30.6.15

As mortes do amor

Se um amor tiver mesmo de morrer, ao menos que morra em dor e sacrifício, naufragado por excesso de ousadia, trespassado por excesso de combate, crucificado por excesso de fé. Que morra engasgado com a espuma de raivas pela inútil travessia das montanhas, pela resistência vã a monstros de sete cabeças e ditadores fardados. Que morra ferido de traição ou de abandono. Que o último suspiro o edifique. E que a memória seja para com ele misericordiosa e o preserve à superfície da pele, ferida aberta, carne viva, sangue quente.
Não há nada mais triste do que um amor que morre de morte natural, limpo, branco, sossegadinho, com os olhos vadiando longe. Dele não se fará verso, cruz ou epopeia. Terá um epitáfio insosso. Recordar-te-ei sempre com amizade. Sem préstimo para a tragicomédia da vida, não será contado aos netos como se fosse a história de outrem.

29.6.15

Estrela-do-mar

O senhor Pereira mantém o hábito de me cumprimentar com uma palmadinha na cara, tal qual faria às filhas se elas não estivessem há mais de cinco anos de costas voltadas. Acha-me uma catraia, sem preocupações ou responsabilidades. Os filhos que tenho são coisas naturais da vida, trabalho ainda bem que não me falta, a casa para gerir... quantos gostariam de a ter?, e um automóvel não é encargo, é privilégio. De resto, sou jovem e é o que lhe basta para menosprezar tudo o que eu diga em defesa dos meus cansaços. Para o senhor Pereira, o melhor da juventude é a capacidade de regeneração. Que mal me pode fazer a vida se sou como uma estrela-do-mar, nunca envelheço e, por cada braço perdido, crio outro, novo, são, pleno? Enquanto isso, ele remenda-se com nostalgia e devaneios. 
Digo-lhe sim a tudo. É verdade, senhor Pereira, tem toda a razão. Digo sempre sim quando não me apetece conversar. Desinteressa-me a filosofia de vida do senhor Pereira. O que eu gosto nele continua a ser o desatino em que certas mulheres o deixam, mais vivo do que no dia em que fecundou, revertendo a decomposição do corpo, moderando a importância do casamento sólido, betonado, que construiu. É um homem bondoso, de uma simpatia luminosa e com modos que já não se vê por aí. Porém - diria a minha avó solteira se fosse viva -, não deixa de ser um homem.

26.6.15

A paz de Cristo

Alice beijou Verónica assim que o padre deu o mote: saudemo-nos na paz de Cristo. Voltou-se para trás e, muito torcida, esticadinha até à iminência de um tombo, com as linhas do rosto franzidas, de modo a que vissem bem a sua disposição ao sacrifício, beijou-a. Foi um momento muito bonito, pleno da compaixão e da boa vontade com que os homens procuram assemelhar-se à imagem de Deus. Durante o beijo, Alice pousou até a mão no ombro de Verónica e enrolou os dedos nos cabelos dela, como as mães fazem às filhas por tudo e por nada, só por umas serem mães e outras serem filhas. O beijo acendeu em Verónica uma esperança feliz. Confiou que ali, debaixo dos olhos infinitos de Nosso Senhor, Alice se desarmava para sempre dos ódios que acumulara. Finalmente a paz! Acabando a cerimónia, haviam de juntar todas as desavenças numa história passada, de que pudessem ainda rir-se muito, harmonizadas à volta da mesma mesa, dividindo pão e vinho. 
Milagre, talvez, ou luz divina esclarecendo por fim o coração sombrio de Alice, porque nem meia hora antes, no adro da igreja, entre a confusão do ajuntamento e o repicar dos sinos, Verónica ficara com o rosto suspenso no vazio, aguardando o beijo do cumprimento que a outra lhe negara sem disfarce. E, com tantos santos, devotos, familiares e vizinhos como testemunhas indiferentes daquela humilhação, dispusera-se a aceitar o que há muito tempo era evidente: inimigas.
Mas quem não ficou para as ver meia hora depois, também não sabe que, pé posto fora da casa do Senhor, Alice lhe negou também a despedida. Não mais se voltou ou torceu. Muito aprumada, superior, tão próxima dos céus, foi-se, maldizendo entredentes aquela rapariga com coração de anjo e corpo do demo, que dormia com o seu único filho homem, deixando-o a sonhar durante o dia, fervendo de paixão, esquecido das supremas e insubstituíveis delícias do colo materno. Como em certos filmes e novelas que julgamos serem mais delírio da imaginação do que memória da realidade, marcharam atrás de Alice dois irmãos, uma irmã, duas cunhadas, três filhas com os maridos atrelados e ainda cinco netinhos de veludo azul, todos certos no passo e exemplares na reverência.
Ele, o único filho homem, ainda vacilou, tão enfraquecido de pernas como de convicções. Depois chegou-se a Verónica e, de raspão, ao ouvido, tenho de ir. Foi mesmo. 

(obrigada*)

22.6.15

Janelas

Douro. Junho 2015
Ao entrar, o meu pai protesta: não se abre as janelas quando o calor chega a este ponto. Sabemos que ele tem razão, estão trinta e oito graus, o xisto arde nas paredes da casa, o pó da terra anda solto pelo ar, comicha nas narinas, todo o vale é o inferno que sabemos de cor, mas compensa-nos largamente sentir o cheiro puro das raízes, da folha e do fruto. Não se ouve um automóvel. Nem um passo na estrada. Os pássaros e os cães emudeceram. O mundo está temporariamente morto, reviverá quando o céu se estrelar e então há de haver bailarico perto do rio, com purpurinas, brasileiradas e raios laser. Bebo limonada compulsivamente, mas, faltando-me a coragem para ir colhendo os limões de que preciso para me satisfazer, mando o mais novo, que a canalha suporta tudo, encharcam-se de suor e poeira com uma felicidade invejável. Também eu, menina, punha um chapéu de aba larga, enfiava uma cesta no braço e ia aos figos, sob o comando do meu pai e indiferente à secura infernal dos primeiros dias de setembro. Mas agora que cresci vejo que não herdei desta gente a tenacidade nem a resistência às agruras do clima. Tenho os caprichos de quem se habituou aos ares condicionados e beneficiou das brisas marinhas. Mais de trinta graus e parece que o sangue me adormece nas veias. Passando dos trinta e cinco, falha-me o raciocínio e o verbo. Não tenho forças para virar a página de um livro. Adio tudo, que a urgência é um conceito muito vago. O que decidirem está bem para mim. Mas que não se feche as janelas. 

11.6.15

O que vale o amor

A rapariga da papelaria anda estranha. Dá-se agora a uma tristeza fininha, silenciosa, imprópria para os vinte e poucos anos que lhe dou. Quando levanta o braço para tirar os cromos do topo da estante, parece que lhe pesam mil vidas, desgostos e injustiças. Sorri muito brevemente e dobram-se os cantos da boca numa curvinha de melancolia. O olhar não é de infelicidade, mas de coisa pior, mortal: de descrença na felicidade. 
O que mói a rapariga é o amor. O amor intenso, verdadeiro, eterno, em que não há modo de bater de frente e o pior é que a idade só avança... Sonha com um marido preparando o jantar enquanto ela dá banho aos filhos, beijam-se no entremeio das tarefas domésticas, fazem amor com a tranquilidade dos que não devem nem temem, confessam-se tudo sem pudor, educam as crianças para os modos exemplares, envelhecerão de mãos dadas e, quando morrer um, irá o outro atrás, sem razão para ficar. Mas esse marido tarda e ela está cansada de descartar rapazes sem tino ou de ser descartada pelos que comem e não gostam.
Não compreende a falta de sorte porque feia não é, sensibilidade tem a mais, em inteligência não brilha mas cumpre. Tem amigas estúpidas, de ancas largas, fracas de gosto para vestir, sem conversa de jeito e está farta de as ver subir ao altar. Chora sempre nos casamentos, chora dessa imensa alegria que não lhe acontece. A mãe tenta sossegá-la com frases feitas, antes só que mal acompanhada, mas isso não aquieta um coração que nunca foi beijado por dentro. 
Há uma velha, dessas que se dão ares de possuir saberes e experiências inconfessáveis, que tem pena dela e lhe dispensa uma dica por cada revista que compra. Ouviu falar num rapaz, vive ali perto, solteirinho da silva, dizem que é ajuizado, não bebe, não fuma, tem maneiras e nem sequer vai a discotecas
- Esse é que era homem para ti, filhinha!
A rapariga faz a conta, dá-me o troco e suspira à velha:
- Era bom... mas eu já não acredito.
Ninguém acredita. Mas alguém tem de dizer a esta rapariga que, em todo o caso, isto não são coisas para se acreditar, o amor não vale a tolice desses sonhos cor-de-rosa, nem as lágrimas por ele choradas, não vale o parto sofrido de um verso, não vale o banquete, o véu, os convidados, muito menos as promessas desonestas que em nome dele se fazem. O que o amor vale é a estranheza de estar, continuamente, entre as palavras mais procuradas do dia no Priberam, dicionário online de língua portuguesa.

A área do quadrado

Gostava muito de assistir à conferência "Os Matemáticos Secretos", que, a fazer fé na imprensa, está a decorrer na Casa da Música. Não domino, mas sou fascinada pela matemática enquanto forma de representação de toda a realidade, equilíbrio de forças, organização harmoniosa do universo. Desentendo, porém, o que faz o Crato aqui no meio. Sabendo-o obcecado com resultados imediatos, pergunto-me o que lhe importará uma matemática que divaga em busca do sentido de tudo isto e que ainda ousa dar as mãos à expressão artística, coisa que ele desdenha e tem vindo a matar com pauladas cegas e violentas. É um homem que calcula muito bem a área do quadrado, não estou a vê-lo interessado em limites que tendem para infinito.

8.6.15

*

Aquele que dá demasiadas garantias sobre o próprio caráter está condenado a desiludir.

4.6.15

Vigilância

Tenho uma adoração muito infantil pelo senhor Casimiro, que é o porteiro da escola do mais novo, mas não o invejaria nem que lhe pagassem com o ouro que merece. Conforta-me o tom de voz moderado e doce que ele tem, raro nestas funções de vigilância. Mas o que mais me espanta é, ao toque de saída, a sua transfiguração imediata, ao jeito de um reflexo condicionado e com os aspetos de um desses filmes cheios de efeitos especiais, em que num segundo o anjo ganha feições do demo ou o contrário. Dele parece apossar-se uma nova identidade, fascinante, admirável, que é mistura de felino, autómato, estátua de pedra, deus-pai-todo-poderoso. É um olho gigante, suspeito que veja com todas as partes do corpo pois ainda há dias testemunhei como, enquanto esticou o pescoço para vigiar o propósito de um aluno que atravessava o portão sem freio, abriu um braço na direção oposta para separar outros dois que se engalfinhavam nas suas costas. Quase ao mesmo tempo, muito sério, de feição petrificada, olhos loucos de atenção, avisou-me:
- Já aí está o seu menino. 
Estava, com efeito. A um passo, muito afogueado, à espera que eu o notasse, rindo baixinho de me ver tão distraída a venerar o senhor Casimiro. 
As escolas públicas são pobrezinhas, não há orçamento para sistemas eletrónicos, chips, pulseiras, videovigilância e outros aparelhos próprios das cadeias. Para assegurar que todas as crianças são entregues nas devidas mãos, o senhor Casimiro tem na memória o rosto da mãe, do pai, da avó, do avô, da ama, talvez ainda de uma tia ou prima, de todos os que estão autorizados a vir buscar cada um dos duzentos alunos. Eles saem em magotes, encavalitados, ensarilhados, pegados ou namorados, em doida correria, braços no ar, bolas nos pés, pastas no chão, e ele filtra-os apenas com o olhar, conferindo, em simultâneo, cada um dos adultos que os levam. Ninguém se há de perder ou ir parar às mãos do traficante de rins, do pedófilo, do pai que estava desaparecido e veio buscar o filho à socapa para o levar do país. O senhor Casimiro sabe que se uma criança passar levianamente o portão, o seu posto de trabalho fica em risco. Qualquer mamã extremosa solicitará, por escrito, o rigoroso apuramento das responsabilidades. Basta que o filho apareça com um joelho arranhado, alegando que caiu no passeio. Qual passeio? O da rua. Qual rua? A rua da escola. Que estavas a fazer na rua da escola sem eu ter chegado? Fui saindo para te esperar. E o senhor Casimiro deixou? Não viu. Como não viu? Fintei-o, saí nas costas dele. 
Porque alguém tem de ser castigado - e não será o menino - o senhor Casimiro ficará com a vida em suspenso, ignorando se haverá renovação do contrato. E duvido que seja tratado conforme trata ele a miudagem: com um cuidado sobre-humano e infalível, pesando causas e consequências, prevenindo incidentes. 
Para além disto, o senhor Casimiro é responsável por esvaziar todos os caixotes do lixo, separar o reciclável e depois arrastar os sacos até ao ecoponto mais próximo. Enquanto vai e vem, tem de deixar o portão fechado a sete chaves. Tilintam-lhe nos bolsos, em molhos devidamente identificados: as do portão a nascente, as do portão a sul, as do portão da horta, as do portão do campo desportivo, as do portão que dá para a zona principal ou que, indo em sentido contrário, dá para zona de trás.
A mim pagam-me para escrever mentiras inofensivas e vazar as ideias estapafúrdias que nos tempos mortos me ocorrem. Ainda gozo quando as vejo passar na televisão, sentada no sofá, de papo para o ar, pezinhos descalços e contrato sem termo. E quem se encarrega do lixo é o mais velho, porque eu tenho uma sensibilidade caprichosa, aristocrática, aos maus odores. 
Às vezes, a minha existência parece tão fácil que me dá pena.

29.5.15

Mais um

Escrever é-me uma felicidade tortuosa, já o devo ter dito - e quantas vezes? Como esses amores febris, de compulsão, em que se arranca às vísceras tudo o que se dá, para a seguir tombar e, sem ânimo nem retorno, concluir que foi apenas mais um.

23.5.15

Na rua

Só hoje reparei nesta frase, escrita num dos painéis do grande mural de arte urbana da Lionesa: o amor é a mais bela de todas as coisas palpáveis.
(algures a meio, entre outros gritos e subversões)

19.5.15

Nós, graúdos (2)

Ó pá, ou te sentas já ou mando-te com o caralho!, disse o professor à miúda, com os olhos revirados e o punho em riste. A seguir pegou-lhe na mochila e arremessou-a pelo ar.
Mas ninguém filmou. 

16.5.15

Nós, graúdos

O mundo dos graúdos não tem moral para condenar o mundo dos miúdos. Perdeu-a pela falta de memória, pela falta de verdade, pela falta de decência. E pela falta de vontade de viver realmente em paz. Ainda pela falta de coragem para dar cabo dos órgãos de comunicação social, esses abutres que o povo venera de cu sentado no sofá e em quem se inspira, sem raciocínio prévio, para as alarvidades que diz.

13.5.15

Sorrir

Presume-se às vezes – e por engano – que aquele que sorri à vida é aquele a quem a vida nunca deixou de sorrir. É que a dor profunda nunca tem grande expressão e raramente é visível a olho nu. Vive recatada, cavando túneis, e só a espaços ressurge, como os fantasmas, soprando uma brisa gelada, baloiçando um cortinado, levantando poeira, estremecendo o chão, quebrando a moldura de um retrato, escancarando os olhos no meio da noite. Mas não fala nem se mostra e por isso quem vê de fora não acredita que seja real.

11.5.15

Em pontas

Desde os cinco anos que as meninas eram intelectualmente domesticadas com lições de piano e ballet, tinham castigo castigo quando as notas iam abaixo dos noventa e haviam de ser todas médicas, ou do coração ou dos dentes. Nas horas vagas — que, a bem dizer, eram só as férias grandes — namoravam marginais para tomar o gosto à rebeldia, pelo gozo puro de afrontar as mamãs, que tinham pânico de escândalos e de noite suavam muito, não disso que se possa julgar, mas dos pesadelos com famílias indisfarçavelmente desfeitas e olhadas de viés. Durante a semana, estas mamãs sofriam de ócio e enxaquecas e tomavam calmantes para lidar com as empregadas. Na tentativa de as serenar e prevenir mais motivos para colapsos nervosos, os papás apertavam o cerco às filhas, aumentando-lhes o número de aulas de piano e as horas de dedicação às ciências da vida. Ao fim de semana juntavam-se em casa uns dos outros, as mamãs riam muito, cruzando a perna com elegância de manual, e os papás comentavam as manchetes. Na dúvida, tratavam-se todos por doutor
Saí com elas meia dúzia de vezes. Com as meninas, claro. Sofriam da histeria própria dos que só raramente provam a liberdade e era um espanto ver como, achando-se fora e longe de casa, enchiam a boca para dizer obscenidades, palavrões e contar anedotas porcas, rindo muito alto, com os cabelos impecavelmente presos em laçarotes acetinados, batom branco metálico e o último grito da moda bem assente sobre os corpinhos tratados. Nunca deram conversa que valesse, nem a disparatar eram boas, o sentido de humor era vulgar e estridente. Perdiam-se em amores febris por um par de nádegas masculinas, contanto que estivessem cobertas com as calças da melhor etiqueta. A cada semana, a paixão era nova e manifestavam-na com guinchos e saltinhos nas pontas dos pés. Um dia descobriram que eu tinha dois amigos de beleza superior e com aquela inteligência rara que dispensa o marranço para dar nas vistas. Não me deram repouso enquanto não lhos apresentei, encheram-me de atenções, monopolizaram-me e levaram-me, forçada, às suas casas, onde eu pasmei de ver como subitamente se transformavam em meninas bem ajustadas e de ouvir, entre os adultos, conversas tão grandiosas e fecundas como 
- A arte é, de facto, uma coisa maravilhosa! 
- Tem razão, Ângela Maria, eu também gosto muito de arte.
- Somos da mesma opinião, então. 
Parecendo que não, considero muito estas meninas. "Doidas varridas", assim lhes chamaram mais tarde os meus amigos com desdém, apesar de terem vacilado das pernas e da inteligência quando elas estenderam as boquinhas em branco metálico que, no escuro, lembravam as dos vampiros. Mas fizeram tão bem as asneiras, sendo tontas à socapa, fumando charros na sombra, deixando-se comer atrás dos muros, limpando o batom com as costas da mão antes de entrar em casa, que nunca ninguém desdisse as suas virtudes. E, equilibradas em pontas ao som dos noturnos de Chopin, com fitas, tules, grinaldas, encarnando pássaros e virgens, deixavam as mamãs com lágrimas nos olhos, sonhando sonhos que não eram para qualquer uma.

7.5.15

Falta de graça

Apercebo-me de que as pessoas em geral gostam mais da minha companhia quando eu não escrevo. É que nesses dias tenho bom feitio, desbarato conversa em qualquer lugar, dou conselhos muito práticos, presto francamente atenção a tudo o que me sugerem, até a receitas de bolos, programas de televisão, ou restaurantes de sushi. Chego ao cúmulo de compreender lamúrias de mãe, amores imprestáveis, inteligências medíocres. De consentir que me aldrabem. E de serenar os outros dizendo ridicularias como tem paciência, que tudo se vai resolver. 
São dias em que sorrio mais, mas, em boa verdade, não vejo graça em coisa alguma.

6.5.15

Paz

Maio é, com efeito, o mês da mãe que sou. Nasceram-me os filhos sob o signo de uma raça possante, obstinada, capaz de pasmar e ruminar sossegadamente durante horas desde que ninguém provoque ou se agite em grande folclores. Amei-os desde o primeiro instante - e no que respeita aos assuntos da maternidade, pouco me importa que as estatísticas, os livros ou as outras digam diferente e até oposto. Não chorei de coisa alguma, não tive achaques nem euforias, mas sim, amei-os com profundidade desde que me disseram é agora, vá! e senti que, dos pés à cabeça, trabalhávamos juntos para atravessar o mais delicado dos caminhos. E esse é agora, semelhante ao que, anos mais tarde, ouvi diante da morte, foi a evidência mais tremenda, a mais estranha mistura de humildade e poder que já me foi dada a sentir.
Nasceram perfeitos, livres de manchas e deformações de esforço, talvez porque foram paridos com mansidão, como quem sopra para despertar as brasas de uma fogueira. Então - gosto de acreditar nisto - chegaram apaziguados e por isso as enfermeiras e as auxiliares vinham gabar-mos, a pele tão leitosa, o sono tão brando, sinais de sofrimento nem vê-los, que bem pareciam dar-se já com a sensação do mundo. Ao que diziam nos manuais ou pelos corredores do hospital se apregoava ou as mais experientes ditavam, fiz-me surda. Com o tempo, desistiram de me aconselhar sobre o que não perguntei e assim fui amando sem dicas, sugestões e método científico, como uma fêmea vulgar, dessas que deus criou para viverem de acordo com as luas e os cheiros. Mantive-os pacificamente encaixados na dobra da minha axila, dormi com a boca pousada nas suas testas e não houve para eles alimento que não me saísse do corpo: calor, afago, cantiga, história. 
Mas a paz, todos o sabemos, não é a verdadeira e honesta intenção do mundo. É um intervalo no seu perpétuo movimento, oferecido a espaços, para recobro da alma e sustento de doses razoáveis de fé e ilusão. Mais cedo ou mais tarde retoma-se o conflito, o paradoxo, a diferença, o desnível, os combates onde uns andam obrigados, outros por vocação, outros por ignorância. E, de todos, poucos morrem como heróis. 
Tolos, portanto, os que gastam o tempo de paz que lhes coube a brincar às guerras. Ganham louvores de coragem nas páginas dos jornais, mas isso é porque no meio de tanta confusão já não distinguimos entre um fogo de artifício e um tiroteio de sangue.

29.4.15

Breve indisposição

Os moldes em que o plano nacional de leitura é aplicado na escola, cheio de pressas e critérios dúbios, lembram-me aquele hábito antigo de levar os rapazinhos às putas com regularidade, cuidando que isso bastava para eles se garantirem homens.

(coitados dos meus filhos, até hoje nunca me deram más noites, chatices à mesa, dores no corpo ou vergonhas na rua, mas culpo-os todos os dias por me porem indisposta com o país)

22.4.15

World Best Driving Road

Quando comprei o meu primeiro carro, fiz cento e dez quilómetros para ir buscar o meu pai e levei-o comigo até ao Pinhão, onde me esperava uma réplica prometida do mapa Douro Portuguez e Paiz Adjacente, do Barão James Forrester, que até hoje tenho bem à vista na minha casa. Da Régua até lá, deslizámos ambos calados, solenes, como estrangeiros que nunca tivessem visto o espetáculo nem o guardassem na massa do sangue. Para mim, até era, de certa forma, uma estreia, pois era a primeira vez que fazia aquela estrada ao volante e que conduzia o meu próprio pai.
Na volta, assim que a cidade da Régua se revelou, no seu aconchego ribeirinho, feia de causar dó se não fossem as águas pelo seu ventre adentro e o resguardo das encostas vinhateiras, o meu pai, um homem que nunca deixou que os afetos e agrados lhe comprometessem a frontalidade, disse:
- Olha que tu conduzes muito bem, rapariga.
Foi a estrada. Quem nunca a fez ao volante, que a faça e comprove que, de facto, há qualquer coisa que nos leva, com prazer, sem entraves nem cansaços, mão divina que curva e contracurva por nós com suavidade, ritmo, numa estranha sintonia universal. Se é da paisagem, se do modo como a serpente de asfalto ondeia, se da romântica companhia da linha do caminho de ferro, se do rio que, como nenhum outro neste país, inspira grandezas e vitórias, não sei. Mas hoje estou satisfeita ao constatar que não é impressão minha e não é por ser uma filha da terra que vejo a mais ou sinto a mais. O troço da EN222 que liga a Régua ao Pinhão é o melhor do mundo para conduzir, aqui.

17.4.15

Morrer de amor e cantar

Já aqui contei que morri de amor pela primeira vez aos quinze anos. Foi uma morte lenta e dolorosa, deu-me febre, visão turva e desarranjos viscerais por muitos meses. Velei-me como achei que merecia: com enorme piedade, lágrimas a rodos e até a elevação de caráter a que os mártires têm direito. A dor aguda e exposta, que assim violentamente me deitou por terra, terá vindo da minha impreparação para o abandono. Eu tinha crescido abrigadinha em colos, festas e mimos, desconhecia a rejeição e mais ainda a indiferença. Então, à primeira estocada, morri. E, porque tinha apenas quinze anos, as minhas conclusões foram inocentes mas cheias de uma convicção que me enternece lembrar. A primeira foi a de que o amor e a dor variam na razão direta. A segunda, tão comum, foi a de que não voltaria a amar. Sobre ambas estava errada, naturalmente, mas sou feliz por saber que o equívoco se deu na idade justa.
Por esses dias, calhou o meu pai oferecer-me a minha primeira máquina de escrever, um bichinho muito mimoso, usado, com teclado "hcesar", em tons pastel e de arestas meigas, arredondadas. Proprietária exclusiva de um instrumento daqueles, achei que o meu espírito era agora obrigado a grande criações e sentia-me pronta para isso, porque abarrotava de dor, autocomiseração e fatalidade, portanto, meio caminho feito. O outro meio, estava certa de que podia aprender lendo os bons. 
Esta foi a única altura da minha vida em que escrevi poesia. Converti o sofrimento e a adoração em poemas curtos e arrítmicos, de versos brancos, e em outros enormes, com bom corpo, métrica e sem descuido da rima. Para guardar na gaveta fiz com eles um livro, biografia cantada do meu desgosto, coitadinha de mim! 
Um dia tudo passou, conforme predestinaram os mais sábios. A manhã acordou límpida, com uma frescura promissora, e eu era ainda muito jovem, o meu coração sem necrose, a minha esperança afinal pura e intacta. Por isso outros amores vieram, mas por sorte, privilégio ou saúde férrea, não voltei a morrer. E não voltei a escrever poesia.
Ainda hoje acredito que a melhor forma de arrumar uma dor é convertê-la em qualquer coisa de belo, edificá-la, harmonizá-la com o mundo. Terapia para quem sofre, horizonte para quem contempla, e nesse dá-e-recebe, nessa generosidade recíproca, muitas vezes se descobre propósito para o que nos consome. Mesmo que a criação acabe como, mais tarde, os meus poemas: no contentor do lixo de uma avenida junto ao mar.

16.4.15

Deus

Fiz ontem a via de cintura interna atrás de um ford fiesta com um autocolante no vidro traseiro que dizia eu guio mas Deus dirige a minha vida. Além de nós, centenas de outros automóveis seguiam para Este com uma lentidão de dar pena, porque eram três faixas engarrafadas, que, olhando à distância, se assemelhavam a um corpo uno, metálico, triste nas raríssimas variações de cor, rastejando no asfalto. Dentro de cada automóvel um ser humano sozinho, na melhor das hipóteses a companhia de uma criança já murcha no banco de trás ou a Comercial espevitando humores, iludindo a passagem do tempo. Sobre todas as cabeças, do levante ao poente, um céu azul cobalto carregadinho de maus prenúncios, pronto a vazar sem critério as raivas acumuladas.
Saí assim que pude, recusando-me à força e ao sentido da marcha, dizendo cá comigo que, ao invés do fiesta, prefiro que Deus me vá apenas guiando enquanto eu verdadeiramente dirijo a minha vida. E assim, por quatro ou cinco quilómetros deslizei à vontade na estrada, mudei de faixa a meu bel-prazer e à velocidade que me aprouve, feliz por divergir, rindo e cantando de ter deixado para trás quem se habituou aos vagares e à monotonia de um itinerário comum. Mas no auge do entusiasmo e da cantoria, fui obrigada a travar para não embater na fila de automóveis que me apanhou de surpresa ao entrar pela avenida dos bombeiros, depois de uma curva apertada. Foi inútil inverter a marcha. Igual em toda a parte: na zona escolar, à volta da igreja matriz, nas imediações do pavilhão desportivo. Até os atalhos que julgava ser a única a conhecer estavam infestados de gente como eu, com um volante nas mãos e sem ter por onde escapar. 

15.4.15

Herança

O mais velho não desenha cavalos inteiros porque se julga incapaz. Porém, a dedicação que tem a estes animais mantém sempre espertos e definidos na sua mente os másculos contornos, o pelo de veludo reluzente, a rebeldia das crinas, a grata doçura dos olhos após a carícia. A solução é desenhar fragmentos descasados. Um focinho num guardanapo, duas patas erguidas na contracapa de um caderno, a generosa curvatura do dorso no talão do supermercado, mas jamais o cavalo inteiro, unificado, pois mete medo a grandeza do conjunto, onde em definitivo teria de se revelar a proporção, a robustez, o movimento. Se falhasse, o cavalo morreria, convertido a qualquer coisa híbrida e sem nobreza – uma mula, um aleijão, uma vergonha.
Ainda ele tão novo, ainda eu por morrer, e já açambarcou como herança as minhas maiores fragilidades.

13.4.15

A cegonha

Depois das preocupações com o mercado de trabalho, o que os jovenzinhos mais me perguntam é de onde vêm as ideias. Os olhos deles, tão vivos e interessados que me renovam todas as esperanças, anseiam por histórias que alimentem mitos e elevem certos espíritos a uma categoria superior da humanidade, abençoada com visões e murmúrios. Podia contar-lhes a história da cegonha, dizer-lhes que é sentar, esperar, olhar para os céus e, mais dia, menos dia, a ideia chega, castamente embrulhadinha, e cai-nos no colo já limpa, acabada, redonda. Sobra dar um nome, mimar e exibir. Acontece que eu peco às vezes por excesso de razão e, só por isso, há de haver quem julgue que devo manter-me afastada de inocentes e sonhadores. Não que despreze a fantasia, mas uso-a para expandir a realidade, dar-lhe brilho e colorido, jamais para distorcer, levar por caminhos sem saída ou criar excedentes de ilusão. 
Então digo-lhes que a cegonha é mentira. Que sem amor, profundo desejo e entrega, só por obra divina nasce coisa de valor. Uma ideia é trabalho de sangue, vísceras, fluxos, imaginação, prazer, suspiros, cansaço. Mas o mais extraordinário é que no fim, com efeito, até ao próprio ela parece ter caído dos céus.

2.4.15

Coração acelerado

O enfermeiro da medicina no trabalho é um fala-barato, perfeito para um desses anúncios de zero cêntimos para todas as redes. Deitada, pronta para me submeter à avaliação do meu apodrecimento por conta de outrem, sou obrigada a ouvi-lo. Dá-me saudades do enfermeiro do meu centro de saúde, que, falando pouco, é muito bom de conversa e, para me distrair quando sabe que a coisa vai doer, calha lembrar-se do Eça, citar os seus diagnósticos vitalícios sobre o estado da nação ou sobre as fraquezas que levam os Homens a sucumbir às maleitas do amor e da corrupção. 
Mas não é com ele que estou, é com o enfermeiro da medicina no trabalho, um papagaio, um moralista de cartilha decorada, que debita e não escuta. A gente diz eu não como fritos e ele, logo, coma menos fritos. A gente diz não uso açúcar e ele responde em todo o caso, deve cortar no açúcar. Estamos ambos enfiados numa rulote sombria, onde cheira a pele, suor e fadiga. Tenho o peito a descoberto e ele vem armado com os elétrodos, aplicando-os enquanto me vasculha maus hábitos. Tabaco? Café? Álcool? Comprimidos? Sedentarismo? Sal? Pergunto-me quantos pai-nossos e ave-marias terei de rezar depois de responder, tenho ganas de o aldrabar só para ficar a rir-me por dentro (nem sei do quê, prazer gratuito, infantilidade): dois maços por dia, no mínimo seis cafés, um pacote de tinto ordinário a cada refeição, dezasseis horas sentada e oito deitada, pílula para adormecer e pílula para me levantar, sim, é verdade, caminho para a morte como os outros, desculpe lá se acelero, cada um vai como quer desde que não empurre ninguém, havemos certamente de nos encontrar no inferno porque as suas olheiras e a sua tez desmaiada são muito suspeitas
Mas decido não mentir. Sou ajuizada, até vou estimando o corpo, comendo e dormindo com uma decência exemplar. As minhas leviandades, os riscos que piso, os delírios e excessos, são todos do espírito. 
Enquanto procura dominar a maquinaria, o enfermeiro suspira com um ar de principezinho afetado, farto das ignorâncias e impertinências do seu povo, e diz-me que os médicos do serviço público são todos iguais.
- Para eles está sempre tudo bem, nem um eletrocardiograma leem em condições, querem é despachar os pacientes. E são todos, sem exceção!
Há gente assim, a quem a vista curta não permite distinguir fronteira entre o desabafo e a maledicência. Tocou-me o rapazote em área sensível do coração, pois se há coisa que não esqueço é o rosto e o nome de quem me acarinhou de todas as vezes que a vulnerabilidade mais atraiu os oportunistas. Sou utente convicta e defensora do serviço de saúde público, onde encontrei os melhores médicos da minha vida, de abraço pronto e lágrima fácil, ternura paternal, eficiência absoluta, pontualidade, humildade, inteligência. Nem um nem dois nem três. Dezenas. E só me inibo de falar também do meu pai e da minha sobrinha porque fazer vénia aos do nosso sangue anda perto do narcisismo ou pode ser julgado como vulgar cegueira amorosa.
Depois lembro-me da outra, dividida entre o público e dois privados, tentando convencer-me a marcar uma cesariana porque com esta bacia o parto ia acabar mal, virei-lhe costas e fui parir a outra freguesia. Cinco minutos, um grito seco, e eis o meu filho no mundo! E de outro, mais concorrido do que a Senhora da Agonia, com recibo ou sem recibo? Desculpe, eu perguntei quanto é, pode dizer-me quanto é? É como lhe digo, depende se é com recibo ou sem recibo. E do pediatra que trabalhava em três clínicas privadas, sempre duas horas atrasado, consultas até à uma da manhã, os bebés a berrar de fome e cansaço na sala de espera pela noite dentro, as mamãs tolerando porque lhes disseram que era o melhor dos melhores, talvez nas mãos dele nenhuma criança rache a cabeça ou se constipe. 
Fico calada, remoendo todas as minhas recordações e experiências, sentindo a dignidade e a competência de tanta gente boa espezinhada por um fedelho com elétrodos na mão, e penso que vale sempre a pena voltar ao blogue por causa dos preconceitos e da má fé que mantêm este país tísico e amarelinho. 
E com tudo isto centrifugando no meu peito, a sentença revelou-se péssima:
- O seu coração está muito acelerado. Isto não pode ser, minha menina. Veja lá se faz mais exercício.

Vá p'ró inferno, que eu depois então dou uma corridinha a ver se o apanho.

24.3.15

Braço-de-ferro

Barragem de Vilarinho das Furnas. 
2015

Diante da paisagem pergunto-lhes quem tem mais força, ao que o mais velho - por não ter dúvidas - prontamente responde a Natureza e o mais novo - por não ter paciência - logo contrapõe o Homem. Encantam-me os confrontos entre irmãos. Se um diz alhos, há de dizer o outro bugalhos. E isso, que é causa de miúdas desavenças no quotidiano, é também treino de combate, fazendo-os mais fortes e incondicionalmente unidos quando a causa é superior, ou o adversário sou eu e a minha regra está a precisar, com urgência, da exceção.

20.3.15

Equinócio

O corpo humano é vulnerável ao terno fervor da primavera, por mais que a ciência faça para o desviar das fatalidades e a civilização imponha autodomínio. Somos uma espécie como as outras, guiada pelo rasto dos aromas, excitada pela sensualidade das cores, temos os ritmos e a música da bicharada sussurrando cá dentro como prova suprema de vida. Vale a pena celebrar isto – a resistência, a autenticidade que sobra em nós, pulsando, teimosa, para além da teoria e, por enquanto, mais forte que o progresso e a tecnologia. Alegra-me muito (quantas vezes já o disse?) a constatação da soberania da natureza.

 

19.3.15

As miúdas

Às vezes, ao fim da tarde, os rapazinhos entram-me no carro pedinchando boleias e eu gosto. Enchem tudo de uma frescura benfazeja, não obstante a sujidade que trazem nas solas, o cheiro empoeirado dos cabelos e da roupa, a pressa com que falam e se atropelam para que eu lhes dê atenção exclusiva. Por essa hora, tenho ainda na cabeça sobras da jornada de trabalho: decisões tomadas de urgência, dúvidas sintáticas, histórias coxas, prazos por cumprir, mal-entendidos de difícil remedeio. Mas a eles nada esgota o ânimo nem as forças para se indignarem, como convém por ser próprio da idade.
Hoje vêm certos de que a professora de História baralha tudo, ora bolas!, e ainda dizem que são eles, os adolescentes, que andam nas nuvens, desviados do que conta e traz vantagem. Silenciosamente me torno cúmplice das suas queixas. Mas sou adulta, fiz-me mãe, não posso dizer Yah! A stora é bué de chunga, esquece-se que toda a gente tem de ir às nuvens para ver de cima a terra onde terá de assentar o pé pelo resto dos dias, antes peço que me contem o que foi desta vez. 
Foram as questões do teste, traiçoeiras. 
Então porquê? 
Ao invés de perguntar, por exemplo, quais as regiões conquistadas pelo Império Romano - e era canja! - a professora pede que comentem a expansão geográfica do dito Império. Uma complicação. Estão solidários entre si, é um coro de yahs, uma sintonia perfeita de acenos de cabeça, e ao menos isso é bom de ver num mundo onde verdades e afetos só a muito custo se harmonizam. Mas entristece-me vê-los à espera que lhes sirvam de bandeja o abêcê e presumam uma armadilha onde apenas está um desafio.
Já sei, somos preguiçosos para pensar, diz-me um deles, o mais alto, olhos verdes com tamanha luz e vigor que até ofendem o meu cansaço.
Sabem o remédio para isso?
Olham-me ansiosos, esperando fórmula mágica, posologia simples e resultado imediato.
Ler! Ler muito, ler mais! 
Ahhh... Afrouxam, não cuidavam que a solução fosse uma carga de trabalhos, um investimento de tempo, uma quietude impossível. Jogo então uma carta que penso ser de trunfo (pobre de mim, cresço na ingenuidade!): as miúdas gostam de rapazes que leem, dá estilo e confiança.
Feitiço. O tema acende-os. Recuperam o ânimo, a vivacidade do olhar, o ímpeto de se atropelarem nas respostas que me querem dar.  É ver quem mais sabe de miúdas, alguns até de graúdas, cada qual é um poço de experiência e conhecimento que legitima sentenças. Garantem-me que elas apreciam os que sabem falar e ouvir, mas quando é para namorar, os livros que fiquem na estante: querem é os cheirosos e bem vestidos. O que, enfim, lhes facilita bastante a vida.
Gosto muito de canalha. Atabalhoada, indignada e absolutamente cheia de certezas, como eu já perdi o hábito de ser e me agrada tanto lembrar. 

12.3.15

E o futuro?

Mais perdido está quem renega o passado do que quem não vislumbra um futuro. Porque, em todo o caso, não existe futuro algum que se possa vislumbrar. Planos e intenções definem o passo que damos, jamais revelarão o que vem depois da curva ou está atrás da montanha. Só a memória nos localiza absolutamente, nos dá o ponto a partir de onde sabemos que temos de avançar e que é o nosso chão, a nossa paisagem, a nossa perspetiva. 
Tão perigoso como viver preso ao passado é desejar esquecê-lo.

(esta manhã pasmei ao ouvir as previsões futuristas de Michio Kaku, o físico. Da possibilidade de fotografarmos os nossos sonhos ao acordar, até ao scanner de uso doméstico que com dez anos de antecedência nos avisará de um cancro, ele pode enganar-se em tudo se o mundo sofrer revés ou entretanto implodir. Facto, realidade, detalhe quase poético no meio disto tudo, era a bengala em que se apoiava quando subiu ao palco do auditório e em nenhum momento largou)

Embuste

A manhã inteira os gurus tentam convencer-me do quão feliz, confortável e esplêndido será o mundo dentro de cinco anos graças à tecnologia digital e a gente até se esquece de quantos ainda há, à face da mesma terra, ignorando o que é uma lâmpada.

10.3.15

Tranquilidade

Criou-se o universo sem recurso à autoridade dos homens e isso deixa-me tranquila. Tivéssemos sido chamados a sugerir, opinar ou fazer retoques, e provavelmente os planetas circulariam em rota de colisão e as estrelas, ao invés de pairarem neste céu que é de todos, decorariam as paredes de quem tivesse tido a ideia de as acender ou mais possuísse para dar por elas. 
Gosto de contemplar, quieta e calada, tudo o que se está nas tintas para o meu consentimento. Quando me sento na relva, na areia, num penedo, com os olhos e os ouvidos bem atentos, gozo do conforto de tudo sentir e rigorosamente nada poder fazer. É como ficar pequena, entregue ao colo da mãe, onde tudo é perfeição e sabedoria e, por isso, o remédio é calar e confiar.
Neste tempo em que a palavra de ordem é interação e tanta urgência há em trocar, interceder, opinar, vou correndo o risco de me chamarem preguiçosa ou indiferente, mas que me importa? Alegra-me o infinito, a força da gravidade, a beleza intocável, a transformação das montanhas, a verdade elementar dos cursos de água, a superioridade com que uma folha se desprende da árvore e, caindo em terra húmida, é quanto basta para fazer escorregar um homem. 
Com o pensamento nisto tudo, demitida, desresponsabilizada, esta manhã dei comigo à espera que o café vertesse da máquina sem mexer um dedo. Não fosse aparecer alguém que vinha ao mesmo e eu continuaria de braços cruzados, a olhar para uma chávena vazia.

6.3.15

Shiuuuuu...




Sem querer fazer publicidade ao produto, mas apenas uma vénia aos autores do filme. 
(colocar os headphones, por favor)