20.3.19

Lua cheia

Houve um tempo - por muito tempo - em que a lua cheia era boémia, acusada de loucura e distorção, suspeita de pactuar com amantes clandestinos, de atiçar a ousadia dos jovens, de remexer as culpas dos velhos. Os bêbados e as raparigas enamoradas confessavam-se a ela julgando serem os únicos porque não havia modo de saber que outros tantos à mesma hora de igual forma a adoravam. E as mães pariam às suas ordens, com o respeito e a submissão das parteiras, e as bruxas tomavam-na como cúmplice para acudir os que sofriam de desgostos e invejas e os homens revelavam-se lobos e as sombras murmuravam as vontades ocultas do universo tão baixinho que só os espíritos perturbados por sentimentos extremos ouviam.
Agora, ou bem que a lua é super, ou azul, ou vermelha, além de ser sempre a primeira ou a última do ano que é assim ou assado, ou a maior do século, ou a única da década. Todos correm a fotografá-la e outros tantos a publicam e comentam e sobre ela se acham números e medidas, uns por cento maior do que a anterior, outros por cento mais próxima da Terra. Interessam-se por ela pessoas estudiosas e lúcidas que avisam as horas a que deve ser apreciada, qual o ponto máximo e o esplendor, é uma espécie de lua cheia gourmet, servida com rigor e a quem as mais deliciosas vulgaridades estão proibidas.

19.3.19

Febre

Há mais de vinte e quatro horas que me obrigo a escrever uma frase limitada a cinco palavras, incluindo artigos, preposições e conjunções. Tenho agora duas páginas com trinta e sete tentativas fracassadas e na memória um remoinho de outras tantas que nem anotei para não ofender o papel. Para casos assim difíceis fui, ao longo dos tempos, encontrando fórmulas que me permitem cumprir os meus deveres dentro de prazos e sem angústias. Por exemplo, as dramáticas apoteoses de Mahler escutadas a bom som ajudam-me a vestir com alguma dignidade e valor os assuntos fúteis, acessórios. Bach dá-me balanço e ritmo para salvar da monotonia os textos mais compridos, as histórias longas, as descrições necessárias. Mas quando os temas são pesados, indigestos, comoventes, com dor e tragédia ao barulho, aí socorro-me de êxitos comerciais e ligeiros dos anos oitenta, que me salvam de cair em contraproducente melancolia. A música ajuda-me à distância essencial na conversão do pensamento em verbo. Por outro lado, se apenas uma e uma só palavra me faltar, numa volta ao quarteirão em passo muito rápido encontro-a, às vezes na quadrícula da calçada, outras na testa franzida do homem que fuma à porta do banco, outras ainda no nervoso miudinho do vento. Mas desta vez, nada. A frase deve estar enterrada, escondida numa gruta, enfiada dentro de uma dessas gavetas que durante muitos anos não abrimos. Já é minha e no entanto não a ouço nem a vejo, nenhuma luz ma revela, nenhuma voz ma sussurra. 
Para que escrevo eu, se não tenho propósitos nobres, humanitários, românticos ou ambiciosos? Não me suponho mensageira, não presumo ter coisas novas a dizer nem desconsidero o leitor ao ponto de julgar que existo para o elucidar. Escrevo porque me dá uma febre que só baixa com o ponto final. E também porque jamais fiz outra coisa, não por estar certa de fazer esta como deve ser, mas por sentir que fazia muito mal todas as outras. Em todo o caso, aquilo ao que hoje venho é simples, apesar de não ser do interesse de ninguém: se eu fosse paga ao caráter, este mês não ganhava sequer para o pequeno-almoço. 

10.3.19

Um exército

Quando chegar a hora da grande rebelião contra as causas do sofrimento no mundo, será preciso agir com força e rapidez. Deve ser por isso o investimento em tantos nike, o sacrifício em prancha sobre o murete, os socos no ar, os aparelhos de medição. E o treino dos cães, que correm ao lado dos donos, alguns de raça possante, com musculatura e mandíbula de respeito, outros pequenitos, quase de colo, que poderão ir na frente para desmanchar o inimigo com gracinhas. Há quem ande de camisa de risca e fatinho, esses serão úteis para papeladas e burocracias, pois que nenhuma luta se faz apenas corpo a corpo e muitas há que até se resolvem sem sair dos gabinetes. São muitos e todos assim alinhados, repetindo os movimentos ao longo da marginal, suando, gemendo, persistindo, superando, fazendo contas aos quilómetros, aos passos, às calorias, aos batimentos cardíacos, preparam-se de certeza para construir um exército.

8.3.19

*

I stand
on the sacrifices
of a million women before me
thinking
what can i do
to make this mountain taller
so the women after me
can see farther

Rupi Kaur – "Legacy"

6.3.19

Canela

Enquanto sopra os seus lamentos pelas frinchas das janelas, Laura, a depressão anunciada, faz chegar até mim um misterioso aroma de canela. Seduzida, levanto-me do sofá para espreitar, afasto a cortina mas nada vejo. A cidade recolheu, o vento dá às sombras a feição de monstros e acelera o passo dos homens que se distraíram das horas, não há sinal nem de comerciantes de especiarias nem de lume aceso por essas cozinheiras dóceis que vivem de remexer nos outros a memória e a melancolia. No entanto, o aroma da canela persiste dando curvas no ar à minha volta. Adianto o nariz, inclino a cabeça, mudo de sítio, movimento-me em busca da sua proveniência como se fosse um animal. Não é raro acontecer. A despropósito, sem causa nem contexto, chegam-me às vezes cheiros claros, aguçados, que num instante decifro mas cuja origem permanece oculta. O cheiro lácteo, agridoce, já ido, do pescoço dos meus filhos bebés. O cheiro de madeira e bronze das casas muito antigas. O cheiro do mosto, fora de época e longe dos lagares. O cheiro das mãos da minha professora primária. O cheiro redondo, compacto, nauseante, da morte. Mas hoje é só canela, a ternura inofensiva da canela, que vem de lado nenhum à boleia no desassossego de Laura.

5.3.19

Terça-feira gorda

Foi hoje a enterrar o homem que morreu sob o domínio da gula, no aperto cardíaco de um último êxtase. A sua mórbida obesidade foi trajada a rigor e enfiada num caixão de raras medidas para o cortejo final. Mesmo à porta da capelinha de onde saiu o corpo, estava desde ontem instalada uma rulote de bifanas. Tive de passar por lá duas vezes para me certificar que tamanha ironia não era imaginação minha. 
E ainda há quem ache que deus não tem sentido de humor.

28.2.19

Primavera

A mulher do senhor Pereira aprecia com altivez a insinuação de obscenidade que há na capa do meu livro, mas nada pergunta além do que as boas maneiras obrigam. 
– Como vai a menina? 
Confirmo o que está à vista: tudo muito bem, sim senhora. Ela, por seu turno, mal disfarça o desinteresse nas minhas emoções ou na minha vida em geral, sorriria com a mesma feição se eu respondesse que se abrem fendas monstruosas por baixo dos meus pés. Os olhos dela descaem constantemente para a capa do livro que mantenho encostado ao peito e que já noutros lugares onde passei ou me sentei chamou a atenção dos estranhos. Enfim, está um belíssimo dia de sol, fevereiro caminha a passo rápido para o equinócio e é sabido que faz parte das atribuições e competências da primavera despertar os corpos para a livre consumação do prazer ou, ao menos, para as suas múltiplas idealizações. E é inútil invocar os argumentos da superior inteligência e da cultura. Somos bichos vulgares: eu, a mulher do senhor Pereira quando pensa que talvez se tenha desperdiçado na cama do marido, a rapariga da papelaria ao lembrar as raras noites em que o pai de Alice a tomou com todos os dedos, braços e vontades, a imperatriz quando reafirma a sua recusa em ficar presa pela via de um contrato, a dona Maria Isabel ao esconder o riso e a malícia entre as páginas da revista cor-de-rosa que nem lê, a manicura doida e desbocada, às voltas sobre si mesma a fazer rodar as saias, a cabeleireira soprando o fumo do cigarro à porta do salão como à porta de um bordel e todos os homens que em torno destas mulheres gravitam e ainda os seus pais, tal como todos os seus filhos. 

27.2.19

Busca

Pode parecer-te absurdo mas estar certa não é o meu objetivo nem sequer um motivo de orgulho. Se acaso me dizes tens razão, não é um troféu que me dás, é uma carga que pões nas minhas costas e nela vai um peso que não me interessa porque me curva, me acomoda e me embota os sentidos. Prefiro que me tires a razão. Mas cuidado, não a sacudas apenas, nem a deixes ao calhas no caminho, sujeita a ser apanhada por um qualquer. Desmonta-a, primeiro, subtrai-lhe camadas, mostra-me como estão viciados ou retorcidos os encaixes das peças, usa pinças, pontas dos dedos, palavras bem medidas e outras formas cirúrgicas que a tua inteligência encontre. Não me importo que fiques sempre com ela se deste modo a ganhares. E assim eu liberto-me de pesos talvez já fora da validade e torno a endireitar as costas para avançar em busca de outras e novas razões.

14.2.19

Post scriptum

Gente de pés na terra, como eu, teme as coincidências misteriosas ou, pelo menos, desconfia delas. É certo que não existe ninguém verdadeiramente original, somos todos mais ou menos cópias, limitamo-nos a vestir fatos diferentes para o mesmo papel e só variam na forma de expressão as dores que profundamente sentimos. Ainda assim, estremeci quando a mulher à minha frente na fila do supermercado, uns dez ou doze anos mais velha do que eu, se pôs, sem mote nem razão aparente, a contar-me a sua vida que em quase tudo era igual à minha. À medida que ela falava, numa partilha descontraída, porém sóbria, eu julgava estar diante de um espelho onde me via no futuro. E se já era grande a coincidência entre o que já tínhamos vivido, mais coincidente ainda era o modo como acerca disso pensávamos e - cúmulo dos cúmulos, - ainda constatei que ela vive agora de acordo com o que para mim idealizo. Mas no fim, já com as contas pagas e as mercearias no saco, disse-me como se fosse um post scriptum, uma informação sem relevo ou coisa menor ao pé do resto: este já é o meu segundo cabelo. Apontou um dos seios com desdém, mas logo pegou nas coisas e foi-se, a saudar não sei quem que passava na rua.

11.2.19

Vénia

São dispensáveis todos os comentadores bem falantes e os cronistas de paninhos quentes que ocupam espaço mal merecido na comunicação social. Para acordar quem dorme, esclarecer os indecisos e atrapalhar os aldrabões, basta o Ricardo Araújo Pereira. O que ele faz – e como faz – não tem preço. 

7.2.19

Lição

Nunca percebi porque é que se gasta um dinheirão numa viagem ao cu do mundo para aprender a humildade. As pessoas precisam do deserto, das montanhas e das grutas para realizar que têm a importância de uma poeira, que são passageiras como uma brisa e que a engrenagem funciona apesar delas? Estranho, porque se há coisa que a vida faz a cada momento é dar-nos lições de humildade, sem inscrição prévia nem investimento inicial. É claro que, como em tudo, uma aprendizagem eficaz não depende apenas da qualidade do mestre mas sobretudo da atenção, da sensibilidade e do interesse do aprendiz. Há quem só consiga aprender à grande e à francesa. Mas quando o quotidiano derruba as paredes das salas de aula e, sem romantismos nem simulações, impõe a dureza das suas regras é que se percebe se a lição realmente valeu para a vida ou foi apenas um marranço às pressas para o próximo exame.

6.2.19

Metades

Passei a primeira metade da vida a acreditar no que a segunda tem vindo a desmentir sem compaixão. Hoje, já não afirmo nada sobre coisa alguma porque ignoro quantas metades ainda tenho por viver e até absurdos destes considero possíveis desde que um génio os proclame e uma fórmula os represente.

4.2.19

Feng shui

Quando queria despachar rapidamente as visitas, a minha avó punha uma vassoura atrás da porta, virada ao contrário. Foi a mais entusiasta adesão ao feng shui que conheci. Porém, ao levar para a sala de estar um tabuleiro com chá de tília, torradinhas e biscoitos, desfazendo-se em sorrisos e palavras caras, é provável que baralhasse esse misterioso mundo das energias elementares porque as visitas iam ficando e desfiando as suas histórias até a minha avó cuspir pragas entredentes por causa do adiantado da hora. Nunca percebeu que se tivesse oferecido às visitas má cara, manteigas rançosas e biscoitos mofentos, a vassoura mostraria, de certeza, os seus magníficos poderes.

1.2.19

O vento (3)

Zé Carlos sai do carro a medir forças com o vento. A custo vence uma rajada empurrando a porta contra ela, dá a volta pela traseira num cambaleio de bêbado e chega ao outro lado procurando manter a verticalidade para ajudar Adriana a sair. Ela põe as perna de fora, ele abre o guarda-chuva a resguardar, mas a porta, atirada pela corrente, desfere-lhe um golpe violento nas costas. Zé Carlos resiste, com a perna aguenta a porta aberta, com uma mão tenta governar o guarda-chuva, com a outra quer ajudar a mulher a sair. A porta investe sob o comando de uma nova rajada, ele perde a firmeza, bate com a testa no tejadilho, Adriana volta a sentar-se e desfaz-se em gargalhadas depois de o susto passar.
– É melhor esperarmos que acalme – aconselha.
– Não vai acalmar – garante Zé Carlos e no que diz há uma verdade muito mais verdadeira do que a que ele conhece. Em dias como o de hoje vê-se perfeitamente o corpo do vento, a sua musculatura caótica, os braços a crescer em todas as direções, remexendo o que devia estar quieto e fazendo chover em todas as frestas. Com o guarda-chuva quebrado pelo avesso, Zé Carlos abre a gabardina para proteger a mulher, mas ali não cabem dois corpos e a cada rabanada encharcam-se as pernas de ambos, mais as dela que usa saias tanto de verão como de inverno. Avançam pela rua como podem – e mal podem – ele atrapalhado por incapaz de a manter segura, ela a rir, toda molhada, com os cabelos alvoroçados e já sem orientação.
Zé Carlos impotente e Adriana divertida com o vento – assim se resume o que se vê. Quando um homem é, ao mesmo tempo, um idiota e um cavalheiro, nada de essencial fica a faltar a uma mulher.

31.1.19

Piranhas

Quando eu estava grávida, sonhava muitas vezes que os meus filhos nasciam com dentes e acordava em aflição. Não se precipitem os leitores a julgar que me sobressalto com pouco ou que esqueço outros azares e desastres com mais fôlego para aterrorizar as mães. Neste sonhos, frequentes e repetidos nos detalhes, eles nasciam com dentes carnívoros, pontiagudos, de bicho selvagem. Num primeiro instante, assim que mos pousavam no colo, aparentavam uma comovente pureza, tinham a pele rosada, leitosa, o olhar cheio de curiosidade e estiravam em leque os dedinhos das mãos com uma preguiça doce, algodoada. É um espanto esta impressão de que o mundo inteiro se reconstrói quando alguém nasce, sepultando numa fundura irrecuperável todas as vergonhas, tristezas e dúvidas do passado. Estar de esperanças é o mais justo dos termos usados para quem leva um filho no ventre. Inebriada, eu sentia a plenitude do amor primordial, ainda sem argumento, comércio ou razão. Mas assim que desapertava a camisa para lhes dar de comer, o desfecho, embora repetido, surpreendia-me sempre: eles abriam a boca e exibiam a mortífera dentadura, semelhante à de uma piranha. Com o susto e o nojo, eu afastava-os, embora sabendo que para arrependimento era tarde: os filhos são o único feito na vida que não tem reversão ou remedeio, é encher o peito e criá-los mesmo que transportem um gene de origem obscura e feição maligna. A sobrevivência deles pedia o meu sacrifício. Então, franzia-me toda, cerrava os olhos e oferecia-me para aguentar aqueles dentes apunhalando a minha carne. Felizmente, acordava sempre aí. Mas quando de verdade eles nasceram, uma das primeiras coisas que fiz foi enfiar-lhes um dedo na boca e sentir, aliviada, a inocência mole das suas gengivas.

29.1.19

Arrepio

Em plena luz do dia, o senhor Pereira fala baixinho à viúva enquanto lhe aperta a mão. Qualquer que seja a confidência, ela paga-a com um sorriso. Não o faz, porém, de forma casta, como mera simpatia de vizinhança. No brilho carmim, artificioso, dos seus lábios, há um lume de insinuação, uma fenda que lembra as portas sempre entreabertas, sugestivas, magnéticas, do inferno. Levanta a mão direita, sacode da lapela do sobretudo dele umas poeirinhas imaginárias e por fim pousa-a, como uma pena, na largueza daquele peito.  
– Um avô babado, é o que o senhor é!  
Por ser impossível a reciprocidade do gesto sem abuso, ele limita-se a segurar-lhe o braço um pouco acima do cotovelo. Esperando passar invisível, olho de lado, mal respiro e caminho como se as crianças dormissem a sesta. Há altruísmo no meu excesso de cuidados, posso garantir. A mais leve perturbação pode liquefazer o retrato, afastando-os em direções opostas a tossicar. Qual a necessidade de os envergonhar por causa deste gozo juvenil que até a mulher do senhor Pereira consente calando? E, além do mais, todos nós sabemos como é deliciosa a visão breve, o lampejo, o arrepio instantâneo da vida que preterimos ou que por destino nos escapou. 

28.1.19

Passarela

Aos domingos de manhã, os pais vestem as crianças a preceito para se esbardalharem na marginal. Há meninas a pedalar aos ziguezagues com as cinturas muito apertadinhas em casacos de trespasse cor-de-rosa, laços de fita nos sapatos e cabelos com arranjos que, infelizmente, mal resistem à nortada. Os meninos arrastam os patins com os colarinhos aprumados, pullovers e calças de agradar à madrinha. Em casos assim, o que faz lamentar o tombo não é a ferida mas a nódoa e o rasgão. E esta é a mesma marginal onde, graças à simulada distração dos donos, ficam a fermentar os dejetos dos cães com nomes de escritores. A mescla poderia ser confusa, não fosse o facto de, aparentemente, ninguém se importar, como se todos estivessem já habituados a desfilar com tão criteriosos outfits por entre mau cheiro e sujidade.

25.1.19

Investimento

No sexto ano, a Margarida contava-nos uma anedota absurda e ria dela como se soltasse demónios pela boca. Era sobre um homem que pedia a outro uma caneta, ao que o outro respondia não tenho, mas tenho pena. Então, por favor, empreste-me a pena. Não, tenho pena de não ter caneta. O primeiro homem, vendo nisto muita graça, quis imitar e quando lhe perguntaram se podia emprestar um isqueiro, respondeu não tenho, mas tenho fósforos. Então, por favor, empreste-me os fósforos. Não, tenho fósforos de não ter isqueiro. Ríamos muito com a estupidez e se a Margarida repetisse a anedota no dia seguinte, repetíamos nós as gargalhadas. Não, tenho fósforos de não ter isqueiro. E quando ela a contou à professora de português, nós estávamos à volta dela em bando, seguidores acéfalos, ainda a rir. Não, tenho fósforos de não ter isqueiro. E na cantina a Margarida também a contava às cozinheiras e nós na fila, atrás, sempre a rir do que já não tinha novidade. Não, tenho fósforos de não ter isqueiro. É que a Margarida era a melhor aluna de todo o sexto ano, anotava metodicamente os trabalhos de casa e as datas dos testes, tinha o cargo de delegada de turma e a confiança dos professores, falava três línguas quando nós mal arranhávamos uma. E se há coisa que se aprende facilmente, desde muito cedo, é que a subserviência é o menos trabalhoso de todos os investimentos.

23.1.19

Perseguição

Explico ao estagiário que nem sempre um texto curto é um texto sintético. Ainda que escreva apenas duas linhas, há o risco de uma delas ser excesso. Assim é difícil, diz ele, pousando as mãos na cintura e bufando, como a descansar de um trabalho braçal. Não lhe digo, mas estou solidária: no que toca a este assunto também sou vítima diária e já exausta da minha própria perseguição.

22.1.19

Distância

A rapariga da papelaria lamenta-se. Ao ritmo de Alice, cresce também a distância entre os que a conceberam. É um fenómeno oposto ao que se espera, pelo menos a julgar por quantos fazem filhos na ilusão de apertar o nó do casamento. Mas, neste caso, faz sentido: tratar da menina vai deixando de exigir contacto e diálogo permanentes entre ambos. 
No princípio, quando o pai vinha buscar Alice, a rapariga da papelaria investia muito tempo em orientações e avisos. Explicava-lhe até as letras das cantigas de embalar, que ele já não tinha de memória. Abria o saco e aqui estão as fraldas, as toalhitas, a manta, a muda de roupa, o paracetamol para o caso de, outra chupeta, na dúvida liga, não te ponhas a inventar. Ao vê-los ir, chorava sem saber qual das ausências lhe causava dor maior: se a da filha, se a do pai. Muitas das vezes, nem dez minutos depois ele já estava a ligar, achas que posso tirar-lhe o casaquinho? É assim que algumas mulheres mantêm os homens sob a sua dependência: guardando só para elas certos conhecimentos, receitas e sensibilidades. Ou, ainda que partilhem, criticando-os depois por não alcançarem a devida perfeição. Mas acontece que agora o pai trata de Alicita sem ajuda, não porque tenha apurado o instinto, mas porque a menina cresce e, crescendo, facilita, colabora, comunica. Vem buscá-la já sem inseguranças e apenas pousa na testa da rapariga da papelaria o beijo casto, fraterno, tão infelizmente desinteressado, que a deixa de boca entreaberta, cheia de sede e de pena. Na tentativa de prolongar o momento, ocorre-lhe sempre um já agora, uma ridicularia, um detalhe, mas ele mal a olha ao responder fica descansada. Que grande se vai tornando a distância que os separa. Quantos mundos e suposições já cabem no intervalo, quantos idiomas estranhos se falam quando ficam em silêncio, quantos rios correm entre eles arrancando pedaços às margens e que reversibilidade pode haver num abismo cavado assim lentamente em torno de tão poucas e tão frágeis noites de amor?

19.1.19

O domínio do público

A obra de Monteiro Lobato, que ofereceu à minha infância a mais maravilhosa ficção, entrou em domínio público no início deste ano. A imprensa brasileira tem estado a dar notícia de algumas das mudanças que vêm com as novas edições e conta que outros escritores adaptaram, a pedido das editoras, textos e figuras de alguns livros. Entre as várias adulterações, vão ser eliminadas todas as expressões e palavras que, segundo os entendidos, denunciam o racismo do autor. E dona Benta não mais poderá ser chamada de "velha", mas sempre e só de "senhora". Fiquei também a saber que as "Caçadas de Pedrinho" não são editadas há muito tempo, por motivos que o título nos ajuda a deduzir. Caso alguém queira saber do que mais se compõe este carnaval, o google tem estado a responder bem.

Dona Benta sorriu.
– Verdade pura! Nada mais difícil do que a verdade, Emília.
– Bem sei – disse a boneca. – Bem sei que tudo na vida não passa de mentiras, e sei também que é nas memórias que os homens mentem mais. Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique fazendo uma alta ideia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos outros. Logo, tem de mentir com muita manha, para dar ideia de que está falando a verdade pura.
Dona Benta espantou-se de que uma simples bonequinha de pano andasse com ideias tão filosóficas.
– Acho graça nisso de você falar em verdade e mentira como se realmente soubesse o que é uma coisa e outra. Até Jesus Cristo não teve ânimo de dizer o que era a verdade. Quando Pôncio Pilatos lhe perguntou: “Que é a verdade?”, ele, que era Cristo, achou melhor calar-se. Não deu resposta.
– Pois eu sei! – gritou Emília. – Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que ninguém desconfia. Só isso.
Dona Benta calou-se, a refletir naquela definição, e Emília, no maior assanhamento, correu em busca do Visconde de Sabugosa. Como não gostasse de escrever com a sua mãozinha, queria escrever com a mão do Visconde.
– Visconde – disse ela –, venha ser meu secretário. Veja papel, pena e tinta. Vou começar as minhas Memórias.
*
in "Memórias de Emília", Monteiro Lobato

18.1.19

Devolução

É incompreensível que me apareças nos sonhos com o caráter tão desfigurado. Esta noite, por exemplo, apareceste a dizer-me que tens estado com mulheres mais simples, a quem é fácil agradar com versos comovidos e outras peças de bijuteria amorosa. Juraste-me que elas tremem entre as pernas quando lhes elogias a inteligência, que te julgam raro só por te emocionares com uma flor e que te oferecem os próprios olhos como espelho. Em ti não invisto mais, recebo nada em troca, remataste. Mas não veio daí a minha dor, tampouco o meu espanto. E falares disto nos termos de um negócio foi só a mais comum das visões do amor e o mais banal dos motivos para o abandono. O que me sobressaltou e mesmo depois, no limbo, com um pé no sonho e outro no real, me doeu, foi sentir que, como os amantes zangados de outrora, te despedias devolvendo o que de mais caro e difícil te dei: todas as palavras que escrevi para ti, sob múltiplos disfarces, quantas vezes travestida, adulterada, mudando de sexo, de identidade e de casa para que jamais te faltassem a curiosidade e o deslumbramento. 

17.1.19

Créditos

E sobre a perfeição de Joaquim, nascido sem mácula, mossa ou inchaço, afirma à boca cheia o senhor Pereira:
– Não há dúvida de que o meu filho fez ali um trabalho muito bem feitinho. 

15.1.19

O nascimento de Joaquim

Correu tudo bem. Joaquim esperou a transição do solstício, evitou as festas, poupou-se a fogos e a artifícios, e só veio ao mundo quando a ressaca abrandou as cidades e a luz dos dias começou a espraiar-se. Disseram que deu poucas dores à mãe. Ou talvez seja a mãe pouco dada a elas por feitio, tanto assim que dispensou analgesia a foi avisando que, salvo em risco de vida, só à natureza reconhecia autoridade no processo. O senhor Pereira, que não é de considerar meritórios nas mulheres outros dons além dos demonstrados na cozinha e no desfile público da vida, atribui à sorte o parto bem-fadado da imperatriz. Sendo homem, tem limitações no entendimento do fenómeno – e esta não é uma culpa sua. O nascimento puro e duro, que se assemelha à morte no desespero, na complexidade da travessia, no conflito de forças opostas, é o segredo involuntário das mulheres. Carregam-no por obrigação. A partilha que dele fazem, seja levando os companheiros a assistir, seja, depois, relatando com os detalhes possíveis, nunca poderá ir muito além da superficialidade. 
O filho do senhor Pereira esteve lá, com a boa intenção de pegar em Joaquim logo aos primeiros segundos de vida, mas saiu muito antes, nauseado, ao perceber que a imperatriz estava prestes a transformar-se. Pareceu-lhe que daquele corpo dilatado, pulsátil, contorcido, suplicando um repouso que a natureza doravante lhe negaria, ia sair mais do que um filho. Imaginou a imperatriz a parir vísceras, monstros, montanhas, mundos ocultos, estrelas cadentes, planetas fora de órbita. E viu o universo inteiro a desconstruir-se a partir daquele intervalo entre as coxas que tantas vezes e tão sofregamente ele tomara para sua consolação e êxtase. 
Mas, disse eu e é verdade, correu tudo bem. Joaquim é um homem de janeiro, deste janeiro comovente, enfeitado com cristais de gelo, crepúsculos de fogo e luares afiadíssimos. A astrologia atribui-lhe a qualidade de ter os pés bem assentes na terra, mas atenção: toda a virtude contém a semente do seu contrário. E esta num instante vira defeito, caso tamanha firmeza o incapacite de dar um passo para fazer caminho novo. 

14.1.19

Recordação de um duelo (2)

Confesso que sinto a falta, não de outro duelo, mas de um bom motivo para o travar. Do golpe definitivo retiro pouco prazer. O que realmente me extasia e dá sentido aos meus dias é o sentimento apaixonado que leva ao confronto, a sua preparação antecipada e cirúrgica, o treino quotidiano da destreza, as horas de atenção extrema, a imprudência que é dormir de outra forma que não seja com a cabeça em repouso sobre a arma. 
O duelo, em si, é coisa de nada. E a minha vitória foi tão inútil que me envergonha. Ganhar é uma fatalidade com pior consequência do que perder. Quem perde reavalia as suas metas, estuda as suas imperfeições, corrige os passos que deu em falso. Quem ganha amolece, deita-se à sombra de uma árvore a rilhar erva seca, admirando pores-do-sol e fantasiando novos motivos de combate. Com a vitória vem o desleixo, a desatenção e, por fim, a desgraça. Um dia destes, ela ou outra qualquer tece um parágrafo comprido, aveludado, sem encorrilhas, desses que têm feito venda nos teus olhos, apanha-me por trás e amortalha-me como a um cadáver.

11.1.19

Remendos

Os filhos com olhos de azeitona preta cresceram mas a mãe continua a fazer o mesmo percurso e a levá-los à escola todos os dias. O rapaz, que já é adolescente completo – e atestam-no as espinhas, o carapuço e o olhar desconfiado –, vai sempre mais à frente. Quer um intervalo que prove, a quem duvidar, a sua capacidade de viver independentemente e mais além de quem o criou. Ainda me lembro de ouvir, na reunião do primeiro ano, a professora dizer baixinho o menino precisa de estabilidade para ter sucesso na escola e o pai com os olhos ausentes dos viciados, embalando-se na cadeira como se lhe tivessem assaltado a consciência, compreende o que quero dizer? mas ele sempre preso no nada infinito, numa lucidez divina ou na terna flutuação do ventre materno, sei lá. Foi a única vez que o pai compareceu às reuniões. A partir daí, só a mãe. No princípio a mãe miseravelmente dobrada, um dia a mãe grávida, a seguir a mãe carregada com a bebé e as tralhas, depois a mãe a tentar amparar os primeiros passos da menina e a ouvir a professora ao mesmo tempo, até deixarmos de ter reuniões em comum porque o rapaz ficou para trás na escola, embora vá à frente no caminho. 
A menina anda agora pelo seu próprio pé, vaidosa que só visto, nem um fio de cabelo ao acaso, nem um acessório fora destas modas breves e estridentes que alimentam as lixeiras. Pelas contas que faço, já tem dez anos e ontem de manhã, senhorinha de si, seguia mexendo orgulhosamente num telemóvel fúcsia cheio de brilhos. A mãe rodeava-lhe os ombros com o braço robusto, protetor, e sorriam ambas como jamais as vi sorrir. Foi exatamente à hora em que o sol entrou pela rua dentro e as cobriu de uma claridade promissora, capaz de transformar o mundo. De vez em quando, Deus cose uns remendos no quotidiano e disfarça muito bem as dolorosas imperfeições da sua obra.

8.1.19

Origem e destino

Sempre ouvi dizer no salão de cabeleireiro que a dona Maria Isabel fugiu de casa dos pais de madrugada, quando tinha dezassete anos, para viver com um rapaz que, antes do fim do dia, se arrependeu e veio devolvê-la. O plano inicial era simples e de contornos tão vulgares que nem para telenovela servia. Iam para Lisboa, onde o rapaz tinha um primo que não recusaria dar guarida a dois menores apaixonados e invencíveis. Mas entre o peso das tralhas, a confusão dos transportes e as artes necessárias para vencer alguns contratempos, levantaram-se dúvidas e antes mesmo de chegarem ao destino já davam meia-volta para a origem. Ela bateu-se, insistiu no plano, mas o rapaz desfiou aquele género de argumentos mornos que aparentam bom senso mas não são mais do que cobardia e arranjou modo de a trazer. Quando entrou em casa, a dona Maria Isabel não chorou nem se desculpou aos pais pelo susto e pelas aflições causadas, limitou-se a dizer que tinha estado ausente por engano. Levou uma surra, ficou de castigo, mas essa foi lição de pouca valia comparada com a que aprendera pela experiência.
Quando a manicura, a cabeleireira e a jovem que lava os cabelos falam disto, suspeito que inventam. Creio que tinham, à partida, um facto qualquer da vida da dona Maria Isabel, miúdo e desengraçado, e em torno dele acrescentam suposições, camadas e fitas em laço, para que um enredo de viva voz e gente real assegure a permanência das clientes. 
– Foi muita ousadia. Estávamos no princípio dos anos sessenta. E o que era Portugal nos anos sessenta? – perguntou uma vez a cabeleireira e ninguém no salão respondeu, nem ela própria.
A dona Maria Isabel nunca mais viu o desinfeliz, mas até hoje lhe agradece a revelação atempada da fraqueza de caráter. Não seria a mulher que é se o plano tivesse ido avante. Ao lado de um idiota cheio de indecisões, que faz e desfaz, diz e desdiz, acelera e afrouxa, e por fim vira costas largando-a à porta de casa como uma encomenda, que êxitos e riquezas teria conquistado? Ter-se-ia tornado invisível, igualmente acobardada, com uma vida em lume brando. E, depois de morrer, quando a rebeldia cometida por amor fosse só uma memória bolorenta e pouco credível, diriam dela que era esforçada, atenciosa, boa mãe e pouco mais. 
Sempre que ouço esta história, que é contada amiúde entre o ronronar morno dos secadores e que a protagonista escuta às vezes sem se descoser, como se não lhe dissesse respeito, penso em todas as coisas oportunas, concisas e magníficas que já ouvi à dona Maria Isabel. E lembro aquela manhã de sábado – já aqui relatada – em que ela se aproximou de mim e com os dedos firmes, maduros, coroados de pedras muito antigas, me levantou o queixo, dando à minha imagem no espelho a inabalável dignidade de uma rainha que se prepara para o retrato de uma vida.

7.1.19

Pontes

Descem a rua de braço dado o senhor Pereira e a mulher, ele vem a contar-lhe uma loucura da sua juventude, ela ri com gosto e exuberância. Comportam-se como se estivessem num palco, mas isso não é o que neles difere do resto da gente. O que surpreende e encanta é, ao cabo de mais de quatro décadas de casamento, ainda haver entre ambos histórias para contar. Talvez seja o que mantém aqueles dois braços amarrados com nó cego, rua acima e rua abaixo. Uma infidelidade pode até perdoar-se ou, por conveniência e medo, ignorar-se. É a falta de vontade de contar que anuncia a verdadeira decadência do amor. 
Antes de pararem para me cumprimentar, ela faz beicinho e sussurra-lhe eras um tolo irresponsável. Há, de facto, entre eles uma cumplicidade de aço, uma ponte que os liga acima das intempéries e de onde tudo o que avistam é miudeza, espuma ou poeira que acabará por assentar. 

4.1.19

Lições de vida

Com a ternura e os cuidados habituais, as mãozinhas aromatizadas de poeira e vento enrolando-me os cabelos e os olhos de mar invernoso alumiando os meus, o mais novo pergunta-me, mansamente para não ferir, se tenciono passar o resto dos dias a dar-lhe lições de vida. Mando que se sente à mesa e coma a sopa, a ver se ganho tempo. Nenhuma mãe, mesmo que sobrestime os filhos, está a contar com certas perguntas a horas inesperadas e a propósito de banalidades. Ora, tencionar, não. Mas então que hei de fazer com tudo aquilo que penso ter aprendido se for verdade que a mais ninguém, a não ser a mim mesma, serve? Morrerão comigo as teorias que engenhosamente formulei à custa deste estudo aplicado, quase obsessivo, do quotidiano. Serão lançadas das arribas, junto com as minhas cinzas, os vislumbres que tive depois dos erros, as possibilidades a seguir aos fracassos e os castigos sofridos pelas mágoas que causei. Não posso ao menos fazer doação em vida e em conta-gotas aos meus filhos? As misérias que surpreendi nos outros, os crimes que vi cometer por quase nada, o diabo escondido debaixo das asas dos anjos, a sombra negra e nítida da morte, o tempo desbaratado, não podem servir-lhes de aviso? 
Sei hoje que todas as pessoas são muito melhores do que julgamos e capazes de coisas muito piores do que suspeitamos. Mas nem isso, que me parece a mais útil de todas as coisas que aprendi na vida – quantas vezes diante do espelho –, eu poderei usar como alerta para eles na aproximação de precipícios, clareiras, encruzilhadas ou miradouros. Porque quando me volto para rever a estrada que já fiz, noto que não vêm atrás de mim. 

3.1.19

Inspiração

Durante catorze horas de trabalho diário e ao longo de vinte dias, Marie Lafayette costurou o vestido da posse de Michelle Bolsonaro, um modelo rosa acetinado, inspirado nos anos 50 e que custou cerca de quinze mil reais.

Já li dezenas vezes este parágrafo da notícia publicada no JN a 1 de janeiro e parece-me sempre uma belíssima primeira frase para um romance de trama misteriosa e arrebatada. 

2.1.19

*

Se reunissem todos os que se julgam diferentes, estrangeiros, opostos à maioria, incapazes de alinhar, sofredores de singularidades, movidos a raras energias, interessantes pela estranheza, formar-se-ia um rebanho enorme, tão homogéneo e indistinto como outro qualquer. 

29.12.18

Poder absoluto

Do poder de uma mulher grávida, às vezes nem a própria tem noção. É o que penso quando vejo passar a imperatriz com o pereirinha no ventre, distraída e habituada, como se carregasse uma singeleza quotidiana, uma pena, uma flor, um cesto de fruta, sei lá. Apetece-me fazer-lhe perguntas sobre coisas que mal me interessam, ter pretexto para ver de perto as sardas, os olhos felinos, o lume vivo que é o seu cabelo, toda a original e inquietante beleza que ganha energia de bicho à medida que a hora definitiva se aproxima. Muito em breve vai parir, com forças, temores e riscos que um homem nem à custa da imaginação iguala, e do seio dela se alimentará aquele que há de derrubar, de uma vez por todas, a bolorenta autoridade do senhor Pereira.

28.12.18

Cidadão

Ao abandonar a loja do cidadão, depois de ser atendido recusando a prioridade apesar dos noventa e quatro anos e da dobra nas costas, o homem ainda se voltou para trás, encarou-nos com uns olhos surpreendentemente luminosos e espertos, levantou a bengala, com ela desenhou no ar uma roda que incluiu a todos - largas dezenas à espera da vez - e disse:
- Um feliz ano novo para miúdos e graúdos! E quando tiverdes vontade de chorar, fazei como eu: dançai!

23.12.18

Se o deus menino soubesse

Se o deus menino soubesse do comportamento que tive este ano, se por carta ou em conversa lhe fosse detalhado tudo o que eu disse e fiz e ainda aquilo que, por ser inoportuno, consegui calar, dissolver e engolir, se visse como fui moderada, quase exemplar, e tão bem disfarcei intenções e desejos pouco convenientes, se notasse que, ainda que com o dobro da firmeza, as minhas sentenças reduziram para metade, enfim, se o deus menino existisse e, existindo, fosse justo e não se importasse com o meu desprezo por coisas mais fáceis e melhores, sapatos, malas, máquinas, chocolates, camisolas, havia de me trazer o pouco que eu lhe pedi - um passo atrás no tempo. E se não fosse por recompensa, ao menos por piedade.

22.12.18

Inferno

Esta manhã, às nove e meia, já havia na rua uma fila de gente cheia de boas intenções à espera que o shopping abrisse as portas.

19.12.18

Sobrevivência

Sentada na paragem do autocarro, a rapariga da papelaria faz o que pode para acalmar o choro de Alicita. Usa palavras de mãe, dessas que praticamos nos corredores das urgências, nas separações abruptas e nas horas decisivas – enganosas mas essenciais à sobrevivência. Está tudo bem, ninguém te vai magoar, eu prometo. Explica-me que vão ao pediatra, consulta de rotina, o problema é que Alice foge das batas brancas como o diabo da cruz e quando vê um estetoscópio trepa pelo colo mais próximo com a aflição de um animal dilacerado. Eu nem lhe disse onde íamos, mas ela parece que adivinha, está neste estado de nervos desde que saímos de casa. Não, Alice não adivinha, Alice percebe. É uma criança, não deve ser subestimada a sua atenção às mais miúdas alterações do quotidiano, aos desvios do percurso, à ruga vincada na testa da mãe, à tensão com que a veste e penteia, ao redobrar dos carinhos. Na raia do desespero e com vergonha de quem passa e fica a olhar, a rapariga da papelaria promete-lhe um chupa cor-de-rosa se acabar com a gritaria mas Alice é demasiado pequena para estar à venda. A seu tempo talvez aprenda esse e outros atalhos que a levarão onde quiser antes dos demais e, às vezes, por cima. A seu tempo. Por enquanto, apenas obedece ao instinto de preservação da vida contorcendo-se no colo da mãe e chamando a si a atenção da rua inteira. 

18.12.18

Poesia

Deito um olho aos papéis esquecidos na mesa e o que leio gela-me o sangue. Ali está o embrião do farsante, um corpo já com cabeça, sexo, sístole e diástole. Percebo que por uma rima perfeita, pelo rigor da métrica, por um verso estendido com a delicadeza de um sopro, ele se vai tornando capaz de cantar a mais descarada das mentiras.

16.12.18

Visão

Tenho cento e vinte por cento da visão no olho direito. Agrada-me o toque de surrealismo e fantasia que há nesta ideia. Se o princípio for o de que uma visão a cem por cento é perfeita, os vinte por cento a mais talvez incluam alucinações, coisas que não existem, aquelas em que às vezes insistimos e os outros desprezam por verem dentro de uma totalidade objetiva, matemática. Por outro lado, o meu olho esquerdo está a ser tomado por uma miopia que dissolve as legendas da televisão e certos horizontes. Tentar ver longe com ambos os olhos é desconfortável, toda a verdade pende nítida para um lado e o outro dói-se com a injustiça. 
Ora, a miopia súbita no olho esquerdo faz regredir a presbiopia que quase todos recebemos de presente na festa dos quarenta, quarenta e picos. Milagre. Mas no olho direito, o que vê de longe coisas que talvez não existam, a presbiopia avança ao ritmo normal: hoje desfoca um rótulo, amanhã uma bula, no mês que vem há de ser um sms, depois um impresso, a seguir o jornal, por fim os livros e eis a velhice. 
Tenho, portanto, um olho a andar para a frente e outro para trás. E quando pergunto ao oftalmologista como tenciona pôr ordem nisto, ele diz-me que posso evitar os óculos se conseguir enganar o cérebro e ter domínio sobre a forma como vejo. Dá-me alguns exercícios, um prazo de três meses e um adeus. Entretanto, com os campos extremos da visão envolvidos no caos, o perto e o longe nestes rumos inversos e reversos, sobra-me um único plano de lucidez: aquela faixa intermédia da realidade onde nada de verdadeiramente importante acontece.

13.12.18

Porosidade

Não é apenas a tristeza das cadeiras vazias, dos pertences sem uso e das coisas por cumprir. É algo maior e mais difícil: os mortos abrem em nós intervalos, deixam-nos a vida com uma porosidade sem remédio. Tentamos reposicionar os sobreviventes, de modo a preencher os espaços, tapar o vazamento de histórias, lembranças e outros privilégios, mas é vão o esforço. A plasticidade do amor é impressionante, porém insuficiente para cobrir todas as perdas.

12.12.18

Uma espada

Foi por altura do carnaval, um qualquer da minha infância. Eu e o mais novo dos meus irmãos fantasiávamos uma brincadeira vulgar com acessórios improvisados e outros de anos anteriores, resgatados ao armário. O escarcéu e a risota alertaram a minha avó, que achava que as crianças buliçosas precipitavam catástrofes e por isso as temia quase tanto como às trovoadas e aos comunistas. Ao entrar na sala, franziu-se toda de susto e deitou as mãos à cabeça quando viu o meu irmão manusear um objeto comprido e aguçado, com acabamento de efeito metálico e punho dourado.
– Credo! Larga essa espada, rapaz!
O meu irmão recuou, os olhos duas esmeraldas reluzindo a baixíssima temperatura, a tez aciganada que só ele e a minha irmã mais velha herdaram, um porte desafiador, a espada levantada no ar. Depois, dobrou-a completamente com a ponta de um único dedo, a mostrar que aquilo não era mais do que plástico de qualidade medíocre, e perguntou:
– E porventura isto é uma espada?
Senti um fascínio que me enternece lembrar. Beneficiando da esmerada dicção e da ênfase dramática que ele lhe deu, a pergunta foi como um verso declamado por um príncipe na boca de cena, sob feixes de luz mágica. Porventura isto é uma espada? E a palavra que eu nunca ouvira antes e cujo significado desconhecia – porventura – que medida tão certa, que peso delicado e firme! Soava a brisa fresca, lâmina, seda, odor cítrico ou qualquer outra subtil provocação. Ele não tinha mais de dez anos e eu ia nos oito incompletos. Vejo ainda as formas e cores originais deste episódio, certa de que porventura foi a primeira palavra que eu amei generosamente, com todas as letras, curvas e intenções.

11.12.18

Oportunidade

– Ó menina, o título desse livro parece uma verdade de la police.
Outro qualquer a dizer isto e eu, além de rebentar de riso, teria corrigido com o nariz empinado. Mas acontece que o senhor Pereira tem já um certo estatuto, tornou-se uma oportunidade quotidiana e certeira para eu dissolver as minhas pequenas embirrações com o mundo, que me é dada de bandeja, com a palmadinha no rosto e outras ternuras que as filhas dele recusam. Longe vai o tempo em que eu me eriçava como um animal só de o ver dobrar a esquina, asno machista, palhaço, ignorante, cegueta, provinciano da beira-mar e do betão. Agora, ao invés de me enervar, vou para casa tentar fazer com os meus filhos melhor do que fizeram com ele. 

10.12.18

Assédio

A cabeleireira continua a assediar-me para uma poda e já me é difícil dizer não sem abdicar da simpatia. Para me convencer, usa a mais mesquinha e vulgar das estratégias: lembra-me as fraquezas que, segundo ela, se veem a olho nu e das quais ela pode livrar-me se eu permitir que me meta as mãos e a tesoura. Anda-lhe a cair muito cabelo, não anda? Assim atira em voz alta quando me vê passar. Expira o fumo do cigarro com o queixo todo emproado à direita, o peito insuflado pela soberba, os olhos ofídios a minguarem. Qualquer coisa que nenhum artifício, tinta ou verniz podem ocultar, respira nela profundamente. Talvez uma dor antiga, uma perversão original ou ambas e uma por culpa da outra tenha nascido.
Paro e avanço até ela, pronta a responder-lhe com uma ironia que me dignifique. Mas, em cima da hora, quando apenas meio metro de distância nos separa e o meu coração ferve no lume desgovernado de mil respostas possíveis, mudo de ideias. Tiro a boina e autorizo-a, uma vez mais, a enfiar a mão por entre os fios soltos do meu cabelo.

8.12.18

Autorretrato

Curiosa, a prontidão com que a maioria das pessoas se define, por meio de adjetivos, gostos ou hipóteses. Defeitos e virtudes, enumeram-nos num segundo, têm uma lista antiga, que serve em entrevistas de emprego, diálogos de circunstância e como suplemento para a autoestima. Usam muito a teimosia. O perfecionismo. A intensidade. O clássico e vulgar tudo o que tenho a dizer digo. Têm até por certo o que fariam em todas as situações, mesmo nas que nem em sonhos vislumbram e sobretudo naquelas em que os outros fracassaram. Fariam sempre do modo correto, não duvidemos. Por isso são vítimas. Porque são bons. E sendo bons, coitados, naturalmente que são ingénuos, pois quem não pratica maldade é incapaz de a ver nos outros. Têm palavras para definir o seu direito e o seu avesso. Não lhes basta um cumprimento, um sorriso e um nome para se apresentarem. Descrevem-se com paixão e minúcia. É tanto o que afirmam de si mesmas quanto o que eu ignoro a meu respeito. Eu, que há muito deixei de arriscar a conjugação do verbo ser na primeira pessoa, porque nunca fui nada daquilo que pensava. Felizmente, fui sempre melhor ou pior - e este é o retrato mais preciso que posso dar de mim.

5.12.18

A morte, às vezes

A morte tem, por vezes, esta atitude cerimoniosa, entra pelo corpo cheia de respeito e consideração, pezinhos de lã, nem grito, nem dor. É o gesto compassivo que abraça e conduz suavemente, para manter as revoltas e a desesperança longe do coração dos que ficam. Depois do trabalho feito, recua, esconde-se por baixo dos olhos cerrados e fica na sombra de uma outra grandeza: a do tempo vivido. Há homens com quem é assim. Até a morte se encolhe como se pedisse desculpa.

3.12.18

A pergunta

Aconteceu mais depressa do que pode parecer pelo modo de eu contar. Entrei na roulotte, o meu irmão estendeu a toalha de xadrez azul (creio ter visto um padrão igual na loja sueca), sentou-se e fixou-me os olhos:
– Então qual é a pergunta?
Abri a boca com lanço suficiente para debitar dez ou vinte perguntas, as que mais me inquietam, algumas tão antigas que tive de lhes sacudir o pó para reencontrar a formulação certa. Pressentido a enxurrada, ele fez um gesto brusco com a mão.
– Uma. Os búzios só te podem responder a uma pergunta. 
Muito bem. Endireitei-me, organizei mentalmente as perguntas tentando reuni-las numa só, de modo a livrar-me, de uma assentada, de toda a ignorância em que tenho vivido. Por várias vezes julguei ter a pergunta certa, a primordial e derradeira pergunta, aquela cuja resposta me faria sorrir como o Buddha ou a Mona Lisa. Mas logo outra melhor se lhe substituía, a que me permitiria acordar a cada manhã sabendo exatamente onde pousar o pé e a quem estender a mão. E depois outra, que colocasse os pesos no lado justo da balança a cada decisão que a vida me obrigasse. E ainda outra, que me desse a consciência prévia de todos os perigos e me oferecesse, de bandeja, para dar e vender, a saúde e a sorte. 
– Qual é a pergunta? ele insistia. 
– Espera, está quase...
E quanto mais perto eu julgava estar, mais me afastava, quanto maior o foco da minha visão, maior era o detalhe vislumbrado e no detalhe estavam todas as linhas com que o universo se cose, mas qual delas puxar para que tudo se abra e se revele? Qual delas? Qual? A certa altura, incapaz de decidir, agonizei e todo o disparate possível me ocorria – vale a pena jogar no euromilhões? do que morrerei? quem me vai atraiçoar?  – enquanto os búzios se alvoroçavam nas mãos do meu irmão como se estivessem vivos. 
– Acabou o teu tempo...
E com a cabeça tombada na toalha de xadrez azul, eu chorei a perda da maior oportunidade da minha vida.

Nenhum dos meus irmãos lê búzios ou vive em roulottes. O que conto foi um sonho, coerente e completo, que tive no princípio da semana passada e, desde então, o meu pensamento tem andado a cismar: qual é a pergunta mais importante?

2.12.18

Obstinação

Apesar de os que vivem obstinada e exclusivamente de acordo com o próprio credo, cartilha e convicção terem dificuldades em dobro para vencer, no final, serão mais simples as suas contas à vida: se tiverem sucesso, a si mesmo o devem. Mas convém lembrar que, se fracassarem, idem.

29.11.18

Recordação de um duelo

Volto ao campo de batalha para me certificar de que estou imune à tentação de repetir a desproveitosa façanha que foi este duelo. Arrepio-me com a beleza que agora consigo ver. É tão maior o esplendor do sol quando rebrilha nos destroços! O vento e as chuvas já dissolveram as manchas de sangue mas será morosa a recuperação da vida. Uma vez perdida a confiança nos homens, não bastam umas poucas luas para que a natureza volte a expressar a grandiosidade das suas intenções. Noto, porém, que a bicharada tem aparecido a farejar abrigo e alimento, há rumores, pegadas e cheiro de organismos vivos. Está tudo naquele intervalo de tempo em que o futuro se põe a decidir o que do passado vale a pena aproveitar. 
Apanho do chão algumas palavras que me caíram dos bolsos – às vezes sou tão desastrada com as coisas que tento esconder – e em que, felizmente, ninguém reparou. Sou obrigada a reler também as que ela escreveu e por todo o lado foi largando a cobrir as imperfeições do terreno. A vida istoO amor issoA esperança aquilo. Envergonha-me lembrar que foi contra ela que me dispus à luta, queria reverter o desperdício de cada linha que afiei, manobrei e lhe encostei às carótidas. Nada a fazer, agora. Na maioria das vezes, levantamos o punho e as armas por causas sem merecimento, porque nos ensinam, de pequenos, que a bom porto chega quem vai a tudo com mais força. Mas se ao menos combater desse o gozo de um vício, como fumar às escondidas, arrancar um sabugo com os dentes, ir a jogo só com um par de dois. Se houvesse adrenalina, desejo, cegueira, e, por fim, alívio! Não. Combater é um hábito triste e banal, qualquer coisa que acordamos dispostos a fazer por reflexo, por mecanismo, pelo sobrenome, pelo título, pelo plano mais vulgar da existência, pelo medo de cair no esquecimento, que é a fossa onde apodrecem os cobardes.

28.11.18

Do pavão ao homem

Galantear uma mulher em público não demonstra intenção real de a valorizar. É uma atitude que tem por desesperado objetivo exibir o próprio potencial de sedução. Já o elogio sincero, esse é um ato de coragem porque eleva o outro e nos deixa a nós na sombra. O galanteio, a ser bem feito, deve ser em privado. O elogio pode justificar e merecer plateia. Da compreensão destes simples factos parte a diferença entre o pavão e o homem.

* A propósito das exibições de António Lobo Antunes e de tantos outros.

27.11.18

O que eu vi

Só eu vi, mas outros gostariam de ter visto, a viúva a sair do carro e a descer a rua com a parte de trás da minissaia de padrão escocês toda levantada e presa no cós. As nádegas completamente expostas, a renda das calcinhas afundada num vale de perturbadora abundância, mais o debruado das meias de liga em torno das coxas, tudo a oscilar com uma inesperada volúpia. E ela sem dar por nada, ignorando a generosidade da partilha, sorrindo ao mundo, saudando a vida como uma rainha, enquanto o vento a possuía por trás. O senhor Pereira, excitado só de imaginar que o desgosto fechou a sete chaves o corpo maduro da viúva, que a solidão lhe voltou a costurar a virgindade, não teria mais noites tranquilas se houvesse visto o que eu vi.

25.11.18

Obras

Esta manhã, Tolstói, Kafka e Hemingway fizeram cocó na marginal. Mas os donos - já era de esperar - ignoraram a grandeza e o impacto das obras, disfarçando à conversa no telemóvel ou vasculhando nas nuvens resposta para as dúvidas metafísicas a que só espíritos de vastíssima cultura, inspirados nas bibliotecas até para nomear os bichos de estimação, se entregam.

24.11.18

Histórias

- Bocê não é a senhora que contava histórias?
Assusto-me com a mão a pousar no meu ombro, viro-me e tenho de levantar a cabeça para encontrar os olhos de quem fala. 
Bocê lembra-se de mim? 
Gaguejo. Por favor, ajuda-me. Ele diz o nome e o sobrenome. Vasculho os traços originais do seu rosto, tento apagar-lhe os excessos, as borbulhas, o buço envergonhado, o sebo a reluzir na testa e no nariz, troco-lhes os dentes por uns de leite, experimento ainda sem os incisivos inferiores. Dou a volta pelos lugares onde contei histórias, quero lembrar-me mas houve tantos com o nome dele e podiam ser Mendonça mas também Silva, Cabral, Tavares, Carvalho, Vieira, Rocha, Gonçalves. E houve Miguéis, Cátias, Pedros, Marianas, Fábios, Carolinas, dezenas de Beatrizes e Martins, carradas de Tomás e Constanças, os primeiros de milhares de Salvadores e Santiagos que despontariam mais tarde como cogumelos, consigo ainda vê-los, desdentados, com sardas, joelheiras, totós, bolas, laçarotes, unhas sujas, roídas, outras tão cedo corrompidas pelo verniz rosa dos chineses. Uma vez eram à volta de quatrocentos, foi preciso um gimnodesportivo e eu sem microfone nem palanque. A diretora procurava impor uma autoridade que lhe justificasse o salário, se não estiverem sentados, quietos e calados não há história, mas a indiferença tem o efeito do vácuo e os gritos dela eram abafados como os pedidos de socorro nos pesadelos. Porém, assim que eu dizia era uma vez eles ajoelhavam-se e a alguns o queixo começava a cair de espanto e outros punham o dedo no ar a pedir a palavra para saber mais a respeito de certas cores, formas, feitios e razões. E eu – perdão se me falta modéstia – fazia tudo isto muito bem, sem recurso além da voz e das mãos, e em certos dias comovia-me e queria ficar mais tempo, mas as crianças eram levadas em fila para cumprir tarefas de superior importância. 
- Cresceste tanto...
É a única coisa que me ocorre dizer sem perigo de gafe. Ele dobra-se para me dar um beijo e eu tenho saudades, mas quem me dera saber exatamente do quê se mal reconheço quem tão feliz me cumprimenta.
- Ainda conta histórias?
Vou dizer-lhe que não, já não conto histórias, só mentiras, sou uma intrujona, escrevo coisas que nem queiras saber. E o pior, o que dá medo, é que já ninguém põe o dedo no ar a fazer perguntas porque ninguém duvida do que está escrito.

23.11.18

Preguiça

Apesar de tudo, em certos dias a tua ausência é um alívio. Dá muito menos trabalho desejar-te do que compreender-te.

21.11.18

Insónia

Acordada a meio da noite pela violência de um aguaceiro, compreendi hoje o desespero dos insones. Porque cada gota de água que batia na vidraça – e eram tantas! – soava-me como uma possibilidade de fracasso, uma suspeita de doença ou um vulgar, oco e injustificado pavor de existir.

20.11.18

Atitude cultural

Uma das coisas mais aflitivas que por vezes acontecem na blogosfera é a exibição ostensiva de uma atitude cultural. E chamo-lhe "aflitiva" porque transparece, nas entrelinhas, o esbracejar. Infelizmente, não é boa ideia querer à força dar provas  –  enumerando e justificando –  do quão culto se é. Não basta ler, visitar, conhecer, estudar, colecionar pontos, visões, citações, para mais tarde debitar. Quando o espírito realmente se abre, a primeira coisa que sai, para que outras possam entrar, é a arrogância. Presumir, por presumir, que os outros não alcançam o mesmo que nós e disso retirar gozo público, é uma evidente, apesar de consentida, demonstração de falta de cultura. E, de resto, a capacidade crítica não assenta na troça, mas na desconstrução.

19.11.18

*

Para a mulher do senhor Pereira - e não só - todo o erro é consentido desde que não seja visto. A sua ética não assenta na moral mas na vergonha. Terá, certamente, resposta para a clássica questão filosófica sobre se produz som a queda da árvore caso não esteja lá ninguém para ouvir. Não, dirá. Graças a Deus, não produz.

18.11.18

E agora?

Não será esquecido este dia, em que Alicita deu os primeiros passos sem amparo e a mãe se desfez em lágrimas como numa despedida. Diz que partiu cambaleante de entre as pernas da avó, atraída por um gato preto de patas brancas que a mirava do lado de fora da papelaria. A meio do caminho hesitou, a todos pareceu que ia tombar, mas de novo recuperou o lanço e foi até à porta para lá se deixar sentar no chão, exausta da aventura, acenando ao bichano numa felicidade simples, desinteressada, de causar inveja. Havia de a ver, diz-me a avó, parecia que tinha um foguete no rabo.
E agora? pergunta a rapariga da papelaria e afaga o ventre como se alguma parte da filha ainda lá morasse. Receio, por vezes, ter pena dela. É um sentimento que me desagrada, ainda mais sobre alguém cuja bondade é de uma evidência quase novelesca, literária, sem nenhum facto, até hoje, que a desmentisse. O sonho dela - o de um amor eterno - canibalizou todos os outros, fechou-lhe a visão periférica, e agora ela não tem muito mais que fazer além de ver a filha partir devagarinho e organizar revistas sobre o balcão com uma cadência favorável à melancolia. Mas, pensando bem, qual a utilidade de um sonho provido de razão e bom senso, que não desconstrua a lógica mental do sonhador? Haverá sonho digno desse nome que não exija hipoteca pesada? Que não desperte a piedade, a desconfiança ou a troça? A rapariga da papelaria sonhou com o amor absoluto, leal, verdadeiro, devotado, telepático, um amor unha e carne, mata e esfola, superior a todas as coisas mundanas, transitórias e materiais. E deste sonho acorda triste e levanta-se desesperançada, por mais que a filha lhe ilumine as horas. Agora, talvez na organização das revistas ela reinvente a sua ordem para a vida, que pode ao menos mudar a cada manhã, consoante a importância e a espetacularidade das notícias, ora mais leves, ora mais graves.

17.11.18

Abalo (2)

Agora é isto. O Norte, que de costume não tremia nem por nada, parece que lhe tiraram a fibra e a pedra que tinha por dentro, amoleceu, deu-lhe a osteoporose, uma distrofia muscular ou coisa que o valha, por qualquer coisa é uma vibração suspeita por baixo das plantas dos pés e o rumor de um comboio que passa, não para mas deixa recado a lembrar já não és o que eras.

16.11.18

Pranayama

Quando inspiro profundamente, sinto a tua mão trepar-me, sorrateira e curiosa, desde o pé, pela perna, a coxa, a nádega, a cintura, as costas, e enterrar-se, toda aberta, na raiz dos meus cabelos. Quando expiro, dissolvo-te no ar até seres nada. De novo inspiro. E expiro. Perfeito mecanismo este, que me mantém viva e lúcida.

15.11.18

Palco

Eu sei – de uma forma ou de outra, toda a profissão é um exercício de teatralidade, o desempenho de um papel, um jogo de máscaras e personagens. Mas tentar escrever textos humorísticos num dia em que a alma chore por um acalento, uma cantiga mansa, é tão difícil como ter de interpretar Maria Antonieta com o hábito de São Francisco de Assis. 

14.11.18

Gaitas e pianinhos

Aniversário de casamento devia dar direito a prendas, não a fretes. É o que diz o senhor Pereira, enquanto passa uma flanela no capô do mercedes e pela enésima vez fala das maravilhas do cruz control, perguntando-me se também tenho esse luxo. Por amor de Deus, senhor Pereira, exclamo, apontando a simplicidade do meu automóvel, que considero até estar programado para mais ousadias do que aquelas que eu costumo permitir a um objeto. Pois..., ele olha-me compassivo, como se me faltasse teto, alimento ou dignidade. Mas então - retoma enquanto desdobra, sacode e volta a dobrar a flanela - vai fazer quarenta e poucos, muito poucos, anos de casamento e a imperatriz ofereceu-lhe e à mulher uma prenda que nem ao diabo lembra. Pudesse descalçar esta bota, inventar uma doença, um acidente, qualquer coisa que o livrasse de aguentar o martírio! Mas o que há de ser assim tão mau que cause esta agonia a alguém sempre bem disposto à generalidade das coisas da vida? Responde-me com um sorriso, que é primeiro de gratidão pelo elogio mas logo se transforma em gozo quando abre a porta do carro e o porta-luvas e tira um envelope:
- Diga-me a menina se isto não é para rir.
Dentro do envelope estão dois bilhetes para um concerto pela Orquestra Sinfónica do Porto, na Casa da Música. 
- Parece que inclui jantar, a menina está a ver, eu com a barriga cheia se me sento a ouvir gaitas e pianinhos adormeço.

(intervalo para esclarecer os leitores de imaginação preconceituosa, que possam ter achado que à insuficiência de cultura e bom senso do senhor Pereira corresponde insuficiência de aspeto ou modos. Saiba-se que é um homem de muito boa figura, tomaram outros de menos idade ter a sua elegância e o seu gosto a vestir. Não, não varre a cera do ouvido com a unha do mindinho nem exibe o peito peludo. Lembremo-nos que se há coisa que a sua mulher não perdeu ao longo dos tempos foi a vaidade. E nenhuma mulher vaidosa dançaria a valsa num resort com um grunho ou andaria com ele de braço dado na rua)

- Não são gaitas e pianinhos, senhor Pereira. E duvido que adormeça, porque esta sinfonia tem momentos muito intensos. 
- É uma sinfonia?
- É. 
- Ah, então se é só uma deve ser rápido.
Escolho poupá-lo à verdade, pois temo que o seu coração passe mal. Pigarreio, mas ele nem nota. 
- Eu vou-lhe dizer, menina. A inteligência vê-se nestas pequenas coisas e de certeza vai concordar comigo. Eu, se estivesse no lugar dela, era uma garrafinha de Vinho do Porto e estava feito. 
- Vinho do Porto já não surpreende ninguém.
Ai, se a vida permitisse fazer cmd+z, eu tê-lo-ia feito logo após esta heresia.
- Ó menina, tenha paciência! Eu lá quero ser surpreendido? Deixem-me é estar sossegado. Francamente, com todo o respeito, mas há mulheres que não se percebe. Como é que o meu filho se foi meter naquilo?
Tenho dúvidas sobre o que o senhor Pereira quer dizer com a expressão meter naquilo, mas sigo adiante porque tenho andado pouco certa das ideias e ficamos todos mais seguros se eu puxar a rédea ao pensamento. Ainda tenho os bilhetes na mão, ele parece ter medo de aceitá-los de volta, quem lhe dera que uma rajada de vento mos arrancasse e os enfiasse nas ranhuras de um bueiro para nunca mais. No instante em que decido pousá-los no capô, reparo um pormenor que me desconforta: o dia do concerto é o do aniversário de casamento dos meus pais. Encabisbaixo-me. Por motivos diferentes, o senhor Pereira também. Só o mercedes brilha de forma estupenda, à luz oblíqua deste São Martinho atrasado.

13.11.18

A dúvida

Quando a sala esvazia, sento-me diante de Buddha procurando imitar a sua dignidade e pergunto-lhe como hei de sossegar o coração. Aviso logo que tenho feito de tudo: planto-me de cabeça para baixo, respiro conforme os ensinamentos antigos, sorrio às adversidades e treino a compaixão pelo inimigo. Mas acontece que as minhas boas intenções têm sido corrompidas pelo desejo do que não me está destinado, pelo impulso de rir do que não devo e pela intolerância com ninharias que talvez não tragam mal ao mundo. Imortalizado no seu rasgo de iluminação antes que dele desistisse por não mais o suportar, Buddha parece dizer-me que tudo o que eu faça será como insuflar um saco roto. 
Lá fora, a harmonia do canto dos pássaros mede forças com a do sorriso dele e escutando uns e observando o outro nasce-me a dúvida: de que lado está realmente a verdade? As dúvidas – mesmo estas de trazer por casa –  são como as crianças impertinentes, uma vez que lhes damos ouvidos não mais se calam e andam de volta de nós em saltinhos. Agora não é altura, dedo firme sobre os lábios para que a dúvida se acalme. Tarde demais. Já tenho a mente cheia de pensamentos que as religiões desaprovam e o vento, que dá às cortinas estrutura e modos de gente endemoninhada, convida-me, de assobio, a ir com ele arrancar as cepas à terra e os telhados às casas e, de caminho, só por entretenimento, soprar nos ouvidos dos homens quando eles dormem. 
A Buddha pouco importa que eu vá semear desordem e troçar de quem repousa. De manhã cedo, as monjas vieram compor-lhe o altar, reverenciaram-no três vezes prostrando-se no chão, trocaram as flores e as oferendas, acenderam-lhe velas e incenso. Tem as taças de água e de arroz cheias. Espera, paciente, porque sabe que quanto mais falhas eu cometer, quanto mais defeituosa for, quanto mais me doer o erro praticado, mais vezes regressarei para me sentar diante dele.

9.11.18

Domínio

Foi no convívio regular com um homem de belíssima poesia e caráter execrável que aprendi, há muitos anos, a não confundir a coisa escrita com quem a escreve. Espíritos torturados podem conceber versos de superior lucidez, o invejoso é capaz de comoventes parágrafos sobre generosidade e a mão que violenta a mulher pode ser a mesma que lhe escreve o mais devotado e sensível de todos os poemas. Para a coisa bem escrita basta o domínio da língua e da imaginação. É fácil inventar o próprio coração.

8.11.18

Where do I begin*

Ouvi isto hoje cedo, por um acaso, e vieram-me à lembrança os dedos delicados de uma das minhas irmãs do meio, ainda adolescente, sobre o piano. Não posso viver sem a minha memória. Que a idade me roube a fertilidade do ventre, o cálcio dos ossos, a precisão dos gestos, a fluência das palavras, a rapidez dos reflexos, mas jamais o fulgor da memória, das minhas memórias. É por elas que, muitas vezes, sobrevivo ao presente e me lanço ao futuro com uma luxuosa sensação de amparo e conforto.




* texto de Julho 2013, que publico hoje novamente a propósito da morte do autor da banda sonora do filme Love Story. 

7.11.18

Abandono

Sonhei esta noite que te dava a conhecer à minha mãe. Não em encontro formal, para aperto de mão, mas de uma maneira infantil, com cotovelada e sussurro: olha, é ele! Discretamente, ela admirou-te de cima a baixo e cruzou a perna no modo elegante, finíssimo, que sempre foi dela. Estava com o tailleur cor de marfim - desejei-o tanto quando era menina - e o seu olhar azul, irónico e de poiso incerto, sobressaía por toda a realidade em volta. Quando os meus mortos me aparecem assim nos enredos noturnos, espero que seja para, como nos filmes, me lançarem avisos, conselhos ou até revelações. Então, mãe?, eu, ansiosa por saber o que ela entrevia, disposta a fazer o que a sua intuição ditasse. Mas, como em todos os outros sonhos de todas as minhas noites dos últimos dezasseis anos, a minha mãe permaneceu muda, presa à condição de fantasma, abandonando-me por minha conta e risco. E nem sequer deixou que a visses.

6.11.18

Ficção

A ficção é o real que acontece quando ninguém está a ver. No fundo, talvez a literatura se resuma a isso: uma segunda oportunidade para repararmos na vida. O que no dia-a-dia ocultamos, recalcamos ou por precaução ignoramos – instintos básicos, pecados, vozes do outro mundo, malignidades e ambições desumanas – tudo impresso nas páginas como possibilidade distante e, por isso, segura. A leitura não é, como alguns pregam, evasão. É antes consciência absoluta, embate e confronto. 

4.11.18

Mães solteiras

Mas quem é, afinal, a imperatriz? Uma mulher de facto independente ou apenas alguém que, proibida de ousar na adolescência, experimenta na idade adulta o gozo da provocação e escolheu a família certa para disso retirar o prazer máximo? O menosprezo pela ideia de casar, ou até viver, com o filho do senhor Pereira, cuja substância primordial carrega no ventre, é mesmo sentido ou é alicerce de construção do próprio orgulho, de uma identidade que busca com urgência? É uma egoísta, uma desprendida, uma leviana, ou a gravidez revelou-lhe subitamente o justo valor das coisas e não está mais disposta a abdicar dessa clarividência?
*
A mulher do senhor Pereira espanta-se que uma rapariga criada na província - antigamente era como se dizia, sabe? - tenha aderido a estas modernices. É que ser mãe solteira não é apenas escandaloso e ofensivo, argumenta. Ser mãe solteira é uma jornada inglória, a imperatriz há de acabar por esgotar-se nas noites em claro, nas fraldas, nas febres, nas nódoas na roupa, nas correrias para a escola e, mais tarde, naquilo que, por não ver nem saber, ainda mais dor lhe há de causar. Diz tudo isto a mulher do senhor Pereira com a superioridade do costume, sobre o edificante pedestal da família que construiu e que, mesmo desentendida e oposta, é a mais certa de todas as suas idealizações. E esquece que, bem vistas as coisas, ela própria não foi senão uma mãe solteira.

2.11.18

Mortos vivos

Os mortos – dizem –,  quando se levantam das sepulturas para assombrar os vivos, choram o que em vida calaram e inutilmente adiaram, pedem ajustes de contas ou perdões. Os vivos, quando os visitam nos cemitérios e lhes oferecem flores às mancheias, fazem-no exatamente pelos mesmos motivos.

31.10.18

Sweetest tongue has sharpest tooth

Eis uma boa noite para rever isto.

27.10.18

Joaquim

Novo desassossego no espírito do senhor Pereira: o primeiro neto homem chamar-se-á Joaquim, nome do pai da rapariga de Penedono, morto há mais de dez anos. Uma falta de bom senso, acusa. A imperatriz decide tudo sozinha e o filho é um banana, não se impõe. Do filho banana já sabíamos pois nunca lhe vimos sinal de fibra ou inteligência, mas jamais o diríamos em voz alta porque o senhor Pereira é pai, apesar das imperfeições o seu coração tem direitos e um deles, o mais vulgar e tolerável, é o de se iludir. Sofre, então, o senhor Pereira porque o nome da criança nem ao menos é o misto do dos dois avós – Joaquim Almiro ou o inverso – mas uma vitória explícita, até ofensiva, de um homem do interior, submetido às coisas da terra, capaz de matar com as próprias mãos os bichos que criou, dando aos jornais o uso de acendalhas, talvez sem televisão, alfabeto ou partido político. Que Deus o tenhacoitado, remata a mulher, depois de concordar com tudo. 

25.10.18

Xeque-mate

Talvez eu tivesse bebido demais, mas não ao ponto de me faltar segurança para aceitar o desafio. Quero jogar contigo, pediu ele. Tirou-me o copo, colocou o tabuleiro sobre a mesa e distribuiu pretas e brancas de rajada. Pronto o terreno e alinhados os exércitos, disse-me: eu jogo de costas, sem ver. De costas? A custo evitei o riso e, arrogante, desdenhosa, avisei-o que aprendi a jogar muito antes de me caírem todos os dentes de leite, que não me confundisse com uma idiota qualquer. Ele escutou-me de olhos bem ancorados nos meus, mas não me deu mais importância do que a que, por respeito, me era devida. Eu digo-te as coordenadas e fazes o favor de me movimentar as peças, explicou, deves dizer-me também as coordenadas dos movimentos que fizeres. Depois virou-se. É-me difícil ser exata mas creio que em dez a doze lances ele me deu xeque-mate e o queixo caiu-me de um deslumbramento que disfarcei tanto quanto pude. Quando se voltou, estendeu-me a mão. Eu, abespinhada, recusei-lhe a minha. Aconteça o que acontecer, aperta sempre a mão ao adversário, e ao dizer isto sorriu com vivacidade e ternura, cheio dessa satisfação que é dos que vencem não porque destroem mas porque verdadeiramente conquistam. Os seus olhos - estou ainda a vê-los - brilhavam com o desejo, tão urgente, tão feliz, de que eu pedisse a desforra ou me vingasse com originalidade. No final dessa noite decidi que ele havia de ser o pai dos filhos que eu tivesse.
Foi o homem mais fiel a si mesmo que conheci na vida. Enfrentou a morte sem virar costas e, no cúmulo da agonia, ainda lhe apertou a mão.

24.10.18

Sonhos

Há meio ano que a dona da loja de colchões sonha com um cliente a sério. São inúteis os que entram para dar uma vistinha de olhos. Aldrabões os que garantem voltar depois de perguntar o preço. Idiotas os que experimentam a consistência do produto carregando com a mão. Ridículos os que detalham alergias, pesadelos, desvios na coluna, sensibilidades do lombo e tudo o mais que dá mau sono. Ela espera um que entre e sem nada dizer se deite, a dispa e a agarre com todos os braços, dedos e dentes como uma planta carnívora. E quem passe na rua ficará de nariz colado à montra e aprenderá, de uma vez por todas, que os colchões se testam com a dureza, a energia e o peso dos repentes. Mais alguém aí fora que queira experimentar? perguntará, sentada na beira do colchão sem roupa nem decência. Em boa verdade, este sonho nem é obra dela, foi uma amiga que lho amanhou numa noite de alcoólica inspiração. Presta para nada, mas ao menos entretém-lhe o espírito nas horas vagas – quase todas as que tem na vida.
A funcionária da boutique de chocolates, dias a fio sem vivalma lá entrar, também passou por delírios semelhantes. O tédio é quase tão criativo como a dor. Sonhou com um cigano igual ao Johnny Depp, passageiro dos ventos do norte, que lhe aparecesse como à Juliette Binoche, para a salvar da sua obstinada independência. Esperou sentada, como se usa dizer e, no caso dela, literalmente, numa poltronazinha verde musgo junto à porta. Um dia a loja fechou para sempre, sem que ela tenha compreendido que vender chocolates não é o mesmo que fazer chocolates. 
Ao pé destes, parece-me razoável o sonho da rapariga da papelaria: que o pai da sua filha volte para dizer que sempre a amou e amará. É claro que ela sabe que aquele era um amor de pulso fraco, talvez apenas destinado a conceber Alicita, mas fazer o quê? O espírito dos românticos fabrica sonhos de matéria persistente e flexível, capazes de contorcionismos tais que do vulgar fazem extraordinário e aparentam como possível o que já nasce em saco roto. E que atire a primeira pedra quem nunca julgou eterno aquilo de que, no dia seguinte, se riu. O dia seguinte da rapariga da papelaria também há de chegar.