20.4.17

A primavera, às vezes

Nas redondezas, o frio polar guardou por muito tempo as misérias dentro de portas. Andaram recolhidos os bêbados, os jovens desavindos, as chocadeiras de boatos. Os cães pouco ladraram, não houve rumor ou cheiro de ameaça. Até os bichinhos carpinteiros das crianças realizaram o ciclo da hibernação. O parque infantil ficou entregue ao abandono, dando a ideia de não haver futuro para este lugar. Todos os dias, mesmo ao fim de semana, os ociosos foram despachados do café muito antes das oito. E com a noite, caía sobre a praceta um vazio espesso, insuportável, que é o vazio das ausências demoradas. 
Quem estivesse só de passagem havia de ver em tudo isto a tão romanceada paz bucólica. Os mais citadinos, esses que deliram com qualquer cheirinho de terra húmida, interpretariam esta quietude de morte como a sábia e feliz resignação daqueles que vivem dos ciclos. O que o inverno tem de bom é a ilusão de que a vida não dói, só se faz esperar. Depois vem a primavera esclarecer o equívoco. O calor varre a geada dos prados, nas árvores despontam botões de muitas cores e o canto dos pássaros antecipa o nascer do sol, toda a natureza é um coração aberto e disposto, chamando as misérias para que saiam de volta da lareira e tornem às ruas. De madrugada, às vezes, que susto! Um pontapé num contentor do lixo, o chiar de travões no asfalto, uma ladainha agoniada, um estrondo que pode ser disparo ou embate, a viatura de emergência médica gemendo para se enfiar em becos impossíveis. Os cães, desassossegados, ladram aos espíritos que migram no vento de leste.
Numa destas noites, afligi-me com a súplica de uma voz masculina: Deixa-me, mãe! Deixa-me ir, tenho de ir! E no meio de um choro convulsivo, desesperado, humilhado, uma voz rouca disse não até perder as forças. Quando saí, manhã cedo, procurei em vão aquela mãe entre as mulheres que iam a caminho do lavadouro público, já suando em bica sob as trouxas de roupa suja. 

18.4.17

De esperanças

A rapariga da papelaria está grávida. E eu sem suspeitar, atribuindo à primavera a luz aumentada nos seus olhos e na sua pele, a tendência para sorrir de coisa nenhuma, a languidez dos movimentos. Também não estranhei a presença frequente da mãe, a dar apoio nas rotinas de trabalho. Por isso, quando a rapariga me anuncia a boa nova, à queima-roupa, gaguejo, sem saber que emoção demonstrar. Então não estava ela ainda à espera de um amor real, recusando-se a aventuras e namoricos de circunstância?
Faz-me muitas perguntas, provavelmente as mesmas que já fez e fará a todas as outras mulheres. Também enjoei? Deu-me o sono a horas impróprias? Pratiquei desporto? Que creme para evitar estrias? Quantos fatinhos comprei? Dói muito? Respondo com paciência e generosidade, embora saiba que os meus sapatos não lhe servirão nos pés. 
A mãe vai sorrindo a espaços, com alguma ternura. Porém, o que nela salta à vista é o coração apertado, aquela angústia grave, permanente, funda, que rouba a paz de espírito e que a rapariga da papelaria, lá para o final do ano, também conhecerá, sem reversão possível. Com o ar de quem desgosta de um prato ou de um vestido:
- Eu não queria que fosse assim. Mas ela... 
- Ó mamã, lá vem você! Eu é que tenho de querer!
- Tu e ele! Ou não foram dois a fazê-lo?
- Tudo se resolve com o tempo, mamã. 
Ah! A boca do povo põe a rolar muitas falsidades e agarramo-nos a elas com uma fé que enternece. Mas a rapariga da papelaria está de esperanças e é, por isso, seu dever acreditar em finais felizes. Vou embora a lembrar-me que a gravidez não constava da lista de objetivos que ela formulou para 2017. Ignoro qual a história, o desatino, o equívoco, a vontade, o sentimento, a urgência ou a promessa que concebeu este filho. Mas só por vê-la assim, feliz e renovada, alegro-me de saber que o destino se marimba para os nossos planos.

17.4.17

Um domingo tão lindo

Numa esplanada dos subúrbios, fala-se sobre a morte de um homem. Tirou férias para visitar os filhos emigrados no centro da Europa e ficou a meio do caminho, encarcerado no próprio automóvel. Na mesa ao meu lado, dividem-se os géneros na abordagem à tragédia. Dois homens suspendem a leitura do jornal para adivinhar as causas do acidente. Viatura em mau estado, talvez óleo no asfalto, pneus carecas ou algum obstáculo inesperado. A mulher que está com eles desaperta dois botões da camisa para dar o peito ao sol e lamenta as ironias do destino. Não conhecia de perto a vítima mas pode dizer-se que lhe era familiar. Pelo facebook sabia da sua bondade e dedicação às coisas da terra, bem se via que era gente querida pelo entusiasmo, pela graça e pelos inúmeros talentos que, sem cobrar, punha à disposição de todos. Logo ele havia de morrer! Que critério é o de Deus? Sono, concluem os homens. Há gente assim, irresponsável, faz-se à estrada sem noção da lonjura e do esforço. Diz que ele era tão alegre, tão amigo! insiste a mulher. Eles, surdos: a maioria das vezes nem preparam o automóvel para uma viagem destas! Ela quieta, de olhos fechados, consigo mesma: está toda a gente muito abalada lá na freguesia, é uma perda sem tamanho. Eles, reabrindo os jornais: excesso de velocidade, de certeza, é o costume, o portuguesinho tem a mania que é artista... Ela, resignada, esvaziando-se num suspiro: que tristeza esta, num domingo tão lindo.

12.4.17

A salvação

Num dos muitos textos apagados deste blogue, contei da Luisinha, que fracassou ao tentar embarcar na derradeira viagem da qual esperava a salvação. Até hoje me intriga e fascina que o tenha feito precisamente quando a felicidade parecia instalar-se, em grande, na sua vida. Em todo o caso, não fez os cortes nos pulsos com a devida ciência e deixou pistas suficientes para ser resgatada no limite.
Durante o tempo em que esteve internada os médicos proibiram-na de ver aqueles a quem ela queria bem. Podia, portanto, estar a Luisinha a morrer de solidão e culpa, desde que o músculo cardíaco não parasse de bater. E é assim que a medicina vai aumentando ganhos e territórios. 
A novidade é que, passado o susto e assentada a poeira, ela conheceu o Vasco, contou-lhe a sua história, as suas fraquezas, a sua terrível vocação para a dor. Enterneceram-se, comoveram-se, ficaram ligados. Não tardou que ele a pedisse em casamento. Entre baba e ranho, a Luisinha aceitou, aliviada por ver que, afinal, a morte não era a única forma de salvação. Mais tarde viria a descobrir que também não é única maneira de se dar cabo da vida.
Durante algum tempo temeu-se que aquela nova onda de felicidade voltasse a precipitá-la no abismo. Foi vigiada, protegida, satisfeita, e o noivo redobrou os afetos e a compaixão pois não queria perder a mais sedutora mistura que pode encontrar-se numa mulher: beleza e fragilidade. Além disso, a tragédia crónica da Luisinha veio dar cor e utilidade à sua pacata existência de ruminante, que já vinha de longe. Ser o salvador e o guardião de uma mulher é um cargo muito ambicionado pela maioria dos homens.
De modos que a  Luisinha casou com tudo aquilo que era seu direito e muito mais bonita do que no dia em que se meteu a brincar com a morte. No final da boda, o Vasco garantiu aos sogros que a mulher ficaria em boas mãos, ele próprio vigiaria a perigosa relação dela com soporíferos e objetos cortantes e se encarregaria de lhe lembrar as horas certas da medicação. E todos se emocionaram com a grandeza daquele amor.

10.4.17

Pétalas

A menina tem a cara do irmão, a quem me afeiçoei por via de longas trocas de olhares. Veem ambos o mundo através de duas azeitonas pretas, gulosas e húmidas, o sorriso é poupadinho mas honesto, e as narinas, sensíveis, estremecem como pétalas com a cadência do respirar. 
A graça que os liga, presumo que a inventaram para salvar a visão do mundo porque herança não é de certeza. Às oito da manhã, o pai envenena-se no tasco. Sai de lá branco como a morte, impermeável a desgostos, perigos ou alegrias, olhando com uma transparência desumana, opiácea. Atravessa ruas sem cuidados, entra em cheio com os pés nas poças, embate cego nas soleiras e nos postes. Muitas vezes é deus quem o acode no limite, insistindo em mantê-lo vivo. Aos quarenta anos, é uma tragédia sem poética, que se evita com os olhos para mais depressa apagar da memória. A mãe, que é um monstro de corpo, pernas grossas como troncos, peito e ombros com larguezas de macho, revela muitas sobras de infância quando a olhamos de perto. E ao vê-la caminhar de mão dada com os filhos, não se percebe quem guia quem, quem ampara quem, que desgraça é causa e que desgraça será consequência.

7.4.17

Dialética do senhor e do escravo

Jantei uma vez com o meu antigo patrão sem saber que o era. Coisas que nos enredos de Hollywood são comuns, mas na vida real só por diabólica ironia acontecem. Partilhámos o vinho, enchemos a barriga, ainda nos consolámos com sobremesa e café. Havia mais gente, mas a conversa absorveu-nos e tudo foi reduzido a névoa e rumor. Discutimos Kant, Hegel e Marx, discordámos em tudo, rebati com juvenil e inconsequente paixão cada uma das teorias que me apresentou, acusei-o de ignorar a realidade, questionei o valor do seu percurso académico. De igual modo, ele menosprezou a utilidade do meu ofício. Julguei estar na posse de um trunfo quando, no embalo da conversa, percebi que ele ignorava ser correto, em certos casos, colocar uma vírgula junto de um "e". Ri-me tanto quanto pude, superior, desconhecendo quem tinha diante de mim. Ainda nem trinta anos fizera e a moderação não era coisa que eu privilegiasse nas relações humanas. Lembro de ele ter perguntado se eu achava que, na decisão de invadir a Polónia, Hitler se socorrera da gramática. De enfiada, sem me dar tempo, bombardeou-me com dezenas de exemplos em que os líderes fizeram e desfizeram a História sem que as vírgulas contassem para coisa alguma, do Império Romano à guerra do Golfo. E para fechar o círculo, com o olhar afiado, brilhando do tinto e da vitória: o senhor não precisa das vírgulas do escravo
No dia seguinte mandaram-me à administração. Entrei no gabinete e congelei quando a cadeira giratória se voltou e um riso muito fresco e irónico me saudou. Era a hora de decidir se o meu período de experiência me elevaria aos quadros da empresa ou me atiraria para o olho da rua. 

5.4.17

A carta

Na clandestinidade, ando a fazer tesouro dos bilhetinhos que o mais velho trocou nas aulas com as raparigas e que me pediu o favor de descartar por neles só ver enlevos tolos de pré-adolescência. Ora, não se pode fazer lixo do que algum dia, mesmo que em idade menor, tenha predisposto o coração à poesia. E assim, já que ele me havia autorizado a lê-los, autorizei-me a mim própria a guardá-los, segura de que em menos de vinte anos ele achará graça à recordação e me agradecerá pelo cuidado.
São bilhetinhos amorosos, de passos lentos, pontuados de dúvidas e suposições. A linguagem beneficia dos floreados que só à inocência se desculpam. Confiaram em muitas mãos para circularem a salvo do olho felino das professoras, por baixo das carteiras, dentro de esferográficas, entalados nas páginas dos manuais. Tenho-os agora numa caixa de metal, a mesma que há muitos anos serviu para guardar outros bilhetinhos.
O meu objetivo maior é, porém, a carta. A carta de amor, a melhor que alguma vez li fora de encenações literárias. Espero, paciente, que ele a descarte também para me apropriar daquele rolo enlaçado com fita azul que lhe foi entregue num fim de tarde de outono, uma beleza, da caligrafia ao sentimento, da sintaxe à inteligência. Sei onde está, não lhe mexo mas cobiço-a, desejo-a, morro de medo que a traça a devore, que o descuido a amarfanhe, que o tempo a desbote. De longe a longe pergunto: a carta? Está guardada. Mesquinha, procuro trocar-lhe as voltas: está a ocupar-te espaço, nunca mais estiveram juntos, nem lhe respondeste. Nada. A carta, arrumada entre medalhas, projetos de viagens, esboços de focinhos equídeos, é capítulo de uma história onde eu não entro. 
Às vezes vejo-a, a autora. Ultrapassou-me em tamanho, mas cumprimenta-me ainda com deslumbramento e reverência, sou a mãe dele. Ignora que sei a carta de cor e que estou solidária com cada palavra, pois a maturidade não muda nem uma vírgula ao modo de o amor se revelar. Valem pouco os quase trinta anos de vida que nos separam. 

4.4.17

Um lugar para o senhor Pereira

Persiste na implicância com a juventude, o senhor Pereira. Quando me vê caminhar lenta, ó menina, se eu tivesse a sua idade não tinha essa moleza. Se calha eu andar mais ligeirinha, quando chegar a velha vai perceber que foi inútil correr. Feliz pelas coisas que possuo, o vosso problema é que nem se lembram de quem não tem nada. Triste pelo que me falta, vocês agora não dão valor ao que têm. Vendo-me sair de carro, antigamente fazíamos muitos quilómetros a pé, automóvel era um luxo. Se vou de bicicleta, que desperdício, um automóvel na garagem e vai ao pão assim? Saio a pé e se trabalhasse como trabalhávamos antigamente não se aguentava nas canetas. Aparecendo-lhe os meus filhos alegres, faladores, a criançada agora é muito irrequieta, não se controla. Mas se os sente macambúzios ou introspetivos, hoje em dia é só facilidades e mesmo assim andam sempre insatisfeitos, vá-se lá perceber... Boas notas? O que conta são os ensinamentos da vida. Notas fracas? Sem estudar não se vai a lado nenhum.
Nada que venha de um menor de cinquenta anos obterá a concordância do senhor Pereira. Terá sempre uma verdade superior, com legitimidade para desaprovar e diminuir. Viveu o vinte e cinco de abril e para ele isso é a condição da maturidade, sendo que a ideia de viver o vinte e cinco de abril é apenas a de ter nascido antes da revolta pois não creio que o senhor Pereira tenha dado o corpo ao manifesto ou sofrido, nem no pré nem no pós, mais do que mera inquietação com os tostões amealhados na banca. De modos que se ri de mim por eu usar fraldas à data. Nada sei sobre ditadura e liberdade. Nada posso saber sobre coisa alguma.
Vejo-o passar no carro novo, devagar, cheio de cuidados, tenso, de olhos arregalados, medroso de qualquer risco ou caganita na pintura, mal medindo as distâncias, travando súbito por tudo e por nada, dando voltas e voltas ao quarteirão em busca de estacionamento com suficiente largueza. 
- Boa tarde, senhor Pereira.
- Boa tarde, menina. Apre! que isto agora é só carros, só carros, só carros, não há um raio de um lugar!
Bufa. E a pintura metalizada do automóvel brilha com esplendor, encandeia a visão e apaga todos os horizontes à volta.

3.4.17

Sirsasana

Sete e meia da manhã, cheira a sândalo e eu estou na penumbra, de cabeça para baixo, vertical como uma estaca, esforçando-me por acreditar que uma respiração profunda e fluida é profilaxia de quase todos os males de corpo e espírito. Nada deveria corromper o meu pensamento nesta hora. Porém, parece-me um desperdício não dar uso completo à cabeça, incluindo delírios e divagações, precisamente quando ela é a grande beneficiária do meu sangue. Assalta-me então a ideia de que isto me anda a dar cabo da vida. Como posso ganhar o pão vivendo apaziguada, de que me serve o domínio das nobres virtudes da paciência e da aceitação? Que linha de jeito se escreve sem um desassossego, um medo, uma paixão, uma lembrança maldita? Enrolo-me, componho-me, retomo devagar a postura que por algum motivo deus ordenou aos humanos: a razão no topo, o coração adiante. Visto-me e saio para a rua ansiando por um combate que me ponha de novo o sangue a ferver. Tenho saúde, cabeça, dois filhos pequenos entrando no mundo a passo acelerado. Não posso encostar a espada quando tudo está de pernas para o ar. 
Regresso amanhã para continuar a praticar a urgente consciência disto.

31.3.17

Madrugada

Não sei se choro por vê-lo partir ou por me lembrar de quando quem partia era eu.

30.3.17

Metades

Escreve-me uma senhora indignada, ou assim me pareceu pelo emotivo abuso da pontuação: e acha bem que o amor seja uma desculpa para a violência?!?!??? tenha cuidado com o que diz!!!!
Minha senhora, não sou guia espiritual, cronista remunerada de assuntos sociais, conselheira do programa das manhãs. Cuidado com o que digo, tenho na presença dos meus filhos. Vivendo sob a minha exclusiva responsabilidade, estão, por enquanto, submetidos ao meu exemplo e às minhas orientações. Mas os leitores são crescidos, seria uma agressão à sua inteligência usar de paninhos quentes ou presumir que leem os meus textos para decidir as suas vidas. 
De resto, não escrevo sobre o que acho bem ou acho mal. Escrevo sobre o que acho ou me surge como evidência. A miséria a pretexto do amor é uma evidência. Mas escrevo só metade, é o que basta. Que graça há em dizer tudo, fechar o círculo, pintar as cores do retrato, formular o juízo e a moral? A outra metade fica para o leitor pensar, imaginar, acrescentar, se no mote vir interesse ou desafio. A senhora é a única responsável pelo que fez com a metade que lhe dei.

29.3.17

*

Ao amor, quase tudo é consentido: o nó cego, o engano, a violência, a usura. Diz-se só fiz isto porque te amo e é como atirar a culpa à criança mais doce e inocente por saber que ninguém tem a frieza de a  castigar.

28.3.17

Branco

Bastou dizer-te que gostava do branco e logo me apareceste com flores brancas, lenços brancos, uma caixa de bombons de chocolate branco. Vestiste camisa branca, mostraste-me os dentes brancos, confessaste que também tinhas páginas em branco. Depois vinho branco, arroz branco, carne branca, couve branca. Hei de ter cabelos brancos, ainda disseste, como se eu precisasse da tua velhice para alguma coisa. E a morte, lembraste, traz a visão de uma luz branca. Para me agradares, tudo de uma assentada. Até me faltar o ar e, de tudo ser tão branco, acabei por desejar o verde mas não te disse, com medo que viesses logo plantar um jardim na minha casa.

24.3.17

Dia do estudante

Hoje é o dia do estudante e com a mesma resignação os alunos entraram nas escolas e à mesma hora se fecharam os portões, apartando o mundo de dentro e o mundo de fora como se inimigos fossem. E pelo brio das pautas e por um amanhã igual ao ontem se continuou a trabalhar, de olhos nos manuais, de braços baixos, em silêncio, silêncio, silêncio, SILÊNCIO POR FAVOR!  

23.3.17

Um amor cura-se com outro

Com a morte trágica da Julieta, revelou-se a minha falta de jeito para lidar com delicadezas e snobismos. Afetada, vaidosa, quase ofendida, Julieta não sobreviveu ao meu amor desprendido, ao facto de eu ter negligenciado a sua importância na decoração e de a ter usado para validar teorias existenciais. 
Como é próprio dos que sofrem desgostos e frustrações, durante algum tempo decidi não mais responsabilizar-me por plantas. E, vendo bem, de que me serve uma orquídea tão perfeita que parece falsa e cujas necessidades o meu instinto não alcança, obrigando-me a recorrer à ciência googliana? Mas depois, arrefecidos os ânimos e relativizadas as perdas, cedi à máxima de que um amor se cura com outro e aceitei, com infantil esperança, um cato, uma suculenta e um arbusto que os amigos me deram de presente. Pareceu-me desde logo mais simples cuidar do que não dá flor ou, pelo menos, não tem nela a superior expressão. Sem essa face delicada, erótica, bela e perversa da vida, que apetece tocar, exibir, fotografar, a dimensão trágica de qualquer perda será, com certeza, menor.
Tenho então aqui as plantas, coabitando em paz com o meu desleixo, anónimas, enraizadas em terra vulgar, dessa que pela cor e pelo toque dá sinal de necessidade ou abundância. Está tudo bem para elas, têm firmeza e resiliência, cai-lhes uma folhinha e logo desponta outra, o clima não lhes define os humores. E, de resto, reagem muito bem às mezinhas bizarras com que, em jeito de experiência, as alimento. 

21.3.17

Um país carente

Na semana passada descobri que o meu país está profundamente carente. E, por processos que talvez os especialistas da psique saibam explicar, canalizam e alimentam um grande amor, não pelos livros, não pelo prazer da leitura, não pelo que aprendem com a frase, o parágrafo, o cenário criado, a visão revelada, mas pelos próprios escritores, ainda que não os conheçam. Mas, tal como acontece numa grande parte dos amores, é sempre chegado o dia em que a realidade não bate certo com a ilegítima e irreal fantasia que costuma dominar os corações mais débeis. Então, começam os amuos e as birrinhas, formulam-se acusações, fazem-se cobranças, enviam-se faturas, exige-se o divórcio. E o pior, o que mais assusta, é aquele gesto novelesco, dramático, de lançar as roupas do outro pela janela, proporcionando a toda a vizinhança um espetáculo que, se pouco tem de dignidade, menos tem ainda de tolerância. 

10.3.17

Fácil é a vida dos outros*

A vida dos outros, ah, quantas vezes nos parece redondinha, simples, a bater certo com as necessidades, cheia de confortos e conveniências, com poucas e brandas dores e ainda com vantagens extra caídas do céu! O Pedro, por exemplo, acha que a vida do António é fácil, porque o António tem um contrato de trabalho e um salário ao fim do mês, e salário, como se sabe, é sinónimo de independência. Mas o António acha a vida do Pedro fácil porque o Pedro é estagiário, ninguém o pressiona e pode sair às seis horas em ponto e também acha fácil a vida da Marta, que é contabilista e a única coisa que tem de fazer é organizar papéis e dedilhar na calculadora. A Marta acha fácil a vida do António, parece ser divertido passar o dia a escrevinhar coisas, afina aqui, retoca ali, e depois o orgulho de ver tudo exposto na rua e nas revistas, assim como acha fácil a vida da Célia, que limpa e varre os escritórios de fio a pavio enquanto canta canções de amor, concentração zero, responsabilidade nula. A Célia acha fácil a vida da Marta, que trabalha sem levantar o rabo da cadeira e não chega ao fim do dia com o corpo moído e doente, assim como acha fácil a vida do José que, com o cargo que tem na direção, ganha que chegue para férias decentes em paraísos orientais. O José acha fácil a vida da Célia, que consegue tirar os vinte e dois dias a que tem direito e esparramar-se ao sol, pensando em nada, no relvado da praça ou na varanda de casa, e também acha fácil a vida do Carlos, o dono da empresa, que beneficia do luxo enquanto os outros dão o corpo ao manifesto para que o barco se aguente. Mas o Carlos acha fácil a vida do José, que só não desliga ao fim de semana porque não quer e não tem às costas o sustento de vinte famílias, assim como acha fácil a vida do Rogério, que goza, no espírito e na carne, a sua liberdade de solteiro, sem horas marcadas nem mensagens para responder. O Rogério acha fácil a vida do Carlos que, quando regressa a casa, tem juras de amor, mimos, afagos e uma cama morna e acha ainda fácil a vida da Isabel, a última mulher com quem dormiu por acaso, que numa sessão fotográfica ganha para três meses. A Isabel acha fácil a vida do Rogério, que tem trabalho certo e previsível e em quem, pelo menos, veem mais do que um corpo bonito e também acha fácil a vida da Mariana, que não tem um filho para sustentar e para lhe dar cabo da paciência ao fim do dia. A Mariana acha fácil a vida da Isabel, que não precisa de se injetar com hormonas nem fazer sexo em horas certas para despistar a infertilidade, mas também acha fácil a vida do irmão Miguel, que num golpe de sorte e talento se tornou um escritor mediático. O Miguel acha fácil a vida da Mariana, porque uma dona de casa não faz ideia do que é a crítica e do quanto pode pesar o reconhecimento público e também acha fácil a vida do filho Francisco, a quem a adolescência não exige mais do que tempo para ir às aulas e outro tanto para matar com noitadas e miúdas. O Francisco acha fácil a vida do pai Miguel, que não precisa já de se esforçar para mostrar o que vale e encontrou o seu lugar no mundo, e também acha fácil a vida da irmãzinha Laura, que não tem os pais nem o universo inteiro contra ela. A Laura acha fácil a vida do irmão Francisco, que vai para a cama à hora que quer e passa férias com os amigos e acha mesmo muito fácil a vida do primo recém-nascido João, que repousa tranquilo no peito materno e não faz ideia que a tabuada pode ser o inferno na terra. Mas o João, que acaba de rasgar o ventre da mãe, que com ela trabalhou violentamente durante oito horas para vir ao mundo, que num repente lhe foi arrancado embatendo contra o frio, a luz e o barulho, que foi remexido, vasculhado, aspirado, medido e revirado por três pares de mãos, que na brevidade dos sessenta minutos seguintes teve de aprender a respirar, a chorar, a cheirar, a comer e a digerir, o João talvez saiba que nunca nada na vida será fácil para ninguém. Infelizmente, o João esquecerá tudo isto porque a memória tem misteriosos caprichos. E um dia também achará fácil a vida do António, que acha fácil a vida da Marta.

* post de Abril de 2012, republicado para o senhor Pereira que hoje, ao ver-me passar com um calhamaço, suspirou se eu tivesse a sua vida, também lia livros de seiscentas páginas. E para mim, que fiquei a vê-lo arrancar no novo, potente e brilhante automóvel e a pensar rica vida, hein?

9.3.17

*

O amor é mais verdadeiro quando dele não se espera o filho, a casa, as férias, a estabilidade. Meter o amor no saco dos projetos de vida é o que o corrompe e deturpa. Ama-se com honestidade depois das vulgares realizações, quando sobra e vem à tona exatamente apenas o que somos. E por isso um amor novo no coração dos velhos é feliz e desprendido.
Até lá, ama-se uma expectativa, não uma realidade. Sorte a daqueles – raros – em que há coincidência.  

8.3.17

Os direitos

A minha caixa de e-mail lembra-me que, por ser mulher, tenho hoje mais direitos do que nunca. Tenho direito a quinze por cento de desconto na compra de calçado de boa marca. Tenho direito a escolher três conjuntos de lingerie e pagar dois. Tenho direito a qualquer livro por um preço que aos homens está vedado. Tenho direito a aceder, com condições especiais, à nova coleção de acessórios e bijuteria. Tenho direito a dois pares de óculos de sol se introduzir o código promocional. 
A minha caixa de e-mail lembra-me que, por ser mulher, é esta a vastidão das minhas possibilidades e são estas as grandezas que mereço. E eu: obrigada mas não preciso. Tenho tudo o que quero, tenho voz, tenho pulso, tenho rumo, tenho pernas, tenho sexo, tenho género, tenho génio, tenho filhos, tenho gosto, tenho contas, tenho espelho, tenho casa, tenho tempo, muito tempo. Ninguém me corta a palavra, o salário ou o corpo. Ninguém me levanta a mão ou o tom. 
Caros senhores do carnaval do mundo, costureiros de lantejoulas, operários da poeira colorida, engenheiros de euforias e paliativos: foi engano, o dia não é para mim. Mas, enfim, àquelas que penam e precisam, de nada servem os direitos que estais dispostos a conceder, os vossos stocks por escoar, a etiqueta cosida a sangue no avesso.

7.3.17

Verdade e mentira

Tendo a família e os amigos como visitas deste espaço, sujeito-me a muitas perguntas e a alguns pedidos. Cruzam o que leem com o que sabem do meu quotidiano e lançam-se a decifrar as entrelinhas ou a subentender rostos por trás dos nomes. Querem saber que papelaria é essa que eu frequento e cuja funcionária apetece ouvir de viva voz. Também há quem peça para ir à minha cabeleireiraE é grande a curiosidade que desperta a dona Maria Isabel ao levantar-me o queixo com os seus dedos maduros, de sangue nobre. Mas a maioria das perguntas são acerca da identidade do senhor Pereira, cujo verdadeiro nome está e estará, obviamente, a salvo. 
Talvez eu dê contornos demasiado generosos às pessoas, fazendo-as mais interessantes do que na realidade são. Ou apenas limpo o que está à volta de modo a que se note o que habitualmente ninguém vê. Em todo caso, sendo certo que o que aqui conto é a mais pura das verdades, impõe-se o adorno com as mais inofensivas mentiras. É real a rapariga da papelaria, porém, ela pode ser da mercearia e podem ser beterrabas os cromos que lhe compro, sem que isso faça diferença. Já a cabeleireira e a sua lúcida e desbocada manicura podem estar trocadas e ser a primeira quem arranja as unhas e a segunda quem corta o cabelo ou uma e outra serem apenas enfermeira e auxiliar do centro de saúde, tratando também, mas de outro modo, de cabeças e mãos. E o senhor Pereira? Ora, eu tenho o meu mas cada um terá o seu, se não andar desatento deste mundo. Não há, portanto, em qualquer das minhas personagens, raridade ou estranheza. Interessam-me pelo motivo oposto: porque são vulgares e padecem de males comuns, apenas lhes falta a arte de os disfarçar. Vejo nelas o reflexo de todos os equívocos, desenganos e desesperanças e dá-me pena. Então ponho-me a escrever, contando que isso me garanta o perdão por tão mesquinho sentimento. 

3.3.17

Sonhos

Quando sonho dormindo, os meus colegas são motoristas de autocarro e o mundo tem os traços vertiginosos de uma obra de Gaudí. Há gente que aparece todas as noites, mas sempre muda e queda como um bibelô. As inutilidades que tenho à venda no olx são compradas por funcionários das Finanças. Os mortos desfilam vestidos de noivos. O meu patrão contrata-me para servir de bandeja a mulher dele. Colegas da primária dançam seminus, com plumas e purpurinas, no carnaval de Ovar. Volto ao secundário invariavelmente para os exames de matemática e biologia a que, por distração, faltei. Faço dezenas de quilómetros a pé com os meus filhos através da escuridão. Salvo golfinhos, tartarugas e toxicodependentes. A minha bicicleta já só tem uma roda e atrelo-a ao automóvel do Rui Moreira para conseguir avançar. Entro armada numa escola e obrigo os professores a sentarem-se nas carteiras, sossegados. Subo contigo uma escadaria em caracol, no topo há uma claraboia incandescente, magnética, mas os degraus não têm fim, desisto e volto para trás deslizando com alívio e moleza pelo corrimão.
Infelizmente, durante o dia perco esta facilidade em inventar e enredar, em mudar o rosto e a expressão do mundo, em arrancar aos fundos da memória aqueles de quem já nem o nome recordo, em ceder a impulsos e vontades dos quais não sou consciente. Acordo, levanto-me, os meus pés estão firmes, o sol nasce do lado certo, as paredes têm ângulos retos. Dentro de mim, tenho a razão a fazer peso, a sensatez a puxar, estou do lado sóbrio da vida, mas nem por isso há menos risco.
Gostava mesmo que os meus colegas fossem motoristas de autocarro.

2.3.17

Dois gumes

Temendo a multa, o funcionário despachou-se a abrir outra caixa de propósito para atender a mulher que carregava o filho. Ficámos dez ou doze numa fila só, enquanto ela exerceu o direito a ser rapidamente aviada na qualidade de pessoa acompanhada com criança de colo. Entregou os artigos, pagou, guardou o recibo. Depois, largou a criança no chão e, como quem arreia um animal, passou-lhe os dois sacos, enfiou-lhe o gorro na cabeça e deu ordem: upa! 
Em lugar onde falte ética, a lei pode dar para tudo. Tanto ilumina o caminho aos desatentos como dá ideias aos oportunistas.

1.3.17

Um homem e uma mulher

Mal contados, são quinze os anos que passaram sobre a última vez que estive em Lisboa como turista. Depois disso, só entrevistas e reuniões, ir e vir, nenhum desvio, refeição decente, encontro interessante ou olhar demorado. E agora, que tenho Lisboa ronronando como um animal debaixo dos meus pés já maçados e adormeço sossegada no mais geométrico e lúcido dos seus múltiplos corações e acordo devagar com a oferta de uma nesga deste Tejo de bom feitio e conto, não o tempo que tenho até regressar, mas aquele que ainda me sobra para ficar, o que sinto de novo talvez até nem seja propriamente encanto pela cidade, talvez seja mesmo o gozo de dar o braço a torcer e uma vontade impossível de me deixar estar mais um dia. Lembro a minha cidade encolhida, ensimesmada, também arrogante ao seu jeito porque ao seu jeito estupidamente bela. E penso: se, como dizem, Lisboa é uma mulher e o Porto um homem, porque é que se encontram tantas vezes para negociar e tão poucas para se apaixonar?

17.2.17

Feminista

Desconforta-me o recurso de certas mulheres à exibição do corpo como forma de reclamar a igualdade de género. O meu corpo de fêmea, não o desbarato nem o renego. Cuido dele com amor, para que a passagem dos anos não me seja muito severa. Não me importo de sangrar. Concedo que os meus humores estejam sujeitos às luas. Prefiro dez filhos a rasgarem-me do que um só bisturi que me corte. Porém, são íntimas e sagradas as minhas linhas, as fontes de alimento e prazer, os lugares onde sou vigiada por sondas com uma regularidade obrigada. Tudo no corpo de fêmea é ponteiro do tempo, arritmia, imprevisto, até traição. Não havendo como contrariar essa natureza ou igualá-la a outras, respeito-a, admiro-a, salvaguardo-a, por mais que doa, nauseie ou deixe mácula. 
É a minha forma de ser feminista e orgulhosa, em nada incompatível com o exercício pleno dos meus direitos. 

16.2.17

Círculo

Cumpridas as voltas da vida, cada um acaba por regressar à sua natureza original. Chame-se o que se quiser ao que somos na essência: estrutura, base, perfil, cultura. É lá que está o conforto, o território conhecido, os assuntos que dominamos, os lugares onde seremos vistos, se não como bons, pelo menos como iguais. Sempre voltaremos, para envelhecer, aonde conhecemos os corredores, os sótãos, as arrecadações, o cheiro da humidade, o percurso exato da luz, aonde nenhuma sombra nos engane, nenhum espanto nos desoriente. Até lá podemos fazer muitas viagens de alma, testar a elasticidade do coração, sentir a força tremenda que impele a quebrar o instituído, revolver, revolucionar, desdizer o nosso íntimo, o nosso medo, o nosso sonho mais ou menos idiota, mais ou menos impossível. No caminho, há por onde evoluir, mas não há como mudar. Mais cedo ou mais tarde, fecha-se o círculo. 

15.2.17

Contenção

Talvez o mundo mereça que de vez em quando se diga bem dele e se confie nas suas intenções. É, porém, difícil escrever sobre o que nos assenta, perfeito, no coração: prados verdes, alvoradas limpas, palavras de amor e lealdade, instantes próximos do absoluto, visões que revelam uma lógica justa e digna, horas em que o mal vivido mostra o seu benigno reverso. As minhas alegrias têm uma pobre equivalência verbal. Diminuem-se quando amarradas na sintaxe. Murcham no rigoroso espartilho de vírgulas e pontos. Valem nada lidas fora do círculo íntimo e pessoal. Além disso, ao contrário das tristezas, dos males, das dúvidas, dos desesperos, as alegrias são para fazer durar. E se as exprimo, começo logo a perdê-las. 

13.2.17

Saudinha

A poucos metros da escola, as mães sem ocupação fazem o seu ninho de maledicência e entretêm-se a incubar boatos. Quando passo, interrompem o cochicho. Bom dia, o seu menino está cada vez mais lindo. Quero devolver a simpatia mas falta-me motivo para tal. Sei de cor o modo subtil, bem intencionado, com que usam bater em porta alheia para depois vasculharem toda a casa, desfazerem as camas, abrirem os armários, cheirarem o lixo. Tantos anos a retribuir-lhes com indiferença e não desistem. Quanto mais trancas meto, mais as atiço. E ontem vi o seu mais velho a descer a avenida de bicicleta. Parecia mal agasalhadinho. Ignoro o que fazem da vida, que propósito é o delas, em que nobres divagações se embrenham, que retorno lhes dá tanto investimento em conversa de esquina. Mas olhe que não ia sozinho, ia com a filha do engenheiro Lima. Conhecem os nomes de toda a gente e neles incluem títulos e profissões porque assim as obriga a longa tradição nacional da subserviência e a curvatura nas costas. Sabe que a mulher dele apareceu-lhe um tumor, não sabe? E sobre as desgraças que germinam no recato de cada lar, informam a vizinhança com a intenção mal disfarçada de tirar crédito a conquistas que a elas não foram destinadas. É por isso que eu digo, quero lá saber de sucesso e dinheiro. Importa é saudinha, que sem ela não vou a lado nenhum. A passo arrastado, acabam por seguir todas juntas para o café da igreja, onde até ao fim da manhã ficam ostentando a sua excelente e inútil saudinha, à volta de meias de leite e croissants mistos.

10.2.17

Distância de segurança

Amadureço inclinada para a solidão. Cabelos brancos só dois, não me doem ossos ou dobras do corpo, tenho um sangue limpo de ameaças. Porém, cresce-me um certo acanhamento social, perco o apetite pelo convívio de ocasião e diminuí o número dos que me seduzem para conversar sobre coisas essenciais. Entristece-me o jeito apagado de certas pessoas, nem boi nem vaca, nem raiva nem paixão, nem para trás nem para adiante. Andaram na escola, namoraram, casaram, empregaram-se e foram ficando, cavando lugar. Depois dos trinta, nada mais lhes aconteceu, nada mais construíram, nada mais transformaram, nada mais estudaram. Estão convencidas de que decidem sobre as suas vidas sempre que vão às urnas ou quando respondem se querem fatura com número de contribuinte. Que hei de eu esperar? O que dirão que deslumbre, assuste ou dispare reação? Que amanhã vai chover? Que os filhos só comem sopa passada? Que tudo é muito relativo? Que este é o país que temos? Que nunca mais chega o fim de semana?
Dou comigo saudosa do tempo em que o meu patrão gritava. As suas barbaridades, fazendo eco no corredor, eram a evidência do muito que ainda havia para rebater e transformar. E, ao menos, acordava-me, acelerava-me o pulso, fazia-me gritar também. Mas até ele arrefeceu, tanto lhe dá, é o que for, logo se vê, pode ser, e a mão dele pousa no meu ombro com frouxidão e indiferença como se fosse o fim do mundo e nada mais houvesse a fazer. 
Mais duas décadas, se as viver, e serei um bicho do buraco. Esquecerei o tempo das minhas grandes interações, dos meus atrevimentos, do gosto de falar para muitos ao mesmo tempo, da vontade de saber quem está comigo e quem está contra. Aos poucos voltarei a ser a menina que fui: tímida, melancólica, tirando as medidas aos outros com a devida distância de segurança. 

2.2.17

Mãe incompetente

O mais novo julga que as ilhas dos Açores são barcaças esquecidas no mar alto há muito tempo. Há nelas, ainda, resíduos de carga explosiva usada em batalhas travadas pelo domínio dos oceanos. Quando as águas fervem ou as bocas dos vulcões cospem brasas e fumaças, é porque ainda rebentam, com mais ou menos força, essas sobras muito bem escondidas na estrutura das barcaças. Tremem amiúde devido à presença de criaturas marinhas que não se conformam com a perturbação do seu habitat e manifestam o desgosto baloiçando caudas, tentáculos e barbatanas. Nunca se sabe quando uma dessas criaturas se revoltará em nome de várias gerações antepassadas sacudindo com violência maior uma ou outra barcaça.
Sendo ele inclinado às ciências exatas, às objetividades enciclopédicas e à face do mundo que os sentidos podem atestar, é fácil perceber que na génese destes equívocos estão insinuações minhas. Não é por mal. Só quero prevenir nele o aborrecimento que mais cedo ou mais tarde dá naqueles que vivem reféns do óbvio, porque o óbvio se esgota depois de lidos todos os factos, decorados todos os nomes, aprendidas todas as características. Sei, por outro lado, que pelos delírios e exercícios de imaginação se pode pagar custo elevado. Logo a seguir à dependência, o medo é o mais pesado. 
À noite vai consultar os livros. Não diz aqui nada disso. Mas, por via das dúvidas, não tenciona pôr os pés nessas barcaças.