5.12.20

O blog da Raquel Varela foi das melhores coisas que encontrei neste ano de dois mil e vinte. Vénia. 
(escusa de lá ir quem não tenha tempo nem dúvidas)

28.11.20

Sempre que o mais velho se põe a ouvir pagode brasileiro, sei que a felicidade anda a rondá-lo de maneiras femininas e urgentes. O que mais quero é te dar um beijo / e o seu corpo acariciar / você bem sabe que eu te desejo / está escrito no meu olhar. O mais novo, que ainda não reconhece ao amor a benfazeja competência de embriagar a carne e vive descansado com versões platónicas, de casta doçura e pressa nenhuma, franze a testa à cantoria. Há uma idade em que as crianças ficam parecidas com velhos moralistas: a sensualidade desconforta-as, suspeitam dela como de uma conspiração. E quando nesta forma tosca e dura se vai convertendo a inocência, é porque está perto de caducar.

25.11.20

À porta do salão, a cabeleireira dá conta da sua existência com o espalhafato habitual. É a pausa para o cigarro e, nesta hora, não há quem passe e se livre de lhe ouvir um comentário, uma simpatia, uma festa, uma pergunta indiscreta, uma receita, um aviso ou, nos dias maus, até uma ou outra cobrança. Enfim, é humana, mas escusava de ser tão chata. Hoje escapo-lhe porque se entretém demais com o Marco do ginásio, estranho que um rapaz com tanta classe ainda não tenha ninguém. Por cortesia ele sorri, a timidez dá-lhe um ar garoto mas esforça-se por embarcar na conversa sem perder dignidade: estou à espera da pessoa certa. Na boca fumegante da cabeleireira rebenta uma dessas gargalhadas com que as pessoas maduras costumam ridicularizar a ternura e o desejo dos inocentes. A possante musculatura não salva o Marco da vergonha, mas logo a cabeleireira, a remediar o mal ou, quem sabe, a fazê-lo pior, pousa-lhe no ombro a mão com artísticas terminações em gel: vou-te dar um conselho, meu querido, e aprende hoje que eu posso estar morta amanhã. Oh, azar o meu, que já não ouço e dobro a esquina a pensar como admiro, mas nem por sombras invejo, estas pessoas como a cabeleireira, sempre muito vivas, todas envoltas em lantejoulas, agitando bandarilhas e chocalhos, dando sem cansaço à manivela da caixa de música, estourando foguetes por tudo e por nada. Gabo-lhes ainda a criatividade, a arte de impingirem carapau ao preço do robalo, chavões ao estilo de filosofia e cambalhotas de bobo como acrobacias de risco.

22.11.20

Desde Junho que me arranjo para ir ao cinema ou a qualquer sala de espetáculos como para uma festa. Se for jantar fora nem se fala. Creio que a solenidade é imposta pela sensação de que a qualquer momento esses prazeres podem ser-me vedados ou tornarem-se tão raros e difíceis que eu própria desista deles. Lembro-me de antigamente zombar daqueles que nas tardes de domingo vinham de longe trajados a rigor só para uma voltinha na marginal da cidade ou no shopping, eles de fato e gravata, elas de dourados e saltos muito altos, as crianças com as roupas da comunhão. E de me parecerem absurdos, excessivos, os vestidos e a maquilhagem que a minha avó usava quando ia votar. Envergonho-me de não ter compreendido que, em ambos os casos, de alguma forma o caminho para aquele benefício era ou tinha sido longo e custoso. Cerimónia era o mínimo que a ocasião merecia.

20.11.20

Para me distrair da longa espera, o mais novo conta, com os detalhes, as reviravoltas e o suspense dos bons narradores, de como Édipo precipitou o seu destino, julgando na verdade opor-se-lhe. Presto muita atenção, a fingir que desconheço a história. Sentadas a três metros bem medidos, uma mulher e a filha adolescente pousam os telemóveis para ouvir também e a outra mais ao lado, que tem um bebé ao colo, nem nota que o embala com a cadência da narrativa. Que riqueza de catraio, diz a mulher, e eu ponho os braços à volta dele, beijo-lhe os cabelos de oiro velho, a testa, o ninho doce que tem entre os olhos. É meu, não se vê que é igualzinho a mim? A adolescente franze a testa na hora em que Édipo mata o próprio pai, a mãe simula um arrepio. Como é possível que as voltas da vida levem a equívocos tamanhos? O mais novo explica tudo com notas de margem e rodapé e eu gosto de o ver consolado, certo de que pode aliviar-me qualquer angústia contando uma história, por mais gasta e trágica que seja. 

19.11.20

A dignidade da viúva é indestrutível. Ninguém pode apontar-lhe má intenção ou maledicência. Nunca foi vista a vender-se ou a dobrar-se, menos ainda a ser pisada. Não consta que tenha agredido, roubado ou ofendido. É imune à tentação do cochicho, evita as horas de ponta no pão quente, ri de si mesma quando o vento lhe desarruma a minissaia. Claro que pode haver quem veja defeito gravíssimo na sua excentricidade ou no gozo evidente que tem em olear a libido da vizinhança adormecida, mas isso, enfim, é a esmola que ela dá ao falatório de vão de escada, que com pouco sobrevive.
Por mais que sonhe ou imite, a mulher do senhor Pereira jamais poderá igualá-la. O alarde que faz das suas vantagens e virtudes é demasiado para fazer crer que tem uma consciência sólida. Porém, se entre ambas se travasse uma batalha pela simpatia do mundo, ganharia. A gente dá sempre a vitória àqueles que não inveja. Ao pobre, ao aleijão, ao enlutado, à mulher estúpida que deu todos os seus valores à troca por um casamento e acabou traída, cedemos de boa vontade o elogio e o pedestal sem nos roermos. E até dormimos melhor.

17.11.20

O meu vizinho comprou um SUV castanho dourado, igual ao da viúva, e estaciona-o com uma destreza performática ao lado da minha carroça. Antes de abrir a porta e sair olha-me daquela sua nova elevação, sabe-se lá com que sacrifício ou crédito atingida, e faz uma vénia ligeira. Reconheço-lhe a boa figura, embora note o quanto ensaia para se ajustar, receando descoser-se e deixar às escancaras um avesso indigno de conduzir tal máquina. Ah, um homem pode ser dono de defeitos vários, mais ou menos censurados, mais ou menos consentidos, mas ninguém lhe aponte desleixo na compostura ao volante do automóvel que merece.
Já em casa, a salvo do meu olhar desconfiado mas não dos meus ouvidos, tenta impor disciplina ao diabrete que concebeu mas sobre o qual não tem qualquer autoridade. Descontrolado e inútil, tão oposto à figura exibida na garagem! Vou contar até três para te calares. Um.... estou a avisar... dois... vou-te pôr esse rabo a arder... três! Mas o diabrete já sabe que o pai é cão que ladra sem morder e a ameaça dá-lhe ainda mais fôlego para o berreiro. A mulher, alertando para o óbvio: tu não vês que o teu filho nem sequer acredita em ti? 
Além do SUV castanho dourado, não há nada que o meu vizinho saiba conduzir.

14.11.20

Depois de mortas, as pessoas tornam-se demasiado perfeitas para algum dia terem sido reais. Ou não fossem a ausência e a distância as linhas com que se cosem as mais rebuscadas fantasias. 

11.11.20

Vou sabendo do que se conta e pouco mais: a imperatriz vai embora para apoiar a mãe, que murcha em solidão lá nas encorrilhas do monte. O seu colo desdobrar-se-á em dois. É hora de retribuir a vida que amorosamente lhe foi dada mas sem descurar a que ela própria pôs no mundo e por isso vai de armas e bagagens. A causa é nobre e foi certamente ponderada à custa de más noites, com prós e contras bem medidos nas voltas do lençol. Para impedir que o neto seja criado onde judas perdeu as botas, o senhor Pereira confia que o vírus jogará a seu favor. Esta pandemia ainda vai piorar muito e não pode desertar à toa quem mais falta faz nos hospitais daqui. Tantas regras e proibições para todos e iam autorizar uma enfermeira, numa hora destas, a transferir-se para a província? Era o que faltava! Se não há um pai ou um marido, ao menos o governo há de pôr freio nesta rapariga.

9.11.20

Fiz uma chávena de chocolate quente, espesso, temperado com gengibre e canela, e aninhei-me a ver mais um episódio de "Gambito de Dama", mas apesar do consolo na alma não houve conserto no mundo. É magnífico - e invejável - haver quem seja capaz de salvar o seu dia com um gole de chá, uma manta, um livro, um filme ou o mais que faça esquecer da parte e da culpa que temos no resto.

4.11.20

Pequena é a ambição dos pais que dizem aos seus filhos um dia vais dar-me razão. Em certos casos, chega a ser mau agoiro. 

3.11.20

Durante o confinamento, naquele março que vai tão longe, uma das coisas que mais me assustou foi ver quanta gente havia satisfeita com o silêncio do mundo e elaborava tratados românticos, doces, quase felizes, sobre a clausura. Cheguei a ouvir a alguém dizer que sonhara a vida toda com um momento assim. Tive mais medo destas pessoas, todas juntas, do que de cada reajustamento que o governo fazia às medidas aplicadas. Incapazes de ver para lá do seu conforto domiciliário, da sua despensa farta, do seu aqui e agora, mostraram como a voz do egoísmo, além de sentimentaloide, consegue ser despudorada. Redimiam-se picando o ponto na varandas para cantar loas ao pessoal dos hospitais ou apiedando-se dos velhinhos, que precisavam de tudo - e de tanto! - menos de piedade. 
Com o tempo fui notando que a generalidade dessas pessoas que faziam o elogio do isolamento enquanto brincavam ao neolítico amassando pão e congratulando-se com a descoberta de aromas florais e passarinhos, não tinham filhos ou os tinham já graúdos e dispersos. Por isso se marimbavam para o abalo do mais nobre e estrutural dos pilares de uma sociedade que se quer próspera: a educação. Também intuí que boa parte delas teria laços frouxos com a família, que os seus amigos seriam habitualmente ausentes ou mesmo inexistentes e talvez tirassem consolo de pensar que, por uns tempos, ao invés de uma sentença pesada, a solidão podia dar-lhes a grandeza de um sacrifício, o brio de um ato heroico. 
A certos iluminados ocorreu que houvesse uma mensagem do universo, essa entidade que os gurus da autoajuda têm vindo a descredibilizar. Eis a oportunidade de reverter o mal feito ao planeta e a nós mesmos, assim diziam muitos, travestidos de uma humildade forçada e verborreica. E até a mim, que sou simpatizante de Buda e tenho rituais diários de meditação e yoga, esta ideia soou a bugiganga espiritual. Mas serviu de pretexto para a reprodução desenfreada de sermões sobre como os outros se haviam portado muito mal ao preterir os afetos e a solidariedade em favor do consumo e do descarte. 
Pareciam pouco importados com a evidência de que a sociedade começava nesse instante a resvalar. Que a órbita do mundo seria redesenhada, sim, mas não no sentido do retorno àquilo a que chamavam as coisas essenciais sem noção de que falavam de privilégios e que ofendiam uma parte considerável do país e da humanidade: o livro lido com vagar, a paisagem silenciosa apreciada do terraço, a perceção das unidades de tempo, o aroma do café de saco. Na perspetiva estreita de quem tinha os empregos salvaguardados pelas circunstâncias ou pelo Estado e um bom seguro de saúde, eram estas, e outras similares, as coisas essenciais. 
Agora que novas restrições se anunciam, tudo isto me vem à memória e sei, tenho a certeza ou quero tê-la, de que quem viu desta forma romântica uma tragédia com tantas, tão amplas e tão duradouras sequelas, agora sabe mais, tem outra perspetiva, é capaz de mais empatia e de uma solidariedade mais genuína. Ou, se nada disto, ao menos mais pudor. 

30.10.20

Da maneira que isto está, já deviam ter-nos mandado todos outra vez para casa, diz a professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada, enquanto toma o café em goles lentos, a máscara suspensa numa orelha, o ar sedado do costume.
Consigo facilmente imaginá-la trancada por longos dias, do quarto para a sala, da sala para a cozinha, da cozinha para a sala. O silêncio alivia-a tanto que se emociona. Nas cristaleiras tinem serviços de pechisbeque, souvenirs das férias pela Europa com o ex-marido e o rapaz, objetos avulsos sem serventia, porta-chaves, moedas de escudo, esferográficas secas, rolos fotográficos, pins. Nos armários, jogos de lençóis coçados, fronhas sem par, vestidos e casacões que deixaram de servir depois da cirurgia, roupa de quando o rapaz era pequeno, fantasias de carnaval, chapéus de inverno, de praia e de chuva. Nas estantes, os peixinhos-da-prata banqueteiam-se na desarrumação das capas de dossier, cópias de fichas e manuais, faturas, cartas, comprovativos, requisições, calendários, agendas, cadernos de receitas, álbuns, jornais velhos, revistas de moda passada. No chão, literatura em montículos de dúzia serve de mesa de apoio a candeeiros, velas e correspondência por abrir. Ela contorna tudo com a sua obesidade cinzenta e um desalento clinicamente comprovado, sem tropeçar nos gatos que lhe rodeiam os tornozelos a cobrar festas.
Ainda em jejum, acende um cigarro, mira o prédio defronte, o alinhamento das marquises traseiras, as roupas abertas nos estendais, os vasos desbotados pelo sol, o padrão exposto das vidas comuns. Afaga os bichos por hábito e instinto, põe-lhes comida, recolhe as fezes. Almoça lasanha requentada e uma maçã para limpar. Liga ao rapaz, que agora vive em Barcelona com uma irlandesa de humor magnético e tão elegante que mete nojo. Enquanto toma café na varanda, roga pragas aos que desafiam a autoridade e saem à rua, deviam ter sido educados com mão firme, o mundo assim não vai a lado nenhum. A professora esqueceu quão insurretos, sujos, torturados, viciados e imensos foram os autores dos poemas que leva para os alunos e que não lhes interessam porque ela não lhes conta das fragilidades, não lhes diz que eram pecadores, que tinham pesadelos e desejos ingovernáveis. Fala deles como deuses e a juventude não precisa de religiões. 
À noite, com os dedos muito ágeis entre as coxas, a professora fantasia versões alternativas ao amor que conheceu e lhe falhou. Para descolar da memória a imagem dos adolescentes eufóricos, cheios de ganas e saúde, lembra versos censurados de Bocage  ao menos é Bocage. No fundo da cama, os três gatos pretos assistem à demora do êxtase.

27.10.20

Como a generalidade dos homens da sua geração, o senhor Pereira trata as próprias dores com mão firme, mordaça e perpétua clausura. Isso explica o ar ligeiro, quase feliz, com que apareceu no pão quente para comprar uma roca. Só de olhar, ninguém diria: a sua mãe ainda agora morta, o seu casamento um moribundo de plumas, as filhas sempre amuadas, o filho uma pasta de gente amorfa cuja única grande realização – Joaquim – foi por acidente, a imperatriz a preparar-lhe o mais duro de todos os golpes. Mas a farsa é uma arte aplicada com muito brio ao sentimento familiar, nenhum outro teatro se lhe assemelha em magnificência e duração. Uma família pode manter-se anos e anos em palco, brilhando nos papéis atribuídos, sem hesitar numa deixa ou tropeçar nas pontas soltas da vestimenta. Enterra os seus cadáveres com vergonhas e passados inconvenientes, tudo junto e embrulhado em arranjos florais, e vai acenando, à boca de cena, como se nada fora. Tantas são as mágoas que podem atormentar um ser humano comum e, de todas, a que mais o envergonha é a deriva da sua família, o fracasso do seu ideal.

23.10.20

Ah, minhas senhoras, eu faço tudo, tudo, pelos vossos filhos, falou o jovem diretor de turma dando um jeito distraído ao cabelo. Pelas vinte quadrículas do écran multiplicou-se um risinho de clandestina satisfação, deleite ou luxúria. Parecia ter caído um daqueles aguaceiros benfazejos de verão, que aliviam as securas do mundo, soltam a terra, despertam as corolas. Depois de um pediatra sensível e paciente, não há como um professor dedicado para superar certos maridos.

21.10.20

Uma desgraça nunca vem só e para confirmar estes e outros ditos vê-se, uma vez mais, a família Pereira abalada na sua folclórica estabilidade. Bom, talvez não se possa chamar desgraça ao natural apagamento de uma vida quase centenária. A velha muito velha foi-se em fim de tempo, como é próprio do que, por sorte, escapa no caminho a acidentes e agressões. Desgraça, isso sim, foi a decisão tomada pela imperatriz e anunciada no rescaldo do luto. 
Nunca os Pereira sonharam depender tanto dos humores de uma rapariga vinda da província para hastear a bandeira do feminismo e da independência precisamente ali, na casa onde estava tudo tão betonado que nem as traições faziam grande mossa (as birras levadas a cabo pelas manas não entram na contabilidade, já que se fizeram e desfizeram com mais ligeireza do que as da primeira infância). Sequer os avós Pereira imaginavam que aquela que lhes deu a maior graça das suas vidas ao abençoar a família com uma descendência viril poderia ser outra coisa senão o que até agora tem sido: uma mãe sensata, inteligente, disposta a salvaguardar as necessidades e direitos do filho, contribuindo de forma exemplar  e sabe-se lá com que sapos atravessados na garganta  para que Joaquim construa por si uma relação com a família paterna, de valores tão opostos aos dela. 
Não haverá muitas capazes de um malabarismo tal e a quem passe ao lado a tentação mesquinha de entrar com as desavenças, os rancores e as faturas na educação dos filhos. Porém, a imperatriz é pouco dada a rivalidades estéreis, além de que Joaquim não é para ela um troféu, um instrumento ou uma salvação, mas um feliz incidente, uma trapaça do corpo, enfim, um delicioso acaso. E a pureza dos acasos  porque não são delineados ou corrompidos por nenhum projeto ou ambição, porque desafiam a vontade e a convertem   é um valor a preservar. De resto, o amor que a imperatriz tem ao filho justifica os esforços e as concessões. Por ele, suporta os Pereira e o seu desejo de atribuírem a Joaquim a responsabilidade de desfazer o sarilho de disparates e conveniências em que vivem. 
Nós, que assistimos a rir e pensamos que seria de outro modo caso fossemos os protagonistas, ainda assim comovemo-nos ao ver o senhor Pereira desmoronar-se diante do neto. Pese embora o machismo subjacente a este afeto privilegiado, sempre tivemos fé de que daqui viesse uma revolução de lógicas e princípios capaz de destituir a frieza da autoridade vigente e abrir caminhos novos, mais apaziguados para toda a família, onde até as manas se sentissem mais ouvidas e amadas e o mano inútil ganhasse finalmente um brilho próprio. Mas a vida, enfim, dá as voltas que sabemos e apanha-nos na curva, quase sempre distraídos e de mãos nos bolsos.

E toda esta conversa para quê? Os factos, sendo o que são, não podem ser amenizados nem evitadas as suas consequências só porque fazemos esta resenha de prós e contras, com perspetivas e contrapontos. Mandar a razão à frente para aplanar terreno a ver se suaviza o derrapanço, nem sempre resulta. Mas a verdade é que também a mim me custam certos episódios e adio a hora de os contar. E ter dito logo, a frio e à cabeça deste texto, que a imperatriz vai voltar a viver em Penedono e leva com ela Joaquim, como se viesse a propósito ou fosse coisa menor, não me parecia bem. Não me parecia nada bem. 

17.10.20

No dia em que cessar o meu contrato de fertilidade com o corpo, farei um luto orgulhoso sobre o qual dispenso consolo. Toda a ideia de envelhecer me repugna, de forma alguma nos outros, mas apenas em mim mesma. E digo-o com a verdade a que tenho direito e que ninguém pode censurar, nem em nome dos paninhos quentes com que se disfarçam as inconveniências de viver. 

15.10.20

Hoje a rapariga da papelaria não vem trabalhar. É o aniversário de Alicita, lembra-se?, pergunta-me a avó, que está a fazer as vezes da filha no atendimento. Como não? A menina, nem três mil gramas de gente e ainda assim teimosa, fincou os pés no ventre materno, sair só à força de bisturi ou pela mão de um carrasco. Alicita não havia de querer fazer sofrer a mãe, mas fez. Submeteu-a a tantas horas de espera, dor e sufoco, que deu tempo de acordarem dois sóis. Da cesariana, a rapariga saiu a jurar que nunca mais, julgando, na legítima e conveniente ingenuidade de quem sobrevive ao esforço de parir, que o pior da maternidade ficara para trás, no bloco, diluído em sangue, placenta, líquido amniótico e outros destroços animais. Um dia, a mãe contará à filha sobre esse quinze de outubro de dois mil e dezassete. De como, na manhã seguinte, enquanto ambas restauravam, docemente, sem mágoa, os estilhaços da violência que atravessaram juntas e se entregavam à placidez daquele amor acabado de inaugurar, as gordas dos jornais escancaravam o inferno e a vergonha no balcão da papelaria.

14.10.20

Agradeço a quem se aflige por me supor infeliz no trabalho e na vida em geral, mas é preocupação injustificada. Não devem confundir-se as linhas que escrevo com as que tenho na palma da mão. Já o disse noutras ocasiões: não faço disto um divã, tampouco um diário, falta-me vocação para o esbanjamento da minha intimidade e seria demais presumir que ela importa a outros além dos que me são próximos. Isto é só um caderno de exercícios onde me agrada alinhar as irregularidades da vida ou chupar-lhe os ossinhos, consoante os dias e a disposição. Lançar, de vez em quando, um olhar irónico sobre a minha própria realidade, desarrumar a minha paz e reduzir a nada os meus privilégios, faz parte do mais fundamental desses exercícios.

12.10.20

Por baixo do vestido de festa, a carne podre. E eu trabalho de costureira, das nove às seis, exercitando o pesponto miúdo, cobrindo tudo de sedas e rendas finas, cerzindo com fio dourado as malhas caídas e pregando o acabamento em lantejoulas. Depois, sacudo dos ombros a minha consciência suja, deixo-a ficar na cadeira de escritório e volto para casa com o sono, a disposição e o apetite intactos.
Quando em jovem eu bradava que jamais me venderia, mal sabia quantas formas há de nos comprarem. Também em mim, concluo, assentam bem certos vestidos.

9.10.20

"Novo normal" é uma das mais patéticas expressões que a contemporaneidade inventou, uma espécie de quinquilharia sociológica que nos últimos meses se usa, como se fosse uma joia, no comentário, na conclusão e na aceitação. "Normal" já era vocábulo com pouca coisa lá dentro, de uso tão amplo, diverso e vago que serviu e serve de igual modo todas as correntes, culturas, ciências e religiões, e ampara sentimentos que podem ir da repulsa – credo, isso não é normal – até à desvalorização – deixa lá, isso é normal. A ambiguidade do "normal" vê-se na facilidade com que sempre foi trabalhado como plasticina, gerando enganos, negligências, marginais, doentes, frustrações, desconfianças. Precedê-lo do adjetivo não lhe dá uma feição diferente, mais firme ou concreta, nem torna intrínseca a moral que jamais lhe pertenceu mas de que sempre se dourou. Mas ao evitar que notemos o seu oposto - o anormal -, o "novo" amacia os nossos espíritos e convida-nos a instalarmo-nos sem reservas.

6.10.20

É uma dessas manhãs em que, sem outro motivo além da consciência de existir, venho pela rua a fazer o inventário dos meus privilégios, cantarolando, exercendo a vida com tudo o que por sorte me foi dado ou por empenho conquistei. Por isso é grande a estocada quando vejo a mãe dos filhos com olhos de azeitona preta, que não via desde que nos fechamos todos em casa. Vai sozinha, ao contrário do hábito. Durante anos e anos fez aquele percurso a carregar duas crianças, mais tarde carregando uma e arrastando outra, ultimamente apenas de mão dada com a menina, porque o rapaz seguia à frente, apressado para ser homem. Do bairro à escola, da escola ao bairro, numa comovente obediência ao seu destino, aquela mãe precoce a quem nunca escutei uma palavra, de pernas grossas e joelho valgo, que todos os dias enviúva do mesmo delinquente, jamais se atrasou ou fez outro caminho. Porém, os filhos com olhos de azeitona preta prescindem agora do abrigo e da boleia do seu corpo. Cresceram, estão expostos às próprias possibilidades de corrupção e infortúnio, são jogadores autónomos na lotaria da vida, vamos esperar que encontrem um caminho para lá da miserável condição em que nasceram.
Chego a casa e não tenho apetite. O mais velho preocupa-se, o que tens? E quando digo quem vi pede-me que não conte, pois sabe que também pousará os talheres. Ah, felizes os que andam entretidos na sua roda viva e dormitam na sua quietação murada e praticam opiniões diante dos cortejos televisivos e só conhecem a tragédia de a folhear em verso e salivam sobre a fartura das suas mesas e doam os excessos porque precisam de limpar armários. Aproveitem, porque a felicidade que há no mundo é pouca e distribuída de forma mais desigual que o dinheiro. Têm-na toda os deuses e um ténue vislumbre dela os humanos. 

1.10.20

À porta da escola secundária por onde passo todos os dias a pé, vibram de novo as energias apaixonadas da adolescência. É a vida a tentar recompor-se, a sacudir a poeira da sua hibernação, a reacender os projetores, a desatar as engrenagens. Naquele formigueiro vejo acontecerem, nuns casos por descuido, noutros por vontade, todas as coisas que o pavor demonizou – beijos, abraços, sussurros, rodas de convívio – e alegro-me com isso, como se respirasse fundo ao vir à tona de um pesadelo. Mas logo me culpo pelos meus sentimentos e decido não conversar sobre isto com ninguém, sob pena de a censura popular, que é rígida no pensamento e rápida no gatilho, me acertar o passo. Que tristes nos tornamos. E pobre juventude, esta, que já não sabe o que dela se espera. Até agora criticados, desvalorizados na sua inteligência e sensatez por passarem demasiado tempo nos telemóveis, acusados de só investirem em vidas virtuais, escutando sermões sobre os convívios de antigamente. E veja-se a ironia do destino, o mistério das voltas do mundo: condenados de repente pelos hábitos justos, sãos, humanos, pela vida real que a sua natureza pede, que o corpo precisa, que a alma merece. Enfim, de uma forma ou de outra, ser-lhes-á imputada a culpa pelo fim do mundo. Por onde quer que sigam, seguem em contramão. 

30.9.20

Desconfio sempre de quem se mete a definir o amor e porque o vive ou viveu, nele se arruinou ou se salvou, atribui-lhe um alfabeto linear e organiza-o com suposições universais, julgando ter desvendado todos os seus segredos e propósitos e sobre isso criando máximas, filosofias, teoremas, carapuças de tamanho único e o mais que vale tanto como um sopro do vento. Sou avessa a definições. E, acima da definição, aborrece-me quem define. Eu, nem que quisesse teria como dar verbo aos magníficos lugares onde vi o amor chegar. E só um grande desentendimento do mundo poderia fazer-me supor que o que vale para mim vale para todas as almas em todas as camas e todas as casas de todos os tempos. 

25.9.20

Eu, pra mim – diz a rapariga da papelaria, exalando uma energia tão adolescente que me pergunto se andará mouro na costa – o que me interessa é a generosidade, não há nada mais sexy num homem do que vê-lo tirar a camisa do corpo para dar a outro. Não acha? atira-me a sangue frio. Ora, isso depende do que há por baixo da camisa, digo sem ter a certeza de que ela me entende. Por vezes também caio na asneira, injustificada, de a julgar tola só porque tem um coração destrambelhado, que se despistou na primeira curva e não há meio de tornar ao caminho. Eu, pra mim, o mais atraente é a coragem moral, acrescento. Homem que a tenha como virtude revela sempre um peito largo, umas costas verticais e até uma ou outra cicatriz de combate. Ela suspende o movimento das revistas no balcão: e conhece muitos assim? Por culpa da máscara, que me priva da sintaxe completa do seu rosto, não consigo perceber se é de dúvida ou ironia o olhar lateral que me deita. E, a jogar pelo seguro, desconverso com o pretexto da falta de trocos.

24.9.20

Pela manhã, duas mulheres despedem-se de um encontro casual junto ao mercado:
– Um dia destes, quando tiver um bocadinho de ocasião, ligo-te.
Não fosse a ocasião já de si uma unidade mínima, ainda a podemos dividir em quantas partes forem precisas para nos salvarmos. A vida cada vez mais fragmentada, porque o tempo é breve e a pressa é muita. Mas, quem sabe, vasculhando o fragmento do fragmento do fragmento alcançaremos o infinito sem termos investido o esforço de ir lá longe. Procure-se mais adentro quando não pode conquistar-se mais além. 

23.9.20

Bem-aventurados os amantes platónicos, os papagaios do cliché os olhos são o espelho da alma e os vendedores de sombras e eyeliner, porque deles é este novo reino da Terra.  

18.9.20

Sonhei que uma ninhada de ratos passeava livremente sobre a nudez de uma bela rapariga holandesa. Fosse viva, a minha avó levantaria o sobrolho e andaria pela casa a arrastar os chinelos e a dar corda ao pensamento, perguntando-se de quem seria a gravidez encoberta. Era o que dizia o senso popular ou talvez Freud – e hoje em dia provavelmente também o google: sonhar com ratos prenuncia a chegada de um bebé. E essa hipótese intrigá-la-ia ao ponto de desvalorizar a quase obscenidade que o meu cérebro marinara nos braços de Morfeu. A verdade é que todos os que sonham, sonham disparates, impossibilidades, absurdos, e muito pouco do que se sonha é confessável. A melhor forma de dignificar um sonho ou de evitar que ele me faça cair no ridículo, é escrevê-lo como se fosse uma coisa séria. É questão de lhe retirar cuidadosamente as incongruências como as espinhas ao peixe, de modo a deixar o filete intacto e ainda apetecível. 
Medonho, isso sim, é o sonho coerente, o que avança pela noite com a lógica e o alfabeto das coisas reais. Uma vez, por exemplo, matei um homem para proteger a minha irmã. Usei um punhal e matei-o de frente, olhos nos olhos. Lembro nitidamente a sensação, lembro todas as consistências e temperaturas, a força que fiz, a resistência da carne, o jorro morno de sangue, a meia volta que dei à lâmina, primeiro num sentido, depois no outro. Nada me custou ou doeu pois tinha o pensamento na salvação da minha irmã. Andei durante semanas a cismar na frieza quase profissional com que castiguei o malfeitor, perguntando-me como pode uma alma pacífica e sem cadastro praticar enquanto dorme um crime assim, sem pena nem hesitações.

17.9.20

Isabela deu o que tinha a dar. No fim de agosto, já todas as suas pétalas eram caídas e a haste estava seca. Penso, comovida, naquelas treze flores perfeitas, macias, e entendo o assomo de vaidade que acabou por corromper a inocência da minha orquídea. O primeiro a cair na armadilha da beleza é o seu autor. Agora, porém, Isabela está apenas a submeter-se aos ciclos da vida, que ainda que tardem não falham, e resta-me depositar a fé no ninho de folhas sobrevivas junto à raiz, ainda muito verdes e carnudas. Dizem que enquanto as há, há esperança e talvez na volta da primavera se dê um milagre. 
Noutro dia, a cabeleireira disse-me que tenciona decorar toda a montra do salão com orquídeas. Acho-as imensamente femininas, e ao advérbio deu um tom afetado que me surpreendeu, talvez o imite a alguma cliente ou a uma figura da televisão. Pois o mal é esse, comentei. Tão depressa vemos nelas a graça que temos –  em formas, feitios e feitiços – como num instante nos revelam a ruína que nos espera. Aconselhei-a a esquecer as orquídeas, que assustam espíritos fracos como o meu, e sugeri-lhe samambaias. Parecem-se muito com cabeleiras e são por natureza tão descontraídas e desarrumadas que passa, sem se notar, qualquer imperfeição ou assimetria. Não dão flor mas também não causam penas.

14.9.20

Gastei boa parte do fim de semana a ler os planos de contingência de estabelecimentos de ensino. Esforço-me por ser uma boa mãe e cooperar com o sistema, mas quase sempre embato com dor contra a generalidade das condições, dos métodos, das prioridades, das competências, pouco me importando quem governa porque o mal é de pensamento estrutural e não de conjunturas, partidos ou mandatos. Este ano, a pandemia vem aumentar o prejuízo e a fatura é sempre entregue à porta dos inocentes. Conselho amigo lembra-me que não haverá sofrimento de maior porque os miúdos habituam-se a tudo num instante, também hão de habituar-se a circular como gado, a não emprestar os seus livros e lápis, a não dizer segredos, a evitar paixões desnecessárias e fugazes, a dominar movimentos por instinto, raiva ou desejo. Mas isto, ao invés de consolar-me, agrava o meu desassossego. Eu não quero os meus filhos habituados, nem a isto nem a coisa alguma. Criei-os para que vivessem despertos, lúcidos, corajosos e inteiros e investi muito para que jamais confundissem a cooperação e o respeito com a obediência. Mas se o cenário é este e se o futuro não aparenta ser outro, o mais provável é que eu tenha cometido um erro.

12.9.20

Morreu Shere Hite, que pesquisou e escreveu sobre aquilo de que a generalidade dos homens entende menos do que julga e com que a generalidade das mulheres está menos feliz do que confessa. Desta morte, como era previsível, não se tem falado muito por aí. Afinal, oh, que atestado de superior cultura e erudição confere dar mostras de estar a par de tal coisa?

11.9.20

Duvido que se possa proteger uma civilização estilhaçando os seus valores, desfazendo os seus laços, puxando o tapete às suas morosas conquistas, abalando toda a sua fé. 

10.9.20

Ao cabo de dois meses de veraneio, o mais novo regressou a casa com mais um palmo de altura, uma tez de criatura nómada e cogitações à roda de assuntos diversos que ficam melhor só entre nós. Para o receber fiz tudo o que ele gosta, panquecas americanas, sopa de beterraba e lentilhas vermelhas, fusilli com camarão, feta e manga, comprei bilhetes para o cinema, preparei óleo de massagem. Assim que o acomodei na insuficiência do meu colo, a Terra, que por hábito e ironia ameaça resvalar à força de delírios vários, sustos e combates, foi de novo trazida à órbita. A sua disposição grata, compassiva e luminosa – igual não conheci em mais ninguém, adulto ou criança – demove todos os fantasmas e dilui no tempo infinito a gravidade de cada segundo que passa. Quem terá abençoado a hora acidental, inadiável, em que foi feito?

8.9.20

Quando atendo, do outro lado da linha chega a voz amarrotada de um velho, olá minha linda, estranho e repito estou, sim, então é a vez dele estranhar quem fala? e como resposta eu pergunto com quem pretende falar? Ele cheio de hesitações, infantil, eu queria falar com a minha filha. Mal dou pelo absurdo quando lhe respondo é engano, eu já não sou filha de ninguém. 

4.9.20

Quando um determinado discurso de desagrado prevalece na sociedade ou num indivíduo ao longo de muito tempo sem que nenhuma mudança daí advenha, das duas, uma: ou é porque não reflete um pensamento real, profundo, mas apenas um hábito de dizer ou copiar ao pensamento alheio, um fechar conversa de circunstância, ou então é porque, na verdade, a mudança não é desejada. Penso nisto, por exemplo, quando ouço a professora que vive com três gatos pretos e um ror de tralha acumulada, na ladainha do costume ao balcão do pão quente: eles agora não pensam, os miúdos não pensam, ponto final! Um dia destes, se acordo indisposta, pergunto-lhe que pensadores tem o sistema de ensino ao seu serviço. 

2.9.20

Morreu a mãe do senhor Pereira, a velha muito velha de feitio retorcido que passou aqui uma vez, apoiada no perdão do filho e na condescendência da nora. Há quem reclame da falta de justiça divina: viveu demais para os estragos que fez, já devia ter ido há muito. Foi sempre tesa como um arco de flecha pronta, fria como gelo, azeda como leite esquecido, enxotando beijos e abraços como moscas. Reza uma lenda – de restrita disseminação – que deu uma tareia ao marido, ela nunca confirmou nem desmentiu mas a fama foi-lhe útil para dissuadir oportunistas e toda a espécie de parasitas. Cobrou cada desobediência do filho imprimindo-lhe a fatura em cheio nas nádegas. Por vezes afrouxava, dando sinal de alguma benevolência ou compreensão, e então o Pereira menino, recuperando os plenos poderes sobre a sua infância, logo se metia em sarilhos ou caía nalguma leviandade e entornava o caldo. A velha muito velha tinha a astúcia do verdadeiro ditador, que mantém a oposição viva, em lume brando, com folga ligeira na corda, e espera dela o descuido, o erro, para reforçar o seu poder e lembrar que o aquele que facilita e autoriza é o mesmo que dá a vergastada. 
Morreu de nada mais do que cansaço, durante a noite, deitando por terra a ideia de que os maus sentimentos fazem germinar todo o tipo de doença. Apagou suavemente como um pavio esgotado. Paz à sua alma, que deve estar precisada.

30.8.20

O que me vês fazer com o sabre, não tentes deter, desfazer ou igualar com a faca da manteiga.

27.8.20

Afinal é avenida ou alameda? perguntaram-me, a tirar satisfações acerca do mapa deste blog, porque ora falo numa, ora noutra. Não é erro, tenho ambas: uma avenida e uma alameda. Também tenho, como sabe há muito quem por aqui circula, uma praceta, uma rotunda, uma marginal, uma rua que sobe para norte e desce para sul, além de um pão quente, uma papelaria, um cabeleireiro, um mercado, uma paragem de autocarro, um elevador, um altar a Buda. Houve em tempos um lavadouro público, um prado, um tasco que expulsava bêbados às dez da manhã. Vulgaridades, nada a fazer, o mundo repete-se em cada quarteirão como em cada blog, ainda que mudem as formas, o estilo e a voz da sua expressão e por mais que outros nomes se inventem para o que outra coisa não é. 
E este mapa, por onde o meu quotidiano deixa pegadas, cumprimentos, moedas e considerações – e que é real nas suas artérias, curvas e vistas – basta-me, porque nele vejo tudo o que me importa dizer. Se eu quisesse saber e contar mais, oh, teria de forçar fechaduras, abrir camas, farejar lençóis, vasculhar telefones, meter as mãos no lixo, violar correspondência. Mas aí só se chega com muita ousadia ou muita imaginação, dons que os astros raramente concedem aos filhos do solstício de inverno. 

26.8.20

Esta noite sonhei que a avenida se tinha tornado um antro de desvalidos. Tive de a atravessar de ponta a ponta para chegar a casa e por todo o lado vi gente a quem não sobrava força nem para levantar a cabeça contra o vento. Havia de tudo um pouco, todo o tipo de desgraças, vícios, amputações e azares, e eu passei olhando a medo, de viés, sem saber se mais lhes devia atenção ou indiferença. É preciso cuidado com a dor dos outros, ela tem a sua dignidade e, por isso, a sua vergonha. Por vezes, julgando estar a consolá-la estamos a insultá-la, a arrancá-la ao recatamento desejado, a desvalorizá-la com lugares-comuns, banalidades, conselhos que só dá quem pensa que por ter provado a sua dose sabe das doses dos outros. Os deuses encarregam-se de a cada alma atribuir os seus tormentos, não há lençol que não tenha o vinco da volta que mil vezes se deu na cama pela noite dentro, mas no modo de sentir ninguém se iguala. 

(Talvez este cenário e pensamentos afins se tenham enredado no meu sonho por ter estado ontem a ler sobre Aokigahara. Ao adormecer baixei a guarda e fez-se à vontade e em abundância o tráfico de dados e emoções através das fronteiras da minha consciência.)

Chegada ao fim da avenida, entrei com alívio na casa que supus ser a minha e ao cimo das escadas esperava-me a velha de Santiago, muito ereta, proprietária, com um olhar desumanizado. Notou que estremeci ao vê-la e com isso ganhou vigor pois é onde o sangue mais fraqueja que os poderosos cravam o sustentáculo dos seus palácios.
– Isto são horas de chegar? perguntou em português limpinho. 
Percebi então que era uma menina desaninhada, longe de colo e família, a viver de favor em casa alheia. Segurei a raiva, deixei que a galega virasse costas e acordei.

24.8.20

Dorme, dorme, que dormir é meio sustento e o tempo passa mais leve. Talvez fales e te agites e te vires e revires e transpires e julgues e insultes e te rias e na carne sintas o êxtase sonhado e podem até os teus olhos abrir-se e parecer atentos por se fixarem nas coisas concretas ao redor, mas ainda assim, não o sabendo, estarás a dormir profundamente. Dorme, dorme, que do teu sono tiras conforto e outros tiram vantagem.

21.8.20

À mesa, debaixo de um céu de estrelas, numa varanda para o mar ou em qualquer outro poiso de prazer e contemplação, eu e o mais velho ficamos amiúde à conversa sobre as fontes de mistério que há no universo ou sobre as bizarrias da condição humana. De mim, o rapaz voador herdou todas as imperfeições e do pai todas as virtudes, por isso o amor que lhe tenho é compassivo e fascinado ao mesmo tempo. Quando conversamos, procuro evitar que a minha sensatez contamine a doçura dos seus sonhos ou arrefeça o furor das suas convicções ou ponha um freio criminoso ao galope das suas ideias. A juventude é magnífica e nisto que digo não há ironia ou sequer paternalismo, só inveja, dessa que os deuses castigam e a que os humanos viram a cara na rua por receio de se descobrirem dela aparentados. Nada se ganha com a maturidade, a não ser a eficiência com que voluntariamente encaixamos na engrenagem e comparecemos no quotidiano de escravos. O resto são eufemismos. 

20.8.20

Na peixaria, Elisabete amanha dois robalos para levar à sôtora Lurdes que, por alegar ocupações muitas e diversas, pede a entrega das compras em casa sem acréscimo à fatura. Enquanto chafurda nas tripas, Elisabete conta histórias para entreter a freguesia, evitando que vão fornecer-se a outro lado pelo cansaço de esperar. Hoje é sobre uma vidente muito conhecida para os lados de Aldoar. Empossada da sabedoria de mundos paralelos e ocultos, cujas lógicas só uns poucos eleitos dominam, anunciou-lhe a vidente há mais de quinze anos que ela havia de morrer seca e veja-se como, apesar de vontades e esforços, Elisabete desconhece as graças da maternidade. Julguei que fosse a freguesia assustar-se, benzer-se, esconjurar demónios, mas antes noto entusiasmo para saber onde encontrar a vidente. 
Ao ver-me, porém, Elisabete sobressalta-se como a criança apanhada a transgredir e sorri a desculpar-se. São coincidências e prontos, não é? A menina que estudou deve saber. Coincidências e prontos, repito com propriedade e um gesto brusco da mão. Ela ia gostar de saber que há muitos anos, a custo zero e por brincadeira, uma rapariga abriu-me a palma da mão e tudo o que nela leu trágica e rigorosamente se cumpriu num médio prazo. A única profecia que ainda tenho por comprovar é a de que terei uma vida longa. Aguardemos para ver. Se a rapariga apenas leu o que em mim já estava escrito de nascença ou se por dizê-lo em voz alta naquele mesmo instante o escreveu, não sei. Mas Elisabete e eu já decidimos que, de qualquer forma, são tudo acasos. Ela com os seus robalos, eu com os meus estudos, convergimos nisto e talvez no que ficamos a pensar e não dizemos.

18.8.20

Para não macular a calça branca de prega, apropriada ao usufruto do pôr-do-sol em zona chique, a rapariga manda ao filho que projete bem os quadris adiante. Aflito para se aliviar e com fraco domínio da ferramenta que segura entre os deditos, o petiz procura direcionar o jato de urina de maneira a não ir contra o vento nem contra as advertências da mãe. Está na beira do passadiço, tem a metade dos pezinhos já sobre o vazio, o ímpeto desgovernado de uma cascata a sair-lhe do corpo e o sermão a martelar-lhe os ouvidos  – que lindo se vestiu hoje o meu príncipe, não se suje, por amor de Deus, chegue-se mais para a frente. Na ânsia de lhe salvar o traje, é a própria mãe que o empurra mais um bocadinho em direção ao desastre. E bem antes do alívio completo, o menino esbardalha-se, de braços abertos e rabinho ao léu, no charco abundante da sua urina. Envergonhada, a mamã levanta-o à bruta por um braço e sai a correr. Já não é hoje que apresenta o filho a preceito nos teatros lotados de agosto. 

7.8.20

É estranho, mas ninguém levanta a cabeça quando soa o alarme, estridente, aflitivo, sobre o torpor matinal das ruas da cidade. Como se habitassem outro mundo que não este, prosseguem as suas conversas sobre coisas que não apanho, outros escutam música ou consultam o e-mail. Porém, à mais ligeira, subtil, vibração de um smartphone, reagem como as galinhas que, absortas no bicar compassado do milho rasteiro, erguem de repente os pescoços e viram-nos, ora para um lado, ora para o outro, numa curiosidade robótica, passageira e, por isso, verdadeiramente inútil. 

5.8.20

A rapariga da papelaria desce a rua de cara amarrada e naquele passo veloz que se usa para gastar num instante a raiva toda. Motivos, lá os terá e faz bem em calá-los porque com o mal de uns enchem às vezes outros o bandulho. No caso dela, porque exala um cheiro intenso a abandono e desistência, é um fermento para a imaginação alheia e inspira todos quantos vivem de dar conselhos como os que treinam da bancada – que não perca mais tempo com essa dor, cuide de si, vista outra coisa, olhe em frente, dê-se a outro homem. Então não pode cada um fazer da vida o que quer, comprometer-se com a sua melancolia, cismar nas suas mágoas, mastigar as suas lembranças ou até amputar os membros sãos se daí lhe vier paz? Quem é quem para dar à rapariga da papelaria a bula da felicidade, quem chegou ao ponto em que, de tão feliz, já só lhe resta morrer? A mãe, que nas palavras duras que lhe diz põe sempre a fatura dos seus próprios fracassos porque em vão sonhou que a filha havia de ganhar de sobra para pagar pelas duas? A cabeleireira, mais a sua moral entusiasta sobre os benefícios do sétimo sacramento com pensão completa e descontos ao marido? Gabi, santinha de pau oco e língua bífida, que revira os olhos nas costas das senhoras a quem desbasta as garras? O senhor Pereira, polidinho nas maneiras e remediado no caráter, mais a sua mulher que a vida toda o comeu requentado ao fim do dia, primeiro por ignorância depois por falta de saída? A viúva, que ninguém sabe se na verdade partiu com o homem que amava e agora ostenta apenas o que ficou para trás, como coisa que para ela já vale nada mas que ao menos dá, a quem olha, a felicidade de sonhar? A imperatriz, que não foi abandonada pelo pai do filho mas escolheu abandoná-lo, o que, enfim, revela a desgraça maior que é ficar aquém de amar? As manas Pereira, tão virtuosas e bem sucedidas, de íntimo atormentado pela ideia de que todos os homens – até os seus – possam um dia parecer-se com o pai? A dona Maria Isabel, doutora de ciências com a má fama de serem exatas, cuja independência e firmeza de emoções jamais permitiriam entender quem por amor se tenha desanimado tanto? As pessoas dos blogs, que nos seus estendais públicos deixam, sem vincos, belas cogitações teóricas sobre amores suspirados como o dela e outros tantos de romance e ideal? Eu, que jamais sequer amei dessa forma religiosa, sem identidade nem retribuição, e descarto as dores junto com o lixo ao fim do dia porque tenho repulsa a tudo o que dura demasiado?
Talvez, no entanto, nada de grave tenha havido com a rapariga da papelaria. Apenas um enguiço, uma avaria na máquina da roupa, os jornais que não chegaram a horas, Alicita a inaugurar o dia com uma birra daquelas. Coisas poucas, nada de nada, deus a polvilhar o quotidiano de misérias e cada um de nós a acreditar que tudo isto é muito mais, para justificarmos as angústias com que nascemos.

3.8.20

Podia ter-se começado a falar há muito mais tempo sobre a tragédia em que, a todos os níveis, vai desaguar o método de gestão da pandemia e do isolamento. Mas compreende-se a demora. Contra uma multidão possuída, que se acostumou a exercer a cidadania aplaudindo ou apedrejando a partir da varanda e que atingiu cúmulos de inspiração bíblica achando que o mundo estava a precisar disto, quem ia arriscar um e se? O medo não só distorce como aumenta a permeabilidade a tudo o que seja sustentado por um gráfico ou anunciado por um comité de gravatas e tailleurs. A partir daí, todos os que levantem dúvida são apontados como desumanos ou ignorantes e mal podem explicar as suas razões, a não ser que desembainhem um gráfico de igual envergadura ou saquem da cartola um doutoramento em qualquer coisa de tão rigoroso rigor que, enfim – oh, inutilidade do conhecimento adquirido! –, nem tem espaço para o imprevisto. 
Primeiro as pessoas, depois o resto, diziam os bravos da reclusão. Como se o resto fosse outra coisa que não pessoas. 
Passaram quase cinco meses e ainda me custa acreditar em tudo isto.

2.8.20

Que as pessoas interpretem o que está escrito à luz da experiência que têm é compreensível.
Mas que julguem quem escreve à luz da dor e do desejo que as atormentam é um perigo.

30.7.20

Debruçado sobre o lago, Narciso estende já os beiços para a superfície da água, não sem antes me sondar com o movimento mal disfarçado da sua íris habituada a atrair borboletas. Quer ter a certeza de que tenho os olhos postos nele e julga até que à beira me deitei com o único propósito de o desejar. Inclina-se mais um pouco, arrasta o corpo no chão para evitar o desequilíbrio e a fatalidade, está seguro de que ao beijar-se despertará em mim vontade de fazer parte, como se a ideia do trio – ele, eu e ele – me pudesse excitar. Com efeito, cai-me o queixo, mas não de encanto. Repugna-me antes a sua postura de rafeiro subjugado, a vulnerabilidade exposta das nádegas, o sexo enterrado no húmus. Aviso que me vou aproximar, Narciso vaza o triunfo na forma de um riso breve, mas – oh, desastrada! – caio na água com estrondo e a figura dele desmembra-se na ondulação quase tão depressa como nos meus planos.

27.7.20

Antes de entrar na água, o mais velho respira fundo e pede-me que invista todos os meus pensamentos na sua proteção. É claro que sim, não tenho feito outra coisa, diz-me que outra coisa tenho feito nos últimos dezoito anos da minha vida? E se algum dia, meu rapaz voador, meu homenzinho, se algum dia por tua causa eu sofrer mais do que a conta e não me bastar o escudo, a carapaça, o talento para a acrobacia e até para o faz de conta, por mim nada farei, mas que te castiguem os deuses trazendo-te de volta ao mundo num corpo de mulher, fazendo-te um filho e obrigando o teu coração a passar os dias para trás e para diante sobre um fio de arame nas alturas.

24.7.20

Acocorado na soleira, na avenida mais movimentada do subúrbio, um velho macilento cata porcarias a um gato de cinza puro, aveludado. Meigo como por interesse os gatos são, este aquieta-se e fecha os olhos para o gozo pleno daqueles cuidados. Se fosse gente, teria de pagar por um mimo que se equiparasse, mas vir ao mundo como gato é outra sorte. Verdade que não é remunerado pelo serviço de apoio permanente à solidão dos humanos, pelos favores prestados para os distrair das ausências maiores, nem sequer pela condescendência com que se dá ao estrelato nas redes sociais e às judiarias de canalha habituada a reinar. Mas ao menos pode ser preguiçoso sem imposto e andar pelos telhados sem viatura própria e acasalar sem hipoteca nem comunhão de adquiridos. Já o velho, outra história. Provavelmente empregado, contribuinte, marido, cumpridor, consumidor, pagador, adepto, proprietário, e ainda assim ninguém que agora lhe cate a ele as porcarias com ternura.

23.7.20

Às vezes, porque um gatilho disparasse a propósito de qualquer coisa, ele dizia ocorreu-me aqui uma ideia e enquanto compunha mentalmente o que poderia vir a ser, sei lá, um verso, um parágrafo, um livro inteiro, a boca dele produzia um estalido contínuo, espécie de coaxada de anfíbio, e o queixo movimentava-se vagarosamente de um lado para o outro como as ancas de uma leoa. O mais provável era que dali viesse alguma magnificência, mas aquele parto repugnava. Fora isso – que com boa vontade até se ignorava – era um homem subserviente e ganancioso, não dava ponto sem nó nem beijo sem trinta dinheiros. Porém, tudo o que escrevia exalava uma ternura lúcida pelo mundo e a sua reinterpretação das debilidades humanas, em palavras, comovia e convidava. 
São muitas e compreensíveis as ilusões alimentadas acerca de quem escreve, num instante se cai no erro de imaginar na pessoa o encanto que há na coisa por ela escrita. Mas o criador nunca é tão belo como a criação, nem se lhe compara em méritos e virtudes. Só o Pedro Chagas Freitas é melhor do que a sua obra. Vi-o uma vez no ikea, passeando o filho bebé enquanto a mulher apalpava tapetes. Tinha um ar luminoso, sólido, genuinamente feliz e eu espantei-me tanto a olhar que ele me sorriu. Percebeu, talvez com alívio, que jamais lhe pediria um livro autografado. 

21.7.20

Antigamente, precisando eu de um catalisador do choro para desintoxicar de emoções inutilmente acumuladas, punha a correr o concerto de Keith Jarrett em Colónia. Certinho como poucas coisas na vida: aos sete minutos e treze segundos, nem mais nem menos, a torneira abria. Ah, daí para a frente chorava-se muito bem – lágrimas decididas, triunfantes, fatalistas, orgulhosas da sua causa e da sua vantagem – , mais ou menos até aos oito minutos e quarenta segundos. Depois, pelo resto do concerto ficava o espírito numa planura luminosa, desembaçada, pronta para a florescência. Hoje, sou muito menos refinada. Qualquer cebola fresca cortada pelo meio serve para o efeito e ninguém nota.

20.7.20

– Este jeitinho de perna é tal qual o meu filho.
Diz o senhor Pereira sobre Joaquim, que pela primeira vez caminha pelo próprio pé. O menino está cada vez mais boneco e cheio de graça, mas quem quer que nele tente ver sinais do pai continua a precisar ou de uma crença muito tola ou de detalhes que a olho nu são despercebidos. É tão saído à mãe que poderia ser obra exclusivamente sua, solitária e caprichosa. Tem dela o branco leitoso da pele, os olhos de verde aquático, tropical, os reflexos acobreados no cabelinho e até alguma altivez que faz com que pareça estar sempre a rir do que não é feito para tal e despreze aqueles que lhe dirigem macaquices. Não bastasse tudo isto, ainda recebeu o nome do avô materno. E o apelido Pereira foi acrescentado como se fosse um favor ou, enfim, algo a que era impossível fugir sem desencadear conflitos.
Joaquim podia até ser obra de outro homem, é certo, mas a imperatriz é uma rapariga inteligente dos pés à cabeça, que vantagem tiraria de inventar que o pai é este, um vai-se andandoquem sabe um diase calhar não vale a pena, medroso do mundo, incapaz de segurar uma rédea, com poiso preferido debaixo de saias de fêmea, sejam as da mãe ou de outra que lhe deixe a comida para aquecer? Se ao menos para sustento ou por herança ele fosse um pai conveniente, mas nem isso. Portanto, embora saibamos que a maternidade é um poder perigosíssimo, de enorme dimensão e longo alcance, cujas dádivas e manobras são as linhas com que se cose o mundo, certamente a imperatriz não faria uso dele para burlas ou diversões.
Em todo o caso, tenho para mim que o jeitinho de perna é apenas uma amorosa imaginação do senhor Pereira. Afinal, quantas farsas pode uma pessoa inventar, com quantas pode ser conivente durante dias, anos, décadas, só para evitar o sentimento de fracasso e salvar a sua trabalhosa dignidade?

17.7.20

De há uns tempos para cá, vivem num estranho sossego as três flores que sobraram das que Isabela deu ao mundo. Não se alteram em aspeto, cor ou textura, passando bem por uma dessas quinquilharias chinesas de plástico que mantêm as casas floridas em troca do afago de um espanador. Ora, é dos livros – e da vida – que as grandes tragédias são precedidas de uma tranquilidade assim, uma quase suspensão da vida e dos seus rumores, uma espécie de abafo surdo que anestesia e desarma os espíritos, assim os apanhando mais vulneráveis. Alguns dos que na vida buscam estabilidade sabem disso, ou mais tarde acabam por descobrir: sob tudo o que está demasiado quieto há sempre matéria viva a laborar, incandescências e forças em tão delicado equilíbrio que ao mínimo ajuste ou à mais ténue brisa, rasga-se um abismo. Por isso, e dada a minha triste experiência com orquídeas, sempre tomadas de exageros e com uma evidente falta de domínio das próprias emoções, tenho para mim que devo estar atenta. À partida, Isabela parece ter ganas de viver e mais agora que está ladeada por duas plantas de viril constituição, a quem dei a responsabilidade de filtrar a luz que em doses tremendas, às vezes dolorosas, entra cá em casa. Mas, ainda que as três flores estejam bem e que a perda das outras dez pareça não ter rasurado o amor-próprio de Isabela, vasculho amiúde as raízes e o ninho das folhas, junto ao caule, onde nas orquídeas acontece fermentar a podridão. É que nas dosagens sadias de vaidade é difícil acertar. E embora haja motivos para crer que quanto maior é a ostentação mais negros são os fantasmas, não é linear a validade do oposto.

14.7.20

Queria dar-te uma parte de mim que não tivesse sido usada, corrompida ou desbastada. Um pensamento novo, uma gaveta ainda por abrir, uma data do calendário que não esteja já reservada para uma lembrança, um naco da alma que seja liso. Amadureci. Há quem no meu lugar invente, troque, compre, revire ou acrescente, vista o fato de menina, ponha a máscara do inocente, faça a voz do sonhador, mas olha, eu não, eu tenho tudo gasto e nada por estrear. Devíamos preservar da infância qualquer coisa intacta, ter sempre um embrulho com laço de fita guardado para abrir pela primeira vez num instante que ainda está por vir ou para entregar nas mãos de quem só chega depois. 

9.7.20

A quem nunca aconteceu atirar ufanamente o cuspo ao ar e levar com ele de volta, em cheio na razão apregoada, e espantar-se então por haver tanta ironia nas leis do destino como rigor há nas da gravidade?

8.7.20

Pelo menos uma vez por semana o mais novo pede-me outro irmão ou, se escolher não for abuso, uma irmãzinha. As coisas não podem ser assim, explico, uma mulher sensata não se presta a dar fruto com a leviandade com que o fazem as flores, a quem bastam borboletas ou ventos favoráveis, nem como os animais, que cumprem os desígnios da espécie sem ponderar além do instante. Mas ao inocente pouco dizem as minhas razões e quanto maior o detalhe com que as exponho menor a importância que lhes dá. No seu espírito, ainda livre do sarilho de teses com que se fundamentam os passos da vida e a que no conjunto chamamos de maturidade, a boa intenção é suficiente para o valor de uma ideia e o sucesso de um projeto. Ignora ainda em quantas dúvidas e obstáculos podem tropeçar as boas intenções ao longo do seu nobre caminho e como tantas delas se esbardalham e se levantam com outra cara, novo nome e rumo oposto.

7.7.20

É difícil definir as causas e até os instantes que precipitam a avalancha. Basta que seja realmente suspensa a engrenagem por uns segundos. Não me refiro ao trânsito, às lojas, aos restaurantes, que esses já respiram moribundos, mas a tudo o que dá corpo à certeza de que, apesar do muito que se adia, o essencial se preserva: o fluxo intenso de trabalho, o amor com os miúdos, o banho diário, o ciclo menstrual, os asanas, as faturas, o lume brando na cozinha, o chocolate, o avanço nas páginas dos livros, as mensagens que chegam de longe, como parece que todas agora chegam. Quando tudo isso pára ou, não parando, é pensado como coisa concreta, avulsa, no seu devido lugar, o lugar do que consola mas não salva, como facto que é o que é e o que pode – e pode pouco – começo a fervilhar, prendo o cabelo, calço as sapatilhas e faço os caminhos desertos ao redor da casa, dou voltas ao quarteirão, desço e subo passeios. E para caminhar mais depressa invento que a minha fúria é contra a calçada e o asfalto, e que a saudade que tenho é do que vem depois da esquina, da rotunda, da papelaria, do pão quente, da praceta, da alameda, mais adiante, sempre mais adiante. Ou imagino que o perigo me persegue a passos largos sem me lembrar do que sei tão bem – que o perigo verdadeiro nunca vem atrás, espera-nos à frente, mudo e quedo, quantas vezes incrustado na geometria do mais plácido e belo de todos os horizontes.
Volto para a casa aceitando, como um ratinho de gaiola, que dei vinte giros na roda sem ir a lado algum. E então lamento por todos os que fazem o mesmo que eu e desperdiçam a energia a rugir como leões.

* Abril 2020

1.7.20

Quem nunca viu desfeito no pó das ruínas o áureo esplendor de um palácio e não conhece pelo menos uma história de amor interrompida por uma traição? A quem nunca pareceu de repente nova a rua onde sempre morou, quem não experimentou a certeza de que o dia raia sempre loiro e dócil depois de uma noite de inferno e quem nunca viu medrar, em felicidade e plenitude, alguém que à nascença tenha sido condenado a uma vida breve? Ah, o mundo dá muitas voltas, tem reveses e avanços, e pode ser nessa banalidade que o Marco do ginásio busca consolo. Quando recebe, em golpes frios e fundos, a indiferença da rapariga da papelaria, talvez lamba as feridas investindo o pensamento no dia em que ela há de sucumbir, porque ninguém resiste tanto tempo entrincheirado. A dor, que para ela tem sido cruz e conforto, já mais do que desbotou como os trapos sem uso que só por hábito e apego conservamos. Mais cedo ou mais tarde, dar-lhe-á a fome ou a sede, a pele ressentir-se-á da falta de um arrepio e talvez então procure outro corpo, outro ninho, outra vida. Nesse dia, lá estará ele. 

26.6.20

Gabi e a cabeleireira queimam o tempo livre com cigarros, posando como um par de jarras à entrada do salão vazio. Ao verem que passo sem propósito de entrar, embarcam nessa prática comum em certas mulheres – da qual nem se apercebem por ser já tique –, que é a de olhar as outras de cima a baixo, tirando todas as medidas e conclusões que as turbulências de uma imaginação mal aproveitada lhes ditam. Sorrio, consciente de que logo tomam como certeza o que quer que ocorra como suspeita. Mas diz-me a experiência que, no fundo, é sempre maior a tortura de quem engendra a história do que quem dela é personagem. E se há dias em que as personagens são elas, dias tem de haver em que quem descansa sou eu enquanto elaboram os outros a meu respeito. 

23.6.20

O cheiro áspero das sardinhas assadas, trá-lo o vento dos terraços, varandas e marquises onde hoje se faz a festa. Nem um santo se atreve a desautorizar o poder superior e chamar o povo para as ruas, misturando os seus odores, hálitos e suores. Não haverá baile nem cantoria nas pracetas ribeirinhas, nem despontarão paixões entre estranhos que se cruzem na ponte debaixo do fogo, nenhum beijo será dado ao acaso no embalo da folia e velhos conhecidos que desde o último ano não se viam resistirão à leviandade de um abraço. De martelinhos nem pio. Na rotunda, não virá com a brisa o cheiro de farturas, nem haverá ganapada aos encontrões, bêbados a cobiçar as nádegas das raparigas que jogam matraquilhos ou carteiristas de olho no bolso cheio dos estrangeiros. Não se ouvirão gritos de bravura nem promessas de amor no topo da volta da roda gigante. Pela primeira vez nesta data, as praias amanhecerão vazias. E na placidez rosada dessas primeiras horas, quando baixam no ar a temperatura e a melancolia, hão de circular devagarinho pela marginal os carros patrulha, certificando-se que a pretexto do santo não acamparam ali jovens amantes de circunstância nem ressacados sem pernas para voltar a casa. 
Mas amanhã, apesar dos esforços, todos seremos ainda mortais. 

22.6.20

O retomar dos velhos ritmos da vida e da cidade tem-me mantido desinteressada de escrever. Ignorando se e quando voltarei a ser privada do mundo lá de fora, do seu bulício, dos benefícios da civilização e do convívio com os que me são queridos, sinto-me agora como a adolescente acabada de se emancipar, sôfrega e inquieta, engendrando formas seguras de fazer, estar e acontecer, mas também desejando coisas mundanas, prazeres ligeiros e superficiais. Não me espanto de ver que todos estamos iguais, porque outra coisa não imaginei durante os quase três meses de reclusão. No jogo da futurologia nunca entro com uma dose de esperança superior à de que preciso para estar em pé. Pergunto-me, aliás, de onde terá vindo a ideia romântica de que deste susto global se havia de erguer uma humanidade renovada, finalmente distinguindo o acessório do essencial, mais dedicada à natureza e ao próximo, com mais apreço pelo tempo do que pelo dinheiro. Acredito que seremos todos cada vez mais polidos, porque mais censurados, vigiados, criticados, regulados, mas nunca seremos melhores do que ontem fomos.

19.6.20

Na papelaria comentam-se os amores e desamores das revistas cor-de-rosa, as paixões súbitas, os casamentos desfeitos, as trocas e traições. Entristecida, a rapariga abana a cabeça. Despreza essa realidade cujos brilhos mal escondem os dissabores e as desgraças, diz que o amor verdadeiro não é aquilo, é uma coisa para sempre, capaz de vencer os enguiços criados pelas rotinas da fama, as ausências prolongadas, até certos vícios e erros que o mundo não perdoa. O seu romantismo seria inofensivo e até gracioso se as velhas, que raspam sôfregas os cartões da fortuna, não lhe dessem um acabamento embrutecido com os clichés que aprenderam das suas mães, por sua vez aprendidos das avós e por ai adiante: que o segredo do amor eterno está nas cedências, na adaptação, em ir mudando para fazer feliz o outro. A rapariga indigna-se, arregala o olho, levanta o queixo, apruma o indicador, era o que mais faltava, quem me ama é como eu sou, não quer que eu seja antes assim ou assado, que me pareça com esta ou faça como aquela!
A mãe estava até agora calada, encolhida junto à fotocopiadora, a limpar-lhe manchinhas e poeiras com um modo distraído, de quem anda longe ou prepara alguma. Mas por qualquer razão que ao entendimento geral escapa, vemo-la de repente enfunar-se e, muito crua, muito fria, como se em inimiga da filha incarnasse ou quisesse ajustar contas muito antigas: 
– Ai é? Então diz-me lá quem é que te ama? 
Sorte a minha, que já tenho o troco, saio e livro-me de ver o coração da rapariga da papelaria sangrar em ferida aberta pela própria mãe.

16.6.20

Conta-me uma história sem ambição de explicar o mundo, que isso é tarefa para as pessoas vulgares. Conta-me uma que lhe puxe o tapete e o deixe sem pé. Sabes bem o gozo que tiro de ficar a ver se ele se aguenta, como sustém os seus falsos alicerces e com que fôlego respira. Aflita, acabarei, claro, por lhe deitar a mão e acomodá-lo-ei onde a minha lógica tiver uma vaga ou as verdades que conheço possam afastar-se um pouco para lhe dar chão. É para isso que me servem as histórias que ouço e leio, para me dar conta dos espaços que ainda tenho em branco, reconfigurar a minha consciência das coisas, arrancar as estacas, desincrustar as pedras e os mofos, baralhar e repartir, mas jamais dar como terminada ou suficiente a visão humana, débil, rasteira, que tenho do mundo.

13.6.20

Se consideramos que os Homens bons podem ter grumos no caráter, porque não havemos de considerar também nos perversos um coração disposto à ternura e capaz de gestos de valor, ou que ambos sejam duas faces de uma só moeda, dois rostos do mesmo Homem? Quem inventou para o mundo esta divisão entre corruptos e inocentes, fracos e fortes, ladrões e honestos, traidores e leais, adúlteros e fiéis, doentes e lúcidos, que de forma tão básica e fútil compõe o nosso senso de justiça quotidiano? E esta veia que apurámos ao longo dos tempos e começamos a praticar com os próprios filhos assim que nascem, que reside na atribuição de castigo para uns e recompensa para outros, terá sentido algum se for sempre julgada a parte pelo todo e se em quem julga coabitam igualmente as duas faces? E de que aflições sofrem esses que por tudo e por nada se lançam a apregoar a própria moral dizendo eu seria incapaz de tal coisa, como se quem quer que seja algum dia desta vida chegasse a saber ao certo tudo aquilo de que é capaz?

5.6.20

– Acredite que lhe dou o desconto por ser uma senhora. 
Assim fala o senhor Pereira à viúva, tentando pôr água na fervura de uma desavença por causa do SUV mal estacionado. Está seguro de ter escolhido as palavras certas por entender que, não havendo flores ao alcance, a bajulação é o caminho mais curto para refrear o sangue de uma fêmea. A viúva até reconhece o hábito de largar o carro sem critério nem respeito, no meio da rua, em cima dos passeios, a morder as rampas, mas ainda assim abespinha-se com o despropósito do comentário. Avança e, antes de ofender as distâncias impostas, detém-se a olhá-lo com a sua firmeza curvilínea e cheia de brilhos, enquanto ele balouça nos calcanhares, de mãos nos bolsos. 
Mas eis que ela se encosta ao mercedes dele, levanta a saia, destranca as portas do inferno e convida-o a entrar. O senhor Pereira nem de um segundo precisa para se encher do maior dos entusiasmos, agarra-lhe a cabeleira negra e desata a apunhalar o ventre dela sobre aquele capô tão polido que não merecia servir o desvario. Enquanto a viúva larga a céu aberto o riso carmim e lhe espeta as unhas nas costas amarrotadas pela idade e pelo sol das latitudes tropicais, ele, todo franzido e com a língua de fora, parece um garoto esforçado em dar o passo maior que a perna. O escarcéu chama à janela a mulher que, ao ver o que nem nas capas dos meus livros, ampara o peito com a mão e, porque as forças lhe faltam, pede o auxílio de Deus num fio de voz. Mas Deus lava as mãos do resultado imprestável da sua criação e não vem acudi-la sequer com um leque ou uma aguinha açucarada. A imperatriz, que passa com Joaquim encaixado no quadril, ri-se e tapa os olhos ao pequenito porque não o quer já sabedor daqueles combates animais que o desejo propicia e nem sequer teria como explicar-lhe que dali pode vir felicidade ou até frutos benditos como ele. E as duas filhas do senhor Pereira, paralisadas de indignação à porta do prédio, amaldiçoam a raça masculina, essa espécie toda feita por igual – exceção feita aos seus maridos, uns companheirões. Mas aquele frenesi, pese embora o enérgico investimento do senhor Pereira, acaba por se extinguir sem que nenhum dos dois chegue a tirar vantagem. E a viúva, com um gesto de impaciência, quase pena, empurra-o: deixe lá, eu dou-lhe o desconto. 
Ah, nada disto, claro. A viúva e o senhor Pereira preservam a distância que os livra de todos os vírus e impulsos, confrontam-se apenas com os olhos e ela, talvez por saber que são vãs as discussões entre os que falam línguas diferentes, responde-lhe: 
– Que desilusão, que tremenda desilusão me saiu o senhor.

2.6.20

Nomear a orquídea foi quanto bastou para atrair a má sorte. Nada eleva tanto quanto a atribuição de um nome, é um gesto a favor da singularidade e contra o esquecimento. Além disso, com um nome pode viver-se uma história e Isabela também reclamou a sua. Mas, mais sensata do que a antecessora, não chamou a si a desgraça atirando-se de corola aberta ao primeiro que lhe exibiu artes de caçador. Outro caminho que não o da entrega irrefletida levou Isabela a experimentar a perda e a desolação.
Foi dito e mostrado aqui o esplendor em que se encontrava, atingindo em beleza e graciosidade um nível que a outra nem sonhou. E não se ficou pelo que viram. Isabela floriu com tal exuberância que a certa altura havia nos seus braços escancarados nem mais nem menos do que treze corolas, todas desenhadas com igual rigor e revelando ao toque a mesma macieza e aparentando a mesma candura. Ao chegar a este estado apesar dos meus descuidos e da minha indiferença, Isabela mostrou ter fibra e provou não serem disparatadas de todo essas máximas da autoajuda que apregoam a suficiência do amor-próprio na construção do sucesso. 
É sabido, porém, que qualquer virtude está sempre encostada à raia de um terrível defeito e que basta uma distração, um exagero, um deslumbramento, para que tudo vire o seu oposto, tal como a sobredosagem transforma em veneno o mais inofensivo dos remédios. Assim creio que terá acontecido a Isabela. Se o amor por si mesma primeiro lhe garantiu a sobrevivência, depois cresceu ao ponto de se transformar em vaidade. E quanto mais vaidosa, mais na sua beleza investiu, fazendo brotar novas flores, jamais satisfeita com as que já tinha. Sob o peso de tamanha florescência, duas das três hastes foram vergando, vergando, vergando, até que um dia quebraram definitivamente, deixando Isabela reduzida à haste principal, numa beleza minimalista que, depois de tanta opulência, até parece miséria. Em números – para quem assim prefere medir a amplitude das desgraças – traduz-se a coisa em dez corolas caídas no chão da minha sala e três sobreviventes e viçosas, na haste de origem.
Tentei salvar as hastes quebradas enterrando-as diretamente no vaso, com esperança de que elas larguem a firmar raízes na busca instintiva de alimento. É isso que hoje mostro, para que se testemunhe não só a abundância de flores que Isabela deu ao mundo como também o meu esforço em recuperá-las. E fica claro que embora eu me preste muito a fantasiar sentimentos, tenho realidade que baste para não ter de aldrabar nos factos.
Sei que devia ter educado o crescimento de Isabela com a ciência disponível no google. Por isso também desta vez vou chafurdar na culpa, banhar-me na sua lama agridoce e reservar para mim mesma as mais cruéis palavras de desprezo. E assim, caso alguém pretenda censurar-me, saiba que já vem tarde. 

28.5.20

A uma mulher, cansa muito carregar o próprio corpo a vida inteira. É certo que os homens também carregam os seus fardos e para que não falhem na tarefa a natureza concedeu-lhes costas amplas. Mas eles, se lhes aprouver, atiram fora a carga ao fim dia, dispensam-na, mandam à fava o capataz, trocam de serviço ou escolhem mandriar. Nós temos a carga de nascença, sem escolha, e a nossa rotina é libertá-la em conta-gotas. Entre sangue, leite ou filhos, não há uma que não doa quando vaza, que não cheire, suje ou rasgue, que não corroa as fibras, os tecidos, as dobras. Por mais que no mundo nos seja dada a voz, o direito e o poder – por caridade, após conjeturas e deliberações de assembleia ou porque alguma se sacrificou até à morte pelas outras – e ainda que aos homens um dia seja dada a faculdade de entender – porque saber não é o mesmo que entender – nada poderá aliviar-nos dessa carga desigual, que às vezes morde os rins como um cão raivoso e espeta agulhas nos seios e despedaça o ventre em golpes duros. E na hora em que esses lugares do corpo deixem de sofrer por se retirarem do ofício da fertilidade, terão de ser vigiados em dobro, com olhos, sondas, dedos, porque neles a morte costuma ter gosto em largar a sua âncora. Quanta ingratidão.

19.5.20

De resto, também é preciso dizer que tudo perdeu graça e glamour. Acabou a solidariedade de varanda, as receitas de pão caseiro, as odes ao café de italiana e aos passarinhos. Nunca mais se fez prosa rebuscada sobre os planos do universo, nem sobre a revolta da natureza, essa coitada tão oprimida que se armou de um vírus do diabo para justamente destituir os poderosos. Talvez os sermões que o pivô das notícias deu como quem dá esmolinha já não inspirem ninguém. É de tristeza e apatia a face visível dos adolescentes do colégio lisboeta que hoje vinha no jornal. Há novos casos de padres incapazes de dominar o gosto sórdido por carne tenra. Da porta da papelaria a rapariga atira-me acenos vivos, cheios de uma estival feminilidade, e o Marco do ginásio, ao passar para nenhures com a chave da porta que ainda não pode abrir, apanha-os no ar julgando que lhe são dirigidos. Está um dia muito bonito e a morte ronda as moradas de todos nós com pezinhos de lã ou patadas de besta, consoante o fado de cada um, sem novidade, como desde que o mundo é mundo. Quem foi que disse que nunca mais seriamos os mesmos?

15.5.20

Ao ver a fotografia da Valentina, a menina cuja história não tem verbo que lhe sirva nem justiça que se faça, reparo como os seus olhos irradiam a luz própria das crianças afortunadas e espanto-me com a ideia de a desgraça poder ter o mais insuspeito e suave de todos os rostos.

14.5.20

Noto, com alívio, que começam a abrir os olhos aqueles que, na solidez das suas casas, na concavidade dos seus sofás, na sua melancolia de chazinho e poesia, acreditaram que o coronavírus era uma oportunidade para sairmos melhores e regressarmos aos valores essenciais. A estufa de sentimentalidades onde se colheram as mais suculentas pieguices e de onde alguns conseguiram até arrancar argumentos de júbilo pela paz em que se sentiam encarcerados nas suas casas, começa finalmente a perder viço. Estar confortável com uma tragédia que outras maiores arrastará consigo por largo tempo, se não é egoísmo, há de ser ignorância, e se nem uma nem outra, só sobra religião. Depois, como é costume, ainda aparecem os entendidos com o seu portefólio de chavões, a lembrar que nas épocas de crise o espírito está recetivo como um ventre maduro e nele podem ser concebidas ideias magníficas, nunca antes nem de longe vislumbradas. Acredito, mas por cada ideia luminosa que desponte, que abra portas, reinvente caminhos, dê lucro e fôlego para recuperar, quantas ideias obscuras, de morte, violência e desalento se concebem?

12.5.20

Talvez porque eu tenha merecido, agindo com paciência e resignação, aceitando as nossas diferenças, relevando o que jamais devia ter condenado, a minha orquídea abriu-me finalmente três braços carregadinhos de pétalas brancas, aveludadas como pele de bebé. Para premiá-la, levei-a mais uma vez à janela e tirei-lhe o retrato, fazendo assim prova da sua abundância e autorizando-a seduzir quem andasse de passeio pela rua. Mas com o tempo de cara tão feia, o dorso da serra desaparecido atrás das nuvens, as folhas das árvores a suspirarem ao vento pela demora da primavera, as ruas tristonhas e o mundo cheio de preocupações, nada nem ninguém pareceu dispor-se a adorar beldades desabrochadas em ambiente doméstico, entre o calor humano, ignorantes das agruras da vida, sem mossas ou traumas na sua delicadeza. 
Depois do retrato, devolvi-a ao lugar do costume, que é no chão, à sombra de uma areca, ao lado de uma estante. Reconheço ser injusto da minha parte encafuar uma orquídea a pretexto de um castigo sobre a estupidez de outra, que – não me canso de repetir – morreu babadinha por um gato vadio. Mas compenso de outro modo. Por ter restaurado a minha fé na boa vontade das orquídeas, que eu julgava viverem para exclusiva satisfação dos próprios caprichos, merece a maior das honras: ser nomeada. Isabela. 


9.5.20

Entre todos os alívios que a existência humana reconhece e pelos quais suplica – nas maioria das vezes em silêncio por serem da esfera da intimidade – e que, quando alcançados, propiciam um delicioso afrouxamento dos nervos e dos músculos, uma suave inclinação da cabeça e aquele sorriso lânguido, de olhos revirados e a par de um longo suspiro, dou agora conta de mais um: tirar a máscara ao entrar em casa. Mas depois do deleite primeiro que é ter o ar fresco no rosto como se de um bem raro e de dura conquista se tratasse, depois de o inspirar profundamente, de ele subir limpo, novo, por cada uma das narinas, depois do gozo de o sentir dar a volta completa nos pulmões, sou tomada por aquela melancolia que segue o êxtase, aquele fumozinho que resta após o fogo se extinguir.
Olho a máscara, largada onde deverá purgar o mal de que é suspeita e que agora se impõe considerar o pior dos piores, atirando para um perigoso esquecimento tudo o mais que mói e mata com requintada malvadez, e penso: a que raio de mordaça, açaime ou amarra veio agora obrigar-se a humanidade! Numa hora destas, em que o mundo parecia girar sem grande novidade, as desigualdades já tão velhas, o círculo vicioso das guerras, o sangue coagulado nas fronteiras, os tronos côncavos dos mesmos corpos, o solo farto dos mesmos mortos, a miséria e a abundância chocando em encruzilhadas obscuras, a má distribuição da felicidade, a justiça a morar num barraco, a inteligência obrigada a prestar serviço à estupidez geração após geração, nós tão desgraçadamente acostumados a tudo como se fosse nada, e de repente, com este solavanco, coisa tão pouca como respirar em liberdade torna-se o mais difícil e delicado de todos os prazeres.

5.5.20

À porta dos correios:
– Fique descansada que assim que entrar ponho a máscara, tem é de ser com o nariz de fora senão abafo.

4.5.20

Em casa do meu vizinho, não sei por ação de que virose, as lógicas estão do avesso. Agora, é ela quem fala mais. De meia em meia hora, ó Vasco, caramba pá, uma voz melada e sem fé, como a da mãe depois de cem vezes ter mandado ao filho que arrumasse o quarto. A criatura, que de manhã à noite berrava descontente do mundo que lhe coube, só a espaços manifesta as suas iras inocentes e animais, a fome, o frio, o sono. E ele parece curado do mal da vitimização, foi-se a choraminguice por não ser reconhecido pelo empenho nas tarefas domésticas ou por não poder explicar até ao fim o que, quem sabe, talvez nem tenha explicação. Enfim, o cansaço vai mantendo em lume brando mágoas e ressentimentos, quanto mais não seja porque assim com as portas cerradas o risco de explosão aumenta e entre a trabalheira de apanhar estilhaços ou continuar em modo morno e preguiçoso, parece óbvia a escolha.
Mas ontem, pelo meio não sei de que conversa, ouvi-o de novo erguer a voz – que por ser naturalmente dócil não causa grande susto – e dizer tal qual:
- Estás sempre nhe-nhe-nhe, nhe-nhe-nhe, nhe-nhe-nhe, não te calas, pareces a minha mãe!
Julguei que dali fosse rebentar discussão mas só silêncio e a água a correr no meu lava-louça. E talvez porque ela o tenha ignorado, coisa que fere, acima de todas as outras, o ego esperto de um provocador, ele investiu com mais força:
- É que pareces mesmo a minha mãe, apre!
Nada. Mas à noitinha, a cama deles rangeu com um ritmo suave, amoroso, como há muito eu não ouvia.

29.4.20

Ah, a minha avó gostava dos bons rapazes. Parece que estou a ouvi-la a dizer, agradada, quase derretida, gosto muito de fulano, parece ser tão bom rapaz. Referia-se sempre a homens moderados, incapazes de uma desobediência, respeitadores absolutos de todas as formas de soberania, ordeiros, nunca um murro na mesa, nunca uma porta batida, jamais uma verdade que desarrumasse muito. Os bons rapazes sabem onde devem estar, quando devem falar, como devem ser prestáveis. Gentis com as senhoras, de trato fácil com os cavalheiros, disponíveis no trabalho. Haverá mais conveniente do que isto? E se alguém, por um acaso improvável, os ouvir levantar a voz é para dizer, tomados de muita razão, eu não admito a sicrano que me faça tal coisa. Mas admitem, por não terem alternativa ou por ela custar demasiado para a bolsa empobrecida da sua coragem. 
Eram esses, os bons rapazes, os que garantiam um bom casamento, dizia a minha avó com o espírito cheio de temores e o coração embalado pelo romantismo simples das telenovelas.

28.4.20

Para fazer de mim uma boa católica, a minha avó contava-me sobre o trágico destino de todos os que provocaram a ira de deus ou puseram em causa o seu bom nome. Na maioria das vezes contava na cozinha, enquanto descascava as batatas para a sopa ou estalava a cebola no azeite. Mas em certos dias fazia-o com mais gravidade, sentada na arca grande do hall, uma arca de madeira escura, maciça, toda trabalhada, onde envelheciam serviços de jantar e outras relíquias. Aí, na penumbra, enquanto eu baloiçava os pezinhos a dois palmos do chão, ela desfiava um rol de desgraças verídicas cujo rumo teria sido oposto se houvesse um bocadinho mais de temor a Deus, respeito a Jesus Cristo e devoção Nossa Senhora de Fátima. A única de que me lembro, porém, é a do homem que menosprezou o poder divino durante uma violenta trovoada e cerrou o punho, apontando-o aos céus e rugindo uma ameaça: “Ele que atire cá pra baixo que eu devolvo lá pra cima”. 
Ao contar isto a minha avó franzia-se toda com a emoção, gostava de enfatizar as histórias, trazê-las ao presente, fazer-me sentir o medo, a mágoa, a raiva que a consumiam. Eu, deslumbrada com tamanha ousadia, e depois? Ah, depois, só de lembrar arrepiava. Veio do céu uma coisinha, disparada como bala em direção ao homem. Mas que coisinha? Era um brilhante assim deste tamanho, e definia-o com o polegar e o indicador, o rosto muito impressionado como se tudo estivesse ali outra vez. O brilhante surgira de forma tão rápida e era tal o seu fulgor, que os que testemunharam – e não foram poucos – ficaram assombrados. E vendo como certo que deus era autor e remetente do fenómeno, redobraram o temor que já lhe tinham. E depois? Não souberam mais, porque correram todos a abrigar-se e cada um acendeu velas e rezou o quanto pôde debaixo do seu telhado. Mas o que era, afinal? E com os seus lábios rugosos, sempre trespassados de lamentos e tensões, a minha avó respondia: fosse o que fosse, era o castigo merecido.