30.7.14

A uma hora da capital

Entre um caminho corta-fogo e as águas límpidas da barragem onde os veraneantes se passeiam de lancha e afogam as suas angústias citadinas, uma fileira de seis casas de portas e janelas cerradas. A primeira fechou-se quando os seus donos emigraram. Na segunda, desavenças familiares, discórdia entre herdeiros, tiroteio, roubo, já ninguém sabe a quem pertencem as paredes, o telhado, o naco de terra por lavrar. Na terceira, um homem suicidou-se com veneno para ratos. Na quarta, estranharam o silêncio prolongado e foram dar com a proprietária na cama, já em decomposição, morta de velhice e abandono. Na quinta, um casal de idosos perdeu a saúde para enfiar as mãos na terra e dela retirar sustento e foi-se para Lisboa, em busca de colo nos filhos doutores. A sexta "aluga-se para férias" mas ao que parece ninguém a quer. Agora, ali só passa o vento e a poeira, talvez o sussurro de fantasmas, o pé de quem se enganou no caminho ou procurou atalho. Um incómodo numa paisagem tão bela, uma nódoa num paraíso azul e verde, que só não tira o sossego a quem não souber.
Em Portugal, este país pequeníssimo onde o intervalo entre a abundância e a miséria é sempre tão breve e ora se está com os olhos no cume de uma montanha ora com um pé na lama, onde tão depressa nos perdemos nos excessos como no fundo deserto dos vales, este país rico em autoestradas e viadutos construídos sobre caminhos de cabras, em Portugal parece quase impossível que se viva desde sempre na ignorância do vizinho do lado. Os que podem viram a cara e vão para longe, embarcam em aviões, escondem-se em museus, cegam estendidos ao sol. Os outros, tantos, não veem porque os seus olhos estão fixos, desesperadamente fixos na ingrata tarefa da sobrevivência.

17.7.14

Que maçada!

Havendo-as, boa parte das críticas negativas que aparecem sobre hotéis, residenciais, estalagens e afins, diz respeito à escassez de canais por cabo. Não me surpreende, mas num país de gente que se repete na ladainha da crise e da penúria, impressiona saber que há tantos a investir dinheiro em bilhetes de avião, gasolina, portagens e alojamentos para ver televisão. Queixinhas de pobre, frivolidades de rico.

15.7.14

Adolescência

Pouco a pouco, deixam de lhe interessar as árvores. Trepá-las ou colher-lhes os frutos já não é desafio nem prazer. Amor torna-se assunto reservado, piegas quando o abordam os adultos, risível quando dele falam as crianças. De certas conversas já só retira motivo para confronto ou menosprezo. Sua mochila de verão é cada vez mais volumosa e secreta. Silenciosamente, cava túneis dentro de si mesmo, por onde possam circular, ao abrigo do juízo alheio, pensamentos que são susto e maravilha. Considera o que lhe ensinam com o mesmo respeito com que se considera uma herança de valor: admira, guarda, mas raramente usa, pois o tempo é novo e a vida é outra. 
É deixá-lo ir, digo-me baixinho, já saudosa da inocência e da incorruptibilidade que pus no mundo. Não irá longe, porque não é ainda a ânsia de sabedoria que o impele. Vai movido por cismas, desejos fortuitos, curiosidades menores. É deixá-lo ir. Oito, dez, doze anos demorará para voltar a Casa, ao amparo que é e sempre será toda a mãe que, lutando contra o medo, resistiu a prender e generosamente vai ao cais de embarque dizer adeus, sorrindo por fora para que não se veja, pela segunda vez, o ventre em espasmo e a porta dos amores abrindo à força.

14.7.14

Acontece

Pode depender do contexto, variar com a personalidade, estar aquém ou além do imaginado, mas é verdade que há, para todos nós e pelo menos uma vez na vida, um momento cuja superioridade faz de tudo o resto desimportância, poeira, figuração. Acontece às mães quando dão à luz, aos viajantes quando alcançam certos lugares e a outros por motivos que a ninguém compete medir ou validar.
Tenho sorte porque me acontece amiúde, e às vezes por tão pouco, esse entendimento súbito com o universo, bandeira branca ao passado e ao futuro, prazer livre de razões, promessas, trocas, rostos, quotidiano. Uma espécie de egoísmo primário, território cercado em torno de uma visão, onde nada nem ninguém é essencial, porque não há desejo ou lembrança. É coisa passageira mas que revolve, limpa e transforma.

11.7.14

Linhas paralelas

Porto, 10 de Julho de 2014
Duas linhas paralelas 
muito paralelamente 
iam passando entre estrelas 
fazendo o que estava escrito: 
caminhando eternamente 
de infinito a infinito. 
Seguiam-se passo a passo 
exactas e sempre a par 
pois só num ponto do espaço 
que ninguém sabe onde é 
se podiam encontrar 
falar e tomar café. 
Mas farta de andar sozinha 
uma delas certo dia 
voltou-se para a outra linha 
sorriu-lhe e disse-lhe assim: 
“Deixa lá a geometria 
e anda aqui para o pé de mim…” 
Diz-lhe a outra: “Nem pensar! 
Mas que falta de respeito! 
Se quisermos lá chegar 
temos de ir devagarinho 
andando sempre a direito 
cada qual no seu caminho!” 
Não se dando por achada 
fica na sua a primeira 
e sorrindo amalandrada 
pela calada, sem um grito 
deita a mãozinha matreira 
puxa para si o infinito. 
E com ele ali à frente 
as duas a murmurar 
olharam-se docemente 
e sem fazerem perguntas 
puseram-se a namorar 
seguiram as duas juntas. 
Assim nestas poucas linhas 
fica uma história banal 
com linhas e entrelinhas 
e uma moral convergente: 
o infinito afinal 
fica aqui ao pé da gente! 

José Fanha - "Romance ingénuo de duas linhas paralelas"

10.7.14

Idade (2)

Ainda fresco o texto anterior e já me acusaram de o ter escrito como uma velha. Não sei. Falei em idade, importa qual? O que digo aos quarenta, muitos podem descobrir aos vinte e outros nem com as costas vergadas e um pé na cova realizam.
A idade é a contabilização possível do correr do tempo. E o tempo, já diziam os relógios Citizen, é o que dele fazemos. O que não vale é tentar pará-lo.

Idade

O que ontem disse já não me serve hoje. Das coisas que jurei, sou capaz de me rir. Onde me pareceu haver terreno firme, agora há pântano e abismos. Correm águas e desabrocha vida onde, por despeito, já presumi aridez. Dou a mão que antes usei para sovar e a que guardava no bolso com ares de elegância serve-me agora para me defender. Tombaram deuses, estátuas e gigantes. Outros se ergueram, e crenças que em tempos julguei tolas podem ter-se tornado o meu maior amparo. 
Ao contrário do que os mais velhos garantem, o tempo faz-me mudar cada vez mais de ideias, desatar convicções, afastar certezas. Meu cuspo acertou-me na cabeça, em cheio na razão, e confirmei a sua consistência vaga e a sua intenção leviana. A minha fórmula da felicidade é aberta, não tem mais constantes nem números redondos.
A idade é uma desconstrução. E, não parecendo, mais seguro é estar ao vento do que à sombra da muralha.

8.7.14

Eletrocardiograma

- Muito bem, menina, pode ir tranquila que o eletrocardiograma está normal, o seu coração está ótimo.
- Como disse?
- Está tudo normal, pode ir. Repetimos quando for necessário.
- Deve ter-se enganado...
- Não, este é o seu número.
- Nem uma arritmia? Não pode ser...
- Tudo perfeito! 
- Ouça, eu não cheguei a esta idade, que suponho ser o meio do caminho, eu não me sujeitei a isto tudo para me dizer agora que o meu eletrocardiograma está normal. Normal há de estar o dos outros. Eu tenho vícios, vícios terríveis. Ignoro avisos e advertências, trepo aonde o oxigénio rareia e já vi o inferno concentrado num metro quadrado de terra. Cartas de amor, versos dedicados, músicas em meu nome, olhe... perdi-lhes a conta e desculpe lá a vaidadezinha, mas que seria de nós se não fossemos amados? Meu coração bate-me às vezes fora do peito, expõe-se em carne viva, sujeita-se a correntes de ar, cobiça e assaltos, anda pela boca e pelas mãos, desce-me até ao ventre, é um malabarismo que só visto, posso jurar, há dias em que se estende a partir dele uma dor que me apanha o braço todo quando levanto o punho... Outras vezes, doutor, é como se uma mão gigante o esmagasse com a força de Deus ou do Diabo, sei lá bem qual dos dois lhe mexe mais vezes... não é essa exatamente a impressão de um enfarte agudo? Olhe... uma paragem! Veja aí se não tive já o coração parado durante sete horas seguidinhas. Veja se esses picos aguçados não são escarpas, navalhas, ofensas, visões do outro mundo...  É que nem durante a noite estou a salvo!
- Menina, dormindo o coração abranda...
- O meu coração não dorme, doutor. Ainda a noite passada, não sabe quantos quilómetros fiz a pé, na escuridão, para levar um pai e um filho pequeno de volta a casa, fomos assaltados no caminho, adiante desmoronou-se uma torre decrépita onde habitavam centenas de famílias, junto a uma comunidade de imigrantes japoneses que estavam a preparar um almoço à base de mariscos. Num repente, apareceu água de todo o lado, uma onda gigante de água opaca e esverdeada, não sei quanto tempo estive submersa, quem me deitou a mão foi um homem loiro que estava a meditar numa varanda cheia de espanta-espíritos, senão a esta hora o doutor assinava-me o óbito.
- Oh, valha-me Deus! Isto é só um eletrocardiograma e está normal...
- Portanto, está a dizer-me que não tenho marca? Sequer um naco de tecido isquémico que me valha como troféu, como prova do que fiz e me fizeram? Dor, saudade, impulso, desejo, orgulho, êxtase, melancolia.... Nada?
- Vou fazer-lhe um desenho. O coração é um músculo, está a ver? Uma víscera desprovida de romantismo. Bate com uma cadência que responde às necessidades da engrenagem. Se tiver mossa, adoece, falha ou morre. Não há mistério.
- Sim, o coração dos outros é um músculo. O meu não. 
- O seu é igual.
- Está a dizer que eu sou uma pessoa vulgar? Era o que me faltava...
- Precisamente. Agora, se não se importa, tenho outros para atender com o mesmo problema.
- Problema?! Eu?! Então não disse que estava tudo bem com o meu eletrocardiograma?
- Vá para a cama, menina. Adormecer no sofá não dá bom resultado.

7.7.14

Ler como amar (6)

Se um livro me desilude por não ter história que valha, frase que brilhe, visão que perturbe, sentido que enriqueça, vai para a parte de trás da estante, onde está o que não tenciono levar até ao fim e prefiro até manter longe da vista. É triste quando se faz capa vistosa e sinopse distorcida para o que não é mais do que panfleto, anúncio classificado ou balde de despejo. 

4.7.14

Retorno

Com vocação hereditária para a tristeza, mal-entendida com o mundo quase de nascença, habituada a deitar-se vencida e a amanhecer descrente, Luisinha cortou os pulsos quando, pela primeira vez na vida, se achou feliz. Visão estranha andava a ter: uma luz evidenciando formas e contornos, uma súbita justiça na ordem das coisas, um propósito que lhe apontava horizontes e sugeria caminhos. E tanta vontade de sorrir, tanto desejo de se dar, tanto prazer nas banalidades, nos instantes, nas palavras. 
Mas a maravilha, por ser desconhecida, de repente pareceu-lhe uma doideira. E a doideira converteu-se em susto. E o susto encorpou-se e virou pânico. Às apalpadelas na memória, no inconsciente, no verso da nova realidade, procurou o retorno à sua dor crónica. Nada lhe era tão familiar como a dor. Nada era tão consistente e seguro como a certeza de que o mundo girava no sentido contrário ao dever. Foi uma busca em vão. Estava realmente feliz. Pois então, que morresse feliz, conforme é desejo de todo o ser humano que, por se estimar, quer partir com as melhores memórias e a melhor cara.
Descobriram-na a tempo, internaram-na, repuseram-lhe a serenidade dos fluxos e dos ritmos. E, por decisão médica, ficou proibida de voltar a alegrar-se nos próximos tempos.

3.7.14

Estágios (9)

Em jeito de boas-vindas aos meus estagiários, pouso-lhes sempre na mesa um papel com o excerto sobre as lavadeiras de Alagoas, de Graciliano Ramos. Nunca nenhum deles comentou, perguntou ou quis debater. Desconheço que rumo dão a estas sábias palavras. Se lhes servem como marcador de livros, se as guardaram em caixinha própria para as recordações em desuso, se lhes deram caráter de lembrete na porta do frigorífico. Ou se, por as acharem desconcertantes, desprovidas de romantismo, incapazes de comover e alimentar o bichinho, as remeteram para o lixo, desdenhando de quem enfia no mesmo saco o ofício da escrita e as tristes e invisíveis rotinas de uma lavadeira.

27.6.14

A viúva

Faz tempo que o senhor Pereira cobiça a viúva, e que mal há de haver nisso se ela não é mulher do próximo, não é já mulher de ninguém? Quando ela passa, ele esquece a decência, a trabalhosa decência de ser marido, pai e avô. Enxuta e perfumada, cuidadosa de si mesma como poucas são naquela idade, entra na rua ao volante do SUV e estaciona. Tem pé insensível, fraco para o ponto de embraiagem, ou talvez seja a agulha do tacão que prende no tapete. O SUV esganiça-se, mas ela sorri, desavergonhada da própria falta de jeito, e o senhor Pereira fica extático. Que sedutoras são, nas outras mulheres, as falhas que o enervam e impacientam naquela com quem se casou!
A partir do momento em que a viúva sai do carro, não espero mais que ele me ouça. Aos meus alhos responde com bugalhos, um tumulto interior incha-lhe o peito, acelera-lhe o sangue, apruma-lhe as costas e outras partes do corpo que desobedecem aos contratos e às juras no altar. O senhor Pereira está bem conservado e vivo de cima a baixo, de alguma coisa lhe hão de valer as idas semanais ao ginásio. Pena que a esposa vá mais adiante na corrida para a morte, tão flácida e desinteressada, e andem, por isso, desfasados na cama. Mas a viúva, há mais de vinte anos sem homem, deve ter o corpo fechado e ansioso como o de uma virgem, com a inocência reposta e a rijeza de quem não chegou a conceber.
- Como está, minha senhora? Como está, minha senhora? Boa tarde, minha senhora!
Calo-me, dou-lhe tempo. Sei, pelo hábito, que a seguir terá minutos de completa desconcentração, curvar-se-á numa vénia empoeirada - há modos que um homem não pode descurar. A viúva caminhará pelo passeio muito devagar, espetando os seios, bamboleando as nádegas. Toda de negro, da cabeça aos pés. Negro o verniz dos sapatos, negra a calça de vinco, negra a blusa de poliéster, negra a pele do casaco, negro o liso trabalhado dos cabelos. Mas quando vira a cabeça e sorri - visão do demo! - explode o vermelho-vivo dos lábios, um brilho de fruta madura, a pedir língua e dentes que mordam.
- Com está, senhor Pereira? - a voz sai-lhe dengosa, quase infantil. E, pelo canto do olho, deixa o rasto de uma promessa.

26.6.14

Maçada de peixe

Seria bom se este meu blogue tivesse outro nome, coisa decente, com dignidade intelectual, que não envergonhasse os que me seguem com rigor diário mas não ousam exibir-me entre os favoritos. Chata, repelente, piegas, esta coisa de ser mãe, como se as outras mulheres não fossem tão mães quanto eu, e talvez até o sejam as que nunca deram à luz e vivem abafando as pulsões do ventre, na ilusão da superior liberdade, da independência na rotina, nos horários, prioridades, sucessos e destinos. 
Devia ter nomeado este blogue com recurso a uma obra literária, devia ter feito uma dessas vulgares façanhas verbais, um trocadilho que, mesmo ridículo e forçado, me fizesse parecer cabeça criativa e pensadora. Como alguém que sai à rua e se enche de quinquilharia e perfume, na esperança de que o mundo tire a pinta do caráter pela pinta do arranjo. Qualquer coisa como "crónica de um blogue anunciado", "blogue da razão pura", "em busca do blogue perdido", "singularidades de uma rapariga loura". Ou que enalteça a profundidade da autora, caso os leitores não a captem de imediato e as entrelinhas dos textos deixem sobrar a dúvida. Uma combinação de palavras cruciais, como "inquietação", "relatividade", "olhares".  Ou outras que mostrem que, de quando em vez, me elevo aos céus e alcanço estádios de suprema e incompreendida lucidez, uma espécie de anormalidade produtiva, já que, no fundo, o que todos queremos é provar a todo o custo que somos diferentes. "Traumatismo craniano", "morfina", "virose gastrointestinal".
Também está em voga e cai sempre bem o insólito.  "Massada de peixe", por exemplo, o meu blogue devia chamar-se "massada de peixe" e tenho a certeza que toda a gente o comia. Melhor: "maçada de peixe", o duplo sentido, o verdadeiro rasgo de intelectualidade. Que bonito ficaria, exibido nas ementas à porta dos tascos. 

25.6.14

Adultério

Por desconhecimento das incompatibilidades profissionais, pediram-me há dias que fizesse uma grande entrevista a uma figura de proa nacional. Tive de responder que não. Onde já vai a carteira de jornalista! Dei-a à troca de noites sossegadas, farta que estava de camas de hotel, dramas de consciência, assédio, encenações, desgraças e aldrabices.
Mas o meu coração ficou a palpitar durante mais de uma hora, como o de uma mulher comprometida, com casa posta e vida estável, quando de novo cruza com o seu primeiro amor, um doido varrido, excitante, cheio de lábia, que todos os dias a seduzia num lugar diferente e com uma história nova. E o que apetece é mandar a ética às urtigas, disfarçar nome e morada para enganar a lei e cometer o adultério, revivendo os cúmulos do prazer e da aventura. Depois, como se nada fosse, voltar para casa e continuar a entregar-me, com competência, a quem me dá conforto e tranquilidade.

21.6.14

Humanidade

Dizer quero educar os meus filhos conforme os meus pais me educaram a mim não é, como pode parecer, um apego a valores fundamentais, mas sim uma grande presunção, uma vaidade mal disfarçada. E um erro social, porque repetir sistematicamente a humanidade, fazendo de cada filho a cópia do seu pai, é impedi-la de melhorar.

20.6.14

Má distribuição da riqueza

Disse-me um amigo que não compreendeu o sentido de "Devolução", pois que "um homem nunca veste uma mulher, muito menos desta forma, a não ser que ela seja a tal".
O meu amigo, por meu amigo ser, já devia saber de cor que não invento histórias porque a minha imaginação é tísica e o meu tempo para o devaneio é escasso. Que culpa tenho eu que não lhe pareça a ele haver sentido algum na realidade ou que pouco tenha visto dela que surpreenda? Talvez a realidade seja como a riqueza e esteja mal distribuída neste mundo: andam uns sujeitos às banalidades enquanto outros, poucos, açambarcam privilégios.

19.6.14

Devolução

Leonor lembra-se bem de João a ter vestido, porém, não se lembra de ele a ter despido. Afinal, despem-se os amantes sempre mais ou menos da mesma forma e, muitas vezes, de olhos cerrados, revirados ou presos uns nos outros. Dificilmente se recorda o que se faz com sede e desnorteamento. Pouco importará, também, se primeiro se puxa uma camisola ou desaperta uma saia e se a bem ou a mal vão as roupas afrouxando na cadeira, morrendo no chão, ou simplesmente abrindo clareiras por onde possam passear-se o olhar, as mãos, a língua. É uma daquelas situações em que os fins não só justificam os meios como os remetem para o esquecimento.
Mas Leonor lembra-se de, no final, João a ter vestido. Tudo o que desapertara, forçara, atirara para longe, ele repôs, encaixou, arrumou. Casou fechos, botões e colchetes. Com amorosa atenção, foi admirando cada uma das partes do seu corpo antes de as cobrir, terá fixado na retina os sinais, as dobras, as cicatrizes e outros detalhes em que todas as mulheres diferem. Alinhou-lhe as alças com rigor matemático, compôs-lhe o decote para que o peito se acomodasse discreto, sem abrir mais apetites. E, levantando-a, cuidou para que ela não se magoasse ao pousar de novo os pés no chão. 
João vestiu Leonor como quem prepara a devolução de uma encomenda que não lhe estava destinada. E com a saliva morna de um beijo a selou, não fosse a memória do encontro perder-se para sempre no caminho. 

18.6.14

*

Não há verdade mais dolorosa de ouvir do que aquela que é dita, não por coragem ou dever de honestidade, mas apenas por descuido ou desespero.

17.6.14

Terra

Tudo o que escrevo vem das coisas em que reparo ou outras de que me lembro. A rota do meu pensamento não passa com frequência na lua e raramente anda nas nuvens. Vivo com os pés na terra, conforme predestinaram os astros à data do meu nascimento, e nela tenho tudo o que preciso para exercitar a minha sensibilidade. 
Talvez isto explique porque me aborrecem, nos outros, as pieguices, os devaneios a rosa e dourado, os barroquismos sentimentais, os textos engordurados, pegajosos e opacos. E talvez explique ainda a minha comoção quando me disseste tu habitas dentro de mim e as tuas mãos não se perderam nem a voz estremeceu nem os olhos reviraram. Falaste com objetividade e presença, como quem conclui uma dissertação científica ou arruma os papéis da secretária e decide que está na hora de ir para casa. 
Comovi-me porque acredito que é na terra, e não no céu, que o amor diz a verdade. Duvidaria da tua honestidade, sim, se estivesses tomado por essas febres que o fascínio e o desejo costumam disparar, fazendo levantar os pés do chão, provocando alucinações, dando a um seixo o tamanho de um penedo e a um fio de água a força de uma torrente. Além disso, tão depressa como vêm, as febres vão e então a realidade parece frouxa, desengraçada e inútil, como um balão estoirado que só à custa de ar subiu.

13.6.14

Vulgaridades

Entre marcas de vinhos, detergentes, sumos, cafés, medicamentos, eletrodomésticos, agências de viagens, bancos, centros comerciais, passo os dias à cata de coisas extraordinárias para dizer sobre o que não tem virtude, diferença ou utilidade.
Por isso, é natural que me espalhe ao comprido se me pedem que escreva a verdade, somente a verdade e nada mais do que a verdade sobre o lugar onde, contra a lei e a favor da corrente, quero que atirem o meu corpo em cinzas. 
Hei de envergonhar-me e renegar tudo o que escrevi. Vulgaridades. Um chorrilho de vulgaridades é o que me sai quando a única gramática justa é a dos sentidos. 

11.6.14

Estágios (8)

Acontecia, às vezes, ele achar que tinha mais a fazer por mim do que tornar-me jornalista que prestasse. Chegava com um saco cheio de laranjas, descascava-as com os dedos e comia-as de enfiada, certo que a vitamina C o salvaria de morrer do coração. Ficava de romantismo fácil. Com os sentidos inflamados. Vulnerável e espantado, como se acabado de vir ao mundo. 
Num desses dias, arrastou-me até à varanda com vista sobre a Baixa.
- Que bonito que isto é! Já viste bem? Rai's parta!, às vezes parece tudo tão perfeito, até a confusão.
Olha para esta luz, esta cidade, os telhados, as chaminés, a pedra, a calçada, as pessoas, os pombos... tu já viste bem isto tudo? Mas de onde vem esta merda e para onde vai esta merda? Não é bonito, filha?

Silêncio.
De repente, empurrou meia dúzia de gomos para dentro da boca de uma assentada - tanta urgência em proteger o coração! - pôs-me em sentido com uma cotovelada e arregalou-me os olhos, como quem ameaça castigo:
- Olha, filha... olha bem! Tu nunca permitas que tentem parar a tua marcha. Quem tentar parar a tua marcha é porque não te tem amor. Estás a compreender?

Não me canso

Das belezas que esta mulher tem e de outras que traz consigo.

9.6.14

Verbos

A mulher diz ele fez-me um filho. 
O homem diz ela deu-me um filho.

8.6.14

Iguais

Leitor assíduo escreve-me, avisando que "Fraqueza" é dos que serão plagiados. Sou levada a concordar, já que as mães têm sido as grandes amigas do alheio, não obstante as extensas e comoventes ladainhas que escrevem sobre a bondade e o caráter.
Deixe, caro leitor. É mal sem remédio, como tantos outros. Corpo, alma, bolso, obra, ideia, só não tomamos o que não está à mão de semear. E eu ponho-me a jeito porque raramente escrevo sobre o que, na minha vida, pode haver de exclusivo. Importam-me mais as banalidades, sempre me importaram as banalidades, as angústias universais, as moinhas quotidianas, as insatisfações corriqueiras, o dia-a-dia que cada um, por inocência, crê único e grandioso, o país em círculo, a cidade em fila, os espelhos onde todos aparecemos como realmente somos: iguais.

Os meninos e as meninas

Na papelaria onde compramos os cromos, a rapariga ilumina-se quando nos vê entrar e atende-nos com franco entusiasmo. Gosta dos meus filhos, não se cansa de gabar a graça do mais novo e a discrição do mais velho. Tão educadinhos... É quase com piedade que o diz, como se lhes encontrasse um desvio, uma peça torta, um prenúncio de infelicidade. E é apenas por simpatia que, a seguir, eu agradeço o elogio que pouco conta. Fácil para qualquer um é ganhar bons modos, basta um mestre ou um manual, vontade e treino. Tudo na aparência se pode emendar ou disfarçar. Mais difícil é ser-se gente que valha, mesmo descurando, uma ou outra vez, o obrigado ou por favor.
Um dia destes, apanhando-os distraídos a folhear revistas, inclinou-se sobre o balcão e disse-me baixinho:
- Você tem cá uma sorte! Eu, um dia, também hei de ter filhos e, se Deus quiser, hão de ser rapazes. Não quero meninas, dão uma trabalheira medonha, são muito difíceis de criar.
A rapariga da papelaria é muito moderna, usa uma dessas malas onde cabem galinhas com as asas abertas, tem um pechisbeque a reluzir na aba do nariz e equilibra-se com verdadeira elegância em sapatos de stripper. 
Às vezes, está onde menos se julga a origem de certos males que não têm cura.

6.6.14

Dar e aceitar

Aceitar é uma prova de generosidade tão grande como dar. Porém, dar tranquiliza-nos, acrescenta-nos uma impressão de superioridade, pois só dá quem tem. Dando, ganha-se sempre em orgulho e satisfação, por maior que seja a modéstia. Aceitar diminui-nos, obriga-nos a revelar o que nos falta ou falha e, às vezes, ter vergonha. É preciso ter o coração muito aberto para reconhecer uma dádiva e aceitá-la sem cerimónia nem gaguejo. Seja uma sopa, um abraço, um elogio ou uma ideia diferente do mundo.

5.6.14

Fraqueza

Os filhos não são a minha força. São antes a minha fraqueza. São minhas lentes de aumento sobre as feridas do sistema. Meu coração arrítmico e desarmado, sempre a um passo de parar. Minha ignorância à vista, sem respostas sobre a morte, sem ideias sobre Deus. Minha pena da humanidade. Minha raiva do país. Minhas certezas no lixo. São o corpo que me envelhece. O tempo que não domino. O rumo que não decido. Meu pavor de adormecer e nunca mais acordar ou não lhes poder valer. E um pesadelo noturno que, num sussurro, anuncia: Não podes mudar o mundo! Não podes mudar o mundo!

4.6.14

O paizinho

António, o homem de barriga farta, mãos sapudas e machismo empoeirado, alguém se lembra dele? Por razões que não contam nem vou contar, somos obrigados a ver-nos com alguma regularidade. Ontem espraiou-se na cadeira, posicionada onde lhe pareceu que a audiência seria mais favorável, e, como é seu costume, falou, falou, falou do alto da sua esperteza saloia, com timbre possante e gestos largos. Perguntou à miudagem como é que estavam de gajas e pôs os adultos a par da educação à moda antiga que aplica lá em casa, tal e qual a que recebeu do seu falecido pai. Depois, a despropósito, achou por bem contar a todos como os filhos cometem indecentemente o pecado da gula quando a sua senhora, a mãezinha, faz bolo de chocolate. Imitou-os exagerando os gestos, esganiçando a voz, tornando públicos os tiques e fragilidades que só entre família se revelam. Sacanas d'um caralho! Filhos da mãe! Comem aquilo como alarves! E o seu riso, desproporcionado, estimulava o da audiência.
Enquanto o António avançava no relato, o filho adolescente encolhia-se na cadeira e ia-se fazendo vermelho. Mas a certa altura, com um respeito evidente nos modos mas escasso no sentimento - e por algum motivo assim será - encheu-se de coragem:
- É como o paizinho com o vinho... Também não sabe parar.
Mais por estar solidária com o adolescente do que por ver piada em factos tristes, saiu-me, com liberdade há muito ansiada, uma gargalhada. Mas logo percebi que estava só, pois todos os outros olharam o miúdo e franziram a boca, reprovando o desacato. António é um tipo que fala muito alto, tem barriga grande e opiniões de aço. Que não se faça dele um tolo, muito menos em praça pública.

3.6.14

Luxo

Este blogue, que parece querer dar-se ares de coisa velada, é honesto. Por isso o lê o meu Pai, leem-no meus irmãos, cunhados, sobrinhos, tios, mestres e amigos. Espreita-o às vezes, de raspão, o meu filho mais velho. Podia vir aqui ludibriar o mundo inteiro, se isso me apetecesse ou desse vantagem, mas não posso traí-los a eles, usá-los como protagonistas de farsas ou escrever oposto ao que digo quando nos reunimos.  
Precisando, sei mentir com requinte e coerência. Mas não preciso. E isso é um luxo dos raros, principalmente em tempo de crise.

2.6.14

Deus, a matemática e a guerra dos sexos

A criação do universo foi obra de elevado primor. Se teve origem química ou divina, as opiniões divergem, mas julgo que estamos todos de acordo quanto à perfeição do resultado. Pesos, medidas, simetrias, rotas, forças de atração e repulsa organizam a matéria de forma a que o equilíbrio seja matemático e tudo funcione como máquina autónoma. A realidade material é explicada por fórmulas, proporções e leis com um rigor que só não espanta quem nunca parou para pensar. E nem são precisos conhecimentos profundos, basta apreciar o firmamento, a sucessão de dias e noites, as marés, os ciclos de vida, o funcionamento de um par de rins, o fluxo da seiva, a formação de um embrião, uma célula, uma molécula, um átomo, e as relações que entre todos os corpos e partículas existem. 
É certo que nem sempre há uma perfeição funcional. Os buracos negros, os desvios e as colisões acontecem, da mesma forma que diariamente nascem células cancerígenas no nosso corpo ou há úteros que rejeitam embriões sem aparente explicação. Mas a lógica do princípio é sólida e universal, e isso não sei se mais me fascina ou assusta, mas é verdade que me faz crer em todos os deuses, encantar-me por todas as ciências e perguntar-me sobre o que ainda estará por descobrir que desvende toda a inteligência da criação.
Infelizmente, no meio de todo este assombro que é a realidade palpável e seus mecanismos, não houve divindade ou ciência que intercedesse a favor equilíbrio do que é imaterial. Deus gastou a sua inspiração na forma e esqueceu-se do conteúdo. E as fórmulas matemáticas, por mais que se esmerem à volta de constantes e variáveis, sempre resultarão em incógnita quando se trata do bem-estar, da felicidade, da justa harmonia entre almas, da resolução de dramas e perturbações interiores, da gestão de ganância, desejo, ambição, inveja. 
Há, dentro de cada um de nós, um universo desarrumado, de origem animal e por isso submetido a instintos, onde as forças não se equilibram naturalmente e, quando se equilibram, o mais provável é que uma delas esteja em tensão para manter as outras em órbita regular. A qualquer momento, pode dar-se um colapso. Esta desarrumação aplica-se à nossa interação com os outros, pois que não se encontra forma de pairarmos harmoniosamente no universo, sem colidir, explodir, quebrar. E os opostos ora se atraem ora se repulsam, não havendo lógica matemática para nos socorrermos e justificarmos quando as coisas dão para o torto, quando há colisões ou quedas no vazio. Creio que a diferença está no facto de a realidade palpável ter para cada peça uma função clara, distinta, que é cumprida individualmente para bem de um todo. E no nosso caso, não há contentamento possível com aquilo que somos e podemos ou devemos fazer. Sempre quereremos ter mais espaço, mais força, mais massa, mais decisão, mais velocidade. E sempre acharemos que somos o centro de gravidade e que os outros devem submeter-se à nossa lógica e ritmo. 
Pensei em tudo isto - e desculpem-me a extensão e o fastio - porque estas guerras de sexos que volta e meia estalam na blogosfera têm a falha de reduzir a uma questão de género o que é mal da humanidade e eterno cancro das profundezas do indivíduo: o poder. E o poder pode ser um exercício do homem sobre o corpo da mulher, como da mulher sobre a vontade do homem, como de mãe sobre a privacidade do filho, como do filho sobre a bolsa dos pais, como do patrão sobre a dignidade dos funcionários, como de quem está armado sobre quem está vulnerável, como da indústria farmacêutica sobre os doentes crónicos, como da igreja, dos partidos e da comunicação social sobre a consciência de todos. Mas era bom que fossemos justos e nos lembrássemos que um homem não viola porque é homem, viola porque é desequilibrado. Da mesma forma uma mãe não corta seu filho às postas por ser mãe, mas por ser desequilibrada. E uma escola inteira não ignora o drama de uma aluna por integrar um sistema de ensino fraco, mas por estar a ser conduzida por pessoas igualmente desequilibradas.
Tivesse Deus criado a alma humana com o mesmo rigor e visão com que criou o resto e não teriam sido necessárias a civilização, os mandamentos e as leis fundamentais. Podia ter-nos feito só instinto. Ou só afetos. Ou só máquinas. Mas, talvez para garantir a manutenção do seu poder enquanto promessa de salvação, Deus fez-nos esta miscelânea, estes animais que não podemos renegar, este turbilhão de paixões e medos, este constante balançar entre o desejo e o dever, que nos torna presas e predadores, poderosos e submissos, ladrões e assaltados, egoístas e generosos, guerrilheiros e pacifistas, lobos e cordeiros. Nada disto tem género, idade, estatuto, religião ou cultura. 
E a matemática, mesmo trabalhando com conjuntos infinitos de números relativos, complexos e até imaginários, jamais conseguirá chegar à fórmula que nos permita viver como os astros no firmamento: em serenidade e equilíbrio por longos milhões de anos.