23.5.15

Na rua

Só hoje reparei nesta frase, escrita num dos painéis do grande mural de arte urbana da Lionesa: o amor é a mais bela de todas as coisas palpáveis.
(algures a meio, entre outros gritos e subversões)

19.5.15

Nós, graúdos (2)

Ó pá, ou te sentas já ou mando-te com o caralho!, disse o professor à miúda, com os olhos revirados e o punho em riste. A seguir pegou-lhe na mochila e arremessou-a pelo ar.
Mas ninguém filmou. 

16.5.15

Nós, graúdos

O mundo dos graúdos não tem moral para condenar o mundo dos miúdos. Perdeu-a pela falta de memória, pela falta de verdade, pela falta de decência. E pela falta de vontade de viver realmente em paz. Ainda pela falta de coragem para dar cabo dos órgãos de comunicação social, esses abutres que o povo venera de cu sentado no sofá e em quem se inspira, sem raciocínio prévio, para as alarvidades que diz.

13.5.15

Sorrir

Presume-se às vezes – e por engano – que aquele que sorri à vida é aquele a quem a vida nunca deixou de sorrir. É que a dor profunda nunca tem grande expressão e raramente é visível a olho nu. Vive recatada, cavando túneis, e só a espaços ressurge, como os fantasmas, soprando uma brisa gelada, baloiçando um cortinado, levantando poeira, estremecendo o chão, quebrando a moldura de um retrato, escancarando os olhos no meio da noite. Mas não fala nem se mostra e por isso quem vê de fora não acredita que seja real.

11.5.15

Em pontas

Desde os cinco anos que as meninas eram intelectualmente domesticadas com lições de piano e ballet, tinham castigo castigo quando as notas iam abaixo dos noventa e haviam de ser todas médicas, ou do coração ou dos dentes. Nas horas vagas — que, a bem dizer, eram só as férias grandes — namoravam marginais para tomar o gosto à rebeldia, pelo gozo puro de afrontar as mamãs, que tinham pânico de escândalos e de noite suavam muito, não disso que se possa julgar, mas dos pesadelos com famílias indisfarçavelmente desfeitas e olhadas de viés. Durante a semana, estas mamãs sofriam de ócio e enxaquecas e tomavam calmantes para lidar com as empregadas. Na tentativa de as serenar e prevenir mais motivos para colapsos nervosos, os papás apertavam o cerco às filhas, aumentando-lhes o número de aulas de piano e as horas de dedicação às ciências da vida. Ao fim de semana juntavam-se em casa uns dos outros, as mamãs riam muito, cruzando a perna com elegância de manual, e os papás comentavam as manchetes. Na dúvida, tratavam-se todos por doutor
Saí com elas meia dúzia de vezes. Com as meninas, claro. Sofriam da histeria própria dos que só raramente provam a liberdade e era um espanto ver como, achando-se fora e longe de casa, enchiam a boca para dizer obscenidades, palavrões e contar anedotas porcas, rindo muito alto, com os cabelos impecavelmente presos em laçarotes acetinados, batom branco metálico e o último grito da moda bem assente sobre os corpinhos tratados. Nunca deram conversa que valesse, nem a disparatar eram boas, o sentido de humor era vulgar e estridente. Perdiam-se em amores febris por um par de nádegas masculinas, contanto que estivessem cobertas com as calças da melhor etiqueta. A cada semana, a paixão era nova e manifestavam-na com guinchos e saltinhos nas pontas dos pés. Um dia descobriram que eu tinha dois amigos de beleza superior e com aquela inteligência rara que dispensa o marranço para dar nas vistas. Não me deram repouso enquanto não lhos apresentei, encheram-me de atenções, monopolizaram-me e levaram-me, forçada, às suas casas, onde eu pasmei de ver como subitamente se transformavam em meninas bem ajustadas e de ouvir, entre os adultos, conversas tão grandiosas e fecundas como 
- A arte é, de facto, uma coisa maravilhosa! 
- Tem razão, Ângela Maria, eu também gosto muito de arte.
- Somos da mesma opinião, então. 
Parecendo que não, considero muito estas meninas. "Doidas varridas", assim lhes chamaram mais tarde os meus amigos com desdém, apesar de terem vacilado das pernas e da inteligência quando elas estenderam as boquinhas em branco metálico que, no escuro, lembravam as dos vampiros. Mas fizeram tão bem as asneiras, sendo tontas à socapa, fumando charros na sombra, deixando-se comer atrás dos muros, limpando o batom com as costas da mão antes de entrar em casa, que nunca ninguém desdisse as suas virtudes. E, equilibradas em pontas ao som dos noturnos de Chopin, com fitas, tules, grinaldas, encarnando pássaros e virgens, deixavam as mamãs com lágrimas nos olhos, sonhando sonhos que não eram para qualquer uma.

7.5.15

Falta de graça

Apercebo-me de que as pessoas em geral gostam mais da minha companhia quando eu não escrevo. É que nesses dias tenho bom feitio, desbarato conversa em qualquer lugar, dou conselhos muito práticos, presto francamente atenção a tudo o que me sugerem, até a receitas de bolos, programas de televisão, ou restaurantes de sushi. Chego ao cúmulo de compreender lamúrias de mãe, amores imprestáveis, inteligências medíocres. De consentir que me aldrabem. E de serenar os outros dizendo ridicularias como tem paciência, que tudo se vai resolver. 
São dias em que sorrio mais, mas, em boa verdade, não vejo graça em coisa alguma.

6.5.15

Paz

Maio é, com efeito, o mês da mãe que sou. Nasceram-me os filhos sob o signo de uma raça possante, obstinada, capaz de pasmar e ruminar sossegadamente durante horas desde que ninguém provoque ou se agite em grande folclores. Amei-os desde o primeiro instante - e no que respeita aos assuntos da maternidade, pouco me importa que as estatísticas, os livros ou as outras digam diferente e até oposto. Não chorei de coisa alguma, não tive achaques nem euforias, mas sim, amei-os com profundidade desde que me disseram é agora, vá! e senti que, dos pés à cabeça, trabalhávamos juntos para atravessar o mais delicado dos caminhos. E esse é agora, semelhante ao que, anos mais tarde, ouvi diante da morte, foi a evidência mais tremenda, a mais estranha mistura de humildade e poder que já me foi dada a sentir.
Nasceram perfeitos, livres de manchas e deformações de esforço, talvez porque foram paridos com mansidão, como quem sopra para despertar as brasas de uma fogueira. Então - gosto de acreditar nisto - chegaram apaziguados e por isso as enfermeiras e as auxiliares vinham gabar-mos, a pele tão leitosa, o sono tão brando, sinais de sofrimento nem vê-los, que bem pareciam dar-se já com a sensação do mundo. Ao que diziam nos manuais ou pelos corredores do hospital se apregoava ou as mais experientes ditavam, fiz-me surda. Com o tempo, desistiram de me aconselhar sobre o que não perguntei e assim fui amando sem dicas, sugestões e método científico, como uma fêmea vulgar, dessas que deus criou para viverem de acordo com as luas e os cheiros. Mantive-os pacificamente encaixados na dobra da minha axila, dormi com a boca pousada nas suas testas e não houve para eles alimento que não me saísse do corpo: calor, afago, cantiga, história. 
Mas a paz, todos o sabemos, não é a verdadeira e honesta intenção do mundo. É um intervalo no seu perpétuo movimento, oferecido a espaços, para recobro da alma e sustento de doses razoáveis de fé e ilusão. Mais cedo ou mais tarde retoma-se o conflito, o paradoxo, a diferença, o desnível, os combates onde uns andam obrigados, outros por vocação, outros por ignorância. E, de todos, poucos morrem como heróis. 
Tolos, portanto, os que gastam o tempo de paz que lhes coube a brincar às guerras. Ganham louvores de coragem nas páginas dos jornais, mas isso é porque no meio de tanta confusão já não distinguimos entre um fogo de artifício e um tiroteio de sangue.

29.4.15

Breve indisposição

Os moldes em que o plano nacional de leitura é aplicado na escola, cheio de pressas e critérios dúbios, lembram-me aquele hábito antigo de levar os rapazinhos às putas com regularidade, cuidando que isso bastava para eles se garantirem homens.

(coitados dos meus filhos, até hoje nunca me deram más noites, chatices à mesa, dores no corpo ou vergonhas na rua, mas culpo-os todos os dias por me porem indisposta com o país)

22.4.15

World Best Driving Road

Quando comprei o meu primeiro carro, fiz cento e dez quilómetros para ir buscar o meu pai e levei-o comigo até ao Pinhão, onde me esperava uma réplica prometida do mapa Douro Portuguez e Paiz Adjacente, do Barão James Forrester, que até hoje tenho bem à vista na minha casa. Da Régua até lá, deslizámos ambos calados, solenes, como estrangeiros que nunca tivessem visto o espetáculo nem o guardassem na massa do sangue. Para mim, até era, de certa forma, uma estreia, pois era a primeira vez que fazia aquela estrada ao volante e que conduzia o meu próprio pai.
Na volta, assim que a cidade da Régua se revelou, no seu aconchego ribeirinho, feia de causar dó se não fossem as águas pelo seu ventre adentro e o resguardo das encostas vinhateiras, o meu pai, um homem que nunca deixou que os afetos e agrados lhe comprometessem a frontalidade, disse:
- Olha que tu conduzes muito bem, rapariga.
Foi a estrada. Quem nunca a fez ao volante, que a faça e comprove que, de facto, há qualquer coisa que nos leva, com prazer, sem entraves nem cansaços, mão divina que curva e contracurva por nós com suavidade, ritmo, numa estranha sintonia universal. Se é da paisagem, se do modo como a serpente de asfalto ondeia, se da romântica companhia da linha do caminho de ferro, se do rio que, como nenhum outro neste país, inspira grandezas e vitórias, não sei. Mas hoje estou satisfeita ao constatar que não é impressão minha e não é por ser uma filha da terra que vejo a mais ou sinto a mais. O troço da EN222 que liga a Régua ao Pinhão é o melhor do mundo para conduzir, aqui.

17.4.15

Morrer de amor e cantar

Já aqui contei que morri de amor pela primeira vez aos quinze anos. Foi uma morte lenta e dolorosa, deu-me febre, visão turva e desarranjos viscerais por muitos meses. Velei-me como achei que merecia: com enorme piedade, lágrimas a rodos e até a elevação de caráter a que os mártires têm direito. A dor aguda e exposta, que assim violentamente me deitou por terra, terá vindo da minha impreparação para o abandono. Eu tinha crescido abrigadinha em colos, festas e mimos, desconhecia a rejeição e mais ainda a indiferença. Então, à primeira estocada, morri. E, porque tinha apenas quinze anos, as minhas conclusões foram inocentes mas cheias de uma convicção que me enternece lembrar. A primeira foi a de que o amor e a dor variam na razão direta. A segunda, tão comum, foi a de que não voltaria a amar. Sobre ambas estava errada, naturalmente, mas sou feliz por saber que o equívoco se deu na idade justa.
Por esses dias, calhou o meu pai oferecer-me a minha primeira máquina de escrever, um bichinho muito mimoso, usado, com teclado "hcesar", em tons pastel e de arestas meigas, arredondadas. Proprietária exclusiva de um instrumento daqueles, achei que o meu espírito era agora obrigado a grande criações e sentia-me pronta para isso, porque abarrotava de dor, autocomiseração e fatalidade, portanto, meio caminho feito. O outro meio, estava certa de que podia aprender lendo os bons. 
Esta foi a única altura da minha vida em que escrevi poesia. Converti o sofrimento e a adoração em poemas curtos e arrítmicos, de versos brancos, e em outros enormes, com bom corpo, métrica e sem descuido da rima. Para guardar na gaveta fiz com eles um livro, biografia cantada do meu desgosto, coitadinha de mim! 
Um dia tudo passou, conforme predestinaram os mais sábios. A manhã acordou límpida, com uma frescura promissora, e eu era ainda muito jovem, o meu coração sem necrose, a minha esperança afinal pura e intacta. Por isso outros amores vieram, mas por sorte, privilégio ou saúde férrea, não voltei a morrer. E não voltei a escrever poesia.
Ainda hoje acredito que a melhor forma de arrumar uma dor é convertê-la em qualquer coisa de belo, edificá-la, harmonizá-la com o mundo. Terapia para quem sofre, horizonte para quem contempla, e nesse dá-e-recebe, nessa generosidade recíproca, muitas vezes se descobre propósito para o que nos consome. Mesmo que a criação acabe como, mais tarde, os meus poemas: no contentor do lixo de uma avenida junto ao mar.

16.4.15

Deus

Fiz ontem a via de cintura interna atrás de um ford fiesta com um autocolante no vidro traseiro que dizia eu guio mas Deus dirige a minha vida. Além de nós, centenas de outros automóveis seguiam para Este com uma lentidão de dar pena, porque eram três faixas engarrafadas, que, olhando à distância, se assemelhavam a um corpo uno, metálico, triste nas raríssimas variações de cor, rastejando no asfalto. Dentro de cada automóvel um ser humano sozinho, na melhor das hipóteses a companhia de uma criança já murcha no banco de trás ou a Comercial espevitando humores, iludindo a passagem do tempo. Sobre todas as cabeças, do levante ao poente, um céu azul cobalto carregadinho de maus prenúncios, pronto a vazar sem critério as raivas acumuladas.
Saí assim que pude, recusando-me à força e ao sentido da marcha, dizendo cá comigo que, ao invés do fiesta, prefiro que Deus me vá apenas guiando enquanto eu verdadeiramente dirijo a minha vida. E assim, por quatro ou cinco quilómetros deslizei à vontade na estrada, mudei de faixa a meu bel-prazer e à velocidade que me aprouve, feliz por divergir, rindo e cantando de ter deixado para trás quem se habituou aos vagares e à monotonia de um itinerário comum. Mas no auge do entusiasmo e da cantoria, fui obrigada a travar para não embater na fila de automóveis que me apanhou de surpresa ao entrar pela avenida dos bombeiros, depois de uma curva apertada. Foi inútil inverter a marcha. Igual em toda a parte: na zona escolar, à volta da igreja matriz, nas imediações do pavilhão desportivo. Até os atalhos que julgava ser a única a conhecer estavam infestados de gente como eu, com um volante nas mãos e sem ter por onde escapar. 

15.4.15

Herança

O mais velho não desenha cavalos inteiros porque se julga incapaz. Porém, a dedicação que tem a estes animais mantém sempre espertos e definidos na sua mente os másculos contornos, o pelo de veludo reluzente, a rebeldia das crinas, a grata doçura dos olhos após a carícia. A solução é desenhar fragmentos descasados. Um focinho num guardanapo, duas patas erguidas na contracapa de um caderno, a generosa curvatura do dorso no talão do supermercado, mas jamais o cavalo inteiro, unificado, pois mete medo a grandeza do conjunto, onde em definitivo teria de se revelar a proporção, a robustez, o movimento. Se falhasse, o cavalo morreria, convertido a qualquer coisa híbrida e sem nobreza – uma mula, um aleijão, uma vergonha.
Ainda ele tão novo, ainda eu por morrer, e já açambarcou como herança as minhas maiores fragilidades.

13.4.15

A cegonha

Depois das preocupações com o mercado de trabalho, o que os jovenzinhos mais me perguntam é de onde vêm as ideias. Os olhos deles, tão vivos e interessados que me renovam todas as esperanças, anseiam por histórias que alimentem mitos e elevem certos espíritos a uma categoria superior da humanidade, abençoada com visões e murmúrios. Podia contar-lhes a história da cegonha, dizer-lhes que é sentar, esperar, olhar para os céus e, mais dia, menos dia, a ideia chega, castamente embrulhadinha, e cai-nos no colo já limpa, acabada, redonda. Sobra dar um nome, mimar e exibir. Acontece que eu peco às vezes por excesso de razão e, só por isso, há de haver quem julgue que devo manter-me afastada de inocentes e sonhadores. Não que despreze a fantasia, mas uso-a para expandir a realidade, dar-lhe brilho e colorido, jamais para distorcer, levar por caminhos sem saída ou criar excedentes de ilusão. 
Então digo-lhes que a cegonha é mentira. Que sem amor, profundo desejo e entrega, só por obra divina nasce coisa de valor. Uma ideia é trabalho de sangue, vísceras, fluxos, imaginação, prazer, suspiros, cansaço. Mas o mais extraordinário é que no fim, com efeito, até ao próprio ela parece ter caído dos céus.

2.4.15

Coração acelerado

O enfermeiro da medicina no trabalho é um fala-barato, perfeito para um desses anúncios de zero cêntimos para todas as redes. Deitada, pronta para me submeter à avaliação do meu apodrecimento por conta de outrem, sou obrigada a ouvi-lo. Dá-me saudades do enfermeiro do meu centro de saúde, que, falando pouco, é muito bom de conversa e, para me distrair quando sabe que a coisa vai doer, calha lembrar-se do Eça, citar os seus diagnósticos vitalícios sobre o estado da nação ou sobre as fraquezas que levam os Homens a sucumbir às maleitas do amor e da corrupção. 
Mas não é com ele que estou, é com o enfermeiro da medicina no trabalho, um papagaio, um moralista de cartilha decorada, que debita e não escuta. A gente diz eu não como fritos e ele, logo, coma menos fritos. A gente diz não uso açúcar e ele responde em todo o caso, deve cortar no açúcar. Estamos ambos enfiados numa rulote sombria, onde cheira a pele, suor e fadiga. Tenho o peito a descoberto e ele vem armado com os elétrodos, aplicando-os enquanto me vasculha maus hábitos. Tabaco? Café? Álcool? Comprimidos? Sedentarismo? Sal? Pergunto-me quantos pai-nossos e ave-marias terei de rezar depois de responder, tenho ganas de o aldrabar só para ficar a rir-me por dentro (nem sei do quê, prazer gratuito, infantilidade): dois maços por dia, no mínimo seis cafés, um pacote de tinto ordinário a cada refeição, dezasseis horas sentada e oito deitada, pílula para adormecer e pílula para me levantar, sim, é verdade, caminho para a morte como os outros, desculpe lá se acelero, cada um vai como quer desde que não empurre ninguém, havemos certamente de nos encontrar no inferno porque as suas olheiras e a sua tez desmaiada são muito suspeitas
Mas decido não mentir. Sou ajuizada, até vou estimando o corpo, comendo e dormindo com uma decência exemplar. As minhas leviandades, os riscos que piso, os delírios e excessos, são todos do espírito. 
Enquanto procura dominar a maquinaria, o enfermeiro suspira com um ar de principezinho afetado, farto das ignorâncias e impertinências do seu povo, e diz-me que os médicos do serviço público são todos iguais.
- Para eles está sempre tudo bem, nem um eletrocardiograma leem em condições, querem é despachar os pacientes. E são todos, sem exceção!
Há gente assim, a quem a vista curta não permite distinguir fronteira entre o desabafo e a maledicência. Tocou-me o rapazote em área sensível do coração, pois se há coisa que não esqueço é o rosto e o nome de quem me acarinhou de todas as vezes que a vulnerabilidade mais atraiu os oportunistas. Sou utente convicta e defensora do serviço de saúde público, onde encontrei os melhores médicos da minha vida, de abraço pronto e lágrima fácil, ternura paternal, eficiência absoluta, pontualidade, humildade, inteligência. Nem um nem dois nem três. Dezenas. E só me inibo de falar também do meu pai e da minha sobrinha porque fazer vénia aos do nosso sangue anda perto do narcisismo ou pode ser julgado como vulgar cegueira amorosa.
Depois lembro-me da outra, dividida entre o público e dois privados, tentando convencer-me a marcar uma cesariana porque com esta bacia o parto ia acabar mal, virei-lhe costas e fui parir a outra freguesia. Cinco minutos, um grito seco, e eis o meu filho no mundo! E de outro, mais concorrido do que a Senhora da Agonia, com recibo ou sem recibo? Desculpe, eu perguntei quanto é, pode dizer-me quanto é? É como lhe digo, depende se é com recibo ou sem recibo. E do pediatra que trabalhava em três clínicas privadas, sempre duas horas atrasado, consultas até à uma da manhã, os bebés a berrar de fome e cansaço na sala de espera pela noite dentro, as mamãs tolerando porque lhes disseram que era o melhor dos melhores, talvez nas mãos dele nenhuma criança rache a cabeça ou se constipe. 
Fico calada, remoendo todas as minhas recordações e experiências, sentindo a dignidade e a competência de tanta gente boa espezinhada por um fedelho com elétrodos na mão, e penso que vale sempre a pena voltar ao blogue por causa dos preconceitos e da má fé que mantêm este país tísico e amarelinho. 
E com tudo isto centrifugando no meu peito, a sentença revelou-se péssima:
- O seu coração está muito acelerado. Isto não pode ser, minha menina. Veja lá se faz mais exercício.

Vá p'ró inferno, que eu depois então dou uma corridinha a ver se o apanho.

24.3.15

Braço-de-ferro

Barragem de Vilarinho das Furnas. 
2015

Diante da paisagem pergunto-lhes quem tem mais força, ao que o mais velho - por não ter dúvidas - prontamente responde a Natureza e o mais novo - por não ter paciência - logo contrapõe o Homem. Encantam-me os confrontos entre irmãos. Se um diz alhos, há de dizer o outro bugalhos. E isso, que é causa de miúdas desavenças no quotidiano, é também treino de combate, fazendo-os mais fortes e incondicionalmente unidos quando a causa é superior, ou o adversário sou eu e a minha regra está a precisar, com urgência, da exceção.

20.3.15

Equinócio

O corpo humano é vulnerável ao terno fervor da primavera, por mais que a ciência faça para o desviar das fatalidades e a civilização imponha autodomínio. Somos uma espécie como as outras, guiada pelo rasto dos aromas, excitada pela sensualidade das cores, temos os ritmos e a música da bicharada sussurrando cá dentro como prova suprema de vida. Vale a pena celebrar isto – a resistência, a autenticidade que sobra em nós, pulsando, teimosa, para além da teoria e, por enquanto, mais forte que o progresso e a tecnologia. Alegra-me muito (quantas vezes já o disse?) a constatação da soberania da natureza.

 

19.3.15

As miúdas

Às vezes, ao fim da tarde, os rapazinhos entram-me no carro pedinchando boleias e eu gosto. Enchem tudo de uma frescura benfazeja, não obstante a sujidade que trazem nas solas, o cheiro empoeirado dos cabelos e da roupa, a pressa com que falam e se atropelam para que eu lhes dê atenção exclusiva. Por essa hora, tenho ainda na cabeça sobras da jornada de trabalho: decisões tomadas de urgência, dúvidas sintáticas, histórias coxas, prazos por cumprir, mal-entendidos de difícil remedeio. Mas a eles nada esgota o ânimo nem as forças para se indignarem, como convém por ser próprio da idade.
Hoje vêm certos de que a professora de História baralha tudo, ora bolas!, e ainda dizem que são eles, os adolescentes, que andam nas nuvens, desviados do que conta e traz vantagem. Silenciosamente me torno cúmplice das suas queixas. Mas sou adulta, fiz-me mãe, não posso dizer Yah! A stora é bué de chunga, esquece-se que toda a gente tem de ir às nuvens para ver de cima a terra onde terá de assentar o pé pelo resto dos dias, antes peço que me contem o que foi desta vez. 
Foram as questões do teste, traiçoeiras. 
Então porquê? 
Ao invés de perguntar, por exemplo, quais as regiões conquistadas pelo Império Romano - e era canja! - a professora pede que comentem a expansão geográfica do dito Império. Uma complicação. Estão solidários entre si, é um coro de yahs, uma sintonia perfeita de acenos de cabeça, e ao menos isso é bom de ver num mundo onde verdades e afetos só a muito custo se harmonizam. Mas entristece-me vê-los à espera que lhes sirvam de bandeja o abêcê e presumam uma armadilha onde apenas está um desafio.
Já sei, somos preguiçosos para pensar, diz-me um deles, o mais alto, olhos verdes com tamanha luz e vigor que até ofendem o meu cansaço.
Sabem o remédio para isso?
Olham-me ansiosos, esperando fórmula mágica, posologia simples e resultado imediato.
Ler! Ler muito, ler mais! 
Ahhh... Afrouxam, não cuidavam que a solução fosse uma carga de trabalhos, um investimento de tempo, uma quietude impossível. Jogo então uma carta que penso ser de trunfo (pobre de mim, cresço na ingenuidade!): as miúdas gostam de rapazes que leem, dá estilo e confiança.
Feitiço. O tema acende-os. Recuperam o ânimo, a vivacidade do olhar, o ímpeto de se atropelarem nas respostas que me querem dar.  É ver quem mais sabe de miúdas, alguns até de graúdas, cada qual é um poço de experiência e conhecimento que legitima sentenças. Garantem-me que elas apreciam os que sabem falar e ouvir, mas quando é para namorar, os livros que fiquem na estante: querem é os cheirosos e bem vestidos. O que, enfim, lhes facilita bastante a vida.
Gosto muito de canalha. Atabalhoada, indignada e absolutamente cheia de certezas, como eu já perdi o hábito de ser e me agrada tanto lembrar. 

12.3.15

E o futuro?

Mais perdido está quem renega o passado do que quem não vislumbra um futuro. Porque, em todo o caso, não existe futuro algum que se possa vislumbrar. Planos e intenções definem o passo que damos, jamais revelarão o que vem depois da curva ou está atrás da montanha. Só a memória nos localiza absolutamente, nos dá o ponto a partir de onde sabemos que temos de avançar e que é o nosso chão, a nossa paisagem, a nossa perspetiva. 
Tão perigoso como viver preso ao passado é desejar esquecê-lo.

(esta manhã pasmei ao ouvir as previsões futuristas de Michio Kaku, o físico. Da possibilidade de fotografarmos os nossos sonhos ao acordar, até ao scanner de uso doméstico que com dez anos de antecedência nos avisará de um cancro, ele pode enganar-se em tudo se o mundo sofrer revés ou entretanto implodir. Facto, realidade, detalhe quase poético no meio disto tudo, era a bengala em que se apoiava quando subiu ao palco do auditório e em nenhum momento largou)

Embuste

A manhã inteira os gurus tentam convencer-me do quão feliz, confortável e esplêndido será o mundo dentro de cinco anos graças à tecnologia digital e a gente até se esquece de quantos ainda há, à face da mesma terra, ignorando o que é uma lâmpada.

10.3.15

Tranquilidade

Criou-se o universo sem recurso à autoridade dos homens e isso deixa-me tranquila. Tivéssemos sido chamados a sugerir, opinar ou fazer retoques, e provavelmente os planetas circulariam em rota de colisão e as estrelas, ao invés de pairarem neste céu que é de todos, decorariam as paredes de quem tivesse tido a ideia de as acender ou mais possuísse para dar por elas. 
Gosto de contemplar, quieta e calada, tudo o que se está nas tintas para o meu consentimento. Quando me sento na relva, na areia, num penedo, com os olhos e os ouvidos bem atentos, gozo do conforto de tudo sentir e rigorosamente nada poder fazer. É como ficar pequena, entregue ao colo da mãe, onde tudo é perfeição e sabedoria e, por isso, o remédio é calar e confiar.
Neste tempo em que a palavra de ordem é interação e tanta urgência há em trocar, interceder, opinar, vou correndo o risco de me chamarem preguiçosa ou indiferente, mas que me importa? Alegra-me o infinito, a força da gravidade, a beleza intocável, a transformação das montanhas, a verdade elementar dos cursos de água, a superioridade com que uma folha se desprende da árvore e, caindo em terra húmida, é quanto basta para fazer escorregar um homem. 
Com o pensamento nisto tudo, demitida, desresponsabilizada, esta manhã dei comigo à espera que o café vertesse da máquina sem mexer um dedo. Não fosse aparecer alguém que vinha ao mesmo e eu continuaria de braços cruzados, a olhar para uma chávena vazia.

6.3.15

Shiuuuuu...




Sem querer fazer publicidade ao produto, mas apenas uma vénia aos autores do filme. 
(colocar os headphones, por favor)

Galdéria

A culpa, coitada, porque a deixam solteira teve que dar em galdéria. Ninguém a quer, ninguém a assume, ninguém vem de mão dada com ela, ninguém diz apresento-vos a minha culpa, é esta. Então, como sucedia antigamente às mulheres usadas e descartadas, a culpa ficou assim: uma doida, aparece à noitinha, enfia-se na cama de qualquer um e fica ali, a desassossegar, a incendiar, a revolver os lençóis, a adiar a hora do descanso. E de uma cama para outra vai andando, fora de horas, facilmente abraça os solitários, os desamparados, mas de igual modo se enrola com os altivos, os magníficos. Por dentro do escuro e do silêncio, somos todos uma sombra, uma respiração, uma vulnerável horizontalidade.

5.3.15

Espaços de debate

Na leitura de blogues, tão desconcertante como assistir à maledicência gratuita é rever em certos comentários aquela cena do Shrek em que o Burro implora, desvairado, "pick me! pick me!". Felizmente há outros que, por pouco se importarem com juízos alheios e não dependerem da aceitação de estranhos, acrescentam valor sempre que comentam. Por esses, imagino que valha a pena aguentar, volta e meia, o desfile de credenciais de cultura geral, comprovativos fajutos de afinidade e assinaturas de cruz. 
Gabo a paciência de quem tem caixas de comentários abertas. Mesmo sabendo que é isso –eufemisticamente chamado espaço de debate – que garante a sobrevivência de alguns blogues. 

4.3.15

Saldos

Que se vendam por tuta-e-meia os miseráveis, os que são atormentados pela fome, os que se enredaram em vícios, os que vivem a um passo do abismo, só me resta lamentar, deitar a mão no que puder, mas jamais condenar. Ignoro ao que podem levar certas zonas de dor e desespero, que, por serem cobertas de sombra, esbatem as diferenças entre o bem e o mal.
Mas ver em saldo, de joelhos e calças baixas, o sôtor, o empresário, o diretor de departamento, o autarca, rindo de uma simpatia babosa e servil, dando a integridade e a competência à troca de uma dúzia de euros, um almoço de sushi, seis garrafas de alvarinho, uma entrada grátis, espaço para o seu nome num papel sem importância, a fotografia da sobrinha numa revista, isso faz-me corar e pedir um buraco onde me esconda pelo menos eu, de modo a não ver o que já ninguém tem pudor em exibir. 

2.3.15

Segunda-feira

Ah, valha-nos o futebol, as mixórdias da comercial, os vestidos de cor ambígua, as gordas e as magras, as gafes dos famosos carregadas no youtube! Graças a tudo isso consigo ver um sorriso nos deprimidos, entusiasmo nos desmotivados, bravura nos indiferentes, argumento na boca dos que nunca levantam a voz pela sua própria dignidade, paixão e entrega nos que negligenciam as coisas do amor. E como enternece ver unidos, fraternos e afins os que normalmente andam às turras, de candeias às avessas, envenenando pelas costas! Quantos paliativos, quantos estimulantes, quanta analgesia! Valha-nos isso, porque hoje o dia é de acordar cedo, engatar na rotina e, ainda por cima, chove de modo persistente, tal como choveu ontem, anteontem e, provavelmente, há de chover amanhã.

1.3.15

Do gosto

O livro de mais de novecentas páginas, encostei-o para canto assim que venci as cento e setenta. A certa altura, sendo maior o martírio do que o gosto, mais a cisma do que a vontade, é o melhor a fazer. E isto que se diz de um livro poderia dizer-se de qualquer coisa na vida, sendo que a vantagem do livro é ter ficado por pouco mais de vinte euros e arrumar-se pela minha exclusiva vontade, sem perda ou dano, nem para mim nem para o autor, que está morto e enterrado com direito a fama eterna e louvor universal. Não faço eu diferença nos milhões que lhe reconhecem o génio. Mas, infelizmente, também não me fez ele diferença nenhuma.
Pesa-me, no entanto, a consciência. Fica a remoer-me aquela impressão de não ter chegado lá, de a minha inteligência ter estado aquém, de ser por defeito meu que nenhum dos personagens ganhou vida, antes me parecendo fantoches de madeira que, por mais que se descrevam de fio a pavio, da biqueira dos sapatos às curvas do pavilhão auricular, da cadência do ressonar ao modo de lavar os dentes, nunca chegam a ter alma, a mover-se por si mesmos, a ser uma ameaça ou uma promessa, a entrar pelo nosso sono dentro como gente que existisse para além do papel. 

(Hoje perguntaram ao mais velho se ele tinha gostado do Museu do Prado e ele respondeu com um "sim" frouxo e um sorriso diplomático. Logo toda a gente em torno da mesa - gente conhecedora e amante das artes e da beleza - lhe percebeu uma certa angústia e lhe foi dizendo que, caso não tivesse gostado, era livre de o dizer sem vergonhas. Um a um, todos foram manifestando a deceção que sentiram já diante de coisas ditas grandiosas, rompendo consensos e enumerando outras preferências, menos frequentes nas bocas do mundo e nos roteiros turísticos. Aliviado, ele confessou que, tirando uma ou outra coisa, de facto, o museu não o tinha impressionado. Foi um momento verdadeiramente libertador, até as costas se lhe amoleceram. A ditadura do gosto é uma coisa tremenda, um crime contra a sensibilidade e a inteligência, mas que vai ajudando muita gente a orientar-se.)

27.2.15

De sol a sol

Enamorei-me de uma casinha térrea que está à venda numa velha rua dos subúrbios. Primeiro, confesso, foi por piedade que me chamou a atenção. Não chega a ser ruína, mas tem os traços descaídos do abandono, a fachada cheia de cicatrizes, e as janelas, com as persianas diagonais, parecem-me dois olhos de ressaca. A vontade é de lhe estender uma mão e soprar as poeiras para que se revele a sua dignidade, como as mães fazem aos filhos depois das quedas, quando lhes limpam as lágrimas e afastam o cabelo do rosto.
É de pouco interesse descrever esta casa porque nada tem de atraente, a dimensão é abonecada e a arquitetura pobrezinha. Mas sucede às vezes bater-me o coração sem motivo aparente ao reparar em certas coisas. Intuição, sonho ou memória mal arrumada no fundo da consciência podem estar na origem destas súbitas empatias. Não perco tempo à procura de razões, prefiro desfrutar do encantamento que sinto quando vejo a magnificência com que o sol lhe incide de manhã, fazendo-me pressentir nela uma grandeza latente, ouvir um sussurro de felicidade, imaginar como a morada de um sapo poderia tornar-se a de um príncipe. 
Toda a minha vida tive quartos a nascente e assim os quero. Jurar não posso, mas acredito que disso vem o ânimo e a resiliência com que desperto todas as manhãs. Talvez porque andando ao ritmo da Terra, acordando do lado que nela acorda primeiro, me sinta mais integrada nas lógicas do universo e fique naturalmente imbuída do seu cinismo. Simplificando: abrir os olhos e ver a luz do sol derramada na parede, na cama, nos livros de cabeceira, tem em mim o efeito que terão os químicos ou as orações noutras pessoas. Durmo de persianas entreabertas para nunca perder esse instante. 
De modos que, como passo diante da casinha térrea logo de manhã, bem vejo como nela o sol se espraia à larga e ali preguiçará por algumas horas. Imagino que o interior esteja esburacado, cheio de falhas, ferrugens, entupimentos, mas tudo isso me parece ter remédio fácil. Já o sol batendo de frente logo cedo, iluminando com divina generosidade, é coisa que nenhuma obra pode improvisar, nenhuma engenhoca pode substituir. O resto não vejo, mas deduzo haver nas traseiras um quintalzinho modesto, ao abrigo dos curiosos, onde se pode provar a doçura dos poentes de verão. 

24.2.15

Bolha

Há alturas em que preciso de esgravatar tanto para compor uma linha decente, que o único descanso justo seria uma semana inteira de completo analfabetismo. Uma semana em que a palavra, em vez de ser ela mais o seu oposto, a sua rima, o seu sinónimo, a sua fonética, a sua raiz, o que tem de excedente, o que está aquém, o que pode matar ou salvar, em vez de tudo isso que atordoa e atraiçoa, fosse apenas qualquer coisa avulsa, uma casca oca, uma mancha que o cérebro ignorasse e nem fizesse diferença ao coração.
Oito horas por dia, cinco dias por semana, recompensam-me o esforço com dinheiro. Fora isso, é maior a perda do que o ganho, pois em alturas assim não dou pelo caminho que faço, não valorizo o que me estão a dizer e passam-me ao lado os grandes eventos do dia. Por sorte, a espessura da bolha também amortece choques e turva o rosto dos que magoam.

21.2.15

Se viesses comigo, princesa...

Às dez da manhã, os homens já estão a atestar-se na bomba de gasolina. É uma fileira deles encostados às botijas de gás, de cerveja na mão, mirando o horizonte como se nele vissem mais do que a olho nu se oferece: a mata de eucaliptos, as ruelas convergindo para a igreja, o ponto de fuga da estrada nacional. Falam do pouco que lhes ocorre, a bola, os buracos no asfalto, o preço das trivialidades. À passagem de uma mulher, os olhos ganham uma energia animal, as costas arqueiam, vai um gole e um suspiro:
- Se viesses comigo não te faltava nada, princesa...
As garrafas encontram-se ao meio para um brinde. Em menos que um ai, vertem tudo goela abaixo. Há que ir buscar mais. Nos dedos, brilha o ouro da felicidade por contrato. Pergunto-me o que terão estes homens prometido às suas mulheres para que elas dissessem sim à miséria deste quotidiano. Sei que por esta hora vertem lágrimas enquanto picam cebola, aquecem-se no lume vivo do fogão, depositam todas as suas esperanças nos filhos, veem novelas sonhando que também um dia hão de ser levadas para a cama nos braços de um homem de hálito fresco e que os seus desejos serão considerados com paciência e generosidade, em verdadeira comunhão, rumo a uma existência superior. Nesse dia - ah, se chegasse... - não precisariam de se juntar no largo do pelourinho para, esforçadamente, defender aqueles que por destino lhes couberam, tem lá os seus defeitos mas é um bom homem, o que é preciso é compreensão, vamos andando.
Porém, vão estes homens andando porque comparecem na bomba às primeiras horas da manhã. Escoam o dinheiro em cerveja, talvez mais do que o que eu dou pela gasolina, ganham ânimo à medida que o veneno encorpa o sangue e dilata o estômago. Na minha volta ainda lá estão, os mesmos, há novidades da bola e mais buracos no asfalto, o preço das trivialidades aumentou, cada mulher apetece mais que a anterior. Saem dali quando estiverem atestados, sentindo-se capazes de vencer, pelo menos, as próximas curvas e contracurvas que o dia lhes reserva. Terrível seria acharem-se de repente sem combustível, fracos de pernas para andar e longe de um destino seguro, num desses lugares ermos onde somos só nós, o nosso eco e a indiferença de Deus. 

19.2.15

Somos todos Pereira

Pelos e-mails que recebo, noto que o senhor Pereira se tornou uma figura muito querida, beneficiando da complacência dos leitores. É curioso, porque me pareceu que ele havia de surgir como um porco traidor, a quem a cobardia acerta o passo, e mesquinho de dar pena. Mas assim não foi. 
Julgo que acabaram por ver nele a personificação de uma identidade conjunta, um modo português de viver comodamente os desejos e fintar a verdade, um perfil que reconhecemos em todo o vizinho, colega ou inimigo nas desavenças quotidianas, mas, obviamente, jamais no espelho. 
Ponho-me a pensar que talvez sejamos todos senhor Pereira, mais do que somos qualquer outra coisa que nos comova ou inflame. Mas que charme há nisso? Quantos likes ganharíamos ao afirmar eu sou senhor Pereira? Que causa é a dele? Que força mobilizadora tem a sua existência banal, retilínea, que há de desaguar no mesmo mar de todas as outras, sem mortos nem feridos? Qual o ganho de admitir que tantas vezes nos foge o olho para demoníacas seduções como a viúva, que nos embalam certas visões como a da rapariga com a tatuagem no pé, imensa em beleza e dignidade? Como confessar que também somos assim, vulneráveis a umas febres cá por dentro, tensões, cobiças, desejos de subversão e mudança, e que calamos tudo isso no escuro, no travesseiro da cama já feita há tanto tempo?
Saiba-se que o senhor Pereira engana. Anda sempre de disposição plena, com o orgulho e a verticalidade dos príncipes, o nó da gravata impecável, o automóvel brilhando como os novos. Às vezes, dá-me uma palmadinha na face, ao jeito de um pai, e diz-me que eu não sei nada desta vida. Homem vulgar, acredita que a transmissão do conhecimento tem sentido único
Com efeito, o senhor Pereira não é uma causa. É uma consequência.