5.2.16

Julieta volta à janela

Por causa da rapariga da papelaria, quase matei a minha Julieta. Hesito antes de contar como tudo aconteceu pois sei que o facto de vedar comentários não é o que me livra de juízos e sentenças, apenas de os enfrentar e ter a trabalheira de mais uma gestão, como se não bastassem as muitas que já me ocupam. E, neste caso, estou certa, acusar-me-ão de tolice. 
Arrisquemos.
Desde o dia em que a rapariga da papelaria manifestou à experiente velhinha a sua descrença no verdadeiro amor, não calhou eu voltar a pôr lá os pés. Mas encontrei-a na semana passada, na rua, e espantei-me ao reparar que mudou de visual. Pintou e soltou o cabelo, tirou o piercing e vestia cores de primavera, longe dos tons de viuvez que era seu hábito usar. Achei-a também de ânimo renovado, mais desprendida, com riso fácil e muito dada à conversa. A minha conclusão foi imediata: ora, pôs-se mais bonita para atrair o amor! Mas por não haver confiança bastante, obviamente que nada perguntei. Limitei-me a apreciar o natural desabrochar daquela flor que só por falta de esperança foi, muito tempo, um caule seco e tristonho. 
Mas se é uma verdade universal que a beleza pode apaixonar, também acontece o vice-versa: a paixão embeleza. E, ao mesmo tempo que organizei no meu íntimo este pensamento, lembrei-me da haste da Julieta, que desde o outono dorme, hirta, introvertida e melancólica, num vaso azul, sem indício de voltar a dar flor. 
Regressei a casa decidida. Aproveitando o tempo de feição, ocorreu-me que se pusesse Julieta do lado de fora da janela, bem exposta, talvez o gato vadio que a namorou no verão passado se perdesse novamente de amores por ela. Julieta está pouco ou nada atrativa, bem sei, mas um gato tem instinto, num relance perceberia que continuam firmes as suas raízes e cheia de promessas a seiva que lhe corre por dentro. Assim, voltando o gato a adorá-la, não poderia ela desabrochar de novo?
Com Julieta do lado de fora da janela, pronta para ser amada e florir, fui dedicar-me a outras tarefas e nem dei conta que, ao fim da manhã, se levantou uma dessas ventanias repentinas que mudam o tempo e pressagiam desastre. Só depois de almoçar e arrumar a mesa com vagares de fim de semana, percebi o resultado da minha irresponsabilidade, quando dei pela falta dela e me debrucei na janela. Lá em baixo, o vaso azul multiplicara-se em cacos no meio dos arbustos e Julieta estava prostrada nas lajetas, com as raízes abraçadas a um resto de terra. Pronto, o mais velho desceu para buscá-la, enquanto o mais novo, solidário, fazia eco dos meus lamentos. 
Julieta regressou com as folhas torcidas, maceradas, aninhada nos braços do meu filho. Primeiro, penitenciei-me pelo descuido. Depois, culpei-a, tão preguiçosa para viver que me obriga a estes disparates. E, como é óbvio, acabei a rogar pragas ao gato, sacana dum raio, que nunca mais apareceu.

3.2.16

Máscaras

Não é preciso muito, bastam as coisas do quotidiano para as pessoas se descoserem e lhes caírem as máscaras que, pela aceitação geral, tão bem envergam, apenas divergindo no arranjo para que pareça coisa original e única. 
Quando assisto de camarote a estes momentos, lembro-me de certas declarações proferidas nos palcos deste país que causam indignação e são tomadas como insulto e cujos autores são publicamente apedrejados. Esses que, bem ou mal, falam do que os outros não veem, pondo a cabeça a prémio por porem o dedo na ferida, terão de esperar com paciência. É dos livros que aquele que em vida é acusado de má língua, distorção, gozo ofensivo e jorro gratuito de azedume, pode ser, com a morte, elevado a destemido crítico da sociedade do seu tempo, visionário, mestre da ironia, porta-voz iluminado da sabedoria universal.

(uma ruidosa defensora dos direitos humanos e da igualdade deu-se à amena cavaqueira e até trocou piadinhas machistas com um tipo que por longos anos encheu a mulher de soco e pontapé, assombrou o sono aos filhos e continua certo de ter feito o seu dever. Não, não foi na internet. Os meus olhos viram, os meus ouvidos escutaram. E a minha consciência voltou a lembrar-me que, no frente a frente real com o inimigo, o nosso talento não é apenas o de embainhar a espada, mas - pior - o de ajoelhar. Porque gritar cansa muito, é zero a energia que sobra para manter a firmeza e os princípios.)

1.2.16

Só para adultos

Ah, a doce hipocrisia do mundo em que vivemos, que embala e dá a ilusão de segurança! Um mundo onde os noticiários exibem, em horário nobre, vídeos de decapitações e tiroteios, onde a publicidade é livre de afirmar que um kinder substitui um lanche, onde as novelas mais vistas não passam de sarilhos entre drogados, criminosos e corruptos, e depois vêm os iluminados tranquilizar o povo com paternalismos destes
Posto isto, não será melhor a vida real, toda ela, ter um aviso permanente "só para adultos"?

29.1.16

Do vício da escrita

Escrever é um vício e pode haver quem maldiga a hora em que experimentou polir a realidade pela via das palavras, descobrindo nisso a paixão de um feitiço, o poder de um sabre afiado, o alívio de uma analgesia. 
Parar? Qual quê! Como um vulgar ressacado, também o que sofre deste vício perde o tino com a abstinência. Comicha-lhe a pele das mãos, alucina vendo frases, versos, parágrafos inteiros em cada fragmento de mundo. Ao dar-se conta, estará a escrever nas paredes, nos pulsos, no chão que pisa. 
Mas, ao contrário de outros vícios - que não servem senão um prazer transitório e egoísta -, o da escrita distribui-se, emociona, acorda, incomoda, congrega, puxa a mão de quem está só, serve de espelho, âncora, água benta, travesseiro, espanta-espíritos, pórtico para a fantasia. Assim, quem escreve compromete-se. E por tudo isto - ou muito menos - o viciado se apanha a recair.                                                 

28.1.16

"Já postei no facebook"

Poderá ser defeito dos meus olhos, mas ando a notar nas pessoas uma crescente indiferença pelos males do quotidiano. Ora, os males do quotidiano, que às vezes parecem coisas pequenas, dessas que as filosofias zen aconselham a ultrapassar com serenidade, são sintomas. E pode dispensar-se aqui o auxílio da ciência: a razão dos mais atentos sabe que os sintomas mínimos não raro escondem tumores, êmbolos e outras malignidades que se encorpam na proporção direta do menosprezo que lhes é votado. 
Cada vez ouço menos buzinadelas na estrada, queixas no atendimento público, protestos na fila do supermercado. Reparo que vão passando impunes à justiça popular o tipo que trava de repente sem encostar, desviar ou sinalizar, para atender uma chamadinha, a conversa íntima entre as funcionárias do guiché que faz esperar, para lá do razoável, os doentes e as suas dores, o casal airoso que estaciona o descapotável no acesso para pessoas de mobilidade reduzida. 
De repente, parece que está tudo bem. Contorna-se o automobilista, aguarda-se as funcionárias, vira-se a cara ao casal airoso. 
Vendo isto acontecer, sinto que algo não bate certo pois reconheço no meu país uma predisposição natural para guerrear por dá cá aquela palha, ainda que caiam em saco roto, por falta de verdadeira convicção, muitas das causas que levam ao confronto. Como sei que é impossível a uma alma a completa paz e harmonia, ponho-me a desconfiar. E ainda lamento, porque considero o pelo na venta bem mais sedutor e útil ao mundo do que a moderação.
Faz-se luz no meu espírito: ah, as redes sociais!, esses vazadouros de indignação e revolta que amplificam tudo até à monstruosidade e insistem que o mundo não sendo branco há de ser preto e não sendo preto só lhe resta ser branco, assim revelando inquietações, desocupações e defeitos de visão que na vida real são cautelosamente disfarçados. Nas redes sociais, a salvo da vergonha e das agressões físicas, explode-se à vontade e em menos que um ai dá-se a contaminação, normalmente virose para os habituais três dias, que se vai tão súbita como veio. E assim a gente se alivia das toxicidades e retoma a vida com a satisfação íntima de ter provocado, denunciado ou insultado, obtendo para cima de muitos likes, os suficientes para fazer uma revolução que nos desse um país novo se, em vez de um polegar levantado, fosse um indicador apontado, em carne, osso e sangue vivo. 
O mundo tende para a elegância dos modos e para o caos da intimidade. Espertos, sem dúvida, os que abrem canais para a livre circulação de traumas, neuroses e cobardias. Assim nos permitem andar na rua mais levezinhos, falsificando sorrisos e pactuando com o que, interiormente, nos destrói. 

"Ah, isso? Também me irrita mas já postei no facebook!"

26.1.16

Ai, os olhos dele

Considero sempre as advertências do mais velho. Tem sido ele a dar-me conta, antecipadamente, do que, mais cedo ou mais tarde, se confirma. Disfarces de caráter, agressividade contida, amores em marinada, segundas e terceiras intenções, a notar tudo isso ele é mestre. Não que tenha poderes de adivinhação, apenas é seu de nascença o precioso hábito de olhar. Guarda o silêncio e a distância necessários para tirar medidas e reparar nos sinais e, por isso, tantas vezes o pintam arrogante e antipático.
Foi ele que me disse que o senhor Pereira se apaixonou, quando fui dar-lhe o aconchego das boas noites e apagar a luz. Ri-me: não há aí novidade alguma. Ele arregalou os olhos, que desta vez era diferente, tinha sintomas de coisa séria. Estive a um passo de lhe perguntar o que sabes tu de coisas sérias?, mas um rasgo de lucidez e humildade pôs-me freio a tempo. Explicou como pôde e acabei a concordar. Talvez o senhor Pereira esteja, de facto, a conhecer o desnorteamento da paixão e por isso desta vez é incapaz de fazer vénias e dizer essas baboseiras aprendidas em manuais empoeirados. Amua. Treme. Gagueja. Ilumina-se. Anseia. Ai, os olhos dele, mãe!!!
- Só penso na mulher, coitada, como se não bastassem as filhas zangadas e o filho que abusa, agora o marido vai trocá-la por outra? 
- Não, filho, garanto-te que não vai. Tudo há de regressar à normalidade.
- Coitada, meu Deus....
Meia hora depois, ainda o ouvi às voltas na cama, suspirando. Por não querer impor as minhas teorias e saber que a inquietação é uma dor de crescimento tão necessária como outras, resisti, mas a vontade foi de acalentá-lo, dizer-lhe que não se preocupasse, pois aqui não havia vítimas nem culpados. O senhor Pereira e a mulher seguraram juntos a pá com que se cavou a sepultura daquela família.

22.1.16

Engano

Não alimento mitos ou moralismos. Não sou candidata ao poder, ao prémio ou ao altar. Estudei tanto como os outros. Leio os mesmos livros. Nasci entre as coxas da minha mãe. Para viver no país que todos lamentamos. Não sei como se governa e como se põe o mundo a salvo da fome, da guerra e das misérias de caráter. Preciso de consultar o dicionário todos os dias. Estou sujeita às luas. Sangro a cada mês e dói. Tenho fúrias e ganas em constante desarrumação. Ignoro a verdade. Nunca vi a luz. Não ouço vozes do Além. 
O que digo e faço não pode ser outra coisa senão irremediavelmente humano. Só não me perdoa quem, por engano, me eleva.

21.1.16

Alívio

Talvez a infelicidade seja o lugar mais confortável para a alma, concluo depois de anos e anos de ponderação. Tenho visto como nela se encosta muita gente sem dor concreta que se imponha, sem facto objetivo que a cause. Culpa, remorso, medo, sentido extremo de um dever imaginário, fantasiado pelo receio de perder o comboio, a confiança, o norte, o respeito. Vejo tudo isso naqueles que não escolhem senão permanecer no que são. 
Porque Deus ou a genética não os agraciaram com o dom de saber aceitar, estes são aqueles que diante de uma janela que se abre, de um raio extremo de sol, de uma nova possibilidade, fazem o gesto de cerimónia para com a vida: oh, não, de forma alguma, não posso aceitar tal coisa. Porém, aceitam a cruz e o destino e acreditam que daí vem a bondade, a resistência, o espírito dos verdadeiros heróis. Logo a seguir, buscam o nosso ombro para lamentar a má sorte e os dias monótonos, com falta de brilho e de paixão. 
Há muito que me livrei da ingenuidade de pretender mudar o mundo mas tenho mantido, ainda assim, o hábito de deitar a mão a quem está perto. Aprendo agora - e já tarde - que também isso é vão quando a infelicidade é caminho que de forma voluntária se faz. Pois assim que se mostra outra paisagem, outro atalho, novo horizonte, deslumbram-se, agradecem, limpam as lágrimas, é isso mesmo, mas no dia seguinte lá estão, encolhidos, regressados à concha, no sossego do que é já visto, revisto e conhecido.
Nunca fiz resoluções de ano novo e torno-me já aborrecida se voltar a repetir que o calendário não marca o compasso da minha marcha. Mas noto que, sem o querer, foi em consonância com ele que me deu para desistir de quem desistiu de si mesmo. É que, fazendo as contas, só lá vão três semanas de dois mil e dezasseis e já são em número igual aqueles que agora me limito a escutar sem nada acrescentar e sobre os quais prefiro até pouco ou nada saber. Um alívio para eles, não tenho dúvida.

(Um dia, passava o pai dos meus filhos num largo perto da empresa e um jovem mendigou qualquer coisinha, chorando-se da falta de emprego, da fome e do frio. Ele não lhe deu esmola, mas entregou-lhe um cartão seu e disse-lhe: apareça ainda hoje, fale comigo, tenho quem o ensine e dou-lhe trabalho. O rapaz nunca apareceu. Manteve o seu posto na soleira de uma porta, repetindo a ladainha e baixando os olhos sempre que o pai dos meus filhos se aproximava) 

15.1.16

O dia seguinte

Cinco homens ajoelharam-se quando acabei de ler, em voz alta, o que durante um par de dias escrevi, desbastei e poli. Como ninguém paga justamente o que faço - nunca se paga justamente, nem a quem prega um botão, nem a quem salva uma vida - e lido com quem não vai além dos títulos, fui cobrar os meus dividendos aos olhos deles e senti-me retribuída quando vi que era de admiração o seu brilho, que a virilidade inicial estava desconstruída e que a firmeza estratégica virara deleite, alegria. A palavra escrita tem efeitos de bruxedo, descompõe e enfraquece, vira um coração para onde o vento o soprar. Foi um cena improvável numa reunião, onde não convém elogiar mais do que aquilo que o orçamento admite. 
Entre o que comentavam, exclamavam ou sussurravam, rendidos a uma emoção quase feminina, notei-lhes o assombro por eu ter visto tudo antes deles próprios. A sobriedade com que fui acenando a cabeça escondeu o meu genuíno pensamento: Tolos! Qualquer mulher vê tudo antes. Desenganai-vos, a igualdade é um mito. 
Mas estas coisas, é sabido, mais debilitam do que fortalecem e o meu espírito tornou-se fértil para o diabo semear o que se diz ser da sua lavra: orgulho, soberba. Avareza, até, no modo como, em segredo, reclamei só para mim a vitória e as boas palavras que ouvira. Preguiça, por arrasto, pois fiquei certa de já ter feito mais do que devia e achei ser meu direito amolecer, adiar pelo resto do dia. À noite, com o retorno da lucidez, penitenciei-me sem pedir ajuda a Deus. Ri de mim própria, como se risse de outro que eu apreciasse à distância, sem sangue ou sentimento em comum. Não há castigo mais pesado do que a consciência da vulgaridade que somos, até quando brilhamos, sobretudo quando brilhamos. 
No dia seguinte, felizmente, acordei com os pés no chão. E os homens que se haviam ajoelhado pagaram e continuaram as suas vidas. É possível que esqueçam o meu nome. Eu nem prestei atenção aos deles.

13.1.16

Momentos românticos

A propósito de graças e trivialidades, lembrei há dias os momentos mais românticos que até hoje vivi. Com fartura em ingredientes essenciais a uma fita de cinema de lotação esgotada - magia, tensão, surpresa, excentricidade, espanto, suspiros, versos, imaginação, delírio,  juras, rendição - elevaram-me, transitoriamente, a rainha, deusa, ou qualquer outra coisa que só por distorção do olhar eu poderia ser. E porque, nestes assuntos, a modéstia é sempre um faz de conta muito mal amanhado que dispenso, admito que não me faltará com que impressionar os meus netos se, no tempo deles, ainda sobrar neste mundo disposição e paciência para escutar. Terei de lhes contar, porém, que estes não foram momentos plenos de amor. Os momentos plenos de amor que tenho vivido, ninguém daria um cêntimo para assistir a eles. Desengraçados, mudos, profundamente terrenos, tão quotidianos e objetivos como o lençol que até às orelhas se puxa para abrigar do frio ou como o pé assentando no chão ao acordar. O amor respira fundo quando ninguém o nota.

12.1.16

'taditos

Foi tanta a lamúria que num instantinho ganhou a pena dos interlocutores: que não tem tempo para nada, faz o que pode e a correr, o marido trabalha - ainda bem! -, e são três filhos rapazes. Vale-lhe uma filha de seis anos, com quem divide a tarefa de cuidar da família, cozinhar, fazer camas, pôr a mesa, estender e dobrar roupa. Já viu a minha vida? O que vale é que a miúda é prestável... Quando lhe disse que cada um dos meus filhos trata de uma grande parte das suas coisinhas, acarinhou-os como se andassem ao abandono: 'taditos...
E passou-se isto com gente tão formada, informada e integrada quanto eu.
Bem espremidinho e limpo de maquilhagem, o mundo é o que é, nos seus quatro cantos e em todos os tempos. Sem piropos fica é mais discreto.

11.1.16

*

Afugentar a dor - eis a mais infrutífera de todas as batalhas. 
Quando a dor se impõe, é preferível autorizá-la, deixar que entre e circule. Não em bandeja de prata ou em liteira de realeza, claro. Nem como troféu ou superioridade. Que ela não se faça a dona da casa, nem se arrogue do pó e da antiguidade, da sabedoria que deu ou não deu. Que entre e circule, apenas, pelo caminho natural, que não pode ser negado, nem acelerado, nem desviado.
A dor é como os cães: só depois de nos farejarem todos os cantos do corpo e lhes fazermos festas, é que sossegam. Enquanto lhes fugirmos, perseguem-nos.

7.1.16

O rio e a raiz

Hoje podem ler-me aqui, submergindo no Vale do Douro.

5.1.16

Alternador e bateria

O mecânico tem um ar cada vez mais infeliz e embaçado. Há uns oito anos que o conheço e, sem nada saber da sua intimidade, tenho para mim que uma catadupa de desgraças e desgostos se foram multiplicando no caminho dele, porque me lembro de o ver com outro brio. É novo, mas a face tem vindo a enrijecer, os olhos amolecem, os cantos da boca curvam-se como parênteses. Aperta a mão de um modo frouxo. E o passo é o de quem, propositadamente, se adia. Quando lhe entrego o carro avariado, chega a ser maior o meu entusiasmo, sem motivo, do que o dele, que ganha trabalho e sustento. Depois, resignado, quase triste, como se o carro pertencesse a ambos e o dano fosse solidário, apresenta-me o diagnóstico. Pergunto do conserto, quero saber os detalhes, causas e consequências, quanto tempo, e se...? Vejo-o finalmente sorrir e recuperar a verticalidade quando se mete a explicar-me o que é um alternador e qual a relação do mesmo com a bateria. Deixo-me estar, faço de conta. Basta ter andado na escola para entender do assunto. Mas se o interrompo, se lhe digo sim, eu sei, perdemos os dois uma grande oportunidade: ele, a de se animar por dar lição a quem supõe desentendida; eu, a de julgar que, só por isso, fiz o seu dia melhor.
Ajeito o poncho, passo os dedos no cabelo, ouço-o até ao fim com os olhos curiosos e está tudo muito bem. 

4.1.16

The perfect world

God of lost souls, thou who are lost amongst the gods, hear me:
Gentle Destiny that watchest over us, mad, wandering spirits, hear me:
I dwell in the midst of a perfect race, I the most imperfect.
I, a human chaos, a nebula of confused elements, I move amongst finished worlds — peoples of complete laws and pure order, whose thoughts are assorted, whose dreams are arranged, and whose visions are enrolled and registered.
Their virtues, O God, are measured, their sins are weighed, and even the countless things that pass in the dim twilight of neither sin nor virtue are recorded and catalogued.
Here days and night are divided into seasons of conduct and governed by rules of blameless accuracy.
To eat, to drink, to sleep, to cover one’s nudity, and then to be weary in due time.
To work, to play, to sing, to dance, and then to lie still when the clock strikes the hour.
To think thus, to feel thus much, and then to cease thinking and feeling when a certain star rises above yonder horizon.
To rob a neighbour with a smile, to bestow gifts with a graceful wave of the hand, to praise prudently, to blame cautiously, to destroy a sound with a word, to burn a body with a breath, and then to wash the hands when the day’s work is done.
To love according to an established order, to entertain one’s best self in a preconceived manner, to worship the gods becomingly, to intrigue the devils artfully — and then to forget all as though memory were dead.
To fancy with a motive, to contemplate with consideration, to be happy sweetly, to suffer nobly — and then to empty the cup so that tomorrow may fill it again.
All these things, O God, are conceived with forethought, born with determination, nursed with exactness, governed by rules, directed by reason, and then slain and buried after a prescribed method. And even their silent graves that lie within the human soul are marked and numbered.
It is a perfect world, a world of consummate excellence, a world of supreme wonders, the ripest fruit in God’s garden, the master-thought of the universe.
But why should I be here, O God, I a green seed of unfulfilled passion, a mad tempest that seeketh neither east nor west, a bewildered fragment from a burnt planet?
Why am I here, O God of lost souls, thou who art lost amongst the gods?


* Kahlil Gibran

31.12.15

Feliz novo dia

Passa o ano e passa também o dia, a hora e o minuto e, para mim, é tudo a mesma coisa. Meço a vida em unidades mínimas, aos bochechos, consoante os acontecimentos. Não gosto de passas, nem de espumante, nem de promessas. Terei esta noite bom vinho, boa comida e boa gente e por isso estou grata e espero repetir amanhã e depois e depois. Não tenho a mais pálida ideia do que estarei a fazer daqui a um ano. A longo prazo, sou cega. 

29.12.15

O choro e a mama

Neste país de consciência pesada, muito bem se vai desenrascando quem sabe pedir. Mesmo quando nada de essencial lhe falta, o que pede toca em ferida aberta, profunda e coletiva. E, se o fizer às escancaras, dando-lhe o tom de causa pública, com a cosmética da pieguice e o brio da poesia em duas ou três citações históricas, quem terá a coragem de negar? Quem repousa a cabeça no travesseiro imaginando a vergonha de o julgarem egoísta, avarento, indiferente, arrogante? Quem, entre os que precisam de salvar a própria alma, se recusará a dar, ainda que tenha menos do que aquele que pede?

28.12.15

Barbaridades

Com sobras das boas festas na barriga e no jeito caloroso de abraçar, o senhor Pereira pergunta-me se passei o Natal lá em cima. Pois claro, lá em cima é outra coisa, lá em cima nada me atraiçoa, o que não interessa fica cá em baixo, circulando por onde as estradas são fáceis e as lojas abertas e os humores inflamados. Lá em cima estamos e isso basta. 
- Muito frio, não?
Pergunta-me do frio como se fosse a mais dura das batalhas a que um ser humano é obrigado. Franze a testa, simula um arrepio, enxota a ideia com a mão. Minto para lhe fazer o gosto. E, de qualquer modo, que diferença faria a verdade a quem lhe foge do acordar ao deitar?
- Insuportável, senhor Pereira. Insuportável.
- Pois claro, lá em cima é mesmo assim!
O senhor Pereira nunca esteve lá em cima, fala do que ouve na televisão e nas conversas do ginásio. As suas viagens e passeios de fim de semana descaem naturalmente para destinos polidos, livres de agruras, ventanias, enjoos, picos, poços, lamas. E prefere o mar, naturalmente. A ruralidade é para os bichos, a amplidão de horizontes para quem não tem que fazer, o silêncio para os que se resignam à velhice. Não para ele, que ainda é rijo, amigo da folia, da modernidade e da fartura. Um privilegiado. Se eu soubesse o que lhe custaram os cinco dias de spa no interior! Que pasmaceira!
- E aquilo no Inverno é feioso, não é, menina? 
- Se é! O melhor, de facto, é por cá, os centros comerciais estão uma animação, a baixa ao rubro, tudo iluminado. Disseram-me que os dias até têm passado amenos...
- E vocês são para cima de muitos, deve dar cá uma trabalheira que Deus me livre!
- Nem lhe digo! 
O senhor Pereira desdenha para esconder as suas mágoas. Se ao menos na noite de Natal as filhas viessem, trazendo os maridos e as crianças, e atiçassem o fogo na lareira por estrear e se libertassem das trivialidades e as mãos se encontrassem no centro da mesa e os copos tilintassem e tudo ficasse perdoado por não haver alternativa melhor quando se ama... Mas quem há de dar o primeiro passo, se a razão é de todos? 
- Bom, já está de regresso...
Eu? Não, ainda não. Para que havia eu de regressar? Já há aqui gente que chegue e todos parecem tão essenciais, urgentes, indispensáveis na fila, no organograma, na assembleia, no ranking. Não, o que por aí vagueia é o meu corpo, eu ainda estou a meio do caminho. Os pequenos também vão demorar a largar as canas e as pedras, a descer das árvores e dos miradouros achados por engano, a desentranhar o cheiro do vento e da lenha queimada. Por vários dias os professores queixar-se-ão que eles não sossegam no banco da escola, noventa minutos de matemática e uma redação sobre as prendas deviam ser estocada bastante para os entorpecer e alinhar.
- É verdade, senhor Pereira, estou de regresso. Tem de ser. É a vida! 
Surpreendo-me com as barbaridades que sou capaz de dizer sem piscar os olhos. 

21.12.15

Ingenuidade

O que na vida me sabe melhor são as manhãs. Em todos os dias, úteis e inúteis, as manhãs são-me queridas. Não as temo, não as renego, bendigo a sua luz, o seu odor, a novidade que passa com os automóveis e vai com a gente correndo para a camioneta. Tenho essa ingenuidade: ao acordar, julgo que estou a nascer. E, com a súbita pancada de vir ao mundo, respiro fundo para respirar tudo antes que as coisas me escapem por tomarem a forma de banalidade. 
É que ontem fui outra e outra foi a vida que vivi. Se as houve, as dores antes do sono estão no baú das coisas consideradas mas inúteis. Devolvo ao travesseiro o conselho que lhe pedi, talvez não sirva mais. Hei de hoje provar de comer pela primeira vez. O cheiro do pescoço dos meus filhos surgirá novo como no dia em que os pari. Escrever uma frase será custoso, fá-lo-ei com a língua de fora e os olhos convergentes, tal qual uma criança ainda esforçada em dominar o lápis e acertar a caligrafia. Qualquer amor acontecerá como o primeiro, imprudente e cheio de crenças tolas, essenciais à sobrevivência.
Pego nas manhãs com cuidado, como se pega nas borboletas, de modo a não ferir nem desbotar. São a parte mais perfeita e delicada do dia. Se as estrago, vai-se o resto das horas com o efeito dominó. Andar devagar é a melhor forma de chegar inteira e a tempo.

18.12.15

Servir

De manhã, quando a jovem mãe chegou com os bebés, já a senhora idosa esperava na rua, debaixo de chuva miudinha. Certamente teria sido avisada por um sms, para poupar tempo. Depois, entre a confusão das mantinhas, dos saquinhos, dos peluchinhos, a coisa lá se organizou, a jovem passou-lhe os bebés, acenou, entrou no carro e arrancou aos esses, com o telemóvel encostado ao ouvido. A senhora idosa carregou sozinha os bebés, as mantinhas, os saquinhos e os peluchinhos, precisou de artes de malabarista para abrir a porta do prédio e da energia de um adolescente para vencer dois lanços de escadas. Quando entrou em casa arfava, o rosto lembrava uma paisagem com mil anos de seca, rugas afundadas, palidez de doença, olhos revirados, cabelos brancos numa trapalhada. E, antes que eu abrisse a boca, ela, um fio de  voz:
- Trabalha muito, é diretora de qualquer coisa. Os bebés dão trabalho, ela atrasa-se. E eu, para facilitar...
Portugal é isto, um atraso constante. Deixa-se adormecer com a ideia de que tudo se há de resolver no limite. E a sorte da sua gente que gosta de ser servida é haver outra gente convencida de que o seu dever é servir.

17.12.15

De braço dado

A mulher tinha por mim um desprezo imitado às figuras das telenovelas. Quando soube, por vias travessas, que o filho me pedira que casasse com ele, deitou as mãos à cabeça, teve um fanico, três dias de enxaqueca, um migraleve e a piedade de Deus, por favor! Com tantas médicas, engenheiras e advogadas, havia o rapaz de se embeiçar por uma jornalista? Quanto me dava isso por mês? Teria eu direito a ser tratada por doutora? O que diriam de ver o filho - que havia de ser juiz - de braço dado comigo?
Oriunda de bairro humilde na periferia de uma zona fina, a mulher passara a infância a suspirar pela vida dos ricos e a amaldiçoar a simplicidade do seu berço, onde só trabalho duro garantia pão. Com os neurónios entregues à inveja, nada sobrou para os estudos. Casou cedo com um chico esperto, em meia dúzia de anos enriqueceram. Conseguiu a sua vivenda com jardim, dois andares mais sótão e cave, ferragens douradas, decorou-a com muitos cristais, torcidos e tremidos de falsa antiguidade, cinzeiros,  jarrões, salvas, chávenas, estatuetas, folhos, berloques, chinesices, tudo exposto como peça de museu. De tal forma que nem se podia circular livremente, não havia rabo que merecesse o couro daqueles sofás e os reposteiros estavam sempre fechados para a luz não desbotar os móveis. Andava uma empregada atrás das visitas com uma flanelazinha, a puxar o lustro onde pousassem a mão. 
Tudo isto lhe bastou para se convencer da sua grandeza e se envergonhar do que antes fora. Entre tudo o que decidiu negar e esquecer, incluiu o sotaque tripeiro, chegando ao extremo de banir todos os "bês", sem critério, a jogar pelo seguro. E era um mimo ouvi-la comentar os volinhos de vacalhau e tudo o que tivesse muito vom gosto. Foi caridosa com a família, toma lá duas notinhas e este casaco, que já me fartei dele. Na hora da cobrança, só queria veneração. E obteve-a, naturalmente. 
Caiu mal à mulher, portanto, saber que o filho lhe aprontava um desgosto dos grandes, planeando casar com uma rapariga comum a quem nunca haveria motivo para fazer vénias e lamber botas. Soubesse ela de antemão que ele me era indiferente, que nunca o autorizei a tocar-me sequer com um dedo e que nem em estados febris o imaginava pai dos meus filhos, poupar-se-ia aos três dias de chinfrineira. Eu não tinha culpa que ele, coitado, tivesse metido na cabeça uma tolice das grandes: com essa carinha laroca ainda hás de ser pivô do jornal das oito e vai ser um orgulho andar de braço dado contigo.
O resto, só anos mais tarde me contaram: que ela passou outros três dias a maldizer o meu nome por ter-lhe rejeitado o filho. Quem se julga aquela sirigaita? 

16.12.15

À deriva

Perdi a conta às vezes em que mudei de opinião ao longo da vida. Desancorei-me a cada ventania. Mas antes isso do que estilhaçar-me contra o cais, virar destroço, corpo submerso, inchado, branco, vendo nada de olhos esbugalhados.
Curiosamente, julgo que hoje não ando mais nem menos à deriva do que os outros. 

15.12.15

Como está hoje, minha querida?

À medida que se ganhou o hábito da solidariedade em grande escala, abrangente, comprovável por números, presenças e resultados, foi-se descurando o ato generoso do quotidiano. Aquele que transfere dinheiro por uma causa mediática, pensa duas vezes antes de dar um elogio. Já ouvi planos de ir para África salvar elefantes na boca de quem amargou os dias aos companheiros de rotina. E apelos para acender velinhas aos doentes oncológicos nos facebooks de quem abandonou família no hospital.
A mim não me comovem pregões e alaridos. Comove-me, por exemplo, uma senhora que trabalha aqui no edifício, de poucas falas, quando passa pela velha que pede esmola alapada no murete, para uns minutos a fazer-lhe festas e a arranjar-lhe os cabelos. Como uma mãe, ou como uma filha, ou apenas como gente que ainda é viva e repara, pergunta-lhe: como está hoje, minha querida? Ouve-lhe atentamente as dores, as penas e os receios, e só no fim lhe pousa uma nota de cinco euros na mão, às escondidas, como se fosse a vergonha de ambas. 
Antes de ir, abraça-a demoradamente. Há tempo. O mundo que espere. É evidente que o mundo pode esperar.

14.12.15

Rankings

Nunca pedi aos meus filhos notas brilhantes. Quando as tiram, é pela própria vontade, interesse e brio. Mas provoco-os, todos os dias, para que lutem contra a ignorância, para que saibam, questionem, aproveitem e vejam, dentro e fora da sala de aula.
Ai deles que, metendo-se a estudar história de Portugal, não estranhem nada nem franzam a testa. Nem que me apareçam com uma prova sem rasura!

(Se eu mandasse, censurava a publicação dos rankings das escolas e preocupava-me era com isto. Pela felicidade geral da nação, pelos shoppings cheios, pela canalha bem encaminhada, pelo conveniente e apressado enterro de dores vivas, ainda bem que eu não mando)

11.12.15

Rodeios

É interessante chegar ao trabalho e, depois dos bons dias, ninguém perguntar o motivo do meu ânimo, de caminhar saltitando e de me rir sozinha como os tolos ou, pelo contrário, qual a causa das minhas olheiras, se dormi mal, que preocupação me embaça. Porém, notam que trago uma camisola nova, elogiam o corte do meu sobretudo, alertam-me para a falta simetria no cabelo e para um naco de lama agarrado ao tacão. 
Vivemos com rodeios no olhar, caindo como patinhos na armadilha do transitório, que é tão atraente e ruidosa. Esbracejamos, depois, por nela nos vermos presos e não acharmos saída para qualquer coisa que eleve o facto, banalíssimo, de existirmos.

10.12.15

Linha constante

O que o senhor Pereira tem de gentil fora de portas é tanto como o que tem de ditador em casa. Com a mulher, leva a água ao seu moinho pela via da manipulação e do elogio, com argumentos fajutos que abrilhanta à custa de expressões imitadas aos doutores da sua veneração. Por não recorrer a gritos ou violência, é uma ditadura legitimada, confortável.
As filhas nunca suportaram esse constrangimento exercido sobre a mãe. Já o filho, preferiu fazer aquilo que é fama dos homens e que vem na literatura e nas revistas. Não empolou. Ao alarido das irmãs, encolhia os ombros: é entre os dois, eles que se entendam. Focou-se no essencial e, para os homens, o essencial é que a linha da vida se mantenha constante, seja lá como for. As mulheres, que a carregam no ventre, sabem que a vida é por natureza instável. Não há neutralidade, contenção ou cobardia que impeçam que tudo se transforme, evolua ou descambe. Por isso, as filhas fizeram aquilo que desde o início dos tempos também é fama da condição feminina: ensarilharam-se, intercederam, opinaram, julgaram. Essa forma de estar no mundo é simultaneamente virtude e pecado, pois se umas se enredam para acudir, outras fazem-no por curiosidade frívola e pelo gozo do diz-que-disse. Mas, a certa altura, no caos do novelo, quem distingue a linha que separa ambas?
Aparentemente, as filhas do senhor Pereira só queriam salvar a mãe. Horas e horas na cozinha com ela, lembraram-lhe o seu valor, os talentos que encostara para canto, os sonhos mortos e enterrados lá atrás. Eras tão boa a fazer versos e a cantar! E este mundo novo, mais aberto e justo, que já não autoriza distinções de género nem obriga à infelicidade vitalícia, ainda tinha lugar para ela. Mas a mãe, nada. A vida não é um capricho, meninas, para fazer e desfazer consoante os humores. O que se decide, leva-se com seriedade até ao fim. 
Derrotadas, e ainda descontentes com o irmão por não defender quem o pariu e embalou, elas viraram costas. 
O filho do senhor Pereira, solteirão convicto, rapaz de boa vida, que prolonga as febres da adolescência para lá dos trinta, almoça com eles todos os domingos, passa durante a semana para encher tupperwares com os petiscos da mãe, chega com uma trouxa de roupa suja, sai com outra já lavada e dobrada. Enquanto está, falseia, faz de conta que não nota o desamor dos pais, tantos anos invisível sob o enlevo da parentalidade, a correria até ao fim do mês, a agitação das férias, as jantaradas com casais amigos. Como não se insultam nem se agridem, o filho do senhor Pereira acha que, comparando com o que se vê por aí, é bem bom. Assim, parece-lhe que as coisas estão como devem estar para que a vida se mantenha constante e conforme também a ele dá jeito. 

9.12.15

*

Respeito e aprendizagem, que aconteçam em ambos os sentidos, são o bastante para harmonizar novos e velhosA obediência, essa é a grande inimiga do futuro.

7.12.15

Da ignorância dos mais novos

Estremeço ao ver que a prosa de Torga sairá no próximo teste de Língua Portuguesa do mais velho. Nos últimos anos, têm sido abordados textos que eu lia aos sete anos de idade, sujeito, predicado, complemento direto, e disse ela, e respondeu ele, dois pontos, parágrafo, travessão. Livros sobre gatinhos, fadinhas, princezinhas, criaturinhas mágicas, cheios de moral e bondade, maus castigados, virtuosos recompensados, que tudo corre de feição quando o amor habita os nossos corações. Os professores projetavam no quadro páginas avulsas, órfãs do todo, sem que se sentisse o pulso à narrativa e a sedução do andamento. Veio agora este professor e passa-lhes para as mãos, em papel, a vida real, o avesso do país sem maquilhagem nem fogo de artifício, memórias e misérias incluídas a sangue frio e palavreado que só com um dicionário dos bons. Nada de extraordinário, está conforme o afamado PNL e as minhas vontades. O mal foram os anos anteriores, também conforme o PNL. 
Olho para os excertos da obra em estudo, inquieto-me de pensar como vai a canalha viver, da noite para o dia, com o vocabulário popular, os usos e costumes serranos, os nevões e as cabras, as inversões sintáticas que, depois de tudo o que já foram obrigados a decorar, parecem assalto à língua, crime de ignorância. 
A esta hora, o leitor que aqui veio abana a cabeça, supondo-se meu cúmplice, e pensa: pois é, os miúdos hoje não sabem nada, é uma tristeza. E quem tem culpa, pergunto eu? É deles a culpa de não terem nascido com o conhecimento inscrito no dna? É deles a culpa de não serem do tempo da outra senhora e de não terem pais e avós no Portugal sacrificado e solitário? É deles a culpa de nunca terem ouvido o vento nas montanhas nem visto a galinha chocar um ovo? É deles a culpa de não haver que sobre para livros depois do que se gastou nas nike air e no samsung? Paremos de culpar os mais novos pelo mau trabalho que com eles temos feito, pelo pouco que lhes temos dado. É hábito velho, gasto: desde o início dos tempos que os anciãos desdenham dos jovens e nem reparam que com isso se envergonham a si mesmos porque cada geração aprende com a anterior e com o mundo que lhe é dado. Essa ladainha só pega, portanto, com quem não pensa.
Não é tudo. Este professor, que por associações absurdas (mas naturais) imagino muito belo, é de outra cepa. Não consta que levante a voz ou tenha esses desgovernos emocionais a que a classe é muito achacada, mas diz-me o mais velho que não há pio enquanto ele fala. É um contador de histórias, mãe, às vezes nem dá matéria. Dá, mas ele ainda não se apercebe. A seu tempo o reconhecerá. Diz-me ainda que pôs a miudagem a escrever como nenhum outro antes, e por tudo e por nada. Agora, toda a gramática lhes faz mais sentido pois deixou de ser uma mera nomenclatura que é urgente enumerar em respostas de cruzinhas. É a batuta para uma sinfonia, um instrumento transparente, maleável, orgânico, expressivo. 
Há dias:
- Mãe, o professor de Português apanhou-me a desenhar cavalos na aula.
Deus meu! Falta disciplinar ou qualquer outro desses castigos a que, hipocritamente, a tribo chama de "medidas corretivas"? Recado na caderneta? Olho da rua? A cantilena habitual sobre o não saber estar, a falta de modos, o menino é que se prejudica com isso e eu não quero saber, a vida é sua e eu ganho o mesmo ao fim do mês?
- Então?
- Disse-me: "rapaz, já que percebe tanto de cavalos, na próxima aula traga-me uma crónica sobre o assunto. E limpe-a de gorduras." 
- Ele disse "limpe-a de gorduras"?
- Disse.
- Tens a certeza?!
E precisei então de um leque para me abanar, não fosse perder os sentidos com o deleite e o assalto ao coração.

4.12.15

Olhar

Fazendo fé nos que dizem só ter descoberto a humildade depois de uma grande viagem, presumo que a arrogância seja a condição dos pobres e remediados. Não podendo tirar anos sabáticos, pagar aventuras no deserto, dormitar num acampamento mongol, comer baratas e gafanhotos por desafio, encostar-se ao muro das lamentações, perder-se nas florestas sul-americanas, andar à boleia em pirogas ou camelos, ficarão os pobres confinados a uma existência de equivocada grandeza, incapazes de alcançar que somos um grão de pó, um sopro, uma inteligência vaga entre biliões de mistérios, segredos e divindades? 
Desde sempre me recordo que olhar para o lado, na minha casa, na minha rua, na minha escola, era o bastante para sentir o peso infinito daquilo que não sou, não sei, não posso nem sonho. Não compreendo que sombras e cegueiras nos podem tornar incapazes de tirar as próprias medidas no quotidiano.

1.12.15

Eu já fui linda em Paris

Porque são imaturos, permeáveis a febres, modas e alaridos, os meus filhos perguntaram-me se eu também fui feliz em Paris. Não tão feliz quanto em outros lugares, disse. Mas sim, naturalmente. Sempre tive uma felicidade fácil, herdei-a da minha mãe, tanto quanto herdei a melancolia do meu pai, aparentes opostos que de nascença me habitam em relação de mutualismo. 
Insatisfeitos com a minha falta de objetividade, quiseram ver fotografias, fui buscar o álbum e abrimo-lo na mesa da cozinha, debicando chocolatinhos. Súbito, o mais velho leva as mãos à cabeça:
- Valha-me Deus, mãe! Tu eras mesmo tão linda!
O pretérito imperfeito foi uma estocada que me deitou por terra. Reergui-me lentamente para evitar tonturas, sacudi os restos da humilhação, confirmei a estabilidade dos ossos e das articulações. A seguir destrancei o cabelo e amanhei um sorriso.
- Era?!
Sem abdicar da franqueza, mas generoso o suficiente para não reincidir, ele nada disse. Segurou-me na cabeça com ambas as mãos e deu-me um beijo na testa, prolongando-o no tempo necessário para eu me livrar de tão fúteis inquietações. O mais novo, que prefere dizer uma mentira a destruir uma ilusão, avançou em minha defesa. A mãe é linda, no tempo presente e, sem dúvida, também no futuro simples. E afastou o irmão para me beijar ele, com sofreguidão, arrebatamento e entrega.

Quem se atreve a afirmar com que linhas se cose, afinal, o amor e que provas deve ele dar da sua verdade?