21.10.14

Ler como amar (9)

Sentir que o que lemos foi escrito a pensar em nós - eis um dos muitos equívocos que disparam a magia, geram a expectativa e alimentam a dependência.

20.10.14

Legítima defesa

A desonestidade não é o sintoma de um casamento arruinado. É antes a arma a que, invariavelmente, é preciso recorrer para o salvar. Nessa hora de aflição, em legítima defesa, com o pânico de ficar só e à deriva, não há diferenças: qualquer manso vai buscá-la aos fundos obscuros do caráter e faz uso dela sem pensar duas vezes.

19.10.14

Traição

A partir de certa idade, vigia-se o ventre de uma mulher como a uma rede de conspiradores. Nunca se sabe quando, no silêncio e na fundura, congemina o momento de atirar à cara tudo o que deu e fazer-se cobrar. E pode dar-se então a ironia de a carta que anuncia a morte ter o mesmo remetente da que convidou ao amor e anunciou a vida. 

18.10.14

Urgências

Podia escrever mais vezes o que penso sobre factos e acontecimentos, mas o que penso não tem relevância nenhuma num mundo onde toda a gente pensa em tudo mais depressa do que eu. Não posso competir com likes, citações e sentenças instantâneas. Chegarei sempre tarde e a despropósito, como uma dor de costas num serviço de urgência já lotado de cardíacos.

17.10.14

Carta de amor

O rapazito a dizer-me, como quem confessa uma vergonha, que tinha recebido uma carta de amor ridícula. Pelo tom leviano e a pouca idade, logo imaginei que o seu julgamento nada tivesse a ver com o do poeta. Desdenhou dos corações espalhados no papel, da promessa de fidelidade, do encontro que ela marcava, para esse final da tarde, no dobrar de uma esquina ali perto, e da assinatura, que era uma nuvem de batom rosa e perfumada.
- Parece-me igual a todas as cartas de amor das meninas da vossa idade...
- Oh, minha senhora... Nem imagina quem ma enviou...
Se eu visse, entenderia o desdém. Explicou, por palavras que não foram estas: a miúda era feia de assustar. Um olho insubordinado. Cabelos lisos, sem gracinha nenhuma, quando ele se perdia era por um festival de caracóis. Incisivos desumanos, coisa para empecilhar um beijo. Tão magra que, das duas, uma: ou passava fome e metia dó, ou era ruim e fazia medo. Mas o mais repugnante era o tique nervoso: afagava constantemente o lóbulo da orelha, como fazem os bebés rendidos ao sono.
- Ao menos respondeste-lhe a dizer que não vais aparecer?
- A carta já 'tá no lixo, rasgada em pedacinhos. 
Suas razões eram óbvias, garantiu-me que qualquer outro faria o mesmo. Uma carta de amor vale consoante quem a escreveu. Vinda de quem vinha, era nada.
- E se fosse uma nota de cem euros?
- Isso já era diferente! Uma nota de cem euros vale sempre cem euros, não importa de onde vem!
- Quem disse?
- Sei lá... Deus?
E foi-se. Os pés trôpegos como barbatanas fora de água, meio rabo à vista por não lhe caber nas calças, o tique de encolher os ombros a cada passo, como uma marioneta. Lentamente, está a caminho de ser Homem mas vai já tão trapalhão do corpo e confuso das ideias que temo que se espalhe antes de lá chegar.

16.10.14

Espetos de pau

A gente ouve os professores, os psicólogos e os pediatras em suas profundas dissertações e advertências - quase ralhetes! - sobre educação e valores e imagina os seus filhos como anjos de bondade, incapazes de desacato, desde o berço conscientes das obrigações,  acordando e adormecendo sem sinal de trauma, nódoa ou inquietação. Adivinha-lhes nobres futuros como cabeças de quadro de honra, voluntários contra a fome, chefes de famílias imaculadas, pacifistas, despojados, desinteressados, desmaterializados, partilhando seu pão, cedendo o seu lugar, dividindo o seu ganho.
Até que um dia se cruza com eles no supermercado.

15.10.14

Post-scriptum (poesia)

Não. A matemática não é a disciplina das contas
A matemática é a ciência que organiza o real, até ao infinito. O raciocínio matemático não limita. Expande. É a mais fascinante das linguagens do universo, que abre a porta a todas as outras. A matemática traduz o rigor da infinitude, a ordem do abstrato, a lógica invisível do equilíbrio. Decompõe a relação entre todas as coisas. É belíssima.  
É pela matemática que sabemos, por exemplo, que um triângulo escaleno, esse que parece sempre que tem um braço mais atrevido, a querer chegar onde não deve, continua, ainda assim, a resultar em 180º quando somados os seus ângulos internos. Exatamente como um triângulo equilátero, aparente modelo de perfeição e harmonia.

14.10.14

Poesia

Faz-me pena a poesia medíocre.
Só quem sabe de música e de matemática, ainda que possa ser analfabeto, faz um poema que valha.

Livro de sonhos

Ganas e ambições, ainda são muitas as que lhe puxam a carroça. Mas sonhos, mundos de irrealidade ou sublime elevação, tem quase nenhuns. A idade foi descartando o devaneio, já lá vai o tempo de suspirar pelo impossívelPorém, enquanto dorme, a magia acontece. Confidenciou-me que renasce numa existência paralela. Sonha com tal grandeza, lógica, duração e detalhe que acorda sem saber se mais vive de olhos abertos ou fechados. Cruza todos os que conhece com aqueles que mal lembra, outros que já morreram e alguns a quem nunca viu o rosto. Versões complexas e intrincadas, cheias de absurdos que não o serão tanto assim, picos de intensidade dramática, amantes, feridos, mortos, partos, suspeitas, revelações, catástrofes, felicidades que em mil anos da vida que tem não alcançaria. E o incrível é tudo ter uma sequência narrativa que bem podia ser obra da realidade. Sabes que mais? Se eu tivesse jeito para escrever, até podia fazer um livro de sonhos...
Aqui há dias - e o tom de voz acanha-se - sonhou que namorava com o Cristiano Ronaldo. Ignora o que lhe passou pela cabeça, o rapaz podia ser seu filho e, tirando as pernas, que não são mais que a sua obrigação, não vê nele atrativo. Se tivesse sonhado que assistia a um jogo e lhe aplaudia os golos, ou que ganhava um autógrafo e um retrato a dois para o facebook, compreendia-se. Mas andar com ele, mão na mão, feliz da vida, vendo montras, trocando impressões e carinhos, cumprimentando estranhos? Isso é que não engolia. Tanto homem que lhe podia encher os sonhos de prazer e satisfação e saia-lhe aquilo. Acordara com o sentimento de perda de tempo. Passar a noite em miminhos e pieguices com o miúdo mais lhe parecera um castigo do que a oportunidade de uma vida. Repara, isto não é sonho de mulher, é sonho de adolescente...
O sonho é uma dimensão dolorosa. Assistimos de mãos atadas, desautorizados no avanço e no desfecho, sujeitos ao que uns dizem ser a vontade inconsciente, outros garantem ser um esboço do destino ou um caldeirão mágico de recordações. Afirma-se, mas eu não estou certa: os sonhos são criação exclusiva do nosso cérebro. Urdimos a teia onde acabamos enredados, muitas vezes a espernear até ao sufoco. Acordar pode ser o maior de todos os alívios, mas fica sempre a impressão de um pé preso do outro lado. 
Mal menor que o pé lhe tenha ficado entre os do Cristiano Ronaldo. 

12.10.14

Tudo isto é triste

Comecei a cantar Tudo isto é fado para embalar o mais novo. A infância, quando é a valer, cobra tudo ao corpo no final do dia. Ficam as crianças como um saco vazio e frouxo, as pernas reclamam das correrias, os braços queixam-se dos arremessos, todos os sentidos exigem o justo repouso pela aprendizagem da vida. Não havendo local adequado para dormir, há que procurar um colo pois é sabido que aí se faz a melhor cama, não apenas para o corpo mas também para o espírito. 
Perguntaste-me outro dia se eu sabia o que era o fado... O meu timbre controlado, quase um sussurro ao ouvido, chamou a atenção de outros dois com idade aproximada. Chegaram-se devagar. O rapazinho prontamente disse o nome, Eu sou o Gui, também posso ouvir? A menina, mais recuada, preferiu ficar anónima mas generosamente mostrou a falta dos incisivos. Continuei a cantar baixinho, o meu filho entorpecendo nos meus braços, com um olho neste mundo e outro a caminho do sonho. O Gui pousou no chão o tablet que trazia debaixo do braço, sem cerimónia alapou numa das minhas pernas - a outra estava ocupada por direito inalienável -, a menina desdentada veio por trás, começou a fazer-me uma trança no cabelo com a autoridade própria de certas crianças, que não perguntam nem esperam. E de repente eu vi-me como uma árvore de três frutos pendurados, cantando tristezas para receber o Outono. 
Enquanto cantei, ninguém falou ou mudou de lugar. Mas quando eu disse choram guitarras, eles arregalaram os olhos, descaíram-lhes os queixos, e a menina, num assombro: Podes dizer isso outra vez? Retomei o refrão e quando voltei ao choram guitarras, já não era só o espanto, mas o encantamento que lhes dilatava os olhos. O Gui, de mãozinhas sapudas tapando a boca escancarada, como se tivesse visto maravilha que não coubesse neste mundo: Como é possível?! As guitarras também choram? A menina queria mais: Espera aí... Eu não percebi muito bem o que é o fado. Podes cantar tudo do início? Cantei. E cantei. Voltei a cantar. A cabeça tombada do meu filho suava no aconchego do meu peito, o Gui e a menina desdentada quietos e reverentes diante de mim, a trança ao abandono, desfazendo-se com vagar nas minhas costas. 
Antes de vir embora, disse-lhes que pedissem aos pais para ouvir guitarras e então comprovariam como elas choram quando tocadas com mestria. Tão delicadas e sensíveis que são! Dando-se o caso de não lhes verem as lágrimas, que fechassem os olhos e as imaginassem, deslizando nas cordas como pelas rugas de uma face muito antiga. Depois fugi com o meu filho ao colo, temendo que alguém viesse pedir-me contas por andar a dizer às criancinhas que o mundo está repleto de belíssimas tristezas, de uma harmonia tal que apetece agradecer aos que padecem de dor. 
Não se faz.

10.10.14

Mas...

... se é comum a todos este mal-estar, se a cada um consome o sentimento de girar em contramão e mói o peso do mal e da injustiça, se todos se confessam, em maior ou menor grau, alvos da inveja e vítimas do egoísmo, se, no íntimo, ninguém escapa à convicção de estar certo entre errados, de ser direito entre tortos, de sentir entre os insensíveis, de se preocupar entre os indiferentes, de se achar bonzinho entre bestas e carrascos, de estar inocente entre os manipuladores, se ao espelho cada um se vê diferente, marginal, distinto e, às vezes, profundamente só, se todos, invariavelmente, se doem do mesmo, então... 
Então em que metade do mundo estão os responsáveis pelo caos, pela perversidade, pela injustiça, pela pancada que levamos ao acordar de manhã julgando estar aquém do que merecemos ou acima do que realmente somos? Serão eles a outra metade de cada um e estará a falha apenas no facto de não nos vermos do avesso e negarmos as linhas com que nos cosemos? 
Quem nunca ouviu o ignorante chorar a ignorância do mundo?

9.10.14

O grande amor

Não tenho por que invejar os que conhecem um grande amor, pois também tenho a minha bagagem. Mas invejo, com uma inveja atinada, da que morde os lábios e logo ajoelha para se redimir, os raríssimos que são capazes de o escrever à altura.

8.10.14

Teoria da "relativização"

Depois de seres mãe, deixarás de te importar com coisas pequenas. 
Assim me diziam os mais velhos. Que, com a maternidade, eu havia de aprender a relativizar. Que a importância de uma vida nos meus braços, em dependência de alimento e afetos, diminuiria o peso das realidades quotidianas. Deixariam de me doer certas ofensas. Tornar-se-iam miudezas as causas pelas quais erguia antes o punho. As minhas preocupações, revoltas e paixões acomodar-se-iam no canto da alma onde a indiferença é rainha. E com uma lucidez impressionante, eu distinguiria o que é história do que é apenas cenário. 
No embalo de um amor novo, com o centro de gravidade reposicionado, passariam a importar-me antes os sonos, os vírus, a magia dos instantes e da rotina, o esforço de dar o meu corpo, a minha entrega abnegada. Um sorriso dele e eu esqueceria tudo, o mundo retomaria o seu eixo. Um espirro, um ataque de tosse ou um assomo de febre, e teriam a dimensão de insetos os problemas do trabalho, as notícias do jornal, os gemidos noturnos da vizinha. Os primeiros passos que ele desse sem apoio, tornariam ridículas e levianas todas as alegrias que movem os que não têm filhos.
Enganaram-me. Ou enganei-me eu no curso da vida e, mais cedo ou mais tarde, talvez vá rebentar-me por circular em contramão. Porque tudo me parece cada vez mais imenso e importante, vieram à tona outros prazeres e outras dores que não habitam a minha casa mas em que reparo porque vivo mais atenta, de janela sempre aberta. Meus olhos são divergentes. Tenho um sobre os meus filhos e o outro retorcido, fugidio, às voltas por este mundo e por outros de que só suspeito.
Recordo, porém, de modo vivo e com os órgãos dos sentidos ainda inflamados, o dia em que me foi dada oportunidade rara para mudar de ideias e dar razão aos experientes. Faz agora uns quatro anos, que duvido terem passado ao ritmo do calendário. Não mais esquecerei, a não ser que os meus neurónios se empreguicem de vez. Havia polícia, bombeiros, sangue, vomitado, delírio, ele de olhos brancos e ausentes deste mundo, no ar a ameaça de uma sentença irreversível. Mas até nesse momento, e sobretudo nesse momento, com as pernas falhas de pânico e o coração num desatino que não mais conheci, tudo me pareceu maior e mais relevante ainda, cada partícula com o peso tremendo do universo, cada rosto estranho a esperança da salvação. No longo tempo de espera pelo regresso dele, uma bolacha Maria evitou-me o desmaio, um afago anónimo refreou-me os espasmos do ventre, uma parede deslavada foi meu único amparo, um grão de pó foi prova de vida, subindo e descendo com a corrente do respirar. Tantas coisas pequenas sustentando-me o corpo e o espírito! E a minha relativização continuou a ser inversa à que me haviam prenunciado.
Não há por que empequenar certas coisas depois da maternidade. Tudo me importa cada vez mais. O tempo importa, em todas as suas conjugações, importa toda a realidade, todo o ser humano, toda a solidão e todo o ruído, miudezas, rotina, trivialidades, gente má, gente feia e gente boa. Importa-me até uma pedra no chão, pois não sei se será minha arma na hora de me defender. Sou permeável e comovida. E são mais, muitas mais, as razões para a minha indignação, neste ou noutros cantos da Terra.
Depois de seres mãe, deixarás de te importar com coisas pequenas. Não existem coisas pequenas. 

7.10.14

A importância dos nomes

Chamavam-lhes "empregadas" no tempo da minha escola primária e, à época, eram implacáveis. Uma ou outra, mais agitada dos nervos, tirava um chinelo e dele fazia arma de arremesso quando precisávamos de freio às tropelias. Fugíamos a esconder-nos nas casas de banho, tínhamos medo. Às mais amorosas, um profundo e leal respeito, pois era nosso o colo delas nas horas de angústia e suas as mãos que nos guiavam quando a largueza dos recreios e o labirinto dos corredores eram ainda novidade.
Depois, passaram a chamar-se "contínuos" e "auxiliares", porque, afinal, ninguém é empregado de ninguém e devem as criancinhas ter isso presente desde cedo. À falta de outros métodos, pela palavra se vai tentando ensinar o respeito. Também se ensina o religioso "obrigada" cuidando que é quanto basta para incutir o valor da gratidão. 
Hoje, chamam-se "assistentes operacionais" e são apresentadas com pompa e circunstância no início do ano letivo. Moderadas nos castigos, nem sequer podem arremessar chinelos porque a lei está agora cegamente ao lado das crianças, com a espada suspensa sobre as cabeças da autoridade. E quando dão dois berros à canalha para manter a ordem, até pode acontecer as "assistentes operacionais" levarem a resposta que ontem ouvi por acaso: "Ei, ó dona Maria, não chateie, baze mas é daqui!" 

4.10.14

A beleza

Toda a minha juventude a acreditar que o importante é o conteúdo, que da aparência e da forma vem apenas ilusão, engano e enfeite! E agora, quase só me importa a beleza. A mágica incidência da luz, o traço cirúrgico, o equilíbrio sensível, a lógica das proporções, o verso depurado, tudo isso me comove e me preserva a crença em deuses e génios. O conteúdo é coisa frágil, maleável, duvidosa. As mensagens mudam, a alma deforma-se, o caráter fraqueja. As vontades têm fases como a lua. Significados, guardam-se nos dicionários. Grandes propósitos podem estilhaçar-se contra o primeiro obstáculo. As intenções, não dizem que o inferno se enche até das boas? 
O rigor e a verdade estão no que os sentidos alcançam. Por isso me sossega ver-te como vi hoje. Não importa o que pensas e ao que andas, noutro dia vemos isso. Agora, basta-me olhar e saber que em nada eu devo mexer para apagar, acrescentar ou colorir.

3.10.14

Calceteiros

Inútil, explicar-lhe que não se escreve para televisão como se escreve uma monografia. O homem, um acumulado de títulos e graduações, não só quis ter onde despejar todo o saber de uma assentada, como não admitiu ensinamentos sobre outras artes. E amorosamente se dedicou ao trabalho, escrevendo como quem enfeita para desfilar na passarela, frases com oito linhas, palavrões que só com enciclopédia desvendo, advérbios de todos os modos, vícios de discurso político, laivos de poesia barata, reviravoltas e arrebiques. Avisaram-me que nem ortografia corrigisse. O sôtor abespinha-se, facilmente é ofendido na sua dignidade académica e, eu que veja bem, tem idade para ser meu pai. As lições não podem sofrer inversão, têm caminho de sentido único. Se o sôtor descuidar a língua, é descuido legítimo. Ou passará a ser.
Não sei se é coisa exclusiva deste país ou se a todos toca - nem que no íntimo e melhor disfarçado - mas certas pessoas atingem tal estatuto pela via das bibliotecas e dos gabinetes de assessoria, que não se pode desdizer-lhes um comentário que seja sobre uma pedra da calçada. Ninguém duvide: se é professor doutor, é calceteiro de certeza. 

30.9.14

Guia turístico

A blogosfera está a abarrotar de "lideres de opinião", dela nascidos e por ela mantidos. Na sua maioria, já não se trata, porém, de pessoas que influenciam e ajudam a formular ideias e pensamentos, mas de gente a quem basta repetir o que qualquer comum mortal sabe e diz, com a única vantagem do razoável domínio da sintaxe e da ortografia. Não abre caminho. Limita-se a ir à frente num itinerário que, por ser em círculo, está mais do que aberto, palmilhado e decorado. E vai comentando o que vê como qualquer guia turístico, com ladainha decorada.

29.9.14

Os cortes continuam

Não sei se foi por causa da árvore, mas fui também eu tomada por uma enorme vontade de cortar. Uma motosserra começou de repente a zumbir dentro de mim com dentes afiados, vibrantes, farejando excessos e inutilidades. Cheguei ao trabalho com a frescura da manhã que me despertou, pronta para começar a cortar. O ímpeto era tal que nem tirei o casaco. Atirei as minhas coisas para cima da cadeira e disse ao jovem designer "sai daí, quero cortar". Então cortei. Agucei as pontas dos dedos e cortei. Cortei palavras, frases, parágrafos inteiros que tinha demorado dias e dias a escrever. Cortei com uma clarividência feliz, como se as palavras realmente essenciais me saltassem à vista, vivas, expressivas e gordas, estrangulando as outras, as fúteis, ao ponto de estas me pedirem o golpe de misericórdia. Cortei com ligeireza o que um dia antes cuidava ser imprescindível. Depois de eu cortar, cortar e cortar, satisfeita com esta súbita e rara lucidez, o rapaz sorriu, igualmente satisfeito: agora já respira melhor. O branco das páginas florira, expandira-se, como revelação de possibilidades ou apenas um humilde, necessário e oportuno intervalo.
A escrita é um extraordinário exercício para quase tudo na vida.
(Abril de 2012)

Continuo a trabalhar para reduzir em tamanho e redobrar em força. Cortar, limpar, polir, afiar. Sonho com o dia em que, com meia dúzia de palavras, possa criar uma frase capaz de golpear como um sabre, iluminar como um relâmpago, espantar como a aparição de um morto.

27.9.14

Envelhecer

Tenho pânico de envelhecer. A meio da vida que estou, às vezes experimento a nostalgia. E assusta-me imaginar o dia em que ela se torne a maior de todas as tentações, o único prazer consentido.

25.9.14

Não, não é por aí...

Entre todos aqueles que conhecem o "Cântico Negro" de José Régio, chegará quase aos cem por cento os que afirmam que o poema podia ter sido escrito por eles - se tivessem o dom, pois claro. 
E acha uma pessoa que veio ao mundo para desflorar florestas virgens só por estar descontente com o estado do país, por, de vez em quando, lhe saltar a tampa e pedir o livro de reclamações, por ser vegetariano, ter gosto em passear sem destino ou por se atrever a usar saias compridas quando a moda está para as curtas! 

24.9.14

Terrivelmente amados e amantes

À entrada da escola, a criança berra como um cabrito, tem as faces a arder, baba e ranho por todo o lado. Sem largar as pernas da mãe, atira um pontapé à mochila para que fique claro o menosprezo por isto das lições e o despudor em exibi-lo ao mundo. Solidária, acode uma avó que está por perto. No esforço de apaziguar o coração da mãe, faz-se valer da sua experiência com dois filhos e três netos. O melhor é virar costas ao menino, em dez minutos há de calar-se. Duvida? Então que venha espreitar mais tarde, à socapa, e confirme que está tão feliz como os outros. O mal é quando os pais são frouxos e mais medrosos que a canalha, acrescenta, com o cuidado de voltar o rosto para o outro lado. O porteiro concorda: há que ser firme, está quase a tocar para dentro, a professora chegou, seis anos é mais do que idade para saber das obrigações e aceitá-las. 
Mas a mãe, não é bem assim, tremem-lhe as mãos e a voz, tem o coração partido e o cabelo desgrenhado de tanto o remexerem duas mãos desesperadas. Com os puxões à blusa, há um seio quase de fora. O menino continua em aflição, como se às portas do inferno. Não governa braços nem pernas e vai acertando onde não deve. Abeira-se outra mulher, pousa a mão no ombro da mãe:
- Tenha calma... Criança realmente feliz e amada, é natural que não queira separar-se da mãe. O amor é assim mesmo...
Cai-me o queixo. Eis o amor, argumento do desespero, alegação de defesa para todos os desacatos e desmandos, os pontapés às mochilas e os rasgões na roupa, o bofetão de um homem na sua mulher, que passará a tareia da pesada dando-se o caso de tão bom sentimento aumentar. O desnorteamento, o medo, a insegurança, os nós cegos e apertados entre as pessoas, a tudo isso, parece-me, a tudo isso se vai chamando amor, uma romântica conveniência, que cala e desarma, mas por que carga de água nunca dá paz?
De longe, vejo o meu filho prestes a entrar na sala, volta-se, atira-me um aceno ligeiro, ri-se de boca desdentada. E sujeito-me à vergonha pública de não sermos assim, terrivelmente amados e amantes.

23.9.14

Novelo

Raramente conto histórias sobre homens porque não me puxam pela imaginação. Sejam engravatados de hábitos militares, adolescentes de cuecas à mostra, arrumadores nas lutas pelo poder local, pais que esperam seus filhos no portão da escola, bêbados, ociosos, boa onda, intelectuais, proprietários, estudantes, de esquerda ou de direita, os homens são o que está à vista ou o que, pragmaticamente, contam. E o que não se vê é porque se esconde tão fundo que só a psicanálise alcança, a almofada sabe ou em momento extremo se revela. Eles o dizem, dando graças: não complicam nem se enredam e, felizmente, só têm cinco sentidos. Confiemos.
Mas diante de uma mulher, muda o caso de figura. Arrebito a orelha e olho pelo canto. Uma mulher tem mais qualquer coisa, há sempre uma nesga aberta na sua face, uma denúncia no seu olhar, um gesto mínimo traindo a sua intimidade, um modo de andar que não é só da perna, um suspiro ou um esgar fora de tempo, que desarmonizam e por isso chamam a atenção. A gente agarra o fio, puxa, e parece que desenrola lá de dentro, como um novelo, o mundo inteiro. 

22.9.14

Ler como amar (8)

Certos livros deviam aparecer-nos apenas em final de vida, porque, depois deles, todos os outros parecem mornos, a sua invenção um embuste, a sua moral arrancada a ferros, as suas pequenas falhas imperdoáveis. Vagueio pela estante mas nada salta à vista no ordeiro alinhamento das lombadas. E, na mesinha de cabeceira, arrastam-se coisas que me enfastiam e que só pela esperança de uma súbita revelação levarei até ao fim. Algumas com nome grande, prémio conquistado e aplauso unânime, porém, a cada página fico com a impressão de ter ganho rigorosamente nada.

19.9.14

Inversão

Quanto mais vejo, em menos creio.
Sou uma triste inversão de São Tomé. 

17.9.14

As meninas (2)

Os passeios quebrados, os azulejos das fachadas, as horas em que a passagem de nível fecha, Mariana já decorou. Há seis anos que faz o caminho sozinha. No primeiro dia - ainda tinha dentes de leite - repetiram os avisos até ela lhes ser indiferente. Que não fizesse desvios nem respondesse a estranhos, lobos como o da história há por aí a rodos, com fala igualmente mansa e muito menos pelo. Avançou. Uma menina a caminho da escola, a mais pequenina entre os pequeninos, sem guia nem amparo, tomando conta dos seus passos. Espera-se que o mundo a trate bem, que tenha respeito pela sua inocência, compaixão pelas suas dúvidas, cuidado com a sua fragilidade. Amanhã há de ser mulher e mulher quer-se inteira, depois se verá para o quê.
Agora, Mariana também toma conta de recados. São coisas menores, mas sem elas o quotidiano da família não se cumpre. Na volta da escola, já tem autorização para fazer desvios: passar no talho, na papelaria, no sapateiro. Não há mal em esquecer alguma coisa, a mãe é branda de feitio e não pode dar-se ao luxo de investir em guerras sem justíssima causa.  
Toma ainda conta do irmão. Apanha-o na escola primária, luta para lhe vestir o casaco porque ele é tão buliçoso que tira a paciência a um santo. Mas que fazer para o domesticar se, de facto, é uma alegria seguir pela rua pontapeando pedrinhas, trepando aos postes, ensinando o caminho ao diabo, já que tem quem lho ensine a ele? Mariana pergunta-lhe o que há de novo nos cadernos, em casa lancham, fazem os exercícios, quando a mãe chegar estarão frescos e lavados, prontos para o jantar. Ainda há meninas assim, começam cedo a ser mães dos filhos que não pariram. A sua infância é avessa, desdiz as teorias dos entendidos, mas pode até dar-se o caso de ser feliz. É engano pensar que sempre falta amor onde abundam trabalhos.
Tenho-a hoje à minha frente. Espanto-me. Cresceu como crescem as meninas nesta idade: da noite para o dia. Arredondou-se nos sítios certos, a testa e o queixo são um carnaval de sebo e borbulhas, tem outro modo de se mexer, sorri só de um lado e os caracóis andam livres pelas costas. 
- Já sabe da novidade?
- Qual novidade?
- É que este ano calhei com o seu filho. 
Muito abertos, os olhos dela brilham como duas safiras, líquidos de orgulho e alegria. O seu excesso de luz entontece-me. E com o filho beijado, a minha boca adoça até ao êxtase pois tenho um coração de sentimentos vulgares e universais. Levo um abraço sem precisar de me curvar. Trocamos votos de um bom dia, bom ano, boas notas, bom trabalho, tudo de bom. Um adjetivo basta para todos os desejos do mundo, que a felicidade é poupadinha nas palavras, a tristeza é que tem por hábito encher-se de lantejoulas e exibir malabarismos, superlativos, figuras de muito estilo. 
Depois:
- E não se preocupe. Eu tomo conta dele. 

16.9.14

As meninas

No reencontro, junto ao portão da escola, elas mostram que aprenderam cedo o que parece inevitável virem a ser. São ainda meninas, mas já cheias dos vícios e dos tiques que dão fama à condição feminina. Alguns são clássicos, vêm nos livros, outros são herdados das mães, tias e irmãs, bastantes serão ditados pela televisão e as revistas. É com estridência que se aproximam umas das outras, abraçam-se, soltam gritinhos histéricos, fazem-se festas, elogiam-se na cor das unhas, mostram espanto com o arranjo do cabelo que uma, mais ousada, experimentou. E as sapatilhas, que giras! Onde compraste? Gosto imenso da tua saia! Estás o máximo! Posso fazer-te uma trança? Trouxeste os batons? Mas, para o caso de haver quem, precipitadamente, julgue que as meninas só pensam em moda, saiba-se que há quem fuja à regra. Houve uma que chegou a correr, abalroou outra de surpresa saltando-lhe para as cavalitas, e, num guincho, anunciou a quem quisesse ouvir:
- Ó minha sortuda de merda, ficaste na turma do gajo mais bom da escola!
Os tempos mudam, mas as vontades nem tanto e seria ilusão esperar outra coisa. A diferença é que, quando tinha eu a idade delas, estas coisas eram ditas em sussurro, às escondidas, tantas vezes por escrito em papelinhos clandestinos. Não apenas porque tínhamos a noção do ridículo, mas sobretudo porque o segredo era a alma das grandes amizades.

12.9.14

Vindima

Quando eu era pequena, parecia um mundo estranho e coitado esse de apanhar a uva e fazer o vinho. No Porto, os meus colegas da escola apalermavam com a lonjura de onde eu vinha. Santo Deus, existia tal coisa? Havia estrada para lá? Tínhamos automóvel ou carro de bois? O rio era o mesmo? Impossível. E por que carga de água então eu não andava descalça, não tinha sotaque, nem o ranho me pingava do nariz, se a minha terra era atraso, vida selvagem, ignorância pura? 
O meu pai aprendera cedo a rir-se disso e também cedo começou a avisar-me que tivesse cuidado, porque, dizia-me, os maiores parolos podem estar nas cidades grandes, apanhando sol nas esplanadas, vendo montras em carreirinho, entretidos a tirar medidas uns aos outros. Pasmavam com uma galinha, enojavam-se com a ideia tosca de uma pisa, roga não era mais do que a terceira pessoa do verbo "rogar", cardanha soava-lhes a nome de doença contagiosa e mortal. E de tudo isso riam e desdenhavam, pois lhes parecia que, havendo miséria de recursos no interior, também haveria certamente miséria de sabedoria, de prazeres e de coração. Coitada de mim, azarada de ter nascido no fundinho do país. 
Trinta anos passados e tantas voltas deu o mundo, tantos canais e linhas se abriram, tanto cansaço súbito dos centros comerciais, das vias rápidas, das pressas, do consumo e das consumições. E eis agora o gosto desenfreado pelo que chamam de "regresso às origens" e de "genuinidade", desde que seja tudo gourmet e encenado a gosto, claro.
É Setembro, passo os olhos pelos jornais e revistas, não há um que fuja às sugestões de vindima no Douro, seus encantos e finezas para desfrutar à luz do lifestyle. Temperam tudo com histórias do passado porque a desgraça, vista pelos olhos de quem está a salvo, tem, afinal, um irresistível romantismo. É apenas questão de dar a moldura certa. E o rio, que é de todos e sempre foi, que não pede licença para correr, não paga portes de envio, nem se faz cobrar pelo desfile, é agora o trunfo que aumenta o preço dos quartos e dos restaurantes. Qualquer coisa como pagar a água da chuva num hotel sem telhado. 
Agora, é outro o discurso que ouço: feliz de mim, privilegiada por ter ali ter nascido. 

11.9.14

Regresso às aulas




* Obrigada ao meu Professor, que me enviou isto. 

É meia hora de entrevista, nem vale a pena clicarem se estiverem muito ocupados.

10.9.14

Conta-me histórias

Não percas muito tempo a dizer-me as tuas opiniões. Menos ainda se forem longas e rigorosas, enredadas com a pompa dos discursos políticos, proferidas com a assertividade sujeito-predicado-complemento direto, temperadas com o isto à luz daquilo ou na perspetiva daquele. Se és a favor ou contra o acordo, a lei, o rico, o pobre, o ontem, o hoje, a vingança, o amor, acabarei por saber na hora de te mexeres. Formas de pensar nem sempre são formas de ser e, muitas das vezes, não passam de modos de dizer. Além disso, sabes o que acho das convicções: são suicídio. Quando a gente insiste num lado, começa logo a morrer dos outros. Poupemo-nos à terrível humilhação de nos faltar o ar quando estamos no cimo do palanque. 
Conta-me histórias. Prefiro que me contes histórias, nem que as inventes. Antes ser iludida pela tua imaginação do que pelos teus juízos. Dá-me a visão do que viste. Dá-me os detalhes, as paisagens, o pó das estradas, dobra-te quando contares da velhice, encolhe-te para falar dos miseráveis, encorpa a voz pelos poderosos. Quero ver ainda como és os amantes separados, os que morrem sozinhos, os que nascem com ferros, os que perdem memória, os conquistadores, os arrogantes, os desatinados, os felizes, os teus pais, filhos e irmãos, os bichos e as bestas. 
Poupa-me a moral, sentença ou epílogo. Para contar uma história é preciso hipotecar o coração e logo ficarei a saber o quanto ele vale.

9.9.14

As dores (2)

Quando dei à luz pela segunda vez, partilhei o quarto com duas mães profundamente doridas da cicatriz no ventre, porta aberta à força quando o corpo faz birra e a natureza não está para generosidades. As noites foram-lhes difíceis, custosos os movimentos, pesadas as mais elementares tarefas. Foi graças às enfermeiras que os seus bebés se mantiveram limpos, aliviados de gases e satisfeitos de afagos. 
À hora das refeições, as duas mães tinham uma atenção: ofereciam-me as suas sobremesas, alegando que aquilo lhes ia tudo para as ancas, nem pensar em engordar mais, bastava-lhes a sopa. Já eu... parecia tão frágil! E o meu filho, credo! nem três quilos, coitadito, precisava de muita mama para medrar.... 
Agradecendo, eu recusava. Ora essa, que comessem elas, o seu corpo também levara uma sova, amamentar não ia ser pera doce, as noites em claro exigem reforços. Quanto sangue e seiva perde uma mulher a dividir-se por dois! Em vão. Tinham reservas, garantiam-me. Não se via? E afastavam os lençóis. Diante do desperdício, vendo fatias de bolo e gomos de fruta fresca a voltarem para trás - sabe-se lá com que destino -, e tendo eu um estômago de elevados e frequentes caprichos, acabava então por aceitar. Assim nos víamos as três felizes. Eu saciada em triplo e elas consoladas só de me ver comer - o instinto maternal tem estas artes de se estender ao mundo, mãe de um gosta, às vezes, de ser mãe de todos.
Ao fim das quarenta e oito horas da praxe, tive alta. Recuperei a verticalidade, arrumei as coisas, preparei o meu filho para as brisas traiçoeiras da primavera e encaixei-o em mim. 
- Já vai embora? 
- Sim.
- Mas só cá está há dois dias. Não são três?
- Dois...
- Quê? Não diga que não fez cersiana...
- Não, não fiz.
Até hoje, não sei se o que lhes arregalou os olhos foi o espanto, a indignação ou a fúria. Porque, depois de me despedir, fazer um carinho aos bebés, desejar felicidades, agradecer por tudo e mais alguma coisa que me ocorresse e virar as costas, ouvi, saído entredentes:
- Foda-se! Se eu soubesse não lhe tínhamos dado as sobremesas!