10.12.19

Assalto

Várias horas depois, e esquecendo já os valores furtados, admitiu a hipótese de ter sido ameaçado com uma vulgar faca de manteiga. Mas no instante do horror, olhos nos olhos do gatuno, o coração a trepar até à garganta, as pernas bambas, o sangue a latejar nas têmporas, a vida inteira a sumir-se num rodopio alucinado, o que rebrilhava na orla do seu campo de visão – ia jurar – era a lâmina de uma catana. 
Disse-lhe, porque reconheci nesta outras histórias: a arma pode ser imprestável ou nem sequer real. O que nos aterroriza, vence e diminui é a determinação com que o inimigo avança sobre nós.

7.12.19

Gervásio

Para que raio uma pessoa, uma sociedade, um país, precisa de observar, raciocinar, estudar, pensar, construir convicções, se o que basta é uma greta para a gente se pôr a ter opiniões sobre o que nunca antes mereceu grande atenção? Aparece uma greta, a gente encosta-se logo, usa a greta como trampolim e ali se põe aos pulos a fazer que chega alto e pensa muito. Uns contra ela, outros a favor dela, e depois uns contra os outros e depois uns a achar que os outros é que não e os outros a achar que eles é que sim. À custa da greta uma pessoa acorda de manhã a sentir-se parte de uma causa sem esforço de maior. A greta é que discursa, vocifera, franze a testa, corre o mundo, faz as contas ao prejuízo e o favor de se preocupar com os nossos filhos. E a gente vai-se dedicando a pensar o próprio conceito de greta - exemplo ou fantoche? coragem ou calculismo? Mais uma ficha, mais uma volta, mais uma discussão. A greta pôs a girar o carrossel nesta grande feira de variedades onde é preciso sempre alguém que dê à manivela. Antes da greta era um tédio, a gente separava o lixo - e muito mal separadinho - a achar que isso já era um ato de grande valor e metia no saco dos fundamentalistas-hippies-malta-verde-do-yoga-e-dos-mantras quem fizesse mais do que imitar o chimpanzé gervásio.

5.12.19

Sono

Sonhei hoje com a tua filha imersa numa paz divina, silenciosa, como se flutuasse no ventre da mãe ou na superfície lunar. Os seus traços eram vagos, o corpo confundia-se com luz e poeira e nele pulsava toda a realidade, sem fronteiras ou identidades. Estava praticamente desmaterializada, porém, muito perto de ser perfeita. Nada, nem sequer a culpa ou o resíduo de uma pena, maculava o seu coração, a bombar às escâncaras no vão das costelas. Aproximei-me para lhe tocar, com muito cuidado para evitar que se desmanchasse – quão frágeis somos todos quando nos olham além dos véus que o tempo engoma sobre nós. Toquei-lhe nas mãos. Mesmo sabendo que era perigoso, não soube resistir. Cada um dos dedos dela tinha a subtileza de uma pétala, textura algodoada, perfume vívido de húmus, finíssimos veios de cor sanguinolenta. Felizmente, antes que a minha curiosidade perturbasse o sono dela, acordei eu. 

4.12.19

Bravos

Também aos bravos a idade faz das suas. Um dia sossegam, encolhem as garras, cobrem-se de juízo e sensatez, vestem camisas limpas todos os dias. Ruminam uma quantidade de coisas pelas quais não vale a pena aborrecerem-se e fazerem inimigos. Em conversa de café e escrita de tempos livres louvam os antigamentes ou, se querem mostrar avanço, assinam por baixo das ousadias dos outros. Murros na mesa, nada. Indignações febris, nenhuma. Paixões incendiárias muito menos. 
Aos filhos não, que o medo de perderem autoridade é grande, mas talvez aos netos um dia contem a verdade: que também foram gente desordeira, riram-se na cara da disciplina, roubaram fruta em propriedade alheia, desprezaram o conhecimento dos avós, agrediram a gramática, desafiaram a hierarquia, atearam fogos, facilitaram o sexo, beberam demais, prometeram que nunca alinhariam com a ordem das coisas. Poderão ainda confessar que aquilo que mais tarde tomaram como sabedoria e serenidade afinal foi só resignação e conforto.

2.12.19

Salutar convívio

No átrio, as minhas vizinhas trocam impressões sobre o quotidiano. À passagem cumprimento, vejo o correio, chamo o elevador, um está preso no quinto, o outro acima e abaixo a satisfazer as necessidades de todos os moradores, porque é hora de ponta, do regresso a casa e da moleza. As minhas vizinhas, porém, ainda espevitadas sobre os saltos altos e com as malas oscilando no antebraço, parecem ter pouco interesse no recato e no aconchego dos lares, prolongando aquela roda viva de falatório em que cada qual expõe a sua forma, a sua vontade, as suas pequenas vitórias e embirrações. Eu sou assim e eu faço assado, ah, mas eu recuso-me a isto, ai eu sou capaz daquilo, pois, porque eu sei bem o que isso é. Podemos salvar esta agitação de egos com um eufemismo básico – salutar convívio – ou até dignificá-lo com um mais contemporâneo – partilha de experiências. Seja o que for, tenho de ouvir, porque o elevador, nicles. 
Mas eis o meu vizinho de cima a entrar no prédio, regressado também da sua jornada. Com ele entra um vento morno e húmido, parece que até as paredes estremecem, não sei que fenómeno, que súbita indolência toma aquele átrio, que preguiça de membros e língua dá nas minhas vizinhas, porque serenam o tom de voz, põem freio ao remoinho de opiniões e contraopiniões e sorriem com uma subtileza de que não as acharia capazes dada a energia com que entre elas debatem. Ignorava que o meu vizinho de cima era capaz de as deixar naquele estado, a lembrar jovens púberes na expectativa de serem escolhidas para uma dança. Coitadas, nem imaginam que ele, embora encantador, cheio de doçuras, maneiras e aromas, é apressado e incompetente nas funções elementares. Mas, enfim, deixemos a fantasia delas viver merecendo o nome que tem. A realidade é um aborrecimento desnecessário, por vezes criminoso.
Chega o elevador, embarco sem esperar pois parece-me que ninguém tem intenção de subir. E assim que a porta começa a fechar, ouço:
 - Por favor, eu aproveito a viagem!
Primo o botão para reabrir a porta, ainda vejo o meu vizinho estender o braço até ao sensor, mas - oh, que maçada! - o mecanismo não obedece.

30.11.19

Que pena

Acredito que te tenhas empenhado, mas nunca aprendeste que a força não se mostra no arremesso da opinião ou do juízo mas na dignidade com que se enfrenta a resposta de volta. Posto isso, acho-me agora plenamente disposta a concordar com tudo o que disseres. Considera isto a minha forma de nos poupar, a maneira mais civilizada e menos trabalhosa que encontrei de ter pena de ti.

28.11.19

Massa

Quem é que hoje em dia não tem umas adidas, cento e vinte canais de têvê, uma inscrição no ginásio, um bicho de superior estimação, um smartphone de centenas, um monte de livros por ler, tempo nenhum para nada, tanto a dizer sobre tudo, mau dormir, dor nas costas, o sonho de uma viagem sem retorno, a suspeita de ser diferente, um jeitinho para poeta, um rol de incompetentes e invejosos ao redor, um ou dois mortos queridos que mereciam mais a vida do que os outros, uma culpa abandonada no altar, nobilíssimas intenções e um baú de rancores lá no fundo, muito fundo, do armário? 
Oh, quem é original, quem é? 

27.11.19

Pai (3)

Não é difícil entender o que mantém a rapariga da papelaria presa a este amor fracassado e talvez nunca digno desse nome. Basta parar um pouco a ver como o pai de Alice, ao vir buscar a menina, a encaixa no seu colo, com um gesto natural, de um instinto só atribuído às mães, e depois a beija, ah, não com esses beijos excessivos, gordos, com que os pais às vezes sobrecarregam os filhos, é antes o beijo do criador sobre a sua criatura, consciente de que embora sendo ela da sua inspiração não é jamais sua pertença, e nela se transcendendo e aproximando um pouco mais da verdade. Como se assistisse a esse beijo em câmara lenta, o coração da rapariga da papelaria cai aos pés daqueles dois com a única certeza que ninguém lhe pode tirar: nada quebrará este triângulo de sangue. 
Sempre houve quem achasse o pai de Alicita um valdevinos. Nem a manicura, cuja lucidez costumava ser um grito de alerta sobre as consciências alheias, o poupou a juízos cruéis. É curioso como mais depressa uma pessoa se redime dos seus erros aos olhos de deus do que dos seus semelhantes. Mas eu vi, sim, a transformação dele, vagarosa, sustentada, honesta. Não como a de um mau num bom, não como a de um fraco num forte, não como a de criminoso num santo, que essas são raras e muitas vezes só de fachada. Vi a aquietação do seu espírito errante e desligado, um pouco mais a cada dia. Vi desprenderem-se dele, como folhas no término de um estio febril e leviano, as vaidades, os egoísmos, a fanfarronice e tudo o mais com que foi urdida a teia onde caiu, em suspiros, a rapariga da papelaria. E agora – só não vê quem não quer –  ele vai ganhando confiança no chão, na vida terrena, madura, amorosa, e nela assenta por fim o corpo inteiro, para abrigar a filha e assim se recompor de ter sido incapaz de amar a mãe.

25.11.19

Literatura ordinária

Após uma rajada de indagações sobre o livro que tenho na mão e sem me dar tempo para olear devidamente a minha tolerância, a mulher do senhor Pereira pergunta, com uma sobranceria maternal, se eu não terei queda para literatura ordinária. Lembra-se de me ter visto com outro livro suspeito, em cuja capa figuravam mulheres com mais curvas do que roupa, e agora muito me engano eu se isso que tem aí não é pedofilia. Adianta-se a justificar que no que respeita ao tema bastou-lhe a Lolita, que leu há muitos anos e achou tão fraco que pouco ou nada recorda, tendo apenas ideia vaga de um porco que casou com uma mulher tencionando, na verdade, possuir a filha dela. O resto, Deus me livre, uma embrulhada sem pés nem cabeça, um carrossel de pensamentos e atos doentios, oh, desgraçado estaria o mundo se páginas como aquelas o ilustrassem. Acidentalmente, pigarreio. Acidentalmente. Certa de que não me apetece mais daquela conversa, engendro motivos para seguir caminho mas ela tira-me o livrinho das mãos – com licença, posso?– e espanta-se com a tenra idade e a candura da menina na capa. Chegam a vias de facto?, pergunta, enojada, recuando para ficar a salvo do choque que o seu pessimismo antevê. Sei a resposta, mas é tão grande o meu prazer em torturar as delicadezas do pudor dela, que prefiro deixá-la na dúvida e acabo a dizer que não faço ideia, ainda tenho umas vinte páginas por ler e, como se sabe, para um crime basta uma única linha, quem sabe a última ou outra para lá dessa, que nem chegue a ser escrita. 
– Resumindo: presta para alguma coisa?
Vou para lhe dizer a verdade, que sim, que é das coisas mais belas que li nos últimos tempos. Mas no limite caio em mim e respondo a banalidade que ela merece.
– Assim que terminar, digo-lhe.

24.11.19

Imaginação

Quando era muito pequenino, o mais novo acordava frequentemente assustado com monstros, desses que a imaginação infantil fabrica no abismo da noite com extraordinário detalhe. Eu acudia a serená-lo, dizendo que ia então expulsá-los, e encenava tudo, primeiro empurrando-os autoritariamente para fora do quarto até ao hall e, por fim, abrindo a porta de casa e ordenando-lhes a saída imediata e sem retorno. Depois, tornava a fechar a casa com todas as voltas à chave, sentava-me na beira da cama e aninhava-o no meu colo até que adormecesse outra vez. Nunca lhe disse que os monstros não existiam. No espírito de uma criança – como no de um apaixonado – com que força ou argumento pode a realidade competir com a imaginação? Mas garanti-lhe que dentro da casa que é nossa, debaixo destas camas ou no fundo destes armários, jamais eles assentariam arraial. Deve ter sido uma das poucas promessas que consegui cumprir.

22.11.19

'Mor

Assim que se levanta o temporal, as mulheres deixam-me a falar sozinha e desatam a telefonar aos maridos, numa aflição, encomendando-lhes cuidados básicos e urgentes. Que fechem as janelas, guardem as cadeiras do terraço, recolham o estendal. Não precisas de dobrar a roupa, 'mor, diz uma, deixa só no cesto que eu depois trato. Nunca compreendi como se enamora uma mulher de um homem que precisa de instruções até para salvar a própria casa.

21.11.19

Pai (2)

A mãe dos filhos com olhos de azeitona preta vai-se gastando na rua a carregá-los sozinha, primeiro pelo colo, depois pela mão, agora pela alma. Ao virarem a esquina adiante da igreja separam-se, o rapaz despede-se dela e da irmãzita e segue para a escola secundária, onde não chega a entrar. Quando era pequeno e ia ouvir-me contar histórias, ele parecia um suricata no meio dos outros, sempre mais arrebitado, mais inquieto, mais curioso. Agora se me vê levanta a mão num aceno envergonhado, na outra esconde o cigarro, dia após dia as sobrancelhas ganham espessura e gravidade, pesam nos olhos, e cresce uma sombra negra que não é do capuz nem do fumo nem do buço. É do berço, da casa, do desgosto, da descrença. De repente, meu Deus!, todo ele se parece com o pai. E que é do pai, que é dele, quem sabe? Está a ressacar ou a matar-se numa viela qualquer, aninhado num abrigo, numa soleira, num covil de semelhantes, tentando escapar ao inferno pela porta que dá para o abismo, ah, que tanto a vida como o vício são dois becos sem saída. Pai, porque os abandonaste?

20.11.19

A verdade

Olha a verdade, de que tantas vezes supõem apropriar-se os desbocados, os eriçados, os arrogantes e os teimosos, essa joia de delicadíssimas curvas e relevos que só raramente e em lampejo se evidencia. Impressiona que tão fina possa ser a sua matéria, tão subtil a sua lógica, tão misterioso o seu enredo e, por isso, facilmente escorrega dos dedos, desliza na sarjeta como uma vulgaridade qualquer e some-se nas ranhuras sem que ninguém tivesse dado por ela. Eu nunca sequer a vi e de todas as vezes em que julguei estar diante dela percebi depois que afinal era só uma sombra, um hálito, um rascunho, ou uma perspetiva tão legítima como a que jurou mover-se o sol à volta da terra. 

18.11.19

Pai

O filho do senhor Pereira conquista autonomia com avanços de passarinho e se nunca teve ânimo para o fazer em causa própria, fá-lo agora por amor a Joaquim. Mulheres como a imperatriz não entregam as crias a pretexto de um mero laço de sangue. Resta-lhe então fazer-se homem e recuperar a confiança que desbaratou ao abandonar a sala de partos, nauseado e com alucinações, deixando-a sozinha com a mãe de todas as dores e a uma tão delicada distância da morte. Agora terá de passar do oito ao oitenta sem ter vivido o meio termo, mas a culpa disso ele não pode atribuir a ninguém, nem mesmo à deficiente educação que lhe foi dada. Se até uma certa idade crescemos o que nos permitem, há uma hora a partir da qual cada um cresce na medida da sua ambição e do seu caráter. 
Eu acredito que a imperatriz possa voltar a enamorar-se dele. Alguma coisa de valor os terá ligado porque ela não é sensível a charme de revista, graça de circunstância ou conversa fácil. Uma mulher verdadeiramente inteligente pode nem sempre exigir muito dos homens com quem se diverte, sacia, aquece os pés ou vê filmes em tardes de chuva, mas para pai dos seus filhos jamais escolhe um incapaz.

Apalpadelas

Avisei a estagiária que as explicações demasiadas criam uma espiral de tédio em que nada sobra para pensar, nenhum trabalho fica reservado ao leitor, não se estende o pano verde para o jogo. É um insulto à inteligência do outro. Pergunta-me ela como saber se está a explicar em demasia, que limite, quantos parágrafos, linhas, carateres. Quantos. Enterneço-me, sorrio e viro-lhe costas. Não é uma atitude bonita, eu sei, mas desrespeito maior por quem nos pede ensinamentos é impingir teorias para o que só às apalpadelas se pode conseguir.

16.11.19

O amor

Enquanto presto a quotidiana adoração às costas do mais velho, massajando-as com a minha receita de laranja e alfazema, pergunto-me, aterrorizada, que pesos recairão sobre elas, a que cargas serão forçadas, que culpas, serviços e vergonhas as dobrarão? Também ele, porque assim deitado não me vê, se inquieta com sinais mínimos. Se me movo, estás confortável? Se fungo, estás doente? Se suspiro, estás preocupada? Se canto, queres que ponha música? É tão inutilmente angustiado, o amor. Mas se não fosse, de onde se tiraria a sua poética grandeza, o seu literário orgulho, a justificação para a dignidade com que recostamos a cabeça mesmo por debaixo da guilhotina?

14.11.19

Rosa

Com o outono já bem acomodado, a fazer cair pesadas cargas de chuva e nostalgia sobre a gente, a viúva cobre-se de peles fofas e caxemiras, protege o cabelo com impermeáveis de padrões felinos e troca os sapatos por botas altas de inspiração ordinária mas de luxuoso acabamento. O diabo, que não se inibe com as mudanças de estação, continua vivo no seu olhar lateral, por vezes revirado, e o batom dá-lhe à boca o aspeto de ter mordido carne viva para se consolar no sangue. 
Ora, é certo e sabido que uma mulher como ela, bem apetrechada de curvas e valores, faz despontar a má língua até naqueles que se gabam de ter um coração puro e bem intencionado. Então se for excêntrica e independente, muitos dirão que está mesmo a pedir que falem. E hoje o perigo espreita-a na dobra da esquina, mesmo à porta da padaria, onde uma fila de gente aguarda a próxima fornada e mais qualquer coisinha que salve o dia da absoluta inutilidade. Mas ela, sabendo já do que gasta a casa, a rua e o mundo em geral, passa aprumada e defensiva como o caule de uma rosa e de raspão dá um boa tarde como se já desse demais. Nada nela fraqueja ou se descose. Para trás fica apenas o que é de sua livre vontade oferecer: as notas mais vibrantes do seu perfume e o magnífico bamboleio das nádegas. Que  imagine o resto quem achar que isto é pouco.

13.11.19

Ler

Ainda vejo tudo. A casa que já não é nossa, a sonolência da tarde, a aura húmida dos dias invernosos balouçando as cortinas. A minha avó a ressonar de cabeça tombada, os meus pais ocupados com a vida, o meu irmão mais velho a lançar-se nela, as minhas três irmãs devotadas aos compêndios da faculdade e do liceu, o meu outro irmão enclausurado no quarto com a puberdade e os Pink Floyd. Demasiado novinha para me atarefar e sem um canto só meu onde pudesse sonhar à porta fechada, eu rebentava de tédio por todas as costuras e agarrava-me às estantes a ler todos os livros que houvesse, sem vigilância ou orientação. 
A minha mãe sabia que a caçula de kilt e travessões dourados, esta que por qualquer pieguice lhe ocupava o colo, a cama e o tempo, nessas horas solitárias se inteirava de crimes perversos, bizarras práticas amorosas, estratégias de corrupção do corpo e do espírito e outros dramas, tragédias e imoralidades que mal podia entender. Mas isso não a preocupava porque também sabia, de experiência, que nenhum perigo pode emergir de uma história contada com dignidade e grandeza. Foi neste ócio, neste abandono em que por vezes caíam os mais novos ou os filhos únicos, sem paliativos ou compensações materiais, que me fui espantando, página a página, com as mil faces da humanidade, a vastidão do mundo, o número infinito de mentiras que se pode enredar para que uma só verdade – sempre a mesma – seja dita.

11.11.19

Gabi

A manicura foi embora, arranjou coisa melhor no centro da cidade, onde pode fazer o mês só com gorjetas e talvez conhecer quem alinhe nas suas extravagâncias de discurso e pensamento. Para substituí-la veio Gabriela, que as senhoras habituadas a estar ali como em casa já tratam por Gabi. É um grande transtorno para mim. A manicura vai fazer-me muita falta. Era a única pessoa esperta e sensata deste blog. Mas agora que a semana recomeçou e o meu sentido prático está em ordem, percebo que talvez por isso mesmo ela foi embora. 

8.11.19

Nunca mais

Aconteceu mesmo. Uma semana depois do aniversário de Alice, num destes sábados de temporal com nome de gente, o pai casou. A menina estava uma princesinha, garante a avó. E enquanto procura no telemóvel as imagens, lambendo o dedo como se folheasse um jornal, desabafa a tragédia que foi lá em casa. Assim que entregou a menina para a cerimónia, a rapariga da papelaria fechou-se no quarto, caiu na cama e chorou até ser noite. Depois, como se ameaçasse outra que não ela mesma, disse: se não casei com ele, também não quero saber de mais nenhum. Veja se tem algum jeito o disparate, sussurra-me, medrosa de ver a filha gastar a juventude naquele romantismo bolorento e desusado.
Tudo isto lembra-me a minha avó materna, que aos dezanove anos se fez mãe solteira na cama de um minhoto eloquente e endinheirado, de olhar vertiginosamente azul, amante de literatura, cavalos, casinos e rabos de saia. Um dia, já velha, quando por nostalgia acarinhava o conteúdo do seu guarda-joias, disse-me: não casei com ele mas foi o único homem que amei. Falou de punho levantado, sempre pronta que estava a sovar fantasmas, ladrões e comunistas, e os olhos dela, embora já pequeninos, descaídos, de rebordos plissados, exprimiam fúrias de adolescente. Para meu assombro, ainda acrescentou com aquele seu orgulho teso, cheio de buracos mal cerzidos: nunca mais quis outro! 

7.11.19

Bicho verde

Numa brochura sobre vinhos, encontrei uma frase que me acordou o bicho verde da inveja. Fiquei a chafurdar no desejo de a ter escrito, imaginando os usos que lhe daria, as histórias em que me serviria de mote e de moral. Vi-me a dizê-la como conselho ou sentença, chave de ouro que rematasse diálogos mais ou menos acesos. Questionei-me sobre a sua autoria, fantasiei pessoas, tracei perfis, subentendi, deduzi, julguei. Há quem acredite em dois tipos de inveja: a má e a boa. Mas a inveja, tão primitiva e visceral, não tem nível nem categoria para apuramentos de ordem ética. Quando a sinto – se a sinto – é o que é. Ponha-me Deus aos ombros o fardo de mil orações pelo resto dos meus dias, se achar por bem, mas eu não perderei tempo a costurar remendos de benevolência sobre nenhum dos meus pecados. 
Depois, alguém que me ouviu gabar a frase garantiu que era minha, escrevi-a eu vai para uns dez anos, com testemunhas presentes e de boa memória, e tem sobrevivido às várias reedições e adaptações da brochura. Ao invés de orgulho, tive medo. Como poderei envelhecer em paz se continuar a invejar a toda a hora o meu próprio passado? 

6.11.19

A voz da Alexa está mais suave*

Parece-me quase insólito o deslumbramento de tanta gente perante a possibilidade de assistentes digitais e tecnologia similar se ocuparem dos enguiços do quotidiano e de procedimentos vários para que as nossas mentes superiores possam dedicar-se com afinco aos seus dramas e apetites individuais. Deliram com a ideia de democratização da IA, como se não houvesse ainda meio mundo sem vacinas, água potável, trabalho livre e dignidade.
Insólita é também a vasta e intelectualizada dissertação que tem havido à volta do Joker, dando-lhe o peso, o crédito e o alcance de um tratado sociológico inovador. Constou-me que, pela primeira vez nas suas vidas ocupadas, algumas pessoas se puseram a pensar nos males que o mundo faz à gente e que a gente faz ao mundo e na sociedade de consumo e no mediatismo e no abandono e tudo o mais dos dias que correm
É elevada a probabilidade de os que neste segundo parágrafo refiro serem os mesmos a que me refiro no parágrafo primeiro.

* uma entre as muitas assombrosas novidades anunciadas no web summit e mencionadas na imprensa

5.11.19

Dor

Simpatizo com a tua dor, gosto do travo azedo que te dá e da delicadeza com que a tua garra sobressai quando há cheiro de ameaça. Por mais antiga, absurda ou injustificada, uma dor – que desse nome seja digna – é a maior de todas as provas de vida. 

4.11.19

Intimidade

O homem bem falante e vertical investe o seu sofisticado repertório de argumentos para apaziguar o estado de nervos da cabeleireira e desfazer o mal entendido que entre ambos eclodiu em local público. Esforço vão. A cabeleireira é que sabe, estava lá, disseram-lhe, conhece, viu, fez e aconteceu. É por demais cansativa no desfiar das suas razões e só a espaços o homem consegue talvez não seja exatamente assim, minha senhora... Mas o que lentamente ameaça levá-lo aos limites da paciência é o modo como ela insinua que ele tenta comê-la por lorpa só por ser mulher. Coitada da cabeleireira. Vê mal ao perto, é uma dessas que encontra o oportunista, o abusador e o leviano em todos os homens menos no que tem em casa. Mas este com quem agora se trava de razões não me parece disposto a investir energia contra tão baixo e perturbado raciocínio. Comê-la por lorpa só por ela ser mulher? Caramba! Sentindo-se injustamente encurralado e perigosamente indignado, decide rever a estratégia.
– Note, minha senhora: nós não somos propriamente estranhos para estarmos a discutir por tão insignificantes pretextos...
A cabeleireira toma fôlego para a resposta, abanando já a cabeça a discordar, mas ele cala-a pousando a mão sólida, masculina, na dela, toda febril e irrequieta.
– Ouça: eu vejo-a todos os dias, já tinha – por assim dizer –  reparado em si, no sentido respeitador do termo, como deve calcular... somos adultos, podemos dar-nos ao luxo de sermos frontais, usando da maior educação, naturalmente...
Acalma-se a respiração da cabeleireira. A mão dele segura ainda a dela, contendo a energia inesgotável daquele dedo acusador.
– Sim, eu também já tinha reparado no senhor, costuma passar aqui na rua por volta das dez...
– Ora aí está. Portanto, de tanto nos vermos podemos dizer que há entre nós uma...
Ambos suspensos e suspensa também a audiência, da qual eu faço parte de uma maneira disfarçada e a uma distância segura. Mas o homem, tão grave e bem falante, com invejável moderação e domínio da paciência, é incapaz de melhor do que isto:
 – ... uma grande intimidade visual...
A cabeleireira – que lorpa – fica extática. Eu afasto-me, desiludida, e fico sem saber a que outras intimidades terão chegado após aquele súbito e caloroso entendimento.

2.11.19

É a vida

No preciso instante em que o meu vizinho ganha embalo e, acelerando o ranger da cama, começa a trepar até ao apoteótico alívio da sua virilidade, o bebé - suponho que no quarto ao lado - desata num pranto.

30.10.19

Ah, saudade

Há na saudade todo um trabalho de imposição de poder, que submete até os corações já muito experimentados em ausências. Os danos que causa não devem ser confundidos com os de um corriqueiro sentimento de falta. A falta é flexível, ajusta-se aos tempos livres, às horas disponíveis para ruminar lembranças, e, ainda que comprometa certos hábitos ou detalhes do quotidiano, não tem peso nem ocupa espaço. Já a saudade, funciona como um balão, à medida que enche apropria-se de todo o ar respirável e de todos os espaços de sossego e de repente é uma entidade corpórea, respeitável, de estrutura musculada, que faz vincos no lençol e sombras no escuro, uma ditadura que ordena o modo de investirmos os dias e de pensarmos as coisas e de sonharmos à noite, até ao ponto de não haver uma molécula de realidade onde não ressoe o nome de quem está ausente. 

29.10.19

Uma grande história

Quando a rapariga da papelaria tinha um piercing na aba do nariz e sonhava em todos os tons de rosa, os dias rolavam sobre vagas possibilidades e acalentados por hábitos de romantismo que ainda lhe sobravam da adolescência. A tonta sofria com gosto pela ideia de um grande amor, sem calcular que, chegando ele, com verdadeiro desespero ainda havia de sofrer. Nesse tempo, a que todos temos direito e que cada um vive a seu modo e mais cedo ou mais tarde, quase tudo se organiza em função de futuros imaginados. E quanto mais benévola e generosa a imaginação, mais dura é a estocada do real sobre a cabeça. Hoje, porém, tenho para mim que, apesar de tudo, a rapariga da papelaria já não ama o pai de Alice – e isto supondo que alguma vez o tenha amado, mais do que amou o próprio sonho. Mas tal como os que vivem em prolongado cárcere não conseguem fazer bom uso da liberdade concedida ou como os que recebem dos céus uma fortuna num instante a desbaratam e retornam à miséria, também a rapariga da papelaria desaprendeu de viver de outra forma que não seja em lamento e piedade e sempre se arranjará uma grande história que os justifique. De certa forma, é legítimo. Que há de fazer ela ao que tão intensamente sente, se não houver coisa alguma por que sinta? 

28.10.19

Só palavras

A estagiária – a melhor entre todos os que já tive ao meu cuidado – disse-me que desde que aqui está não vê as palavras da mesma maneira. Envergonha-se de as ter usado antes de forma tão leviana. Agora é com espanto que nota diferenças miúdas, o efeito mágico de certas conjugações, a dúvida subtil – porém fatal – que algumas levantam e sobretudo as zonas lodacentas e armadilhadas onde nos podem levar. A vida complicou-se. Entrou aqui de mãos a abanar e sairá com elas pesadas. Ainda na semana anterior, o namorado, no cúmulo de um arrufo, dissera-lhe podes falar, falar, mas são só palavras, não valem nada e leva-as o vento. E ela – confessou-me – eriçou-se toda como a fêmea a quem perturbam as crias e respondeu-lhe com amargura e indignação, acusando-o da pior de todas as negligências. Por mim, dar-se-ia o estágio por concluído com sucesso.

25.10.19

Asas

Ao cabo de uma vintena de perguntas acerca dos meus gostos, vontades e hábitos, o mais novo faz contas e revela-me que a minha alma é comandada por Pégaso. A descrição do perfil, que ele lê em voz alta, atribui-me as virtudes da lealdade e da força interior. Se as tenho, digo-lhe, foi de ti que as herdei. E ele, orgulhoso da inversão, ri de um desses risos francos, sadios, que libertam toda a graça que há no mundo e mais a que por generosidade se imagina e ainda aquela em que por inocência se acredita. Extasiada, sento-o no meu colo, aperto-o, cheiro-o, desnorteio-me, ah, a sensualidade é a fonte da perdição em todas as formas do amor, quão profundos e reais são na pele os sentimentos! Não vás já, infância, peço-te, não abandones este corpo com cheiro de leite, terra e rebuçado, não desampares esta vida deixando-a entregue às mesmas inquietações de que eu sofro, não lhe ponhas monstros vivos no lugar dos de pelúcia, desenrasca-te, desdobra-te, multiplica-te, negoceia com deus, acerta-te com a natureza, mas não obrigues o meu doce e justo querubim a recolher tão cedo as suas asas!

24.10.19

Convocatória

Quero encontrar-me contigo num lugar de dúvida e risco, na escorregadia lisura de um penedo, na dobra de um precipício, num pântano, no ninho de uma fera acossada. Preciso de saber o que vales no limite, se as mesmas palavras te servem, que bandeiras tens pulso para erguer quando o vento soprar ameaças de morte, por quanto te vendes às bruxas assim que o dragão desatar a cuspir fogo, quão rápido serás a fugir quando a terra começar a tremer debaixo dos meus pés. 

23.10.19

Esbanjadora

No pão quente, a filha mais velha dos Pereira desfaz-se em lamúrias por ter vertido café no casaquinho. O transtorno, por demais sentido e ruidoso, desperta a solidariedade alheia e cada um avança com uma receita original para eliminar a nódoa a tempo de ela se apresentar digna na reunião das nove. Só a mim, só a mim!, que mal fiz eu para merecer isto? Exaspera, de olhos já a transbordar e uma compressão de raiva mal disfarçada no lábio superior. É um luxo insustentável o sofrimento desta rapariga. Gasta muito mais em lágrimas do que aquilo que efetivamente tem em dor.

22.10.19

Exclusão de partes

Pobre do meu vizinho, tão maçado da vida que leva. Quantos anos conta? Quarenta, quarenta e dois? Os suficientes para ter aprendido a metamorfosear-se com cautela e conforme as conveniências – se vem com a mulher, tem um cumprimento breve e seco, mal levanta os olhos, mas se entra no elevador sozinho, embala-me na conversa com uma surpreendente agilidade e a pretexto de qualquer ninharia. Não me interessa muito o que ele diz. Apesar de ter um belíssimo sorriso, é um homem inseguro, uma água parada. Está submetido às obrigações conjugais, às rotinas domésticas e provavelmente aos créditos bancários e talvez considere que daí vem todo o seu mérito e responsabilidade. Parece ter um escrupuloso sentido do dever, que é a mais admirável virtude dos cobardes, geralmente também a única. Porém, não devemos iludir-nos supondo que, num cobarde, o cumprimento do dever decorre da sua ética. Não, o cobarde só cumpre por exclusão de partes: exclui a liberdade, exclui a solidão, exclui o risco, exclui a mudança, exclui a verdade, exclui a procura, exclui a surpresa, e a única forma de estar a salvo de tudo isto é obedecendo, não necessariamente a alguém, mas a algo em cuja solidez e permanência crê. Coitado. Mesmo quando levanta a voz à mulher – mas nada do que eu faço está bem para ti? – é como se espetasse uma bandeira em areia movediça. Nem a ouço responder, deve ser branda e indiferente, talvez farta dele como uma mãe se farta às vezes dos filhos mas condescende e aguenta porque, afinal, foram escolha sua. Não faltará muito para ele ter uma amante guardada nas horas mais obscuras do dia, habituando-se a excitá-la com o cuidado de a amordaçar para que ela não desorganize o tédio betonado dos seus dias. E talvez por muitos e longos anos se consiga manter limpinha e florida a fachada desta casa, enquanto cresce o mofo nas pregas dos lençóis.

20.10.19

Insónia

A angústia saiu da toca, deu azo aos seus delírios de besta noctívaga, gorda e primitiva, comeu no lodo obscuro da minha imaginação, arrastou-me pelos pés até junto do precipício e obrigou-me a debruçar os olhos sobre o vazio. Em duas horas terríveis vingou-se do desdém e da superioridade com que a tenho visto, de longe, chupar a seiva de outras almas. 

18.10.19

Abuso

De bom grado pousaria a mão sobre a tua carne viva e com a língua te estancaria o sangue se não fosse esta suspeita que tenho, tão clara, de que se um dia essas feridas tuas voltassem a abrir, na minha pele acabariam por doer.  

17.10.19

A boa maledicência

Por mais que embelezem, são cansativos aqueles que escrevem cheios de peninha e ternura por tudo, com abnegadas atenções sobre fracos e coitados, impingindo em entrelinhas a própria superioridade moral e dando ao mundo esmolas em parágrafos sentidos. Entre essa e outras formas de ser arrogante, prefiro outras, nomeadamente a maledicência. Ah, mas não a de vão de escada! Não a de escarro cuspido na soleira alheia, não a de sussurro ou a que, por preguiça, segue o atalho da vaga insinuação e da intriga. E muito menos a que, não tendo arte para ver mais fundo, se atiça só porque discorda e cai na armadilha das próprias emoções. Não. Eu gosto de ler maledicência de fôlego, bem nutrida, musculada, a que com dois golpes de sabre deixa o alvo nu e obrigado a contorcer-se para pagar com dignidade. Essa maledicência, que é da boa, que tem tempero, espessura e consequência – tanta falta faz para a reorganização do mundo! 

15.10.19

Luto

Contagem decrescente para o casamento do pai de Alicita. A rapariga da papelaria cumpre o seu quotidiano como se flutuasse, não sei se por efeito de tranquilizantes ou por ter descido àquela zona da dor onde os sentidos cedem à exaustão e a realidade se desmaterializa. Na papelaria, o ambiente é próximo do de um luto, fala-se com mil cuidados, paninhos quentes e deferências, não vá o coração da rapariga estalar e abrir-se todo numa enxurrada que ninguém consiga deter. Se não tens troco deixa estar, filha, passo cá depois. Até Marco, o instrutor do ginásio, entra com pezinhos de lã, mal levanta a cabeça para falar com ela, paga o jornal e retira-se num instante. Seria uma imperdoável vulgaridade da minha parte fazer uso deste pormenor para lembrar que a maioria dos homens tolera mal o sofrimento, não tem pulso para o olhar de frente e falta-lhe jeito para lamber feridas. Mas como hei de evitar um juízo que é verdadeiro? Talvez Marco tivesse interesse na rapariga da papelaria, sim, se cuidar das sensibilidades dela não fosse tarefa mais elaborada do que o levantamento de pesos ou a interpretação do Jornal de Notícias. Há mulheres que só atraem idiotas. De qualquer modo, também não sei o que se pode dizer que sirva de consolo à rapariga da papelaria. A primeira vez que perdi um amor para outra tinha quinze anos e fiquei numa tal desarrumação de corpo e espírito que julguei estar a bater às portas do inferno. A pouca idade justificou o equívoco. Quando voltaram a roubar-me um grande amor, a outra foi a morte, mas isso, confesso, tem outra dignidade. Amores interrompidos pela morte, ninguém pode nada contra eles. Ganham o mais cobiçado de todos os selos, aquele pelo qual os tontos se dispõem a fazer juras e a hipotecar casas e a varrer as traições para debaixo do tapete: o da eternidade.

12.10.19

*

O louco, o ingénuo e o humilde não têm possibilidade de se reconhecer como tal. Reconhecendo, deixariam de o ser. Portanto, alguém que se apresente ou classifique de uma destas formas, na maioria dos casos apenas pretende dignificar a sua voluntária, e certamente muito querida, condição de vítima.

11.10.19

A beleza

Anteontem, a rapariga da papelaria cobiçou sem pudor a beleza do mais velho e isso deu-me uma grande felicidade. Desprezo os pensamentos piegas sobre a importância superior do que não se vê com os olhos. E parecem-me falsas ou adolescentes as pessoas que os professam. Tudo o que importa, alegra, fere, mata ou concebe tem traços sólidos, visíveis, exalta-se e vibra sob a luz diurna, que é a que não vela nem distorce. Em tempos tive uma amiga muito convencida, quando o dia lhe corria mal ia para a frente do espelho, fazia meia dúzia de poses sensuais e, com manifesto desdém por todas as causas do seu sofrimento, proclamava: o que me vale é que eu sou gira. Na altura, isto soava-me estúpido, porque eu tinha outra idade, era sentimental e gostava de pensar que o mundo tinha importâncias superiores às que se veem e que só eu as alcançava. Hoje penso oposto. Quando tudo o que não está à vista é incerto, vago e movediço, quando as horas são sombrias, quando o pavor de existir imagina abismos e tolhe os passos, a beleza está e é, com a sua objetividade, sem dúvida, generosa, democrática, pedindo nenhum sacrifício, não mais do que uma atenção dos olhos, uma nesga de espírito sensível. Sobrevive sempre à desolação do mundo e quantas vezes daí emerge. Quando reparo nela, rebrilhando discreta entre o caos e as ruínas, creio absolutamente em deus.

9.10.19

Parabéns

Os dez segundos de felicidade que, mais ou menos de dois em dois meses, o meu vizinho consegue proporcionar à mulher, na verdade são uma vitória maior para ele do que para ela.

8.10.19

A outra face

Creio que há ocasiões na vida de todas as pessoas em que os alicerces que sustêm os seus atos e inspiram os seus discursos sofrem abalo e, se não ruírem de todo, pelo menos levam desbaste. É fácil ter convicções quando há firmeza e linearidade no terreno ou quando se dá o acaso de os resultados corroborarem a filosofia apregoada. Porém, é sabido que na hora em que o pé falha ou a luz encandeia de repente ou a estrada desvia para vala ou precipício, poucas dessas convicções revelam proveito e outras novas aparecem. Não se trata de instabilidade, incoerência ou falta de caráter. É que a verdade é reversível como um casaco de duas faces e felizes aqueles que reconhecem quando está na hora de o virar.
Em tudo isto pensei depois de encontrar o senhor Pereira na rua, domingo de manhã, a passear Joaquim no carrinho. De cabeça levantada como um rei que se apossa de novos territórios e lançando a mão sem jeito nem delicadeza para a manta que o neto empurrava com alegre movimento dos pezinhos, apresentou-se festivo como na generalidade dos dias. Ao cumprimentar-me desfez-se em palavras de adoração pelo pequeno príncipe, enquanto o queixo me caía de o ver naquele papel de cuidador, trapalhão mas disposto ao êxito. Presumi que por perto estivesse a mulher ou a imperatriz e ele apenas fosse uns metros adiante. Mas nada. Joaquim seguia na total e exclusiva dependência dos cuidados do avô e qualquer um preocupado com o bem-estar dos inocentes se inquietaria como eu. 
– Está sozinho com o bebé?
Mais por entusiasmo do que para esclarecer as minhas dúvidas, contou-me que, pela primeira vez, a imperatriz entregara Joaquim à responsabilidade do pai por um fim de semana inteiro. Se primeiro o pai rejubilou, logo foi tomado pelo pânico de não ser capaz de tratar da cria com o mesmo brio que usou na sua conceção. Ora a imperatriz, que não é conhecida por voltar atrás nas decisões anunciadas, encostou-o à parede: era ou não era o pai? É que, caso decidisse poupar-se às dificuldades, era escusado aparecer mais tarde para colher louros, jogar à bola ou oferecer lambarices. Está bem, está bem, terá dito o palerma. De quem chega aos trinta e alguns anos incapaz de fazer o que come e de lavar o que suja não se pode esperar muito, mas a imperatriz confiou. No entanto, por via das dúvidas e imposição do senhor Pereira, Joaquim e o seu pai frouxo rumaram ao mais seguro dos abrigos. 
– Vieram ontem de manhã os dois cá para casa e vão embora logo depois do jantar. De maneiras que o meu filho está a dormir, coitado, não pregou olho a noite toda com a choradeira, que o raça do catraio tem a personalidade dos Pereiras. A minha mulher já está a preparar uma sopinha de legumes sem sal para o almoço e eu vim passeá-lo que o tempo está bom para isso. 
Sabe qualquer um – e quem não sabe imagina sem esforço – que o senhor Pereira nunca passeou sozinho os filhos bebés e mesmo com as netas não assumiu responsabilidade maior do que a de lhes segurar a mãozita para atravessar ruas. Um homem é desajeitado para certas formas de cuidar, terá ele dito com o aplauso da mulher. Mas ei-lo agora, entusiasmado como uma criancinha, acabado de vir ao mundo, limpo do pó, das mesuras, dos tiques e encenações, enfim, estreando a outra face do casaco.

7.10.19

Eka pada rajakapotasana

Levanto o tronco do chão, dobro a perna de trás e, ao agarrar o pé, um fio de dor aguda aperta-me todas as curvas e cavas do corpo. Absolutamente firme, heroica, procurando respirar conforme os ensinamentos, abro os olhos para espreitar a rapariga acidentada que não pode mover-se sem ajuda. Sentada no zafu, exercita-se com a mais generosa e exigente de todas as práticas, a única que lhe é possível: a contemplação. Como as crianças que acreditam que não são vistas só porque não estão a ver, fecho novamente os olhos e desejo que sob a atenção dela, à luz do seu senso da desgraça, ao lado daquele corpo em grave incumprimento, não pareça indigna e menor a minha dor.

3.10.19

Cola e cuspo

Não imaginas o custo de cada linha que fecho, boa ou má. Não se trata de agonia existencial ou criativa, manias dessas não tenho. E a angústia da página em branco, oh!, é coisa de preguiçosos, que esperam do céu a voz dos deuses com a frase já composta e definida. Eu escrevo para comer e no sustento investe-se o corpo e o cérebro sem pieguice. Por isso o que sinto às vezes é o desespero da função que não se cumpre, é o nervo já dorido do esforço, a tensão do arco de onde as palavras caem moles, insuficientes, por dias e dias a fio. Indisposta, dou comigo a vasculhar os destroços, a ver o que posso salvar e se, com cola ou cuspo, forjo alguma coisa capaz de acertar no alvo.

2.10.19

Os monstros

Não acordes os monstros de repente. Nunca sabemos com que feição se erguem, que estragos estão dispostos a causar, com que gesto varrerão a tranquilidade dos dias. Há quem tenha feito correr sangue por acordá-los em sobressalto, no olho de uma tempestade ou no cúmulo de uma discórdia. Os monstros acordam-se com pinças, apenas por alguns minutos e em dias de sol para que possam estirar-se e arejar. Engana-lhes a fome com papas, facilidades, dá-lhes as sobras inofensivas do dia. Não os atices com dúvidas nem os engordes com pensamentos complexos ou obscuros, tampouco os enerves forçando-os a mastigar. Mantém-nos esquecidos do peso mortal da sua mandíbula. Em horas livres leva-os à rua, cobre-os de texturas macias, tons quentes de outono, brilhos e outras coisas em uso que possas trocar se te cansares. Evita o silêncio, pois eles são como certos bebés caprichosos que desatinam com a falta de cadências, barulhos e rotinas. Diante dos seus olhos mortiços, falsamente desocupados da vida, impõe-lhes a realidade com geometria rigorosa e cores sólidas, sem espaços dúbios. Finalmente, deixa-os em repouso, marinando ao jantar em vinho tinto. E se te perguntarem sobre eles, levanta o copo, brinda às magnificências da vida, diz dessas coisas pré-fabricadas, cheias de sentimentos vulgares tomados de empréstimo às letras das canções – e engole-os. 

26.9.19

Direção poente–nascente

A estudante trajada e o homem que podia ser pai dela estão sozinhos na paragem de autocarro em frente à igreja, direção poente–nascente. Ele pergunta-lhe qualquer coisa, ela inclina-se, parece não ter percebido à primeira, o homem provavelmente repete, sorri, ela recua e olha para o lado oposto. Estou parada um pouco antes do cruzamento onde todos os dias, à mesma hora, o trânsito empasta como sangue doente. Pela janela do carro assisto à cena. O homem volta a mexer os lábios e sorri do mesmo modo, esse modo bichoso, alarve, cujo diagnóstico qualquer mulher faz num relance. 

(Talvez este homem também diga aos seus filhos, se os tiver, a vida é injusta, iniciando-os na arte da desculpabilização. E faz como vires fazer, lição número dois, práticas de manutenção da órbita do mundo. E obedece a quem manda, introdução à cobardia e ao consentimento. Assim foi ensinado, assim ensina. E depois, intimamente desacertado, falido, com medo, vaza à sombra, nas paragens de autocarro ou nas horas obscuras, de modo clandestino, as ganas que não lhe foram consentidas.)

Continua a murmurar coisas e a rir de lado enquanto mede o corpo dela sem disfarçar, especialmente os tornozelos. A estudante descruza a perna, levanta-se, puxa a saia para baixo, faz de conta que espreita a ver se o autocarro está perto. Nem sinal. É morena, tem uma estrutura firme, de mulher completa, ondas largas de cabelo pelos ombros, costas e peito. O homem levanta-se também, cobiça-lhe com avidez animal as pernas, o queixo descai-lhe, revela a ponta da língua morta e descorada. Quando o autocarro chegar, terão de embarcar juntos na direção poente–nascente, felizmente oposta àquela em que sigo, aliviada, assim que o trânsito começa a escoar.

25.9.19

Adaptação

Esses que apresentam aos filhos e netos, como pronta e inevitável, a ideia de que a vida é injusta – chavão recorrente para desculpar a própria inércia –, com que legitimidade os poderão censurar pelas injustiças que eles acabarão por cometer?

23.9.19

*

Envergonho-me de todas as vezes em que levantei a voz sem ter razão, mas talvez me envergonhe ainda mais daquelas em que, por ter razão, escusava de a levantar. Fazendo as contas, do que em absoluto devo envergonhar-me é de, pelo visto, ter mais voz do que razão.

20.9.19

Ameaça

Quando eu morrer, também hás de esquecer as minhas imperfeições. Ou dizer delas, finalmente!, que eram marcas legítimas e inofensivas de humanidade. Apagarás do mapa que tenho na palma da mão as trajetórias do fracasso e os becos sem saída. Desculparás a banalidade que sou com magníficos eufemismos e, no íntimo, é a redenção das tuas próprias faltas que buscarás no que disseres. Quando choramos um morto, é sempre por nós mesmos que choramos. Dirás orgulhosamente essas coisas saudosas, narcisistas e ridículas que se diz, levantando o cadáver como um troféu, éramos muito amigos, pensávamos da mesma maneira, uma ocasião jantámos na mesma mesa, tive a sorte de me cruzar com ela, fomos vizinhos, era uma amante extraordinária, aquele parágrafo era sobre mim, cedi-lhe uma cabeça de alho, sugeri-lhe um livro, chegámos a fazer férias na mesma praia. E depois eu ficarei bem onde me deixares, primeiro à porta da tua morada, bem à vista, e com o tempo na zona mais sombria e esquecida.
As coisas são mesmo assim e quem morre deve estar preparado para o clímax da sua grandeza, talvez por isso tanta pompa nas cerimónias, tanta nobreza nos caixões, tanto brio na vestimenta, tanto cuidado na pose do cadáver. É bom que saibas, porém, que não tenciono disponibilizar o corpo para culto e adoração, nem por um dia. Não te será dada oportunidade de elaborar maravilhas a meu respeito com o estranho que se sentar ao teu lado na capela ou com as velhas abnegadas que varrem folhas secas nos cemitérios. Estarei longe, tão longe quanto puder, tão longe quanto deus, a biologia ou a química me permitirem, por isso é melhor dizeres agora qualquer coisa que sossegue a minha alma e me faça feliz, que me sacuda culpas e penas dos ombros. Se alguma coisa de bom te ocorrer apenas depois da minha morte voltarei todas as noites, à hora do diabo, para te atormentar.

18.9.19

Uma velha muito velha

A mãe do senhor Pereira, uma velha muito velha, com uns olhos cinzentos miudinhos de rebordos sempre líquidos e sanguinolentos, sai do carro entregue às mãos do filho, muda e já sem poder confiar na estabilidade do próprio corpo. Sobre a sua resistência ao tempo, aos desgostos e às crises, há muitos palpites, mas a generalidade gravita em torno de duas teorias: boa genética e mau feitio. Deixemos de lado os que alegam a boa genética. Entre os que a acusam de um mau feitio capaz de espantar vírus, infeções e malignidades, está, naturalmente, a nora, que não reconhecemos em tal papel pois aqui só tem aparecido como mulher do senhor Pereira. É, porém, inerente à vida e a todas as suas lógicas o facto de não sermos uma coisa em absoluto mas antes várias e sempre por relação. No caso dela, isto que podia ser só filosofia é sobretudo evidência e talvez por isso eu nem me preocupe em nomeá-la. Mas se ser a mulher do senhor Pereira tem sido uma coisa levada com relativa facilidade, desde que não descure o jeito na cozinha, o básico na cama e certas maneiras na rua, ser a nora da mãe do senhor Pereira é, certamente, outra história. Episódios em concreto, desconheço e ela não os conta. Mas sei que a velha muito velha não foi sempre muda e dependente. Tempos houve em que aplicava a mesma autoridade grosseira e azeda nas nádegas do filho único, no pescoço das galinhas ou na face de qualquer insolente. E os olhinhos mansos, que agora parecem sempre prontos a chorar, eram faíscas de soberba. Há suspeitas de que tenha até sovado o marido. A própria velha, antes de chegar a muito velha, a isso se referiu uma ou duas vezes como coisa que tivesse feito a despachar, para a resolução de um enguiço quotidiano ou pela necessidade de tirar um obstáculo do caminho. 
Agora submissa e vergada como qualquer mortal, a velha muito velha olha para o senhor Pereira com a aflição de uma criança caída no fundo de um poço e o filho ampara-lhe os passos, com mil cuidados e mágoa nenhuma. Não há volta a dar. Por mais macio que aparente ser o fio, por mais lasso que seja o ponto, por mais vulgar que pareça o padrão, é sempre tensa e dura a trama onde a vida acontece.

15.9.19

Ambição desmedida

O amor, sempre a tentar imitar aos deuses a eternidade e às crianças a inocência, nem uma coisa nem outra faz em condições. Mais valia contentar-se naquilo em que realmente é exemplar: a desarrumar camas e a enriquecer espíritos. O resto é ambição que alcança de forma preguiçosa e muitas vezes falseada.

13.9.19

Ninhos

Sonho, às vezes, que há ninhos de ratos a corroer a estrutura da minha casa. Agem como térmitas, destruindo secretamente, cavando túneis e reproduzindo-se no interior das paredes. Só quando começam a aparecer manchas na pintura, danos nos cantos e o estuque a esboroar-se, é que mando chamar os entendidos. Dão meia dúzia de marteladas e a desgraça fica à vista. Os ratos, dezenas, centenas, abandonam o esconderijo entre os tijolos, os ferros e as tubagens, e espalham-se pela casa, correndo velozes e assustados para debaixo dos móveis, enfiando-se entre as almofadas dos sofás, trepando para cima das camas, sujos e com a feição diabólica das pragas. Uma cena medonha, que me faz despertar em sobressalto. Acendo a luz e não tem par o alívio que sinto ao ver a lisura assética das minhas paredes, a harmonia, a limpeza, o conforto, a segurança. É um privilégio quando a versão mais feliz é a realidade que temos. Triste, isso sim, é quando sonho com o retorno ao colo da minha mãe e ao acordar não há vestígio nem de um cheiro.

11.9.19

Figurino

A rapariga da papelaria vem com Alice da prova do vestidinho que ela usará para levar as alianças ao pai. A noiva, dizem, é caprichosa nos arranjos da cerimónia e quer a menina vestida de feição, submetida a um rigor estético cujos efeitos as fotografias e o vídeo poderão mais tarde atestar. Do alinhavo ao acabamento e incluindo os acessórios, Alice terá de obedecer a um conceito de inspiração outonal e à respetiva paleta de cores, não vá dar-se o caso de as luas e os deuses se aborrecerem com a desarmonia e lançarem tristezas infinitas sobre o casal.
Para Alice, tanto faz. Tem vindo a tornar-se uma menina encantadora, cheia de graça, e com a vantagem de ainda lhe faltar noção do que está a acontecer e de como a felicidade de uns pode causar tanto sofrimento a outros. A rapariga da papelaria faz o que só a generosidade materna pode: abstém-se de exprimir a sua dor para que a menina vá, feliz e de sorriso largo, cumprir o papel para o qual foi recrutada. Para entreter, conto-lhe do meu filho mais velho que aos quatro anos se sentou à porta da igreja, sóbrio e resistente como um penedo, recusando-se a levar as alianças aos padrinhos. Não foi uma birra gratuita, a bem dizer nem era propriamente uma birra no sentido ruidoso e exasperante do termo. Era uma manifestação silenciosa contra os sapatinhos de vela, a fazenda de padrão em espiga dos calções, o colarinho amaricado da camisa e toda uma série de costuras, asperezas e espartilhos. Ou entrava nu e descalço ou não entrava de todo. A coisa resolveu-se a bem, mas custou à noiva uma descarga de adrenalina de consequências que volta e meia ainda trazemos à conversa. A rapariga da papelaria, divertida com o meu relato, acredita que tal não acontecerá com Alice, já que a boda será ensaiada de modo a esclarecer dúvidas e prevenir enganos. Todos saberão ao que vão e como proceder. Esperemos que sim, penso.
Adiante. Alice dará então ao pai esta alegria e ajudará a futura madrasta a compor o figurino que, certamente, tem sido pensado ao detalhe ao longo de meses, juntamente com os menus, os arranjos florais e o design do bolo. Ora, faz ela muito bem em ocupar-se assim. Não dizem os entendidos que o casamento só funciona com muito trabalho e dedicação?

9.9.19

A questão das palhinhas

Anda muita gente agora empenhada em trocar as palhinhas de plástico pelas de bambu, vidro ou inox. Julgam mudar o mundo quando apenas mudam de fornecedor. Está muito bem, a economia não pode parar, os ecodesigners vão despontar como cogumelos, teremos novos ingredientes para o caldeirão do lifestyle, nas redes da vida cada um há de publicar a sua selfie com a palhinha de salvar o planeta e os amigos hão de comentar: és linda! pessoas como tu fazem a diferença! és uma inspiração para mim! E assim a Terra continuará a girar como sempre, na ilusão de um sobressalto que não aconteceu nem acontecerá.
O que me inquieta no meio disto tudo é que ninguém faça a pergunta que importa: salvo em caso de limitação física, qual é a necessidade de usar uma palhinha?

8.9.19

Esta fome

Buda refreia o entusiasmo juvenil com que me vê tirar as sandálias e entrar, lembrando-me o mais elementar dos seus ensinamentos: tudo é passageiro. E se essa ideia serve de consolo durante a tormenta, deverá também ser levada em conta em horas felizes. Oito da manhã, as janelas estão  abertas de par em par, o sol arde nos relevos despovoados do horizonte, cheira a vidas muito antigas, sedas guardadas e madeiras nobres, os rumores do bosque são de promessa e o vento vem enrolar-se todo no meu cabelo, desta vez mal sucedido na habitual tentativa de me desencaminhar. A única perturbação é o ronco quase chorado do meu estômago, que ainda não teve direito a consolação. Mas, enfim, também esta fome deverá ser passageira e se não for por eu comer há de ser quando eu morrer. 

6.9.19

Trabalho

Perguntam-me se medito e faço ioga com a intenção de viver a flutuar, de sorriso parvo e ombros relaxados como se nada disto me dissesse respeito. Quanta ignorância! É exatamente o oposto. Cada minuto que passo de cabeça para baixo, torcida ou equilibrada de modos impossíveis, cada hora em compassiva observação dos meus próprios pensamentos, ganho em consciência e verticalidade, aguço os sentidos e o raciocínio. As ideias florescem melhor, movo-me e respondo com mais precisão. Quero a minha espada sempre pronta, limpa e flexível, porque quando a desembainho não é para acertar ao lado.

4.9.19

Bicho

O senhor Pereira louva o ânimo com que a viúva cumprimenta e se presta ao galanteio. Desobrigada de satisfações – que o outro, Deus o guarde, não tem como pedir contas – ri para quem lhe apetece e até inclina o busto com um jeitinho garoto de modo a que se veja como ainda está bom o que anda por baixo da blusa.
– Esta senhora é formidável. For-mi-dá-vel! 
Diz ele, sem medir o entusiasmo. Balança nos calcanhares, como já sabemos, e ampara a virilidade com as mãos nos bolsos. A mulher acena com a cabeça a fazer que concorda e num relance, de nariz empinado, verifica o estado das próprias unhas. Tem o marido seguro, absolutamente dependente dos seus cuidados maternais e domésticos. Cala e consente, tanto lhe dá o que ele pensa das outras. Mas não nos iludamos, porque há sempre perigo no que em voz alta não se diz. A inveja é um bicho que morde em silêncio e a sorrir. 

3.9.19

Exercício

Agrada-me o novo estagiário. Fala pouco e tem nos olhos, em permanência, um sentimento de dúvida e interrogação. Usa papel e esferográfica. É poupado, abstém-se da tentação de adjetivar com banalidades e de explicar o que deve ser intuído. Além disso, não cai na asneira que tenho visto em tantos que é a de se apaixonarem por certas frases que criam, teimando em usá-las por verem nelas o próprio génio, mesmo que para nada sirvam ou que matem o propósito do texto. Por incrível que pareça a muitos, escrever também é um exercício contra a vaidade.

2.9.19

Atalho

O folheto do Grande Médium Josué, encaixado sob o limpa-para-brisas do meu carro, anuncia que todos os problemas têm solução, ipsis verbis, sem preocupações de originalidade. Esperteza publicitária esta, que joga com as filosofias baratas, as únicas que não podem desdizer-se mesmo por quem as desconsidere. Com qualquer velho chavão, cosido a direito e em linhas simples, faz-se uma capa quentinha que muito bem assenta aos ombros encolhidos. Uma verdade distinta – ou ao menos a sua possibilidade – exigiria sempre um esforço a que a dor, que é molenga e egocêntrica, raramente se dispõe. Ora, para quê andar às voltas no caminho se o Grande Médium Josué tem um atalho?

31.8.19

Cardiologia

Não digo um prémio nem um troféu. Não digo sequer louvores, poemas, rosas e muito menos um elogio fácil e piedoso. Mas, no mínimo, um coração de mãe que suporta sozinho a sua carga de sustos e aflições, que não divide a conta nem a culpa, merece acompanhamento gratuito, diário e vitalício de um cardiologista.

28.8.19

Órbita

Há instantes em que parece que deus, não arranjando mais com que se entreter para escapar à perpétua monotonia dos seus dias, dá um toquezinho no mundo com a biqueira do sapato. Daí vem depois esta estranheza da passagem do tempo, o fogo da terra a vibrar debaixo dos pés, a confusão entre luz e trevas, a lua sem domínio das marés. São precisas várias noites à deriva no vazio até que o mundo se encaixe numa nova órbita. 

27.8.19

Rainha

O que na dona Maria Isabel fascina não é o número de títulos acumulados nas ciências exatas e insuspeitas que explicam o universo. É a ousadia de ter fugido por amor ainda adolescente e o fracasso em que culminou a aventura. A generalidade das senhoras que frequenta aquele salão de cabeleireiro jamais fracassou. E isso, parecendo uma bênção, é a condição inerente à mediania. A dona Maria Isabel construiu a sua grandeza sobre o caráter mole e acobardado do garoto que por ingenuidade amou. Não o fez com intenção nem por oportunismo, é apenas a lógica natural de acertos, desacertos e compensações que se opera no desenrolar da vida. Hoje, adiantada na idade, mais rugosa e flácida do que qualquer outra senhora naquele salão, entra porém como uma rainha, proprietária absoluta de cada uma das pedras que lhe coroam os dedos e de cada uma das palavras com que remata todas as discórdias. Viu o que as outras não viram e levantando-se, sacudindo a poeira, afastando os destroços da sua prematura infelicidade, fez de si o que quis, sem obstáculos nem cobardes.

26.8.19

Ligado às máquinas

Troveja sobre a minha cabeça desde as sete da tarde e estou há mais de duas horas sem eletricidade. Quando tudo se apagou e se calaram os rumores da civilização, estava sozinha em casa, disse oh caraças ao escuro e às paredes, depois acendi a lanterna do telemóvel e esperei, com fé que a normalidade voltasse ao cabo de alguns segundos. Por via das dúvidas e para poupar a bateria, desliguei o computador onde estava a responder a um mail da minha irmã que, de qualquer modo, não poderia enviar devido à falha da internet. Fiquei quieta. Só meia hora depois concluí que talvez valesse a pena acender velas. Pus um castiçal no chão, junto ao sofá, duas velas grandes em cima da mesa da sala, outra no hall de entrada. Tinha a louça ainda por lavar e podia entreter-me com isso, caso estivesse – não estava – disposta a esfregar energicamente com água fria e detergente. Estendi-me no sofá, liguei-me à internet pelo telemóvel para passar o tempo, mas como as coincidências acontecem e nem sempre nos são favoráveis, pingou um aviso: terminou a internet que tem disponível. Responda SIM a este SMS e tenha mais 250 MB por 1,99. Para fazer um carregamento precisaria de acesso à internet ou de sair até uma atm. Porém, chovia a cântaros, a pé nem pensar, de carro seria obrigada a abrir o portão da garagem manualmente, coisa que creio nunca ter feito nesta casa e julgo só ser possível a quem tiver mais de um metro e setenta e cinco. Fui espreitar à janela. Ao redor, era como se um sono profundo tivesse embalado todas as coisas vivas e velado as inanimadas. Notei a ausência da vibração do frigorífico, da respiração funda do exaustor, de todos os roncos, assobios e zumbidos que deixámos de perceber porque os nossos ouvidos adoeceram. Nas cidades o silêncio pesa, é absoluto, surdo, incapacitante, opaco e triste. É o silêncio do abandono. Se fosse na casa grande, mesmo sem eletricidade sobraria o canto dos grilos, o rumor furtivo dos rastejantes na vinha, as conversas nas quintas da encosta a levante, o vento a comichar os ramos das laranjeiras, a música de um bailarico qualquer na freguesia mais próxima. Mas aqui é como se a vida estivesse suspensa.
Conformo-me, vou buscar um caderno e uma esferográfica, abro os estores para ver os relâmpagos, sento-me no chão, de pernas cruzadas, junto ao castiçal. Espero. Quando a eletricidade regressar, há de notar-se, haverá um ronco súbito, vários apitos miúdos, algum burburinho de júbilo nas casas do lado. Será mais ou menos como se um animal voltasse da morte com um solavanco e, ligado às máquinas, retomasse a sua respiração doente e difícil.

(ontem à noite)

23.8.19

Pés-de-chumbo

A vida, que tem ritmos e exigências para um tango complexo, combativo e apaixonado, cheio de drama, melancolia e sensualidade, há quem consiga dançá-la ao jeito dos slows nas festas de garagem: um tédio que vai valendo pelos encostos e apalpões às escuras. 

21.8.19

Esperanças

Dez passos adiante de mim vai a imperatriz com o filho aninhado no sling. Atiçada pelo vento, a cabeleira de fogo crepita sob a luz de agosto e a saia, que é de florinhas vermelhas, vai entrando também na dança com leveza e inocência. Não há mal. Os ventos podem revirar tudo à imperatriz, mas os pés, muito à fresca, quase descalços, vão tão firmes no caminho que ela não perderá nem rumo nem equilíbrio. Entrincheirado no corpo da mãe, Joaquim palra com uma entoação de festa e nós, que assistimos a isto e já sabemos que a vida nem sempre é uma celebração – nem para esta cria tão bem-vinda e amada – sentimos uma saudade tosca, cheia de arestas e farpas, de todas as coisas que pareciam prometidas e jamais se cumpriram. Deus entrega-nos muitas vezes na porta errada, que tem batentes de ouro mas abre para o precipício.
Nas veias da imperatriz, porém, ainda há restos da hormona das esperanças e de certeza que nenhum receio ou má memória ensombram as horas passadas com Joaquim. Entendem-se desde o útero, liga-os o amor primordial, que é de sangue e sobrevivência. Aos guinchinhos dele, ela responde com frases de estímulo e beijos na bochecha e dá-lhe razão em tudo o que ele exprime. Aos olhos de qualquer mortal que desconheça ou já tenha esquecido as miudezas amorosas que os bebés inspiram, a imperatriz parece uma tonta. E é verdade: nós, mães, somos umas tontas. Mas todas as outras formas de ser tonta que existem à disposição ou são demasiado pobres ou passam demasiado rápido. 

18.8.19

Uma mulher como ela

Compreendo se a preferires. A melancolia dela é dócil e fresquinha, põe-se à janela a deitar o olho ao mundo, a acenar a quem passa, a importar-se e a sentir muito. Não é uma melancolia como a minha, que vive nos fundos desde o dia em que nasci, cheira a mofo e quando vem à luz do dia é para ser sacudida para cima dos outros como um velho tapete. Com ela estás seguro. Nem o barro dos teus pés nem o fio débil do teu argumento serão desmascarados. Uma mulher como ela nada mais pode contra um homem além de bater nele as suas ancas e, no fim, dar-lhe um empurrão suave a dizer vai-te lavar.

16.8.19

Cicatrizes

O tempo de espera na fila, gastei-o a admirar a cicatriz que um rapazinho adolescente tinha no antebraço. Um itinerário espesso, texturado, desde a parte interna do cotovelo até ao pulso, simetricamente pontilhado de ambos os lados. Por mais de quinze minutos estive a deslumbrar-me com aquela marca indisfarçável, semelhante ao corpo de um diplópode, que talvez a mãe beije e, um dia, as amantes venham a beijar também com a ternura e a gratidão que sobram depois do êxtase. Porque toda a gente na fila tinha os olhos amarrados aos telemóveis pude reparar nos detalhes sem parecer mal, imaginando na origem da cicatriz histórias que ao diabo não lembrariam e que aos leitores poderiam causar nojo. 
Também tenho uma cicatriz em lugar muito exposto, mas sem aviso prévio ninguém dá por ela. Tive sorte. Depois de me decepar e remexer a minha lógica interna, ameaçando nervos de delicada responsabilidade, o cirurgião costurou tudo de modo a não deixar a prova do crime. De dois em dois dias, quando eu ia para o curativo, as enfermeiras não escondiam o fascínio: que belíssimo trabalho! Algumas, ao virarem costas para despejar as gazes e as luvas no lixo, vazavam o desabafo com uma languidez muito suspeita: o doutor Filipe sempre teve umas mãozinhas divinas. E sobre as mãos do doutor Filipe eu imaginava histórias que seriam tão do agrado do diabo como, certamente, dos leitores.

Como os bebés

Quando me perguntou a profissão, o homem que meteu conversa comigo na marginal a pretexto da minha "passada perfeita" disse o que todos dizem: ah, isso deve ser tão giro. Pouco importa com quem eu esteja a conversar, a esteticista, o funcionário das finanças, o médico de família, a criancinha, o velho pasmado, o bronco, o cavalheiro, todos respondem igual: ah, isso deve ser tão giro. Os mais emotivos ainda suspiram por acaso era uma coisa que eu gostava de experimentar. E os tontos querem saber como é que nascem as ideias. Vêm de Paris, já prontas, como os bebés. Que giro.
Sei que os há também a dizê-lo com intenção de diminuir. Tratar a profissão dos outros como se fosse brincadeira é, para muitos, a única forma de valorizarem a sua infeliz carga de trabalhos. Assim foi com o homem desta manhã. Apesar de eu não ter perguntado da profissão dele, logo se adiantou, depois de saber da minha, a queixar-se das suas próprias obrigações, títulos e responsabilidades. Ao invés de me perturbarem, estes comportamentos enchem-me de certezas e orgulho. Podendo escolher, tendo tido o privilégio de escolher, considero um sinal de inteligência conseguir que me paguem para me divertir.

12.8.19

Cortina púrpura

Voltas sempre, diz-me o sorriso de Buda quando me sento sobre os calcanhares. Sim, é minha vontade manter esta relação de convívio e simpatia, ainda que sejamos opostos num ponto sensível: no que diz respeito à natureza original do ser, Buda acredita na bondade que é obscurecida, eu acredito na selvajaria que é dominada. Ora, por tão irrelevante oposição eu jamais me afastaria. E digo irrelevante não por menosprezo, mas porque admito que nenhum de nós se dará ao trabalho de teimar no que tem por condição manter-se ignorado. Portanto, cismo de aqui estar – privada de outros prazeres sem consequência que facilmente se sacodem das costas e angariam leitores em número que justifica contabilidade organizada – porque ainda tenho perguntas. Outras. E eu, que certamente falhei em muitos empreendimentos nesta vida, nunca falhei, nem falharei, uma única oportunidade de fazer perguntas. Deduzo que Buda aceita a minha presença nestes moldes, habituou-se a ver-me chegar com vícios, reservas e condições e sair convencida de que a minha natureza é tão simples e desinteressada como a do pardalito que ignora a própria mortalidade. De resto, sabe que venho aqui por disciplina, não por desespero. Tomo as emoções como o mais eficiente de todos os combustíveis, mas alto lá com delírios e desvarios, menos ainda adulações ou rancores. Acabar pendurada no abismo por um desses fios encerados da paixão é o menos provável dos meus destinos. Está bem, está, parece dizer ele através da cortina púrpura que o vento desassossega. 

11.8.19

Amplitude

Esta noite sonhei contigo. À distância, pareceste-me com bom ar, mas quando cheguei perto notei que exalavas o odor seco e azedo dos velhos, que se agarra às roupas, amarelece o avesso das costuras, anuncia o preâmbulo da decomposição. Perguntei-te se estavas bem e tu ah, lindamente, com um gesto teatral e um riso de boca toda aberta. Mentias, portanto. As mentiras tornam-nos sempre enfáticos, excessivos como a maquilhagem dos atores. Só a verdade pode dar-se ao luxo de ser sóbria e despojada, até vive na sombra se lhe aprouver e ninguém a vê a não ser que desarrume tudo. Antes de acordar, ainda pousei à pressa a cabeça no teu peito e trouxe comigo, por toda a manhã, a memória da sua generosa amplitude.

9.8.19

Desilusões

A minha maior fonte de desilusões é a memória. Desde que deixei de estudar, a sua utilidade resume-se a apanhar mentiras e contradições nas pessoas que me rodeiam. Quase sempre faço de conta, sorrio e escuto como se me dessem novidade e, com efeito, dão, por ser relato rigorosamente oposto ao que me deram na véspera ou vinte anos antes. Preferia não lembrar e, assim, não notar a mentira. Sobretudo quando vem da boca daqueles por quem ainda me sobra um resto de ternura. É que a ternura, quando não acompanhada de admiração ou amor forte, está sempre a um passo de resvalar para a piedade. 

7.8.19

Armadilha

Há histórias das quais não fazes parte. Quando for o caso, cala-te. Reserva-te para o prazer da contemplação, aceita, aprende. Não é por ti aquele verso, não é tua a voz que o narrador ouviu em sonhos, não é teu o vulto belo que o assombra e cativa, nem sobre ti a virtude exaltada. Dá repouso a essa busca por sinais, convergências, espelhos, entrelinhas. Ajusta a tua importância, veste-a com o tamanho que tem, recua para onde possas ver mais e melhor. E acredita que é privilégio maior ser leitor do que viver na sedução armadilhada de um enredo. 

6.8.19

Castelo de cartas

A última carta, enfim, colocada. O instante da realização, em que todas as linhas se acertam e a tensão de umas é o repouso de outras. Nada a mais, nada a menos. Apenas isto e o universo inteiro em volta, com o vento a dormir lá longe. A mais magnética e assustadora de todas as construções, em cuja permanência o tolo crê. Eis a síntese da felicidade, da delicadeza com que respira e da sua ruína iminente.

5.8.19

Dívida

Fui ao centro buscar o relógio de mesa antigo que deixei para consertar há mais de um mês. Como o velho ourives demorou a encontrá-lo no caos da oficina, receei que, por furto ou descuido, tivesse ido parar a mãos erradas. Enquanto ele procurava, cheio de tremuras e esconjurando em sussurro os obstáculos do caminho, a minha imaginação, que raramente trabalha a meu favor, concebia destinos trágicos para a relíquia: uma feira de velharias, a troca por opiáceos, a venda apressada online, uma cornija de lareira ordinária vigiada pelo menino da lágrima. Não, já não está cá, dizia o velho ourives. Enredada nos pesadelos possíveis, roguei-me mil pragas por ter confiado nele. Afinal, a peça sem funcionar bastava-me, dispenso as contagens do tempo e os seus efeitos colaterais. 
Durante a espera, toda a eternidade me retorcia os músculos e pesava sobre as articulações. Por isso quando o velho ourives finalmente encontrou o relógio e o ergueu com ambas as mãos ao jeito de um troféu, o alívio deu-se com um espasmo. Levou-me couro e cabelo pelo conserto e antes de eu sair alertou, supondo a minha ignorância: cuidado, relógios de mesa há muitos, mas nenhum como esse. A menina é uma privilegiada. Pobre ourives, que sabe o valor da relíquia mas não o seu custo. O relógio só me pertence porque muitas pessoas morreram. Pela sua posse, pela sua deslumbrante beleza exibida na minha sala, pago faturas pesadas de saudade. E já estou endividada até aos ossos.

2.8.19

Lixo

Em certas zonas desta cidade, é pela mão das empregadas domésticas que os cães vêm à rua. A maioria são labradores já velhos, exaustos, que se aliviam no arbusto com um vagar paquidérmico. Em tempos terão sido cachorros vivaços, oferecidos às crianças por conselho do psicólogo ou em troca de bom comportamento, dormiram com elas no aconchego das caminhas com vista para o mar, tolerantes com caprichos e judiarias. Depois, conquistada a serenidade, tornaram-se companheiros leais, os únicos que não contrariam nem dizem as verdades aos donos e por isso convenientes e merecedores do mais devotado amor. Bons bibelôs, diga-se também. Acrescentaram a tão ambicionada nobreza aos retratos de família, com o pelo lustroso, o porte respeitável, os olhos de mansa e atenta dignidade – os únicos do clã cujo brilho não depende de receita médica. E foram o must have de muitas estações, assentando perfeitos nos outfits da voltinha pela marginal. Envelhecidos, já não servem egos nem terapias nem aparências e sobra-lhes isto: aproveitar a boleia das empregadas quando elas descem – de uniforme, claro – para pôr o lixo no contentor. 

1.8.19

Fuga

A rapariga da papelaria saúda-me com voz flácida e percebo logo que tem a disposição do avesso. É que pouco mais de dois meses faltam para o casamento do pai de Alice que, por um triz, não colide com o aniversário da menina. Parece muito, mas o verão passará num sopro, envelheceremos todos debaixo do sol, das noitadas e das deliciosas disponibilidades do corpo, regressaremos para tornar a valorizar gangas, números e horários, enfrentaremos a banalidade de existir como se tivéssemos grandes propósitos atribuídos pelo divino. Aí, com a precipitação do ocaso, o contrato do casamento será assinado e há de aparecer a cabeleireira a dizer o irrefutável: o tempo voa
Vencido que está o choque inicial, a tristeza da rapariga da papelaria anda agora em altos e baixos, não consoante o tempo – que isso é coisa para gente de humores simplezinhos e mal ocupados – mas de acordo com as noites. Tem-nas tido agitadas, inconstantes, preenchidas com sonhos de um cruel realismo, ora com prenúncios de felicidade, ora com sinais de eterna desolação. Nunca sei como vou acordar, diz. Ninguém sabe, penso, mas compreendo que qualquer pormenor quotidiano e adquirido ganhe forma trágica aos olhos de um coração em apuros. A dor afia todas as miudezas da vida. 
– Ainda por cima, não sei, mas dá-me a impressão que está toda a gente a casar. Só eu é que, enfim...
A rapariga da papelaria remexe os jornais de um lado para o outro, indecisa na ordem. Como se as inquietações dela fossem de menor importância, faço um gesto brusco, de sacudir moscas, e digo-lhe que o casamento não serve para nada, é um desperdício de recursos, não se agarre a isso como a um sonho, o amor anda muitas vezes fora dele. Tenho boa e sincera intenção, mas ela nem por sofrer se deixa ficar.
– De certeza que fala de barriga cheia. Não me leve a mal, mas as pessoas que dão conselhos estão sempre de barriga cheia. Quem passa dores fica caladinho. 
Por não estar a contar, a estocada derruba-me. Levanto-me com sacrifício e cautela, procurando agarrar-me a coisas concretas, objetividades que não variem com mágoas ou suspeições: está um belo dia de sol, tanto movimento na rua, agosto está à porta, amanhã visto camisa às flores. Não posso perdoar a rapariga da papelaria pela leviandade do que disse. Nem perdoar-me por ter-lhe servido de bandeja a ocasião para uma sentença tão dura. Preciso de recuperar a minha verticalidade. Talvez lhe pergunte pelo Marco do ginásio, nada melhor para rasteirar uma tonta do que a ideia de um rapaz de corpo bem feito e bem mandado. Também posso perguntar por Alicita, qualquer mãe perde foco e razão quando lhe perguntam dos filhos. Mas assim que os meus pés recuperam a certeza do solo, o meu impulso é fugir. Despeço-me e deixo-a para trás, firme, com as mãos pousadas no balcão e a cabeça suavemente inclinada, olhando-me do alto do seu magnífico desgosto.

30.7.19

Resignação

O vizinho que faz a mulher gemer como um relógio de corda está em desatino. Ouvi-o a dizer um palavrão e a perguntar vezes e vezes seguidas, num desespero que me comoveu: mas nada do que eu faço está bem para ti? É uma pena. Além de elegante e bonito, parece ser doce. Às vezes, no elevador, conversamos e distraímo-nos, passamos o piso dele e o meu, ele conta-me coisas sem importância alguma, acontece-lhe enganar-se e sair comigo, este não é o seu, tenho de dizer. Mas o que me dá pena nem é o facto de a mulher dele parecer insatisfeita. É o ar de resignação que ele tem. Um homem resignado não interessa a ninguém, nem a si próprio.

29.7.19

Um doido

Hoje, um homem bem desenhado e de aparência leve sentou-se perto e pediu-me uma informação de caráter prático. A partir da objetividade da resposta que lhe dei, desdobrou uma tese sobre o espaço e o tempo, natural como se apenas continuasse um diálogo há muito encetado. Assustei-me, pensado que ou era um doido ou eras tu.

24.7.19

Esqueletos

Adiar. Adiar. Adiar. Eis uma coisa estupenda que também sei fazer. Não quero dizer adiar um trabalho, uma mudança, sequer um confronto. Mas adiar a verdade. Adiá-la tanto até se tornar passado e ser sepultada sob as emergências do quotidiano ou guardada no fundo do armário, chocalhando em surdina com outros esqueletos. 

19.7.19

Sul

Sou do Norte em tudo. Pura, sem aditivos nem arredondamentos, cinquenta por cento Douro vinhateiro, vinte e cinco Minho bem verde, outros vinte e cinco Porto. E sou do Norte com a força de uma cisma, de uma obstinação, insuflada de um orgulho retrógrado e dramático. Sou do Norte de frente e de perfil, em maneiras e, muito raramente, se me vir encurralada, até em linguagem. Sou do Norte como se tivesse febre, a olhar com um menosprezo delirante para os que só conheceram estradas largas, declives brandos e rios de feitio fácil. Viva eu mais cem anos e não amaciarei um só traço nas caricaturas que tenho dos que estão abaixo de Coimbra e continuarei a imitar-lhes tiques e sotaques em festas de família e encontros de amigos. 
Há, porém, um momento, uma fronteira invisível e imprecisa, um ponto qualquer na estrada para sul cujas coordenadas variam com a direção dos ventos, que me força à rendição. E não é nada que se veja ou se palpe. É o cheiro. Um cheiro morno, picante, adocicado. O Norte cheira-me a nada ou então a coisas concretas e avulsas: ora a mar, ora a mosto, ora a lenha, ora a uma coisa, ora a outra. Mas o sul tem o cheiro de uma mistura que não decifro, sensual, afrodisíaca, que parece brotar de um caldeirão onde ervas, frutos, bicharada, húmus e sei lá mais que temperos perversos se apuram às mãos de uma feiticeira. Nesse ponto – não me perguntem ao certo onde é, porque a geografia é vaga e a terra move-se – parece que o sul quer entrar pelo Norte acima e adentro e enrolá-lo na largueza macia e dourada das suas pernas. Sonho amiúde com esse cheiro e, por mais que as florestas ardam e as cidades se transformem e a gente se perfume com essências de laboratório, ele está sempre lá e nunca me dececiona.

17.7.19

Os mansos

Esses mansos, que brincam de arreganhar os dentes mas não passam de mansos, que dão murros na mesa apenas quando estão diante dos que podem menos, que copiam os discursos dos lutadores mas com as mãos afrouxadas nos bolsos, esses que são solidários com as causas consoante a importância e o interesse dos causadores mas cuja cumplicidade acontece atrás das portas em surdina, esses que se aninham na trincheira a rir dos que dão o peito às balas, bem-aventurados sejam ao menos no reino dos pântanos e das ninharias, para onde caminham de cauda gentilmente enfiada entre as pernas e passinhos dóceis, simulando bravura com um ridículo arqueio de sobrancelha, preparando-se, sem o saber, para cair no fosso do esquecimento. 

16.7.19

*

Regressar é ir a qualquer lugar onde estiver alguém à nossa espera.
*
Setembro • 2011

15.7.19

Simulações

Dobro a esquina e dou com o carro da viúva parado no meio da rua, torto e de porta aberta, ocupando metade da faixa de rodagem, como de costume. A viúva não é apenas má condutora, sem mão para a potência dos motores a que tem acesso e que todos os anos troca por matrícula nova. É preguiçosa e egoísta, supõe que a rua se desajeita, distende, estende e ajeita à sua passagem, ou que um bando de lacaios acorrerá a resolver o assunto se houver uma alminha mais sensível a quem a situação estorve. 
Mas daqui não vem novidade, estes são velhos hábitos da viúva que, em boa verdade, ninguém condena ou contraria. É que basta ela pôr uma perna de fora do carro para que a saia suba e a coxa roliça se desnude sem vergonha e a gente que passa ponha freio às ganas de lhe amolgar o carro ao pontapé. Mesmo quem nas costas maldiz, na frente venera esta que entra na casa dos sessenta com firmeza e excentricidade, sem variz ou derrame que se veja, mantendo até a ousadia – há quem o garanta por meias palavras – de andar sem sutiã. Um privilégio.
O que é novo, surpreende e até assusta é perceber que abandonou o carro naquele estado para se pôr à conversa com a mulher do senhor Pereira. Riem, elogiam-se, seguram-se até as mãos, disfarçam sentimentos maléficos, repugnâncias mútuas, ódios fermentados a partir de meras suposições ou, às tantas, a partir de coisa nenhuma. Desde quando é preciso causa válida para a inimizade entre mulheres? Tanto de longe como mais ao perto, parecem-me duas bruxas, com as cabeleiras negras, nem sei qual delas mais demoradamente maquilhada, mais elevada nos sapatos, ambas com admirável domínio das regras da etiqueta e da hipocrisia, simulando por interesse o mesmo que o senhor Pereira simula por cobardia.