28.11.17

Presépio

Naquele dia, também o senhor Pereira foi conhecer Alice. Em boa verdade, foi quase o mundo inteiro, porque a avó anunciou pelas ruas que a filha havia de aparecer na papelaria a partir das quatro para mostrar a menina. Ao que eu soube, ninguém se descoseu ou provocou embaraços perguntando o que era feito do pai. Alice foi visitada, apaparicada e adorada como qualquer outra criança e sobre ela se fizeram apenas as perguntas que é costume fazer, pega bem na mama, dá noite boas, gosta do banho? Alguns levaram presentes, outros deram carinho bastante para prescindir de os levar. Se a esta hora viesse o pai espreitar com disfarce de mosquinha, veria a inutilidade e até o despropósito da sua existência e talvez, de orgulho ferido, quisesse reclamar o posto tradicional naquela nova família. Não me levem a mal os homens por isto que digo nem julguem que pretendo semear na cabeça das mulheres ideias de desprezo ou egoísmos. Apenas lembro o que já todos sabemos: que cada um tem a importância merecida ou conquistada pela via dos seus atos. E que, como é uso o povo dizer, só faz falta quem cá está ou, neste caso, quem realmente quer estar.
Foi o senhor Pereira que me pôs a par de tudo isto, porque à hora em que eu fui conhecer Alice, já todos tinham dispersado. Contou-me também que a mãe não autorizou ninguém a pegar na menina mas deixou que a beijassem na moleirinha e lhe sussurrassem ao ouvido bênçãos e votos. A avó, muito dona do seu nariz e da sua descendência, essa parecia posar para um retrato e em nenhum momento mostrou mais apreensão do que contentamento. Disse-me ainda o senhor Pereira, em jeito de remate, que naquela hora a papelaria se encheu e iluminou como um presépio em noite santa. E ao dizê-lo, atrapalhou-se, fungou e virou a cara, mas eu ainda fui a tempo de ver o brilho líquido com que um homem desastrado e um pai magoado assomaram aos seus olhos.

27.11.17

De onde vens?

Como é que ela pode estar a crescer tanto sem eu crescer com ela?, pergunta-me a rapariga da papelaria destapando o rosto da filha. Ah, não mentiram os que anunciaram a sua perfeição assim que veio ao mundo! Aninhada numa nuvem rosa de veludos, malhas e bordados, envolta num universo de ternura perfumada, Alice encara-me franzindo a testa como a sua avó relutante. Desconfio muito da inocência dos recém-nascidos e penso às vezes que talvez saibam mais do que aparentam. Têm uma espécie de frontalidade inquisidora, bem disfarçada na hora de pedir aconchego e alimento. Quando os meus filhos nasceram, eu passava horas, dias inteiros em amorosa observação fazendo a mesma pergunta: de onde vens? Creio ter estado demasiado tempo à espera de uma resposta, ao invés de me empenhar nas vulgares obrigações de mãe, atentar na evolução do peso e do tamanho, palpar-lhes as gengivas à procura de dentes ou pesquisar a instituição de ensino com as instalações mais asséticas para dali a cinco anos. 
Hoje, penso que talvez os tenha contaminado com essas e outras inquietações supérfluas. Habitaram o meu corpo e dele se alimentaram durante tanto tempo, não admira que lhes tenha passado muito mais do que células, venenos e nutrientes. Porém, quando procuram em mim a resposta para os mistérios que lhes atordoam o pensamento, eu reparo que nada mudou. Todas as minhas dúvidas sobreviveram e voltam à tona a pedir ar. Nada é mais certo agora do que antes.
É por isso que compreendo a rapariga da papelaria.
Já a avó, essa desconfia da pergunta, vê-lhe sentido nenhum, mas onde é que foste buscar o disparate, crescida já tu és, ainda que te falte juízo! E manda que a filha se endireite e espevite, porque a boa vida já lá vai e não há como voltar atrás. 

25.11.17

Indignidade

Desde que a câmara mandou construir passeios ao longo da estrada, acabou-se o paliativo instantâneo para as aflições dos homens. Antes, bastava-lhes encostar os mercedes e os audis na berma e as prostitutas entravam e aviavam-nos logo ali, em menos de um ai. Os meus filhos costumavam perguntar-me o que faziam aquelas mulheres à face da rua a horas impróprias, sentadas em banquinhos de praia, gordas como baleias, desfeitas como trapos, pintadas como bonecas. Vendem sexo, dizia-lhes deste modo porque sou fraca em eufemismos e, em todo o caso, não teria como fantasiar.
Agora, acabaram-se as perguntas porque a construção dos passeios disciplinou tanto a exposição do produto como a afluência de clientela. Mas os sinais estão por toda a parte: uma bolsinha no chão, um casaquinho pendurado num ramo, às vezes um par de sapatos entre as folhas caídas como se largado ao acaso. O negócio continua a fazer-se se os homens estiverem dispostos a investir mais tempo, paciência e trabalhos. Ou estacionando centenas de metros adiante e indo a pé até à orla do mato ou galgando à força os passeios e avançando ao volante por entre os arbustos, pondo em risco o estado irrepreensível dos seus automóveis. Suspeito que à maioria deles qualquer destas hipóteses pareça uma indignidade e o mais provável é que tenham ido procurar onde possam voltar a ser servidos sem demoras nem esforço.

24.11.17

Ossos do ofício

Normalmente, no trabalho, pedem-me que primeiro defina um esqueleto para a coisa e depois lhe vá acrescentando gordurinha
É por isso que tenho um blog, para me redimir desse erro e queimar toda a gordura até só restar um esqueleto.

23.11.17

It's a girl

A mensagem acompanha a ecografia que entra no meu e-mail, vinda do outro lado do mar. 
Eu aqui, tão enraizada, procurando novos ângulos para este horizonte que não muda, tirando duas vezes ao dia as medidas do mesmo itinerário, contando horas e carneiros, variando invariavelmente ao longo do mês, pedindo férias para ir dar ao espírito banhos rápidos de novidade, oh, que alegria me dá saber que ao menos genes meus se espalham pelo mundo, sementes levadas nos perturbadores ventos da mudança e na corrente de amores inadiáveis. 
Resistirá, em país estranho, a vogal nasalada do meu sobrenome? Nascerá a girl com a recordação – como coisa que fosse impressa no adn – do gosto de um lombo de bacalhau regado com azeite transmontano, do cheiro do vinho generoso a fermentar, da mesa de Natal onde, a cada ano, mais uma cadeira se acrescenta? Saberá dizer uns versos de Pessoa e terá na ponta da língua, como frase feita, quase provérbio, tudo vale a pena se a alma não é pequena? E nos dias resignados, melancólicos, sem alento, aprenderá a responder vai-se andando a quem lhe perguntar dos seus humores? Conhecerá a palavra que nomeia a consistência híbrida do que sinto ao olhar a sua fotografia, vulgar ultrassom que só a custo decifro? Saudade antecipada, a impressão de haver um ponto no meio do oceano onde a memória e a esperança se acodem uma à outra para livrar um coração do naufrágio.

19.11.17

Estrelas

O mais velho enoja-se ao ver de perto as imagens do nascimento de uma girafa. Compreendo a sensação se tentar olhar pelos olhos dele, que é sabedor mas, na realidade, inconsciente da sua origem. Todas as criaturas nascem como dejetos, como rejeitados, como sobras de uma vida anterior. Trazemos agarrada à pele tudo o mais que repugna e não presta. Chegamos cegos, incapazes, sem brilho nem garantias. A Terra é o caixote do lixo de Deus. Estrelas pô-las Ele a pairar nos céus, fora do nosso alcance, para obter de nós o assombro e a submissão. O mais novo, leitor fervoroso de enciclopédias da vida selvagem, compadece-se da agonia do irmão: não te preocupes, a mãe há de lambê-lo para que fique bonito. Pior a emenda que o soneto, o vómito assoma à boca, mas eu aproveito a deixa para enredar a conclusão que me convém: é o amor generoso que nos salva da indignidade.

17.11.17

Os inocentes

Saem sempre porta fora alguns seguidores quando escrevo sobre as fraquezas do ensino ou a maternidade. Do que a gente gosta é de histórias de pacóvios, pereiras, avós antigas, manicuras mal falantes, raparigas tontas engravidadas por malandros, cabeleireiras machistas, tudo o que nos faça dar graças pela nossa inteligência e superioridade, que ofereça algum consolo pela sorte que nos coube e que, volta e meia, dá ares de ser igualmente miserável. Do que a gente gosta é de pensar que está imune, acima ou adiante. É ilusão, mas ai de nós sem ela! Com que dignidade respiraria o homem douto descobrindo-se igual ao senhor Pereira? Seriam tão hermeticamente elevados os versos da poetisa que visse o esboço da sua melancolia nos olhos da rapariga tonta? Quem revela, de mote próprio e olhos nos olhos, a sua banalidade, o seu sonho idiota, as suas poses de pin up ao espelho, o orgulho bacoco com que tira o automóvel novo da garagem? Quem, enfim, confessa que, em dias de cansaço e descrença, pousa a espada sobre a cabeça dos inocentes?

16.11.17

Congelamento do carreiro

E quem desconfiaria que tantas vezes dizem os professores aos alunos quando estes reclamam de injustiça: a vida é injusta, meu menino, habitue-se! E fica o menino congelado no seu medo e na sua resignação.

(o poder é uma coisa perversa, faz-nos subjugar os outros aos mesmo valores que recusamos para nós.)

13.11.17

Mona Lisa e a pin up

A cabeleireira pergunta se é desta que faço qualquer coisa que dê nas vistas, uns reflexos, uns dourados, uma corzinha. Acontece que dar nas vistas pela parte exterior da cabeça é para mim ambição pouca e, de resto, este cabelo nunca até hoje provou gota de tinta ou brilho falso, basta-me o que deus e a genética acertaram entre si.
- Qualquer dia as brancas começam a notar-se e hei de tê-la aqui sentadinha todos os meses... Ou esquece que não vai para mais nova?
Ah, fosse possível a uma mulher esquecer tal coisa! Começamos a envelhecer no dia em que sangramos pela primeira vez. Logo nos vão avisando que já somos uma senhoras, e, muitas das vezes, gostaríamos de continuar a pentear bonecas e a sonhar com cantores de rock. A minha avó, por exemplo, que era contemporânea dos três pastorinhos e a quem tudo na vida pesava como uma condenação, sussurrava-me que era conveniente sentar-me com as pernas cruzadas e falava-me como se o meu corpo se tivesse tornado um antro de ciências ocultas e magia negra. Mas eu ainda gostava de passar as manhãs de sábado na praça a rebolar e a fazer o pino na relva e chegava a casa vergonhosamente tingida de verde, a cheirar a poeira e a brisas de outono. Dir-me-ão que as coisas hoje em dia são de outro modo, mas eu tenho sempre para mim que o mundo não evolui tanto quanto aparenta.
Porém, são outros os pensamentos da cabeleireira quando me alerta para os avanços da idade. Vai-me massajando a cabeça, afasta-se, aproxima-se, aprecia de frente, de lado e de trás.  
- E há outra coisa, menina. Isto das brancas e da idade... a certa altura, se a gente não se cuida, eles trocam-nos por outra.
Enfrento-a no espelho, mas nada me ocorre que valha a pena investir contra a tolice. Em fila de espera para arranjar as unhas, a dona Maria Isabel folheia uma revista com aqueles dedos coroados de pedras muito antigas. Levanta os olhos a espaços, sorri para ninguém de coisas que só ela vê ou sabe e retoma a leitura para disfarçar a sua permanente vigilância sobre o mundo. Quem tem resposta pronta é a manicura – e quem havia de ser? –, minha personagem favorita do mundo real, que escancara o óbvio, ri-se das vergonhas do mundo e faz estalar os vernizes enquanto pinta as unhas às clientes.
- Ó Gracinha, olhe que o seu nome não é ao calhas, você tem mesmo graça.
A cabeleireira empertiga-se, fica a segurar-me em duas mechas de cabelo como nas rédeas de um cavalo e confronta a manicura.
- Então porquê?
- Tem medo que o seu homem a troque por outra? Mas você é algum automóvel?
- Tu és muito nova, nem casaste ainda... sabes lá do que falo.
- Mas eu e o pai do meu filho amamos-nos a valer. E agora? Sou menos que você?
- Não é seres menos. Mas, um dia, se lhe dá na veneta, ele vira-te as costas sem satisfações.
- Ai, e eu pintando o cabelo ele volta?
- Não é pintar o cabelo, é um bocadinho de brio, pronto.
- Então e acha que eu não tenho brilho?
- Brio, filha. Brio!
- Ou isso.
Levanta-se a manicura, dá uma voltinha, põe à vista a sua exuberância, a sua alegria, as cores vibrantes da roupa, o riso muito aberto, muito são, o corpo que ela não esconde nem maldiz. Para de repente, uma mão na cintura, a outra na cabeça, o joelho dobrado, o ânimo e o orgulho a estourarem, como fogo de artifício, numa estupenda gargalhada. 
- Isto é brilho que chegue! E aposto que a dona Maria Isabel não me desmente.
A dona Maria Isabel, que não precisa de alardear para ser escutada, pousa a revista, cruza as mãos sobre o regaço, as linhas do rosto fixam-se num sorriso perturbador. É a Mona Lisa. Sei que o que ela disser há de ficar gravado como lei na memória daquelas mulheres. Por isso os secadores desligam-se, a água para de correr nas torneiras, a cabeleireira abandona o meu cabelo no cocuruto, preso por duas molas, a manicura aguenta-se, feliz, na pose de pin up. Já vi isto antes: o mundo inteiro suspenso no cabeleireiro e, lá fora, os rumores do quotidiano ganhando distância e perdendo a lógica. 
Os dedos da dona Maria Isabel fazem girar o elo de ouro no anelar esquerdo. O que dirá a senhora professora, a mulher que estudou as infimidades do universo e conhece as energias que endoidecem os átomos e agitam o carrossel?
- Dona Maria Isabel! Não responde? - a manicura estala os dedos para acordar aquela que supõe estar a dormir. 
- Desculpa filha, não te ouvi. Estava aqui a cismar no que li agora, esta história toda do Carrilho e da Bárbara...
A dona Maria Isabel nunca dorme, ainda que aparente.

7.11.17

Certas palavras

Mãe é mãe, finalizou a mulher na sala de espera, sem reticências. Ah, nisso concordo contigo, disse a outra como se a primeira tivesse exposto um rol de profundos argumentos. Um gesto similar com a cabeça fez prova do consentimento mútuo, de uma inteligência una. Ficou dito o quanto podia dizer-se, não houve perguntas ou explicações. 
Certas palavras vivem com uma independência luxuosa, caminham pelo próprio pé, dispensam a esmola de outras que, ao deitar-lhes a mão, serviriam apenas para diminui-las. São como a roda gigante do universo, que se autoalimenta e justifica sem recurso ou artifício. Há outras além de mãe – ocorre-me, pelo menos, dor – e todos os dias são corrompidas por tantos que acreditam que da descrição vem sempre a riqueza, falando em nome do mundo e dos corações alheios. Mas mãe é mãe, apenas disse a mulher, sabendo que é menor o mal de uma repetição do que o de um adjetivo. E como poderia a outra ter discordado?

28.10.17

Três irmãs

Muitas vezes, durante a infância, escutei conversas sobre a beleza das minhas três irmãs. A vizinha do lado, por exemplo, costumava lamentar-se à minha avó: as suas netas são tão lindas e a minha é tão feia, tão grosseira, que valha-me Deus! Havia quem achasse que a mais bonita era a mais velha, porque a tez escura ressaltava as esmeraldas dos olhos e a sua face era tão encantadoramente superior aos piropos como às perturbações da vida. O otorrino dizia que jamais vira nariz tão perfeito como o dela. Caminhava aos saltinhos. Por outro lado, se havia rapaziada em magotes a tocar lá em casa, era na maioria das vezes por causa da do meio, que tinha o número dois misteriosamente impresso na íris, sabia poemas de cor e atiçava fogos por dá cá aquela palha. Era muito vaidosa, às vezes excêntrica, quase sempre ousada. Caminhava sem pisar o chão e sabendo que a olhavam. A terceira era a loirinha, a ruça, uma beleza de rapariga sem um fio de cabelo fora do lugar, sorria com ternura, falava com mansidão, mas que Deus se compadecesse daqueles que lhe mexiam em feridas e sensibilidades ocultas, porque a ruça era, afinal, de mau pelo. Tinha tal firmeza e solidez no andar que nem que a perseguissem ela perdia a elegância. A mais velha levava-me à missa e lia-me Condessa de Ségur como quem cumpria um dever de cuidar, a do meio recitava-me Fernando Pessoa e todos os heterónimos como se me contasse um segredo, a terceira explicou-me como se faziam os bebés e, sem me olhar nos olhos, foi avisando que, mais cedo ou mais tarde, o meu corpo havia de sangrar.
Comentavam-se as suas graças e atributos nas costas delas e na minha cara, sem receio de me ofender pela exclusão. À época ainda me faltava idade para entrar na corrida. E, de resto, eu estava tranquila porque se havia quem dissesse que eu era cópia da do meio, outros me atribuíam as feições da terceira, e, de uma forma ou de outra, achava-me bem servida. A verdade é que nenhuma originalidade sobra para os caçulas. Somos sempre a mescla dos que se fizeram antes. Vale-nos o tempero das liberdades consentidas pelo amolecer da autoridade paterna, que se imprimem naturalmente na forma e no feitio. Assim, ganhei o hábito de me prever só de olhar para elas, leio-as com expectativa, como outros leem astros, búzios ou cartas. 
Envelhecemos as quatro com vagar, a nossa mãe deixou-nos por herança a capacidade de iludir o tempo e de fazer de conta que o que o não se vê por fora também não acontece por dentro. Mas ao invés delas, que até no modo de andar continuam as mesmas, eu, talvez por me faltar traço que seja só meu, vivo da transfiguração, ora parecendo mais com uma, ora com outra, dependendo dos dias do mês, da roupa que visto ou da incidência da luz.

27.10.17

**

Só há um lugar onde o excesso de palavras equivale, sem dúvida, a uma abundância de atos ou efeitos: o dicionário.

24.10.17

*

Como será a casa daqueles que falam como se tivessem as soluções para o governo de um país inteiro?

20.10.17

Triângulo

Enquanto o país ardia, Alice desesperava no ventre fechado da mãe. A natureza abandonou o trabalho a meio, as hormonas confundiram-se e só com bisturi se chegou a um final feliz. Veio ao mundo no princípio da noite, quando um vento rebelde se levantou do nada, bramindo maus prenúncios pelas frinchas das janelas. Que linda menina, disse o obstetra ao libertá-la. Que linda menina, disse a pediatra, auscultando-a. Que linda menina, disseram as enfermeiras quando a encostaram ao seio da mãe. Assim me conta a avó que já sabemos relutante, medrosa dos acasos, desconfiada de atos de amor sem acabamentos oficiais. Não houve quem não notasse como é mimosinha... Vendo que os doutores não perguntavam pelo pai e que ninguém comentava os olhinhos tão rasgados da bebé, e recordando ainda, pela sua experiência, que a hora da verdade é, afinal, apenas entre mãe e cria, começou a desistir da sua oposição às circunstâncias. Só nós, mulheres, sabemos como dóiE enquanto dói, eles pedem-nos o comer na mesa. Se é para isso, de facto antes vale ficarem longe.
Quero muito desdizê-la: ainda que lhes esteja vedado o entendimento absoluto das dores do nosso ventre, há homens de caráter, companheiros leais, amantes generosos, observadores das fases da Lua, ouvintes atentos dos rumores da Terra. Mas se lhe digo isto, ela recupera a certeza de que a filha foi tola, vítima de má sorte e de fracas escolhas, e de novo se recusará a ser solidária. 
Não. Por agora, dane-se a reputação masculina. Que falem os homens por si. Eu proíbo-me de quebrar a harmonia deste triângulo de mulheres que tanto demorou a nascer.

18.10.17

Imaginação

Jamais permitirei que me vejas enquanto escrevo. Mostrar-te o atabalhoado fluxo de palavras, as rasuras, os erros, todo o lixo de que me livro, seria o mesmo que autorizar-te a assistir à minha higiene diária, ao corpo na desarrumação do sono, à ridícula pose de cortar as unhas dos pés, ao doloroso afilar de uma sobrancelha, aos cabelos a morrerem na escova. O que sobraria para ti de sonho e imaginação quando me encontrasses pronta e, por acaso, ao mover-me, um botão da camisa se soltasse?

17.10.17

Creme de beterraba e lentilhas vermelhas

Quando faço creme de beterraba e lentilhas vermelhas, os meus filhos consideram a hipótese de eu ser a melhor mãe do mundo. E se acrescento coentros frescos picadinhos na hora de servir, é certa a minha elevação a deusa criadora de todas as maravilhas que há no céu e na Terra. Sou perdoada pelos rigores a que os obrigo e pelos abusos físicos que os impedem de respirar: beijos, apertos, declarações de amor e outras inconveniências publicamente dispensáveis.
É tão inglória a maternidade. Dias, meses, anos de entrega, noites nas urgências de hospital, viagens adiadas, leituras interrompidas no clímax, a incómoda soberania do relógio, os olhos fixos no telemóvel pela noite dentro, quando chegares liga a dizer que estás bem. Os túneis fundos, obscuros, por onde circula a desoras uma aflição miudinha, um pavor de existir sem nada saber. Que é deles se me falha o coração, se um automóvel me abalroa na estrada, se perco a memória, o bom senso, a mão direita? E afinal, é um creme de beterraba e lentilhas vermelhas com coentros frescos, aviado em três quartos de hora, que faz prova do meu amor.
Mas, enfim, que lembro eu acima de tudo o que a minha mãe por mim fez, desfez, sacrificou ou calou? A sua mão pousando na minha testa, um gesto de segundos com que sonharei pelo resto dos meus dias. Entretenho-me então a imaginar absurdos, cenas cómicas: os meus filhos já adultos sussurrando ao ouvido das amantes, depois do êxtase: sabes o que é que me apetecia agora? O cremezinho de beterraba e lentilhas vermelhas que a minha mãe fazia.


(Estalar uma cebola em pedaços num fio de azeite. Acrescentar uma beterraba em pedaços, uma cenoura às rodelas e duas mãos de lentilhas vermelhas. Água até cobrir. Trinta a quarenta minutos de cozedura. Varinha mágica. Coentros picados. E muito cuidado: a cor seduz e a consistência amacia a aridez de qualquer coração)

15.10.17

Feira de domingo

Fui à feira de velharias procurar azulejos para o acabamento de uma das minhas carolices de fim de semana. O mais novo, muito permeável ao apelo das cores e dos plásticos, parou em todas as bancas e deslumbrou-se com a bonecada de fraca qualidade que vendem por tuta-e-meia para esvaziar os sótãos: surpresas de ovos kinder, brindes de happy meal, super-heróis desbotados em que nenhuma donzela confiaria. Manhoso, foi-me chamando a atenção para as bancas de livros, com o puro intuito de me distrair e ganhar tempo de escolher onde gastar os seus cêntimos. Não encontrei azulejos, mas interessei-me por uns sabonetes embrulhados em plástico transparente. A vendedora explicou que põe neles muito brio e não usa químicos. Os sabonetes naturais enfraquecem-me, a textura grosseira da aveia e das sementes e o perfume das ervas e dos óleos essenciais deixam-me mansinha e maleável. Vai que não vai para trazer um, mas se já tinha torcido o nariz à embalagem plástica, mais torci quando os cheirei e senti laivos de naftalina, nem o mais leve sinal de alfazema, rosmaninho, jasmim ou eucalipto. Não há sabonetes naturais como os que mando vir propositadamente de Lisboa para a minha higiene e deleite. Quando me chegam pelo correio, em envelope acolchoado, o aroma dos prados, das florestas e dos pomares enche a casa inteira de uma eterna e alegre primavera, impregna-se na roupa e dispõe-me o coração a romantismos. Bairrista que sou, incomoda-me ainda não ter encontrado melhores aqui no Norte, pese embora os dois anos de buscas e experimentações que já lá vão (se eu fosse uma blogger espertalhona, o mais tardar na quarta-feira já estaria a receber amostras de sabonetes dos quatro cantos do mundo). Disse adeus à vendedora e aos sabonetes fajutos. Por vinte cêntimos, o mais novo comprou um monstro a uma senhora que teve cinco AVC e dois cancros, que rico menino, tomara que Deus me dê um netinho como tu. Mais tarde, passando por uma banca com carrinhos antigos, arrependeu-se do dinheiro já gasto com precipitação e eu satisfeita de ver como a vida faz dispensáveis os sermões dos pais.
Quando entrei no pão quente, saía o senhor Pereira com uma roca fumegante e um jornal debaixo do braço. Fez-me a festa do costume, deu um carinho ao mais novo, perguntou pelo irmão e ofereceu-me o jornal: já li, fique com ele se lhe interessa. Aceitei, agradecida, e pus freio à língua antes de lhe dizer que aquilo só me faz jeito para limpar os vidros. Ao final da tarde, como qualquer pessoa de vida facilitada, tomarei um chazinho com biscoitos de fubá e aninhar-me-ei entre as almofadas a ler um livro, coçando as têmporas por vício e mimo. Limpar vidros é que nem pensar.

13.10.17

Esperança na ressurreição

De tanto as ouvir, compreendo essas mulheres que um dia acordam estranhando o homem que dorme ao seu lado. Nem todas, como Mena, o enxotaram da cama a sangue-frio, temendo os bolores e os maus cheiros que um amor defunto espalha pela casa. A maioria delas, tendo sido religiosamente educada para a soberania da morte, aceitou a responsabilidade de cuidar do cadáver, maquilhou a sua face ausente e descorada, remendou-lhe as chagas com perdões diários e deixou que os anos passassem, com a esperança na ressurreição. A si mesmas e aos outros, vão dizendo desse amor o que sempre se diz dos mortos: grande, virtuoso e eterno. 

10.10.17

Alta voz

A Mena acabou tudo com o Francisco. Acordou de manhã e disse "é melhor ires embora, já não vale a pena". E ele? Não tugiu nem mugiu, demorou-se no banho e quando regressou nu ao quarto, cresceu nela um nojo insuportável por aquele corpo, pelas irregularidades ósseas, pela monocelha, pelo sinal peludo no antebraço, pelo sexo recolhido, ridículo, risível. Oh, Mena, que horror... Verdade, sim, até deu graças por não ter conseguido engravidar, só de pensar em ter filhos que herdassem tais modos e feições! E depois? Ele levou o essencial, vem buscar o resto no fim de semana. E tu? Acredite quem quiser, porque nem sabe explicar, mas assim que ele saiu vieram-lhe umas forças estranhas, pareciam subir da Terra, desde as plantas dos pés. Arrancou quadros e fotografias das paredes, virou as gavetas da mesinha de cabeceira no chão, abriu o guarda-fatos, tirou metade dos casacos e das calças, descartou finalmente todos os brincos sem par. Conjuntinhos de lingerie ainda com etiqueta foram para a empregada da mãe. Já agora também uns botins e umas sandálias usadas apenas uma vez, que ela sempre foi boa rapariga, coitada. Livrou-se de tudo o que pôde. Encheu três sacos de lixo e outros tantos para doar. Perdeu o pudor, a memória e o apego. Oh, Mena, mas tu no princípio estavas tão apaixonada. Ora, exatamente. Mas tinha descoberto o segredo: nunca deixar arrastar o amor para lá do seu princípio. 
E disto eu fiquei a saber hoje de manhã, pelos vidros abertos do carro que seguia ao meu lado no para-arranca da avenida.

30.9.17

A expulsão do paraíso

Como uma carracinha, Alice não dá sinal de querer largar o ventre materno. A natureza concedeu-lhe duzentos e sessenta e oito dias para desfrutar dessa amostra do paraíso, prazo após o qual deve ser expulsa como todos os mortais. Mas se a filha for tão teimosa como sonhadora é a mãe, e se por acaso lhe tiver chegado aos ouvidos que está condenada a passar o resto dos dias buscando, em vão, o retorno, talvez não saia a bem.
A rapariga da papelaria está pronta e prontos estão o berço e a malinha. Só a futura avó permanece em resistência, antevendo para Alice o prolongamento da desgraça em que foi concebida. E é inútil a rapariga dizer-lhe que, embora não parecendo, foi um ato de amor. Que jamais trocaria aquele par de horas de entrega e a filha que então foi plantada no seu corpo, por uma vida triste como a de certas pessoas, se é que a mamã me entende. Por tudo se paga um preço, acrescenta baixinho, muito redonda, amadurecida, sentada num banco detrás do balcão enquanto a mãe lhe faz as vezes no atendimento. Dou o desconto àquela avó relutante e peço - a quem? - que, quando a luz do mundo finalmente bater no rosto de Alice, os olhos dela se comovam com a dádiva e ela se desconcerte, se desmanche, se desarme. Por enquanto, ainda é cedo. Tal como Alice precisa de tempo para aceitar que é hora de ser expulsa do paraíso, também a sua avó demorará a aceitar para si o quinhão que lhe cabe daquela nova felicidade.
- Sabe o que eu acho? Antes um pai morto do que um pai desinteressado. Deus proteja as duas, que eu não posso.
Diz-me isto em sussurro, à minha saída, fazendo de conta que vem dar arranjo aos jornais pendurados na porta. Espanto-me ainda, e cada vez mais, com as leviandades que um ser humano é capaz de dizer quando vive com pena de si mesmo. Porém, outra vez lhe dou o desconto, tomo-lhe as mãos que estão geladas, inibidas, e garanto-lhe que tudo irá ao justo lugar. Alice não voltará ao paraíso, é certo, mas há de ter braços e coragem para edificar o seu país de maravilhas.

29.9.17

O sentido da vida (2)

Enquanto a diretora de turma explica em detalhe aos pais como se calcula uma média aritmética, recorrendo a powerpoints e lembrando que é nesta corrida de números que se decide o futuro, a minha deceção e o meu medo tomam corpo nestas linhas. Anoto-as no verso da folha que me deram com informações sobre horários de atendimento, regime de faltas, calendário letivo e quantidade de horas extra de apoio e compensação, tudo isto, afinal, números também. Os pais desassossegam-se nas cadeiras, querem saber ao certo quanto valerão as classificações finais, quanto valerão as notas dos exames, se a educação física também conta. A diretora, que eu desculpabilizo por saber que é mais vítima do que carrasco e tem a má sorte de ser o sinal visível deste cancro, a borbulha inofensiva que revela a malignidade no cérebro, a dorzinha nas costas que anuncia a podridão no ventre, põe-se então a detalhar, com uma condescendência maternal, as percentagens. 
Toda a gente gosta de números. Os números organizam em gavetas, delimitam zonas, dão segurança quando toda a realidade é caos, incerteza e dúvida. Os próprios pais quantificam o valor dos filhos, até nos territórios onde a vida deveria correr com prazer e felicidade: quantas medalhas ganhaste, em que lugar ficaste, quantos golos marcaste, em quanto tempo fizeste, quantos fizeram melhor, quantos ficaram atrás? 
A diretora diz que não quer assustar, porém, foge-lhe a boca para a verdade, a inquietação vaza pelas brechas mal disfarçadas da sua sobriedade. Será uma corrida contra o tempo, não sabe como conseguirão dar tanta matéria – porque a matéria, pelo visto, dá-se, não se ensina, e isto já é pensamento meu, que anoto no verso da folha dos números. Estudar todos dias, deitar mais tarde e levantar mais cedo, se for preciso. Ser doutor ou engenheiro é para quem sua (e eu a julgar que é para quem sabe). E os que não aguentarem, sempre têm as artes e as ciências sociais. Ao fim de semana estudar mais ainda, é um sacrifício fun-da-men-tal, mas não diz em nome do quê, de que futuro, de que país, de que mundo, de que gente. 
Saio derrotada, descrente, perguntando-me que homens e mulheres disto tudo vão nascer. Depois de uma corrida assim, que não almeja conhecimento mas classificação, quão trôpegos ficarão os seus membros, quantas nódoas negras no corpo, que níveis de insuficiência cardíaca? 
O mais velho teve um amigo cuja mãe me dizia, nos intervalos das suas longas tardes no shopping: enquanto o meu Vasco não me aparecer com menos de 85%, estou absolutamente tranquila. Não suspeitava – e nunca chegou a saber – que o seu Vasco nos telefonava a desoras e com voz de mimo implorava que o fôssemos buscar porque não queria mais viver na própria casa. 

26.9.17

O sentido da vida

O mais novo pergunta-me se eu sei qual é o sentido da vida. Apanha-me de manhã, em jejum, no preciso instante em que barro as torradas com manteiga e mel de eucalipto e o meu palato saliva como o de qualquer bicho irracional.
- O sentido da vida?
Repito a pergunta a ver se ganho tempo, estendo-lhe a taça de fruta e a caneca de leite, com esperança de o distrair e poder dizer-lhe, caso insista, que não se fala com a boca cheia. Sim, se eu já descobri o sentido da vida. Ah, o milho tostado do pão cheira tão bem! A manteiga derretida e o mel encharcam-me a polpa dos dedos, sorvo tudo com a língua, prazer e pensamento incompatibilizam-se, sai o prazer a ganhar.
- Queres então saber qual é o sentido da vida?
Sim. Tem a boca cheia de manga e framboesas e, em fila de espera, estão já duas rodelas de banana. Não o gabo ao ponto de achar que a pergunta é de mote próprio. Antes presumo que a tenha ouvido ou lido algures e, vendo nela algum charme, entendeu que ficaria bem reproduzi-la como coisa sua. Gostaria francamente de lhe responder, mas é crime deixar esfriar as torradas, cheira-me agora a canela e às laranjas que acabei de espremer, vou só buscar uma maçã e um iogurte. 
- Então o sentido da vida, é isso que me perguntas?
Sim. Qual-é-o-sen-ti-do-da-vi-da? Amanhã talvez faça panquecas, adianto, é questão de me levantar ainda mais cedo. Mando que beba o leite e coma pelo menos uma fatia de pão, não pode empanturrar-se só de fruta. Mordo a torrada, fecho os olhos, mastigo com uma preguiça luxuriosa, cada uma das minhas células reclama para si igual deleite na sua merecida e ínfima proporção. 
- Ora bem, o sentido da vida...
Ah! Lembrei-me! Sobrou bolo de chocolate de ontem, é comer enquanto está fofo e antes que se estrague. Abro a caixa, ainda há três fatias, precipito-me com ganância, o bolo esfarela-se, a cobertura de natas e cacau cola-se-me aos dedos, outra vez a língua apanha o que é pecado desperdiçar. Levo um naco para a mesa, sento-me de novo, e com os beiços brancos, de ternura láctea, ele faz então a pergunta que me alivia:
- E o que é que vamos comer ao almoço?

25.9.17

Vénus de Willendorf

Estranhando a minha reflexão crítica em torno das filhas do senhor Pereira, perguntaram-me de chofre se fui eu a amante dele.

– intervalo para sorrir –

Elevadas expectativas. Isto é só um blogue com impressões do quotidiano, não uma novela sul-americana que vá, a espaços, sugerindo o extraordinário e o improvável para viciar o leitor. Ora, a amante do senhor Pereira em tudo se opõe a mim: é uma Vénus de Willendorf com o tempo ocupadíssimo e uma vida orgulhosamente urbana, rodeada de gadgets e sapatos com preço para durar uma vida e design para cansar num ano. Precisa que, apesar de tudo isso, alguém lhe lembre que ainda é uma mulher. E se o senhor Pereira é fraco em muita coisa, para isso deve ser bastante. Obviamente que ela carece da excentricidade da viúva, nem perto chega da beleza da rapariga tatuada e falta-lhe a graça jovial da doutora. Mas consigo imaginá-la, com desenvoltura e altivez, segura do seu corpo abundante, a livrar-se dos lençóis onde o senhor Pereira lhe consola todos os cantos da carne e a despachá-lo, já de olhos postos no telemóvel: agora vai, que eu tenho um jantar. Ele vai, de qualquer modo iria, que um homem casado tem horas para tudo, até para as suas vontades. Só duas, três semanas depois, talvez por falta do que fazer, ela voltará a lembrar-se dele e ligará, dócil e vulnerável como uma criança: amor?


(se acaso eu me desse a um homem que não lê além de jornais, gasta os serões em frente à televisão, passa férias enclausurado em resorts asséticos, tem pelo automóvel um amor igual ao que nutre por si mesmo, teme o silêncio e a quietude, ignora as fases da lua e o perfume dos equinócios, não o escreveria num blogue. Contá-lo-ia em livro. Ilustrado.)

23.9.17

Pelo amor da santa

Deixa-me descer à Terra. Não me guardes onde não posso ser real. Além disso, nunca gostei de alturas, aqui em cima falta o ar, há desamparo e solidão. Permite, por favor, que seja humana e me corra sangue nas veias, sujeito a ferver ou gelar. Compreende que o meu avesso sejam vísceras, válvulas, gases, úlceras, tecidos condenados à morte. Não parece, eu sei, mas a memória falha-me, às vezes as pernas também. Amiúde falham-me ainda as palavras, andam tontas em círculos de delírio, disparate e confusão. Há dias em que envelheço, agasto-me, encosto-me. Em horas mais acesas posso corar, por pudor ou luxúria. As pregas da minha saia são imperfeitas e vulneráveis à brisa. Os meus olhos não são piedosos, desculpa. Nem há nenhum coração sagrado no meu colo, que é pequeno e pode até dar-se o caso de ser estéril. Tenho mácula. Cedo ao pecado da vaidade como as outras, não resisto a um espelho e tenho ganas de me beijar no reflexo. Também ao da ira, como qualquer fraco de espírito. E ao da gula, porque pão e vinho não me bastam.
Podes tocar, que eu não sou de partir. Sou de morrer. Aproveita e tira a mágoa de cima dos meus olhos e sacode-me o cansaço dos ombros. Ampara-me a cabeça se eu não aguentar o peso de tantos pensamentos e as dores agudas da ignorância. Afasta-me os cabelos da cara e esconde as brancas, são sempre tão ásperas e rebeldes! Protege-me os pés, salva-os por uns instantes das pedras do caminho. Enfia os dedos no meu peito e arranca-me o medo pela raiz. Vai sangrar, não te assustes.
Vê as palmas das minhas mãos, mostro-as com orgulho e propriedade, não creio que estas linhas da vida tenham o que esconder. A minha origem, como a tua, é o pecado da carne. E o meu destino é debaixo da terra, onde vivem os bichos e os passados inconvenientes. Entre uma e outro, vai o trilho que tu sabes e outros que nem eu sei.
Ajoelha-te agora diante desta minha terrível vulgaridade e convence-te que, mesmo assim, sou cheia de graça e posso muito bem ser-te bendita entre todas as mulheres.

Outubro 2013

21.9.17

Círculo

Acredito que talvez um Homem morra com sofrimento proporcional àquele com que nasceu. Amostra significativa não tenho, mas ouço histórias e nelas vejo fechar-se o círculo, em acerto e coincidência. Não devem os leitores levar-me a sério por isto que digo. É de quem não tem mais em que pensar e, por mero entretenimento, se põe a enredar absurdos e a presumir as lógicas fundamentais do universo a partir de coisas miúdas. 
A mim, convém-me fazer fé nesta delirante teoria. Nasci sem gritos nem demora. Entrei no mundo com a delicadeza de um suspiro, ninguém sofreu e a parteira mal deu conta de que eu estava a chegar. 

20.9.17

Naufrágio a sul

A cabeça tombada na linha de rebentação, dois seixos reluzindo nos olhos, um búzio incrustado no nariz, a boca aberta em concha, a língua um molusco dormente, o corpo ao abandono como o casco de um barquinho naufragado, o mastro já partido de tão velho, o leme sem memória do seu norte.

18.9.17

Momentos de inconsciência

Qualquer história de amor, ainda que piegas, ridícula ou ordinária, pode atraiçoar a firmeza dos mais sóbrios espíritos. É um efeito semelhante ao da música. Naturalmente que dizemos preferir a superior, a erudita ou a alternativa, a que seja obra de um talento visionário e de divina mestria. Mas a verdade é que qualquer uma, mesmo a de arranjo pobre, a que se repete, a mal acabada, nos põe trautear e a bater o pezinho. E em momentos de inconsciência, é o refrão apoteótico e de rima fácil que vem à cabeça. 

16.9.17

A melhor mãe do mundo

Recordar-se-ão os leitores que a rapariga da papelaria estava grávida e acalentava, sem disso fazer segredo, o sonho de ter um menino. Julgaram, talvez, que a história tinha morrido ou que não me interessava contá-la por não coincidir com o meu prenúncio sobre o sexo do bebé. Acontece apenas que entretanto fui de férias, depois a papelaria fechou portas por quinze dias e durante algum tempo o mais novo não colecionou cromos. De modos que só no início de setembro lá voltei, para acertos de contas com os senhores das autoestradas, e fiquei a saber que nasce no fim deste mês a menina. Alice.
No dia em que me dá a novidade, mostra-me o babygrow cor-de-rosa que a Gisela do pão quente lhe foi oferecer de manhãzinha. Estende-o no balcão, em cima das revistas, e, com ternura, sacode-lhe poeirinhas imaginárias e alisa-lhe os vincos.
- Não é lindo?
Afago-o sem pudor e a textura dócil do veludo remexe-me as lembranças, os olhos enchem-se-me de lágrimas ao recordar o perfume lácteo dos bebés que já não tenho, o choro manso a pedir alimento e aconchego a desoras, os dedos miudinhos, transparentes, abrindo-se em leque e pousando no meu seio. A voz sai-me fraca, sinto-me humilhada pela passagem do tempo, esmagada por uma saudade vã, impossível de matar.
- É muito lindo, sim.
- Sabe que até estou contente por ser uma menina? Vai ser mais fácil conversarmos sobre certas coisas.
- Que coisas?
- Coisas que... sei lá, do corpo. Se fosse um menino, assim sem pai presente, ia-me ver aflita para explicar-lhe... prontos, quando ele se tornasse um homenzinho. Está a perceber?
De novo me sobem as lágrimas aos olhos. Disfarço-as vasculhando o porta-moedas e digo-lhe que dá no mesmo, é só explicar a anatomia e a fisiologia e o resto cada um descobre por si, na sua intimidade, com a sua experiência.
- Ai credo, não me fale já dessas coisas que me faz medo. A minha Alice ainda há de demorar para crescer, se Deus quiser. E Ele há de ajudar-me a ser a melhor mãe do mundo!
De facto, a barriga dela, imensa, redonda, parece o mundo inteiro suspenso numa paz original, na silenciosa e irrecuperável perfeição do universo. A rapariga da papelaria é gente boa. Mas as pessoas descrentes como eu tendem a classificá-la como tonta apenas porque lhe invejam a persistência dos sonhos e o romantismo que a vida merece, do primeiro até ao último suspiro.

29.8.17

Engenheiro Aires e Maria Beatriz

Não é só o pó do automóvel. O senhor Pereira também lamenta que a noite venha chegando cada vez mais cedo e às nove já lhe dê tamanha quebra que nem sai com a mulher para uma voltinha. Faz-lhe falta a conversa com o engenheiro Aires, sabedor de múltiplas coisas que parecem compor a realidade numa visão confortável e duradoura. Costumam encontrar-se depois do jantar e andam para trás e para diante na mesma rua, eles à frente debatendo a organização do mundo, as mulheres atrás, de braço dado, partilhando a organização da casa. Dessa horinha sagrada custa-lhe abdicar, mas a verdade é que, com a antecipação da noite, o espírito e o corpo murcham cedo em frente à televisão. 
O senhor Pereira tem no engenheiro Aires o seu principal fornecedor de opiniões. Depois dos jornais lidos e factos apreendidos, precisa de alguém que sistematize tudo e lhe dê uma visão profunda, analítica, com charme de ideologia. Ora, sendo o engenheiro Aires um homem de uma categoria extraordinária, com estudos e horizontes, que visita templos, museus e ruínas enquanto o senhor Pereira dormita à sombra das palmeiras, a sua palavra deve ser de confiança e os seus juízos os mais certeiros. Portanto, o que o engenheiro Aires sentenciar hoje há de ser repetido pelo senhor Pereira, assim que tiver audiência, como se fosse coisa da sua cabeça. 
Já entre as respetivas mulheres, o mesmo não acontece, pese embora o entusiasmo com que se cumprimentam, enlaçam e caminham a par. Nas costas da outra, a mulher do senhor Pereira revira os olhos e desabafa: a Maria Beatriz é uma chata, tem a mania que sabe tudo. Mas se soubesse, não precisava de uma empregada.

24.8.17

Tanto tempo

Perguntou-me se era por fé, desespero ou falta do que fazer que eu me sentava tanto tempo a meditar. Em vez de responder, perguntei-lhe eu se era por fé, desespero ou falta do que fazer que se sentava ele durante sete horas em frente a um computador, mais duas dentro de um carro nas vias entupidas de circulação interna e, por fim, em frente à televisão até as coisas do mundo darem sono. Julgando que eu brincava, ajeitou-me delicadamente os cabelos por trás das orelhas e, superior, paternal, rematou: é impossível conversar contigo, passou tanto tempo e continuas tão infantil.