21.10.20

Uma desgraça nunca vem só e para confirmar estes e outros ditos vê-se, uma vez mais, a família Pereira abalada na sua folclórica estabilidade. Bom, talvez não se possa chamar desgraça ao natural apagamento de uma vida quase centenária. A velha muito velha foi-se em fim de tempo, como é próprio do que, por sorte, escapa no caminho a acidentes e agressões. Desgraça, isso sim, foi a decisão tomada pela imperatriz e anunciada no rescaldo do luto. 
Nunca os Pereira sonharam depender tanto dos humores de uma rapariga vinda da província para hastear a bandeira do feminismo e da independência precisamente ali, na casa onde estava tudo tão betonado que nem as traições faziam grande mossa (as birras levadas a cabo pelas manas não entram na contabilidade, já que se fizeram e desfizeram com mais ligeireza do que as da primeira infância). Sequer os avós Pereira imaginavam que aquela que lhes deu a maior graça das suas vidas ao abençoar a família com uma descendência viril poderia ser outra coisa senão o que até agora tem sido: uma mãe sensata, inteligente, disposta a salvaguardar as necessidades e direitos do filho, contribuindo de forma exemplar  e sabe-se lá com que sapos atravessados na garganta  para que Joaquim construa por si uma relação com a família paterna, de valores tão opostos aos dela. 
Não haverá muitas capazes de um malabarismo tal e a quem passe ao lado a tentação mesquinha de entrar com as desavenças, os rancores e as faturas na educação dos filhos. Porém, a imperatriz é pouco dada a rivalidades estéreis, além de que Joaquim não é para ela um troféu, um instrumento ou uma salvação, mas um feliz incidente, uma trapaça do corpo, enfim, um delicioso acaso. E a pureza dos acasos  porque não são delineados ou corrompidos por nenhum projeto ou ambição, porque desafiam a vontade e a convertem   é um valor a preservar. De resto, o amor que a imperatriz tem ao filho justifica os esforços e as concessões. Por ele, suporta os Pereira e o seu desejo de atribuírem a Joaquim a responsabilidade de desfazer o sarilho de disparates e conveniências em que vivem. 
Nós, que assistimos a rir e pensamos que seria de outro modo caso fossemos os protagonistas, ainda assim comovemo-nos ao ver o senhor Pereira desmoronar-se diante do neto. Pese embora o machismo subjacente a este afeto privilegiado, sempre tivemos fé de que daqui viesse uma revolução de lógicas e princípios capaz de destituir a frieza da autoridade vigente e abrir caminhos novos, mais apaziguados para toda a família, onde até as manas se sentissem mais ouvidas e amadas e o mano inútil ganhasse finalmente um brilho próprio. Mas a vida, enfim, dá as voltas que sabemos e apanha-nos na curva, quase sempre distraídos e de mãos nos bolsos.

E toda esta conversa para quê? Os factos, sendo o que são, não podem ser amenizados nem evitadas as suas consequências só porque fazemos esta resenha de prós e contras, com perspetivas e contrapontos. Mandar a razão à frente para aplanar terreno a ver se suaviza o derrapanço, nem sempre resulta. Mas a verdade é que também a mim me custam certos episódios e adio a hora de os contar. E ter dito logo, a frio e à cabeça deste texto, que a imperatriz vai voltar a viver em Penedono e leva com ela Joaquim, como se viesse a propósito ou fosse coisa menor, não me parecia bem. Não me parecia nada bem. 

17.10.20

No dia em que se extinguir o meu contrato de fertilidade com o corpo, farei um luto orgulhoso sobre o qual dispenso consolo. Toda a ideia de envelhecer me repugna, de forma alguma nos outros, mas apenas em mim mesma. E digo-o com a verdade a que tenho direito e que ninguém pode censurar, nem em nome dos paninhos quentes com que se disfarçam as inconveniências de viver. 

15.10.20

Hoje a rapariga da papelaria não vem trabalhar. É o aniversário de Alicita, lembra-se?, pergunta-me a avó, que está a fazer as vezes da filha no atendimento. Como não? A menina, nem três mil gramas de gente e ainda assim teimosa, fincou os pés no ventre materno, sair só à força de bisturi ou pela mão de um carrasco. Alicita não havia de querer fazer sofrer a mãe, mas fez. Submeteu-a a tantas horas de espera, dor e sufoco, que deu tempo de acordarem dois sóis. Da cesariana, a rapariga saiu a jurar que nunca mais, julgando, na legítima e conveniente ingenuidade de quem sobrevive ao esforço de parir, que o pior da maternidade ficara para trás, no bloco, diluído em sangue, placenta, líquido amniótico e outros destroços animais. Um dia, a mãe contará à filha sobre esse quinze de outubro de dois mil e dezassete. De como, na manhã seguinte, enquanto ambas restauravam, docemente, sem mágoa, os estilhaços da violência que atravessaram juntas e se entregavam à placidez daquele amor acabado de inaugurar, as gordas dos jornais escancaravam o inferno e a vergonha no balcão da papelaria.

14.10.20

Agradeço a quem se aflige por me supor infeliz no trabalho e na vida em geral, mas é preocupação injustificada. Não devem confundir-se as linhas que escrevo com as que tenho na palma da mão. Já o disse noutras ocasiões: não faço disto um divã, tampouco um diário, falta-me vocação para o esbanjamento da minha intimidade e seria demais presumir que ela importa a outros além dos que me são próximos. Isto é só um caderno de exercícios onde me agrada alinhar as irregularidades da vida ou chupar-lhe os ossinhos, consoante os dias e a disposição. Lançar, de vez em quando, um olhar irónico sobre a minha própria realidade, desarrumar a minha paz e reduzir a nada os meus privilégios, faz parte do mais fundamental desses exercícios.

12.10.20

Por baixo do vestido de festa, a carne podre. E eu trabalho de costureira, das nove às seis, exercitando o pesponto miúdo, cobrindo tudo de sedas e rendas finas, cerzindo com fio dourado as malhas caídas e pregando o acabamento em lantejoulas. Depois, sacudo dos ombros a minha consciência suja, deixo-a ficar na cadeira de escritório e volto para casa com o sono, a disposição e o apetite intactos.
Quando em jovem eu bradava que jamais me venderia, mal sabia quantas formas há de nos comprarem. Também em mim, concluo, assentam bem certos vestidos.

9.10.20

"Novo normal" é uma das mais patéticas expressões que a contemporaneidade inventou, uma espécie de quinquilharia sociológica que nos últimos meses se usa, como se fosse uma joia, no comentário, na conclusão e na aceitação. "Normal" já era vocábulo com pouca coisa lá dentro, de uso tão amplo, diverso e vago que serviu e serve de igual modo todas as correntes, culturas, ciências e religiões, e ampara sentimentos que podem ir da repulsa – credo, isso não é normal – até à desvalorização – deixa lá, isso é normal. A ambiguidade do "normal" vê-se na facilidade com que sempre foi trabalhado como plasticina, gerando enganos, negligências, marginais, doentes, frustrações, desconfianças. Precedê-lo do adjetivo não lhe dá uma feição diferente, mais firme ou concreta, nem torna intrínseca a moral que jamais lhe pertenceu mas de que sempre se dourou. Mas ao evitar que notemos o seu oposto - o anormal -, o "novo" amacia os nossos espíritos e convida-nos a instalarmo-nos sem reservas.

6.10.20

É uma dessas manhãs em que, sem outro motivo além da consciência de existir, venho pela rua a fazer o inventário dos meus privilégios, cantarolando, exercendo a vida com tudo o que por sorte me foi dado ou por empenho conquistei. Por isso é grande a estocada quando vejo a mãe dos filhos com olhos de azeitona preta, que não via desde que nos fechamos todos em casa. Vai sozinha, ao contrário do hábito. Durante anos e anos fez aquele percurso a carregar duas crianças, mais tarde carregando uma e arrastando outra, ultimamente apenas de mão dada com a menina, porque o rapaz seguia à frente, apressado para ser homem. Do bairro à escola, da escola ao bairro, numa comovente obediência ao seu destino, aquela mãe precoce a quem nunca escutei uma palavra, de pernas grossas e joelho valgo, que todos os dias enviúva do mesmo delinquente, jamais se atrasou ou fez outro caminho. Porém, os filhos com olhos de azeitona preta prescindem agora do abrigo e da boleia do seu corpo. Cresceram, estão expostos às próprias possibilidades de corrupção e infortúnio, são jogadores autónomos na lotaria da vida, vamos esperar que encontrem um caminho para lá da miserável condição em que nasceram.
Chego a casa e não tenho apetite. O mais velho preocupa-se, o que tens? E quando digo quem vi pede-me que não conte, pois sabe que também pousará os talheres. Ah, felizes os que andam entretidos na sua roda viva e dormitam na sua quietação murada e praticam opiniões diante dos cortejos televisivos e só conhecem a tragédia de a folhear em verso e salivam sobre a fartura das suas mesas e doam os excessos porque precisam de limpar armários. Aproveitem, porque a felicidade que há no mundo é pouca e distribuída de forma mais desigual que o dinheiro. Têm-na toda os deuses e um ténue vislumbre dela os humanos. 

1.10.20

À porta da escola secundária por onde passo todos os dias a pé, vibram de novo as energias apaixonadas da adolescência. É a vida a tentar recompor-se, a sacudir a poeira da sua hibernação, a reacender os projetores, a desatar as engrenagens. Naquele formigueiro vejo acontecerem, nuns casos por descuido, noutros por vontade, todas as coisas que o pavor demonizou – beijos, abraços, sussurros, rodas de convívio – e alegro-me com isso, como se respirasse fundo ao vir à tona de um pesadelo. Mas logo me culpo pelos meus sentimentos e decido não conversar sobre isto com ninguém, sob pena de a censura popular, que é rígida no pensamento e rápida no gatilho, me acertar o passo. Que tristes nos tornamos. E pobre juventude, esta, que já não sabe o que dela se espera. Até agora criticados, desvalorizados na sua inteligência e sensatez por passarem demasiado tempo nos telemóveis, acusados de só investirem em vidas virtuais, escutando sermões sobre os convívios de antigamente. E veja-se a ironia do destino, o mistério das voltas do mundo: condenados de repente pelos hábitos justos, sãos, humanos, pela vida real que a sua natureza pede, que o corpo precisa, que a alma merece. Enfim, de uma forma ou de outra, ser-lhes-á imputada a culpa pelo fim do mundo. Por onde quer que sigam, seguem em contramão. 

30.9.20

Desconfio sempre de quem se mete a definir o amor e porque o vive ou viveu, nele se arruinou ou se salvou, atribui-lhe um alfabeto linear e organiza-o com suposições universais, julgando ter desvendado todos os seus segredos e propósitos e sobre isso criando máximas, filosofias, teoremas, carapuças de tamanho único e o mais que vale tanto como um sopro do vento. Sou avessa a definições. E, acima da definição, aborrece-me quem define. Eu, nem que quisesse teria como dar verbo aos magníficos lugares onde vi o amor chegar. E só um grande desentendimento do mundo poderia fazer-me supor que o que vale para mim vale para todas as almas em todas as camas e todas as casas de todos os tempos. 

25.9.20

Eu, pra mim – diz a rapariga da papelaria, exalando uma energia tão adolescente que me pergunto se andará mouro na costa – o que me interessa é a generosidade, não há nada mais sexy num homem do que vê-lo tirar a camisa do corpo para dar a outro. Não acha? atira-me a sangue frio. Ora, isso depende do que há por baixo da camisa, digo sem ter a certeza de que ela me entende. Por vezes também caio na asneira, injustificada, de a julgar tola só porque tem um coração destrambelhado, que se despistou na primeira curva e não há meio de tornar ao caminho. Eu, pra mim, o mais atraente é a coragem moral, acrescento. Homem que a tenha como virtude revela sempre um peito largo, umas costas verticais e até uma ou outra cicatriz de combate. Ela suspende o movimento das revistas no balcão: e conhece muitos assim? Por culpa da máscara, que me priva da sintaxe completa do seu rosto, não consigo perceber se é de dúvida ou ironia o olhar lateral que me deita. E, a jogar pelo seguro, desconverso com o pretexto da falta de trocos.

24.9.20

Pela manhã, duas mulheres despedem-se de um encontro casual junto ao mercado:
– Um dia destes, quando tiver um bocadinho de ocasião, ligo-te.
Não fosse a ocasião já de si uma unidade mínima, ainda a podemos dividir em quantas partes forem precisas para nos salvarmos. A vida cada vez mais fragmentada, porque o tempo é breve e a pressa é muita. Mas, quem sabe, vasculhando o fragmento do fragmento do fragmento alcançaremos o infinito sem termos investido o esforço de ir lá longe. Procure-se mais adentro quando não pode conquistar-se mais além. 

23.9.20

Bem-aventurados os amantes platónicos, os papagaios do cliché os olhos são o espelho da alma e os vendedores de sombras e eyeliner, porque deles é este novo reino da Terra.  

18.9.20

Sonhei que uma ninhada de ratos passeava livremente sobre a nudez de uma bela rapariga holandesa. Fosse viva, a minha avó levantaria o sobrolho e andaria pela casa a arrastar os chinelos e a dar corda ao pensamento, perguntando-se de quem seria a gravidez encoberta. Era o que dizia o senso popular ou talvez Freud – e hoje em dia provavelmente também o google: sonhar com ratos prenuncia a chegada de um bebé. E essa hipótese intrigá-la-ia ao ponto de desvalorizar a quase obscenidade que o meu cérebro marinara nos braços de Morfeu. A verdade é que todos os que sonham, sonham disparates, impossibilidades, absurdos, e muito pouco do que se sonha é confessável. A melhor forma de dignificar um sonho ou de evitar que ele me faça cair no ridículo, é escrevê-lo como se fosse uma coisa séria. É questão de lhe retirar cuidadosamente as incongruências como as espinhas ao peixe, de modo a deixar o filete intacto e ainda apetecível. 
Medonho, isso sim, é o sonho coerente, o que avança pela noite com a lógica e o alfabeto das coisas reais. Uma vez, por exemplo, matei um homem para proteger a minha irmã. Usei um punhal e matei-o de frente, olhos nos olhos. Lembro nitidamente a sensação, lembro todas as consistências e temperaturas, a força que fiz, a resistência da carne, o jorro morno de sangue, a meia volta que dei à lâmina, primeiro num sentido, depois no outro. Nada me custou ou doeu pois tinha o pensamento na salvação da minha irmã. Andei durante semanas a cismar na frieza quase profissional com que castiguei o malfeitor, perguntando-me como pode uma alma pacífica e sem cadastro praticar enquanto dorme um crime assim, sem pena nem hesitações.

17.9.20

Isabela deu o que tinha a dar. No fim de agosto, já todas as suas pétalas eram caídas e a haste estava seca. Penso, comovida, naquelas treze flores perfeitas, macias, e entendo o assomo de vaidade que acabou por corromper a inocência da minha orquídea. O primeiro a cair na armadilha da beleza é o seu autor. Agora, porém, Isabela está apenas a submeter-se aos ciclos da vida, que ainda que tardem não falham, e resta-me depositar a fé no ninho de folhas sobrevivas junto à raiz, ainda muito verdes e carnudas. Dizem que enquanto as há, há esperança e talvez na volta da primavera se dê um milagre. 
Noutro dia, a cabeleireira disse-me que tenciona decorar toda a montra do salão com orquídeas. Acho-as imensamente femininas, e ao advérbio deu um tom afetado que me surpreendeu, talvez o imite a alguma cliente ou a uma figura da televisão. Pois o mal é esse, comentei. Tão depressa vemos nelas a graça que temos –  em formas, feitios e feitiços – como num instante nos revelam a ruína que nos espera. Aconselhei-a a esquecer as orquídeas, que assustam espíritos fracos como o meu, e sugeri-lhe samambaias. Parecem-se muito com cabeleiras e são por natureza tão descontraídas e desarrumadas que passa, sem se notar, qualquer imperfeição ou assimetria. Não dão flor mas também não causam penas.

14.9.20

Gastei boa parte do fim de semana a ler os planos de contingência de estabelecimentos de ensino. Esforço-me por ser uma boa mãe e cooperar com o sistema, mas quase sempre embato com dor contra a generalidade das condições, dos métodos, das prioridades, das competências, pouco me importando quem governa porque o mal é de pensamento estrutural e não de conjunturas, partidos ou mandatos. Este ano, a pandemia vem aumentar o prejuízo e a fatura é sempre entregue à porta dos inocentes. Conselho amigo lembra-me que não haverá sofrimento de maior porque os miúdos habituam-se a tudo num instante, também hão de habituar-se a circular como gado, a não emprestar os seus livros e lápis, a não dizer segredos, a evitar paixões desnecessárias e fugazes, a dominar movimentos por instinto, raiva ou desejo. Mas isto, ao invés de consolar-me, agrava o meu desassossego. Eu não quero os meus filhos habituados, nem a isto nem a coisa alguma. Criei-os para que vivessem despertos, lúcidos, corajosos e inteiros e investi muito para que jamais confundissem a cooperação e o respeito com a obediência. Mas se o cenário é este e se o futuro não aparenta ser outro, o mais provável é que eu tenha cometido um erro.

12.9.20

Morreu Shere Hite, que pesquisou e escreveu sobre aquilo de que a generalidade dos homens entende menos do que julga e com que a generalidade das mulheres está menos feliz do que confessa. Desta morte, como era previsível, não se tem falado muito por aí. Afinal, oh, que atestado de superior cultura e erudição confere dar mostras de estar a par de tal coisa?

11.9.20

Duvido que se possa proteger uma civilização estilhaçando os seus valores, desfazendo os seus laços, puxando o tapete às suas morosas conquistas, abalando toda a sua fé. 

10.9.20

Ao cabo de dois meses de veraneio, o mais novo regressou a casa com mais um palmo de altura, uma tez de criatura nómada e cogitações à roda de assuntos diversos que ficam melhor só entre nós. Para o receber fiz tudo o que ele gosta, panquecas americanas, sopa de beterraba e lentilhas vermelhas, fusilli com camarão, feta e manga, comprei bilhetes para o cinema, preparei óleo de massagem. Assim que o acomodei na insuficiência do meu colo, a Terra, que por hábito e ironia ameaça resvalar à força de delírios vários, sustos e combates, foi de novo trazida à órbita. A sua disposição grata, compassiva e luminosa – igual não conheci em mais ninguém, adulto ou criança – demove todos os fantasmas e dilui no tempo infinito a gravidade de cada segundo que passa. Quem terá abençoado a hora acidental, inadiável, em que foi feito?

8.9.20

Quando atendo, do outro lado da linha chega a voz amarrotada de um velho, olá minha linda, estranho e repito estou, sim, então é a vez dele estranhar quem fala? e como resposta eu pergunto com quem pretende falar? Ele cheio de hesitações, infantil, eu queria falar com a minha filha. Mal dou pelo absurdo quando lhe respondo é engano, eu já não sou filha de ninguém. 

4.9.20

Quando um determinado discurso de desagrado prevalece na sociedade ou num indivíduo ao longo de muito tempo sem que nenhuma mudança daí advenha, das duas, uma: ou é porque não reflete um pensamento real, profundo, mas apenas um hábito de dizer ou copiar ao pensamento alheio, um fechar conversa de circunstância, ou então é porque, na verdade, a mudança não é desejada. Penso nisto, por exemplo, quando ouço a professora que vive com três gatos pretos e um rol de tralha acumulada, na ladainha do costume ao balcão do pão quente: eles agora não pensam, os miúdos não pensam, ponto final! Um dia destes, se acordo indisposta, pergunto-lhe que pensadores tem o sistema de ensino ao seu serviço. 

2.9.20

Morreu a mãe do senhor Pereira, a velha muito velha de feitio retorcido que passou aqui uma vez, apoiada no perdão do filho e na condescendência da nora. Há quem reclame da falta de justiça divina: viveu demais para os estragos que fez, já devia ter ido há muito. Foi sempre tesa como um arco de flecha pronta, fria como gelo, azeda como leite esquecido, enxotando beijos e abraços como moscas. Reza uma lenda – de restrita disseminação – que deu uma tareia ao marido, ela nunca confirmou nem desmentiu mas a fama foi-lhe útil para dissuadir oportunistas e toda a espécie de parasitas. Cobrou cada desobediência do filho imprimindo-lhe a fatura em cheio nas nádegas. Por vezes afrouxava, dando sinal de alguma benevolência ou compreensão, e então o Pereira menino, recuperando os plenos poderes sobre a sua infância, logo se metia em sarilhos ou caía nalguma leviandade e entornava o caldo. A velha muito velha tinha a astúcia do verdadeiro ditador, que mantém a oposição viva, em lume brando, com folga ligeira na corda, e espera dela o descuido, o erro, para reforçar o seu poder e lembrar que o aquele que facilita e autoriza é o mesmo que dá a vergastada. 
Morreu de nada mais do que cansaço, durante a noite, deitando por terra a ideia de que os maus sentimentos fazem germinar todo o tipo de doença. Apagou suavemente como um pavio esgotado. Paz à sua alma, que deve estar precisada.

30.8.20

O que me vês fazer com o sabre, não tentes deter, desfazer ou igualar com a faca da manteiga.

27.8.20

Afinal é avenida ou alameda? perguntaram-me, a tirar satisfações acerca do mapa deste blog, porque ora falo numa, ora noutra. Não é erro, tenho ambas: uma avenida e uma alameda. Também tenho, como sabe há muito quem por aqui circula, uma praceta, uma rotunda, uma marginal, uma rua que sobe para norte e desce para sul, além de um pão quente, uma papelaria, um cabeleireiro, um mercado, uma paragem de autocarro, um elevador, um altar a Buda. Houve em tempos um lavadouro público, um prado, um tasco que expulsava bêbados às dez da manhã. Vulgaridades, nada a fazer, o mundo repete-se em cada quarteirão como em cada blog, ainda que mudem as formas, o estilo e a voz da sua expressão e por mais que outros nomes se inventem para o que outra coisa não é. 
E este mapa, por onde o meu quotidiano deixa pegadas, cumprimentos, moedas e considerações – e que é real nas suas artérias, curvas e vistas – basta-me, porque nele vejo tudo o que me importa dizer. Se eu quisesse saber e contar mais, oh, teria de forçar fechaduras, abrir camas, farejar lençóis, vasculhar telefones, meter as mãos no lixo, violar correspondência. Mas aí só se chega com muita ousadia ou muita imaginação, dons que os astros raramente concedem aos filhos do solstício de inverno. 

26.8.20

Esta noite sonhei que a avenida se tinha tornado um antro de desvalidos. Tive de a atravessar de ponta a ponta para chegar a casa e por todo o lado vi gente a quem não sobrava força nem para levantar a cabeça contra o vento. Havia de tudo um pouco, todo o tipo de desgraças, vícios, amputações e azares, e eu passei olhando a medo, de viés, sem saber se mais lhes devia atenção ou indiferença. É preciso cuidado com a dor dos outros, ela tem a sua dignidade e, por isso, a sua vergonha. Por vezes, julgando estar a consolá-la estamos a insultá-la, a arrancá-la ao recatamento desejado, a desvalorizá-la com lugares-comuns, banalidades, conselhos que só dá quem pensa que por ter provado a sua dose sabe das doses dos outros. Os deuses encarregam-se de a cada alma atribuir os seus tormentos, não há lençol que não tenha o vinco da volta que mil vezes se deu na cama pela noite dentro, mas no modo de sentir ninguém se iguala. 

(Talvez este cenário e pensamentos afins se tenham enredado no meu sonho por ter estado ontem a ler sobre Aokigahara. Ao adormecer baixei a guarda e fez-se à vontade e em abundância o tráfico de dados e emoções através das fronteiras da minha consciência.)

Chegada ao fim da avenida, entrei com alívio na casa que supus ser a minha e ao cimo das escadas esperava-me a velha de Santiago, muito ereta, proprietária, com um olhar desumanizado. Notou que estremeci ao vê-la e com isso ganhou vigor pois é onde o sangue mais fraqueja que os poderosos cravam o sustentáculo dos seus palácios.
– Isto são horas de chegar? perguntou em português limpinho. 
Percebi então que era uma menina desaninhada, longe de colo e família, a viver de favor em casa alheia. Segurei a raiva, deixei que a galega virasse costas e acordei.

24.8.20

Dorme, dorme, que dormir é meio sustento e o tempo passa mais leve. Talvez fales e te agites e te vires e revires e transpires e julgues e insultes e te rias e na carne sintas o êxtase sonhado e podem até os teus olhos abrir-se e parecer atentos por se fixarem nas coisas concretas ao redor, mas ainda assim, não o sabendo, estarás a dormir profundamente. Dorme, dorme, que do teu sono tiras conforto e outros tiram vantagem.

21.8.20

À mesa, debaixo de um céu de estrelas, numa varanda para o mar ou em qualquer outro poiso de prazer e contemplação, eu e o mais velho ficamos amiúde à conversa sobre as fontes de mistério que há no universo ou sobre as bizarrias da condição humana. De mim, o rapaz voador herdou todas as imperfeições e do pai todas as virtudes, por isso o amor que lhe tenho é compassivo e fascinado ao mesmo tempo. Quando conversamos, procuro evitar que a minha sensatez contamine a doçura dos seus sonhos ou arrefeça o furor das suas convicções ou ponha um freio criminoso ao galope das suas ideias. A juventude é magnífica e nisto que digo não há ironia ou sequer paternalismo, só inveja, dessa que os deuses castigam e a que os humanos viram a cara na rua por receio de se descobrirem dela aparentados. Nada se ganha com a maturidade, a não ser a eficiência com que voluntariamente encaixamos na engrenagem e comparecemos no quotidiano de escravos. O resto são eufemismos. 

20.8.20

Na peixaria, Elisabete amanha dois robalos para levar à sôtora Lurdes que, por alegar ocupações muitas e diversas, pede a entrega das compras em casa sem acréscimo à fatura. Enquanto chafurda nas tripas, Elisabete conta histórias para entreter a freguesia, evitando que vão fornecer-se a outro lado pelo cansaço de esperar. Hoje é sobre uma vidente muito conhecida para os lados de Aldoar. Empossada da sabedoria de mundos paralelos e ocultos, cujas lógicas só uns poucos eleitos dominam, anunciou-lhe a vidente há mais de quinze anos que ela havia de morrer seca e veja-se como, apesar de vontades e esforços, Elisabete desconhece as graças da maternidade. Julguei que fosse a freguesia assustar-se, benzer-se, esconjurar demónios, mas antes noto entusiasmo para saber onde encontrar a vidente. 
Ao ver-me, porém, Elisabete sobressalta-se como a criança apanhada a transgredir e sorri a desculpar-se. São coincidências e prontos, não é? A menina que estudou deve saber. Coincidências e prontos, repito com propriedade e um gesto brusco da mão. Ela ia gostar de saber que há muitos anos, a custo zero e por brincadeira, uma rapariga abriu-me a palma da mão e tudo o que nela leu trágica e rigorosamente se cumpriu num médio prazo. A única profecia que ainda tenho por comprovar é a de que terei uma vida longa. Aguardemos para ver. Se a rapariga apenas leu o que em mim já estava escrito de nascença ou se por dizê-lo em voz alta naquele mesmo instante o escreveu, não sei. Mas Elisabete e eu já decidimos que, de qualquer forma, são tudo acasos. Ela com os seus robalos, eu com os meus estudos, convergimos nisto e talvez no que ficamos a pensar e não dizemos.

18.8.20

Para não macular a calça branca de prega, apropriada ao usufruto do pôr-do-sol em zona chique, a rapariga manda ao filho que projete bem os quadris adiante. Aflito para se aliviar e com fraco domínio da ferramenta que segura entre os deditos, o petiz procura direcionar o jato de urina de maneira a não ir contra o vento nem contra as advertências da mãe. Está na beira do passadiço, tem a metade dos pezinhos já sobre o vazio, o ímpeto desgovernado de uma cascata a sair-lhe do corpo e o sermão a martelar-lhe os ouvidos  – que lindo se vestiu hoje o meu príncipe, não se suje, por amor de Deus, chegue-se mais para a frente. Na ânsia de lhe salvar o traje, é a própria mãe que o empurra mais um bocadinho em direção ao desastre. E bem antes do alívio completo, o menino esbardalha-se, de braços abertos e rabinho ao léu, no charco abundante da sua urina. Envergonhada, a mamã levanta-o à bruta por um braço e sai a correr. Já não é hoje que apresenta o filho a preceito nos teatros lotados de agosto. 

7.8.20

É estranho, mas ninguém levanta a cabeça quando soa o alarme, estridente, aflitivo, sobre o torpor matinal das ruas da cidade. Como se habitassem outro mundo que não este, prosseguem as suas conversas sobre coisas que não apanho, outros escutam música ou consultam o e-mail. Porém, à mais ligeira, subtil, vibração de um smartphone, reagem como as galinhas que, absortas no bicar compassado do milho rasteiro, erguem de repente os pescoços e viram-nos, ora para um lado, ora para o outro, numa curiosidade robótica, passageira e, por isso, verdadeiramente inútil. 

5.8.20

A rapariga da papelaria desce a rua de cara amarrada e naquele passo veloz que se usa para gastar num instante a raiva toda. Motivos, lá os terá e faz bem em calá-los porque com o mal de uns enchem às vezes outros o bandulho. No caso dela, porque exala um cheiro intenso a abandono e desistência, é um fermento para a imaginação alheia e inspira todos quantos vivem de dar conselhos como os que treinam da bancada – que não perca mais tempo com essa dor, cuide de si, vista outra coisa, olhe em frente, dê-se a outro homem. Então não pode cada um fazer da vida o que quer, comprometer-se com a sua melancolia, cismar nas suas mágoas, mastigar as suas lembranças ou até amputar os membros sãos se daí lhe vier paz? Quem é quem para dar à rapariga da papelaria a bula da felicidade, quem chegou ao ponto em que, de tão feliz, já só lhe resta morrer? A mãe, que nas palavras duras que lhe diz põe sempre a fatura dos seus próprios fracassos porque em vão sonhou que a filha havia de ganhar de sobra para pagar pelas duas? A cabeleireira, mais a sua moral entusiasta sobre os benefícios do sétimo sacramento com pensão completa e descontos ao marido? Gabi, santinha de pau oco e língua bífida, que revira os olhos nas costas das senhoras a quem desbasta as garras? O senhor Pereira, polidinho nas maneiras e remediado no caráter, mais a sua mulher que a vida toda o comeu requentado ao fim do dia, primeiro por ignorância depois por falta de saída? A viúva, que ninguém sabe se na verdade partiu com o homem que amava e agora ostenta apenas o que ficou para trás, como coisa que para ela já vale nada mas que ao menos dá, a quem olha, a felicidade de sonhar? A imperatriz, que não foi abandonada pelo pai do filho mas escolheu abandoná-lo, o que, enfim, revela a desgraça maior que é ficar aquém de amar? As manas Pereira, tão virtuosas e bem sucedidas, de íntimo atormentado pela ideia de que todos os homens – até os seus – possam um dia parecer-se com o pai? A dona Maria Isabel, doutora de ciências com a má fama de serem exatas, cuja independência e firmeza de emoções jamais permitiriam entender quem por amor se tenha desanimado tanto? As pessoas dos blogs, que nos seus estendais públicos deixam, sem vincos, belas cogitações teóricas sobre amores suspirados como o dela e outros tantos de romance e ideal? Eu, que jamais sequer amei dessa forma religiosa, sem identidade nem retribuição, e descarto as dores junto com o lixo ao fim do dia porque tenho repulsa a tudo o que dura demasiado?
Talvez, no entanto, nada de grave tenha havido com a rapariga da papelaria. Apenas um enguiço, uma avaria na máquina da roupa, os jornais que não chegaram a horas, Alicita a inaugurar o dia com uma birra daquelas. Coisas poucas, nada de nada, deus a polvilhar o quotidiano de misérias e cada um de nós a acreditar que tudo isto é muito mais, para justificarmos as angústias com que nascemos.

3.8.20

Podia ter-se começado a falar há muito mais tempo sobre a tragédia em que, a todos os níveis, vai desaguar o método de gestão da pandemia e do isolamento. Mas compreende-se a demora. Contra uma multidão possuída, que se acostumou a exercer a cidadania aplaudindo ou apedrejando a partir da varanda e que atingiu cúmulos de inspiração bíblica achando que o mundo estava a precisar disto, quem ia arriscar um e se? O medo não só distorce como aumenta a permeabilidade a tudo o que seja sustentado por um gráfico ou anunciado por um comité de gravatas e tailleurs. A partir daí, todos os que levantem dúvida são apontados como desumanos ou ignorantes e mal podem explicar as suas razões, a não ser que desembainhem um gráfico de igual envergadura ou saquem da cartola um doutoramento em qualquer coisa de tão rigoroso rigor que, enfim – oh, inutilidade do conhecimento adquirido! –, nem tem espaço para o imprevisto. 
Primeiro as pessoas, depois o resto, diziam os bravos da reclusão. Como se o resto fosse outra coisa que não pessoas. 
Passaram quase cinco meses e ainda me custa acreditar em tudo isto.

2.8.20

Que as pessoas interpretem o que está escrito à luz da experiência que têm é compreensível.
Mas que julguem quem escreve à luz da dor e do desejo que as atormentam é um perigo.

30.7.20

Debruçado sobre o lago, Narciso estende já os beiços para a superfície da água, não sem antes me sondar com o movimento mal disfarçado da sua íris habituada a atrair borboletas. Quer ter a certeza de que tenho os olhos postos nele e julga até que à beira me deitei com o único propósito de o desejar. Inclina-se mais um pouco, arrasta o corpo no chão para evitar o desequilíbrio e a fatalidade, está seguro de que ao beijar-se despertará em mim vontade de fazer parte, como se a ideia do trio – ele, eu e ele – me pudesse excitar. Com efeito, cai-me o queixo, mas não de encanto. Repugna-me antes a sua postura de rafeiro subjugado, a vulnerabilidade exposta das nádegas, o sexo enterrado no húmus. Aviso que me vou aproximar, Narciso vaza o triunfo na forma de um riso breve, mas – oh, desastrada! – caio na água com estrondo e a figura dele desmembra-se na ondulação quase tão depressa como nos meus planos.

27.7.20

Antes de entrar na água, o mais velho respira fundo e pede-me que invista todos os meus pensamentos na sua proteção. É claro que sim, não tenho feito outra coisa, diz-me que outra coisa tenho feito nos últimos dezoito anos da minha vida? E se algum dia, meu rapaz voador, meu homenzinho, se algum dia por tua causa eu sofrer mais do que a conta e não me bastar o escudo, a carapaça, o talento para a acrobacia e até para o faz de conta, por mim nada farei, mas que te castiguem os deuses trazendo-te de volta ao mundo num corpo de mulher, fazendo-te um filho e obrigando o teu coração a passar os dias para trás e para diante sobre um fio de arame nas alturas.

24.7.20

Acocorado na soleira, na avenida mais movimentada do subúrbio, um velho macilento cata porcarias a um gato de cinza puro, aveludado. Meigo como por interesse os gatos são, este aquieta-se e fecha os olhos para o gozo pleno daqueles cuidados. Se fosse gente, teria de pagar por um mimo que se equiparasse, mas vir ao mundo como gato é outra sorte. Verdade que não é remunerado pelo serviço de apoio permanente à solidão dos humanos, pelos favores prestados para os distrair das ausências maiores, nem sequer pela condescendência com que se dá ao estrelato nas redes sociais e às judiarias de canalha habituada a reinar. Mas ao menos pode ser preguiçoso sem imposto e andar pelos telhados sem viatura própria e acasalar sem hipoteca nem comunhão de adquiridos. Já o velho, outra história. Provavelmente empregado, contribuinte, marido, cumpridor, consumidor, pagador, adepto, proprietário, e ainda assim ninguém que agora lhe cate a ele as porcarias com ternura.

23.7.20

Às vezes, porque um gatilho disparasse a propósito de qualquer coisa, ele dizia ocorreu-me aqui uma ideia e enquanto compunha mentalmente o que poderia vir a ser, sei lá, um verso, um parágrafo, um livro inteiro, a boca dele produzia um estalido contínuo, espécie de coaxada de anfíbio, e o queixo movimentava-se vagarosamente de um lado para o outro como as ancas de uma leoa. O mais provável era que dali viesse alguma magnificência, mas aquele parto repugnava. Fora isso – que com boa vontade até se ignorava – era um homem subserviente e ganancioso, não dava ponto sem nó nem beijo sem trinta dinheiros. Porém, tudo o que escrevia exalava uma ternura lúcida pelo mundo e a sua reinterpretação das debilidades humanas, em palavras, comovia e convidava. 
São muitas e compreensíveis as ilusões alimentadas acerca de quem escreve, num instante se cai no erro de imaginar na pessoa o encanto que há na coisa por ela escrita. Mas o criador nunca é tão belo como a criação, nem se lhe compara em méritos e virtudes. Só o Pedro Chagas Freitas é melhor do que a sua obra. Vi-o uma vez no ikea, passeando o filho bebé enquanto a mulher apalpava tapetes. Tinha um ar luminoso, sólido, genuinamente feliz e eu espantei-me tanto a olhar que ele me sorriu. Percebeu, talvez com alívio, que jamais lhe pediria um livro autografado. 

21.7.20

Antigamente, precisando eu de um catalisador do choro para desintoxicar de emoções inutilmente acumuladas, punha a correr o concerto de Keith Jarrett em Colónia. Certinho como poucas coisas na vida: aos sete minutos e treze segundos, nem mais nem menos, a torneira abria. Ah, daí para a frente chorava-se muito bem – lágrimas decididas, triunfantes, fatalistas, orgulhosas da sua causa e da sua vantagem – , mais ou menos até aos oito minutos e quarenta segundos. Depois, pelo resto do concerto ficava o espírito numa planura luminosa, desembaçada, pronta para a florescência. Hoje, sou muito menos refinada. Qualquer cebola fresca cortada pelo meio serve para o efeito e ninguém nota.

20.7.20

– Este jeitinho de perna é tal qual o meu filho.
Diz o senhor Pereira sobre Joaquim, que pela primeira vez caminha pelo próprio pé. O menino está cada vez mais boneco e cheio de graça, mas quem quer que nele tente ver sinais do pai continua a precisar ou de uma crença muito tola ou de detalhes que a olho nu são despercebidos. É tão saído à mãe que poderia ser obra exclusivamente sua, solitária e caprichosa. Tem dela o branco leitoso da pele, os olhos de verde aquático, tropical, os reflexos acobreados no cabelinho e até alguma altivez que faz com que pareça estar sempre a rir do que não é feito para tal e despreze aqueles que lhe dirigem macaquices. Não bastasse tudo isto, ainda recebeu o nome do avô materno. E o apelido Pereira foi acrescentado como se fosse um favor ou, enfim, algo a que era impossível fugir sem desencadear conflitos.
Joaquim podia até ser obra de outro homem, é certo, mas a imperatriz é uma rapariga inteligente dos pés à cabeça, que vantagem tiraria de inventar que o pai é este, um vai-se andandoquem sabe um diase calhar não vale a pena, medroso do mundo, incapaz de segurar uma rédea, com poiso preferido debaixo de saias de fêmea, sejam as da mãe ou de outra que lhe deixe a comida para aquecer? Se ao menos para sustento ou por herança ele fosse um pai conveniente, mas nem isso. Portanto, embora saibamos que a maternidade é um poder perigosíssimo, de enorme dimensão e longo alcance, cujas dádivas e manobras são as linhas com que se cose o mundo, certamente a imperatriz não faria uso dele para burlas ou diversões.
Em todo o caso, tenho para mim que o jeitinho de perna é apenas uma amorosa imaginação do senhor Pereira. Afinal, quantas farsas pode uma pessoa inventar, com quantas pode ser conivente durante dias, anos, décadas, só para evitar o sentimento de fracasso e salvar a sua trabalhosa dignidade?

17.7.20

De há uns tempos para cá, vivem num estranho sossego as três flores que sobraram das que Isabela deu ao mundo. Não se alteram em aspeto, cor ou textura, passando bem por uma dessas quinquilharias chinesas de plástico que mantêm as casas floridas em troca do afago de um espanador. Ora, é dos livros – e da vida – que as grandes tragédias são precedidas de uma tranquilidade assim, uma quase suspensão da vida e dos seus rumores, uma espécie de abafo surdo que anestesia e desarma os espíritos, assim os apanhando mais vulneráveis. Alguns dos que na vida buscam estabilidade sabem disso, ou mais tarde acabam por descobrir: sob tudo o que está demasiado quieto há sempre matéria viva a laborar, incandescências e forças em tão delicado equilíbrio que ao mínimo ajuste ou à mais ténue brisa, rasga-se um abismo. Por isso, e dada a minha triste experiência com orquídeas, sempre tomadas de exageros e com uma evidente falta de domínio das próprias emoções, tenho para mim que devo estar atenta. À partida, Isabela parece ter ganas de viver e mais agora que está ladeada por duas plantas de viril constituição, a quem dei a responsabilidade de filtrar a luz que em doses tremendas, às vezes dolorosas, entra cá em casa. Mas, ainda que as três flores estejam bem e que a perda das outras dez pareça não ter rasurado o amor-próprio de Isabela, vasculho amiúde as raízes e o ninho das folhas, junto ao caule, onde nas orquídeas acontece fermentar a podridão. É que nas dosagens sadias de vaidade é difícil acertar. E embora haja motivos para crer que quanto maior é a ostentação mais negros são os fantasmas, não é linear a validade do oposto.

14.7.20

Queria dar-te uma parte de mim que não tivesse sido usada, corrompida ou desbastada. Um pensamento novo, uma gaveta ainda por abrir, uma data do calendário que não esteja já reservada para uma lembrança, um naco da alma que seja liso. Amadureci. Há quem no meu lugar invente, troque, compre, revire ou acrescente, vista o fato de menina, ponha a máscara do inocente, faça a voz do sonhador, mas olha, eu não, eu tenho tudo gasto e nada por estrear. Devíamos preservar da infância qualquer coisa intacta, ter sempre um embrulho com laço de fita guardado para abrir pela primeira vez num instante que ainda está por vir ou para entregar nas mãos de quem só chega depois. 

9.7.20

A quem nunca aconteceu atirar ufanamente o cuspo ao ar e levar com ele de volta, em cheio na razão apregoada, e espantar-se então por haver tanta ironia nas leis do destino como rigor há nas da gravidade?

8.7.20

Pelo menos uma vez por semana o mais novo pede-me outro irmão ou, se escolher não for abuso, uma irmãzinha. As coisas não podem ser assim, explico, uma mulher sensata não se presta a dar fruto com a leviandade com que o fazem as flores, a quem bastam borboletas ou ventos favoráveis, nem como os animais, que cumprem os desígnios da espécie sem ponderar além do instante. Mas ao inocente pouco dizem as minhas razões e quanto maior o detalhe com que as exponho menor a importância que lhes dá. No seu espírito, ainda livre do sarilho de teses com que se fundamentam os passos da vida e a que no conjunto chamamos de maturidade, a boa intenção é suficiente para o valor de uma ideia e o sucesso de um projeto. Ignora ainda em quantas dúvidas e obstáculos podem tropeçar as boas intenções ao longo do seu nobre caminho e como tantas delas se esbardalham e se levantam com outra cara, novo nome e rumo oposto.

7.7.20

É difícil definir as causas e até os instantes que precipitam a avalancha. Basta que seja realmente suspensa a engrenagem por uns segundos. Não me refiro ao trânsito, às lojas, aos restaurantes, que esses já respiram moribundos, mas a tudo o que dá corpo à certeza de que, apesar do muito que se adia, o essencial se preserva: o fluxo intenso de trabalho, o amor com os miúdos, o banho diário, o ciclo menstrual, os asanas, as faturas, o lume brando na cozinha, o chocolate, o avanço nas páginas dos livros, as mensagens que chegam de longe, como parece que todas agora chegam. Quando tudo isso pára ou, não parando, é pensado como coisa concreta, avulsa, no seu devido lugar, o lugar do que consola mas não salva, como facto que é o que é e o que pode – e pode pouco – começo a fervilhar, prendo o cabelo, calço as sapatilhas e faço os caminhos desertos ao redor da casa, dou voltas ao quarteirão, desço e subo passeios. E para caminhar mais depressa invento que a minha fúria é contra a calçada e o asfalto, e que a saudade que tenho é do que vem depois da esquina, da rotunda, da papelaria, do pão quente, da praceta, da alameda, mais adiante, sempre mais adiante. Ou imagino que o perigo me persegue a passos largos sem me lembrar do que sei tão bem – que o perigo verdadeiro nunca vem atrás, espera-nos à frente, mudo e quedo, quantas vezes incrustado na geometria do mais plácido e belo de todos os horizontes.
Volto para a casa aceitando, como um ratinho de gaiola, que dei vinte giros na roda sem ir a lado algum. E então lamento por todos os que fazem o mesmo que eu e desperdiçam a energia a rugir como leões.

* Abril 2020

1.7.20

Quem nunca viu desfeito no pó das ruínas o áureo esplendor de um palácio e não conhece pelo menos uma história de amor interrompida por uma traição? A quem nunca pareceu de repente nova a rua onde sempre morou, quem não experimentou a certeza de que o dia raia sempre loiro e dócil depois de uma noite de inferno e quem nunca viu medrar, em felicidade e plenitude, alguém que à nascença tenha sido condenado a uma vida breve? Ah, o mundo dá muitas voltas, tem reveses e avanços, e pode ser nessa banalidade que o Marco do ginásio busca consolo. Quando recebe, em golpes frios e fundos, a indiferença da rapariga da papelaria, talvez lamba as feridas investindo o pensamento no dia em que ela há de sucumbir, porque ninguém resiste tanto tempo entrincheirado. A dor, que para ela tem sido cruz e conforto, já mais do que desbotou como os trapos sem uso que só por hábito e apego conservamos. Mais cedo ou mais tarde, dar-lhe-á a fome ou a sede, a pele ressentir-se-á da falta de um arrepio e talvez então procure outro corpo, outro ninho, outra vida. Nesse dia, lá estará ele. 

26.6.20

Gabi e a cabeleireira queimam o tempo livre com cigarros, posando como um par de jarras à entrada do salão vazio. Ao verem que passo sem propósito de entrar, embarcam nessa prática comum em certas mulheres – da qual nem se apercebem por ser já tique –, que é a de olhar as outras de cima a baixo, tirando todas as medidas e conclusões que as turbulências de uma imaginação mal aproveitada lhes ditam. Sorrio, consciente de que logo tomam como certeza o que quer que ocorra como suspeita. Mas diz-me a experiência que, no fundo, é sempre maior a tortura de quem engendra a história do que quem dela é personagem. E se há dias em que as personagens são elas, dias tem de haver em que quem descansa sou eu enquanto elaboram os outros a meu respeito. 

23.6.20

O cheiro áspero das sardinhas assadas, trá-lo o vento dos terraços, varandas e marquises onde hoje se faz a festa. Nem um santo se atreve a desautorizar o poder superior e chamar o povo para as ruas, misturando os seus odores, hálitos e suores. Não haverá baile nem cantoria nas pracetas ribeirinhas, nem despontarão paixões entre estranhos que se cruzem na ponte debaixo do fogo, nenhum beijo será dado ao acaso no embalo da folia e velhos conhecidos que desde o último ano não se viam resistirão à leviandade de um abraço. De martelinhos nem pio. Na rotunda, não virá com a brisa o cheiro de farturas, nem haverá ganapada aos encontrões, bêbados a cobiçar as nádegas das raparigas que jogam matraquilhos ou carteiristas de olho no bolso cheio dos estrangeiros. Não se ouvirão gritos de bravura nem promessas de amor no topo da volta da roda gigante. Pela primeira vez nesta data, as praias amanhecerão vazias. E na placidez rosada dessas primeiras horas, quando baixam no ar a temperatura e a melancolia, hão de circular devagarinho pela marginal os carros patrulha, certificando-se que a pretexto do santo não acamparam ali jovens amantes de circunstância nem ressacados sem pernas para voltar a casa. 
Mas amanhã, apesar dos esforços, todos seremos ainda mortais. 

22.6.20

O retomar dos velhos ritmos da vida e da cidade tem-me mantido desinteressada de escrever. Ignorando se e quando voltarei a ser privada do mundo lá de fora, do seu bulício, dos benefícios da civilização e do convívio com os que me são queridos, sinto-me agora como a adolescente acabada de se emancipar, sôfrega e inquieta, engendrando formas seguras de fazer, estar e acontecer, mas também desejando coisas mundanas, prazeres ligeiros e superficiais. Não me espanto de ver que todos estamos iguais, porque outra coisa não imaginei durante os quase três meses de reclusão. No jogo da futurologia nunca entro com uma dose de esperança superior à de que preciso para estar em pé. Pergunto-me, aliás, de onde terá vindo a ideia romântica de que deste susto global se havia de erguer uma humanidade renovada, finalmente distinguindo o acessório do essencial, mais dedicada à natureza e ao próximo, com mais apreço pelo tempo do que pelo dinheiro. Acredito que seremos todos cada vez mais polidos, porque mais censurados, vigiados, criticados, regulados, mas nunca seremos melhores do que ontem fomos.

19.6.20

Na papelaria comentam-se os amores e desamores das revistas cor-de-rosa, as paixões súbitas, os casamentos desfeitos, as trocas e traições. Entristecida, a rapariga abana a cabeça. Despreza essa realidade cujos brilhos mal escondem os dissabores e as desgraças, diz que o amor verdadeiro não é aquilo, é uma coisa para sempre, capaz de vencer os enguiços criados pelas rotinas da fama, as ausências prolongadas, até certos vícios e erros que o mundo não perdoa. O seu romantismo seria inofensivo e até gracioso se as velhas, que raspam sôfregas os cartões da fortuna, não lhe dessem um acabamento embrutecido com os clichés que aprenderam das suas mães, por sua vez aprendidos das avós e por ai adiante: que o segredo do amor eterno está nas cedências, na adaptação, em ir mudando para fazer feliz o outro. A rapariga indigna-se, arregala o olho, levanta o queixo, apruma o indicador, era o que mais faltava, quem me ama é como eu sou, não quer que eu seja antes assim ou assado, que me pareça com esta ou faça como aquela!
A mãe estava até agora calada, encolhida junto à fotocopiadora, a limpar-lhe manchinhas e poeiras com um modo distraído, de quem anda longe ou prepara alguma. Mas por qualquer razão que ao entendimento geral escapa, vemo-la de repente enfunar-se e, muito crua, muito fria, como se em inimiga da filha incarnasse ou quisesse ajustar contas muito antigas: 
– Ai é? Então diz-me lá quem é que te ama? 
Sorte a minha, que já tenho o troco, saio e livro-me de ver o coração da rapariga da papelaria sangrar em ferida aberta pela própria mãe.

16.6.20

Conta-me uma história sem ambição de explicar o mundo, que isso é tarefa para as pessoas vulgares. Conta-me uma que lhe puxe o tapete e o deixe sem pé. Sabes bem o gozo que tiro de ficar a ver se ele se aguenta, como sustém os seus falsos alicerces e com que fôlego respira. Aflita, acabarei, claro, por lhe deitar a mão e acomodá-lo-ei onde a minha lógica tiver uma vaga ou as verdades que conheço possam afastar-se um pouco para lhe dar chão. É para isso que me servem as histórias que ouço e leio, para me dar conta dos espaços que ainda tenho em branco, reconfigurar a minha consciência das coisas, arrancar as estacas, desincrustar as pedras e os mofos, baralhar e repartir, mas jamais dar como terminada ou suficiente a visão humana, débil, rasteira, que tenho do mundo.

13.6.20

Se consideramos que os Homens bons podem ter grumos no caráter, porque não havemos de considerar também nos perversos um coração disposto à ternura e capaz de gestos de valor, ou que ambos sejam duas faces de uma só moeda, dois rostos do mesmo Homem? Quem inventou para o mundo esta divisão entre corruptos e inocentes, fracos e fortes, ladrões e honestos, traidores e leais, adúlteros e fiéis, doentes e lúcidos, que de forma tão básica e fútil compõe o nosso senso de justiça quotidiano? E esta veia que apurámos ao longo dos tempos e começamos a praticar com os próprios filhos assim que nascem, que reside na atribuição de castigo para uns e recompensa para outros, terá sentido algum se for sempre julgada a parte pelo todo e se em quem julga coabitam igualmente as duas faces? E de que aflições sofrem esses que por tudo e por nada se lançam a apregoar a própria moral dizendo eu seria incapaz de tal coisa, como se quem quer que seja algum dia desta vida chegasse a saber ao certo tudo aquilo de que é capaz?

5.6.20

– Acredite que lhe dou o desconto por ser uma senhora. 
Assim fala o senhor Pereira à viúva, tentando pôr água na fervura de uma desavença por causa do SUV mal estacionado. Está seguro de ter escolhido as palavras certas por entender que, não havendo flores ao alcance, a bajulação é o caminho mais curto para refrear o sangue de uma fêmea. A viúva até reconhece o hábito de largar o carro sem critério nem respeito, no meio da rua, em cima dos passeios, a morder as rampas, mas ainda assim abespinha-se com o despropósito do comentário. Avança e, antes de ofender as distâncias impostas, detém-se a olhá-lo com a sua firmeza curvilínea e cheia de brilhos, enquanto ele balouça nos calcanhares, de mãos nos bolsos. 
Mas eis que ela se encosta ao mercedes dele, levanta a saia, destranca as portas do inferno e convida-o a entrar. O senhor Pereira nem de um segundo precisa para se encher do maior dos entusiasmos, agarra-lhe a cabeleira negra e desata a apunhalar o ventre dela sobre aquele capô tão polido que não merecia servir o desvario. Enquanto a viúva larga a céu aberto o riso carmim e lhe espeta as unhas nas costas amarrotadas pela idade e pelo sol das latitudes tropicais, ele, todo franzido e com a língua de fora, parece um garoto esforçado em dar o passo maior que a perna. O escarcéu chama à janela a mulher que, ao ver o que nem nas capas dos meus livros, ampara o peito com a mão e, porque as forças lhe faltam, pede o auxílio de Deus num fio de voz. Mas Deus lava as mãos do resultado imprestável da sua criação e não vem acudi-la sequer com um leque ou uma aguinha açucarada. A imperatriz, que passa com Joaquim encaixado no quadril, ri-se e tapa os olhos ao pequenito porque não o quer já sabedor daqueles combates animais que o desejo propicia e nem sequer teria como explicar-lhe que dali pode vir felicidade ou até frutos benditos como ele. E as duas filhas do senhor Pereira, paralisadas de indignação à porta do prédio, amaldiçoam a raça masculina, essa espécie toda feita por igual – exceção feita aos seus maridos, uns companheirões. Mas aquele frenesi, pese embora o enérgico investimento do senhor Pereira, acaba por se extinguir sem que nenhum dos dois chegue a tirar vantagem. E a viúva, com um gesto de impaciência, quase pena, empurra-o: deixe lá, eu dou-lhe o desconto. 
Ah, nada disto, claro. A viúva e o senhor Pereira preservam a distância que os livra de todos os vírus e impulsos, confrontam-se apenas com os olhos e ela, talvez por saber que são vãs as discussões entre os que falam línguas diferentes, responde-lhe: 
– Que desilusão, que tremenda desilusão me saiu o senhor.

2.6.20

Nomear a orquídea foi quanto bastou para atrair a má sorte. Nada eleva tanto quanto a atribuição de um nome, é um gesto a favor da singularidade e contra o esquecimento. Além disso, com um nome pode viver-se uma história e Isabela também reclamou a sua. Mas, mais sensata do que a antecessora, não chamou a si a desgraça atirando-se de corola aberta ao primeiro que lhe exibiu artes de caçador. Outro caminho que não o da entrega irrefletida levou Isabela a experimentar a perda e a desolação.
Foi dito e mostrado aqui o esplendor em que se encontrava, atingindo em beleza e graciosidade um nível que a outra nem sonhou. E não se ficou pelo que viram. Isabela floriu com tal exuberância que a certa altura havia nos seus braços escancarados nem mais nem menos do que treze corolas, todas desenhadas com igual rigor e revelando ao toque a mesma macieza e aparentando a mesma candura. Ao chegar a este estado apesar dos meus descuidos e da minha indiferença, Isabela mostrou ter fibra e provou não serem disparatadas de todo essas máximas da autoajuda que apregoam a suficiência do amor-próprio na construção do sucesso. 
É sabido, porém, que qualquer virtude está sempre encostada à raia de um terrível defeito e que basta uma distração, um exagero, um deslumbramento, para que tudo vire o seu oposto, tal como a sobredosagem transforma em veneno o mais inofensivo dos remédios. Assim creio que terá acontecido a Isabela. Se o amor por si mesma primeiro lhe garantiu a sobrevivência, depois cresceu ao ponto de se transformar em vaidade. E quanto mais vaidosa, mais na sua beleza investiu, fazendo brotar novas flores, jamais satisfeita com as que já tinha. Sob o peso de tamanha florescência, duas das três hastes foram vergando, vergando, vergando, até que um dia quebraram definitivamente, deixando Isabela reduzida à haste principal, numa beleza minimalista que, depois de tanta opulência, até parece miséria. Em números – para quem assim prefere medir a amplitude das desgraças – traduz-se a coisa em dez corolas caídas no chão da minha sala e três sobreviventes e viçosas, na haste de origem.
Tentei salvar as hastes quebradas enterrando-as diretamente no vaso, com esperança de que elas larguem a firmar raízes na busca instintiva de alimento. É isso que hoje mostro, para que se testemunhe não só a abundância de flores que Isabela deu ao mundo como também o meu esforço em recuperá-las. E fica claro que embora eu me preste muito a fantasiar sentimentos, tenho realidade que baste para não ter de aldrabar nos factos.
Sei que devia ter educado o crescimento de Isabela com a ciência disponível no google. Por isso também desta vez vou chafurdar na culpa, banhar-me na sua lama agridoce e reservar para mim mesma as mais cruéis palavras de desprezo. E assim, caso alguém pretenda censurar-me, saiba que já vem tarde. 

28.5.20

A uma mulher, cansa muito carregar o próprio corpo a vida inteira. É certo que os homens também carregam os seus fardos e para que não falhem na tarefa a natureza concedeu-lhes costas amplas. Mas eles, se lhes aprouver, atiram fora a carga ao fim dia, dispensam-na, mandam à fava o capataz, trocam de serviço ou escolhem mandriar. Nós temos a carga de nascença, sem escolha, e a nossa rotina é libertá-la em conta-gotas. Entre sangue, leite ou filhos, não há uma que não doa quando vaza, que não cheire, suje ou rasgue, que não corroa as fibras, os tecidos, as dobras. Por mais que no mundo nos seja dada a voz, o direito e o poder – por caridade, após conjeturas e deliberações de assembleia ou porque alguma se sacrificou até à morte pelas outras – e ainda que aos homens um dia seja dada a faculdade de entender – porque saber não é o mesmo que entender – nada poderá aliviar-nos dessa carga desigual, que às vezes morde os rins como um cão raivoso e espeta agulhas nos seios e despedaça o ventre em golpes duros. E na hora em que esses lugares do corpo deixem de sofrer por se retirarem do ofício da fertilidade, terão de ser vigiados em dobro, com olhos, sondas, dedos, porque neles a morte costuma ter gosto em largar a sua âncora. Quanta ingratidão.

19.5.20

De resto, também é preciso dizer que tudo perdeu graça e glamour. Acabou a solidariedade de varanda, as receitas de pão caseiro, as odes ao café de italiana e aos passarinhos. Nunca mais se fez prosa rebuscada sobre os planos do universo, nem sobre a revolta da natureza, essa coitada tão oprimida que se armou de um vírus do diabo para justamente destituir os poderosos. Talvez os sermões que o pivô das notícias deu como quem dá esmolinha já não inspirem ninguém. É de tristeza e apatia a face visível dos adolescentes do colégio lisboeta que hoje vinha no jornal. Há novos casos de padres incapazes de dominar o gosto sórdido por carne tenra. Da porta da papelaria a rapariga atira-me acenos vivos, cheios de uma estival feminilidade, e o Marco do ginásio, ao passar para nenhures com a chave da porta que ainda não pode abrir, apanha-os no ar julgando que lhe são dirigidos. Está um dia muito bonito e a morte ronda as moradas de todos nós com pezinhos de lã ou patadas de besta, consoante o fado de cada um, sem novidade, como desde que o mundo é mundo. Quem foi que disse que nunca mais seriamos os mesmos?

15.5.20

Ao ver a fotografia da Valentina, a menina cuja história não tem verbo que lhe sirva nem justiça que se faça, reparo como os seus olhos irradiam a luz própria das crianças afortunadas e espanto-me com a ideia de a desgraça poder ter o mais insuspeito e suave de todos os rostos.

14.5.20

Noto, com alívio, que começam a abrir os olhos aqueles que, na solidez das suas casas, na concavidade dos seus sofás, na sua melancolia de chazinho e poesia, acreditaram que o coronavírus era uma oportunidade para sairmos melhores e regressarmos aos valores essenciais. A estufa de sentimentalidades onde se colheram as mais suculentas pieguices e de onde alguns conseguiram até arrancar argumentos de júbilo pela paz em que se sentiam encarcerados nas suas casas, começa finalmente a perder viço. Estar confortável com uma tragédia que outras maiores arrastará consigo por largo tempo, se não é egoísmo, há de ser ignorância, e se nem uma nem outra, só sobra religião. Depois, como é costume, ainda aparecem os entendidos com o seu portefólio de chavões, a lembrar que nas épocas de crise o espírito está recetivo como um ventre maduro e nele podem ser concebidas ideias magníficas, nunca antes nem de longe vislumbradas. Acredito, mas por cada ideia luminosa que desponte, que abra portas, reinvente caminhos, dê lucro e fôlego para recuperar, quantas ideias obscuras, de morte, violência e desalento se concebem?

12.5.20

Talvez porque eu tenha merecido, agindo com paciência e resignação, aceitando as nossas diferenças, relevando o que jamais devia ter condenado, a minha orquídea abriu-me finalmente três braços carregadinhos de pétalas brancas, aveludadas como pele de bebé. Para premiá-la, levei-a mais uma vez à janela e tirei-lhe o retrato, fazendo assim prova da sua abundância e autorizando-a seduzir quem andasse de passeio pela rua. Mas com o tempo de cara tão feia, o dorso da serra desaparecido atrás das nuvens, as folhas das árvores a suspirarem ao vento pela demora da primavera, as ruas tristonhas e o mundo cheio de preocupações, nada nem ninguém pareceu dispor-se a adorar beldades desabrochadas em ambiente doméstico, entre o calor humano, ignorantes das agruras da vida, sem mossas ou traumas na sua delicadeza. 
Depois do retrato, devolvi-a ao lugar do costume, que é no chão, à sombra de uma areca, ao lado de uma estante. Reconheço ser injusto da minha parte encafuar uma orquídea a pretexto de um castigo sobre a estupidez de outra, que – não me canso de repetir – morreu babadinha por um gato vadio. Mas compenso de outro modo. Por ter restaurado a minha fé na boa vontade das orquídeas, que eu julgava viverem para exclusiva satisfação dos próprios caprichos, merece a maior das honras: ser nomeada. Isabela. 


9.5.20

Entre todos os alívios que a existência humana reconhece e pelos quais suplica – nas maioria das vezes em silêncio por serem da esfera da intimidade – e que, quando alcançados, propiciam um delicioso afrouxamento dos nervos e dos músculos, uma suave inclinação da cabeça e aquele sorriso lânguido, de olhos revirados e a par de um longo suspiro, dou agora conta de mais um: tirar a máscara ao entrar em casa. Mas depois do deleite primeiro que é ter o ar fresco no rosto como se de um bem raro e de dura conquista se tratasse, depois de o inspirar profundamente, de ele subir limpo, novo, por cada uma das narinas, depois do gozo de o sentir dar a volta completa nos pulmões, sou tomada por aquela melancolia que segue o êxtase, aquele fumozinho que resta após o fogo se extinguir.
Olho a máscara, largada onde deverá purgar o mal de que é suspeita e que agora se impõe considerar o pior dos piores, atirando para um perigoso esquecimento tudo o mais que mói e mata com requintada malvadez, e penso: a que raio de mordaça, açaime ou amarra veio agora obrigar-se a humanidade! Numa hora destas, em que o mundo parecia girar sem grande novidade, as desigualdades já tão velhas, o círculo vicioso das guerras, o sangue coagulado nas fronteiras, os tronos côncavos dos mesmos corpos, o solo farto dos mesmos mortos, a miséria e a abundância chocando em encruzilhadas obscuras, a má distribuição da felicidade, a justiça a morar num barraco, a inteligência obrigada a prestar serviço à estupidez geração após geração, nós tão desgraçadamente acostumados a tudo como se fosse nada, e de repente, com este solavanco, coisa tão pouca como respirar em liberdade torna-se o mais difícil e delicado de todos os prazeres.

5.5.20

À porta dos correios:
– Fique descansada que assim que entrar ponho a máscara, tem é de ser com o nariz de fora senão abafo.

4.5.20

Em casa do meu vizinho, não sei por ação de que virose, as lógicas estão do avesso. Agora, é ela quem fala mais. De meia em meia hora, ó Vasco, caramba pá, uma voz melada e sem fé, como a da mãe depois de cem vezes ter mandado ao filho que arrumasse o quarto. A criatura, que de manhã à noite berrava descontente do mundo que lhe coube, só a espaços manifesta as suas iras inocentes e animais, a fome, o frio, o sono. E ele parece curado do mal da vitimização, foi-se a choraminguice por não ser reconhecido pelo empenho nas tarefas domésticas ou por não poder explicar até ao fim o que, quem sabe, talvez nem tenha explicação. Enfim, o cansaço vai mantendo em lume brando mágoas e ressentimentos, quanto mais não seja porque assim com as portas cerradas o risco de explosão aumenta e entre a trabalheira de apanhar estilhaços ou continuar em modo morno e preguiçoso, parece óbvia a escolha.
Mas ontem, pelo meio não sei de que conversa, ouvi-o de novo erguer a voz – que por ser naturalmente dócil não causa grande susto – e dizer tal qual:
- Estás sempre nhe-nhe-nhe, nhe-nhe-nhe, nhe-nhe-nhe, não te calas, pareces a minha mãe!
Julguei que dali fosse rebentar discussão mas só silêncio e a água a correr no meu lava-louça. E talvez porque ela o tenha ignorado, coisa que fere, acima de todas as outras, o ego esperto de um provocador, ele investiu com mais força:
- É que pareces mesmo a minha mãe, apre!
Nada. Mas à noitinha, a cama deles rangeu com um ritmo suave, amoroso, como há muito eu não ouvia.

29.4.20

Ah, a minha avó gostava dos bons rapazes. Parece que estou a ouvi-la a dizer, agradada, quase derretida, gosto muito de fulano, parece ser tão bom rapaz. Referia-se sempre a homens moderados, incapazes de uma desobediência, respeitadores absolutos de todas as formas de soberania, ordeiros, nunca um murro na mesa, nunca uma porta batida, jamais uma verdade que desarrumasse muito. Os bons rapazes sabem onde devem estar, quando devem falar, como devem ser prestáveis. Gentis com as senhoras, de trato fácil com os cavalheiros, disponíveis no trabalho. Haverá mais conveniente do que isto? E se alguém, por um acaso improvável, os ouvir levantar a voz é para dizer, tomados de muita razão, eu não admito a sicrano que me faça tal coisa. Mas admitem, por não terem alternativa ou por ela custar demasiado para a bolsa empobrecida da sua coragem. 
Eram esses, os bons rapazes, os que garantiam um bom casamento, dizia a minha avó com o espírito cheio de temores e o coração embalado pelo romantismo simples das telenovelas.

28.4.20

Para fazer de mim uma boa católica, a minha avó contava-me sobre o trágico destino de todos os que provocaram a ira de deus ou puseram em causa o seu bom nome. Na maioria das vezes contava na cozinha, enquanto descascava as batatas para a sopa ou estalava a cebola no azeite. Mas em certos dias fazia-o com mais gravidade, sentada na arca grande do hall, uma arca de madeira escura, maciça, toda trabalhada, onde envelheciam serviços de jantar e outras relíquias. Aí, na penumbra, enquanto eu baloiçava os pezinhos a dois palmos do chão, ela desfiava um rol de desgraças verídicas cujo rumo teria sido oposto se houvesse um bocadinho mais de temor a Deus, respeito a Jesus Cristo e devoção Nossa Senhora de Fátima. A única de que me lembro, porém, é a do homem que menosprezou o poder divino durante uma violenta trovoada e cerrou o punho, apontando-o aos céus e rugindo uma ameaça: “Ele que atire cá pra baixo que eu devolvo lá pra cima”. 
Ao contar isto a minha avó franzia-se toda com a emoção, gostava de enfatizar as histórias, trazê-las ao presente, fazer-me sentir o medo, a mágoa, a raiva que a consumiam. Eu, deslumbrada com tamanha ousadia, e depois? Ah, depois, só de lembrar arrepiava. Veio do céu uma coisinha, disparada como bala em direção ao homem. Mas que coisinha? Era um brilhante assim deste tamanho, e definia-o com o polegar e o indicador, o rosto muito impressionado como se tudo estivesse ali outra vez. O brilhante surgira de forma tão rápida e era tal o seu fulgor, que os que testemunharam – e não foram poucos – ficaram assombrados. E vendo como certo que deus era autor e remetente do fenómeno, redobraram o temor que já lhe tinham. E depois? Não souberam mais, porque correram todos a abrigar-se e cada um acendeu velas e rezou o quanto pôde debaixo do seu telhado. Mas o que era, afinal? E com os seus lábios rugosos, sempre trespassados de lamentos e tensões, a minha avó respondia: fosse o que fosse, era o castigo merecido. 

27.4.20

Saio para me sentar num banco da alameda com um livro que não tenho intenção de ler no momento. Noutros tempos, a esta mesma hora, era certo que começando eu a descer a rua a mulher do senhor Pereira a subiria, na volta do pão quente, com uma roca a fumegar e meia dúzia de docinhos para consolo do espírito domingueiro e preguiçoso. Se viesse sozinha, teria os sentidos vivos como um animal de mato e avançaria com a segurança que lhe falta quando o marido a traz ao dependuro num braço. Curiosa sobre o meu livro, recuaria para focar e, de testa franzida, do que é que trata? para logo, sem surpresa para mim, desdenhar. Por ter os horizontes embaçados e o hábito de julgar pela capa, voltaria a insinuar que tenho tendência para ler obscenidades. E com o olhar à roda pelas periferias da visão, como num filme de terror, deixaria escapar um suspiro, um lamento, um desabafo entredentes sobre as inconveniências desta vida. Depois, como se lhe faltasse tempo para essas coisas menores que são a literatura e o amor carnal, causas de enguiços quotidianos e acidentes familiares perfeitamente evitáveis, usaria o argumento dos muitos afazeres domésticos para se despedir a correr. E então eu, receando que alguma reviravolta acontecesse no mundo ou por qualquer castigo, mistério ou desgraça não voltássemos a ver-nos tão cedo, segurar-lhe-ia no braço a dizer: não, sente-se aí e conversamos um bocadinho.

26.4.20

Na sociedade como na intimidade, somos mais e melhores a obedecer do que a empreender. Um casal pode passar anos em desamor, acobardado de uma atitude digna e honesta, mas se alguém manda que se enclausure por tempo indeterminado, acata com rigor, firmeza e até romantismo. O sentido do dever é uma virtude com partes iguais de tristeza e conveniência. 

23.4.20

Está tudo tão quieto que até à bravura deu sono. Não vibra mais por aí a energia do grande exército de salvação do mundo que nos pediram para ser. Afrouxou a bandeira do altruísmo e do sacrifício, desesperam agora os que mais firmes pareciam no isolamento. Era tudo magnânimo, intenso, apaixonante, enquanto se aplaudiam deuses e se culpavam bestas. O inimigo não era só um vírus, era um partido, um vizinho que não amparou a tosse com o braço, um velho que saiu para uma volta ao quarteirão por não ter jardim, varanda ou companhia e que ninguém soube compreender.
Agora que a areia vai assentando no fundo das águas, começará a transparecer o saldo real de tudo isto. E à tona vem a espuma de sempre. 

20.4.20

Tal como previ, culminou em desastre o arranjo que ontem tentei dar às minhas unhas. Tenho mãos miúdas, com dedos tão finos que mal seguram anéis, mas nem por isso talhadas para requisitos de minúcia e paciência. Em pequena, davam-me náuseas e dor de barriga as aulas de trabalhos manuais, disciplina que maculava o brio da minha pauta. Os meus colegas faziam delicadas peças de madeira, belíssimas tapeçarias de arraiolos e fada-do-lar, esculturas cerâmicas que as mamãs ostentavam no hall das suas casas e a mim, nunca mais me esqueço, um dia a professora cheia de pena, a ver se ainda era possível salvar-me: ó querida, só se tentares fazer um alguidarzinho de barro. Que miséria. 
Se a minha mãe ainda por cá estivesse e visse hoje o espetáculo destas unhas, a lembrar os primeiros ensaios com guache em pré-escola, havia de me dar consolo: pronto, não se pode ter jeito para tudo. Eu, mais apaziguada no seu colo, e para justificar as carradas de papel que sempre me disponibilizou e gastei sem moderação, responderia, como se isso de alguma coisa me redimisse: ao menos escrevo, não é? E ela, com a complacência do amor materno, que por natureza distorce e é habituado a fantasiar generosamente, sim, coisas muito lindas, coisas muito lindas.

18.4.20

Cansei-me das linhas de montagem de novidades sobre o coronavírus, dos diários da quarentena, da futurologia de trazer por casa e dos lugares-comuns em torno do regresso às coisas simples. Reduzi drasticamente a já escassa lista de blogs que lia e atravesso na diagonal os títulos das notícias. A vida através das janelas tecnológicas ou outras com que se remedeie o isolamento está enfadonha. A bondadezinha tornou-se um ensaio demasiado fácil e com figurino já encardido. A melancolia cheira a bolor. Os sermões moralistas, as análises e psicanálises de autoria diversa e ilegítima fazem rir nuns dias, noutros fazem bufar. As teses científicas tornaram-se produtos de mascar e deitar fora, com validade suspeita e de curto prazo. E a imprensa vai aproveitando para nos injetar veneno em doses reforçadas porque sabe que o medo abre todas as costuras da razão e permeabiliza os espíritos. 
Sou grata aos que, no meio disto tudo, conseguem ter a mente desperta e fora do carreiro. É com esses que aproveito para respirar fundo e fresco porque, como é fácil notar, também eu pouco digo que valha. 

14.4.20

Mais perdido está quem renega o passado do que quem não vislumbra um futuro. Porque, em todo o caso, não existe futuro algum que se possa vislumbrar. Planos e intenções definem o passo que damos, jamais revelarão o que vem depois da curva ou está atrás da montanha. Só a memória nos localiza absolutamente, nos dá o ponto a partir de onde sabemos que temos de avançar e que é o nosso chão, a nossa paisagem, a nossa perspetiva. 
Por isso, tão perigoso como viver preso ao passado é desejar esquecê-lo.

(esta manhã pasmei ao ouvir as previsões futuristas de Michio Kaku, o físico. Da possibilidade de fotografarmos os nossos sonhos ao acordar, até ao scanner de uso doméstico que com dez anos de antecedência nos avisará de um cancro, ele pode enganar-se em tudo se o mundo sofrer revés ou entretanto implodir. Facto, realidade, detalhe quase poético no meio disto tudo, era a bengala em que se apoiava quando subiu ao palco do auditório e em nenhum momento largou)

*post de 2015, que me pareceu justo repescar

13.4.20

Esta noite vi-me no caos da sala de espera de um hospital, mas por nada sequer parecido com o que agora agita o mundo. Fui fazer um exame de diagnóstico para confirmação de uma suspeita terrível, capaz de me reduzir a cadáver em meia dúzia de meses. Durante a espera imaginei, até quase me falharem os sentidos, o horror que viveria nas horas seguintes e do qual já previamente me informara: uma pinça de grandes dimensões seria introduzida pela minha boca de modo a arrancar-me pedaços de tecido da laringe a sangue frio. Para me tranquilizar não contaria senão com a delicadeza e a benevolência do médico responsável. Pouco antes do exame fui ao bar pedir qualquer coisa doce que me devolvesse os sentidos e a presença de espírito, porque nem a respirar conforme o ensinamento dos antigos me livrara da sensação de pânico. A senhora que servia torradas e galões ao balcão, de avental e mãos sapudas, oleosas e rosadas, negou-se a vender-me o que quer que fosse. Com o argumento de que era chegada a minha vez, despachou-me para dentro da sala de exames, trocou o avental por uma bata, calçou as luvas e tirou a pinça gigante da gaveta.
Acordei em sobressalto, precisamente à hora em que a angústia costuma sair da toca com as garras todas de fora para mostrar o negro pavor de existir aos espíritos insones. E foi difícil afugentar a ideia de que um perigo marinava em silêncio na minha garganta.

12.4.20

Ao soar a chegada do compasso pascal, alinhávamo-nos todos ao cimo das escadas. Pais, avós, tios, primos, irmãos, num perfeito equilíbrio de poderes, ideias e idades, convergindo no instante da suprema reverência ao beijar o crucificado. Para além da vontade sincera que eu tinha de fazer jus àquela causa divina de sacrifício, dor e abnegação – descartada mal entrei na adolescência – o que lembro com mais vivacidade é o cheiro a álcool etílico. Num tempo em que misérias, doenças e bizarrias do outro mundo ainda dominavam os enredos da província, o hálito desinfetado de Cristo era uma garantia. Permitia o beijo em total devoção, de olhos fechados, à confiança, pouco importando quantos outros antes haviam feito igual, que beiços ali tinham pousado, que vidas microscópicas embarcavam naquela cruz para aportar na próxima boca. Enfim, a verdadeira comunhão. Pese embora o carinho e o respeito com que lembro este ritual, senti algum alívio quando me vi livre dele, lá pelos finais da minha infância. Já a mãe da rapariga da papelaria, que continua sem acatar a ordem de confinamento absoluto, chora-se de este ano não poder ter essa graça, nem com a salvaguarda do álcool etílico. Atrás do balcão, encostada ao canto como num castigo, de boca e nariz enterrados na gola do casaco, esconjura o padre Gabriel por se submeter a esta embrulhada sem tugir nem mugir. A quem serve ele, afinal? Não é a deus? Acaso deus mandou-lhe que cancelasse alguma coisa? De facto, não. Não consta que deus tenha dado essa ou outra instrução qualquer. Aliás, onde está ele senão na resposta que nunca chega, no consolo que nunca basta, na casa onde nunca se consegue viver em paz? 

10.4.20

Notei que era falado, mas como não tenho televisão ignoro até que ponto e com que argumento Rodrigo Guedes de Carvalho a certa altura se tornou o guia espiritual dos portugueses. Diz que fez vibrar as cordas sensíveis dos corações lusos e que se dirigiu à nação com aquele paternalismo misto de amor e firmeza que se usa para educar no caminho certo e que até os filhos insurretos ou levianos costumam acatar se lhes faltar o chão e a mesada. Enfim, precisamos destas sentimentalidades como de pão para a boca sempre que estamos no espaço breve e branco do tudo ou nada, suspensos, de mãos atadas, à espera do socorro, com medo que nos falhe a confiança, sobrevenha de novo a pequenez e sejamos outra vez a pedra pela encosta abaixo, a estatelar-se no aquém que deus nos reservou. 

9.4.20

Da janela da cozinha vejo o ecoponto a tornar-se um lugar cada vez mais concorrido. Os automóveis encostam, abrem as malas e vão largando pilhas de excessos domésticos: caixas e caixotes, capas e pastas, brinquedos, sacos de roupa, mobiliário pequeno, abajures, molduras e uma série de quinquilharia que ao longe não distingo. É extraordinário o que há de sobra e inutilidade no topo dos armários, no fundo das gavetas, debaixo das camas, na sombra húmida das arrecadações. E tanta gente a realizar agora o que não faz falta, nem vale guardar, nem justifica o espaço que ocupa, o pó que acumula ou a energia que gasta. Eu tenho medo de qualquer coisa parecida: começar a notar, com clareza e sem ruído, aqueles cuja ausência afinal não cava no meu peito a saudade que eu previa. 

7.4.20

As mãos do mais velho escaparam à herança da triste falta de jeito com que nasceram as minhas. Tem-nas tão firmes a dominar bichos de grande porte como delicadas e elegantes na caligrafia, expressivas em danças e acordes, pacientes a desfazer os nós dos meus fios de bijuteria, ardilosas na manipulação da trajetória da bola. O que há de correr mal se lhes atribuir a responsabilidade de me cortar o cabelo, que já vai para lá do meio das costas?

6.4.20

Espera. Deixa-me acabar. Tu não me deixas falar, caramba! 
É o meu vizinho para a mulher, exasperado. Ninguém previu este inferno na assinatura do contrato. Era na saúde e na doença, sim, mas sem contar que havia de dar-se a pandemia e teriam de se bastar confinados aos metros quadrados que sonharam juntos, sem paliativos ou saídas de emergência. O amor cura tudo, hão de ter ouvido. Mas se adoece ele, de onde vem a cura ninguém revelou. Antes, ainda se consolavam a cada quinze dias, ela a gemer monocórdica, ele a resfolegar na escalada até se dar como morto com um risinho asténico, púbere. Agora, assim que adormecem a criatura, lavam a roupa suja mas como não se deixam falar e urge sempre a razão de um sobre a do outro, ao fim de algum tempo entregam ao silêncio a tarefa de desenlaçar o conflito. Fraca estratégia. Acabarão por tornar-se um casal vulgar, com flores na entrada da casa e mofo nas pregas dos lençóis. 

5.4.20

Enquanto esperamos pelo bolo mármore que cresce no forno, vamos auscultando a cadência da chuva e mastigamos, já doridos, a estrutura pastosa do tédio. Toda a casa está perfumada de chocolate e Lhasa, a desdeñosa, faz vibrar as suas mágoas de amor nas paredes da sala. Em dias como este, adiar todas as coisas da vida, renunciar à companhia dos outros, ficar longe dos entretenimentos e do bulício, não precisavam de ser uma ordem. Vê como a clausura e a melancolia se aparentam e como uma tão bem pode disfarçar a outra ou travestir-se dela ou por debaixo ocultar-se sem que ninguém desconfie.

2.4.20

Saio com o mais novo para a alameda, onde ele pode chutar a bola à vontade e queimar tudo o que tem comido. Sento-me num banco, mas nem abro o livro que trouxe. Fico a ver o quanto cresceu o meu menino de cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno, como amadurecem em harmonia e proporção as partes do corpo que tinha arredondadas e fofas, a barriguita, as mãos, as bochechas, como se afila o pescoço e ganham precisão os movimentos. Como, enfim, cada vez menos procura nos meus olhos o consentimento e o incentivo. O que nele invejo – pode invejar-se um filho sem levar castigo? – é a robustez do humor. Nada, sequer o golpe profundo da morte, a consciência do mal ou a sombra dos desastres, fez estremecer a visão generosa que tem do mundo. Corre pela alameda de braços abertos, cabeça levantada e olhos fechados, confiando que a paisagem se faz e refaz a cada passo seu para que nenhum mal lhe aconteça, nenhuma pedra o rasteire, nenhum muro se interponha, nenhum abismo se abra.