24.3.15

Braço-de-ferro

Barragem de Vilarinho das Furnas. 
2015

Diante da paisagem pergunto-lhes quem tem mais força, ao que o mais velho - por não ter dúvidas - prontamente responde a Natureza e o mais novo - por não ter paciência - logo contrapõe o Homem. Encantam-me os confrontos entre irmãos. Se um diz alhos, há de dizer o outro bugalhos. E isso, que é causa de miúdas desavenças no quotidiano, é também treino de combate, fazendo-os mais fortes e incondicionalmente unidos quando a causa é superior, ou o adversário sou eu e a minha regra está a precisar, com urgência, da exceção.

20.3.15

Equinócio

O corpo humano é vulnerável ao terno fervor da primavera, por mais que a ciência faça para o desviar das fatalidades e a civilização imponha autodomínio. Somos uma espécie como as outras, guiada pelo rasto dos aromas, excitada pela sensualidade das cores, temos os ritmos e a música da bicharada sussurrando cá dentro como prova suprema de vida. Vale a pena celebrar isto – a resistência, a autenticidade que sobra em nós, pulsando, teimosa, para além da teoria e, por enquanto, mais forte que o progresso e a tecnologia. Alegra-me muito (quantas vezes já o disse?) a constatação da soberania da natureza.

 

19.3.15

As miúdas

Às vezes, ao fim da tarde, os rapazinhos entram-me no carro pedinchando boleias e eu gosto. Enchem tudo de uma frescura benfazeja, não obstante a sujidade que trazem nas solas, o cheiro empoeirado dos cabelos e da roupa, a pressa com que falam e se atropelam para que eu lhes dê atenção exclusiva. Por essa hora, tenho ainda na cabeça sobras da jornada de trabalho: decisões tomadas de urgência, dúvidas sintáticas, histórias coxas, prazos por cumprir, mal-entendidos de difícil remedeio. Mas a eles nada esgota o ânimo nem as forças para se indignarem, como convém por ser próprio da idade.
Hoje vêm certos de que a professora de História baralha tudo, ora bolas!, e ainda dizem que são eles, os adolescentes, que andam nas nuvens, desviados do que conta e traz vantagem. Silenciosamente me torno cúmplice das suas queixas. Mas sou adulta, fiz-me mãe, não posso dizer Yah! A stora é bué de chunga, esquece-se que toda a gente tem de ir às nuvens para ver de cima a terra onde terá de assentar o pé pelo resto dos dias, antes peço que me contem o que foi desta vez. 
Foram as questões do teste, traiçoeiras. 
Então porquê? 
Ao invés de perguntar, por exemplo, quais as regiões conquistadas pelo Império Romano - e era canja! - a professora pede que comentem a expansão geográfica do dito Império. Uma complicação. Estão solidários entre si, é um coro de yahs, uma sintonia perfeita de acenos de cabeça, e ao menos isso é bom de ver num mundo onde verdades e afetos só a muito custo se harmonizam. Mas entristece-me vê-los à espera que lhes sirvam de bandeja o abêcê e presumam uma armadilha onde apenas está um desafio.
Já sei, somos preguiçosos para pensar, diz-me um deles, o mais alto, olhos verdes com tamanha luz e vigor que até ofendem o meu cansaço.
Sabem o remédio para isso?
Olham-me ansiosos, esperando fórmula mágica, posologia simples e resultado imediato.
Ler! Ler muito, ler mais! 
Ahhh... Afrouxam, não cuidavam que a solução fosse uma carga de trabalhos, um investimento de tempo, uma quietude impossível. Jogo então uma carta que penso ser de trunfo (pobre de mim, cresço na ingenuidade!): as miúdas gostam de rapazes que leem, dá estilo e confiança.
Feitiço. O tema acende-os. Recuperam o ânimo, a vivacidade do olhar, o ímpeto de se atropelarem nas respostas que me querem dar.  É ver quem mais sabe de miúdas, alguns até de graúdas, cada qual é um poço de experiência e conhecimento que legitima sentenças. Garantem-me que elas apreciam os que sabem falar e ouvir, mas quando é para namorar, os livros que fiquem na estante: querem é os cheirosos e bem vestidos. O que, enfim, lhes facilita bastante a vida.
Gosto muito de canalha. Atabalhoada, indignada e absolutamente cheia de certezas, como eu já perdi o hábito de ser e me agrada tanto lembrar. 

12.3.15

E o futuro?

Mais perdido está quem renega o passado do que quem não vislumbra um futuro. Porque, em todo o caso, não existe futuro algum que se possa vislumbrar. Planos e intenções definem o passo que damos, jamais revelarão o que vem depois da curva ou está atrás da montanha. Só a memória nos localiza absolutamente, nos dá o ponto a partir de onde sabemos que temos de avançar e que é o nosso chão, a nossa paisagem, a nossa perspetiva. 
Tão perigoso como viver preso ao passado é desejar esquecê-lo.

(esta manhã pasmei ao ouvir as previsões futuristas de Michio Kaku, o físico. Da possibilidade de fotografarmos os nossos sonhos ao acordar, até ao scanner de uso doméstico que com dez anos de antecedência nos avisará de um cancro, ele pode enganar-se em tudo se o mundo sofrer revés ou entretanto implodir. Facto, realidade, detalhe quase poético no meio disto tudo, era a bengala em que se apoiava quando subiu ao palco do auditório e em nenhum momento largou)

Embuste

A manhã inteira os gurus tentam convencer-me do quão feliz, confortável e esplêndido será o mundo dentro de cinco anos graças à tecnologia digital e a gente até se esquece de quantos ainda há, à face da mesma terra, ignorando o que é uma lâmpada.

10.3.15

Tranquilidade

Criou-se o universo sem recurso à autoridade dos homens e isso deixa-me tranquila. Tivéssemos sido chamados a sugerir, opinar ou fazer retoques, e provavelmente os planetas circulariam em rota de colisão e as estrelas, ao invés de pairarem neste céu que é de todos, decorariam as paredes de quem tivesse tido a ideia de as acender ou mais possuísse para dar por elas. 
Gosto de contemplar, quieta e calada, tudo o que se está nas tintas para o meu consentimento. Quando me sento na relva, na areia, num penedo, com os olhos e os ouvidos bem atentos, gozo do conforto de tudo sentir e rigorosamente nada poder fazer. É como ficar pequena, entregue ao colo da mãe, onde tudo é perfeição e sabedoria e, por isso, o remédio é calar e confiar.
Neste tempo em que a palavra de ordem é interação e tanta urgência há em trocar, interceder, opinar, vou correndo o risco de me chamarem preguiçosa ou indiferente, mas que me importa? Alegra-me o infinito, a força da gravidade, a beleza intocável, a transformação das montanhas, a verdade elementar dos cursos de água, a superioridade com que uma folha se desprende da árvore e, caindo em terra húmida, é quanto basta para fazer escorregar um homem. 
Com o pensamento nisto tudo, demitida, desresponsabilizada, esta manhã dei comigo à espera que o café vertesse da máquina sem mexer um dedo. Não fosse aparecer alguém que vinha ao mesmo e eu continuaria de braços cruzados, a olhar para uma chávena vazia.

6.3.15

Shiuuuuu...




Sem querer fazer publicidade ao produto, mas apenas uma vénia aos autores do filme. 
(colocar os headphones, por favor)

Galdéria

A culpa, coitada, porque a deixam solteira teve que dar em galdéria. Ninguém a quer, ninguém a assume, ninguém vem de mão dada com ela, ninguém diz apresento-vos a minha culpa, é esta. Então, como sucedia antigamente às mulheres usadas e descartadas, a culpa ficou assim: uma doida, aparece à noitinha, enfia-se na cama de qualquer um e fica ali, a desassossegar, a incendiar, a revolver os lençóis, a adiar a hora do descanso. E de uma cama para outra vai andando, fora de horas, facilmente abraça os solitários, os desamparados, mas de igual modo se enrola com os altivos, os magníficos. Por dentro do escuro e do silêncio, somos todos uma sombra, uma respiração, uma vulnerável horizontalidade.

5.3.15

Espaços de debate

Na leitura de blogues, tão desconcertante como assistir à maledicência gratuita é rever em certos comentários aquela cena do Shrek em que o Burro implora, desvairado, "pick me! pick me!". Felizmente há outros que, por pouco se importarem com juízos alheios e não dependerem da aceitação de estranhos, acrescentam valor sempre que comentam. Por esses, imagino que valha a pena aguentar, volta e meia, o desfile de credenciais de cultura geral, comprovativos fajutos de afinidade e assinaturas de cruz. 
Gabo a paciência de quem tem caixas de comentários abertas. Mesmo sabendo que é isso –eufemisticamente chamado espaço de debate – que garante a sobrevivência de alguns blogues. 

4.3.15

Saldos

Que se vendam por tuta-e-meia os miseráveis, os que são atormentados pela fome, os que se enredaram em vícios, os que vivem a um passo do abismo, só me resta lamentar, deitar a mão no que puder, mas jamais condenar. Ignoro ao que podem levar certas zonas de dor e desespero, que, por serem cobertas de sombra, esbatem as diferenças entre o bem e o mal.
Mas ver em saldo, de joelhos e calças baixas, o sôtor, o empresário, o diretor de departamento, o autarca, rindo de uma simpatia babosa e servil, dando a integridade e a competência à troca de uma dúzia de euros, um almoço de sushi, seis garrafas de alvarinho, uma entrada grátis, espaço para o seu nome num papel sem importância, a fotografia da sobrinha numa revista, isso faz-me corar e pedir um buraco onde me esconda pelo menos eu, de modo a não ver o que já ninguém tem pudor em exibir. 

2.3.15

Segunda-feira

Ah, valha-nos o futebol, as mixórdias da comercial, os vestidos de cor ambígua, as gordas e as magras, as gafes dos famosos carregadas no youtube! Graças a tudo isso consigo ver um sorriso nos deprimidos, entusiasmo nos desmotivados, bravura nos indiferentes, argumento na boca dos que nunca levantam a voz pela sua própria dignidade, paixão e entrega nos que negligenciam as coisas do amor. E como enternece ver unidos, fraternos e afins os que normalmente andam às turras, de candeias às avessas, envenenando pelas costas! Quantos paliativos, quantos estimulantes, quanta analgesia! Valha-nos isso, porque hoje o dia é de acordar cedo, engatar na rotina e, ainda por cima, chove de modo persistente, tal como choveu ontem, anteontem e, provavelmente, há de chover amanhã.

1.3.15

Do gosto

O livro de mais de novecentas páginas, encostei-o para canto assim que venci as cento e setenta. A certa altura, sendo maior o martírio do que o gosto, mais a cisma do que a vontade, é o melhor a fazer. E isto que se diz de um livro poderia dizer-se de qualquer coisa na vida, sendo que a vantagem do livro é ter ficado por pouco mais de vinte euros e arrumar-se pela minha exclusiva vontade, sem perda ou dano, nem para mim nem para o autor, que está morto e enterrado com direito a fama eterna e louvor universal. Não faço eu diferença nos milhões que lhe reconhecem o génio. Mas, infelizmente, também não me fez ele diferença nenhuma.
Pesa-me, no entanto, a consciência. Fica a remoer-me aquela impressão de não ter chegado lá, de a minha inteligência ter estado aquém, de ser por defeito meu que nenhum dos personagens ganhou vida, antes me parecendo fantoches de madeira que, por mais que se descrevam de fio a pavio, da biqueira dos sapatos às curvas do pavilhão auricular, da cadência do ressonar ao modo de lavar os dentes, nunca chegam a ter alma, a mover-se por si mesmos, a ser uma ameaça ou uma promessa, a entrar pelo nosso sono dentro como gente que existisse para além do papel. 

(Hoje perguntaram ao mais velho se ele tinha gostado do Museu do Prado e ele respondeu com um "sim" frouxo e um sorriso diplomático. Logo toda a gente em torno da mesa - gente conhecedora e amante das artes e da beleza - lhe percebeu uma certa angústia e lhe foi dizendo que, caso não tivesse gostado, era livre de o dizer sem vergonhas. Um a um, todos foram manifestando a deceção que sentiram já diante de coisas ditas grandiosas, rompendo consensos e enumerando outras preferências, menos frequentes nas bocas do mundo e nos roteiros turísticos. Aliviado, ele confessou que, tirando uma ou outra coisa, de facto, o museu não o tinha impressionado. Foi um momento verdadeiramente libertador, até as costas se lhe amoleceram. A ditadura do gosto é uma coisa tremenda, um crime contra a sensibilidade e a inteligência, mas que vai ajudando muita gente a orientar-se.)

27.2.15

De sol a sol

Enamorei-me de uma casinha térrea que está à venda numa velha rua dos subúrbios. Primeiro, confesso, foi por piedade que me chamou a atenção. Não chega a ser ruína, mas tem os traços descaídos do abandono, a fachada cheia de cicatrizes, e as janelas, com as persianas diagonais, parecem-me dois olhos de ressaca. A vontade é de lhe estender uma mão e soprar as poeiras para que se revele a sua dignidade, como as mães fazem aos filhos depois das quedas, quando lhes limpam as lágrimas e afastam o cabelo do rosto.
É de pouco interesse descrever esta casa porque nada tem de atraente, a dimensão é abonecada e a arquitetura pobrezinha. Mas sucede às vezes bater-me o coração sem motivo aparente ao reparar em certas coisas. Intuição, sonho ou memória mal arrumada no fundo da consciência podem estar na origem destas súbitas empatias. Não perco tempo à procura de razões, prefiro desfrutar do encantamento que sinto quando vejo a magnificência com que o sol lhe incide de manhã, fazendo-me pressentir nela uma grandeza latente, ouvir um sussurro de felicidade, imaginar como a morada de um sapo poderia tornar-se a de um príncipe. 
Toda a minha vida tive quartos a nascente e assim os quero. Jurar não posso, mas acredito que disso vem o ânimo e a resiliência com que desperto todas as manhãs. Talvez porque andando ao ritmo da Terra, acordando do lado que nela acorda primeiro, me sinta mais integrada nas lógicas do universo e fique naturalmente imbuída do seu cinismo. Simplificando: abrir os olhos e ver a luz do sol derramada na parede, na cama, nos livros de cabeceira, tem em mim o efeito que terão os químicos ou as orações noutras pessoas. Durmo de persianas entreabertas para nunca perder esse instante. 
De modos que, como passo diante da casinha térrea logo de manhã, bem vejo como nela o sol se espraia à larga e ali preguiçará por algumas horas. Imagino que o interior esteja esburacado, cheio de falhas, ferrugens, entupimentos, mas tudo isso me parece ter remédio fácil. Já o sol batendo de frente logo cedo, iluminando com divina generosidade, é coisa que nenhuma obra pode improvisar, nenhuma engenhoca pode substituir. O resto não vejo, mas deduzo haver nas traseiras um quintalzinho modesto, ao abrigo dos curiosos, onde se pode provar a doçura dos poentes de verão. 

24.2.15

Bolha

Há alturas em que preciso de esgravatar tanto para compor uma linha decente, que o único descanso justo seria uma semana inteira de completo analfabetismo. Uma semana em que a palavra, em vez de ser ela mais o seu oposto, a sua rima, o seu sinónimo, a sua fonética, a sua raiz, o que tem de excedente, o que está aquém, o que pode matar ou salvar, em vez de tudo isso que atordoa e atraiçoa, fosse apenas qualquer coisa avulsa, uma casca oca, uma mancha que o cérebro ignorasse e nem fizesse diferença ao coração.
Oito horas por dia, cinco dias por semana, recompensam-me o esforço com dinheiro. Fora isso, é maior a perda do que o ganho, pois em alturas assim não dou pelo caminho que faço, não valorizo o que me estão a dizer e passam-me ao lado os grandes eventos do dia. Por sorte, a espessura da bolha também amortece choques e turva o rosto dos que magoam.

21.2.15

Se viesses comigo, princesa...

Às dez da manhã, os homens já estão a atestar-se na bomba de gasolina. É uma fileira deles encostados às botijas de gás, de cerveja na mão, mirando o horizonte como se nele vissem mais do que a olho nu se oferece: a mata de eucaliptos, as ruelas convergindo para a igreja, o ponto de fuga da estrada nacional. Falam do pouco que lhes ocorre, a bola, os buracos no asfalto, o preço das trivialidades. À passagem de uma mulher, os olhos ganham uma energia animal, as costas arqueiam, vai um gole e um suspiro:
- Se viesses comigo não te faltava nada, princesa...
As garrafas encontram-se ao meio para um brinde. Em menos que um ai, vertem tudo goela abaixo. Há que ir buscar mais. Nos dedos, brilha o ouro da felicidade por contrato. Pergunto-me o que terão estes homens prometido às suas mulheres para que elas dissessem sim à miséria deste quotidiano. Sei que por esta hora vertem lágrimas enquanto picam cebola, aquecem-se no lume vivo do fogão, depositam todas as suas esperanças nos filhos, veem novelas sonhando que também um dia hão de ser levadas para a cama nos braços de um homem de hálito fresco e que os seus desejos serão considerados com paciência e generosidade, em verdadeira comunhão, rumo a uma existência superior. Nesse dia - ah, se chegasse... - não precisariam de se juntar no largo do pelourinho para, esforçadamente, defender aqueles que por destino lhes couberam, tem lá os seus defeitos mas é um bom homem, o que é preciso é compreensão, vamos andando.
Porém, vão estes homens andando porque comparecem na bomba às primeiras horas da manhã. Escoam o dinheiro em cerveja, talvez mais do que o que eu dou pela gasolina, ganham ânimo à medida que o veneno encorpa o sangue e dilata o estômago. Na minha volta ainda lá estão, os mesmos, há novidades da bola e mais buracos no asfalto, o preço das trivialidades aumentou, cada mulher apetece mais que a anterior. Saem dali quando estiverem atestados, sentindo-se capazes de vencer, pelo menos, as próximas curvas e contracurvas que o dia lhes reserva. Terrível seria acharem-se de repente sem combustível, fracos de pernas para andar e longe de um destino seguro, num desses lugares ermos onde somos só nós, o nosso eco e a indiferença de Deus. 

19.2.15

Somos todos Pereira

Pelos e-mails que recebo, noto que o senhor Pereira se tornou uma figura muito querida, beneficiando da complacência dos leitores. É curioso, porque me pareceu que ele havia de surgir como um porco traidor, a quem a cobardia acerta o passo, e mesquinho de dar pena. Mas assim não foi. 
Julgo que acabaram por ver nele a personificação de uma identidade conjunta, um modo português de viver comodamente os desejos e fintar a verdade, um perfil que reconhecemos em todo o vizinho, colega ou inimigo nas desavenças quotidianas, mas, obviamente, jamais no espelho. 
Ponho-me a pensar que talvez sejamos todos senhor Pereira, mais do que somos qualquer outra coisa que nos comova ou inflame. Mas que charme há nisso? Quantos likes ganharíamos ao afirmar eu sou senhor Pereira? Que causa é a dele? Que força mobilizadora tem a sua existência banal, retilínea, que há de desaguar no mesmo mar de todas as outras, sem mortos nem feridos? Qual o ganho de admitir que tantas vezes nos foge o olho para demoníacas seduções como a viúva, que nos embalam certas visões como a da rapariga com a tatuagem no pé, imensa em beleza e dignidade? Como confessar que também somos assim, vulneráveis a umas febres cá por dentro, tensões, cobiças, desejos de subversão e mudança, e que calamos tudo isso no escuro, no travesseiro da cama já feita há tanto tempo?
Saiba-se que o senhor Pereira engana. Anda sempre de disposição plena, com o orgulho e a verticalidade dos príncipes, o nó da gravata impecável, o automóvel brilhando como os novos. Às vezes, dá-me uma palmadinha na face, ao jeito de um pai, e diz-me que eu não sei nada desta vida. Homem vulgar, acredita que a transmissão do conhecimento tem sentido único
Com efeito, o senhor Pereira não é uma causa. É uma consequência.

18.2.15

Perfeição

Lembro-me de já ter dito que a tua beleza me importa. Não julgues, porém, que há nisso futilidade, que por reparar nas tuas formas desconsidero o teu avesso. Acontece apenas que lhe perdoo a complexidade, as sombras, os desencaixes, a quebra das linhas e o despropósito das curvas. Não há interioridade sem estrago.
Desde que Exupéry inventou que os olhos não veem o essencial, o mundo atrapalhou-se, tomou à letra, deu-lhe um lugar à cabeceira, com letras gordas e absolutas e uma moldura de sentimentalismo fajuto. Essencial é a tua proporção, o teu equilíbrio, a conta certa que dá a soma das tuas partes, a ténue clivagem entre os gomos do teu peito, o ângulo raso do teu abdómen, a poderosa arquitetura das colunas que te sustentam. Essencial é o intervalo entre os nós dos teus dedos, a linha que vai do ombro à orelha, a confluência das forças para o centro. Essencial é até o desvio da tua mão, tão rigorosamente calculado que não há como escapar ao campo gravítico, sair da órbita, mergulhar no caos.
Tudo isto eu vejo com os olhos muito atentos, permeáveis, espantados e, por isso, com a totalidade do meu coração. Vejo como quem contempla uma escultura que não respira, não dá passo nem diz palavra, para suster a própria perfeição.

17.2.15

Desfile

Hoje não é feriado, mas o país está fechado para descanso do pessoal. Nem o arrumador compareceu no seu posto de trabalho. Conhece o biorritmo da cidade, sabe que hoje só os tolos madrugam. Os outros, os empenhados, os imprescindíveis, os que se atropelam no trânsito e estão dispostos a pagar por um lugar grátis para não atrasarem as suas imensas responsabilidades, não vieram. Eclipsaram-se-lhes as urgências. Nestes dias, só nestes dias, realizam que, afinal, não é por vinte e quatro horas que lhes vão sentir a falta. 
Amanhã retoma-se o desfile, o fato de lantejoulas, o bamboleio das nádegas, a festa dos talentos, a paliativa distorção do nosso papel no mundo.

16.2.15

Aquilo lá por baixo

No cabeleireiro não se fala de outra coisa: o filho da manicura tem de deixar a fralda. Entre funcionárias e clientes, vai de boca em boca a intimidade do catraio, que anda pelos três anos e não se decide a fazer o que tem de fazer no lugar onde deve ser feito. Obstinada em torná-lo homem, a mãe anda com a paciência por um fio. A cada fralda suja, assenta-lhe a mão no rabo. Ao dizer isto, estoiram gargalhadas no salão. Quanta graça têm as desventuras das mamãs, os seus trabalhos e cansaços! E a domesticação dos filhos, ah!, é tema que jamais enfastiará as mulheres, pois desperta o saudosismo das que os têm já criados e põe as inexperientes a cuspir entusiasticamente para o ar. Mas o que importa é que, contra ou favor, estejam todas juntas e não falte assunto, que o silêncio é duro, o silêncio é condenação dos tristes, dos velhos, dos abandonados. E ninguém é nada disto, muito menos num salão de cabeleireiro.
Com aparente indiferença à galhofa, está uma senhora que leva avanço em idade, tem modos de já ser avó e um ligeiro cinismo nos cantos da boca. Optou por um rosa muito clarinho e cremoso, estendeu a mão e aguarda que a manicura desate o vai-e-vem do pincel. Mas a conversa, que corre animada, é incompatível com a precisão do ofício, e a senhora espera enquanto a manicura vaza os dilemas da sua epopeia: se põe a fralda ao miúdo, ele acomoda-se, se não põe, ele borra-se; se faz um jogo, ele cuidará que aquilo é diversão, se não faz, ele perde o ânimo e levanta-se do pote; se agir como manda o pediatra, nunca mais se anda para a frente, se for como lhe diz a consciência, o miúdo acaba castigado. A menina que me faz o brushing garante que é fundamental entreter a criança enquanto ela faz o que tem a fazer, para que não se impaciente. A que lava as cabeças concorda. Não sabe ainda, tem o ventre como novo, mas ouviu dizer que a televisão ou um bom livro de histórias pode ser o quanto baste. Foi assim com a sobrinha e de um dia para o outro. A manicura insiste que já tentou tudo, o miúdo tem é muita personalidade, a quem sairá?
Inesperadamente, a senhora perde o pudor, escancara-se-lhe o riso, e a mão que tinha em espera faz um gesto largo, como quem enxota as moscas:
- Oh menina, por amor de Deus! Tem de ter calma! Então não sabe que os rapazes têm todos muita dificuldade em controlar aquilo lá por baixo?
Calam-se as mulheres, desligam-se os secadores, fecham-se as torneiras. O salão está suspenso. Um trovão rebenta a uns cinco quilómetros. 
A menina que me faz o brushing é a primeira a descoser-se. Enfia o secador entre as coxas para libertar as mãos, enrola-me uma mecha de cabelo em torno da escova, sai-lhe um risinho em solavancos, a modos de clandestino, e uma voz de mimo:
- Ai... dona Maria Isabel, veja lá bem o que está a dizer...
Faz-se luz e abre-se o caminho para a cumplicidade. Entre jovens e velhas, casadas e solteiras, ora é um piscar de olho, ora um segredinho, ora um esgar de malícia. Daí a nada, o céu desfaz-se num aguaceiro que, em poucos segundos, deixa tudo encharcado. Volta o sol e não se fala mais do catraio.

Ossos do meu ofício

Concebo com paciência e amor, sonhando com as alegrias que cada "filho" meu vai dar e com a diferença que fará entre os outros. Imagino-o perfeitinho, equilibrado, proporcionado. Seguem-se então largos meses de gestação, que se supõem para aprimoramento. Mas, por vezes, são de tal ordem as agressões, os pontapés, a injeção de tóxicos e os palpites, que o que nasce é um aleijão. Depois do parto, vêm  perguntar-me se quero que o vistam de amarelinho ou bege, estranhando que eu vire a cara e garanta que o filho não é meu.

13.2.15

O nascimento e a morte (2)

O pai dos meus filhos morreu-me no colo e se isso nunca foi dito aqui com palavra lúcida e concreta, esteve sempre nas entrelinhas, já que um fantasma é coisa velada, que se insinua, ronda, ensombra, mas raramente fala. 
Nesses dias, a minha rotina de escrita manteve-se. À cabeceira da morte, fui publicando aqui os meus textos, mas neles nunca me ocorreu vazar o cheiro nauseabundo, nem o sangue que empapava os lençóis, nem a piedade com que os enfermeiros nos olhavam, nem o choro sufocado da senhora da limpeza, tão afeiçoada... 
Ao fim de dezoito horas de uma imerecida agonia sem correspondência no verbo, perguntou-me que luz é aquela? e foi. Depois disso não fiz perguntas, não me tomou de assalto a indignação, não reivindiquei ajustes de contas com o destino nem acusei Deus de ter cometido engano. Antes obtive respostas e nasceu aí o meu absoluto entendimento com a vida e a morte, a minha compreensão do puzzle.
Deitei-me nessa noite com a certeza de ter alcançado o cume de uma montanha, de ter tido vislumbre do mais amplo horizonte, de ter chegado ao extremo possível do amor. Soube, então, que não mais poderia satisfazer-me com terra rasteira, vista de postigo, palavra fácil. Engrandeci-me na constatação da minha infinita vulnerabilidade. E, como sempre, dormi tranquila e por muitas horas, até o sol nascer, felizmente igual aos outros dias: a levante. 

O nascimento e a morte

Rosa Montero escreveu um livro sobre a morte. Desconheço o que vale. Na verdade, desconheço qualquer obra da autora, mas, pelo mediatismo conquistado, fico tão curiosa quanto desconfiada. O Ípsilon perguntou-lhe, há dias, se acreditava que as mulheres - porque dão vida - estão melhor preparadas do que os homens para enfrentar a morte. A resposta dela foi vaga. Mas eu, presunçosa, afirmo que sim. 
Como se recorda certas imagens universais, o Grito, a Rapariga com brinco de pérola, a Última ceiaGuernicaO beijo, imagens que tocam todas as existências, perpetuação de verdade essencial e redonda, síntese do horror ou elevação da banalidade, eu recordo os mortos que conheci, agonizando no seu leito, exclusivamente amparados por mulheres. Elas enfrentam o horror, o sangue, o vómito, não por azar ou dever, mas por uma coragem que lhes é inerente à condição e ao corpo. Já no homem, a coragem varia com o caráter. É raro encontrar um que, voluntariamente, tenha assistido à morte, olhando-a nos olhos, tomando-lhe a mão, dizendo-lhe o que é urgente dizer. Um homem que tenha vestido o cadáver de quem amou. 
Na morte, como no nascimento, o lugar do homem é o da espera. O da mulher é o do trabalho, da entrega, do extremo. Eu não abdicaria do meu lugar, pois nele me foi revelado o que só com carga de alucinogénios veria. 

12.2.15

Teste de História

É obrigatório saber assinalar no mapa o porto do Pireu e soletrar a palavra "dracma". Mas acerca do despontar da filosofia, do teatro, das matemáticas, da física, das ciências médicas, acerca das epopeias, das esculturas, do belo e do extraordinário, de tudo o que transformou, abriu janela e perspetiva, do que deixou marca nas civilizações, na estética e na sensibilidade, do que fundou doutrina, teorema ou visão que ainda hoje valem e sustentam o conhecimento universal, nem uma pergunta.
O ensino que praticamos só dá equivalência à vista curta. Se é para aprender miudezas, porem a canalha a ler jornais seria o bastante.

11.2.15

Ler como amar (10)

Disseste uma vez que me lerias para sempre. Por todos os dias da tua vida virias aqui, ou aonde quer que estivesse uma palavra minha. Que me seguirias em écran, papel, pedra ou muro. E que, dando-se o caso de me perderes de vista, me farejarias o rasto, como os bichos quando a fome ou o cio impelem ao salto sobre todos os obstáculos, princípios e certezas. 
Mas, vê bem, quantas promessas se fazem em vão, quanta leviandade se diz com a bebedeira de uma surpresa, no cúmulo do entusiasmo! Como é inconsequente a jura no momento em que abundam o prazer, a saúde, a alegria e a riqueza. A cegueira do amor não está na negação dos defeitos, mas na ignorância de que existe um amanhã e um além e que, nas coordenadas do tempo e do espaço, ninguém é ponto fixo.
Se ler fosse mesmo como amar, hoje seria a noite em que te deitarias de costas voltadas, oposto à minha vontade de me dar, enjoado deste corpo seco, deste hálito acre, destas mãos inábeis, da minha relutância a certos malabarismos de sedução. Na manhã seguinte, ambos concordaríamos que foi a rotina que deu cabo disto tudo. Mas, no íntimo, cada um buscaria consolo na culpa do outro.

10.2.15

O que se faz por amor...


Detalhes aqui.

Ironia

Parece feio da minha parte, mas contam-me às vezes histórias que me fazem rir das que figuram nos jornais. Apercebo-me de como não estão sob as luzes da ribalta episódios de uma dimensão arrepiante. E espanta-me a catadupa de desgraças que podem abater-se num repente sobre uma única cabeça, algumas com requinte tal que só as concebo no cinema e por isso tendo a duvidar, crendo apenas quando me é dado a ver.
Não fosse o respeito que tenho por quem me confidencia pesadelos, martírios e condenações, nunca me faltaria sobre o que escrever. Porque gente como eu, sem imaginação, precisa de se inteirar da vida, escutar atrás das portas, remexer o lixo, reservar um par de horas, todos os dias, para ver passar o grande cortejo da humanidade, onde cada um veste o traje que quer, dança a música que lhe apraz, exibe os talentos que mais aplausos ganham, mas quem encabeça a marcha pode virar-lhe o sentido sem dar justificações e conduzir ao abismo o que parecia destinado a brilhar alto. Ou vice-versa.
Indivíduo que cuide ter o dom da ironia anda só a brincar às casinhas. Irónica é a vida no seu todo e o melhor é não desdenhar nem presumir que fomos escolhidos para percorrer até ao fim o abençoado caminho da felicidade.

9.2.15

Baixa ao domingo

A Baixa do Porto tem duas faces, separa-as o esplendor da Avenida dos Aliados. 
O lado direito, para quem a desce, é o lado bom, o que ganha estrelas nos guias e nas revistas. Pelos Clérigos e por Ceuta acima, sobe a luz do sol, a esperança e o alegre burburinho dos jovens e dos turistas. Todas as ruas são como uma feira onde se vende ou partilha artes, talentos, vontades, expressões. Celebra-se o simples facto de ao dia suceder a noite e a esta um novo dia, amplifica-se o inusitado casamento entre o velho e novo, o popular e o intelectual, o estendal e a galeria, a bifana e o gourmet. Espera-se que o visitante traga curiosidade, boas pernas para subir e descer, máquina fotográfica em punho, energia para o forrobodó, e, de preferência, muita sede e apetite, que isto não é só ver, há que deixar dinheiro. Na Cândido dos Reis, nas Galerias de Paris, na Filipa de Lencastre, as esplanadas estão à pinha, cada tasco é uma notícia e cada loja uma curiosidade, pois tudo é alternativo ou diferenciador ou aquilo que faltava.
Manhã cedo, será necessária uma atenção redobrada para não pisar copos e garrafas quebrados e poças de urina ou vomitado, mas são assim as sobras desta congregadora e mediática cultura que, paradoxalmente, não inclui o respeito pelo espaço público. Assiste-se ao espetáculo e, a seguir, cospe-se no palco. 
Do outro lado da avenida, o esquerdo para quem desce, o sol fica-se pela Praça dos Poveiros porque a estreiteza das ruas e a altura das fachadas impedem-no de se espalhar. Nela poisam os sem-abrigo e as pombas, em comunhão de restos, assento e calor. Já no recato das sombras, acomodam-se prostitutas de ambos os sexos embrulhadas em casacos de pelo farfalhudo. De algum modo, também isto é uma feira, exibe-se o talento de viver à parte do sistema sem morrer de fome e de frio, um malabarismo quotidiano que para muitos dá o bastante e por isso habitua. Pagassem impostos e estariam a sustentar os funcionários que apanham os cacos do lado feliz da avenida, o direito para quem desce.
A manhã vai quase no fim e dá-me a impressão que este pedaço da cidade não chega a acordar. Em vão, procuro uma porta aberta que me sirva um café e uma água, um passeio onde o sol bata, um rosto que não tenha rugas, fome ou vícios. Há epitáfios manuscritos em muitas montras. Um casal de velhos ampara-se na tortuosa subida da Passos Manuel. O lixo endoidece com as rabanadas de vento, sacos de plástico deambulam como almas penadas e a papelada remoinha na sarjeta. Ainda há trouxas por arrumar e camas por fazer nas soleiras. O carro elétrico segue vazio. E os semáforos, únicos pontos de cor neste cenário, trabalham para ninguém.
É espantoso como o lado direito ofusca o esquerdo, mantendo invisível a decomposição dos espaços, a falência do comércio, a solidão dos moradores, o encurtar dos dias. Porém, assemelham-se os dois lados nos restos que largam, pois num e noutro estão vomitados os passeios, quebradas as garrafas, mijados os postes, as dobras das esquinas e os acessos aos parques de estacionamento. Da folia e da miséria, às vezes, parece que sobra o mesmo.

6.2.15

The house of the rising sun

O que o alemão fazia muito bem - admito - era cantar e tocar na viola The house of the rising sun. Fazia-o melhor ainda pela noite dentro, sentado no banco da praça, depois de se atestar com uma francesinha e meia dúzia de superbock. Estava no Porto a convite da família que conhecera nas Canárias: uma mãe cansada de batalhas, um filho rebelde com vinte e poucos anos e uma filha púbere, cheia de delicadeza. O alemão ia quase nos trinta, era muito educadinho, meigo no tom de voz, e sorria com sedutora constância. Ao contrário do filho, enfezado e olheirento, era vivo de cores, tinha ar de muito apetite e saudinha, largueza de peito e mais de um metro e oitenta e cinco de altura. Ao fim de uma semana de convívio na praia, a mãe já gostava tanto dele que lhe dissera, num inglês desenrascado com a ajuda dos filhos: venha a Portugal quando quiser, pode ficar lá em casa. Em Setembro ele já cá estava. A mãe correu a encher o frigorífico de cerveja e deu-lhe o quarto do filho, que pouco se ralou por passar a dormir no sofá - a mãe não era a única a gostar do alemão. Com efeito, ele veio dar vida nova àquela casa onde, antes, se murchava por cansaço ou por incompreensão. Comia que dava gosto ver, fazia rir, contava histórias, cantava, tocava. Oh mother, tell your children not to do what I have doneBebia muito, é certo, mas nem por isso fazia estragos. Com a mãe e a filha, era um toma-lá-dá-cá de atenções e carinhos e, com o filho, ele conhecia as noites da invicta, prolongando a borga até de manhã. 
À data, a filha não tinha mais de catorze anos e, por ser magrita, o corpo conservava a planura da infância, sem sinais de fêmea. O alemão achava-lhe graça, picava-a, ela devolvia com riso aberto e inocência, daí a nada umas coceguinhas, empurrões, sapatadas, tudo brincadeira, mas ao cabo de uns dias ele enfiou a língua na boca dela e a mão perdeu-se naquelas coxas tão retas como lápis de desenho. Tudo foi acontecendo a olho nu e a mãe, num impulso de orgulho, logo fez saber às amigas que a filha namorava um alemão e elas vieram visitá-la, a pretexto de um chá e dois dedos de conversa, para o conhecer. 
Foi nesta altura que o filho, como despertando de um sonho, se meteu a pensar no que acontecia em sua casa. Até gostava do alemão, era livre, viajado, boa onda, cabeça aberta. Mas não sabia o que julgar quando as mãos dele chafurdavam às claras no corpo da irmãzita e as da mãe se juntavam como quem agradece a Deus uma benesse. Pensando bem, afinal quem era ele? Contou-me ainda que o alemão não tinha bilhete de regresso e que a mãe fizera saber que a casa era sua enquanto ele quisesse ficar. 
Depois, com os olhos a transbordar de culpa: ontem ele fechou-se com a minha irmã no quarto, a minha mãe pediu-me que não os incomodasse, chamou-me mandrião e disse-me que fosse fazer pela vida. 

5.2.15

O perdão

Uma das minhas sobrinhas, que se enxertou e floresce na banda oeste das Américas, diz que por lá os portugueses são muito considerados e eu sinto-me apaziguada. O meu sentimento deve ser parecido com o do senhor Pereira: quando alguém elogia os atributos da mulher, talvez lhe ocorra que a falta de coragem para investir no novo amor não seja descabida. 
Nestas alturas, condescendo e penso que, às tantas, o meu país está apenas cansado e por isso se curva tanto e espera. O patrão cansa o funcionário, o ministro cansa o eleitor, o médico cansa o doente, o marido cansa a mulher, os pais cansam o filho, o aluno cansa o professor, e tudo isto com os devidos vice-versa porque, nas curvas e contracurvas da nossa História, são dúbios os papéis da vítima e do carrasco. Está cansado o utente, o contribuinte, o estudante, o cidadão na totalidade dos seus direitos e deveres, obrigado a correr, a pedinchar, a servir. E, por estar cansado, o meu país, não obstante rico em talento, saber e afeto, ficou fraquinho de caráter, mole das pernas, os seus princípios são como barro fresco, o credo muda conforme o santo que vai no andor e a ladainha com que se operam milagres e obtêm favores já todos sabemos de cor. Mal se ouvem agora os cânticos das glórias e das conquistas, que vergonha de tudo isso ter desembocado em tudo isto! Alguns ladram mas logo se afastam para deixar passar a caravana que, se for de brilhos e eloquentes promessas, ainda vai serenando a indignação. É que há muito sabemos que insistir na verdade não tem como retorno a mudança, mas sim a solidão e, tantas vezes, o ridículo. 
Então, se eu pensar que o mais país está apenas cansado, é mais fácil perdoar e perdoar-me.

(o senhor Pereira e a mulher entendem-se agora tão bem que dá gosto. Ela deixou de implicar por dá cá aquela palha, ele tem vindo a abandonar as poses autoritárias e a desistir de verdades absolutas. Não se amam, não se desejam, mas harmonizaram-se. Talvez o facto de ele ter uma amante lhes tenha salvado o casamento. Ela melhorou porque quer preservá-lo. Ele melhorou porque não quer levantar suspeita. Assim se convencem ambos que isto, ainda que por linhas tortas, é, pelo menos, como Deus lhes mandou que se escrevesse: até que a morte os separe. E fica tudo perdoado.)

4.2.15

Tristeza de pantufas

Disseram-me que escrevo coisas muito tristes, pareço uma velha de pantufas enterrada num cadeirão à beira da janela. Não é, porém, de tristeza nem de velhice que sofro, poderia facilmente demonstrá-lo a quem nunca me viu se isso me fosse exigido por decreto. Sucede apenas que não consigo aligeirar a densidade da vida e, em boa verdade, sou-lhe tão grata que insisto em dar-lhe o justo protagonismo em tudo o quanto olho, escuto, toco ou amo. Não me chega a gratuita nomeação de assobio de vento, nervura de folha, fase da lua, gota de sangue, útero de fêmea, linha de texto, aperto de mão. Procuro organizá-los no território da minha sensibilidade, que me ensinaram a expandir sem medos, e atribuir-lhes um corpo que revele tudo o quanto há de belo e de trágico na realidade. É fascínio e não tristeza. Sou tola, pasmo facilmente, tudo me apetece perguntar, não estou muito mais à frente dos meus filhos, a quem ainda faltam dentes e buço. Mas toda a forma de estar tem sombra e reverso. No meu caso, não preciso de ler jornais ou de saber que hoje é o dia mundial da luta contra o cancro para me apiedar da condição humana e descrer de vidas perfeitas. 
Não quero, porém, que o leitor saia daqui a chorar só porque o vento, a chuva e os livros chatos existem, por isso vou resumir a mensagem de anteontem, num tom mais alegre, capaz de dar alento aos que venham à blogosfera em busca dele: 
Nestes dias de temporal, há lá coisa melhor do que ficar no aconchego da minha casa lendo uma obra-prima da literatura mundial e apreciando os meus filhos a crescer? 
Se assim o post vos parecer mais interessante e animador, temo não ser eu a velha triste de pantufas.