18.10.19

Abuso

De bom grado pousaria a mão sobre a tua carne viva e com a língua te estancaria o sangue se não fosse esta suspeita que tenho, tão clara, de que se um dia essas feridas tuas voltassem a abrir, na minha pele acabariam por doer.  

17.10.19

A boa maledicência

Por mais que embelezem, são cansativos aqueles que escrevem cheios de peninha e ternura por tudo, com abnegadas atenções sobre fracos e coitados, impingindo em entrelinhas a própria superioridade moral e dando ao mundo esmolas em parágrafos sentidos. Entre essa e outras formas de ser arrogante, prefiro outras, nomeadamente a maledicência. Ah, mas não a de vão de escada! Não a de escarro cuspido na soleira alheia, não a de sussurro ou a que, por preguiça, segue o atalho da vaga insinuação e da intriga. E muito menos a que, não tendo arte para ver mais fundo, se atiça só porque discorda e cai na armadilha das próprias emoções. Não. Eu gosto de ler maledicência de fôlego, bem nutrida, musculada, a que com dois golpes de sabre deixa o alvo nu e obrigado a contorcer-se para pagar com dignidade. Essa maledicência, que é da boa, que tem tempero, espessura e consequência – tanta falta faz para a reorganização do mundo! 

15.10.19

Luto

Contagem decrescente para o casamento do pai de Alicita. A rapariga da papelaria cumpre o seu quotidiano como se flutuasse, não sei se por efeito de tranquilizantes ou por ter descido àquela zona da dor onde os sentidos cedem à exaustão e a realidade se desmaterializa. Na papelaria, o ambiente é próximo do de um luto, fala-se com mil cuidados, paninhos quentes e deferências, não vá o coração da rapariga estalar e abrir-se todo numa enxurrada que ninguém consiga deter. Se não tens troco deixa estar, filha, passo cá depois. Até Marco, o instrutor do ginásio, entra com pezinhos de lã, mal levanta a cabeça para falar com ela, paga o jornal e retira-se num instante. Seria uma imperdoável vulgaridade da minha parte fazer uso deste pormenor para lembrar que a maioria dos homens tolera mal o sofrimento, não tem pulso para o olhar de frente e falta-lhe jeito para lamber feridas. Mas como hei de evitar um juízo que é verdadeiro? Talvez Marco tivesse interesse na rapariga da papelaria, sim, se cuidar das sensibilidades dela não fosse tarefa mais elaborada do que o levantamento de pesos ou a interpretação do Jornal de Notícias. Há mulheres que só atraem idiotas. De qualquer modo, também não sei o que se pode dizer que sirva de consolo à rapariga da papelaria. A primeira vez que perdi um amor para outra tinha quinze anos e fiquei numa tal desarrumação de corpo e espírito que julguei estar a bater às portas do inferno. A pouca idade justificou o equívoco. Quando voltaram a roubar-me um grande amor, a outra foi a morte, mas isso, confesso, tem outra dignidade. Amores interrompidos pela morte, ninguém pode nada contra eles. Ganham o mais cobiçado de todos os selos, aquele pelo qual os tontos se dispõem a fazer juras e a hipotecar casas e a varrer as traições para debaixo do tapete: o da eternidade.

12.10.19

*

O louco, o ingénuo e o humilde não têm possibilidade de se reconhecer como tal. Reconhecendo, deixariam de o ser. Portanto, alguém que se apresente ou classifique de uma destas formas, na maioria dos casos apenas pretende dignificar a sua voluntária, e certamente muito querida, condição de vítima.

11.10.19

A beleza

Anteontem, a rapariga da papelaria cobiçou sem pudor a beleza do mais velho e isso deu-me uma grande felicidade. Desprezo os pensamentos piegas sobre a importância superior do que não se vê com os olhos. E parecem-me falsas ou adolescentes as pessoas que os professam. Tudo o que importa, alegra, fere, mata ou concebe tem traços sólidos, visíveis, exalta-se e vibra sob a luz diurna, que é a que não vela nem distorce. Em tempos tive uma amiga muito convencida, quando o dia lhe corria mal ia para a frente do espelho, fazia meia dúzia de poses sensuais e, com manifesto desdém por todas as causas do seu sofrimento, proclamava: o que me vale é que eu sou gira. Na altura, isto soava-me estúpido, porque eu tinha outra idade, era sentimental e gostava de pensar que o mundo tinha importâncias superiores às que se veem e que só eu as alcançava. Hoje penso oposto. Quando tudo o que não está à vista é incerto, vago e movediço, quando as horas são sombrias, quando o pavor de existir imagina abismos e tolhe os passos, a beleza está e é, com a sua objetividade, sem dúvida, generosa, democrática, pedindo nenhum sacrifício, não mais do que uma atenção dos olhos, uma nesga de espírito sensível. Sobrevive sempre à desolação do mundo e quantas vezes daí emerge. Quando reparo nela, rebrilhando discretamente entre o caos e as ruínas, creio absolutamente em deus.

9.10.19

Parabéns

Os dez segundos de felicidade que, mais ou menos de dois em dois meses, o meu vizinho consegue proporcionar à mulher, na verdade são uma vitória maior para ele do que para ela.

8.10.19

A outra face

Creio que há ocasiões na vida de todas as pessoas em que os alicerces que sustêm os seus atos e inspiram os seus discursos sofrem abalo e, se não ruírem de todo, pelo menos levam desbaste. É fácil ter convicções quando há firmeza e linearidade no terreno ou quando se dá o acaso de os resultados corroborarem a filosofia apregoada. Porém, é sabido que na hora em que o pé falha ou a luz encandeia de repente ou a estrada desvia para vala ou precipício, poucas dessas convicções revelam proveito e outras novas aparecem. Não se trata de instabilidade, incoerência ou falta de caráter. É que a verdade é reversível como um casaco de duas faces e felizes aqueles que reconhecem quando está na hora de o virar.
Em tudo isto pensei depois de encontrar o senhor Pereira na rua, domingo de manhã, a passear Joaquim no carrinho. De cabeça levantada como um rei que se apossa de novos territórios e lançando a mão sem jeito nem delicadeza para a manta que o neto empurrava com alegre movimento dos pezinhos, apresentou-se festivo como na generalidade dos dias. Ao cumprimentar-me desfez-se em palavras de adoração pelo pequeno príncipe, enquanto o queixo me caía de o ver naquele papel de cuidador, trapalhão mas disposto ao êxito. Presumi que por perto estivesse a mulher ou a imperatriz e ele apenas fosse uns metros adiante. Mas nada. Joaquim seguia na total e exclusiva dependência dos cuidados do avô e qualquer um preocupado com o bem-estar dos inocentes se inquietaria como eu. 
– Está sozinho com o bebé?
Mais por entusiasmo do que para esclarecer as minhas dúvidas, contou-me que, pela primeira vez, a imperatriz entregara Joaquim à responsabilidade do pai por um fim de semana inteiro. Se primeiro o pai rejubilou, logo foi tomado pelo pânico de não ser capaz de tratar da cria com o mesmo brio que usou na sua conceção. Ora a imperatriz, que não é conhecida por voltar atrás nas decisões anunciadas, encostou-o à parede: era ou não era o pai? É que, caso decidisse poupar-se às dificuldades, era escusado aparecer mais tarde para colher louros, jogar à bola ou oferecer lambarices. Está bem, está bem, terá dito o palerma. De quem chega aos trinta e alguns anos incapaz de fazer o que come e de lavar o que suja não se pode esperar muito, mas a imperatriz confiou. No entanto, por via das dúvidas e imposição do senhor Pereira, Joaquim e o seu pai frouxo rumaram ao mais seguro dos abrigos. 
– Vieram ontem de manhã os dois cá para casa e vão embora logo depois do jantar. De maneiras que o meu filho está a dormir, coitado, não pregou olho a noite toda com a choradeira, que o raça do catraio tem a personalidade dos Pereiras. A minha mulher já está a preparar uma sopinha de legumes sem sal para o almoço e eu vim passeá-lo que o tempo está bom para isso. 
Sabe qualquer um – e quem não sabe imagina sem esforço – que o senhor Pereira nunca passeou sozinho os filhos bebés e mesmo com as netas não assumiu responsabilidade maior do que a de lhes segurar a mãozita para atravessar ruas. Um homem é desajeitado para certas formas de cuidar, terá ele dito com o aplauso da mulher. Mas ei-lo agora, entusiasmado como uma criancinha, acabado de vir ao mundo, limpo do pó, das mesuras, dos tiques e encenações, enfim, estreando a outra face do casaco.

7.10.19

Eka pada rajakapotasana

Levanto o tronco do chão, dobro a perna de trás e, ao agarrar o pé, um fio de dor aguda aperta-me todas as curvas e cavas do corpo. Absolutamente firme, heroica, procurando respirar conforme os ensinamentos, abro os olhos para espreitar a rapariga acidentada que não pode mover-se sem ajuda. Sentada no zafu, exercita-se com a mais generosa e exigente de todas as práticas, a única que lhe é possível: a contemplação. Como as crianças que acreditam que não são vistas só porque não estão a ver, fecho novamente os olhos e desejo que sob a atenção dela, à luz do seu senso da desgraça, ao lado daquele corpo em grave incumprimento, não pareça indigna e menor a minha dor.

3.10.19

Cola e cuspo

Não imaginas o custo de cada linha que fecho, boa ou má. Não se trata de agonia existencial ou criativa, manias dessas não tenho. E a angústia da página em branco, oh!, é coisa de preguiçosos, que esperam do céu a voz dos deuses com a frase já composta e definida. Eu escrevo para comer e no sustento investe-se o corpo e o cérebro sem pieguice. Por isso o que sinto às vezes é o desespero da função que não se cumpre, é o nervo já dorido do esforço, a tensão do arco de onde as palavras caem moles, insuficientes, por dias e dias a fio. Indisposta, dou comigo a vasculhar os destroços, a ver o que posso salvar e se, com cola ou cuspo, forjo alguma coisa capaz de acertar no alvo.

2.10.19

Os monstros

Não acordes os monstros de repente. Nunca sabemos com que feição se erguem, que estragos estão dispostos a causar, com que gesto varrerão a tranquilidade dos dias. Há quem tenha feito correr sangue por acordá-los em sobressalto, no olho de uma tempestade ou no cúmulo de uma discórdia. Os monstros acordam-se com pinças, apenas por alguns minutos e em dias de sol para que possam estirar-se e arejar. Engana-lhes a fome com papas, facilidades, dá-lhes as sobras inofensivas do dia. Não os atices com dúvidas nem os engordes com pensamentos complexos ou obscuros, tampouco os enerves forçando-os a mastigar. Mantém-nos esquecidos do peso mortal da sua mandíbula. Em horas livres leva-os à rua, cobre-os de texturas macias, tons quentes de outono, brilhos e outras coisas em uso que possas trocar se te cansares. Evita o silêncio, pois eles são como certos bebés caprichosos que desatinam com a falta de cadências, barulhos e rotinas. Diante dos seus olhos mortiços, falsamente desocupados da vida, impõe-lhes a realidade com geometria rigorosa e cores sólidas, sem espaços dúbios. Finalmente, deixa-os em repouso, marinando ao jantar em vinho tinto. E se te perguntarem sobre eles, levanta o copo, brinda às magnificências da vida, diz dessas coisas pré-fabricadas, cheias de sentimentos vulgares tomados de empréstimo às letras das canções – e engole-os. 

26.9.19

Direção poente–nascente

A estudante trajada e o homem que podia ser pai dela estão sozinhos na paragem de autocarro em frente à igreja, direção poente–nascente. Ele pergunta-lhe qualquer coisa, ela inclina-se, parece não ter percebido à primeira, o homem provavelmente repete, sorri, ela recua e olha para o lado oposto. Estou parada um pouco antes do cruzamento onde todos os dias, à mesma hora, o trânsito empasta como sangue doente. Pela janela do carro assisto à cena. O homem volta a mexer os lábios e sorri do mesmo modo, esse modo bichoso, alarve, cujo diagnóstico qualquer mulher faz num relance. 

(Talvez este homem também diga aos seus filhos, se os tiver, a vida é injusta, iniciando-os na arte da desculpabilização. E faz como vires fazer, lição número dois, práticas de manutenção da órbita do mundo. E obedece a quem manda, introdução à cobardia e ao consentimento. Assim foi ensinado, assim ensina. E depois, intimamente desacertado, falido, com medo, vaza à sombra, nas paragens de autocarro ou nas horas obscuras, de modo clandestino, as ganas que não lhe foram consentidas.)

Continua a murmurar coisas e a rir de lado enquanto mede o corpo dela sem disfarçar, especialmente os tornozelos. A estudante descruza a perna, levanta-se, puxa a saia para baixo, faz de conta que espreita a ver se o autocarro está perto. Nem sinal. É morena, tem uma estrutura firme, de mulher completa, ondas largas de cabelo pelos ombros, costas e peito. O homem levanta-se também, cobiça-lhe com avidez animal as pernas, o queixo descai-lhe, revela a ponta da língua morta e descorada. Quando o autocarro chegar, terão de embarcar juntos na direção poente–nascente, felizmente oposta àquela em que sigo, aliviada, assim que o trânsito começa a escoar.

25.9.19

Adaptação

Esses que apresentam aos filhos e netos, como pronta e inevitável, a ideia de que a vida é injusta – chavão recorrente para desculpar a própria inércia –, com que legitimidade os poderão censurar pelas injustiças que eles acabarão por cometer?

23.9.19

*

Envergonho-me de todas as vezes em que levantei a voz sem ter razão, mas talvez me envergonhe ainda mais daquelas em que, por ter razão, escusava de a levantar. Fazendo as contas, do que em absoluto devo envergonhar-me é de, pelo visto, ter mais voz do que razão.

20.9.19

Ameaça

Quando eu morrer, também hás de esquecer as minhas imperfeições. Ou dizer delas, finalmente!, que eram marcas legítimas e inofensivas de humanidade. Apagarás do mapa que tenho na palma da mão as trajetórias do fracasso e os becos sem saída. Desculparás a banalidade que sou com magníficos eufemismos e, no íntimo, é a redenção das tuas próprias faltas que buscarás no que disseres. Quando choramos um morto, é sempre por nós mesmos que choramos. Dirás orgulhosamente essas coisas saudosas, narcisistas e ridículas que se diz, levantando o cadáver como um troféu, éramos muito amigos, pensávamos da mesma maneira, uma ocasião jantámos na mesma mesa, tive a sorte de me cruzar com ela, fomos vizinhos, era uma amante extraordinária, aquele parágrafo era sobre mim, cedi-lhe uma cabeça de alho, sugeri-lhe um livro, chegámos a fazer férias na mesma praia. E depois eu ficarei bem onde me deixares, primeiro à porta da tua morada, bem à vista, e com o tempo na zona mais sombria e esquecida.
As coisas são mesmo assim e quem morre deve estar preparado para o clímax da sua grandeza, talvez por isso tanta pompa nas cerimónias, tanta nobreza nos caixões, tanto brio na vestimenta, tanto cuidado na pose do cadáver. É bom que saibas, porém, que não tenciono disponibilizar o corpo para culto e adoração, nem por um dia. Não te será dada oportunidade de elaborar maravilhas a meu respeito com o estranho que se sentar ao teu lado na capela ou com as velhas abnegadas que varrem folhas secas nos cemitérios. Estarei longe, tão longe quanto puder, tão longe quanto deus, a biologia ou a química me permitirem, por isso é melhor dizeres agora qualquer coisa que sossegue a minha alma e me faça feliz, que me sacuda culpas e penas dos ombros. Se alguma coisa de bom te ocorrer apenas depois da minha morte voltarei todas as noites, à hora do diabo, para te atormentar.

18.9.19

Uma velha muito velha

A mãe do senhor Pereira, uma velha muito velha, com uns olhos cinzentos miudinhos de rebordos sempre líquidos e sanguinolentos, sai do carro entregue às mãos do filho, muda e já sem poder confiar na estabilidade do próprio corpo. Sobre a sua resistência ao tempo, aos desgostos e às crises, há muitos palpites, mas a generalidade gravita em torno de duas teorias: boa genética e mau feitio. Deixemos de lado os que alegam a boa genética. Entre os que a acusam de um mau feitio capaz de espantar vírus, infeções e malignidades, está, naturalmente, a nora, que não reconhecemos em tal papel pois aqui só tem aparecido como mulher do senhor Pereira. É, porém, inerente à vida e a todas as suas lógicas o facto de não sermos uma coisa em absoluto mas antes várias e sempre por relação. No caso dela, isto que podia ser só filosofia é sobretudo evidência e talvez por isso eu nem me preocupe em nomeá-la. Mas se ser a mulher do senhor Pereira tem sido uma coisa levada com relativa facilidade, desde que não descure o jeito na cozinha, o básico na cama e certas maneiras na rua, ser a nora da mãe do senhor Pereira é, certamente, outra história. Episódios em concreto, desconheço e ela não os conta. Mas sei que a velha muito velha não foi sempre muda e dependente. Tempos houve em que aplicava a mesma autoridade grosseira e azeda nas nádegas do filho único, no pescoço das galinhas ou na face de qualquer insolente. E os olhinhos mansos, que agora parecem sempre prontos a chorar, eram faíscas de soberba. Há suspeitas de que tenha até sovado o marido. A própria velha, antes de chegar a muito velha, a isso se referiu uma ou duas vezes como coisa que tivesse feito a despachar, para a resolução de um enguiço quotidiano ou pela necessidade de tirar um obstáculo do caminho. 
Agora submissa e vergada como qualquer mortal, a velha muito velha olha para o senhor Pereira com a aflição de uma criança caída no fundo de um poço e o filho ampara-lhe os passos, com mil cuidados e mágoa nenhuma. Não há volta a dar. Por mais macio que aparente ser o fio, por mais lasso que seja o ponto, por mais vulgar que pareça o padrão, é sempre tensa e dura a trama onde a vida acontece.

15.9.19

Ambição desmedida

O amor, sempre a tentar imitar aos deuses a eternidade e às crianças a inocência, nem uma coisa nem outra faz em condições. Mais valia contentar-se naquilo em que realmente é exemplar: a desarrumar camas e a enriquecer espíritos. O resto é ambição que alcança de forma preguiçosa e muitas vezes falseada.

13.9.19

Ninhos

Sonho, às vezes, que há ninhos de ratos a corroer a estrutura da minha casa. Agem como térmitas, destruindo secretamente, cavando túneis e reproduzindo-se no interior das paredes. Só quando começam a aparecer manchas na pintura, danos nos cantos e o estuque a esboroar-se, é que mando chamar os entendidos. Dão meia dúzia de marteladas e a desgraça fica à vista. Os ratos, dezenas, centenas, abandonam o esconderijo entre os tijolos, os ferros e as tubagens, e espalham-se pela casa, correndo velozes e assustados para debaixo dos móveis, enfiando-se entre as almofadas dos sofás, trepando para cima das camas, sujos e com a feição diabólica das pragas. Uma cena medonha, que me faz despertar em sobressalto. Acendo a luz e não tem par o alívio que sinto ao ver a lisura assética das minhas paredes, a harmonia, a limpeza, o conforto, a segurança. É um privilégio quando a versão mais feliz é a realidade que temos. Triste, isso sim, é quando sonho com o retorno ao colo da minha mãe e ao acordar não há vestígio nem de um cheiro.

11.9.19

Figurino

A rapariga da papelaria vem com Alice da prova do vestidinho que ela usará para levar as alianças ao pai. A noiva, dizem, é caprichosa nos arranjos da cerimónia e quer a menina vestida de feição, submetida a um rigor estético cujos efeitos as fotografias e o vídeo poderão mais tarde atestar. Do alinhavo ao acabamento e incluindo os acessórios, Alice terá de obedecer a um conceito de inspiração outonal e à respetiva paleta de cores, não vá dar-se o caso de as luas e os deuses se aborrecerem com a desarmonia e lançarem tristezas infinitas sobre o casal.
Para Alice, tanto faz. Tem vindo a tornar-se uma menina encantadora, cheia de graça, e com a vantagem de ainda lhe faltar noção do que está a acontecer e de como a felicidade de uns pode causar tanto sofrimento a outros. A rapariga da papelaria faz o que só a generosidade materna pode: abstém-se de exprimir a sua dor para que a menina vá, feliz e de sorriso largo, cumprir o papel para o qual foi recrutada. Para entreter, conto-lhe do meu filho mais velho que aos quatro anos se sentou à porta da igreja, sóbrio e resistente como um penedo, recusando-se a levar as alianças aos padrinhos. Não foi uma birra gratuita, a bem dizer nem era propriamente uma birra no sentido ruidoso e exasperante do termo. Era uma manifestação silenciosa contra os sapatinhos de vela, a fazenda de padrão em espiga dos calções, o colarinho amaricado da camisa e toda uma série de costuras, asperezas e espartilhos. Ou entrava nu e descalço ou não entrava de todo. A coisa resolveu-se a bem, mas custou à noiva uma descarga de adrenalina de consequências que volta e meia ainda trazemos à conversa. A rapariga da papelaria, divertida com o meu relato, acredita que tal não acontecerá com Alice, já que a boda será ensaiada de modo a esclarecer dúvidas e prevenir enganos. Todos saberão ao que vão e como proceder. Esperemos que sim, penso.
Adiante. Alice dará então ao pai esta alegria e ajudará a futura madrasta a compor o figurino que, certamente, tem sido pensado ao detalhe ao longo de meses, juntamente com os menus, os arranjos florais e o design do bolo. Ora, faz ela muito bem em ocupar-se assim. Não dizem os entendidos que o casamento só funciona com muito trabalho e dedicação?

9.9.19

A questão das palhinhas

Anda muita gente agora empenhada em trocar as palhinhas de plástico pelas de bambu, vidro ou inox. Julgam mudar o mundo quando apenas mudam de fornecedor. Está muito bem, a economia não pode parar, os ecodesigners vão despontar como cogumelos, teremos novos ingredientes para o caldeirão do lifestyle, nas redes da vida cada um há de publicar a sua selfie com a palhinha de salvar o planeta e os amigos hão de comentar: és linda! pessoas como tu fazem a diferença! és uma inspiração para mim! E assim a Terra continuará a girar como sempre, na ilusão de um sobressalto que não aconteceu nem acontecerá.
O que me inquieta no meio disto tudo é que ninguém faça a pergunta que importa: salvo em caso de limitação física, qual é a necessidade de usar uma palhinha?

8.9.19

Esta fome

Buda refreia o entusiasmo juvenil com que me vê tirar as sandálias e entrar, lembrando-me o mais elementar dos seus ensinamentos: tudo é passageiro. E se essa ideia serve de consolo durante a tormenta, deverá também ser levada em conta em horas felizes. Oito da manhã, as janelas estão  abertas de par em par, o sol arde nos relevos despovoados do horizonte, cheira a vidas muito antigas, sedas guardadas e madeiras nobres, os rumores do bosque são de promessa e o vento vem enrolar-se todo no meu cabelo, desta vez mal sucedido na habitual tentativa de me desencaminhar. A única perturbação é o ronco quase chorado do meu estômago, que ainda não teve direito a consolação. Mas, enfim, também esta fome deverá ser passageira e se não for por eu comer há de ser quando eu morrer. 

6.9.19

Trabalho

Perguntam-me se medito e faço ioga com a intenção de viver a flutuar, de sorriso parvo e ombros relaxados como se nada disto me dissesse respeito. Quanta ignorância! É exatamente o oposto. Cada minuto que passo de cabeça para baixo, torcida ou equilibrada de modos impossíveis, cada hora em compassiva observação dos meus próprios pensamentos, ganho em consciência e verticalidade, aguço os sentidos e o raciocínio. As ideias florescem melhor, movo-me e respondo com mais precisão. Quero a minha espada sempre pronta, limpa e flexível, porque quando a desembainho não é para acertar ao lado.

4.9.19

Bicho

O senhor Pereira louva o ânimo com que a viúva cumprimenta e se presta ao galanteio. Desobrigada de satisfações – que o outro, Deus o guarde, não tem como pedir contas – ri para quem lhe apetece e até inclina o busto com um jeitinho garoto de modo a que se veja como ainda está bom o que anda por baixo da blusa.
– Esta senhora é formidável. For-mi-dá-vel! 
Diz ele, sem medir o entusiasmo. Balança nos calcanhares, como já sabemos, e ampara a virilidade com as mãos nos bolsos. A mulher acena com a cabeça a fazer que concorda e num relance, de nariz empinado, verifica o estado das próprias unhas. Tem o marido seguro, absolutamente dependente dos seus cuidados maternais e domésticos. Cala e consente, tanto lhe dá o que ele pensa das outras. Mas não nos iludamos, porque há sempre perigo no que em voz alta não se diz. A inveja é um bicho que morde em silêncio e a sorrir. 

3.9.19

Exercício

Agrada-me o novo estagiário. Fala pouco e tem nos olhos, em permanência, um sentimento de dúvida e interrogação. Usa papel e esferográfica. É poupado, abstém-se da tentação de adjetivar com banalidades e de explicar o que deve ser intuído. Além disso, não cai na asneira que tenho visto em tantos que é a de se apaixonarem por certas frases que criam, teimando em usá-las por verem nelas o próprio génio, mesmo que para nada sirvam ou que matem o propósito do texto. Por incrível que pareça a muitos, escrever também é um exercício contra a vaidade.

2.9.19

Atalho

O folheto do Grande Médium Josué, encaixado sob o limpa-para-brisas do meu carro, anuncia que todos os problemas têm solução, ipsis verbis, sem preocupações de originalidade. Esperteza publicitária esta, que joga com as filosofias baratas, as únicas que não podem desdizer-se mesmo por quem as desconsidere. Com qualquer velho chavão, cosido a direito e em linhas simples, faz-se uma capa quentinha que muito bem assenta aos ombros encolhidos. Uma verdade distinta – ou ao menos a sua possibilidade – exigiria sempre um esforço a que a dor, que é molenga e egocêntrica, raramente se dispõe. Ora, para quê andar às voltas no caminho se o Grande Médium Josué tem um atalho?

31.8.19

Cardiologia

Não digo um prémio nem um troféu. Não digo sequer louvores, poemas, rosas e muito menos um elogio fácil e piedoso. Mas, no mínimo, um coração de mãe que suporta sozinho a sua carga de sustos e aflições, que não divide a conta nem a culpa, merece acompanhamento gratuito, diário e vitalício de um cardiologista.

28.8.19

Órbita

Há instantes em que parece que deus, não arranjando mais com que se entreter para escapar à perpétua monotonia dos seus dias, dá um toquezinho no mundo com a biqueira do sapato. Daí vem depois esta estranheza da passagem do tempo, o fogo da terra a vibrar debaixo dos pés, a confusão entre luz e trevas, a lua sem domínio das marés. São precisas várias noites à deriva no vazio até que o mundo se encaixe numa nova órbita. 

27.8.19

Rainha

O que na dona Maria Isabel fascina não é o número de títulos acumulados nas ciências exatas e insuspeitas que explicam o universo. É a ousadia de ter fugido por amor ainda adolescente e o fracasso em que culminou a aventura. A generalidade das senhoras que frequenta aquele salão de cabeleireiro jamais fracassou. E isso, parecendo uma bênção, é a condição inerente à mediania. A dona Maria Isabel construiu a sua grandeza sobre o caráter mole e acobardado do garoto que por ingenuidade amou. Não o fez com intenção nem por oportunismo, é apenas a lógica natural de acertos, desacertos e compensações que se opera no desenrolar da vida. Hoje, adiantada na idade, mais rugosa e flácida do que qualquer outra senhora naquele salão, entra porém como uma rainha, proprietária absoluta de cada uma das pedras que lhe coroam os dedos e de cada uma das palavras com que remata todas as discórdias. Viu o que as outras não viram e levantando-se, sacudindo a poeira, afastando os destroços da sua prematura infelicidade, fez de si o que quis, sem obstáculos nem cobardes.

26.8.19

Ligado às máquinas

Troveja sobre a minha cabeça desde as sete da tarde e estou há mais de duas horas sem eletricidade. Quando tudo se apagou e se calaram os rumores da civilização, estava sozinha em casa, disse oh caraças ao escuro e às paredes, depois acendi a lanterna do telemóvel e esperei, com fé que a normalidade voltasse ao cabo de alguns segundos. Por via das dúvidas e para poupar a bateria, desliguei o computador onde estava a responder a um mail da minha irmã que, de qualquer modo, não poderia enviar devido à falha da internet. Fiquei quieta. Só meia hora depois concluí que talvez valesse a pena acender velas. Pus um castiçal no chão, junto ao sofá, duas velas grandes em cima da mesa da sala, outra no hall de entrada. Tinha a louça ainda por lavar e podia entreter-me com isso, caso estivesse – não estava – disposta a esfregar energicamente com água fria e detergente. Estendi-me no sofá, liguei-me à internet pelo telemóvel para passar o tempo, mas como as coincidências acontecem e nem sempre nos são favoráveis, pingou um aviso: terminou a internet que tem disponível. Responda SIM a este SMS e tenha mais 250 MB por 1,99. Para fazer um carregamento precisaria de acesso à internet ou de sair até uma atm. Porém, chovia a cântaros, a pé nem pensar, de carro seria obrigada a abrir o portão da garagem manualmente, coisa que creio nunca ter feito nesta casa e julgo só ser possível a quem tiver mais de um metro e setenta e cinco. Fui espreitar à janela. Ao redor, era como se um sono profundo tivesse embalado todas as coisas vivas e velado as inanimadas. Notei a ausência da vibração do frigorífico, da respiração funda do exaustor, de todos os roncos, assobios e zumbidos que deixámos de perceber porque os nossos ouvidos adoeceram. Nas cidades o silêncio pesa, é absoluto, surdo, incapacitante, opaco e triste. É o silêncio do abandono. Se fosse na casa grande, mesmo sem eletricidade sobraria o canto dos grilos, o rumor furtivo dos rastejantes na vinha, as conversas nas quintas da encosta a levante, o vento a comichar os ramos das laranjeiras, a música de um bailarico qualquer na freguesia mais próxima. Mas aqui é como se a vida estivesse suspensa.
Conformo-me, vou buscar um caderno e uma esferográfica, abro os estores para ver os relâmpagos, sento-me no chão, de pernas cruzadas, junto ao castiçal. Espero. Quando a eletricidade regressar, há de notar-se, haverá um ronco súbito, vários apitos miúdos, algum burburinho de júbilo nas casas do lado. Será mais ou menos como se um animal voltasse da morte com um solavanco e, ligado às máquinas, retomasse a sua respiração doente e difícil.

(ontem à noite)

23.8.19

Pés-de-chumbo

A vida, que tem ritmos e exigências para um tango complexo, combativo e apaixonado, cheio de drama, melancolia e sensualidade, há quem consiga dançá-la ao jeito dos slows nas festas de garagem: um tédio que vai valendo pelos encostos e apalpões às escuras. 

21.8.19

Esperanças

Dez passos adiante de mim vai a imperatriz com o filho aninhado no sling. Atiçada pelo vento, a cabeleira de fogo crepita sob a luz de agosto e a saia, que é de florinhas vermelhas, vai entrando também na dança com leveza e inocência. Não há mal. Os ventos podem revirar tudo à imperatriz, mas os pés, muito à fresca, quase descalços, vão tão firmes no caminho que ela não perderá nem rumo nem equilíbrio. Entrincheirado no corpo da mãe, Joaquim palra com uma entoação de festa e nós, que assistimos a isto e já sabemos que a vida nem sempre é uma celebração – nem para esta cria tão bem-vinda e amada – sentimos uma saudade tosca, cheia de arestas e farpas, de todas as coisas que pareciam prometidas e jamais se cumpriram. Deus entrega-nos muitas vezes na porta errada, que tem batentes de ouro mas abre para o precipício.
Nas veias da imperatriz, porém, ainda há restos da hormona das esperanças e de certeza que nenhum receio ou má memória ensombram as horas passadas com Joaquim. Entendem-se desde o útero, liga-os o amor primordial, que é de sangue e sobrevivência. Aos guinchinhos dele, ela responde com frases de estímulo e beijos na bochecha e dá-lhe razão em tudo o que ele exprime. Aos olhos de qualquer mortal que desconheça ou já tenha esquecido as miudezas amorosas que os bebés inspiram, a imperatriz parece uma tonta. E é verdade: nós, mães, somos umas tontas. Mas todas as outras formas de ser tonta que existem à disposição ou são demasiado pobres ou passam demasiado rápido. 

18.8.19

Uma mulher como ela

Compreendo se a preferires. A melancolia dela é dócil e fresquinha, põe-se à janela a deitar o olho ao mundo, a acenar a quem passa, a importar-se e a sentir muito. Não é uma melancolia como a minha, que vive nos fundos desde o dia em que nasci, cheira a mofo e quando vem à luz do dia é para ser sacudida para cima dos outros como um velho tapete. Com ela estás seguro. Nem o barro dos teus pés nem o fio débil do teu argumento serão desmascarados. Uma mulher como ela nada mais pode contra um homem além de bater nele as suas ancas e, no fim, dar-lhe um empurrão suave a dizer vai-te lavar.

16.8.19

Cicatrizes

O tempo de espera na fila, gastei-o a admirar a cicatriz que um rapazinho adolescente tinha no antebraço. Um itinerário espesso, texturado, desde a parte interna do cotovelo até ao pulso, simetricamente pontilhado de ambos os lados. Por mais de quinze minutos estive a deslumbrar-me com aquela marca indisfarçável, semelhante ao corpo de um diplópode, que talvez a mãe beije e, um dia, as amantes venham a beijar também com a ternura e a gratidão que sobram depois do êxtase. Porque toda a gente na fila tinha os olhos amarrados aos telemóveis pude reparar nos detalhes sem parecer mal, imaginando na origem da cicatriz histórias que ao diabo não lembrariam e que aos leitores poderiam causar nojo. 
Também tenho uma cicatriz em lugar muito exposto, mas sem aviso prévio ninguém dá por ela. Tive sorte. Depois de me decepar e remexer a minha lógica interna, ameaçando nervos de delicada responsabilidade, o cirurgião costurou tudo de modo a não deixar a prova do crime. De dois em dois dias, quando eu ia para o curativo, as enfermeiras não escondiam o fascínio: que belíssimo trabalho! Algumas, ao virarem costas para despejar as gazes e as luvas no lixo, vazavam o desabafo com uma languidez muito suspeita: o doutor Filipe sempre teve umas mãozinhas divinas. E sobre as mãos do doutor Filipe eu imaginava histórias que seriam tão do agrado do diabo como, certamente, dos leitores.

Como os bebés

Quando me perguntou a profissão, o homem que meteu conversa comigo na marginal a pretexto da minha "passada perfeita" disse o que todos dizem: ah, isso deve ser tão giro. Pouco importa com quem eu esteja a conversar, a esteticista, o funcionário das finanças, o médico de família, a criancinha, o velho pasmado, o bronco, o cavalheiro, todos respondem igual: ah, isso deve ser tão giro. Os mais emotivos ainda suspiram por acaso era uma coisa que eu gostava de experimentar. E os tontos querem saber como é que nascem as ideias. Vêm de Paris, já prontas, como os bebés. Que giro.
Sei que os há também a dizê-lo com intenção de diminuir. Tratar a profissão dos outros como se fosse brincadeira é, para muitos, a única forma de valorizarem a sua infeliz carga de trabalhos. Assim foi com o homem desta manhã. Apesar de eu não ter perguntado da profissão dele, logo se adiantou, depois de saber da minha, a queixar-se das suas próprias obrigações, títulos e responsabilidades. Ao invés de me perturbarem, estes comportamentos enchem-me de certezas e orgulho. Podendo escolher, tendo tido o privilégio de escolher, considero um sinal de inteligência conseguir que me paguem para me divertir.

12.8.19

Cortina púrpura

Voltas sempre, diz-me o sorriso de Buda quando me sento sobre os calcanhares. Sim, é minha vontade manter esta relação de convívio e simpatia, ainda que sejamos opostos num ponto sensível: no que diz respeito à natureza original do ser, Buda acredita na bondade que é obscurecida, eu acredito na selvajaria que é dominada. Ora, por tão irrelevante oposição eu jamais me afastaria. E digo irrelevante não por menosprezo, mas porque admito que nenhum de nós se dará ao trabalho de teimar no que tem por condição manter-se ignorado. Portanto, cismo de aqui estar – privada de outros prazeres sem consequência que facilmente se sacodem das costas e angariam leitores em número que justifica contabilidade organizada – porque ainda tenho perguntas. Outras. E eu, que certamente falhei em muitos empreendimentos nesta vida, nunca falhei, nem falharei, uma única oportunidade de fazer perguntas. Deduzo que Buda aceita a minha presença nestes moldes, habituou-se a ver-me chegar com vícios, reservas e condições e sair convencida de que a minha natureza é tão simples e desinteressada como a do pardalito que ignora a própria mortalidade. De resto, sabe que venho aqui por disciplina, não por desespero. Tomo as emoções como o mais eficiente de todos os combustíveis, mas alto lá com delírios e desvarios, menos ainda adulações ou rancores. Acabar pendurada no abismo por um desses fios encerados da paixão é o menos provável dos meus destinos. Está bem, está, parece dizer ele através da cortina púrpura que o vento desassossega. 

11.8.19

Amplitude

Esta noite sonhei contigo. À distância, pareceste-me com bom ar, mas quando cheguei perto notei que exalavas o odor seco e azedo dos velhos, que se agarra às roupas, amarelece o avesso das costuras, anuncia o preâmbulo da decomposição. Perguntei-te se estavas bem e tu ah, lindamente, com um gesto teatral e um riso de boca toda aberta. Mentias, portanto. As mentiras tornam-nos sempre enfáticos, excessivos como a maquilhagem dos atores. Só a verdade pode dar-se ao luxo de ser sóbria e despojada, até vive na sombra se lhe aprouver e ninguém a vê a não ser que desarrume tudo. Antes de acordar, ainda pousei à pressa a cabeça no teu peito e trouxe comigo, por toda a manhã, a memória da sua generosa amplitude.

9.8.19

Desilusões

A minha maior fonte de desilusões é a memória. Desde que deixei de estudar, a sua utilidade resume-se a apanhar mentiras e contradições nas pessoas que me rodeiam. Quase sempre faço de conta, sorrio e escuto como se me dessem novidade e, com efeito, dão, por ser relato rigorosamente oposto ao que me deram na véspera ou vinte anos antes. Preferia não lembrar e, assim, não notar a mentira. Sobretudo quando vem da boca daqueles por quem ainda me sobra um resto de ternura. É que a ternura, quando não acompanhada de admiração ou amor forte, está sempre a um passo de resvalar para a piedade. 

7.8.19

Armadilha

Há histórias das quais não fazes parte. Quando for o caso, cala-te. Reserva-te para o prazer da contemplação, aceita, aprende. Não é por ti aquele verso, não é tua a voz que o narrador ouviu em sonhos, não é teu o vulto belo que o assombra e cativa, nem sobre ti a virtude exaltada. Dá repouso a essa busca por sinais, convergências, espelhos, entrelinhas. Ajusta a tua importância, veste-a com o tamanho que tem, recua para onde possas ver mais e melhor. E acredita que é privilégio maior ser leitor do que viver na sedução armadilhada de um enredo. 

6.8.19

Castelo de cartas

A última carta, enfim, colocada. O instante da realização, em que todas as linhas se acertam e a tensão de umas é o repouso de outras. Nada a mais, nada a menos. Apenas isto e o universo inteiro em volta, com o vento a dormir lá longe. A mais magnética e assustadora de todas as construções, em cuja permanência o tolo crê. Eis a síntese da felicidade, da delicadeza com que respira e da sua ruína iminente.

5.8.19

Dívida

Fui ao centro buscar o relógio de mesa antigo que deixei para consertar há mais de um mês. Como o velho ourives demorou a encontrá-lo no caos da oficina, receei que, por furto ou descuido, tivesse ido parar a mãos erradas. Enquanto ele procurava, cheio de tremuras e esconjurando em sussurro os obstáculos do caminho, a minha imaginação, que raramente trabalha a meu favor, concebia destinos trágicos para a relíquia: uma feira de velharias, a troca por opiáceos, a venda apressada online, uma cornija de lareira ordinária vigiada pelo menino da lágrima. Não, já não está cá, dizia o velho ourives. Enredada nos pesadelos possíveis, roguei-me mil pragas por ter confiado nele. Afinal, a peça sem funcionar bastava-me, dispenso as contagens do tempo e os seus efeitos colaterais. 
Durante a espera, toda a eternidade me retorcia os músculos e pesava sobre as articulações. Por isso quando o velho ourives finalmente encontrou o relógio e o ergueu com ambas as mãos ao jeito de um troféu, o alívio deu-se com um espasmo. Levou-me couro e cabelo pelo conserto e antes de eu sair alertou, supondo a minha ignorância: cuidado, relógios de mesa há muitos, mas nenhum como esse. A menina é uma privilegiada. Pobre ourives, que sabe o valor da relíquia mas não o seu custo. O relógio só me pertence porque muitas pessoas morreram. Pela sua posse, pela sua deslumbrante beleza exibida na minha sala, pago faturas pesadas de saudade. E já estou endividada até aos ossos.

2.8.19

Lixo

Em certas zonas desta cidade, é pela mão das empregadas domésticas que os cães vêm à rua. A maioria são labradores já velhos, exaustos, que se aliviam no arbusto com um vagar paquidérmico. Em tempos terão sido cachorros vivaços, oferecidos às crianças por conselho do psicólogo ou em troca de bom comportamento, dormiram com elas no aconchego das caminhas com vista para o mar, tolerantes com caprichos e judiarias. Depois, conquistada a serenidade, tornaram-se companheiros leais, os únicos que não contrariam nem dizem as verdades aos donos e por isso convenientes e merecedores do mais devotado amor. Bons bibelôs, diga-se também. Acrescentaram a tão ambicionada nobreza aos retratos de família, com o pelo lustroso, o porte respeitável, os olhos de mansa e atenta dignidade – os únicos do clã cujo brilho não depende de receita médica. E foram o must have de muitas estações, assentando perfeitos nos outfits da voltinha pela marginal. Envelhecidos, já não servem egos nem terapias nem aparências e sobra-lhes isto: aproveitar a boleia das empregadas quando elas descem – de uniforme, claro – para pôr o lixo no contentor. 

1.8.19

Fuga

A rapariga da papelaria saúda-me com voz flácida e percebo logo que tem a disposição do avesso. É que pouco mais de dois meses faltam para o casamento do pai de Alice que, por um triz, não colide com o aniversário da menina. Parece muito, mas o verão passará num sopro, envelheceremos todos debaixo do sol, das noitadas e das deliciosas disponibilidades do corpo, regressaremos para tornar a valorizar gangas, números e horários, enfrentaremos a banalidade de existir como se tivéssemos grandes propósitos atribuídos pelo divino. Aí, com a precipitação do ocaso, o contrato do casamento será assinado e há de aparecer a cabeleireira a dizer o irrefutável: o tempo voa
Vencido que está o choque inicial, a tristeza da rapariga da papelaria anda agora em altos e baixos, não consoante o tempo – que isso é coisa para gente de humores simplezinhos e mal ocupados – mas de acordo com as noites. Tem-nas tido agitadas, inconstantes, preenchidas com sonhos de um cruel realismo, ora com prenúncios de felicidade, ora com sinais de eterna desolação. Nunca sei como vou acordar, diz. Ninguém sabe, penso, mas compreendo que qualquer pormenor quotidiano e adquirido ganhe forma trágica aos olhos de um coração em apuros. A dor afia todas as miudezas da vida. 
– Ainda por cima, não sei, mas dá-me a impressão que está toda a gente a casar. Só eu é que, enfim...
A rapariga da papelaria remexe os jornais de um lado para o outro, indecisa na ordem. Como se as inquietações dela fossem de menor importância, faço um gesto brusco, de sacudir moscas, e digo-lhe que o casamento não serve para nada, é um desperdício de recursos, não se agarre a isso como a um sonho, o amor anda muitas vezes fora dele. Tenho boa e sincera intenção, mas ela nem por sofrer se deixa ficar.
– De certeza que fala de barriga cheia. Não me leve a mal, mas as pessoas que dão conselhos estão sempre de barriga cheia. Quem passa dores fica caladinho. 
Por não estar a contar, a estocada derruba-me. Levanto-me com sacrifício e cautela, procurando agarrar-me a coisas concretas, objetividades que não variem com mágoas ou suspeições: está um belo dia de sol, tanto movimento na rua, agosto está à porta, amanhã visto camisa às flores. Não posso perdoar a rapariga da papelaria pela leviandade do que disse. Nem perdoar-me por ter-lhe servido de bandeja a ocasião para uma sentença tão dura. Preciso de recuperar a minha verticalidade. Talvez lhe pergunte pelo Marco do ginásio, nada melhor para rasteirar uma tonta do que a ideia de um rapaz de corpo bem feito e bem mandado. Também posso perguntar por Alicita, qualquer mãe perde foco e razão quando lhe perguntam dos filhos. Mas assim que os meus pés recuperam a certeza do solo, o meu impulso é fugir. Despeço-me e deixo-a para trás, firme, com as mãos pousadas no balcão e a cabeça suavemente inclinada, olhando-me do alto do seu magnífico desgosto.

30.7.19

Resignação

O vizinho que faz a mulher gemer como um relógio de corda está em desatino. Ouvi-o a dizer um palavrão e a perguntar vezes e vezes seguidas, num desespero que me comoveu: mas nada do que eu faço está bem para ti? É uma pena. Além de elegante e bonito, parece ser doce. Às vezes, no elevador, conversamos e distraímo-nos, passamos o piso dele e o meu, ele conta-me coisas sem importância alguma, acontece-lhe enganar-se e sair comigo, este não é o seu, tenho de dizer. Mas o que me dá pena nem é o facto de a mulher dele parecer insatisfeita. É o ar de resignação que ele tem. Um homem resignado não interessa a ninguém, nem a si próprio.

29.7.19

Um doido

Hoje, um homem bem desenhado e de aparência leve sentou-se perto e pediu-me uma informação de caráter prático. A partir da objetividade da resposta que lhe dei, desdobrou uma tese sobre o espaço e o tempo, natural como se apenas continuasse um diálogo há muito encetado. Assustei-me, pensado que ou era um doido ou eras tu.

24.7.19

Esqueletos

Adiar. Adiar. Adiar. Eis uma coisa estupenda que também sei fazer. Não quero dizer adiar um trabalho, uma mudança, sequer um confronto. Mas adiar a verdade. Adiá-la tanto até se tornar passado e ser sepultada sob as emergências do quotidiano ou guardada no fundo do armário, chocalhando em surdina com outros esqueletos. 

19.7.19

Sul

Sou do Norte em tudo. Pura, sem aditivos nem arredondamentos, cinquenta por cento Douro vinhateiro, vinte e cinco Minho bem verde, outros vinte e cinco Porto. E sou do Norte com a força de uma cisma, de uma obstinação, insuflada de um orgulho retrógrado e dramático. Sou do Norte de frente e de perfil, em maneiras e, muito raramente, se me vir encurralada, até em linguagem. Sou do Norte como se tivesse febre, a olhar com um menosprezo delirante para os que só conheceram estradas largas, declives brandos e rios de feitio fácil. Viva eu mais cem anos e não amaciarei um só traço nas caricaturas que tenho dos que estão abaixo de Coimbra e continuarei a imitar-lhes tiques e sotaques em festas de família e encontros de amigos. 
Há, porém, um momento, uma fronteira invisível e imprecisa, um ponto qualquer na estrada para sul cujas coordenadas variam com a direção dos ventos, que me força à rendição. E não é nada que se veja ou se palpe. É o cheiro. Um cheiro morno, picante, adocicado. O Norte cheira-me a nada ou então a coisas concretas e avulsas: ora a mar, ora a mosto, ora a lenha, ora a uma coisa, ora a outra. Mas o sul tem o cheiro de uma mistura que não decifro, sensual, afrodisíaca, que parece brotar de um caldeirão onde ervas, frutos, bicharada, húmus e sei lá mais que temperos perversos se apuram às mãos de uma feiticeira. Nesse ponto – não me perguntem ao certo onde é, porque a geografia é vaga e a terra move-se – parece que o sul quer entrar pelo Norte acima e adentro e enrolá-lo na largueza macia e dourada das suas pernas. Sonho amiúde com esse cheiro e, por mais que as florestas ardam e as cidades se transformem e a gente se perfume com essências de laboratório, ele está sempre lá e nunca me dececiona.

17.7.19

Os mansos

Esses mansos, que brincam de arreganhar os dentes mas não passam de mansos, que dão murros na mesa apenas quando estão diante dos que podem menos, que copiam os discursos dos lutadores mas com as mãos afrouxadas nos bolsos, esses que são solidários com as causas consoante a importância e o interesse dos causadores mas cuja cumplicidade acontece atrás das portas em surdina, esses que se aninham na trincheira a rir dos que dão o peito às balas, bem-aventurados sejam ao menos no reino dos pântanos e das ninharias, para onde caminham de cauda gentilmente enfiada entre as pernas e passinhos dóceis, simulando bravura com um ridículo arqueio de sobrancelha, preparando-se, sem o saber, para cair no fosso do esquecimento. 

16.7.19

*

Regressar é ir a qualquer lugar onde estiver alguém à nossa espera.
*
Setembro • 2011

15.7.19

Simulações

Dobro a esquina e dou com o carro da viúva parado no meio da rua, torto e de porta aberta, ocupando metade da faixa de rodagem, como de costume. A viúva não é apenas má condutora, sem mão para a potência dos motores a que tem acesso e que todos os anos troca por matrícula nova. É preguiçosa e egoísta, supõe que a rua se desajeita, distende, estende e ajeita à sua passagem, ou que um bando de lacaios acorrerá a resolver o assunto se houver uma alminha mais sensível a quem a situação estorve. 
Mas daqui não vem novidade, estes são velhos hábitos da viúva que, em boa verdade, ninguém condena ou contraria. É que basta ela pôr uma perna de fora do carro para que a saia suba e a coxa roliça se desnude sem vergonha e a gente que passa ponha freio às ganas de lhe amolgar o carro ao pontapé. Mesmo quem nas costas maldiz, na frente venera esta que entra na casa dos sessenta com firmeza e excentricidade, sem variz ou derrame que se veja, mantendo até a ousadia – há quem o garanta por meias palavras – de andar sem sutiã. Um privilégio.
O que é novo, surpreende e até assusta é perceber que abandonou o carro naquele estado para se pôr à conversa com a mulher do senhor Pereira. Riem, elogiam-se, seguram-se até as mãos, disfarçam sentimentos maléficos, repugnâncias mútuas, ódios fermentados a partir de meras suposições ou, às tantas, a partir de coisa nenhuma. Desde quando é preciso causa válida para a inimizade entre mulheres? Tanto de longe como mais ao perto, parecem-me duas bruxas, com as cabeleiras negras, nem sei qual delas mais demoradamente maquilhada, mais elevada nos sapatos, ambas com admirável domínio das regras da etiqueta e da hipocrisia, simulando por interesse o mesmo que o senhor Pereira simula por cobardia.

12.7.19

E cortei o cabelo

A cabeleireira tem o gosto de me ver entrar porta dentro e nem nota que respiro fundo, a preparar-me para o que aí vem. O salão desconforta-me, parece uma linha de montagem de mulheres, cheira a fábrica, a motores ferventes, químicos, ceras, tingimentos, plasticizações. Ora, bons olhos me vejam. As mãos dela vêm direitas à minha cabeça e um esgar de reprovação evidencia, perante todas as clientes, o nível medíocre a que desci. 
A manicura pergunta, a confirmar, há quanto tempo exatamente o meu cabelo não vê tesoura. Exatamente não sei, mas faço as contas aos solstícios e equinócios vencidos e digo-lhe, a desvalorizar, mais de um ano com certeza.
– Ah, e não é que o tempo voa?
Por mais vulgaridades que se diga naquele salão, há sempre espanto e aplausos. Toda a gente se põe a lamentar em acordo e consonância, cada qual recordando a última coisa que o tempo injustamente abreviou ou levou sem pedir. E isso, que não é mais do que uma terapia de grupo em improviso, presta mais do que qualquer douto conselho. Em cinco minutos todas as mulheres se animam, compreensivas e solidárias.
– É que voa mesmo. Não foi há um ano que morreu a mãe da Joaninha?
Como se eu tivesse perguntado, a cabeleireira adianta-se a explicar que, no tempo de um suspiro, a mãe da Joaninha passou de acamada a hospitalizada e ao fim de meia dúzia de dias apagou-se, sem dor nem gemido, numa paz com que só os de genuína bondade Deus premeia. 
–  Ai, então coitadinha de mim  – larga a manicura a sua gargalhada espalhafatosa, soberba, que supera o ronco dos secadores e perturba as senhoras. Trabalha muito bem, é perfeitinha e briosa, mas tão inconveniente! Agora usa óculos. Bem de acordo com a moda, a armação dá-lhe uma graça extra e um ar de professora quando se põe a apreciar as tonalidades dos vernizes, muito compenetrada, como se naqueles frascos marinassem os remédios do mundo.
– Tu? Coitadinha? Por alma de quem, filha?
– É que se é assim que Deus pensa as coisas, eu vou morrer aos soluços, a esverdear, a ganir e a botar vómito pelas orelhas.
O quadro horrendo, exposto com fervor e certamente visualizado com detalhe, gera uma onda de repulsa. Eu disfarço o gozo com a última “Caras”. Gosto tanto desta rapariga. Uma cliente murmura que além de nojenta, a observação é imprópria.
– Atão e porquê? Ao menos digo a verdade, não estou com coisas de que sou isto ou aquilo e depois afinal não sou nada. Tenho defeitos. Você não os tem, querem ver?
– Mas escusas é de brincar com Deus.
– Ai, quer dizer, ele galhofa lá do alto às nossas custas e nós axandramos e ainda vamos de joelhos agradecer-le, é?
– Gostas tanto de te fazer de má, filha. Mas para mim tu és uma pessoa com muito bom fundo. 
Subitamente comovida, quase a arrepender-se do espalhafato, a manicura agradece à cabeleireira. Eu não agradeceria, porque considero uma tolice dizer-se, seja de quem for, que tem bom fundo. No fundo, à sombra, é onde vivem as nossas mais secretas e proibidas vontades, escondem-se os nossos pecados, hibernam os nossos arrependimentos, fermentam as nossas ganas. É no fundo que dorme o instinto, de um sono tão leve que pode acordar, basta um murmúrio, uma hora errada e infeliz, uma pena a fazer o que o arado faz à terra. A bondade pode até ser praticada, ter expressões avulsas, mas como virtude é um artifício de superfície, uma construção sustentada por mecanismos de autocontrolo baseados na crença de que somos distintos dos bichos. Em todo o caso, os bons só interessam ao mundo se tiverem sangue combativo e transformador, o que pressupõe um ou outro rasgo de maldade, de dureza, de subversão, capaz do erro, do pecado e do insulto oportunos. Caso contrário, são só bonzinhos e esses, no fundo ou à superfície, no escuro e às claras, para além de inúteis, não têm graça nem têmpera. 
Ignoro que tipo de bondade atribui a cabeleireira à mãe da Joaninha e o que em vida terá feito a senhora para se considerar que merece uma morte livre de agonias. Mas na manicura ponho fé. Com ou sem dor, no dia em que ela morrer o mundo não fica igual. 

10.7.19

Transgressão

Provou uma vez a transgressão, ainda que só molhando os lábios, e já não quer outra coisa. Agora, de pouco precisa. Se no princípio foi pelo assalto de uma força voraz, por um desatino, uma fatal atração – tudo isto amparado, acredito, por tortuosa análise de riscos e benefícios – depois passou a ser por tudo e por nada, mais por nada do que por tudo. O efeito da adrenalina já é morno e nem vem daí o apelo nem o gozo. O que agora subsiste e basta é a pura e simples possibilidade. Seduzir outras mulheres que não a sua, constatou, não é nada de extraordinário e faz-se bem.

7.7.19

Impressão lenticular

Pude finalmente comprovar que Joaquim é uma criança bela, mas de aparência híbrida, com um rosto que denuncia oposição de forças. Há nele uma estranheza de linhas e tonalidades, resultado de um combate de onde não saiu vencedor nem vencido e se arranjou maneira de premiar ambas as partes com igual medida. É que, ao contrário das primas, concebidas em casamentos de feitios pares e feições afins, Joaquim é fruto de perfis antagónicos. E apesar de os avós Pereira insistirem que tem a cara do pai, qualquer um que veja de fora sem se deixar enredar notará que dele não há mais do que uma vaga impressão. Mas também da mãe o que se revela é subtil e talvez não vá muito além do branco leitoso, opaco, da pele. Como se não bastasse, Joaquim tem aquela cor de olhos enganosa, que varia com a incidência da luz e que é propícia a situações de risco. Sei do que falo. Muitos, ao longo da vida, chegaram demasiado perto a pretexto de tirar a dúvida acerca da cor dos meus olhos, disso fazendo o meio caminho para o fim que realmente tinham. Uma cor de olhos dúbia e camaleónica pode parecer vantagem, virtude, tempero, mistério, mas é seguramente, na maioria das vezes, uma armadilha. 
Compreendo o senhor Pereira. Necessitando, enfim, de amar alguém mais do que a si mesmo, vê - porque vê - no neto a perpetuação dos seus genes, coisa que para um homem é de extrema importância. As mulheres amam a descendência com mais genuinidade e menos condições porque não têm, como os homens, a urgência de se nela se repetirem ou com ela contarem para a redenção das próprias faltas. Amam por amar, porque conceberam, alimentaram, acalentaram, e só em determinadas situações esse amor toma forma no plano da razão e noutros nem sempre muito razoáveis.
Mas a verdade - insisto - é que Joaquim lembra aquelas imagens de impressão lenticular, que se transformam consoante a perspetiva. E há qualquer coisa de muito cativante nesta indefinição, nesta espécie de desprezo pelo passado, na recusa da herança. Claro que ainda muito está por formar, apenas meio ano da vida se cumpriu, mas, até ver, ele não é a mãe nem o pai. É ele próprio e tamanha foi a fé que se pôs no seu nascimento que não admira que ele tenha ganhado uma vida superior àqueles que lha deram. Mas fique escrito, garante o avô, que não se deixará manipular por ruivas incandescentes com poderes diabólicos emergidas lá das Beiras.

5.7.19

Ressaca

Nem seis anos tem o catraio que está na fila da caixa desassossegado, a pendurar-se na mãe, a puxar-lhe a roupa e a choramingar:
- Diz... anda, diz... diz.... diz... diz...
Ela vai pondo as compras no tapete sem lhe dar atenção, parece ter o pensamento longe e na sombra de outras urgências. Talvez o hábito de o ouvir a tenha ensurdecido porque, embora seja a mãe, é a única que não aparenta desconforto com a sirene. Só quando o puxão é abrupto, demonstrando uma violência imprópria de um inocente, ela reage:
- Digo o quê, pá?
- Diz-me quantos likes já tem...
Com o cartão pronto ao pagamento e a paciência por um fio, a mãe revira os olhos e bufa-lhe:
- Mas quantos likes tem o quê, pá?
E ele, autoritário, esganiçado, a ressacar daquele que, pelos vistos, já é também vício seu:
- Quantos likes tem o que publicaste hoje sobre mim!

3.7.19

Republicações

Os rebeldes só são bem vistos nos momentos de rotura. Mas a seguir tem de vir a normalidade e a normalidade são aqueles que cumprem as regras, são aqueles que mantêm a ordem, são aqueles que trazem as tropas para os quartéis, as senhoras para casa, os operários para as fábricas.

* Carlos Matos Gomes a propósito da vida de Salgueiro Maia após o 25 de Abril, em documentário de 2016 republicado no Expresso 


A revolução não está feita porque a cabeça das pessoas continua a mesma. Vimos no 25 de abril: as consciências não estavam suficientemente trabalhadas e, para reabsorver o que se fez, bastou um ano. 

* António Hespanha, em entrevista de 2012 republicada no Expresso

2.7.19

Atrizes de cinema

No clube onde o meu filho está agora, todos os pais são cavalheiros e todas as mães se parecem com atrizes de cinema famosas. Nos tempos de espera e convívio, eles juntam-se para fumar e projetar o futuro dos filhos, apostando neles para a realização dos seus sonhos abortados. Já elas ficam sentadas em roda a conversar sobre a arte de temperar cabrito e a trazer à luz segredos para desencardir as meias brancas dos rapazes. Entredentes, fazem piada da má vontade dos maridos, outras da falta de jeito, outras ainda da falta de tempo. E à custa do humor evitam arruinar a impressão de que estão no bom caminho, podia ser pior, pode sempre ser pior. 
Antigamente também diziam que eu parecia uma certa atriz, mas isso era no tempo em que não tinha filhos e o dinheiro que juntava era para ir de férias de camioneta, pernoitar em quartos manhosos sobre falésias, beber shots de Gold Strike e comer cachorros a pingar mostarda, às seis da manhã, na rua. Depois, ignoro o que aconteceu mas é certo que eu envelheci e ela ficou igual, aparece maravilhosa no instagram, a chupar um gelado na foto de perfil, milhões querem saber o que pensa, como se alimenta e exercita. Pergunto-me se o tempo terá passado mais depressa por mim do que por ela, talvez a face da Terra que eu habito gire com superior velocidade, está mais do que evidente que o mundo não tem todo o mesmo andamento, nem se gasta do mesmo modo, tampouco amanhece debaixo do mesmo sol. Ou pode ser só da diferença entre ser ou não ser uma boa atriz.

29.6.19

Unidos pelo inimigo

O senhor Pereira e o engenheiro Aires sobem e descem a rua, sem a companhia das mulheres, debatendo banalidades de noticiário. Saltitam de tema em tema, já que em cada um há factos que servem de exemplo ou reforço para outros, mas todos constituem, invariavelmente, argumento contra o estado da nação, que é fraco e não apetece a não ser a quem esteja de passagem, por isso os turistas despontam como cogumelos e ao menos a sua graça e colorido disfarçam o negrume e o fedor que brotam das salas do poder. Tudo isto vai um dizendo, o outro corroborando e vice-versa, enquanto eu vigio o mais novo aos pontapés numa bola contra o muro e faço de conta que não existo. Qualquer um, em meio minuto de atenção que preste, deduz a afinidade político-partidária que há entre o senhor Pereira e o engenheiro Aires. Creio que nada mais têm em comum. Em cultura, conhecimento e inteligência estão separados por um fosso, casaram com mulheres opostas entre si em feitios e vontades, jamais se daria o acaso de escolherem o mesmo local de férias ou sequer o mesmo restaurante para o jantar de sábado. Contudo, são capazes de horas para cima e para baixo, dando à perna e à língua como se unidos pelo sangue e pelos ideais. Percebo agora que a única coisa que os liga é o inimigo - o governo à esquerda. A amizade deles já teria esmorecido se não fosse essa oposição, a adversidade, o contratempo. Talvez então - ponho-me a pensar - tu e eu não sejamos cúmplices por tomarmos igual caminho ou sequer parecido, mas por ser o mesmo o precipício que desesperadamente queremos evitar.

26.6.19

Contagem decrescente

Por volta da meia-noite, a minha vizinha deixa-se amar pelo marido libertando gemidos mornos, de cadência regular, com a feição sonora de um eletrodoméstico. Ele, ou porque está empenhado no que supõe agradá-la, ou porque tem a atenção no centro do próprio corpo, talvez nem repare que ela geme com o ritmo e o timbre de uma contagem. Conta o tempo que falta para se livrar do fastio. Em breve ouço dele um riso asténico, abafado, e ai amor como um catraio grato pela consolação. Depois a água corre e amanhã há de ser outro dia. Quanto a mim, ainda que o prejuízo não me diga respeito, desde que notei esta rotina é-me embaraçosa cada viagem de elevador na companhia dele. Não há perfume, vestimenta ou boa palavra que desculpem um homem por certas formas de incompetência.

25.6.19

Florescer

Quando a minha irmã me levava pela mão até à praia e cantava a Valsinha tantas vezes quantas as que eu pedisse para me distrair e encurtar a distância, o mundo tinha as medidas certas. Era sempre muito cedo, a neblina fazia dançar fantasmas no pinhal e amaciava a geometria dos telhados, a avenida acordava com rumores brandos para não perturbar o sono dos veraneantes e o perfume marítimo subia pelas ruas como um aperitivo. Era um itinerário de mistério e melancolia, velado, difuso, banal nas manhãs do Norte. A minha irmã cantava e eu florescia caminhando com ela de mão dada, sem temores nem imperfeições, porque toda a minha realidade era uma dádiva, um poema, um penedo, uma conta exata.
A Valsinha é a melhor canção do mundo.

13.6.19

A casa de Pedro

Depois de maquilhar a minha casa, Pedro, o pintor, fez questão de me dar a conhecer a dele. A pretexto de umas latas de tinta excedentárias que se ofereceu para guardar enquanto o meu arrumo não se organiza, convidou-me primeiro a espreitar a garagem. Entre e veja a senhora se ficam bem aqui. Como não lhe notei más intenções, entrei. Envaidecido, foi-me mostrando como fizera do espaço um lugar para as suas carolices, miudezas a que dá tempo e atenção em horas vagas. A bancada. As ferramentas. Os trabalhos em curso. Os abortos a um canto, talvez reaproveite materiais. Muito bem, muito bem, ia dizendo eu com um tom maternal que mais revelava arrogância do que interesse e a inclinar-me para a saída. Mas Pedro, o pintor, insistiu para que eu espreitasse também o quintal e abriu um portão por onde vi canteiros bem torneados, floridos, de cores vibrantes, dois limoeiros, alguns vasos de aromáticas e muita bicharada miúda a enamorar-se de perfumes e corolas. Muito bem, muito bem, repeti e recuei. Venha, que assim não vê nada, está com medo do quê? Pedro, o pintor, despachado nos modos, ainda me ridicularizou: nunca viu um quintal? Ora essa, já vi tantos, dei um passo em frente, a luz solar bateu-me no rosto, ele pousou a mão levemente no meu braço: e esta é a minha casa. Disse-o com tal emoção, era tanto o orgulho a rebrilhar nos olhos dele que a fachada da casa – uma moradia vulgar de dois pisos, sem grande brio ou originalidade e ainda por rematar – me surgiu com ares de palácio. Abriu as mãos, dramatizou: construí-a eu. Foi descrevendo com sentido prático, mas amoroso, o interior da obra feita, as divisões, os acabamentos, o tempo, o dinheiro e o suor empenhados em cada metro quadrado. E eu muito bem, muito bem, mas agora tenho mesmo de ir. Na saída, Pedro, o pintor, acenou qualquer coisa que precise, já sabe onde vir bater. Ficou no portão muito direito, de mãos enfiadas nos bolsos, um conquistador, um feliz proprietário de queixo nivelado pelos deuses, a ver-me entrar no carro, inverter a marcha e diminuir até ao cruzamento. 
Uma semana depois, porque lhe pedi que viesse resolver um detalhe mal acabado na minha cozinha, Pedro, o pintor, respondeu-me com mil cuidados que nesse dia não nem no seguinte, porque eram para dedicar às lidas domésticas. E orgulho já nenhum, mas antes suspiros e queixume: a casa é muito grande, escraviza-me.

10.6.19

*

Só uma profunda e perigosíssima ignorância, uma ignorância de shopping, ryanair e i-phone, justifica que duvidem que as histórias aqui contadas tenham lugar nesta cidade e neste século.

9.6.19

O Porto

Ontem à tarde, no autocarro para a Baixa, uma mulher adormeceu e o manjerico que levava no colo deslizou-lhe das mãos para o chão. Na queda escangalhou-se e de repente o ar ficou saturado de um perfume picante, de corpo intenso, quase material. Foi então como se uma onda multiplicada em todas as direções despertasse para a vida os passageiros que vinham ensimesmados, melancólicos, de membros indolentes. Um homem lá na frente, junto ao motorista, anunciou:
- Cheira a São João!
Ouvindo isto, outro que vinha a ressonar acordou e espantou-se. Uma mulher com cara de dor antiga encheu-se de tal ânimo que meteu conversa com ele. Mãe e filha adolescente que pareciam desavindas olharam-se como cúmplices de pensamentos garotos. Um rapaz de tez aciganada tirou os auscultadores dos ouvidos, respirou fundo e acenou a concordar - com o quê? A loira que seguia ao meu lado a falar russo no telemóvel suspendeu a chamada para admirar o alvoroço e talvez nada tenha compreendido mas nem por isso se livrou do contágio e, com uma suave e sentida inspiração, sorriu de prazer. Parecia o mundo a reerguer-se da uma íntima tristeza, a sacudir a poeira do corpo e a retomar o andamento. 

Um velho que saía na paragem seguinte agradeceu à mulher que deixara cair o manjerico. Ela largou às gargalhadas, apanhou os estilhaços e com muita fé e jeito de mãos reconstruiu-o, inteiro, no seu colo.

7.6.19

Segredos

Na sala de espera da urgência, a mãe conta que o ventre da filha sangra com abundância e sem calendário. Por meia dúzia vezes já pediu no hospital a causa da insubordinação daquele corpo, que não cumpre as luas como devia. Mas resposta nenhuma e remédio muito menos. Hoje é de vez. Não sai dali sem esclarecer o mistério, levantem o rabo da cadeira os médicos, desemerdem-se os enfermeiros e mexam-se todos os que desbaratam conversa enquanto a gente sofre a dor e o abandono pelos corredores. Examinem a menina em condições, tirem-lhe os retratos às vísceras, façam o filme completo da sua intimidade. Não acha? O homem com fato de treino do clube do subúrbio, que trouxe o filho pisado no olho esquerdo, escuta-a por cortesia. Embaraçado com a exposição dos segredos de uma fêmea ainda verde e sem nada que lhe seja possível saber ou dizer sobre o assunto, vai repetindo o que ouve de olhos amarrados ao chão.
– Este mês era para lhe vir só lá para dia quinze e veio hoje.
– Veio hoje, pois.
– E sem contar, coitadinha, ficou toda suja, os colegas perceberam.
– Claro que os colegas perceberam.
– Escusado é dizer que, se fosse pelos médicos, já tínhamos ido para casa sem resolver isto.
– Ai, sim, já tinham ido para casa.
– Andam a fazer que fazem e quem não reclama morre.
–  Lá isso é verdade, morre.
– Sabe quem é que mais trabalha neste hospital?
Não faz sentido repetir a pergunta mas, com receio de errar na resposta, o homem do fato de treino apenas levanta a cabeça, curioso. Nesse instante, a menina, que dorme na maca, voltada para a parede, mexe-se e geme. A descoberto do lençol só o cocuruto de uma cabeça dourada, a lembrar a de um anjo, mas a leveza do tecido revela, em curvas e contracurvas, a mulher que já é.
 Quem mais trabalha são os voluntários.
– São os voluntários, é verdade. 
Com uma mansidão trémula, própria dos que a custo reprimem fúrias e vontades, a mãe afasta o lençol e exibe a filha inteira. 
– Coitadinha...
Apanhado de surpresa, desorientado, o homem do fato de treino levanta-se. Não sabe se deve olhar. Para a mãe, ali está apenas uma criança que por sina e condição tem de sangrar. Não tem intenção perversa ao mostrá-la, a menina é toda inocência e candura, por vezes ainda pede colo e bate o pé às contrariedades. Mas para ele é o corpo oposto ao seu, o corpo que dá ganas de combater antes do amor, a terra firme onde um homem quer ancorar e semear. 
Não olha. Mãos nos bolsos, meia volta, nas costas cresce o símbolo do clube do subúrbio. 
– Vou perguntar se falta muito para chamarem.
No meu ombro dorme também um menino de voz grossa e um metro e setenta e cinco. Escondo-o com um casacão e dois braços insuficientes.

5.6.19

O embalo da corrente

Julgo que muitos dos que chegam ao extremo norte da rua do Pinheiro Manso ignoram que têm prioridade sobre quem aparece à esquerda, da Avenida Vasco da Gama. Então, o que nas horas de ponta acontece é formar-se fila na rua do Pinheiro Manso enquanto a Vasco da Gama vai fluindo a um ritmo que satisfaz. Há dias, o 501 que vinha do Pinheiro Manso não esteve com meias medidas e cumpriu a regra sem piedade nem hesitações, certo de que o tamanho importa, mete respeito e tem de entrar ao barulho quando as coisas não se passam como deviam. Logo se levantaram as vozes e os braços dos ignorantes forçados à travagem brusca, em protesto contra a tirania do autocarro pois julgavam que não lhe era devida a prioridade. O motorista do 501 fez um gesto largo de desprezo e seguiu. Todos os carros que vinham atrás dele avançaram também, imbuídos de uma coragem quase suicida. Mas não sei se tinham finalmente compreendido que a regra geral lhes era favorável ou se apenas aproveitavam o embalo da corrente liderada pelo enorme, poderoso, intimidante autocarro.
O hábito legitima os absurdos. E a preguiça de raciocínio que vem a reboque não só afunda na resignação os que ficam com o prejuízo como conforta os que beneficiam. Até eu, que me orgulho de conduzir exemplarmente tanto quanto o senhor Pereira se orgulha da sua coerência, admito que estou entre os que vêm pela Vasco da Gama e, embora sabendo que devo parar, todos os dias sigo atrás dos que avançam avançando também. 

30.5.19

Monte de vénus

A rapariga da papelaria nunca suspeitou da assiduidade e das maneiras de Marco, o instrutor do ginásio. A mãe dela diz que sempre foi um cliente vulgar, poucas falas, pouca presença, até veste mal e com desleixo, porém, quando entra e diz era o Notícias, se faz favor, o timbre manso e firme da sua voz cala todas as outras de espanto. Mas acredita agora, porque reparou melhor, que sobre a filha recaem todas as intenções dele e que só isso justifica o modo de arrastar o pagamento, demorando a deixar cair as moedas na palma da mão dela, as pontas dos dedos a tocarem-lhe nas linhas da vida e do destino e deslizando depois, em simulado descuido, pelo monte de vénus que ela tem saliente, carnudo, quase obsceno. Se é um rapaz são e educado, ninguém lhe conhece vícios nem conflitos, por que carga de água ela não o nota?, pergunta, farta de ver o coração da filha minguar por falta de uso. Cego de amor, afinal, não está aquele a quem os defeitos do ser amado são invisíveis, mas o que deixou de ver virtudes em todos os outros.

28.5.19

Coerência

- Eu sou uma pessoa coerente.
Diz o senhor Pereira, a esclarecer que o fim de semana em Penedono nem sequer lhe beliscou as ideias. Ao contrário, está cada vez mais certo de que o interior do país é ninho de pequenez e ignorância. E se acaso se deu mal em alguns momentos ou com dificuldades e tropeções se ajustou aos ritmos e hábitos, não terá sido por incapacidade sua mas pelos absurdos desse mundo mais confiante nas promessas de uma terra quieta ao sol do que nas de uma autoestrada, que aproxima a gente e os comércios.
Não há erro algum no discurso do senhor Pereira. Se livres devem ser as opiniões, mais ainda os sentimentos, que são feitos de matéria rebelde e anárquica e a nenhum poder razoável obedecem mesmo quando escondidos na sombra. De resto, é tolice esperar tolerância e entendimento dos que não foram educados para outros mundos que não o próprio. O que aborrece e dá prejuízo é confundir defeito com virtude. O senhor Pereira enche o peito para afirmar a coerência e, na verdade, tem é um belo eufemismo para a sua casmurrice. Quem passa pela vida sem mudar de ideias, quem nunca ri hoje do que pensou ontem ou jamais se pergunta, à noite, o que verá na manhã seguinte ao espelho, não tem do que se orgulhar. Até na pedra, que não respira nem sente, com tempo e paciência pode ver-se a transformação operada por chuvas, ventos e arremessos.
Mas, enfim, deixemos o senhor Pereira iludir-se acerca do próprio caráter, porque nisso não difere de nós todos.

24.5.19

Boa educação

Ao fim do dia caio aos pés do mais novo, derrubada pela candura dos seus olhos, os únicos capazes de me devolver a fé na humanidade. Mereces o melhor do mundo, sussurro-lhe com um amor consciente, lúcido, que vê bem ao perto e ao longe. Ele beija cada um dos nós dos meus dedos muito devagar e eu acanho-me por sentir que é injusta esta devoção que me presta. Ninguém é tão generoso a perdoar as minhas falhas. Qualquer culpa minha, acode a inocentar-me e caso fique provado que errei, consola-me lembrando a débil condição humana à qual, por mais que sonhe, não posso escapar. Perto dele sou gente melhor. É a confiança, e não o julgamento, que retoca o caráter. Depois ampara-me o rosto com ambas as mãos, libertando delas o cheiro dos ventos de todos os quadrantes, do couro das bolas, dos chocolates e da poeira. E todos estilhaços que ao longo do dia tive de recolher e carregar sobre os ombros regressam ao lugar original, leves como penas ou pétalas. Há filhos que educam tão bem os pais.

23.5.19

Morrer ou não morrer de amor

Aos poucos, tudo volta ao seu lugar, diz a rapariga da papelaria, ainda na convalescença do desgosto. O homem a quem ama, o pai da sua filha única, vai casar com outra e isso, sendo embora o bastante para emperrar o andamento da vida, é insuficiente para afrouxar a batida do seu coração sonhador. Gente como a rapariga da papelaria nasceu para se dar bem com este regime de alternância entre a entrega e o desgosto, toda a fortuna apostada num cavalo e a ruína de sarjeta, a fortuna, a ruína, a fortuna, a ruína. Não é estupidez, é confiança, fé, otimismo, intuição. Que culpa tem se o destino troca as voltas à última hora?
Por outro lado, tenho um vizinho que está a morrer de amor e à noite, debruçado na janela da cozinha, debita pelo telefone, com rancor e violência, o que acredita serem as suas últimas palavras. Quem morre de amor, tonto, julga sempre que morre definitivamente e não estará cá para pagar pelas feridas causadas com tudo o que disse sem justiça nem verdade. Descobrir dias, meses ou anos depois, que está vivo, é uma condenação à vergonha perpétua. 
O amor, como a morte, é uma das maiores banalidades da vida. Dá a todos, inevitavelmente e sem critério, mais cedo ou mais tarde. E das maiores banalidades da vida vêm sempre os grandes tormentos, os mais enredados dissabores, as mais equivocadas certezas. Isto não é conclusão nova ou pensamento original, mas continua, ainda assim, a espantar-me