20.10.17

Triângulo

Enquanto o país ardia, Alice desesperava no ventre fechado da mãe. A natureza abandonou o trabalho a meio, as hormonas confundiram-se e só com bisturi se chegou a um final feliz. Veio ao mundo no princípio da noite, quando um vento rebelde se levantou do nada, bramindo maus prenúncios pelas frinchas das janelas. Que linda menina, disse o obstetra ao libertá-la. Que linda menina, disse a pediatra, auscultando-a. Que linda menina, disseram as enfermeiras quando a encostaram ao seio da mãe. Assim me conta a avó que já sabemos relutante, medrosa dos acasos, desconfiada de atos de amor sem acabamentos oficiais. Não houve quem não notasse como é mimosinha... Vendo que os doutores não perguntavam pelo pai e que ninguém comentava os olhinhos tão rasgados da bebé, e recordando ainda, pela sua experiência, que a hora da verdade é, afinal, apenas entre mãe e cria, começou a desistir da sua oposição às circunstâncias. Só nós, mulheres, sabemos como dóiE enquanto dói, eles pedem-nos o comer na mesa. Se é para isso, de facto antes vale ficarem longe.
Quero muito desdizê-la: ainda que lhes esteja vedado o entendimento absoluto das dores do nosso ventre, há homens de caráter, companheiros leais, amantes generosos, observadores das fases da Lua, ouvintes atentos dos rumores da Terra. Mas se lhe digo isto, ela recupera a certeza de que a filha foi tola, vítima de má sorte e de fracas escolhas, e de novo se recusará a ser solidária. 
Não. Por agora, dane-se a reputação masculina. Que falem os homens por si. Eu proíbo-me de quebrar a harmonia deste triângulo de mulheres que tanto demorou a nascer.

18.10.17

Imaginação

Jamais permitirei que me vejas enquanto escrevo. Mostrar-te o atabalhoado fluxo de palavras, as rasuras, os erros, todo o lixo de que me livro, seria o mesmo que autorizar-te a assistir à minha higiene diária, ao corpo na desarrumação do sono, à ridícula pose de cortar as unhas dos pés, ao doloroso afilar de uma sobrancelha, aos cabelos a morrerem na escova. O que sobraria para ti de sonho e imaginação quando me encontrasses pronta e, por acaso, ao mover-me, um botão da camisa se soltasse?

17.10.17

Creme de beterraba e lentilhas vermelhas

Quando faço creme de beterraba e lentilhas vermelhas, os meus filhos consideram a hipótese de eu ser a melhor mãe do mundo. E se acrescento coentros frescos picadinhos na hora de servir, é certa a minha elevação a deusa criadora de todas as maravilhas que há no céu e na Terra. Sou perdoada pelos rigores a que os obrigo e pelos abusos físicos que os impedem de respirar: beijos, apertos, declarações de amor e outras inconveniências publicamente dispensáveis.
É tão inglória a maternidade. Dias, meses, anos de entrega, noites nas urgências de hospital, viagens adiadas, leituras interrompidas no clímax, a incómoda soberania do relógio, os olhos fixos no telemóvel pela noite dentro, quando chegares liga a dizer que estás bem. Os túneis fundos, obscuros, por onde circula a desoras uma aflição miudinha, um pavor de existir sem nada saber. Que é deles se me falha o coração, se um automóvel me abalroa na estrada, se perco a memória, o bom senso, a mão direita? E afinal, é um creme de beterraba e lentilhas vermelhas com coentros frescos, aviado em três quartos de hora, que faz prova do meu amor.
Mas, enfim, que lembro eu acima de tudo o que a minha mãe por mim fez, desfez, sacrificou ou calou? A sua mão pousando na minha testa, um gesto de segundos com que sonharei pelo resto dos meus dias. Entretenho-me então a imaginar absurdos, cenas cómicas: os meus filhos já adultos sussurrando ao ouvido das amantes, depois do êxtase: sabes o que é que me apetecia agora? O cremezinho de beterraba e lentilhas vermelhas que a minha mãe fazia.


(Estalar uma cebola em pedaços num fio de azeite. Acrescentar uma beterraba em pedaços, uma cenoura às rodelas e duas mãos de lentilhas vermelhas. Água até cobrir. Trinta a quarenta minutos de cozedura. Varinha mágica. Coentros picados. E muito cuidado: a cor seduz e a consistência amacia a aridez de qualquer coração)

15.10.17

Feira de domingo

Fui à feira de velharias procurar azulejos para o acabamento de uma das minhas carolices de fim de semana. O mais novo, muito permeável ao apelo das cores e dos plásticos, parou em todas as bancas e deslumbrou-se com a bonecada de fraca qualidade que vendem por tuta-e-meia para esvaziar os sótãos: surpresas de ovos kinder, brindes de happy meal, super-heróis desbotados em que nenhuma donzela confiaria. Manhoso, foi-me chamando a atenção para as bancas de livros, com o puro intuito de me distrair e ganhar tempo de escolher onde gastar os seus cêntimos. Não encontrei azulejos, mas interessei-me por uns sabonetes embrulhados em plástico transparente. A vendedora explicou que põe neles muito brio e não usa químicos. Os sabonetes naturais enfraquecem-me, a textura grosseira da aveia e das sementes e o perfume das ervas e dos óleos essenciais deixam-me mansinha e maleável. Vai que não vai para trazer um, mas se já tinha torcido o nariz à embalagem plástica, mais torci quando os cheirei e senti laivos de naftalina, nem o mais leve sinal de alfazema, rosmaninho, jasmim ou eucalipto. Não há sabonetes naturais como os que mando vir propositadamente de Lisboa para a minha higiene e deleite. Quando me chegam pelo correio, em envelope acolchoado, o aroma dos prados, das florestas e dos pomares enche a casa inteira de uma eterna e alegre primavera, impregna-se na roupa e dispõe-me o coração a romantismos. Bairrista que sou, incomoda-me ainda não ter encontrado melhores aqui no Norte, pese embora os dois anos de buscas e experimentações que já lá vão (se eu fosse uma blogger espertalhona, o mais tardar na quarta-feira já estaria a receber amostras de sabonetes dos quatro cantos do mundo). Disse adeus à vendedora e aos sabonetes fajutos. Por vinte cêntimos, o mais novo comprou um monstro a uma senhora que teve cinco AVC e dois cancros, que rico menino, tomara que Deus me dê um netinho como tu. Mais tarde, passando por uma banca com carrinhos antigos, arrependeu-se do dinheiro já gasto com precipitação e eu satisfeita de ver como a vida faz dispensáveis os sermões dos pais.
Quando entrei no pão quente, saía o senhor Pereira com uma roca fumegante e um jornal debaixo do braço. Fez-me a festa do costume, deu um carinho ao mais novo, perguntou pelo irmão e ofereceu-me o jornal: já li, fique com ele se lhe interessa. Aceitei, agradecida, e pus freio à língua antes de lhe dizer que aquilo só me faz jeito para limpar os vidros. Ao final da tarde, como qualquer pessoa de vida facilitada, tomarei um chazinho com biscoitos de fubá e aninhar-me-ei entre as almofadas a ler um livro, coçando as têmporas por vício e mimo. Limpar vidros é que nem pensar.

13.10.17

Esperança na ressurreição

De tanto as ouvir, compreendo essas mulheres que um dia acordam estranhando o homem que dorme ao seu lado. Nem todas, como Mena, o enxotaram da cama a sangue-frio, temendo os bolores e os maus cheiros que um amor defunto espalha pela casa. A maioria delas, tendo sido religiosamente educada para a soberania da morte, aceitou a responsabilidade de cuidar do cadáver, maquilhou a sua face ausente e descorada, remendou-lhe as chagas com perdões diários e deixou que os anos passassem, com a esperança na ressurreição. A si mesmas e aos outros, vão dizendo desse amor o que sempre se diz dos mortos: grande, virtuoso e eterno. 

10.10.17

Alta voz

A Mena acabou tudo com o Francisco. Acordou de manhã e disse "é melhor ires embora, já não vale a pena". E ele? Não tugiu nem mugiu, demorou-se no banho e quando regressou nu ao quarto, cresceu nela um nojo insuportável por aquele corpo, pelas irregularidades ósseas, pela monocelha, pelo sinal peludo no antebraço, pelo sexo recolhido, ridículo, risível. Oh, Mena, que horror... Verdade, sim, até deu graças por não ter conseguido engravidar, só de pensar em ter filhos que herdassem tais modos e feições! E depois? Ele levou o essencial, vem buscar o resto no fim de semana. E tu? Acredite quem quiser, porque nem sabe explicar, mas assim que ele saiu vieram-lhe umas forças estranhas, pareciam subir da Terra, desde as plantas dos pés. Arrancou quadros e fotografias das paredes, virou as gavetas da mesinha de cabeceira no chão, abriu o guarda-fatos, tirou metade dos casacos e das calças, descartou finalmente todos os brincos sem par. Conjuntinhos de lingerie ainda com etiqueta foram para a empregada da mãe. Já agora também uns botins e umas sandálias usadas apenas uma vez, que ela sempre foi boa rapariga, coitada. Livrou-se de tudo o que pôde. Encheu três sacos de lixo e outros tantos para doar. Perdeu o pudor, a memória e o apego. Oh, Mena, mas tu no princípio estavas tão apaixonada. Ora, exatamente. Mas tinha descoberto o segredo: nunca deixar arrastar o amor para lá do seu princípio. 
E disto eu fiquei a saber hoje de manhã, pelos vidros abertos do carro que seguia ao meu lado no para-arranca da avenida.

30.9.17

A expulsão do paraíso

Como uma carracinha, Alice não dá sinal de querer largar o ventre materno. A natureza concedeu-lhe duzentos e sessenta e oito dias para desfrutar dessa amostra do paraíso, prazo após o qual deve ser expulsa como todos os mortais. Mas se a filha for tão teimosa como sonhadora é a mãe, e se por acaso lhe tiver chegado aos ouvidos que está condenada a passar o resto dos dias buscando, em vão, o retorno, talvez não saia a bem.
A rapariga da papelaria está pronta e prontos estão o berço e a malinha. Só a futura avó permanece em resistência, antevendo para Alice o prolongamento da desgraça em que foi concebida. E é inútil a rapariga dizer-lhe que, embora não parecendo, foi um ato de amor. Que jamais trocaria aquele par de horas de entrega e a filha que então foi plantada no seu corpo, por uma vida triste como a de certas pessoas, se é que a mamã me entende. Por tudo se paga um preço, acrescenta baixinho, muito redonda, amadurecida, sentada num banco detrás do balcão enquanto a mãe lhe faz as vezes no atendimento. Dou o desconto àquela avó relutante e peço - a quem? - que, quando a luz do mundo finalmente bater no rosto de Alice, os olhos dela se comovam com a dádiva e ela se desconcerte, se desmanche, se desarme. Por enquanto, ainda é cedo. Tal como Alice precisa de tempo para aceitar que é hora de ser expulsa do paraíso, também a sua avó demorará a aceitar para si o quinhão que lhe cabe daquela nova felicidade.
- Sabe o que eu acho? Antes um pai morto do que um pai desinteressado. Deus proteja as duas, que eu não posso.
Diz-me isto em sussurro, à minha saída, fazendo de conta que vem dar arranjo aos jornais pendurados na porta. Espanto-me ainda, e cada vez mais, com as leviandades que um ser humano é capaz de dizer quando vive com pena de si mesmo. Porém, outra vez lhe dou o desconto, tomo-lhe as mãos que estão geladas, inibidas, e garanto-lhe que tudo irá ao justo lugar. Alice não voltará ao paraíso, é certo, mas há de ter braços e coragem para edificar o seu país de maravilhas.

29.9.17

O sentido da vida (2)

Enquanto a diretora de turma explica em detalhe aos pais como se calcula uma média aritmética, recorrendo a powerpoints e lembrando que é nesta corrida de números que se decide o futuro, a minha deceção e o meu medo tomam corpo nestas linhas. Anoto-as no verso da folha que me deram com informações sobre horários de atendimento, regime de faltas, calendário letivo e quantidade de horas extra de apoio e compensação, tudo isto, afinal, números também. Os pais desassossegam-se nas cadeiras, querem saber ao certo quanto valerão as classificações finais, quanto valerão as notas dos exames, se a educação física também conta. A diretora, que eu desculpabilizo por saber que é mais vítima do que carrasco e tem a má sorte de ser o sinal visível deste cancro, a borbulha inofensiva que revela a malignidade no cérebro, a dorzinha nas costas que anuncia a podridão no ventre, põe-se então a detalhar, com uma condescendência maternal, as percentagens. 
Toda a gente gosta de números. Os números organizam em gavetas, delimitam zonas, dão segurança quando toda a realidade é caos, incerteza e dúvida. Os próprios pais quantificam o valor dos filhos, até nos territórios onde a vida deveria correr com prazer e felicidade: quantas medalhas ganhaste, em que lugar ficaste, quantos golos marcaste, em quanto tempo fizeste, quantos fizeram melhor, quantos ficaram atrás? 
A diretora diz que não quer assustar, porém, foge-lhe a boca para a verdade, a inquietação vaza pelas brechas mal disfarçadas da sua sobriedade. Será uma corrida contra o tempo, não sabe como conseguirão dar tanta matéria – porque a matéria, pelo visto, dá-se, não se ensina, e isto já é pensamento meu, que anoto no verso da folha dos números. Estudar todos dias, deitar mais tarde e levantar mais cedo, se for preciso. Ser doutor ou engenheiro é para quem sua (e eu a julgar que é para quem sabe). E os que não aguentarem, sempre têm as artes e as ciências sociais. Ao fim de semana estudar mais ainda, é um sacrifício fun-da-men-tal, mas não diz em nome do quê, de que futuro, de que país, de que mundo, de que gente. 
Saio derrotada, descrente, perguntando-me que homens e mulheres disto tudo vão nascer. Depois de uma corrida assim, que não almeja conhecimento mas classificação, quão trôpegos ficarão os seus membros, quantas nódoas negras no corpo, que níveis de insuficiência cardíaca? 
O mais velho teve um amigo cuja mãe me dizia, nos intervalos das suas longas tardes no shopping: enquanto o meu Vasco não me aparecer com menos de 85%, estou absolutamente tranquila. Não suspeitava – e nunca chegou a saber – que o seu Vasco nos telefonava a desoras e com voz de mimo implorava que o fôssemos buscar porque não queria mais viver na própria casa. 

26.9.17

O sentido da vida

O mais novo pergunta-me se eu sei qual é o sentido da vida. Apanha-me de manhã, em jejum, no preciso instante em que barro as torradas com manteiga e mel de eucalipto e o meu palato saliva como o de qualquer bicho irracional.
- O sentido da vida?
Repito a pergunta a ver se ganho tempo, estendo-lhe a taça de fruta e a caneca de leite, com esperança de o distrair e poder dizer-lhe, caso insista, que não se fala com a boca cheia. Sim, se eu já descobri o sentido da vida. Ah, o milho tostado do pão cheira tão bem! A manteiga derretida e o mel encharcam-me a polpa dos dedos, sorvo tudo com a língua, prazer e pensamento incompatibilizam-se, sai o prazer a ganhar.
- Queres então saber qual é o sentido da vida?
Sim. Tem a boca cheia de manga e framboesas e, em fila de espera, estão já duas rodelas de banana. Não o gabo ao ponto de achar que a pergunta é de mote próprio. Antes presumo que a tenha ouvido ou lido algures e, vendo nela algum charme, entendeu que ficaria bem reproduzi-la como coisa sua. Gostaria francamente de lhe responder, mas é crime deixar esfriar as torradas, cheira-me agora a canela e às laranjas que acabei de espremer, vou só buscar uma maçã e um iogurte. 
- Então o sentido da vida, é isso que me perguntas?
Sim. Qual-é-o-sen-ti-do-da-vi-da? Amanhã talvez faça panquecas, adianto, é questão de me levantar ainda mais cedo. Mando que beba o leite e coma pelo menos uma fatia de pão, não pode empanturrar-se só de fruta. Mordo a torrada, fecho os olhos, mastigo com uma preguiça luxuriosa, cada uma das minhas células reclama para si igual deleite na sua merecida e ínfima proporção. 
- Ora bem, o sentido da vida...
Ah! Lembrei-me! Sobrou bolo de chocolate de ontem, é comer enquanto está fofo e antes que se estrague. Abro a caixa, ainda há três fatias, precipito-me com ganância, o bolo esfarela-se, a cobertura de natas e cacau cola-se-me aos dedos, outra vez a língua apanha o que é pecado desperdiçar. Levo um naco para a mesa, sento-me de novo, e com os beiços brancos, de ternura láctea, ele faz então a pergunta que me alivia:
- E o que é que vamos comer ao almoço?

25.9.17

Vénus de Willendorf

Estranhando a minha reflexão crítica em torno das filhas do senhor Pereira, perguntaram-me de chofre se fui eu a amante dele.

– intervalo para sorrir –

Elevadas expectativas. Isto é só um blogue com impressões do quotidiano, não uma novela sul-americana que vá, a espaços, sugerindo o extraordinário e o improvável para viciar o leitor. Ora, a amante do senhor Pereira em tudo se opõe a mim: é uma Vénus de Willendorf com o tempo ocupadíssimo e uma vida orgulhosamente urbana, rodeada de gadgets e sapatos com preço para durar uma vida e design para cansar num ano. Precisa que, apesar de tudo isso, alguém lhe lembre que ainda é uma mulher. E se o senhor Pereira é fraco em muita coisa, para isso deve ser bastante. Obviamente que ela carece da excentricidade da viúva, nem perto chega da beleza da rapariga tatuada e falta-lhe a graça jovial da doutora. Mas consigo imaginá-la, com desenvoltura e altivez, segura do seu corpo abundante, a livrar-se dos lençóis onde o senhor Pereira lhe consola todos os cantos da carne e a despachá-lo, já de olhos postos no telemóvel: agora vai, que eu tenho um jantar. Ele vai, de qualquer modo iria, que um homem casado tem horas para tudo, até para as suas vontades. Só duas, três semanas depois, talvez por falta do que fazer, ela voltará a lembrar-se dele e ligará, dócil e vulnerável como uma criança: amor?


(se acaso eu me desse a um homem que não lê além de jornais, gasta os serões em frente à televisão, passa férias enclausurado em resorts asséticos, tem pelo automóvel um amor igual ao que nutre por si mesmo, teme o silêncio e a quietude, ignora as fases da lua e o perfume dos equinócios, não o escreveria num blogue. Contá-lo-ia em livro. Ilustrado.)

23.9.17

Pelo amor da santa

Deixa-me descer à Terra. Não me guardes onde não posso ser real. Além disso, nunca gostei de alturas, aqui em cima falta o ar, há desamparo e solidão. Permite, por favor, que seja humana e me corra sangue nas veias, sujeito a ferver ou gelar. Compreende que o meu avesso sejam vísceras, válvulas, gases, úlceras, tecidos condenados à morte. Não parece, eu sei, mas a memória falha-me, às vezes as pernas também. Amiúde falham-me ainda as palavras, andam tontas em círculos de delírio, disparate e confusão. Há dias em que envelheço, agasto-me, encosto-me. Em horas mais acesas posso corar, por pudor ou luxúria. As pregas da minha saia são imperfeitas e vulneráveis à brisa. Os meus olhos não são piedosos, desculpa. Nem há nenhum coração sagrado no meu colo, que é pequeno e pode até dar-se o caso de ser estéril. Tenho mácula. Cedo ao pecado da vaidade como as outras, não resisto a um espelho e tenho ganas de me beijar no reflexo. Também ao da ira, como qualquer fraco de espírito. E ao da gula, porque pão e vinho não me bastam.
Podes tocar, que eu não sou de partir. Sou de morrer. Aproveita e tira a mágoa de cima dos meus olhos e sacode-me o cansaço dos ombros. Ampara-me a cabeça se eu não aguentar o peso de tantos pensamentos e as dores agudas da ignorância. Afasta-me os cabelos da cara e esconde as brancas, são sempre tão ásperas e rebeldes! Protege-me os pés, salva-os por uns instantes das pedras do caminho. Enfia os dedos no meu peito e arranca-me o medo pela raiz. Vai sangrar, não te assustes.
Vê as palmas das minhas mãos, mostro-as com orgulho e propriedade, não creio que estas linhas da vida tenham o que esconder. A minha origem, como a tua, é o pecado da carne. E o meu destino é debaixo da terra, onde vivem os bichos e os passados inconvenientes. Entre uma e outro, vai o trilho que tu sabes e outros que nem eu sei.
Ajoelha-te agora diante desta minha terrível vulgaridade e convence-te que, mesmo assim, sou cheia de graça e posso muito bem ser-te bendita entre todas as mulheres.

Outubro 2013

21.9.17

Círculo

Acredito que talvez um Homem morra com sofrimento proporcional àquele com que nasceu. Amostra significativa não tenho, mas ouço histórias e nelas vejo fechar-se o círculo, em acerto e coincidência. Não devem os leitores levar-me a sério por isto que digo. É de quem não tem mais em que pensar e, por mero entretenimento, se põe a enredar absurdos e a presumir as lógicas fundamentais do universo a partir de coisas miúdas. 
A mim, convém-me fazer fé nesta delirante teoria. Nasci sem gritos nem demora. Entrei no mundo com a delicadeza de um suspiro, ninguém sofreu e a parteira mal deu conta de que eu estava a chegar. 

20.9.17

Naufrágio a sul

A cabeça tombada na linha de rebentação, dois seixos reluzindo nos olhos, um búzio incrustado no nariz, a boca aberta em concha, a língua um molusco dormente, o corpo ao abandono como o casco de um barquinho naufragado, o mastro já partido de tão velho, o leme sem memória do seu norte.

18.9.17

Momentos de inconsciência

Qualquer história de amor, ainda que piegas, ridícula ou ordinária, pode atraiçoar a firmeza dos mais sóbrios espíritos. É um efeito semelhante ao da música. Naturalmente que dizemos preferir a superior, a erudita ou a alternativa, a que seja obra de um talento visionário e de divina mestria. Mas a verdade é que qualquer uma, mesmo a de arranjo pobre, a que se repete, a mal acabada, nos põe trautear e a bater o pezinho. E em momentos de inconsciência, é o refrão apoteótico e de rima fácil que vem à cabeça. 

16.9.17

A melhor mãe do mundo

Recordar-se-ão os leitores que a rapariga da papelaria estava grávida e acalentava, sem disso fazer segredo, o sonho de ter um menino. Julgaram, talvez, que a história tinha morrido ou que não me interessava contá-la por não coincidir com o meu prenúncio sobre o sexo do bebé. Acontece apenas que entretanto fui de férias, depois a papelaria fechou portas por quinze dias e durante algum tempo o mais novo não colecionou cromos. De modos que só no início de setembro lá voltei, para acertos de contas com os senhores das autoestradas, e fiquei a saber que nasce no fim deste mês a menina. Alice.
No dia em que me dá a novidade, mostra-me o babygrow cor-de-rosa que a Gisela do pão quente lhe foi oferecer de manhãzinha. Estende-o no balcão, em cima das revistas, e, com ternura, sacode-lhe poeirinhas imaginárias e alisa-lhe os vincos.
- Não é lindo?
Afago-o sem pudor e a textura dócil do veludo remexe-me as lembranças, os olhos enchem-se-me de lágrimas ao recordar o perfume lácteo dos bebés que já não tenho, o choro manso a pedir alimento e aconchego a desoras, os dedos miudinhos, transparentes, abrindo-se em leque e pousando no meu seio. A voz sai-me fraca, sinto-me humilhada pela passagem do tempo, esmagada por uma saudade vã, impossível de matar.
- É muito lindo, sim.
- Sabe que até estou contente por ser uma menina? Vai ser mais fácil conversarmos sobre certas coisas.
- Que coisas?
- Coisas que... sei lá, do corpo. Se fosse um menino, assim sem pai presente, ia-me ver aflita para explicar-lhe... prontos, quando ele se tornasse um homenzinho. Está a perceber?
De novo me sobem as lágrimas aos olhos. Disfarço-as vasculhando o porta-moedas e digo-lhe que dá no mesmo, é só explicar a anatomia e a fisiologia e o resto cada um descobre por si, na sua intimidade, com a sua experiência.
- Ai credo, não me fale já dessas coisas que me faz medo. A minha Alice ainda há de demorar para crescer, se Deus quiser. E Ele há de ajudar-me a ser a melhor mãe do mundo!
De facto, a barriga dela, imensa, redonda, parece o mundo inteiro suspenso numa paz original, na silenciosa e irrecuperável perfeição do universo. A rapariga da papelaria é gente boa. Mas as pessoas descrentes como eu tendem a classificá-la como tonta apenas porque lhe invejam a persistência dos sonhos e o romantismo que a vida merece, do primeiro até ao último suspiro.

29.8.17

Engenheiro Aires e Maria Beatriz

Não é só o pó do automóvel. O senhor Pereira também lamenta que a noite venha chegando cada vez mais cedo e às nove já lhe dê tamanha quebra que nem sai com a mulher para uma voltinha. Faz-lhe falta a conversa com o engenheiro Aires, sabedor de múltiplas coisas que parecem compor a realidade numa visão confortável e duradoura. Costumam encontrar-se depois do jantar e andam para trás e para diante na mesma rua, eles à frente debatendo a organização do mundo, as mulheres atrás, de braço dado, partilhando a organização da casa. Dessa horinha sagrada custa-lhe abdicar, mas a verdade é que, com a antecipação da noite, o espírito e o corpo murcham cedo em frente à televisão. 
O senhor Pereira tem no engenheiro Aires o seu principal fornecedor de opiniões. Depois dos jornais lidos e factos apreendidos, precisa de alguém que sistematize tudo e lhe dê uma visão profunda, analítica, com charme de ideologia. Ora, sendo o engenheiro Aires um homem de uma categoria extraordinária, com estudos e horizontes, que visita templos, museus e ruínas enquanto o senhor Pereira dormita à sombra das palmeiras, a sua palavra deve ser de confiança e os seus juízos os mais certeiros. Portanto, o que o engenheiro Aires sentenciar hoje há de ser repetido pelo senhor Pereira, assim que tiver audiência, como se fosse coisa da sua cabeça. 
Já entre as respetivas mulheres, o mesmo não acontece, pese embora o entusiasmo com que se cumprimentam, enlaçam e caminham a par. Nas costas da outra, a mulher do senhor Pereira revira os olhos e desabafa: a Maria Beatriz é uma chata, tem a mania que sabe tudo. Mas se soubesse, não precisava de uma empregada.

24.8.17

Tanto tempo

Perguntou-me se era por fé, desespero ou falta do que fazer que eu me sentava tanto tempo a meditar. Em vez de responder, perguntei-lhe eu se era por fé, desespero ou falta do que fazer que se sentava ele durante sete horas em frente a um computador, mais duas dentro de um carro nas vias entupidas de circulação interna e, por fim, em frente à televisão até as coisas do mundo darem sono. Julgando que eu brincava, ajeitou-me delicadamente os cabelos por trás das orelhas e, superior, paternal, rematou: é impossível conversar contigo, passou tanto tempo e continuas tão infantil.

23.8.17

Labirinto

- Não dizes nada?
Bebo o café com o ritmo vagaroso que sempre uso e tanto enerva os acelerados. Ela insiste:
- Não tens opinião?
Passo a chávena por água. Ela continua:
- É que isto é grave. Deseduca os miúdos.
Uma gota de detergente e levanta-se a espuma. Ela exalta-se:
- Acho inacreditável. Nos dias de hoje?!?!
A chávena está imaculada, limpo-a, guardo-a no armário. Ela pergunta-me:
- Alertas os teus filhos para estas questões da igualdade? 
Saio sem dar cavaco. Tenho de trabalhar. Era o que me faltava gastar esta conversa com a mesma pessoa que há duas semanas me franziu a testa ao saber que o meu filho passa a roupa a ferro. "Ai, coitado", foi a única coisa que então lhe ocorreu dizer.
A minha geração está suspensa, perdida entre dois mundos: o passado, que teme e não quer repetir, e o futuro que, para transformar, exige fibra, pulso e consciência. Para se livrarem deste labirinto, não chega bradar às paredes que tem de haver uma saída.

22.8.17

E depois?

À medida que se aproximam da eleições, vão-se esburacando as ruas para a obra parecer vasta. Se é coisa de última hora, pouco importa, tal como pouco importa que abram e fechem sem que se veja diferença. Até no lugar onde moro, tão sossegado que os bichos e os fantasmas andam por onde querem à luz do dia, se instalaram as escavadoras, os penumáticos e os homens de tronco nu. Todos os dias tenho de refazer percursos, desviar por onde nunca estive, meter por quelhos e bouças.
E depois?
A dona Cesaltina continua trôpega no andar, de pernas enfaixadas, apoiando-se nos muretes e na piedade das vizinhas. Na sala de espera do centro de saúde, um homem conta que já não vê o filho há dezassete anos. Estão à porta as festas da freguesia e o presidente da junta vai enfrascar-se e subir ao palco para cantar ponho o carro / tiro o carro / à hora que eu quiser. No funeral de um tipo vulgar, a amante chora copiosa e despudoradamente enquanto a mulher se encolhe de vergonha por não ser sua a maior perda. Morto, já não pode o tipo pedir à amante que seja discreta nem à mulher que erga a cabeça e sorria. O senhor Pereira anda danado com as impertinências que a canalha desenha na tela de pó do seu mercedes. Tem saudades do brilho da novidade, do dia em que saiu do stand dos usados com garantia trazendo o sonho de uma vida nas mãos – matéria, temperatura, consistência, movimento. Mas, enfim, o tempo passa, as coisas gastam-se, abrem-se e fecham-se os buracos na rua, levanta-se a poeira e depois vêm os dedos na canalha, sempre tão inconvenientes, piorar tudo. A mulher procura apaziguá-lo, deixa lá, homem, o que se suja também se lava. Mas não é bem assim, penso eu. Não é bem assim.

21.8.17

Clausura

Quase meia-noite. Deitada no jardim do claustro, olho para o céu e pergunto-me porque pairamos assim, no infinito, neste assombroso mistério, neste equilíbrio perfeito, nesta beleza, neste espanto e, contudo, somos biliões com os pés puxados para o centro de uma única Terra, grão de areia, coisa nenhuma, tão exíguo o espaço, tão vaga a origem, tão dúbio o futuro, e, num só par de dias, toda esta fome, esta fúria, estas facas, este fogo. Onde fica a porta de saída do quarto escuro em que Deus abandonou a humanidade para se ir ocupar da expansão do Seu universo?

1.8.17

Choques elétricos

Enquanto a cabeleireira vai e vem com a tesoura na cabeça do mais novo, a Cristina Ferreira pergunta a quem está aí em casa se será mito ou realidade que os vibradores dão choques elétricos. A manicura arrebita a orelha, tapa a cara com as mãos e escangalha-se a rir. À cliente que lhe estende as unhas, passa ao lado a grande questão alardeada pela apresentadora porque está de costas para o écran. Insiste que quer, desta vez, um vermelho mais sangue, que vá bem com as emoções fortes despertadas pelo estio e com os vestidos que comprou para as noites quentes do sul. A cabeleireira suspende o trabalho e olha-me, com evidente aflição: é mito, pois é? Ainda vou a tempo de me fazer desentendida, franzo a testa como quem mal percebe do que se fala e com esperança de que ela se vire para outra: desculpe? Asneira minha. Ela adianta-se a repetir o que foi perguntado e já vai lançada para a resposta que lhe parece óbvia. Estão a perguntar na televisão se os vibradores dão choques elétricos, mas, quer dizer, é um disparate, aquilo não se liga à corrente. Num relance, certifico-me de que o meu filho está suficientemente compenetrado na adoração da sua própria imagem, tirando as medidas ao novo corte e imaginando como lhe assentará o boné. Quem me salva de responder é a manicura, desbocada como é hábito, o gozo pela vida sempre a pulsar sem freio, sem medo e sem preconceito. Não se liga à corrente mas olhe que, funcionando como deve de ser, é cá uma corrente pelo corpinho todo! Depois de ouvir o povo e o doutor em estúdio, a Cristina Ferreira esclarece: é verdade, sim, pode acontecer. As velhas contratadas para figurar na plateia por tuta-e-meia desassossegam-se, não sabem se neste momento em direto lá para casa lhes fica melhor o humor ou a indiferença. Ah, mas quanta perturbação foi tudo isto causar na cabeleireira! Incapaz de se concentrar, vai aparando os fios de ouro velho do meu pequeno narciso com hesitações de vulgar aprendiz e murmurando queixumes, temores e indignações. Choques elétricos? Deus me proteja! E eu a rir-me, imaginando como irá Deus interceder por ela.
A cliente sai com as unhas renovadas, sangue vivo na ponta dos dedos. Está pronta para rumar a sul, onde as amigas já a esperam num apartamentozinho alugado mesmo à beira-mar. Adivinham-se memoráveis dias de praia e imprevisíveis noites de folia. O pequeno narciso salta da cadeira e corre para mim, cheio de vaidade, reclamando beijos, afagos e elogios. Nem um nem outro deram por nada.

24.7.17

Esquecimento

Atravesso as planícies do Sul num comboio velhinho, com cheiro, roncos e hesitações de quem já merecia o eterno descanso. O ar condicionado mal funciona, a respiração é difícil, as portas não obedecem aos botões de comando. O maquinista — ah, coincidências! — conta que tem um irmão lá em cima, mesmo na minha terra, no Norte vinhateiro, onde há comboios gourmetizados para chineses, americanos e portugueses fáceis de deslumbrar e que abrem os cordões à bolsa por qualquer gracinha. 
O meu país baralha-me. Nunca sei onde é mais profundo o abandono, onde rangem mais os ossos, onde é mais urgente o socorro que os visitantes não oferecem porque, tal como eu, só vêm e vão como quem assiste a um filme, aplaude e logo esquece.

2.7.17

Morrer de amor e cantar*

Já aqui contei que morri de amor aos quinze anos. Foi uma morte lenta e dolorosa, deu-me febre, visão turva e desarranjos viscerais por muitas semanas. Velei-me como achei que merecia: com enorme piedade, lágrimas a rodos e até a elevação de caráter a que os mártires têm direito. A dor aguda e exposta, que assim violentamente me deitou por terra, terá vindo da minha impreparação para o abandono. Eu tinha crescido abrigadinha em colos, festas e mimos, não conhecia a rejeição e menos ainda a indiferença. Então, à primeira estocada morri. E porque tinha apenas quinze anos, as minhas conclusões foram inocentes mas cheias de uma convicção que me enternece lembrar. A primeira foi a de que o amor e a dor variam na razão direta. A segunda, tão comum, foi a de que não voltaria a amar. Sobre ambas estava errada, naturalmente, mas sou feliz por saber que o equívoco se deu na idade justa.
Por esses dias, calhou o meu pai oferecer-me a minha primeira máquina de escrever, um bichinho muito mimoso, usado, com teclado "hcesar", em tons pastel, de arestas meigas, arredondadas. Proprietária exclusiva de um instrumento daqueles, achei que o meu espírito era agora obrigado a grandes criações e sentia-me pronta para isso porque abarrotava de dor e autocomiseração, portanto, meio caminho feito. O outro meio, estava certa de que podia aprender lendo os bons.
Esta foi a única altura da vida em que escrevi poesia. Converti o sofrimento e a adoração em poemas curtos e arrítmicos, de versos brancos, e em outros enormes, com bom corpo, métrica e sem descuido da rima. Para guardar na gaveta, fiz com eles um livro, biografia cantada do meu desgosto, coitadinha da mim!
Um dia tudo passou, conforme predestinaram os mais sábios. A manhã acordou límpida, com uma frescura promissora, e eu era ainda muito jovem, o meu coração afinal sem necrose, a minha esperança pura e intacta. Por isso outros amores vieram, mas por sorte, privilégio ou saúde férrea, não voltei a morrer. E não voltei a escrever poesia.
Ainda hoje acredito que a melhor forma de arrumar uma dor é convertê-la em qualquer coisa de belo, edificá-la, harmonizá-la com o mundo. Terapia para quem sofre, horizonte para quem contempla, e nesse dá-e-recebe, nessa generosidade recíproca, muitas vezes se descobre propósito para o que nos consome. Mesmo que a criação acabe como, mais tarde, os meus poemas: no contentor do lixo de uma avenida junto ao mar.

* post de 2015, republicado a pedido de quem, generosamente, mo lembrou

30.6.17

Quero pato com pimenta

Entrevistas em que se pergunta ao escritor das intenções e mensagens do livro e ele responde urdindo, teorizando, complexificando, intelectualizando, são um fastio. Nestes casos, quase sempre, a obra desilude-me. A mim, como leitora, bastar-me-ia um pouco de honestidade da parte de quem escreve. Um lembrei-me desta história e deu-me para contá-la e eu agradecer-lhes-ia, de coração. Não me imponham o significado e o entendimento das coisas, deixai-me ir pelo meu pé. Se houver entrelinhas, quero ter inteligência para as decifrar. Se não as houver, ficarei feliz com o prazer de ler o verbo bem manobrado, de ter o retrato diante de mim, de num momento pensar que tudo é uma coisa para logo descobrir que pode ser outra e deitar-me a dormir pensando nisso. 
A esse propósito, tenho como referência o alívio que me deram certas palavras de Agustina Bessa-Luís, impressas na badana do livro comentado: Agora, o que se diz da Sibila surpreende-me bastante. Dividem-na em porções, como os mapas de campanha, e descobrem nela teoremas de Lacan e de Freud. Eu sempre pensei que a Sibila era a minha tia Amélia, vaidosa e com jeito para coisas de tribunais, e que sabia como ninguém estufar um pato com pimenta, num lume de rama de pinheiro. A resina, ao arder, dava ao pato um sabor especial. Entre isso e Lacan não sei que relação haverá.

29.6.17

De D. Sebastião a Salvador Sobral, do Bojador à Troika, dos oceanos às redes sociais

Pouco me importa o que o Salvador Sobral diz, fuma ou bebe. Preocupam-me mais estas paixões febris que temos, esta busca doida por heróis em que sempre andamos e a quem nos encostamos para remediar os sonhos que não perseguimos, as vontades a que não obedecemos, os projetos que adiamos. Toda a esperança, toda a expectativa, toda a gratidão assim depositadas, de olhos fechados e coração aberto, quanto nos custa depois! O cantor, o escritor ou o jogador da bola glorificados como divindade, como gente a quem tudo devemos e que, por seu lado, nos deve o pagamento de todas as faturas que temos em atraso. Que poupem por nós, meçam por nós, moderem por nós, dêem a cara por nós, invistam por nós.
Coitado do Salvador Sobral, que só por um gracejo sem graça, um disparate adolescente, nos pôs a dar sermões e a cobrar com tal fervor que até parecemos gente dura, que sabe ao que anda e insiste em lá chegar. Apesar de todas as conquistas, dos cabos dobrados, dos territórios explorados, dos gigantes derrubados, o país está na mesma: instável e leviano na gestão dos seus ganhos.

28.6.17

Framboesas

Não foi só o senhor Pereira: também a viúva trocou de carro. É qualquer coisa muito poderosa, tanto em cilindrada como em aspeto, matrícula de dois mil e dezassete e aquela cor dourada que vai muito bem com os feitios ostensivos de gosto duvidoso. A ela, porém, falta-lhe mestria para o dominar. Estaciona-o em contramão, a um metro do passeio e na diagonal, mesmo a jeito para ser endireitado à força por qualquer estouvado que passe. Aparentemente, isso pouco importa à viúva. Ela gosta é que olhem, reparem, e ainda dá bónus de fidelização. Abre a porta devagar, põe uma perna de fora, o vestido sobe, as coxas ficam ao léu, eis as virilhas, uma nesga das calcinhas que cobrem o sexo abandonado, só muito depois a outra perna, e finalmente em pé sobre os magníficos tacões. A esta altura, o senhor Pereira, que se abeirou de mim a querer saber o que penso de Pedrógão Grande, está todo ele incandescente, liberta faúlhas pelo canto dos olhos, já mete as mãos nos bolsos a disfarçar o vigor da labareda. A menina não acha que esta senhora é uma elegância? E vira-me as costas para se curvar ao chão que a viúva pisa. Como está, minha senhora? Passou bem, minha senhora? Ela semicerra os olhos numa languidez estudada, o xadrez preto e branco do vestido vai ondulando com o passo e toda a linearidade se deforma e contorce, dando a sensação de uma vertigem ou a ideia de um pântano. Retribui o cumprimento, afasta-se dois passos, volta atrás: desculpe, senhor Pereira, nem ofereci. Não estende, mas mostra, na mão aberta, uma caixinha de framboesas. Eu, como sempre, invisível ou à mesma distância que separa o espetador dos personagens do filme. O senhor Pereira vai com dois dedos, muito cuidadoso, agarra a carne selvagem, lustrosa, de uma framboesa, decerto já imagina o gosto do suco escarlate a desfazer-se na língua, o rigoroso balanço entre doçura e acidez, a consistência firme e fugidia. Aceito uma, minha senhora. Muito obrigado, minha senhora.
Ela sorri - e sorri como o diabo - e com um ligeiro aceno de cabeça dispensam-se mais palavras. Afasta-se. De novo com as mãos nos bolsos, ainda quente, o senhor Pereira diz-me baixinho, sem tirar os olhos dela:
- Eu nem gosto disto, só aceitei por educação.

27.6.17

Pantera

Lá vai a mãe dos dois filhos com olhos de azeitona preta. É a primeira vez que a vejo sem eles, mas não se julgue que vai de mãos livres, a desfrutar em paz da manhã soalheira, do canto da passarada, das promessas do solstício. Vai carregada de mercearias, os sacos distribuídos pelas dobras dos cotovelos, dos pulsos e dos dedos. Anda a custo, e, sob o peso da carga, pronuncia-se o joelho valgo. Ao passar por mim faz de conta, põe-se a admirar a esplanada do café onde os reformados se procuram na necrologia e os jovens estudam para os exames. Que idade terá? Calculo por alto, tiro medidas à infância que sobrevive no rosto dela, subtraio a idade do filho mais velho, comparo com a do marido, que a esta hora há de estar a gozar o alívio da dose diária de opiáceos, e imagino que tenha sido mãe aos quinze, dezasseis, menos de dezoito sem dúvida. Mas depois, multiplico a amargura que vai pelo corpo abaixo, o cabelo seco, desobediente, o peito raso e côncavo, os tornozelos inchados, e, afinal, é acabada, usada, abusada, e, quem sabe, culpada.
Quantas mulheres podem habitar numa só?, pergunto-me muitas vezes, até quando olho ao espelho, leio o que escrevo, revejo o que fiz, ou me esforço a desculpar o fraco entendimento dos homens sobre nós. E nesta que passa, livre dos filhos mas carregada de mercearias, habitam pelo menos três: uma que é inocente e está sempre à janela dos olhos, outra que se desenganou e endureceu para aguentar o corpo. Na terceira, improvável, só reparo quando ela vai para dobrar a esquina: uma pantera, estampada nas costas da blusa, pronta para investir.

23.6.17

Kakasana

Passam camiões, tornados, bichos de sete cabeças, descargas elétricas, pesos mortos, rodas dentadas, e eu choro, respiro e nem vacilo. Fixar os olhos, jamais as ideias, eis o segredo. Mas, de repente, uma palavra tua e descubro como é precário este equilíbrio. As palmas das minhas mãos, que me sustentam o corpo inteiro, têm o teu nome escrito em todas as linhas.

22.6.17

Ecoponto

As pessoas queixam-se muito da merda que é a televisão, é uma revolta generalizada e barulhenta que me dá pena. É curioso que esses que tanto protestam, em nenhum momento a recusam e lhe cortam o pio e os cabos. Parece-me que são todos obrigados a ver televisão e, ah! que linda a obediência! É metade do dia a assistir e a outra metade a dizer que não devia ter sido mostrado e, no meio de tudo, ainda pagam. Aflitos, com medo de perderem o fio à meada da atualidade e de lhes faltar opinião na hora dos debates. 
É muito bonito o palavreado todo, mas com que facilidade há de levá-lo o vento, sem que um só alicerce do sistema trema! A mudança só se faz quando realmente todos perderem o medo e desligarem o botão. Se não, é como aquela gente que aceita toda a espécie de lixo, achando que tudo se resolve depois separando-o no ecoponto. Renovam o ciclo, jamais o quebram.

20.6.17

Dias consecutivos

Por seis dias consecutivos, Deus esmerou-se na arquitetura de grandezas e miudezas, concebeu-as para nos maravilharem e de forma a que os mistérios fossem revelados em conta-gotas, despertando novas crenças e ainda maior espanto. Mas ao sétimo dia descansou, porque não tinha contrato, não precisava de pão para a boca, não tinha de prestar contas a ninguém e assumiu que as criaturas eram responsáveis pelos próprios atos e pagariam pelos seus erros. 
Tu não descanses, que não és Deus. Se descansas ficas só e hão de apontar-te o dedo assim que estiveres de costas. Deus também está só, mas está no pedestal, nas alturas, nos píncaros desconhecidos do universo, e isso vai valendo alguma coisa, justifica o ouro dos templos, a lonjura das peregrinações, o sacrifício de humanos e animais. A solidão de gente vulgar é invisível e carrega no lombo uma trouxa de culpas, penas e mágoas que não merece cântico ou devoção. Então vá, cumpre, mexe-te, ainda que te falhem as pernas e te ocorra o sonho de dias melhores. Enxota, como moscas, o que puder desconcentrar-te: ideias, poemas, perguntas, suspeitas. Fecha as janelas, a luz é perigosa porque revela as sombras e nas correntes de ar viaja o perfume de flores e frutos proibidos. Ganha com uma mão, paga com a outra, no entremeio dá esmola, lava as duas a seguir. Se te pedirem, cumpre a pena do ladrão, faz as vezes da prostituta, consome como um viciado. Diz justiça, diz amor, diz honestidade, mas deixa que outros tratem disso, tu põe-te na fila, para, arranca, liga, desliga, gosta, desgosta, aproveita o brinde, a promoção, o sorteio, o cartão. Lê o jornal, come a sopinha de letras até ao fim, obrigadinho por ta levarem à boca, interessa-te, espanta-te e comove-te só até amanhã, que amanhã precisam da tua esperança para o fundo de maneio do sistema. Estás assim ou assado, vais andando, podia ser pior, pelo menos isto ou aquilo. À noite, enfia-te na cama, dá-te de frente, de costas e de joelhos, puxa o cobertor, faz a dobra do lençol, reza, agradece e adormece.