faz adiar tanto? Encurralada, tento desromantizar o assunto. Digo-lhe que a coisa não é bem assim, exige trabalho, disponibilidade, recolhimento. Além disso, bem vê ele que quando pinta ou toca até uma mosca perturba, obrigando muitas vezes a começar do zero. Assegura-me que tratará de instalar o silêncio em casa, manter sob controlo os ânimos do irmão e os próprios, para que eu possa dedicar-me à tarefa. Não querendo complicar mais, jogo um último argumento: então e quem tomaria conta de vocês?
- Mãe, não parecendo, eu sei muito bem tomar conta de mim. Só não o faço porque dá muito trabalho.
Primeiro, a resposta soa-me cómica. Depois, vendo os seus olhos cheios de uma confrangedora seriedade, parece-me que ele fala por todos os homens do mundo. E que só o visceral amor e a tenra idade lhe permitem ser honesto e, pelo meu valor, arriscar o seu conforto.

29.8.14

Correntes

É traída que me vejo quando aqueles a quem abri uma janela me fecham a porta, pelo medo que a corrente de ar levante o que há de pó e papelada. 

28.8.14

*

Contudo, os poemas de amor não me comovem. Podem deslumbrar-me pela forma, pela escultura, pela música, pela síntese, mas raramente pela mensagem. O que me comove é a lealdade, que é terrena, inestética, não desespera por uma palavra nem precisa de se aliviar num verso. 

27.8.14

Esse amor

Ponho-me às vezes a pensar que talvez possa estar enganada e o amor seja, afinal, esse absurdo de que falam os poetas. O desassossego do sono, as arritmias do tempo, a intermitência da febre. Suor frio, prostração, espanto, urgência, desacato. Crença absoluta em mais um desses deuses que tudo prometem e nada cumprem, os seus olhos são cheios de misericórdia e as suas vestes são brilho magnético e os seus braços um acolhimento que nunca sossega, antes pede, cobra, manda ajoelhar para confissão e penitência. Em seu nome tudo é consentido. Acredita. Acredita, cego e mudo, e o paraíso que nos momentos de êxtase se vislumbra há de um dia ser real e eterno.
Se os poetas não dizem a verdade sobre o amor, quem haveria de a dizer?

25.8.14

Corpo

Mãe, todo o meu corpo te pertence, diz às vezes o mais novo, sem mote nem intenção. Com vocabulário escasso e dicção imperfeita, vai fazendo poesia à custa de inocências. Ofereço-lhe o colo, onde já só muito aninhado me cabe inteiro, e não rebato. Não há nada tão cruel como desdenhar de uma declaração de amor. E por esta, generosa e devotada, eu fecho os olhos ao equívoco e faço de conta que sim, que o seu corpo me pertence. Pertencendo-me, posso mantê-lo a salvo de venenos e vergastadas.

24.8.14

Como dizia o outro

Admiro a quantidade de citações de grandes autores que algumas pessoas têm na ponta da língua e a que recorrem para encorpar os seus discursos. De cor, sem consultar o que sublinhei a lápis, apenas sei uma frase do "Memorial do Convento". Mas é tão breve e simples que não vejo como possa endurecer ou revestir de intelectualidade as minhas opiniões. Se a digo, ninguém se espanta, porque não tem análise, definição, sentença, resposta. É elementar, como uma luz que se acende, e quem puder que aproveite para ver o que antes não queria ou não sabia. 
De resto, tenho medo que me aconteça como a uma jovem que conheci há muitos anos e não voltei a ver. Depois de um discurso aceso à volta de questões sociais e religiosas, tentou fechar com chave de ouro mas o que lhe saiu foi esta pérola: porque, como dizia Sócrates, esse grande filósofo, na natureza nada se modifica, tudo se transforma.

23.8.14

Desigualdades

São precisas muitas fraquezas para que uma força sobressaia. 
É pelo pânico de ser vulgar que, lá no fundo, ninguém quer a igualdade.

22.8.14

Chico

Ouço-o praticamente desde que nasci e sempre invejei o tanto que ele conta em pequeníssimas histórias e palavras simples. Não compõe sobre amores imensos e eternos, heróis, romantismos, superioridades ou luxos da vida e do coração. É antes sobre o corriqueiro, a dor que mói e não mata, a vida atrás das portas, as rugas sob a maquilhagem, os sonhos clandestinos, o lixo escondido, a obscena e belíssima consagração do amor. E gosto da ternura com que afaga e perdoa derrotados, azeiteiros, aleijões, infiéis, descrentes, parasitas, condenados, tristes de profunda e incurável tristeza. 
Que linda é a rotação da Terra quando o Chico a canta. 

21.8.14

*

Usa os sentidos para conhecer o mundo, a inteligência para o ver do avesso e a imaginação para o tornar melhor.