31.10.14

...



Que me perdoe o Chico, o contador entre os cantadores, por aqui preferir outra voz que não a sua, mesmo sabendo que é dele o mérito de versejar assim pelas mulheres.

30.10.14

Habitação

No prédio aqui defronte, fuma à janela da lavandaria uma mulher nova, com o cabelo metodicamente apanhado no cocuruto. Enquanto chupa e bafeja o cigarro, purgante rápido para quase todas as ansiedades, dedilha no telemóvel com fervores de adolescente. Vai sorrindo de entremeio, lendo o que mais ninguém lê, escrevendo o que mais ninguém sabe, e, a espaços, foge-lhe por um canto da boca uma malícia tão leve que talvez seja injusto assim chamar-lhe. Rodopia o olhar pelos céus - busca ideia ou desenterra memória? - e logo se lança de novo a dedilhar. Depois, mata o cigarro num pires, inclina-se sobre o parapeito e cruza os braços, aprofundando, para melhor navegabilidade, o leito que tem entre os seios. Por trás, há uma cortina de lençóis cor-de-rosa e uma fileira de camisas brancas penduradas no estendal, que tanto podem ser do marido como do patrão. É difícil saber quantas mulheres podem habitar em cada uma.

28.10.14

Cardiologia

No mesmo quarto do hospital foram acolhidos, por quebra do coração, o lavrador, o médico e o ranger. Os três apanhados de surpresa. Nenhum deles adivinhara que a angústia e a falta de ar, sentidas de passagem, eram a morte dando-se a provar num trago curto e indolor, em jeito de aviso. Não o adivinhara o lavrador, tão esperto acerca dos caprichos da natureza, nem o médico, décadas a fio a estudar e vasculhar o corpo dos outros, nem o ranger, treinado para não subestimar os movimentos do inimigo nem mesmo na paz dos deuses. 

O coração é um músculo involuntário. E isso, que é do senso comum, pode servir como alegação de defesa para os românticos e outros que não encontrem modo legítimo de justificar impulsos. Diz-se, ainda, que as suas razões são pela própria razão desconhecidas e a ela francamente superiores. À custa destes argumentos se fez do coração o senhor dos sentimentos, o sujeito do poema e da canção, o mais elevado poder que em território alheio urge conquistar. O resto desculpa-se, pois segue a reboque. Garante-se que é por ordem dele que o corpo se desgoverna, entregando-se no amor, atirando-se no desespero ou atacando no ódio. 
Porém, o seu poder é fantasiosa sublimação numa interioridade que é apenas visceral e sobrevive à custa de trocas, interesses, dependências e pactos, tudo desenhado pelas mãos dos deuses, da mesma forma que os génios desenham máquinas. Não é poder absoluto nem reino independente. Razões que a razão desconhece, mistérios e desmandos, tem-nos o corpo inteiro, pois em todo ele está escrita a origem em letra microscópica e, por herança, azar ou mau hábito, se vai escrevendo o destino, tantas vezes sem dar contas nem alertas.

Ao lavrador, logo foram, como que de enxada, abrir sulco no terreno para repor os fluxos. O médico, precisam de estudá-lo melhor antes de tomar decisões. Para o ranger, vim embora sem saber que combate se desenha na mente dos cardiologistas. Estavam os três de disposição plena, comendo com ensejo, prova provada de que não advêm do coração nem as forças do espírito nem as vontades do corpo.

25.10.14

*

No amor é como na morte: a gente pede mais um minuto de vida, convencido que depois renunciará de vez. E mal o minuto nos é concedido, já estamos a pedir outro.

Miguel Torga, "Diário VI"

24.10.14

A maternidade e o lifestyle

Ser mãe em full-time (assim o dizem, como se houvesse outro tipo de maternidade que não fosse em full-time) tornou-se um alvo das abordagens ao lifestyle. Para isso têm contribuído os enquadramentos românticos, as associações às marcas e aos espaços culturais ou comerciais, alguma literatura (salvaguardando-se a ambiguidade do conceito) e determinados pressupostos sobre a consistência e o longo prazo da felicidade.
A maternidade, seu exercício, seus direitos e possibilidades, já não é, portanto, uma questão familiar ou social, mas uma questão de lifestyle, esse termo que agora serve para arrumar tudo e um par de botas e faz conviver nas mesmas páginas de jornal as sugestões de restaurantes gourmet e a forma como se ama os filhos. É tudo uma questão de estilo, charme, imagem. Crise vai, crise vem, crise vai e não saímos do mesmo, não aprendemos. O que apenas diria respeito a valores e possibilidades, rapidamente se impõe como tendência. E a tendência deste século é competir para mostrar quem ama mais e é mais feliz. Em segundo plano talvez fiquem as questões do corpo, do automóvel, das roupas caras, porque o dinheiro escasseia, mas nem por isso nos afastamos da ditadura das aparências. 
Descansai. Não é isto um manifesto pela defesa das mães que trabalham nem um ataque às que assumiram outras tarefas. Também não será hoje que vou expor aqui minhas escolhas, causas, prioridades, rotinas ou limitações. Nem condenarei as dos outros, que eu cá não sou juiz da felicidade alheia, a não ser que ela me insulte ou insulte a sociedade. Tenho religioso respeito pelo caminho que cada um faz, principalmente quando o amor lhe guia os passos. De resto, também a minha mãe o foi em full-time, como agora dizem. De seis filhos. Mulher admirável, cultíssima, inteligente, paciente, generosa, doce, inspirada, elegante, cheia de graça e absolutamente discreta acerca de tudo isso. A sua forma de ser fez a minha infância feliz e inteira. 
O que não posso conceber, nem me apetece, cá no íntimo, aceitar, é a abordagem. Esta subtileza a virar o bico ao prego, de forma a que se sintam inúteis e desapegadas as mães que, porque precisam ou preferem, estão a trabalhar. O que não posso conceber é que as palavras "prioridade", "entrega", "amor", "família", "abnegação", estejam a ser reclamadas para um território específico. É que as modas... ah, valha-me Deus! as modas têm tanta força, mas tanta força na mente dos indivíduos e, por contaminação, das sociedades, que se torna assustadora a sua capacidade de interferir na moral e nos afetos. Essa é a perversão da coisa. Quanto ao resto, perfeito. Cada um onde quer ou onde pode, pelo bem de todos. 
Mas não deveis esquecer-vos de uma coisa: toda a mãe, esteja onde estiver, a que horas e de que forma, é uma mãe em full-time. A maternidade não é uma agenda. Amai os vossos filhos, amai como vos for possível, com o tempo, o gesto, a palavra, o colo, o amparo que vos for possível. Mas amai com honestidade e respeito. E não me enrolem com pieguices.

23.10.14

Na província, a imaginação...

O provinciano é também o que se inquieta com o sossego do vizinho. Aborrece-o que ele não se dê à conversa fiada no portão nem revele certos hábitos e intimidades capazes de alentar os espíritos desinteressados do próprio quotidiano. Toca então de lhe inventar um amante secreto, um cadáver oculto, um propósito suspeito, um inimigo a abater. A província - vem nos livros - é, sobretudo, uma enorme pasmaceira interior, que busca desesperadamente por ação e entretenimento. 
Se certas pessoas tivessem generosidade e talento para a escrita em doses iguais às que têm em imaginação, voltaríamos ao tempo dos grandes romances, dos enredos magnéticos, dos desenlaces que sovam o estômago e fazem cair o queixo.

21.10.14

Ler como amar (9)

Sentir que o que lemos foi escrito a pensar em nós - eis um dos muitos equívocos que disparam a magia, geram a expectativa e alimentam a dependência.

20.10.14

Legítima defesa

A desonestidade não é o sintoma de um casamento arruinado. É antes a arma a que, invariavelmente, é preciso recorrer para o salvar. Nessa hora de aflição, em legítima defesa, com o pânico de ficar só e à deriva, não há diferenças: qualquer manso vai buscá-la aos fundos obscuros do caráter e faz uso dela sem pensar duas vezes.

19.10.14

Traição

A partir de certa idade, vigia-se o ventre de uma mulher como a uma rede de conspiradores. Nunca se sabe quando, no silêncio e na fundura, congemina o momento de atirar à cara tudo o que deu e fazer-se cobrar. E pode dar-se então a ironia de a carta que anuncia a morte ter o mesmo remetente da que convidou ao amor e anunciou a vida. 

18.10.14

Urgências

Podia escrever mais vezes o que penso sobre factos e acontecimentos, mas o que penso não tem relevância nenhuma num mundo onde toda a gente pensa em tudo mais depressa do que eu. Não posso competir com likes, citações e sentenças instantâneas. Chegarei sempre tarde e a despropósito, como uma dor de costas num serviço de urgência já lotado de cardíacos.

17.10.14

Carta de amor

O rapazito a dizer-me, como quem confessa uma vergonha, que tinha recebido uma carta de amor ridícula. Pelo tom leviano e a pouca idade, logo imaginei que o seu julgamento nada tivesse a ver com o do poeta. Desdenhou dos corações espalhados no papel, da promessa de fidelidade, do encontro que ela marcava, para esse final da tarde, no dobrar de uma esquina ali perto, e da assinatura, que era uma nuvem de batom rosa e perfumada.
- Parece-me igual a todas as cartas de amor das meninas da vossa idade...
- Oh, minha senhora... Nem imagina quem ma enviou...
Se eu visse, entenderia o desdém. Explicou, por palavras que não foram estas: a miúda era feia de assustar. Um olho insubordinado. Cabelos lisos, sem gracinha nenhuma, quando ele se perdia era por um festival de caracóis. Incisivos desumanos, coisa para empecilhar um beijo. Tão magra que, das duas, uma: ou passava fome e metia dó, ou era ruim e fazia medo. Mas o mais repugnante era o tique nervoso: afagava constantemente o lóbulo da orelha, como fazem os bebés rendidos ao sono.
- Ao menos respondeste-lhe a dizer que não vais aparecer?
- A carta já 'tá no lixo, rasgada em pedacinhos. 
Suas razões eram óbvias, garantiu-me que qualquer outro faria o mesmo. Uma carta de amor vale consoante quem a escreveu. Vinda de quem vinha, era nada.
- E se fosse uma nota de cem euros?
- Isso já era diferente! Uma nota de cem euros vale sempre cem euros, não importa de onde vem!
- Quem disse?
- Sei lá... Deus?
E foi-se. Os pés trôpegos como barbatanas fora de água, meio rabo à vista por não lhe caber nas calças, o tique de encolher os ombros a cada passo, como uma marioneta. Lentamente, está a caminho de ser Homem mas vai já tão trapalhão do corpo e confuso das ideias que temo que se espalhe antes de lá chegar.

16.10.14

Espetos de pau

A gente ouve os professores, os psicólogos e os pediatras em suas profundas dissertações e advertências - quase ralhetes! - sobre educação e valores e imagina os seus filhos como anjos de bondade, incapazes de desacato, desde o berço conscientes das obrigações,  acordando e adormecendo sem sinal de trauma, nódoa ou inquietação. Adivinha-lhes nobres futuros como cabeças de quadro de honra, voluntários contra a fome, chefes de famílias imaculadas, pacifistas, despojados, desinteressados, desmaterializados, partilhando seu pão, cedendo o seu lugar, dividindo o seu ganho.
Até que um dia se cruza com eles no supermercado.

15.10.14

Post-scriptum (poesia)

Não. A matemática não é a disciplina das contas
A matemática é a ciência que organiza o real, até ao infinito. O raciocínio matemático não limita. Expande. É a mais fascinante das linguagens do universo, que abre a porta a todas as outras. A matemática traduz o rigor da infinitude, a ordem do abstrato, a lógica invisível do equilíbrio. Decompõe a relação entre todas as coisas. É belíssima.  
É pela matemática que sabemos, por exemplo, que um triângulo escaleno, esse que parece sempre que tem um braço mais atrevido, a querer chegar onde não deve, continua, ainda assim, a resultar em 180º quando somados os seus ângulos internos. Exatamente como um triângulo equilátero, aparente modelo de perfeição e harmonia.

14.10.14

Poesia

Faz-me pena a poesia medíocre.
Só quem sabe de música e de matemática, ainda que possa ser analfabeto, faz um poema que valha.

Livro de sonhos

Ganas e ambições, ainda são muitas as que lhe puxam a carroça. Mas sonhos, mundos de irrealidade ou sublime elevação, tem quase nenhuns. A idade foi descartando o devaneio, já lá vai o tempo de suspirar pelo impossívelPorém, enquanto dorme, a magia acontece. Confidenciou-me que renasce numa existência paralela. Sonha com tal grandeza, lógica, duração e detalhe que acorda sem saber se mais vive de olhos abertos ou fechados. Cruza todos os que conhece com aqueles que mal lembra, outros que já morreram e alguns a quem nunca viu o rosto. Versões complexas e intrincadas, cheias de absurdos que não o serão tanto assim, picos de intensidade dramática, amantes, feridos, mortos, partos, suspeitas, revelações, catástrofes, felicidades que em mil anos da vida que tem não alcançaria. E o incrível é tudo ter uma sequência narrativa que bem podia ser obra da realidade. Sabes que mais? Se eu tivesse jeito para escrever, até podia fazer um livro de sonhos...
Aqui há dias - e o tom de voz acanha-se - sonhou que namorava com o Cristiano Ronaldo. Ignora o que lhe passou pela cabeça, o rapaz podia ser seu filho e, tirando as pernas, que não são mais que a sua obrigação, não vê nele atrativo. Se tivesse sonhado que assistia a um jogo e lhe aplaudia os golos, ou que ganhava um autógrafo e um retrato a dois para o facebook, compreendia-se. Mas andar com ele, mão na mão, feliz da vida, vendo montras, trocando impressões e carinhos, cumprimentando estranhos? Isso é que não engolia. Tanto homem que lhe podia encher os sonhos de prazer e satisfação e saia-lhe aquilo. Acordara com o sentimento de perda de tempo. Passar a noite em miminhos e pieguices com o miúdo mais lhe parecera um castigo do que a oportunidade de uma vida. Repara, isto não é sonho de mulher, é sonho de adolescente...
O sonho é uma dimensão dolorosa. Assistimos de mãos atadas, desautorizados no avanço e no desfecho, sujeitos ao que uns dizem ser a vontade inconsciente, outros garantem ser um esboço do destino ou um caldeirão mágico de recordações. Afirma-se, mas eu não estou certa: os sonhos são criação exclusiva do nosso cérebro. Urdimos a teia onde acabamos enredados, muitas vezes a espernear até ao sufoco. Acordar pode ser o maior de todos os alívios, mas fica sempre a impressão de um pé preso do outro lado. 
Mal menor que o pé lhe tenha ficado entre os do Cristiano Ronaldo. 

12.10.14

Tudo isto é triste

Comecei a cantar Tudo isto é fado para embalar o mais novo. A infância, quando é a valer, cobra tudo ao corpo no final do dia. Ficam as crianças como um saco vazio e frouxo, as pernas reclamam das correrias, os braços queixam-se dos arremessos, todos os sentidos exigem o justo repouso pela aprendizagem da vida. Não havendo local adequado para dormir, há que procurar um colo pois é sabido que aí se faz a melhor cama, não apenas para o corpo mas também para o espírito. 
Perguntaste-me outro dia se eu sabia o que era o fado... O meu timbre controlado, quase um sussurro ao ouvido, chamou a atenção de outros dois com idade aproximada. Chegaram-se devagar. O rapazinho prontamente disse o nome, Eu sou o Gui, também posso ouvir? A menina, mais recuada, preferiu ficar anónima mas generosamente mostrou a falta dos incisivos. Continuei a cantar baixinho, o meu filho entorpecendo nos meus braços, com um olho neste mundo e outro a caminho do sonho. O Gui pousou no chão o tablet que trazia debaixo do braço, sem cerimónia alapou numa das minhas pernas - a outra estava ocupada por direito inalienável -, a menina desdentada veio por trás, começou a fazer-me uma trança no cabelo com a autoridade própria de certas crianças, que não perguntam nem esperam. E de repente eu vi-me como uma árvore de três frutos pendurados, cantando tristezas para receber o Outono. 
Enquanto cantei, ninguém falou ou mudou de lugar. Mas quando eu disse choram guitarras, eles arregalaram os olhos, descaíram-lhes os queixos, e a menina, num assombro: Podes dizer isso outra vez? Retomei o refrão e quando voltei ao choram guitarras, já não era só o espanto, mas o encantamento que lhes dilatava os olhos. O Gui, de mãozinhas sapudas tapando a boca escancarada, como se tivesse visto maravilha que não coubesse neste mundo: Como é possível?! As guitarras também choram? A menina queria mais: Espera aí... Eu não percebi muito bem o que é o fado. Podes cantar tudo do início? Cantei. E cantei. Voltei a cantar. A cabeça tombada do meu filho suava no aconchego do meu peito, o Gui e a menina desdentada quietos e reverentes diante de mim, a trança ao abandono, desfazendo-se com vagar nas minhas costas. 
Antes de vir embora, disse-lhes que pedissem aos pais para ouvir guitarras e então comprovariam como elas choram quando tocadas com mestria. Tão delicadas e sensíveis que são! Dando-se o caso de não lhes verem as lágrimas, que fechassem os olhos e as imaginassem, deslizando nas cordas como pelas rugas de uma face muito antiga. Depois fugi com o meu filho ao colo, temendo que alguém viesse pedir-me contas por andar a dizer às criancinhas que o mundo está repleto de belíssimas tristezas, de uma harmonia tal que apetece agradecer aos que padecem de dor. 
Não se faz.

10.10.14

Mas...

... se é comum a todos este mal-estar, se a cada um consome o sentimento de girar em contramão e mói o peso do mal e da injustiça, se todos se confessam, em maior ou menor grau, alvos da inveja e vítimas do egoísmo, se, no íntimo, ninguém escapa à convicção de estar certo entre errados, de ser direito entre tortos, de sentir entre os insensíveis, de se preocupar entre os indiferentes, de se achar bonzinho entre bestas e carrascos, de estar inocente entre os manipuladores, se ao espelho cada um se vê diferente, marginal, distinto e, às vezes, profundamente só, se todos, invariavelmente, se doem do mesmo, então... 
Então em que metade do mundo estão os responsáveis pelo caos, pela perversidade, pela injustiça, pela pancada que levamos ao acordar de manhã julgando estar aquém do que merecemos ou acima do que realmente somos? Serão eles a outra metade de cada um e estará a falha apenas no facto de não nos vermos do avesso e negarmos as linhas com que nos cosemos? 
Quem nunca ouviu o ignorante chorar a ignorância do mundo?

9.10.14

O grande amor

Não tenho por que invejar os que conhecem um grande amor, pois também tenho a minha bagagem. Mas invejo, com uma inveja atinada, da que morde os lábios e logo ajoelha para se redimir, os raríssimos que são capazes de o escrever à altura.

8.10.14

Teoria da "relativização"

Depois de seres mãe, deixarás de te importar com coisas pequenas. 
Assim me diziam os mais velhos. Que, com a maternidade, eu havia de aprender a relativizar. Que a importância de uma vida nos meus braços, em dependência de alimento e afetos, diminuiria o peso das realidades quotidianas. Deixariam de me doer certas ofensas. Tornar-se-iam miudezas as causas pelas quais erguia antes o punho. As minhas preocupações, revoltas e paixões acomodar-se-iam no canto da alma onde a indiferença é rainha. E com uma lucidez impressionante, eu distinguiria o que é história do que é apenas cenário. 
No embalo de um amor novo, com o centro de gravidade reposicionado, passariam a importar-me antes os sonos, os vírus, a magia dos instantes e da rotina, o esforço de dar o meu corpo, a minha entrega abnegada. Um sorriso dele e eu esqueceria tudo, o mundo retomaria o seu eixo. Um espirro, um ataque de tosse ou um assomo de febre, e teriam a dimensão de insetos os problemas do trabalho, as notícias do jornal, os gemidos noturnos da vizinha. Os primeiros passos que ele desse sem apoio, tornariam ridículas e levianas todas as alegrias que movem os que não têm filhos.
Enganaram-me. Ou enganei-me eu no curso da vida e, mais cedo ou mais tarde, talvez vá rebentar-me por circular em contramão. Porque tudo me parece cada vez mais imenso e importante, vieram à tona outros prazeres e outras dores que não habitam a minha casa mas em que reparo porque vivo mais atenta, de janela sempre aberta. Meus olhos são divergentes. Tenho um sobre os meus filhos e o outro retorcido, fugidio, às voltas por este mundo e por outros de que só suspeito.
Recordo, porém, de modo vivo e com os órgãos dos sentidos ainda inflamados, o dia em que me foi dada oportunidade rara para mudar de ideias e dar razão aos experientes. Faz agora uns quatro anos, que duvido terem passado ao ritmo do calendário. Não mais esquecerei, a não ser que os meus neurónios se empreguicem de vez. Havia polícia, bombeiros, sangue, vomitado, delírio, ele de olhos brancos e ausentes deste mundo, no ar a ameaça de uma sentença irreversível. Mas até nesse momento, e sobretudo nesse momento, com as pernas falhas de pânico e o coração num desatino que não mais conheci, tudo me pareceu maior e mais relevante ainda, cada partícula com o peso tremendo do universo, cada rosto estranho a esperança da salvação. No longo tempo de espera pelo regresso dele, uma bolacha Maria evitou-me o desmaio, um afago anónimo refreou-me os espasmos do ventre, uma parede deslavada foi meu único amparo, um grão de pó foi prova de vida, subindo e descendo com a corrente do respirar. Tantas coisas pequenas sustentando-me o corpo e o espírito! E a minha relativização continuou a ser inversa à que me haviam prenunciado.
Não há por que empequenar certas coisas depois da maternidade. Tudo me importa cada vez mais. O tempo importa, em todas as suas conjugações, importa toda a realidade, todo o ser humano, toda a solidão e todo o ruído, miudezas, rotina, trivialidades, gente má, gente feia e gente boa. Importa-me até uma pedra no chão, pois não sei se será minha arma na hora de me defender. Sou permeável e comovida. E são mais, muitas mais, as razões para a minha indignação, neste ou noutros cantos da Terra.
Depois de seres mãe, deixarás de te importar com coisas pequenas. Não existem coisas pequenas. 

7.10.14

A importância dos nomes

Chamavam-lhes "empregadas" no tempo da minha escola primária e, à época, eram implacáveis. Uma ou outra, mais agitada dos nervos, tirava um chinelo e dele fazia arma de arremesso quando precisávamos de freio às tropelias. Fugíamos a esconder-nos nas casas de banho, tínhamos medo. Às mais amorosas, um profundo e leal respeito, pois era nosso o colo delas nas horas de angústia e suas as mãos que nos guiavam quando a largueza dos recreios e o labirinto dos corredores eram ainda novidade.
Depois, passaram a chamar-se "contínuos" e "auxiliares", porque, afinal, ninguém é empregado de ninguém e devem as criancinhas ter isso presente desde cedo. À falta de outros métodos, pela palavra se vai tentando ensinar o respeito. Também se ensina o religioso "obrigada" cuidando que é quanto basta para incutir o valor da gratidão. 
Hoje, chamam-se "assistentes operacionais" e são apresentadas com pompa e circunstância no início do ano letivo. Moderadas nos castigos, nem sequer podem arremessar chinelos porque a lei está agora cegamente ao lado das crianças, com a espada suspensa sobre as cabeças da autoridade. E quando dão dois berros à canalha para manter a ordem, até pode acontecer as "assistentes operacionais" levarem a resposta que ontem ouvi por acaso: "Ei, ó dona Maria, não chateie, baze mas é daqui!" 

4.10.14

A beleza

Toda a minha juventude a acreditar que o importante é o conteúdo, que da aparência e da forma vem apenas ilusão, engano e enfeite! E agora, quase só me importa a beleza. A mágica incidência da luz, o traço cirúrgico, o equilíbrio sensível, a lógica das proporções, o verso depurado, tudo isso me comove e me preserva a crença em deuses e génios. O conteúdo é coisa frágil, maleável, duvidosa. As mensagens mudam, a alma deforma-se, o caráter fraqueja. As vontades têm fases como a lua. Significados, guardam-se nos dicionários. Grandes propósitos podem estilhaçar-se contra o primeiro obstáculo. As intenções, não dizem que o inferno se enche até das boas? 
O rigor e a verdade estão no que os sentidos alcançam. Por isso me sossega ver-te como vi hoje. Não importa o que pensas e ao que andas, noutro dia vemos isso. Agora, basta-me olhar e saber que em nada eu devo mexer para apagar, acrescentar ou colorir.

3.10.14

Calceteiros

Inútil, explicar-lhe que não se escreve para televisão como se escreve uma monografia. O homem, um acumulado de títulos e graduações, não só quis ter onde despejar todo o saber de uma assentada, como não admitiu ensinamentos sobre outras artes. E amorosamente se dedicou ao trabalho, escrevendo como quem enfeita para desfilar na passarela, frases com oito linhas, palavrões que só com enciclopédia desvendo, advérbios de todos os modos, vícios de discurso político, laivos de poesia barata, reviravoltas e arrebiques. Avisaram-me que nem ortografia corrigisse. O sôtor abespinha-se, facilmente é ofendido na sua dignidade académica e, eu que veja bem, tem idade para ser meu pai. As lições não podem sofrer inversão, têm caminho de sentido único. Se o sôtor descuidar a língua, é descuido legítimo. Ou passará a ser.
Não sei se é coisa exclusiva deste país ou se a todos toca - nem que no íntimo e melhor disfarçado - mas certas pessoas atingem tal estatuto pela via das bibliotecas e dos gabinetes de assessoria, que não se pode desdizer-lhes um comentário que seja sobre uma pedra da calçada. Ninguém duvide: se é professor doutor, é calceteiro de certeza. 

30.9.14

Guia turístico

A blogosfera está a abarrotar de "lideres de opinião", dela nascidos e por ela mantidos. Na sua maioria, já não se trata, porém, de pessoas que influenciam e ajudam a formular ideias e pensamentos, mas de gente a quem basta repetir o que qualquer comum mortal sabe e diz, com a única vantagem do razoável domínio da sintaxe e da ortografia. Não abre caminho. Limita-se a ir à frente num itinerário que, por ser em círculo, está mais do que aberto, palmilhado e decorado. E vai comentando o que vê como qualquer guia turístico, com ladainha decorada.

29.9.14

Os cortes continuam

Não sei se foi por causa da árvore, mas fui também eu tomada por uma enorme vontade de cortar. Uma motosserra começou de repente a zumbir dentro de mim com dentes afiados, vibrantes, farejando excessos e inutilidades. Cheguei ao trabalho com a frescura da manhã que me despertou, pronta para começar a cortar. O ímpeto era tal que nem tirei o casaco. Atirei as minhas coisas para cima da cadeira e disse ao jovem designer "sai daí, quero cortar". Então cortei. Agucei as pontas dos dedos e cortei. Cortei palavras, frases, parágrafos inteiros que tinha demorado dias e dias a escrever. Cortei com uma clarividência feliz, como se as palavras realmente essenciais me saltassem à vista, vivas, expressivas e gordas, estrangulando as outras, as fúteis, ao ponto de estas me pedirem o golpe de misericórdia. Cortei com ligeireza o que um dia antes cuidava ser imprescindível. Depois de eu cortar, cortar e cortar, satisfeita com esta súbita e rara lucidez, o rapaz sorriu, igualmente satisfeito: agora já respira melhor. O branco das páginas florira, expandira-se, como revelação de possibilidades ou apenas um humilde, necessário e oportuno intervalo.
A escrita é um extraordinário exercício para quase tudo na vida.
(Abril de 2012)

Continuo a trabalhar para reduzir em tamanho e redobrar em força. Cortar, limpar, polir, afiar. Sonho com o dia em que, com meia dúzia de palavras, possa criar uma frase capaz de golpear como um sabre, iluminar como um relâmpago, espantar como a aparição de um morto.

27.9.14

Envelhecer

Tenho pânico de envelhecer. A meio da vida que estou, às vezes experimento a nostalgia. E assusta-me imaginar o dia em que ela se torne a maior de todas as tentações, o único prazer consentido.

25.9.14

Não, não é por aí...

Entre todos aqueles que conhecem o "Cântico Negro" de José Régio, chegará quase aos cem por cento os que afirmam que o poema podia ter sido escrito por eles - se tivessem o dom, pois claro. 
E acha uma pessoa que veio ao mundo para desflorar florestas virgens só por estar descontente com o estado do país, por, de vez em quando, lhe saltar a tampa e pedir o livro de reclamações, por ser vegetariano, ter gosto em passear sem destino ou por se atrever a usar saias compridas quando a moda está para as curtas! 

24.9.14

Terrivelmente amados e amantes

À entrada da escola, a criança berra como um cabrito, tem as faces a arder, baba e ranho por todo o lado. Sem largar as pernas da mãe, atira um pontapé à mochila para que fique claro o menosprezo por isto das lições e o despudor em exibi-lo ao mundo. Solidária, acode uma avó que está por perto. No esforço de apaziguar o coração da mãe, faz-se valer da sua experiência com dois filhos e três netos. O melhor é virar costas ao menino, em dez minutos há de calar-se. Duvida? Então que venha espreitar mais tarde, à socapa, e confirme que está tão feliz como os outros. O mal é quando os pais são frouxos e mais medrosos que a canalha, acrescenta, com o cuidado de voltar o rosto para o outro lado. O porteiro concorda: há que ser firme, está quase a tocar para dentro, a professora chegou, seis anos é mais do que idade para saber das obrigações e aceitá-las. 
Mas a mãe, não é bem assim, tremem-lhe as mãos e a voz, tem o coração partido e o cabelo desgrenhado de tanto o remexerem duas mãos desesperadas. Com os puxões à blusa, há um seio quase de fora. O menino continua em aflição, como se às portas do inferno. Não governa braços nem pernas e vai acertando onde não deve. Abeira-se outra mulher, pousa a mão no ombro da mãe:
- Tenha calma... Criança realmente feliz e amada, é natural que não queira separar-se da mãe. O amor é assim mesmo...
Cai-me o queixo. Eis o amor, argumento do desespero, alegação de defesa para todos os desacatos e desmandos, os pontapés às mochilas e os rasgões na roupa, o bofetão de um homem na sua mulher, que passará a tareia da pesada dando-se o caso de tão bom sentimento aumentar. O desnorteamento, o medo, a insegurança, os nós cegos e apertados entre as pessoas, a tudo isso, parece-me, a tudo isso se vai chamando amor, uma romântica conveniência, que cala e desarma, mas por que carga de água nunca dá paz?
De longe, vejo o meu filho prestes a entrar na sala, volta-se, atira-me um aceno ligeiro, ri-se de boca desdentada. E sujeito-me à vergonha pública de não sermos assim, terrivelmente amados e amantes.

23.9.14

Novelo

Raramente conto histórias sobre homens porque não me puxam pela imaginação. Sejam engravatados de hábitos militares, adolescentes de cuecas à mostra, arrumadores nas lutas pelo poder local, pais que esperam seus filhos no portão da escola, bêbados, ociosos, boa onda, intelectuais, proprietários, estudantes, de esquerda ou de direita, os homens são o que está à vista ou o que, pragmaticamente, contam. E o que não se vê é porque se esconde tão fundo que só a psicanálise alcança, a almofada sabe ou em momento extremo se revela. Eles o dizem, dando graças: não complicam nem se enredam e, felizmente, só têm cinco sentidos. Confiemos.
Mas diante de uma mulher, muda o caso de figura. Arrebito a orelha e olho pelo canto. Uma mulher tem mais qualquer coisa, há sempre uma nesga aberta na sua face, uma denúncia no seu olhar, um gesto mínimo traindo a sua intimidade, um modo de andar que não é só da perna, um suspiro ou um esgar fora de tempo, que desarmonizam e por isso chamam a atenção. A gente agarra o fio, puxa, e parece que desenrola lá de dentro, como um novelo, o mundo inteiro. 

22.9.14

Ler como amar (8)

Certos livros deviam aparecer-nos apenas em final de vida, porque, depois deles, todos os outros parecem mornos, a sua invenção um embuste, a sua moral arrancada a ferros, as suas pequenas falhas imperdoáveis. Vagueio pela estante mas nada salta à vista no ordeiro alinhamento das lombadas. E, na mesinha de cabeceira, arrastam-se coisas que me enfastiam e que só pela esperança de uma súbita revelação levarei até ao fim. Algumas com nome grande, prémio conquistado e aplauso unânime, porém, a cada página fico com a impressão de ter ganho rigorosamente nada.

19.9.14

Inversão

Quanto mais vejo, em menos creio.
Sou uma triste inversão de São Tomé.