25.1.15

A natureza de cada um

Com o tempo e alguma pena, vou aceitando a inutilidade de certos esforços. De que serve às águas de um rio, mansas ou bravas, tentar arrancar um penedo à margem? Está ele tão firmemente incrustado na terra, que dali só sairá havendo abalo e fratura no chão onde assenta. Não resta senão compreender, porque nem as águas nem o penedo são dotados de vontade, é superior e ainda misteriosa a causa de eternamente serem o que são. Às águas terá Deus ordenado, no princípio do mundo, que corressem. Ou antes, pela sua estrutura molecular e declive do terreno, a água corre, ajustando-se aos leitos e às bacias. Ao penedo, Deus terá dito permanece. Ou antes, pela sua estrutura molecular, o penedo permanece, com a rigidez de um guardião da paisagem - tarefa que, em boa verdade, não lhe foi atribuída nem por desígnio nem por necessidade.
E como a natureza de um não pode o outro mudar, é improvável que o penedo seja arrancado ao seu chão. Vão passando por ele as águas, afagam, murmuram, lavam, refrescam e logo seguem no acaso do seu curso, que é sempre por onde houver aberturas, inclinações e outras facilidades. Mas é sabido que nunca passam sem levar qualquer coisinha daquilo que tocaram: areia, lasca ou cristal. Por isso o penedo não ficará na mesma. Sendo estanque a sua condição, é, porém, ilusória a sua resistência. 

23.1.15

Um beijo bem dado

O que se passa com os outros desconheço, mas, a mim, escrever causa-me uma felicidade tensa. Cada frase que se fecha como um círculo e se acomoda no seu justo lugar é como um beijo bem dado: só no primeiríssimo instante me satisfaz, nos seguintes já está a reacender, com a força multiplicada, o desejo que o provocou.

22.1.15

Hush now, babyblogger

Não sei por que irónicas forças de convergência, estive há dias num almoço com uma das muitas babybloggers que já passaram os seus dramas quotidianos ao papel. Veio fazer umas festinhas aos meus filhos e logo ali, sem que eu nada perguntasse, presumindo-me tão curiosa quanto ela, me contou da vida dos seus, dos mimos que tinham, dos castigos que lhes aplicava, das enormes virtudes e dos cativantes defeitos das pestes - a bem dizer, umas coisas boas da sua mãe. Sobre os meus perguntou de enfiada nomes, idades, percentis e desempenhos escolares. Com pose de especialista foi aprovando as respostas secas que levou e ainda me deu duas ou três dicas - não encomendadas - sobre pedagogia de revista.
Saindo do meu círculo de amigos e família, sou tão fechada a conversa fiada na vida real como na virtual. E infância é para mim tema sagrado, não se desbarata. Por ser também fraca a disfarçar enjoos, assim que pude, para bem das duas, virei-lhe as costas e pus os meus rapazes a salvo. Na hora da sobremesa, ela tirou alguns livros de uma saca, autografou-os e entregou-os a quem estava por perto. Só então percebi. Porém, nesse almoço, a homenageada não era ela.

21.1.15

Arrumações

- Diga lá a menina: entre um coelho e um porco-espinho com um ano de idade, quem é o mais velho?
Sem paciência para esperar, logo encadeia a resposta:
- O porco-espinho, porque tem um ano e picos!
É o arrumador. Apanha-me debaixo de um aguaceiro, veio a passo rápido, como é seu costume quando tem mote de conversa. Eu a sair do carro, às aranhas por causa das tralhas que me obrigo a carregar, o saco a deslizar-me do ombro, o fecho da mala encravado, o telemóvel a um passo de mergulhar em poça de água, não me sobra mão para abrir o guarda-chuva, menos ainda para fechar as portas. E ele de mãos nos bolsos, feliz de nada carregar, fazendo depender o seu ritmo da história que urge contar e o seu rumo do lugar onde estiver quem a escute. 
Não compreendo este homem. Bem falante, informado, opinando com lucidez e independência sobre o Charlie, o Salgado, a bola e os insólitos do quotidiano, recusando-se à lamúria e à pedinchice, rindo com uma disposição que, pela fresca da manhã, o português não costuma ter e muito menos oferecer. No passo, nos gestos, nos olhos e no hálito não há sinais de vício pesado. Se é por fado, castigo ou escolha que ali anda, amealhando trocos em bolso roto à custa de apontar lugares vagos, tenho ainda por saber.
Andasse a vida sob a responsabilidade exclusiva da imaginação e arrumá-lo-ia eu onde me fazem sentido os seus modos: num distinto palacete, acomodado em poltrona robusta de tecido adamascado, mastigando um Porto vintage, ao lado uma pilha de livros anotados, ao redor dez netos à espera de o ouvir contar ou, em dias mais ligeiros, de saber que motivos há para aprender a rir de tudo isto. E punha-lhe os dentes que faltam e que mais merece quem não deixa enrijecer os cantos da boca.

19.1.15

A escrita no feminino

Li, há tempos, que as mulheres que escrevem tendem para o suicídio. A causa parece estar na impossibilidade - e no consequente desespero - de cumprir uma rotina dedicada à escrita e no seu adiamento permanente, em favor das rotinas domésticas, familiares e laborais. Quem acredita que os tempos mudaram, pense melhor. Por mais que se transformem as dinâmicas familiares com a justa distribuição de tarefas, não se consegue retirar completamente à mulher a responsabilidade e a obrigação de se dar aos seus, em afeto, pensamento e preocupação, e só no tempo que sobra dar alguma coisa aos outros. Escrevendo um homem das oito às oito, toda a família providenciará as condições necessárias para o que será considerado como um trabalho. Não só se entenderá, como se achará de valor e de génio a sua ausência, de corpo e de espíritoFaça-o uma mulher e, a não ser que já tenha dado provas de que isso compensa largamente, será uma lunática irresponsável. E sabendo-se que o sentimento de culpa é a única verdadeira fragilidade do género feminino, que atrai todas as outras, tudo se compõe para que muitas apenas se revelem como grandes escritoras em idade avançada.
Que as que escrevem tendam para o suicídio, duvido, pois a causa de tal desfecho terá certamente outros contornos e virá de fundos mais obscuros. Mas acredito que a escrita na vida da maioria das mulheres, pelo menos a de fôlego, seja o último apeadeiro para um comboio que só ganhará embalo depois de libertar todos os pesos e passageiros. Esta história será caso único?

16.1.15

Um rapazinho vulgar

O mais velho acredita sem reservas na superioridade das mulheres, mas não desbarata o tema em conversa de circunstância. Vindo a propósito, diz-mo a mim, sem esperar que eu concorde ou desdiga. É uma convicção que não depende de voto favorável ou aplauso, nem se deixa abalar pela via de juízos alheios. Começou por ir buscá-la às religiões, depois fortaleceu-a com a ajuda das ciências e, por fim, deu-a por concluída na observação do quotidiano. Assim mo explica, enfastiado por ter de justificar o que lhe parece tão óbvio como a maçã de Newton, a escala de Mohs, a área da circunferência.
É um rapazinho vulgar, naturalmente encaixado na idade que tem e no tempo em que nasceu: joga à bola, salta muros, desconfia da autoridade, namora por sms e vê muita graça nos meus mal-entendidos com a tecnologia.

15.1.15

*

Estamos, realmente, mais preocupados com os males do mundo, ou apenas andamos mais entretidos com eles?

14.1.15

A amante do senhor Pereira

Faz algum tempo que o senhor Pereira está desinteressado da viúva e que a viúva deixou de se cobrir totalmente de negro. Ele já não revira os olhos quando ela sai, nem se nota irrigada em dobro a sua maior vulnerabilidade. Ela vestiu ontem um casaco bege, com pelo por todo o lado, desses que agora estão em uso e em saldo. Eu espantei-me mas o senhor Pereira nem reparou.
Não importa mais. Ele perde-se agora é com a rapariga que tem uma tatuagem nas costas do pé. Apesar de ser um gatafunho ilegível, feito por qualquer jeitoso com mais pressa do que arte, quando a rapariga chega atiça apetites e invejas. Tem uma beleza de origem, que vai dos pés à cabeça, e, esquecendo a tatuagem, não há curva, traço ou sinal que sobeje ou esteja em falta. Ninguém diria que na lisura daquele ventre se acomodaram duas vidas inteirinhas, raparigas já férteis e atléticas. Tudo nela é caído dos céus. Não pede tintas, acessórios, e, caso pudesse ser mexida, dispensaria retoques. Como é discreta, de poucas falas e olha em frente, talvez os homens que a cobiçam a tomem por uma cabra arrogante e as mulheres como uma desamada. É vulgar a maledicência perante a reserva da beleza. Mas, enfim, todos sabemos que de igual forma se maldiria a sua entrega. 
Ao ver a rapariga da tatuagem nas costas do pé, o corpo do senhor Pereira embala-se num ritmo crescente, como se navegasse entre as pernas dela ou regressasse ao colo da mãe. Porém, a amante do senhor Pereira não é esta, nem foi sequer a viúva. A amante do senhor Pereira está devidamente escondida, é insuspeita, nem com o olhar ele a denuncia. Vale pouco em curvas e, de rosto, não aquece nem arrefece. O mérito dela foi resgatá-lo à solidão, antes que fosse encontrado morto na própria cama.

13.1.15

O espelho

Nos fundos de um quintal da vizinhança, está um espelho abandonado. Encostaram-no ao muro, inclinado, sobressaindo entre pneus, cadeiras de plástico, cavacos e material de jardinagem. Tem uma dessas molduras pesadonas e excessivas nos torcidos, que fazem muita vista mas não harmonizam com qualquer estilo. Talvez os donos da casa tenham investido em nova decoração e ele, agora descasado e mal-entendido com linhas depuradas, deixou de ter lugar. Portanto ali está, renegado, a descoberto, enquadrando a simetria dos céus, abrindo o infinito num muro de quintal. Uma espécie de janela para o absurdo, que não mais orienta vaidades, arranjos e posturas.
Vejo-o bem do meu terraço, que, mesmo não sendo muito alto, tem horizontes de miradouro. Porque, tirando os eucaliptos e os ciprestes, aqui é tudo muito estendido, aberto, rasteirinho. Os meus olhos têm vindo a perder o pudor de usar e abusar desta nudez.
Pouco me importaria um espelho largado nos fundos de um quintal se não fosse o instante em que o sol lhe bate. Acontece por volta das onze da manhã - mais coisa menos coisa, não presto atenção ao relógio. Dá-se no seu vidro uma explosão de luz que, à medida que ganha corpo e intensidade, vai engolindo tudo o que está ao redor. Some-se a moldura de torcidos, somem-se os pneus, as cadeiras de plástico, os cavacos e o material de jardinagem. Esbatem-se as cores, confundem-se os contornos, depois vai-se o brio e a pujança do casarão com palmeiras, dos dois dobermann que a guardam, do jardineiro que apara os arbustos.
Não consigo evitar fixar-me no espelho e revela-se inútil franzir a testa ou fazer pala com a mão. Às páginas tantas, para onde quer que eu olhe vejo o milagre da multiplicação do sol, um lume vivo, muito branco, estoirando em todos os pontos do céu, espalhando-se em cheio no prado, ardendo sobre os telhados, varrendo a praceta, apagando o pelourinho, os bêbados de profissão, as comadres e a canalha que aos domingos anda sem freio pela rua.
Não é luz, é engano. É uma cegueira que vai aonde a levar o sôfrego rodopio dos meus olhos. 

10.1.15

No mundo

Pus os filhos no mundo, não na minha casa. Já me largaram o seio e entraram no sistema. Longe vai a ligeireza das cólicas, das cabeçadas nos móveis, do perigo nos degraus da escada e nos buracos das tomadas. Que saudades desse tempo de despreocupação, de pele e poesia, de interromper os meus sonos para atender fomes, mimos e tosses. Saudades dos vírus que em três dias se abatem, do passo que resulta em trambolhão para logo dar em passo mais perfeito e atinado, da explicação sobre as coisas elementares como o movimento da terra em torno do sol e a reprodução dos bichos. Saudades de bastar o meu colo para a esperança de que tudo se compõe e harmoniza.
É agora que, vendo bem as coisas, olhando à volta, apreciando o que os espera, assistindo aos seus embates com o mundo e procurando, sem sucesso, responder a todas as perguntas que me fazem, nenhum outro nome me faz tanto sentido para este blogue. 

9.1.15

Ideias

Se há pecado em cujas malhas nunca me enredei, é o da inveja. Pontinha dela sinto às vezes - e quem está livre? -, mas é subtil, passageira e inofensiva, nunca me fez revirar os olhos nem me impele à maledicência e menos ainda a desejar o mal alheio. Pelo contrário, logo se converte em vontade de partilhar. Acontece-me, por exemplo, sempre que visito o Novas Palavras Novas e lamento que nunca me tenha ocorrido esta deliciosa ideia.

8.1.15

Paz no mundo?!

Mas algum dia houve quem francamente fizesse por ela? Foi realmente a paz vontade e objetivo da infinidade de associações, organizações e ligas criadas na História mais recente? É pela paz que as religiões tem pregado? Têm as suas palavras procurado serenar o fundinho do coração dos homens? 
Que utilidade se encontraria, afinal, na paz? Harmonia, bem estar, felicidade?! Cada um vivendo de acordo com a sua forma e a sua crença, fazendo filhos e colhendo o fruto da sua árvore, sem importunar, sem provocar, sem condenar, sem açambarcar almas, territórios e recursos? O mundo livre de batalhas, monopólios e manchetes, em sereno movimento de rotação, a pasmar diante do Universo? Isso, em números redondos, que lucro dá?

7.1.15

Plantinhas e passarinhos

Lembro-me amiúde e a propósito de nada, das palavras da Anita no dia em que o seu casamento de meia dúzia de anos ruiu. Disse-me, entre lágrimas, que não sabia que o amor era uma plantinha muito frágil, necessitada de rega e cuidados diários, sob pena de murchar sem remédio. Ou um passarinho de miúdo batimento cardíaco, pousado na palma das nossas mãos, muito sensível a apertos. Assim encontrou ela a conveniente explicação do amor e do seu imprevisto desfecho.
Como a Anita pensam muitos, quantas vezes já ouvi. É o desespero de justificar as faltas, as correrias, as competições, a doentia expectativa de uma palavra, um presente, um intervalo na espiral da rotina. Reclamando rega e cuidados, o amor é uma lista de tarefas que promove a culpa e os acertos de contas. Quem apertou de mais o pássaro? Quem esqueceu de dar água à plantinha? Eu dei ontem, hoje és tu!
Mas, enfim, que sei eu do que falo? Tanto como os outros, porque o meu coração é vulgar e cheio das fraquezas comuns ao universo inteiro. Porém, revendo as linhas da minha vida, rememorando meus passos, minhas descidas ao abismo, minha sublimação, as casas onde morei, os caminhos onde meti o pé, meus pesadelos, meus sonhos adiados, outros cumpridos antes mesmo de serem sonhados, meus ajustes de contas, minhas escolhas inseguras e outras de iludida convicção, meus prazeres, devaneios e o mais que a todos calha por defeito de humanidade, privilégio de nascença ou artimanha do destino... vejo que não. O amor nunca foi coisa frágil que eu tivesse de cuidar, que me fizesse acordar pela manhã engendrando novas estratégias de rega. Tem sido antes a muralha que me protege, a ponte que me liga, a rede elástica onde, caindo muitas vezes sem forças, de novo sou impulsionada para subir e sonhar. Rega-me ele sempre que o meu coração resseca. Estende-se, como palma de mão, sendo meu repouso nos cansaços e ponto de apoio para os novos voos. Dele vem todos o dias o meu riso e a minha comoção. E para ele envio as maiores esperanças que tenho na vida.
Sentimento que é plantinha ou passarinho não há de ser grande coisa, ainda que figure poético, cheio de ternura. Não há de ser muito mais do que um compromisso quotidiano, somado a todos os outros que nos atormentam e nos cobrem de obrigações e nos enviam faturas e nos disparam lembretes e nos fazem correr até à exaustão, sem saber para o quê. 

6.1.15

Vacina

A luz que entra, pela manhã, na sala de enfermagem espalha-se como um banho de líquido asséptico. Sou a primeira no centro de saúde, como gosto. Antes madrugar do que aguentar, em fila de espera, os queixumes coletivos, a troca de inconfidências, o desbaratar de conversa entre os administrativos e os utentes solitários. Nada contra a solidão, mas é que sou nova, ainda vou demorar a compreender que cinco minutos com um estranho, desabafando uma dor no tornozelo ou um filho emigrado, podem prolongar uma vida por mais vinte e quatro horas.
Apronto-me para levar a vacina, exponho o braço, mas o enfermeiro ainda vasculha no armário a embalagem certa. Temor a injeções não tenho, mas atiça-me a imaginação saber que me vão entrar corpo adentro, para meu reconhecimento e aprendizagem, bichos da pior espécie, ainda que contidos. Logo após a inoculação, ocorre-me que possa haver falha, pois que sempre as há em tudo nesta vida, da mesma forma que sempre há um azarado que é delas vítima. Em menos que um ai, começo a ver-me sacudida por convulsões, o meu corpo com a rigidez do bronze, tomado por uma colónia de bactérias inesperadamente ressuscitadas na quentura dos músculos. Deformada, acabo por morrer do que deveria salvar-me. 
Alucinação passageira, quase entretenimento. Em boa verdade, confio absolutamente na ciência, ainda que, no íntimo, me ria dos seus excessos de autoestima e dos seus embates com Deus.
Para fintar o tempo de espera, o enfermeiro - que tem o nome do hospital onde nasci, do padre que me batizou e do homem que me apadrinhou - pergunta-me porque não segui os passos do meu pai. Sobre as minhas lógicas e o meu fascínio pelo corpo, assentavam bem a bata e o estetoscópio. Explico-lhe que não lido bem com a impotência e por isso fujo a sete pés dos territórios onde se tomam as grandes decisões e se tenta endireitar as linhas mais o que nelas se escreve. Perfeito, para mim, é ter uma profissão ligeira e resguardar a inteireza do meu ser para, fora de horas, me debruçar então sobre a vida e a morte. Pergunta-me ele a que chamo de profissão ligeira. Respondo todas, menos a medicina, o ensino e a justiça. Mas quando a agulha se me enterra bruscamente na carne, sinto o ardor miudinho do arrependimento e, numa vertigem, todo o meu corpo lamenta as palavras que acabo de dizer. 

2.1.15

Famas e proveitos

Atribui-se às mulheres a fama de complicar a verdade, vendo-a de todos os ângulos, até dos fantasiosos ou surreais. Diz-se que descortinam intenções por trás das objetividades, encontram grumos na lisura dos raciocínios, multiplicam uma ideia por mil e uma causas e consequências.
Porém, aprecie-se como é de tantos homens o proveito de meter a verdade debaixo do tapete e nele esfregar bem os pés. E veja-se como muitas mulheres, precisamente por serem hábeis na visão perspetivada, notam que a verdade ficou de fora mas assim preferem também. Quando for preciso sacudir o tapete, basta virar a cara e fechar os olhos para evitar as poeiras.

31.12.14

O que é nosso

Aos poucos, naturalmente, fomos começando a praticar a filosofia dos amores triviais e bem instalados na vida: o que é meu é teu e o que é teu é meu. Porém, em rigor, não há nada que seja nosso, sequer um papel, um teto, um serviço completo de jantar que ganhe o pó do desuso e o valor das antiguidades para nos dizer, em números redondos, há quanto tempo estamos ligados. 
Sobra-nos, ainda assim, o ponto do espaço onde os olhos se encontram e cuja força centrípeta absorve o universo inteiro, filtrando-lhe os excessos e abandonando-os no vácuo, que é surdo e irrespirável. Um ponto imaterial, que muda de lugar ao segundo, não pode ser contabilizado, não serve de credencial, não tem registo nas finanças, não ficará como herança. 
Espantoso, como se organizou o mundo de forma a que certas coisas sejam convenientemente inúteis e risíveis.

27.12.14

No meu tempo

Por culpa dos meus filhos, lembrei-me de quando vi a Teresa apanhar da professora como nunca antes, e logo no dia em que estreava um vestido novo, de alcinhas e roda larga, todo em flores azuis e verdes. Digo por culpa dos meus filhos porque volta e meia me pedem que conte histórias do meu tempo. Creio que os consola saber que também já fui fraca e desautorizada, ouvir sobre os meus esbardalhanços, os erros ortográficos, os namoricos falhados. Gostam que repita tudo com detalhe e eu obedeço sem me cansar, de peito cheio, com uma altivez legítima, própria dos adultos. No meu tempo é que era! Aventura real, diversão plena, liberdade absoluta, espanto por tudo e por nada.
Puxaram há dias por mim a propósito da escola primária, eu que contasse outra vez da escola e das reguadas, dessa tal professora de saltos muito altos, vaidosa que só visto, eu que dissesse quantas vezes apanhei e por que apanhei. Pouquíssimas e nada que me causasse dor extrema. Era boa aluna e tranquila. Pior foi, uma vez, com a Teresa. A Teresa? Um dia a Teresa não trouxe na ponta da língua, como devia, tudo o que havia para saber acerca das ex-colónias, que já na altura eram ex. Não sei o que deu à professora, se noite mal dormida, zanga conjugal, moinha de fêmea... Foi buscar a régua de madeira e bateu de um modo que nunca antes eu vira bater. Bateu com força e raiva, como se ajustasse contas com o mundo inteiro ou desatasse, finalmente, os nós cegos de toda a sua vida. As primeiras palmadas, Teresa aguentou-as em silêncio. Corriam-lhe as lágrimas de mansinho, lembro de ser sardento o seu rosto, de ter cabelos compridos ondeados, a franja cortada muito certinha, e de cheirar a fumeiro. A professora ia repetindo as perguntas - capital de Angola? - e ela dizia não sei e a régua caía como caem as guilhotinas, sem freio, num golpe bruto. Principais culturas de São Tomé e Príncipe? Não sei. Quantos habitantes tem Cabo Verde? Não sei. A Teresa não sabia nada e por nada saber apanhou como eu julgava que fosse impossível. Cinco, dez, vinte, não recordo quantas vezes a régua lhe estalou nas palmas das mãos, às tantas ela começou a dobrar-se, dez anos de gente assim dobrada é uma visão que não se esquece, ajoelhou-se e desatou a implorar misericórdia. Mas a professora estava surda. Foi a cena mais triste que eu vi em toda a minha vida. Não a mais dolorosa, a mais assustadora ou a mais terrível, mas sem dúvida a mais triste. No final do espetáculo, toda ela era uma natureza murcha, com o vestido de flores azuis e verdes em desalinho, chorando sem colo nem perdão e soprando, engasgada, as palmas das mãos.
Estes detalhes não contei eu aos meus filhos. Tenho vergonha que saibam que no meu tempo - esse tempo que apregoo de peito cheio e lhes atiro à cara como privilégio que eu tenha sobre eles - não havia lei que valesse a Teresa. Chegando ela a casa, talvez apanhasse o dobro e ninguém duvidaria da justiça de tal coisa. 
Na verdade, a nostalgia, apesar da doçura, é uma visão nevoenta e cheia de equívocos.

22.12.14

Paz

Na época de Natal, tenho o meu egoísmo nos píncaros. Apedrejai-me, cuspi-me, excomungai-me de todas as igrejas. Não devia este ser o tempo da solidariedade? Não devíamos, por meia dúzia de dias, vestir a fatiota do bom, do generoso, do francamente preocupado, do que corre a estender mão amiga e alimento aos coitados? Acontece, porém, que, começando a aproximar-se este tempo, é como se me desse para regressar ao ventre da minha mãe, onde tudo é harmonia e absoluta ignorância da realidade. O Natal é o meu estado romântico e desprendido, o momento de tirar os pés do chão e planar, coisas que, enfim, são espoletadas pela minha memória e pelo meu universo. 
Já distribuí pelos outros. As roupas, os brinquedos, a comida, o tempo, os pensamentos, as orações, os saberes - como dormir de consciência apaziguada sem nos preocuparmos com o mundo? O mundo vai-se rindo de nós, é certo, faz-nos correr como doidos numa direção e logo nos mostra que pretende continuar a girar no sentido oposto. Mas agora que chega o Natal nada disto me importa. Só quero saber do meu canto, do meu teto, do meu solo, da minha família na casa grande, do humor fácil e ligeiro, do prato e do copo cheios, dos meus filhos acomodados na inocência, da azáfama na cozinha, do caos dos quartos onde racionamos o espaço. Aceito os lugares que vão ficando vazios à mesa, está tudo bem, a morte existe em todas as casas, tréguas ao passado, condescendência com o futuro. E penso, então penso, que se cada um estivesse em paz consigo mesmo, talvez fosse o quanto basta para o mundo girar no sentido certo, sem sobressalto, injustiça, desigualdade. Vai-se a ver e ser pode ter mais préstimo do que dar.
Se tiver coragem para me afastar da lareira, pode ser que me dê para ir à missa do Galo. Temo, porém, que o padre - o mesmo que me batizou - caia na asneira do ano passado e gaste a celebração com um discurso irónico e indignado contra os tempos modernos, coisa de quem não está em paz nem tem como vontade serenar o coração dos outros. E, no Natal, não estou para isso. Como disse, tenho agora o egoísmo nos píncaros, a alma para dentro, o corpo guardado em Casa.

17.12.14

Coração de ouro

O mais novo acredita que eu tenho um coração de ouro. Já lhe expliquei que não, que é pechisbeque comprado numa dessas lojas de acessórios, vale tanto como um par de meias mal acabadas. Mas ele, que está na idade de mais avaliar as coisas pelo brilho do que pela consistência, segura-o nas pontinhas dos dedos com as habituais delicadezas e exclama o seu fascínio, afirmando ser aquele o aspeto das coisas de supremo valor que só as mulheres muito chiques são dignas de usar. 
Adianto – certa de que ainda não compreende mas crendo que registará – que, nos dias que correm, é tolice exibir certas riquezas pois logo atiçariam o desejo e a inveja. Um coração de ouro é sempre muito apelativo. Em três tempos, uma mão criminosa se lançaria a arrancar-mo para depois o dar à troca de coisas menores. É por essas e por outras que todos passeamos o que nos fica bem e nem sempre o que mais vale. As joias verdadeiras têm tendência a ficar onde é costume também guardar os esqueletos: no fundo do armário.

16.12.14

Vir ao mundo

Dezembro foi o mês de eu vir ao mundo. Apesar de cumpridas todas as luas, era tão miudinha que deslizei sem exigir da minha mãe grandes esforços e poupando-a à dor extrema. Foram as mãos de uma freira, de nome Maria, que me ampararam na chegada. Porém, nasci silenciosa, quieta como os mortos, numa preocupante negação em abrir a goela e acusar o desconforto de existir por conta própria. Só à força o meu corpo autorizou a primeira lufada de oxigénio e então, finalmente, terei sentido o susto, o frio, a fome. Escreveram no meu livrinho, como informação de relevância clínica: bebé com morte aparente
A minha mãe, coitada, passou o resto da vida a tentar parir-me devagar pois que demorei a abandonar-lhe o colo e a cama, aonde sempre gostei de recolher. Não que tenha prolongado a minha recusa em vir ao mundo, bem pelo contrário, mas de vez em quando acontecia, e ainda acontece, pôr-me como à nascença: silenciosa, quieta, vivendo no avesso por me parecer impróprio e excessivo o que vem de fora. Fazendo fé na astrologia, ela confirma e explica: com gente que nasceu sob o meu signo é preciso ter paciência. A espaços, até vou sendo conivente com o mundo e gozo, com um prazer real, orgânico, inteiro, todas as suas possibilidades. Mas nesses dias, naturalmente, não escrevo.

12.12.14

Uma boa sexta-feira

Os meus blogues preferidos são os meus blogues preferidos porque, além de contarem como quem conversa à mesa de jantar, me vão sovando o estômago e, ao mesmo tempo, passando ternamente a mão pelos cabelos. 
Uma boa sexta-feira, aqui e aqui.

10.12.14

Grandes revelações

Enquanto me penteia com os dedos, o mais velho vai-me contando como é a vida. Ele, que agora entrou nessa idade de presumir tudo saber (e que, em alguns casos, dura mais anos do que devia), fala como se me desse novidade ou me fizesse grandes revelações sobre tempos e lugares que eu desconheço. Conta-me do repetente, a quem não há forma de meterem juízo na cabeça. Há quem diga que anda com um canivete no bolso, nunca ninguém viu mas, pelo sim pelo não, o melhor é não lhe desafiarem os limites da paciência, que é escassa. Em dois tempos, converte-se em fúria a preguiça com que se recosta na aula como se estivesse na praia. Levanta-se, pega nos livros, diz que não está para aquilo, sai, a porta bate com estrondo, a papelada voa, os colegas arregalam os olhos. Um insurrecto de primeira.
E a professora, não faz nada? 
Não. A diretora chama-o de vez em quando, mas acho que é só porque é o dever dela. São casos perdidos, mãe, tu não tens noção... 
Tenho, mas não quero ser eu a dizer-lhe que a esperança na salvação pode ser uma tremenda perda de tempo ou um atalho para sofrimento ainda maior. As mães devem impedir-se de usar as suas penas para sinalizar o caminho aos filhos. O repetente dá medo, continua. Nem é pela suspeita do canivete, porque, indo-se a ver, o mais provável é que seja mito. São os olhos dele, encará-lo provoca frio na espinha, pânico do mundo inteiro, temor do que está ao virar da esquina, dentro do armário, atrás da porta. Até o porteiro, que é tão implacável com todos, se inibe de lhe exigir que passe o cartão no sensor, vira costas, faz de conta que está a conversa e que nem o viu. Melhor assim, não vá o canivete existir mesmo.
Só há uma pessoa que lhe faz frente.
É uma miúda, tão banal que nem cinco tostões se aposta na sua coragem. Sucede, às vezes, o repetente passar por ela e apalpar-lhe o rabo com a naturalidade de quem sabe que tem caminho aberto por estar imune às regras.
E ela?
Cinco dedos na cara dele, sem ponderar. Às vezes é com a mochila, o estojo, o que estiver mais à mão. Um assombro! Secretamente, todos lhe fazem vénia pois ela realiza o que é a vontade comum: acabar com a ditadura daquele olhar, arriscar tudo para pôr na linha quem torto anda, elevar a dignidade acima do medo. Por outro lado, sabendo da ousadia da rapariga e da sua recusa em se deixar mandar, também a diretora lhe tem algum receio. Apanhou-a há dias a fumar, dentro da escola. Sendo qualquer outro, tal flagrante daria direito a uma hora de interrogatório, telefonema aos pais, reunião de emergência, alerta ao gabinete de psicologia, mancha negra na ficha individual.
E com ela não?
Nada. A diretora só lhe disse que fosse fazer aquilo para outro lado. Mas voltando ao repetente, parece que na semana passada roubou o telemóvel ao Alex, de modo tão fácil como apalpar o rabo às miúdas. Foi só passar, estender a mão, abrir o fecho e tirar o que lhe convinha. Antes que eu ajuíze sobre os factos, o meu filho esclarece-me: há que ter em conta que andou o Alex a apregoar aos ventos que recebera pelos anos o mais recente modelo da Apple. Exibira o aparelho todo inchado de orgulho, aproveitando para desdenhar dos modelos dos outros, frisando bem que aquilo ia para cima de quinhentos euros e não era para qualquer um. Fora adiantando, a alto e bom som, que a crise era coisa que não lhe tocava e abrira o porta-moedas para que todos vissem: duas notas e um cartão de débito. O assalto até parecera o castigo pela gabarolice. Não é bonito, mas apetece dizer que estava a pedi-las.
Em que ficou essa história?
Em nada, porque o que o Alex tem a mais em lábia tem a menos em coragem, e não fez queixa. Mas puseram-no os pais de castigo por uma semana. Que aprendesse a esconder as suas coisinhas como deve ser.
Ele passa-se.
Quem? O repetente?
Não, o Alex.
Porquê?
Gosta de uma rapariga diferente todas as semanas, vai tentando a sua sorte mas nenhuma lhe dá cavaco. Deve ser por isso que dá tanta importância ao dinheiro, se namorasse veria tudo de outra forma. E quem dele se aproveita é o repetente, que por sua vez apanha da miúda a quem apalpa o rabo. E da ousadia dela se aproveitam, para satisfação interior, todos aqueles que vivem com medo. E dos que vivem com medo se aproveita a diretora para fazer interrogatórios e alertar o gabinete de psicologia, com a ilusão de que isso organiza o sistema e implementa a paz. E do medo da diretora se aproveitam o repetente e a miúda que fuma onde lhe dá na gana.
O meu filho conta-me isto tudo enquanto me penteia com os dedos, julgando, portanto, que me faz grandes revelações sobre a vida.

5.12.14

Cento e cinquenta canais

Que coragem!
É o que me diz a menina da operadora de telecomunicações quando, pela enésima vez, repito que não quero canais de televisão, que a televisão me enfastia, enfastiam-me os pandas, os disneys, os comentadores políticos 24 horas por dia, as séries exibidas em série, os documentários sobre origem e o fim do mundo, e até o mágico poder de andar oito dias para trás. 
Minha querida, isto não é coragem. Coragem é outra coisa. Coragem é a sua, que às dez horas de uma noite gelada - quando eu estou já recolhida na minha morada, de pés quentes e barriga cheia, aninhada entre os meus, livre de prazos e metas - tem de estar no posto de trabalho, provavelmente depois de engolir à pressa um cheeseburguera telefonar a meio mundo para ganhar uns cêntimos, a impingir pacotes e promoções, enumerando vantagens por vinte minutos seguidos com o programa sistematicamente a crashar e a reiniciar, a pedir desculpa, a mendigar paciência, a repetir tudo de novo, para no fim ouvir obrigada, mas não estou interessada, a televisão enfastia-me e, ainda assim, não perder o ânimo para fazer outra chamada e quantas forem necessárias, um dia após o outro, e por dezenas, centenas ou até milhares deles. 
Não há coragem alguma em não ver televisão. Há só um tremendo cansaço, que começa nos ouvidos e, se eu deixar, apanha-me o cérebro todo. Na verdade sou fraca, não aguento a sobredosagem de inutilidades administrada por cento e cinquenta canais, nem mesmo a vinte e quatro euros e noventa e nove cêntimos. 

4.12.14

O riso

Desde que se conformou com o facto de eu não lhe dar moeda, o arrumador conta-me histórias. Antes que me suponham má pessoa, inimiga dos coitados, saibam que à hora a que chego a praceta está deserta, sobeja espaço até para acampar, não preciso que ele me acuda. Porém, conhecendo-lhe o vício da nicotina por vê-lo amiúde a vasculhar os cinzeiros públicos, de quando em vez arranjo-lhe cigarros, que ele agradece dobrando-se numa vénia. E dou-lhe conversa, coisa que nunca desvaloriza e muita gente mendiga. É um homem à entrada da velhice. Polido nos modos. Mesmo quando se abespinha, não se lhe ouve comentário ou insulto, deve ser para dentro que enfia as suas raivas. 
Ontem, apanhando-me a sair do carro, contou-me de um lisboeta que veio cá acima para uma reunião e que, depois de lhe pedir conselho sobre os melhores pratos e restaurantes, acabou numa cervejaria, a comer um prego. O arrumador contava-me isto rindo com gozo e desdém: e eu disse-lhe ó homem, olhe que é preciso ser muito ignorante para vir ao Norte e comer um prego! Enquanto falava, caminhava ao meu lado devagar, caminhava como um cavalheiro, de mãos nos bolsos, vertical proprietário dos trapos que vestia, das unhas encardidas, da praceta vazia, sem pedir ou reclamar do que lhe falta. Estava certo de me ter como cúmplice, porque cá no Norte, em todo o Norte, quando se trata de rir à socapa de quem vem de fora, não há barreiras nem inimizades. Enfim, é uma mania de superioridade que temos, absurda como qualquer outra mas tão inócua que até enternece. 
Esgotados os comentários e a risota - até mais logo - ele trocou-me por outra senhora que acabara de estacionar e lançou-se no mesmo relato sobre o lisboeta, mas logo às primeiras palavras ela cortou:
- Não pode ser, não tenho trocos.
Ele estacou, alinhou a pala do boné e, com mais gozo do que incómodo, de si para si:
- Esta deve ser das que vêm aos pregos.
Riu gostosamente, exibindo as abertas na dentadura, e voltou ao seu posto de serviço.

3.12.14

Lifestyle, pois claro

Não me surpreende, mas parece-me sempre espantosa a forma como um oportunista acaba por se transformar numa grande oportunidade.
Se há coisa em que o meu país nunca me desilude é na capacidade de encadear os factos para que, de alguma forma, todos fiquem a lucrar. Por cá, as penas e as indignações duram pouco. Berram durante uns dias, berram com força, histeria e a devida justeza em todos os sentidos, mas morrem assim que alguém se lembra de como tirar proveito da situação. Num ápice, a tragédia vira negócio e sem pudor que disfarce os argumentos, pois as referências a Sócrates e ao EPE vão aparecendo à boleia. 
Secção? Lifestyle, pois claro. 

28.11.14

Boas-vindas

Muito agradeço a elogiosa referência que, a propósito dos novos dilemas da maternidade, foi feita a este meu cantinho, mas receio que, por causa disso, tenha duplicado a quantidade de gente que vem aqui ao engano e que se dececiona logo à entrada. Perdoai-me, mas, neste lugar, não se veste a melancolia de cor-de-rosa, mostra-se o corpo por dentro, toma-se banho em água gelada e as referências aos filhos só servem de mote para questões que desconcertam. 
Se os pari a sangue frio ou adormecida, se mamaram ou foram despachados a biberão, se dormem na minha cama ou no andar de cima, se praticam natação ou karaté, são coisas que certamente não aquecem nem arrefecem para lá das paredes da minha casa. Dando-se o caso de, mesmo assim, gostarem disto e compreenderem que, por mais que vos façam a cabeça, não reside nessas questões avulsas o segredo para um mundo melhor, então sejam bem-vindos. E sentai-vos, pois haverá dias em que daqui não sairá nada mais além do convite para uma sestinha na penumbra.

Autocensura

Sou contrária aos que dizem que hoje em dia não há valores. Nunca, em toda a história da Humanidade, houve tantos e tão elevados valores. Acontece que, para os cumprir, estamos a viver contrariando a nossa própria natureza. Trabalhamos para a harmonia, o comportamento exemplar, a consciência apaziguada. Vigiam-nos as instituições, as doutrinas, as tendências, os vizinhos, as redes sociais. Somos autocensurados e, por isso, temos o sofrimento a crescer para dentro. Endoidecemos do avesso. Volta e meia, dá-se a explosão. O indivíduo que era manso como um cordeiro, educado como um senhor, saca de um bastão e parte um vidro só porque lhe buzinaram. Ou outro, culto e defensor dos mais nobres princípios, engole uma caixa de comprimidos de uma assentada. Mais aquele - parecia tão carinhoso e dedicado! - que espeta a faca nas costas da mulher. E as crianças, orientadinhas, acompanhadas e estudadas como nunca, dá-se com elas a responder torto aos velhos e a desdenhar disto tudo, quando viram costas os pais.

27.11.14

Susto

Acabaram de me dizer que morreu o engenheiro Sousa Veloso, dez dias depois de ter morrido o meteorologista Anthímio de Azevedo, vinte dias depois de eu ter feito referência a ambos, em textos distintos mas seguidos. 
É caso para me inibir de voltar a mencionar nomes de vivos neste blogue. 

26.11.14

Todo o país é inocente até a sentença transitar em julgado

Os políticos não caem do céu nem são eleitos por Deus para a superior missão de salvamento das nações. São paridos entre as coxas das suas mães, mulheres que, como todas as outras, conceberam nos cúmulos do desejo e do prazer. Nascem vulneráveis e sangrentos, chorosos e famintos. Podem nada, além de mendigar alimento e calor. É bom de ver que não vieram ao mundo com pureza divina ou desnecessitados das consolações da carne e do espírito.
Crescerão como todos: uns sujeitos a rigorosa disciplina, na ilusão de que isso seja garantia de rigoroso caráter. Outros, por sua conta e risco desde os primeiros passos, por força de sacrifícios laborais e ausências da família, sem que isso garanta que no futuro sejam solidários com semelhantes. E, como todos, será natural que muitos andem à porrada, fumem charros, apalpem nádegas nas filas da cantina, comparem o tamanho dos sexos no balneário, vendam cromos a preços inflacionados, comprem aos marrões da turma os trabalhos da escola ou a eles se encostem na hora de formar grupos. E se uns o farão porque estão habituados ao que querem e lhes apetece, outros o farão para se sentirem livres de regras e grilhões, outros ainda só porque sim, porque o gozo, o prazer e o exercício das mais simples formas de poder, a todos chamam em murmúrios sedutores. Diz-se que só os níveis superiores de humanidade e sabedoria lhes são surdos. Ora isto se aplicará às meninas em igual modo, é questão de mudar uma ou outra palavra na concisa e banalíssima lista que enumerei. Ninguém se livra de sentimentos impróprios, o que nos distingue são os valores que acima deles levantamos. E o que, eventualmente, não fazemos por tino, bom senso ou pudor, será pensado, imaginado, habitará nos fundos da consciência como num mundo paralelo e até legítimo, mas acabará por ser posto à prova ao longo da vida. É nesses instantes, e não nas conversas de café, nos discursos de circunstância ou nas colunas de jornal, que se revelam as traves do caráter. Aí, e só aí, virá à tona o ditador, o ganancioso, o lambe-botas, o deslumbrado, como poderá vir - assim fosse sempre! - o bravo, o altruísta, o íntegro, o despojado.
Por aqui, nos blogues, nos facebooks, na imprensa, todos nós sabemos e afirmamos que queremos mais, que não merecemos esta indignidade em que os nossos políticos nos têm obrigado a viver, esta baixeza aonde tantas vezes temos descido, uns por vontade, outros por empurrão. Mas, de resto, vivemos em silêncio e conivência, às vezes com humor (o melhor laxante para os apertos da alma), pois se é verdade que hoje somos os ofendidos, resta saber se amanhã, soprando o vento de feição, não seremos os oportunistas. Por alguma razão andamos nisto há tanto tempo. 

25.11.14

Proteção

Riem-se quando eu digo que me sinto protegida com os meus filhos por perto. Não tendo ainda corpo maior que o meu, não terão força para me defender ou braços para me carregar. Acontece que a sua inocência me resguarda e as suas vontades mantêm-me a esperança acesa e a confiança que me depositam afasta-me de certos pecados e a sua visão de longínquos futuros me põe a salvo da mortalidade. 

(Vi-a, por estes dias, a olhar para mim num corpo que tombou ao lado. A mortalidade. Seus olhos, de um insuportável e abstrato cinismo, atiraram-me à cara a ligeireza com que às vezes vivo e os grandes propósitos que tenho adiado para dias que nenhum calendário contempla. Uma grande banalidade esta, a roçar a pieguice, digna de um powerpoint com golfinhos ao pôr-do-sol. Mas é facto: das banalidades se vão retirando as forças que nos aguentam na hora em que o destino mostra a mais banal das suas faces)