31.8.15

Estardalhaço*

Diz que às oito da manhã, em nome de Nossa Senhora do Socorro, foi disparada uma salva de morteiros tão à beirinha que até os ossos da casa estremeceram. Não ouvi nada. Porém, lembro-me de um leve ranger da madeira me ter despertado no meio da noite, àquela hora morta, trágica, de surdez, cegueira e abandono, em que os fantasmas se enrolam connosco nos lençóis e todas as coisas imaginadas desembocam no pavor da existência. Dei meia volta ao corpo e tornei a dormir. Ainda antes das seis, a alvorada estampou na minha cama um retângulo de luz mortiça, coada pelo vidro grosseiro do postigo, mas suficiente para me acender os olhos. De novo adormeci. Só voltei a acordar às nove, definitivamente, porque vieram pôr-me nas pálpebras desses beijos muito mansos, cheios de cuidados e pudor, que mal tocam o corpo mas convertem o espírito ao insuperável encanto da realidade. 
Que me perdoem a Nossa Senhora e os fiéis devotos do arraial, mas quanto maior o estardalhaço, mais eu me abandono ao enredo dos sonhos. É à custa de delicadezas, rumores e suspeitas que Deus me sacode e me abre os olhos.

* 16 de Agosto de 2015

28.8.15

O "arrumador"

- Já ninguém sabe escrever! 
Disse-me, esta manhã, o arrumador. Sacou do bolso uma página de jornal dobradinha em quatro e estendeu-a no capô do meu carro, alisando muito bem os vincos. Primeiro, fui tomada por uma arrogância provinciana, um elitismo de trazer por casa, e pensei não, isto eu não vou discutir com o arrumador. Saí do carro pronta a fazer ouvidos moucos e a dissuadi-lo com o argumento da pressa e de mil afazeres à minha espera. Mas já ele insistia:
- Isto é uma tristeza! 
É que pouco importa ao arrumador a disposição e a pose de quem chega. No meu caso, que não dou moeda, tem sempre fé nos dois ou três minutos de conversa a que costumo prestar-me. É franco, sem disfarce, o gozo que manifesta quando bato com a roda no passeio ou estaciono onde é sabido que por todo o dia o sol baterá sem filtro nem piedade. Também não tem pudor em fazer ironias com as senhoras que estacionam em segunda fila para ir ao salão arranjar as unhas. Disse-me que qualquer mulher devia saber tratar das suas mãos e que aquelas não mais fazem do que pagar para ter com quem conversar, pois toda a gente sabe que essa é a verdadeira serventia de um salão.
À página do jornal já aberta no capô do meu carro, acrescente-se os olhos dele muito agarrados aos meus e o jeito que não tenho para amanhar desculpas. Com tudo isto, bastou-me meio segundo para converter a arrogância em cumplicidade. E dei comigo a rir com uma maldadezinha inócua que é, no fundo, semelhante ao gozo dele quando eu bato com a roda no passeio:
- Ora mostre lá quem é que escreve mal.
- Leia isto!  - levantou a página do jornal com as duas mãos, como quem tira as medidas a um quadro antes de o pendurar.
Pensava eu ir encontrar um erro de palmatória, um vergonha gritante, e afinal era uma daquelas imprecisões com que só os puristas embirram. Quis dar o desconto, mas a falta de convicção pôs-me a gaguejar:
- Bom... talvez não seja propriamente um erro... vendo a frase no seu todo... quero dizer... e a palavra tem aspas.... ou seja...
Ele recuou e sorriu de lado como os garotos:
- Engane-me, que eu gosto! Só usa aspas quem não está para se dar ao trabalho de encontrar a palavra certa. Portanto, só usa aspas quem não sabe escrever. É ou não é? 
A voz cresceu, crescendo-lhe também o peito, insuflado de satisfação e certezas:
- É OU NÃO É?
Há dias em que o arrumador é a única pessoa a quem ouço dizer alguma coisa que valha. 

27.8.15

Um piadão

O senhor Pereira chegou de férias todo janota, com o riso muito escancarado e os modos airosos, despudorados, dos veraneantes. Encontrei-o ao fim da tarde, ainda mal estacionava o carro e já me fazia uma festa. Vinha muito satisfeito, umas férias de arromba num hotel mesmo em cima da praia, bem frequentado, bailarico todas as noites, aquilo era uma categoria e com cada carrão à porta que só visto!!! Uma noite até jantara mesmo ao lado de um grande empresário, cujo nome de momento lhe fugia, e vira-o lambuzar-se com uma travessa de amêijoas e um jarro de vinho branco, como qualquer cidadão vulgar.
-  Até chupou os dedos! Parece que é gente como nós....
-  Não, senhor Pereira, que eu não chupo os dedos...
- A menina está com um ar muito fresco. Olhe que ainda há dias me lembrei de si e até comentei com a minha mulher...
- Então?
- Com todo o respeito, mas a menina não pensa voltar a casar?
Lançou a pergunta de chofre, sem aquecimento. Valeu-me o facto de eu já estar habituada a ouvir estas banalidades, a urgência das pessoas é sempre em garantir dinheiro e cônjuge, o resto é secundário e abafa-se no travesseiro ou adia-se para uma próxima vida.
- Valha-me Deus, senhor Pereira! Eu sou pelas alegrias do amor e pela lealdade absoluta! Mas contrato de fidelização já me basta com a Vodafone.
- Eh, pá! Esses tipos das operadoras são uns chatos do caraças! 
- Ora, nem mais! E depois uma pessoa põe-se a deitar o olho à concorrência, a ver se a oferta é melhor... Mas não pode mudar e vai pagando, conformado, para todos os efeitos tem uma ligação que funciona...
- A menina tem cá um piadão! 
- Agosto é assim, só nos dá para o disparate.
- Mas a sério, menina... 
- A sério, a sério, senhor Pereira? Já tenho dois filhos, não quero outro.
O senhor Pereira empertigou-se, muito ofendido. Não era para menos. Ameninei o sorriso e o olhar, a ver se ele me desculpava o pontapé na dignidade masculina, mas era tarde demais.
- Fala assim porque é novinha. Um dia, essas modernices passam-lhe!
Porém, os factos, que por misteriosa ordem sucedem, acabam por dar razão a quem a tem sem ser preciso a gente cansar-se num debate estéril. A mulher dele apareceu à janela, atirou-me um caloroso cumprimento, perguntou-me pelos miúdos e depois, cheia de uma ternura automática:
- Miro, filho, anda para dentro, que já te pus a sopa na mesa.
Debruçou-se mais um pouco, os seios vazios esparramaram-se no parapeito, a voz saiu mais contida:
- E tens de tirar essa camisa que estás todo transpirado! 
Ao jeito de quem mostra bandeira branca, ele deu-me a habitual palmadinha na cara, sorrindo com muita cautela. E quando se despediu fez-me, pela primeira vez, a vénia que costuma fazer quando se cruza com qualquer senhora de batom vermelho-vivo e imitações de sangue azul. 
Um piadão, este senhor Pereira.

24.8.15

Horizontes

Agosto 2015

Cada uma em seu poleiro, eu debaixo do alpendre, ela toda oferecida aos ventos, mas o horizonte é o mesmo.

19.8.15

O mundo a girar

Os jornais deixaram de ser uma fonte de esclarecimento e passaram a ser um guia de orientação num mundo onde os que a eles têm acesso parecem ser quem anda mais perdido. Dicas, passos simples, conselhos úteis, regras, sugestões. De beleza, de lazer, de relacionamento, de alimentação, de chefia, de autoestima, de compras, de liberdade, de alegria, enfim, de vida. Os cronistas tentam intelectualizar esta feira onde o contrabando de emoções é modo de ganhar a vida, a ver se a coisa passa com alguma seriedade, mas também eles nos vão dizendo - com palavras difíceis e citações históricas - como devemos pensar.
Quanto às notícias propriamente ditas, vão oscilando entre o drama falsificado e a cosmética da heroicidade, um e outro de ordinária motivação política. Grandes descobertas científicas vêm em letra miúda. Já o género estudo mostra que crianças que comem bolachas integrais entre as dez e as onze da manhã têm mais 5% de probabilidade de virem a ser quadros superiores, vem em gordas. Assemelham-se os títulos entre os vários jornais, por vezes frases negligentemente isoladas do contexto, alhos encabeçando bugalhos. Já não importa ir ver quem assina a notícia, o estilo e a eloquência são virtudes de poucos. Faltando ideias, persiste o hábito dos trocadilhos com obras literárias. De quinze em quinze dias, lá vem uma "crónica de qualquer coisa anunciada", um "crime e um castigo", um "isto em tempos daquilo", uma "coisa do nosso descontentamento", "outra do desassossego".
A ortografia é, amiúde, desprezada e a sintaxe trapalhona. A semântica, o melhor é não ver à lupa.
Online, não há notícia, crónica, infografia, que não seja possível comentar e assim, atirando achas para fogueiras imaginárias, nos vamos fiando que a liberdade de expressão é tão garantida como o ar que respiramos. O circo fica a arder e dormimos melhor por cuidarmos que demos contributo. Porém, das cinzas nunca vemos erguer-se nada de novo.
Sobre tudo isto que digo e sinto - e que tem o valor nulo de qualquer subjetividade -, vejo exceções. Volta e meia, uma crónica que agita, para o bem ou para o mal, uma história contada por quem foi ver, ouvir e respirar o que diz, uma entrevista que guardo para ler, reler e mostrar a quem gosto. Mas, na maioria das vezes, acabo a rir quando passo os olhos por um jornal, seja qual for. E não devia, porque o mundo continua a girar sobre o eixo da tragédia.

13.8.15

Arqueiros

Tenho saudades de ver o mais velho nas copas das árvores, esculpindo arco e flechas com um canivetezinho. O rapaz da casa ao lado queria imitá-lo, mas não podia. Ao mínimo sinal de que se preparava para trepar, a mãe debruçava-se à janela, toda cheia de aflições: não faças isso, que não és capaz! E assustava-se ao ver que no cimo da árvore havia um arsenal pronto a usar em batalhas contra invasores que não tinham causa, forma ou feitio a não ser na imaginação. 
O meu filho era perfeito no trabalho, afinava a ponta das flechas até à delicadeza mortal. Contagiada pelo entusiasmo, fiz-lhe uma aljava. Em troca, ensinou-me a atirar. E enquanto eu ganhava habilidade e gosto, ele ia crescendo para longe. 


Let your bending in the archer's hand be for gladness;
For even as He loves the arrow that flies, so He loves also the bow that is stable.
Kahlil Gibran

12.8.15

Ler como amar (11)

Muitas vezes perguntam-me o que leio, qual o próximo que vou comprar, pedem-me sugestões, se um autor presta, se um livro vale o que se diz. Ora, o facto de ganhar a vida a compor umas frases não aumenta a importância da minha subjetividade. A relação que tenho com os livros não é técnica ou disciplinar, é puramente amorosa. Vou para a cama com eles e é tudo. Feliz de mim quando acontece lembrar para sempre as noites que me deram! Mas muitos há – por mais que lhes gabem os encantos – incapazes de me fazer estremecer um nervo, arrepiar um poro, interromper o sono. Esses, arrumo-os na estante e tento redimir-me da culpa que sinto, com as palavras que se aprende para evitar chatices: o problema não és tu, sou eu. Tédio. Frigidez. Impaciência com os que pedem espera, deixa-me pelo menos acabar de falar
Não sei nada de literatura. Sei apenas do que sinto quando acabo de ler uma frase e me cai o queixo e me dou conta de ter sido levada pela mão ou deitada por terra, com amorosas facilidades e miudinhos encantos, corre uma sinfonia, uma música de fundo, qualquer dor é perdoada e a verdade é outra coisa que eu não tinha visto antes, ah!, tão bem disfarçado o sofrimento vivido, o trabalho feito para conseguir tocar o leitor! 
Mas o que me toca a mim pode não tocar os outros e o que a outros toca pode a mim desafinar. Não posso sugerir livros àqueles de quem ignoro motivações, interesses, fantasmas e sensibilidades. Cada um sabe o que espera de um amante.

11.8.15

Próxima estação

À entrada da estação dos correios, os velhos partilham fragmentos, ideias vagas, confusões de memória. Lá dentro as luzes estão acesas, mas as portas ainda fechadas. Se diz que abre às nove, lá para as nove e dois, nove e três. É dia de virem buscar o que é seu, sempre menos do que seria justo e devido. O único descanso que compensará o quanto se trabalhou é o eterno, onde as contas já não se ajustam em moeda.
Dou os bons dias, pergunto quem é o último da fila. Uma das velhotas aponta-me com o queixo.
- Eu também era assim... fininha... Só não tinha esses cabelos, não mos deixavam usar. O meu pai dizia: cuidado, os cabelos de uma rapariga podem endoidecer um homem. Então prendia-os, em antes de sair de casa... Mas chegando à estação adonde era costume apanhar o comboio prá fábrica, tirava os ganchos. Eu era bem jeitosa. Depois casei, vieram os filhos, os trabalhos, enviuvei e dei nisto... - abre ligeiramente os braços, mostra o quanto ali se acumulou de gordura.
- Então! Foi como Deus quis! Vai agora lamentar-se, Mélinha? - outra velha, pequenita, bata de xadrez puída.
- Devia era de ter sido como eu queria...
- Qual quê! Olhe a Conceição: andou conforme lhe apeteceu, sem dar cavaco a ninguém, manias de independência e aos cinquenta está numa cadeira de rodas. 
- São azares, Lurdes.
- Parecem é castigos, Mélinha!
- Porque é que não desfaz agora o puxo? - é mais gozo do que estímulo o que vai embrulhado na sugestão do velhote.
- Homessa! Tenho setenta e quatro anos... não estou aqui pr'assustar ninguém.
Riem-se muito, mostram as falhas dos dentes, as pregas do rosto. Rio com eles, sei que assim querem porque me olham bem de frente e o que vejo não é vergonha nem pudor, antes um convite para aplaudirmos juntos a tragicomédia da vida.
- Agora vamos morrer assim, já não há volta a dar. - o velhote enfia as mãos nos bolsos, apruma as costas, é a resignação mal disfarçada de sabedoria. Que falta de originalidade, a do destino!
A porta abre-se. No balcão número um, a funcionária está pronta para aviar os pagamentos. A mim, atendem-me no balcão dois. Por enquanto.
E começa a vida numa estação de comboios para se apagar numa estação de correios.

10.8.15

Coitadas

Bem cedo a menina aprendeu a entortar os factos para conquistar as penas. Iniciou-a a mamã, que desbaratava o tempo vazando queixumes à porta do cabeleireiro. Coitadinha da minha menina, o pai não dá a pensão, eu o que ganho é poucochinho, que tristeza me dá olhar para ela, não lhe posso comprar o que ela gosta. Habituou-se a pequena a ver-se a si mesma à luz da piedade e desde logo percebeu como isso a fazia ganhar carinhos e ofertas, um saco de gomas no café, um livrinho cor-de-rosa na papelaria, um lencinho florido no pronto-a-vestir, a vista grossa dos mestres às cábulas que levava no pulso.
Fazendo-se adolescente, achou-se feia ao lado das outras. E porque da autocomiseração à inveja vai um passo curto e rápido, a sua cara desdobrou-se em duas, uma para envenenar, outra para se lamentar: Ninguém gosta de mim, sou feia... A mamã passava-lhe a mão na cabeça e repetia a ladainha coitada da minha filha, o pai não tem dito nada, este mês nem pude carregar-lhe o telemóvel... e entreolhavam-se com um amor piedoso, de enorme cumplicidade. Quem ouvisse engolia em seco e logo estendia a mão. 
Um dia a menina fez rebentar o escândalo: um garoto chamara-lhe cadela! Foi um Deus nos acuda, agitou-se a freguesia, exigindo punição severa para o insurrecto. Hoje chama-lhes cadelas, amanhã estará a enchê-las de porrada, um abusador da fragilidade alheia tinha de ser travado urgentemente, rai's parta!, terá de ser esta a sina das mulheres? De certo fez isso por sabê-la coitada, simples, sem saldo no telemóvel, o pai esquecido das obrigações mensais, a mãe inutilmente esforçada.
Foi por acaso que eu assisti. Quando a menina se queixou com um ar muito combalido – e então ele chamou-me cadela, foi horrível... – juro ter-lhe visto um sorriso perverso, desses que curvam para baixo e, em caso de emergência, rapidamente viram beicinho. Porém, tudo se esclareceu em menos que um ai, com o garoto inocentado e ela ainda mais coitada. Testemunhos reunidos, versões confrontadas, e afinal a ofensa tinha sido outra: não tens faro nenhum para estas coisas. Ora a menina juntara as peças numa lógica bacoca, literal, corrompida pelo hábito da vitimização, e o que entendeu destas palavras resultou na queixa que vos conto. Explicaram-lhe que aquilo era uma força de expressão, coisa benigna, nada com animais. No café do largo, onde a história em três tempos chegou, houve quem lhe falasse com alguma severidade: ó rapariga, valha-te Deus, tens de pôr essa cabeça a funcionar! E logo a mamã, dobrando as costas, amolecendo a voz: por favor, não lhe fale assim, tenha paciência, ela está dorida, ainda ontem o pai... A menina arregalou os olhos e novo motivo ganhou para se dar ao choro dos tristes, dos abandonados, dos que Deus persistentemente ignora: afinal também sou burra, sou tão burra, ninguém gosta de mim... E a mamã, ao cruzar-se comigo, coitadinha da minha menina, não sei se sabe, o pai não paga e eu não posso, eu não posso...

9.8.15

Julieta


Julieta, a minha orquídea de pose virginal e aristocrática, ponho-a à janela pela fresca, quando não há perigo de o sol a ferir. Vem namorá-la um gato preto, cheio de nove horas, bem se vê que tem orgulho na vadiagem e na destreza com que faz a caça aos pardalitos. Naturalmente, chamam-no os deveres da genética felina, há que honrar uma família cujos hábitos de liberdade, mistério e sedução alimentam mitos desde o início dos tempos. Mas Julieta é altiva e vertical. E excedendo-se ele em acrobacias, dá-lhe ela o troco em desdém. Quem pode dispensar até o sol, por que carga de água há de dar trela a um gato? Tem os olhos postos longe e talvez isso a condene a morrer só. Mas antes assim do que ter um vadio a mijar-lhe nas raízes e a arruinar-lhe a beleza.

7.8.15

O pixel

Foi preciso o país chegar a este estado em que tudo há de ser motivo de pena ou de chacota, para que os portugueses - perdão, as redes sociais - reparassem nos outdoors das campanhas eleitorais. Até há meia dúzia de anos, andávamos todos distraídos, tínhamos mais que com que nos entreter, dá-me a impressão que nem sabíamos que já então havia nas ruas desempregados, esfomeados e abandonados e que na política chafurdavam tantos aldrabões. 
O marketing eleitoral sempre foi uma paródia, uma ofensa à inteligência, uma brincadeira de luxo. Mas só agora temos ganas de exigir seriedade, avaliando tudo com rigor e paranoia, até ao pixel. Há de passar-nos. Passou sempre. Há novecentos anos que nos passa. É só começarem a regar-nos de novo as ilusões.

6.8.15

Raio de luz

O meu filho mais novo é insuportável. A sua virtude é a compaixão e com ela me acerta o passo quando dou mau uso às minhas dorzinhas quotidianas. Insuportável como a carícia numa pele inflamada, como a mão que detém o suicida, como um raio de luz inesperado, sobre uns olhos habituados à sombra.

5.8.15

Distúrbios mentais

Em pequena, eu comia com sacrifício, menos do que um passarinho, nem para a cova de um dente. A minha mãe, tolerante por vocação, não forçava mas também não perdia a esperança e vigiava-me durante o tempo em que eu ficasse a mirar o prato como a um inimigo, com o vómito iminente. O meu irmão mais velho fazia-me decorar as capitais do mundo e perguntava-mas, talvez fazendo fé que, por cada resposta certa, no embalo do entusiasmo, eu metesse à boca mais uma garfada sem dar por ela. Uma das minhas irmãs do meio apostava em curtas sessões de esclarecimento, detalhando-me os benefícios dos diversos alimentos, com destaque para as verduras, que eu renegava convictamente. Mas em tudo isto eu via mais mote de conversa do que razão para comer. Era a última a sair da mesa e o pouco que comia, comia já frio, seco e a desoras.
Meu pai nunca se ralou com isto. Bem me lembro de o ouvir dizer a quem, com enorme piedade, me tirava as medidas aos pulsos e aos tornozelos: prefiro que os meus filhos comam a menos do que a mais. Nunca foi um escravo de manuais, tendências e congressos, mais se guiava pelo instinto e pela observação. Porém, dias maus acontecem a todos e, num deles, recordo tão bem, foi-se-lhe o bom senso. O almoço era peixe cozido com batata, ovo e vagem, a minha mãe esmagara tudo e regara com azeite para que me deslizasse goela abaixo sem sacrifício. Mas nem assim. E enquanto eu não comia, tagarelava, dizia piadas, contava histórias, cuidando assim distrair a autoridade. De repente, o meu pai deixou cair os talheres, aprumou um dedo e, com modos que eu nunca lhe vira nem voltei a ver, tratando-me com distância na gramática e no tom, ameaçou:
- Coma imediatamente tudo o que tem no prato, senão interno-a num colégio de freiras!
Nunca me haviam dito nada tão terrível. O futuro aparentou-se negro na visão de clausura que, por ignorância, antecipei: namorados não havia de ter, vaidades também não, ser-me-iam proibidas as ondas compridas do cabelo, as pulseiras de missangas, o riso destrambelhado, a sensualidade, a graça terrena, e nenhuma das minhas histórias seria mais libertadora do que o ato de contrição na penumbra de uma cela. 
Foi em vão que procurei auxílio nos olhos da minha mãe. E com a solidariedade dos meus irmãos também não pude contar, pois que os vi, aos cinco, baixando a cabeça. Então, num desespero infantil, semelhante ao daqueles pesadelos em que queremos gritar e fugir mas estamos mudos e paralisados, excecionalmente comi tudo. 
Deem-me hoje um prato de peixe cozido com ovo, batata e vagens e estarão a dar-me o mundo. Aliás, deem-me tudo - menos fígado e cabrito - e tudo eu comerei com um prazer vagaroso e egoísta. Continuo a ser a última a sair da mesa, mas por outros, e bem diferentes, motivos. Volta e meia, o meu irmão ainda me pergunta a capital das Honduras (os anos que demorei a fixá-la!!!). E o meu pai, que se mantém à cabeceira, vai dizendo a miúdos e graúdos: não comas isso tudo... Uso pulseiras de missangas, vivem em liberdade as ondas do meu cabelo e tudo o resto também, graças a Deus.
Mas hoje, ao ler esta notícia, pus-me a pensar se a turbulência alimentar da minha infância, cheia de recusas e repugnâncias - ele era os nervos, as espinhas, a gordura, a textura, o cheiro, a ardência, a nata, o osso, o quente e o frio - não seria já o sintoma desta melancolia crónica de que padeço desde que me lembro. Depois ri-me e concluí que estas pessoas estudam demais e que isso, sim, pode andar a dar cabo da saúde mental de muita gente.

4.8.15

Salvai as criancinhas

A Mãe Preocupada também recebe, na sua caixa de e-mail, ideias para ocupar os filhos nas férias de Verão, partindo-se do pressuposto de que toda a criança, não estando a estudar, é uma inútil e poderá ter a perigosa tentação de imitar os papás e as mamãs no modo de se espraiar na chaise longue, sentar na esplanada a dedilhar no iCompanheiro ou experimentar fatos de banho a torto e a direito - sobretudo a torto. Não! As crianças não se assemelharão aos papás e às mamãs, por Deus!, queremos um país competitivo, desenvolvido, que não se desperdice em horas mortas, tentações, futilidades e facebooks! Também não permitiremos que aos pequenitos sobre tempo para a contemplação e para o pensamento, porque nos entristeceria muito vê-los de olhar perdido no horizonte. Vá, permitiremos, sim, mas sob orientação dos mais reputados mestres, pedagogos e autores de best-sellers e para isso pagaremos o que for preciso. Hão de conhecer a vaca, a galinha, o ovo, a couve e a batata, não os queremos ignorantes, gostamos que honrem a vida genuína e sacrificada dos avós, queremos que mexam na terra e na água, mas que seja em hora marcada, em grupo, em gritaria, com farda e transferência bancária. E a criatividade? Não os queremos criativos? Não é esse o dom que distinguirá os fracassados dos bem sucedidos, agora que um diploma vale menos que nada? Mas que sejam criativos num metro quadrado, emparelhados, que sejam criativos com o material que está nas estantes e de acordo com o tema proposto, ah, tão sujinhos de guache, que delícia! Cultos, também os queremos cultos, e de preferência em literatura, que é moda, graças a Deus que há as sessões de leitura, a sensibilização para o poder da palavra escrita enquanto pilar essencial da compreensão do mundo, da transmissão de valores e da relação com o Outro. Podem pegar nos livros à vontade, estarão já cuidadosamente distribuídos por faixas etárias, conforme o critério do PNL. Não haverá nenhum tarado precoce espreitando Eça antes do tempo ou excitando-se com uma Lolita qualquer. Estarão todos a salvo, no caminho do bom senso e da razão, equilibrados, informados. O risco será sempre calculado, serão aventureiros de capacete e joelheiras, exploradores de itinerário repisado, observadores com a mira já apontada, trepadores de árvores antes escolhidas. Jamais se sentirão sós, não conhecerão as inquietações do silêncio nem o labirinto da própria interioridade, cuja porta de entrada se escancara quando a vida está suspensa num milagre, numa ausência ou numa descoberta.
É tudo por amor. É por amor que os ocupamos tanto, que lhes damos tudo, que os integramos em exércitos desde cedo. Comovemo-nos com os lemas bonitos que exibem nas t-shirts, acreditamos que três ou quatro palavras fortes, estampadas do lado de fora do peito, garantem o entendimento e a prática do bem, a felicidade, a tão desejada harmonia com o mundo. 
Haja sempre, neste mundo, sugestões para ocupar os filhos. Havendo-as, podem faltar o tempo e o espaço, pode faltar a vida, o conflito, o encanto, a curiosidade, a surpresa, que sempre se arranjará solução. Ocupados, estarão protegidos do sofrimento, do fracasso e da verdade.

3.8.15

Absurdo

O centro de saúde tem uma enorme face envidraçada, a sudeste, e toda a manhã lhe bate o sol, alumiando a receção, as salas de espera, os corredores e a ala de enfermagem. Não fossem os motivos que para lá nos empurram, seria um gosto ali estar, até porque é o melhor lugar para ouvir as incríveis histórias que acontecem em dobro aos que não aparentam mais do que rotina e escravidão e em quem ninguém aposta um cêntimo no jogo da grandeza humana. Julgamos serem protagonistas dignos os aventureiros, os experimentadores, os estrategos, os talentosos, mas histórias a valer são as que nos desgraçam ou elevam sem aviso. Os heróis e os mártires nascem, quase sempre, do imprevisto. A parte mais vulgar da existência é a que resulta das escolhas.
Bate, portanto, a luz sem filtro na face sudeste do centro de saúde, na televisão o Goucha chafurda nas misérias humanas com a estridência que pedimos, e duas senhoras ao meu lado lamentam a má sorte de uma vizinha, que ficou viúva por estranho acidente, nem trinta anos feitos e um filho por desmamar.
- Diz que ele morreu quando estava em cima dela... percebe o que quero dizer? 
Tantas formas há de morrer, das que parecem um doce e rotineiro mergulho no sono, às que cortam, esventram, violam, descarnam e humilham por longas horas, passando pelas que fulminam, sem tempo para despedidas. Se umas apaziguam, outras parecem castigo ou parto difícil para a vida seguinte e as últimas têm o cheiro da traição, faca espetada nas costas com os cumprimentos e a ironia do destino. A deste rapaz (uma das senhoras não disfarça uma espécie de gozo que eu compreendo e também sinto) parece ter sido com entrada direta pela porta do paraíso. Há gente a quem a tragédia dá, pelo menos, alguma dose de romantismo. O teu pai morreu no cúmulo do amor, dirá um dia a rapariga ao filho, quando ele largar a mama e pedir as explicações necessárias ao entendimento do mundo que lhe coube. E no orgulho talvez achem forma de acomodar o desgosto.
O absurdo disto é que a minha intenção não era falar de mortes românticas, nem de morte alguma. O que eu queria dizer é que, logo às primeiras horas a manhã, quando o sol estoura na face virada a sudeste, rebrilhando nos inoxes, nos alumínios, nos vidros espelhados, nos mosaicos, clareando os olhos e dourando os cabelos das funcionárias, ofuscando os écrans, o centro de saúde tem as luzes elétricas todas acesas. Para pagar a fatura do desperdício, terá de se cortar em compressas ou analgesias e depois ir chorar a escassez nas páginas dos jornais, mas poucas coisas há neste país tão velhas como a gestão negligente e, por a conhecermos já tão bem, acabamos todos coniventes, acomodados, dispostos a uma dessas mortes que chegam com a sonolência, ou com a humilhação prolongada ou ao jeito de uma facada nas costas. Sem romantismo nem orgulho.

(E assim forcei a volta à história para que, pelo menos, dê em círculo, ainda que muito mal amanhado. Peço desculpa, mas se as coisas reais acontecem imperfeitas e atropeladas, os pensamentos idem e, por consequência, também a narrativa)

2.8.15

Domingo de manhã

À hora a que a missa termina, esvazia-se a igreja e enche-se a pastelaria. Cinquenta metros vão da penitência à abundância. São famílias inteiras, elas de rendas, dourados e tacões impossíveis, eles de barba feita, exibindo tatuagens e carteiras de pele, a canalha num bulício que só visto, de amarras soltas, laçarotes desfeitos, longe dos olhos vigilantes do Senhor, que castigará no Céu o quanto em Terra se pecou. Os velhos cheiram a laca e naftalina, falam com brandura aos netos, ainda sob o efeito da paciência que Deus lhes deu. Em menos que um ai, a fila agiganta-se. À mesma hora chego eu, porque não quero outro pão senão o dali, que estala e cheira a fresco pelo dia inteiro. Venho, porém, de outras bandas, as minhas orações de domingo são entre a natureza, onde o coro é de pássaros, a vida sucede transparente, o céu está a descoberto e o entendimento é o melhor caminho para o perdão e a graça. A minha fé não cabe dentro de uma igreja. 
Acho-me, então, entre a fila da pastelaria, que já sai porta fora e desenha uma curva generosa. Os funcionários não têm mãos a medir. Aviam-se caixas e caixas de brigadeiros, caramujos, jesuítas, mil folhas, bolas de berlim, pastéis de nata, biscoito húngaro, areias, amanteigados, torcidos, já agora dois pudins, um bolo de chocolate, um pão-de-ló, meia dúzia de croissants, a caixa regista às dezenas de euros por cada cliente, só em doçaria, e cai-me o queixo de ver que não se esgota nem a gula nem o dinheiro, é o milagre da multiplicação à vista de crentes e descrentes. Parece que a pastelaria recompensa quem de joelhos se confessa e arrepende. Golpe de génio, instalar-se mesmo ao lado da igreja e ter o forno quente ao domingo de manhã.
Peço o meu pão, sessenta cêntimos, abandono a fila. O mais novo sugere-me farinha de pau para o almoço. Só com tomate e couve cortadinha, mãe... E comemos então como pobres, sem carne nem peixe, rapamos o tacho, as maçãs vermelhas sabem melhor com casca e um quadradinho de Milka Oreo é quanto basta para mimar a boca. Mas não há moral alguma nisto. Apenas preguiça, que também eu tenho direito a pecar. No próximo domingo, pela manhã, estarei no sítio do costume para me redimir.

1.8.15

Criançada

Gosto muito da companhia das crianças, quando os pais não estão por perto. 
E não me incomoda que digam igual das minhas, pois não espero que se tornem grandes debaixo da minha asa e menos ainda ao abrigo da minha moral.

31.7.15

Os homens das mudanças

É desconcertante a forma como os homens das funerárias transportam o caixão com o morto lá dentro. Suam, gemem, atenção aos vértices, olh'aí desse lado, pega d'acolá, descai ligeiramente, como está a Lurdes? melhorzinha, ainda tenho de passar lá antes do almoço, não se pode com este sol, chega aí as flores, precisa de uma declaração? Pés na terra, gravata e fatura, os meus sentimentos com a mesma frequência e profundidade com que eu digo o produto é interessante. Não se condene o que são ossos do ofício e, neste caso, literalmente. Para sentimentalismos já basta Deus, que dá o ombro, a ilusão e a eternidade e vamos crendo que com essa infinita bondade recebe os que partem e consola os que ficam.
Segue, assim, o caixão passando a gente do lado da vida para o lado da morte com movimentos tão rotineiros como os das mudanças de casa. E de que outra forma haveria de ser se, afinal, de outra coisa não se trata? Deus é, no fundo, um exagerado.

14.7.15

*

Todo o ser humano é forte quando não tem alternativa. 
É na escolha que podemos fraquejar. 

6.7.15

A reboque

O mais velho estudou demasiadas horas por causa da Grécia. Avesso que é aos marranços, sofreu para enfiar na cabeça toda a terminologia da democracia ateniense e seu paradoxal sistema hierárquico, mais a economia, as questões comerciais, o dracma, o porto do Pireu, a educação dos meninos e das meninas, a Liga de Delos, o teatro, a literatura, a arquitetura, a escultura, a pintura, a religião com todos os seus deuses, dotes e poderes. Só a imagem do Discóbolo, coisa de encher uma página, lhe deu algum descanso e nela ficou por mais de meia hora, tirando medidas e motivos de assombro.
A escola obriga a decorar porque sabe que esse é o caminho mais rápido para o esquecimento ideal. E, com efeito, vencida a prova, tudo se fez fumaça. Uma coisa, porém, ficou a salvo na memória dele e tornou-se a sua máxima, a citação preferida, o argumento que desenterra por dá cá aquela palha e a propósito do que vier à baila: tudo o que é útil deve ser belo.
Como sabe quem me conhece, não é raro o meu cérebro andar a reboque do dos meus filhos.

30.6.15

As mortes do amor

Se um amor tiver mesmo de morrer, ao menos que morra em dor e sacrifício, naufragado por excesso de ousadia, trespassado por excesso de combate, crucificado por excesso de fé. Que morra engasgado com a espuma de raivas pela inútil travessia das montanhas, pela resistência vã a monstros de sete cabeças e ditadores fardados. Que morra ferido de traição ou de abandono. Que o último suspiro o edifique. E que a memória seja para com ele misericordiosa e o preserve à superfície da pele, ferida aberta, carne viva, sangue quente.
Não há nada mais triste do que um amor que morre de morte natural, limpo, branco, sossegadinho, com os olhos vadiando longe. Dele não se fará verso, cruz ou epopeia. Terá um epitáfio insosso. Recordar-te-ei sempre com amizade. Sem préstimo para a tragicomédia da vida, não será contado aos netos como se fosse a história de outrem.

29.6.15

Estrela-do-mar

O senhor Pereira mantém o hábito de me cumprimentar com uma palmadinha na cara, tal qual faria às filhas se elas não estivessem há mais de cinco anos de costas voltadas. Acha-me uma catraia, sem preocupações ou responsabilidades. Os filhos que tenho são coisas naturais da vida, trabalho ainda bem que não me falta, a casa para gerir... quantos gostariam de a ter?, e um automóvel não é encargo, é privilégio. De resto, sou jovem e é o que lhe basta para menosprezar tudo o que eu diga em defesa dos meus cansaços. Para o senhor Pereira, o melhor da juventude é a capacidade de regeneração. Que mal me pode fazer a vida se sou como uma estrela-do-mar, nunca envelheço e, por cada braço perdido, crio outro, novo, são, pleno? Enquanto isso, ele remenda-se com nostalgia e devaneios. 
Digo-lhe sim a tudo. É verdade, senhor Pereira, tem toda a razão. Digo sempre sim quando não me apetece conversar. Desinteressa-me a filosofia de vida do senhor Pereira. O que eu gosto nele continua a ser o desatino em que certas mulheres o deixam, mais vivo do que no dia em que fecundou, revertendo a decomposição do corpo, moderando a importância do casamento sólido, betonado, que construiu. É um homem bondoso, de uma simpatia luminosa e com modos que já não se vê por aí. Porém - diria a minha avó solteira se fosse viva -, não deixa de ser um homem.

26.6.15

A paz de Cristo

Alice beijou Verónica assim que o padre deu o mote: saudemo-nos na paz de Cristo. Voltou-se para trás e, muito torcida, esticadinha até à iminência de um tombo, com as linhas do rosto franzidas, de modo a que vissem bem a sua disposição ao sacrifício, beijou-a. Foi um momento muito bonito, pleno da compaixão e da boa vontade com que os homens procuram assemelhar-se à imagem de Deus. Durante o beijo, Alice pousou até a mão no ombro de Verónica e enrolou os dedos nos cabelos dela, como as mães fazem às filhas por tudo e por nada, só por umas serem mães e outras serem filhas. O beijo acendeu em Verónica uma esperança feliz. Confiou que ali, debaixo dos olhos infinitos de Nosso Senhor, Alice se desarmava para sempre dos ódios que acumulara. Finalmente a paz! Acabando a cerimónia, haviam de juntar todas as desavenças numa história passada, de que pudessem ainda rir-se muito, harmonizadas à volta da mesma mesa, dividindo pão e vinho. 
Milagre, talvez, ou luz divina esclarecendo por fim o coração sombrio de Alice, porque nem meia hora antes, no adro da igreja, entre a confusão do ajuntamento e o repicar dos sinos, Verónica ficara com o rosto suspenso no vazio, aguardando o beijo do cumprimento que a outra lhe negara sem disfarce. E, com tantos santos, devotos, familiares e vizinhos como testemunhas indiferentes daquela humilhação, dispusera-se a aceitar o que há muito tempo era evidente: inimigas.
Mas quem não ficou para as ver meia hora depois, também não sabe que, pé posto fora da casa do Senhor, Alice lhe negou também a despedida. Não mais se voltou ou torceu. Muito aprumada, superior, tão próxima dos céus, foi-se, maldizendo entredentes aquela rapariga com coração de anjo e corpo do demo, que dormia com o seu único filho homem, deixando-o a sonhar durante o dia, fervendo de paixão, esquecido das supremas e insubstituíveis delícias do colo materno. Como em certos filmes e novelas que julgamos serem mais delírio da imaginação do que memória da realidade, marcharam atrás de Alice dois irmãos, uma irmã, duas cunhadas, três filhas com os maridos atrelados e ainda cinco netinhos de veludo azul, todos certos no passo e exemplares na reverência.
Ele, o único filho homem, ainda vacilou, tão enfraquecido de pernas como de convicções. Depois chegou-se a Verónica e, de raspão, ao ouvido, tenho de ir. Foi mesmo. 

(obrigada*)

22.6.15

Janelas

Douro. Junho 2015
Ao entrar, o meu pai protesta: não se abre as janelas quando o calor chega a este ponto. Sabemos que ele tem razão, estão trinta e oito graus, o xisto arde nas paredes da casa, o pó da terra anda solto pelo ar, comicha nas narinas, todo o vale é o inferno que sabemos de cor, mas compensa-nos largamente sentir o cheiro puro das raízes, da folha e do fruto. Não se ouve um automóvel. Nem um passo na estrada. Os pássaros e os cães emudeceram. O mundo está temporariamente morto, reviverá quando o céu se estrelar e então há de haver bailarico perto do rio, com purpurinas, brasileiradas e raios laser. Bebo limonada compulsivamente, mas, faltando-me a coragem para ir colhendo os limões de que preciso para me satisfazer, mando o mais novo, que a canalha suporta tudo, encharcam-se de suor e poeira com uma felicidade invejável. Também eu, menina, punha um chapéu de aba larga, enfiava uma cesta no braço e ia aos figos, sob o comando do meu pai e indiferente à secura infernal dos primeiros dias de setembro. Mas agora que cresci vejo que não herdei desta gente a tenacidade nem a resistência às agruras do clima. Tenho os caprichos de quem se habituou aos ares condicionados e beneficiou das brisas marinhas. Mais de trinta graus e parece que o sangue me adormece nas veias. Passando dos trinta e cinco, falha-me o raciocínio e o verbo. Não tenho forças para virar a página de um livro. Adio tudo, que a urgência é um conceito muito vago. O que decidirem está bem para mim. Mas que não se feche as janelas. 

11.6.15

O que vale o amor

A rapariga da papelaria anda estranha. Dá-se agora a uma tristeza fininha, silenciosa, imprópria para os vinte e poucos anos que lhe dou. Quando levanta o braço para tirar os cromos do topo da estante, parece que lhe pesam mil vidas, desgostos e injustiças. Sorri muito brevemente e dobram-se os cantos da boca numa curvinha de melancolia. O olhar não é de infelicidade, mas de coisa pior, mortal: de descrença na felicidade. 
O que mói a rapariga é o amor. O amor intenso, verdadeiro, eterno, em que não há modo de bater de frente e o pior é que a idade só avança... Sonha com um marido preparando o jantar enquanto ela dá banho aos filhos, beijam-se no entremeio das tarefas domésticas, fazem amor com a tranquilidade dos que não devem nem temem, confessam-se tudo sem pudor, educam as crianças para os modos exemplares, envelhecerão de mãos dadas e, quando morrer um, irá o outro atrás, sem razão para ficar. Mas esse marido tarda e ela está cansada de descartar rapazes sem tino ou de ser descartada pelos que comem e não gostam.
Não compreende a falta de sorte porque feia não é, sensibilidade tem a mais, em inteligência não brilha mas cumpre. Tem amigas estúpidas, de ancas largas, fracas de gosto para vestir, sem conversa de jeito e está farta de as ver subir ao altar. Chora sempre nos casamentos, chora dessa imensa alegria que não lhe acontece. A mãe tenta sossegá-la com frases feitas, antes só que mal acompanhada, mas isso não aquieta um coração que nunca foi beijado por dentro. 
Há uma velha, dessas que se dão ares de possuir saberes e experiências inconfessáveis, que tem pena dela e lhe dispensa uma dica por cada revista que compra. Ouviu falar num rapaz, vive ali perto, solteirinho da silva, dizem que é ajuizado, não bebe, não fuma, tem maneiras e nem sequer vai a discotecas
- Esse é que era homem para ti, filhinha!
A rapariga faz a conta, dá-me o troco e suspira à velha:
- Era bom... mas eu já não acredito.
Ninguém acredita. Mas alguém tem de dizer a esta rapariga que, em todo o caso, isto não são coisas para se acreditar, o amor não vale a tolice desses sonhos cor-de-rosa, nem as lágrimas por ele choradas, não vale o parto sofrido de um verso, não vale o banquete, o véu, os convidados, muito menos as promessas desonestas que em nome dele se fazem. O que o amor vale é a estranheza de estar, continuamente, entre as palavras mais procuradas do dia no Priberam, dicionário online de língua portuguesa.

A área do quadrado

Gostava muito de assistir à conferência "Os Matemáticos Secretos", que, a fazer fé na imprensa, está a decorrer na Casa da Música. Não domino, mas sou fascinada pela matemática enquanto forma de representação de toda a realidade, equilíbrio de forças, organização harmoniosa do universo. Desentendo, porém, o que faz o Crato aqui no meio. Sabendo-o obcecado com resultados imediatos, pergunto-me o que lhe importará uma matemática que divaga em busca do sentido de tudo isto e que ainda ousa dar as mãos à expressão artística, coisa que ele desdenha e tem vindo a matar com pauladas cegas e violentas. É um homem que calcula muito bem a área do quadrado, não estou a vê-lo interessado em limites que tendem para infinito.

8.6.15

*

Aquele que dá demasiadas garantias sobre o próprio caráter está condenado a desiludir.

4.6.15

Vigilância

Tenho uma adoração muito infantil pelo senhor Casimiro, que é o porteiro da escola do mais novo, mas não o invejaria nem que lhe pagassem com o ouro que merece. Conforta-me o tom de voz moderado e doce que ele tem, raro nestas funções de vigilância. Mas o que mais me espanta é, ao toque de saída, a sua transfiguração imediata, ao jeito de um reflexo condicionado e com os aspetos de um desses filmes cheios de efeitos especiais, em que num segundo o anjo ganha feições do demo ou o contrário. Dele parece apossar-se uma nova identidade, fascinante, admirável, que é mistura de felino, autómato, estátua de pedra, deus-pai-todo-poderoso. É um olho gigante, suspeito que veja com todas as partes do corpo pois ainda há dias testemunhei como, enquanto esticou o pescoço para vigiar o propósito de um aluno que atravessava o portão sem freio, abriu um braço na direção oposta para separar outros dois que se engalfinhavam nas suas costas. Quase ao mesmo tempo, muito sério, de feição petrificada, olhos loucos de atenção, avisou-me:
- Já aí está o seu menino. 
Estava, com efeito. A um passo, muito afogueado, à espera que eu o notasse, rindo baixinho de me ver tão distraída a venerar o senhor Casimiro. 
As escolas públicas são pobrezinhas, não há orçamento para sistemas eletrónicos, chips, pulseiras, videovigilância e outros aparelhos próprios das cadeias. Para assegurar que todas as crianças são entregues nas devidas mãos, o senhor Casimiro tem na memória o rosto da mãe, do pai, da avó, do avô, da ama, talvez ainda de uma tia ou prima, de todos os que estão autorizados a vir buscar cada um dos duzentos alunos. Eles saem em magotes, encavalitados, ensarilhados, pegados ou namorados, em doida correria, braços no ar, bolas nos pés, pastas no chão, e ele filtra-os apenas com o olhar, conferindo, em simultâneo, cada um dos adultos que os levam. Ninguém se há de perder ou ir parar às mãos do traficante de rins, do pedófilo, do pai que estava desaparecido e veio buscar o filho à socapa para o levar do país. O senhor Casimiro sabe que se uma criança passar levianamente o portão, o seu posto de trabalho fica em risco. Qualquer mamã extremosa solicitará, por escrito, o rigoroso apuramento das responsabilidades. Basta que o filho apareça com um joelho arranhado, alegando que caiu no passeio. Qual passeio? O da rua. Qual rua? A rua da escola. Que estavas a fazer na rua da escola sem eu ter chegado? Fui saindo para te esperar. E o senhor Casimiro deixou? Não viu. Como não viu? Fintei-o, saí nas costas dele. 
Porque alguém tem de ser castigado - e não será o menino - o senhor Casimiro ficará com a vida em suspenso, ignorando se haverá renovação do contrato. E duvido que seja tratado conforme trata ele a miudagem: com um cuidado sobre-humano e infalível, pesando causas e consequências, prevenindo incidentes. 
Para além disto, o senhor Casimiro é responsável por esvaziar todos os caixotes do lixo, separar o reciclável e depois arrastar os sacos até ao ecoponto mais próximo. Enquanto vai e vem, tem de deixar o portão fechado a sete chaves. Tilintam-lhe nos bolsos, em molhos devidamente identificados: as do portão a nascente, as do portão a sul, as do portão da horta, as do portão do campo desportivo, as do portão que dá para a zona principal ou que, indo em sentido contrário, dá para zona de trás.
A mim pagam-me para escrever mentiras inofensivas e vazar as ideias estapafúrdias que nos tempos mortos me ocorrem. Ainda gozo quando as vejo passar na televisão, sentada no sofá, de papo para o ar, pezinhos descalços e contrato sem termo. E quem se encarrega do lixo é o mais velho, porque eu tenho uma sensibilidade caprichosa, aristocrática, aos maus odores. 
Às vezes, a minha existência parece tão fácil que me dá pena.

29.5.15

Mais um

Escrever é-me uma felicidade tortuosa, já o devo ter dito - e quantas vezes? Como esses amores febris, de compulsão, em que se arranca às vísceras tudo o que se dá, para a seguir tombar e, sem ânimo nem retorno, concluir que foi apenas mais um.

23.5.15

Na rua

Só hoje reparei nesta frase, escrita num dos painéis do grande mural de arte urbana da Lionesa: o amor é a mais bela de todas as coisas palpáveis.
(algures a meio, entre outros gritos e subversões)