21.9.17

Círculo

Acredito que talvez um Homem morra com sofrimento proporcional àquele com que nasceu. Amostra significativa não tenho, mas ouço histórias e nelas vejo fechar-se o círculo, em acerto e coincidência. Não devem os leitores levar-me a sério por isto que digo. É de quem não tem mais em que pensar e, por mero entretenimento, se põe a enredar absurdos e a presumir as lógicas fundamentais do universo a partir de coisas miúdas. 
A mim, convém-me fazer fé nesta delirante teoria. Nasci sem gritos nem demora. Entrei no mundo com a delicadeza de um suspiro, ninguém sofreu e a parteira mal deu conta de que eu estava a chegar. 

20.9.17

Naufrágio a sul

A cabeça tombada na linha de rebentação, dois seixos reluzindo nos olhos, um búzio incrustado no nariz, a boca aberta em concha, a língua um molusco dormente, o corpo ao abandono como o casco de um barquinho naufragado, o mastro já partido de tão velho, o leme sem memória do seu norte.

18.9.17

Momentos de inconsciência

Qualquer história de amor, ainda que piegas, ridícula ou ordinária, pode atraiçoar a firmeza dos mais sóbrios espíritos. É um efeito semelhante ao da música. Naturalmente que dizemos preferir a superior, a erudita ou a alternativa, a que seja obra de um talento visionário e de divina mestria. Mas a verdade é que qualquer uma, mesmo a de arranjo pobre, a que se repete, a mal acabada, nos põe trautear e a bater o pezinho. E em momentos de inconsciência, é o refrão apoteótico e de rima fácil que vem à cabeça. 

16.9.17

A melhor mãe do mundo

Recordar-se-ão os leitores que a rapariga da papelaria estava grávida e acalentava, sem disso fazer segredo, o sonho de ter um menino. Julgaram, talvez, que a história tinha morrido ou que não me interessava contá-la por não coincidir com o meu prenúncio sobre o sexo do bebé. Acontece apenas que entretanto fui de férias, depois a papelaria fechou portas por quinze dias e durante algum tempo o mais novo não colecionou cromos. De modos que só no início de setembro lá voltei, para acertos de contas com os senhores das autoestradas, e fiquei a saber que nasce no fim deste mês a menina. Alice.
No dia em que me dá a novidade, mostra-me o babygrow cor-de-rosa que a Gisela do pão quente lhe foi oferecer de manhãzinha. Estende-o no balcão, em cima das revistas, e, com ternura, sacode-lhe poeirinhas imaginárias e alisa-lhe os vincos.
- Não é lindo?
Afago-o sem pudor e a textura dócil do veludo remexe-me as lembranças, os olhos enchem-se-me de lágrimas ao recordar o perfume lácteo dos bebés que já não tenho, o choro manso a pedir alimento e aconchego a desoras, os dedos miudinhos, transparentes, abrindo-se em leque e pousando no meu seio. A voz sai-me fraca, sinto-me humilhada pela passagem do tempo, esmagada por uma saudade vã, impossível de matar.
- É muito lindo, sim.
- Sabe que até estou contente por ser uma menina? Vai ser mais fácil conversarmos sobre certas coisas.
- Que coisas?
- Coisas que... sei lá, do corpo. Se fosse um menino, assim sem pai presente, ia-me ver aflita para explicar-lhe... prontos, quando ele se tornasse um homenzinho. Está a perceber?
De novo me sobem as lágrimas aos olhos. Disfarço-as vasculhando o porta-moedas e digo-lhe que dá no mesmo, é só explicar a anatomia e a fisiologia e o resto cada um descobre por si, na sua intimidade, com a sua experiência.
- Ai credo, não me fale já dessas coisas que me faz medo. A minha Alice ainda há de demorar para crescer, se Deus quiser. E Ele há de ajudar-me a ser a melhor mãe do mundo!
De facto, a barriga dela, imensa, redonda, parece o mundo inteiro suspenso numa paz original, na silenciosa e irrecuperável perfeição do universo. A rapariga da papelaria é gente boa. Mas as pessoas descrentes como eu tendem a classificá-la como tonta apenas porque lhe invejam a persistência dos sonhos e o romantismo que a vida merece, do primeiro até ao último suspiro.

29.8.17

Engenheiro Aires e Maria Beatriz

Não é só o pó do automóvel. O senhor Pereira também lamenta que a noite venha chegando cada vez mais cedo e às nove já lhe dê tamanha quebra que nem sai com a mulher para uma voltinha. Faz-lhe falta a conversa com o engenheiro Aires, sabedor de múltiplas coisas que parecem compor a realidade numa visão confortável e duradoura. Costumam encontrar-se depois do jantar e andam para trás e para diante na mesma rua, eles à frente debatendo a organização do mundo, as mulheres atrás, de braço dado, partilhando a organização da casa. Dessa horinha sagrada custa-lhe abdicar, mas a verdade é que, com a antecipação da noite, o espírito e o corpo murcham cedo em frente à televisão. 
O senhor Pereira tem no engenheiro Aires o seu principal fornecedor de opiniões. Depois dos jornais lidos e factos apreendidos, precisa de alguém que sistematize tudo e lhe dê uma visão profunda, analítica, com charme de ideologia. Ora, sendo o engenheiro Aires um homem de uma categoria extraordinária, com estudos e horizontes, que visita templos, museus e ruínas enquanto o senhor Pereira dormita à sombra das palmeiras, a sua palavra deve ser de confiança e os seus juízos os mais certeiros. Portanto, o que o engenheiro Aires sentenciar hoje há de ser repetido pelo senhor Pereira, assim que tiver audiência, como se fosse coisa da sua cabeça. 
Já entre as respetivas mulheres, o mesmo não acontece, pese embora o entusiasmo com que se cumprimentam, enlaçam e caminham a par. Nas costas da outra, a mulher do senhor Pereira revira os olhos e desabafa: a Maria Beatriz é uma chata, tem a mania que sabe tudo. Mas se soubesse, não precisava de uma empregada.

24.8.17

Tanto tempo

Perguntou-me se era por fé, desespero ou falta do que fazer que eu me sentava tanto tempo a meditar. Em vez de responder, perguntei-lhe eu se era por fé, desespero ou falta do que fazer que se sentava ele durante sete horas em frente a um computador, mais duas dentro de um carro nas vias entupidas de circulação interna e, por fim, em frente à televisão até as coisas do mundo darem sono. Julgando que eu brincava, ajeitou-me delicadamente os cabelos por trás das orelhas e, superior, paternal, rematou: é impossível conversar contigo, passou tanto tempo e continuas tão infantil.

23.8.17

Labirinto

- Não dizes nada?
Bebo o café com o ritmo vagaroso que sempre uso e tanto enerva os acelerados. Ela insiste:
- Não tens opinião?
Passo a chávena por água. Ela continua:
- É que isto é grave. Deseduca os miúdos.
Uma gota de detergente e levanta-se a espuma. Ela exalta-se:
- Acho inacreditável. Nos dias de hoje?!?!
A chávena está imaculada, limpo-a, guardo-a no armário. Ela pergunta-me:
- Alertas os teus filhos para estas questões da igualdade? 
Saio sem dar cavaco. Tenho de trabalhar. Era o que me faltava gastar esta conversa com a mesma pessoa que há duas semanas me franziu a testa ao saber que o meu filho passa a roupa a ferro. "Ai, coitado", foi a única coisa que então lhe ocorreu dizer.
A minha geração está suspensa, perdida entre dois mundos: o passado, que teme e não quer repetir, e o futuro que, para transformar, exige fibra, pulso e consciência. Para se livrarem deste labirinto, não chega bradar às paredes que tem de haver uma saída.

22.8.17

E depois?

À medida que se aproximam da eleições, vão-se esburacando as ruas para a obra parecer vasta. Se é coisa de última hora, pouco importa, tal como pouco importa que abram e fechem sem que se veja diferença. Até no lugar onde moro, tão sossegado que os bichos e os fantasmas andam por onde querem à luz do dia, se instalaram as escavadoras, os penumáticos e os homens de tronco nu. Todos os dias tenho de refazer percursos, desviar por onde nunca estive, meter por quelhos e bouças.
E depois?
A dona Cesaltina continua trôpega no andar, de pernas enfaixadas, apoiando-se nos muretes e na piedade das vizinhas. Na sala de espera do centro de saúde, um homem conta que já não vê o filho há dezassete anos. Estão à porta as festas da freguesia e o presidente da junta vai enfrascar-se e subir ao palco para cantar ponho o carro / tiro o carro / à hora que eu quiser. No funeral de um tipo vulgar, a amante chora copiosa e despudoradamente enquanto a mulher se encolhe de vergonha por não ser sua a maior perda. Morto, já não pode o tipo pedir à amante que seja discreta nem à mulher que erga a cabeça e sorria. O senhor Pereira anda danado com as impertinências que a canalha desenha na tela de pó do seu mercedes. Tem saudades do brilho da novidade, do dia em que saiu do stand dos usados com garantia trazendo o sonho de uma vida nas mãos – matéria, temperatura, consistência, movimento. Mas, enfim, o tempo passa, as coisas gastam-se, abrem-se e fecham-se os buracos na rua, levanta-se a poeira e depois vêm os dedos na canalha, sempre tão inconvenientes, piorar tudo. A mulher procura apaziguá-lo, deixa lá, homem, o que se suja também se lava. Mas não é bem assim, penso eu. Não é bem assim.

21.8.17

Clausura

Quase meia-noite. Deitada no jardim do claustro, olho para o céu e pergunto-me porque pairamos assim, no infinito, neste assombroso mistério, neste equilíbrio perfeito, nesta beleza, neste espanto e, contudo, somos biliões com os pés puxados para o centro de uma única Terra, grão de areia, coisa nenhuma, tão exíguo o espaço, tão vaga a origem, tão dúbio o futuro, e, num só par de dias, toda esta fome, esta fúria, estas facas, este fogo. Onde fica a porta de saída do quarto escuro em que Deus abandonou a humanidade para se ir ocupar da expansão do Seu universo?

1.8.17

Choques elétricos

Enquanto a cabeleireira vai e vem com a tesoura na cabeça do mais novo, a Cristina Ferreira pergunta a quem está aí em casa se será mito ou realidade que os vibradores dão choques elétricos. A manicura arrebita a orelha, tapa a cara com as mãos e escangalha-se a rir. À cliente que lhe estende as unhas, passa ao lado a grande questão alardeada pela apresentadora porque está de costas para o écran. Insiste que quer, desta vez, um vermelho mais sangue, que vá bem com as emoções fortes despertadas pelo estio e com os vestidos que comprou para as noites quentes do sul. A cabeleireira suspende o trabalho e olha-me, com evidente aflição: é mito, pois é? Ainda vou a tempo de me fazer desentendida, franzo a testa como quem mal percebe do que se fala e com esperança de que ela se vire para outra: desculpe? Asneira minha. Ela adianta-se a repetir o que foi perguntado e já vai lançada para a resposta que lhe parece óbvia. Estão a perguntar na televisão se os vibradores dão choques elétricos, mas, quer dizer, é um disparate, aquilo não se liga à corrente. Num relance, certifico-me de que o meu filho está suficientemente compenetrado na adoração da sua própria imagem, tirando as medidas ao novo corte e imaginando como lhe assentará o boné. Quem me salva de responder é a manicura, desbocada como é hábito, o gozo pela vida sempre a pulsar sem freio, sem medo e sem preconceito. Não se liga à corrente mas olhe que, funcionando como deve de ser, é cá uma corrente pelo corpinho todo! Depois de ouvir o povo e o doutor em estúdio, a Cristina Ferreira esclarece: é verdade, sim, pode acontecer. As velhas contratadas para figurar na plateia por tuta-e-meia desassossegam-se, não sabem se neste momento em direto lá para casa lhes fica melhor o humor ou a indiferença. Ah, mas quanta perturbação foi tudo isto causar na cabeleireira! Incapaz de se concentrar, vai aparando os fios de ouro velho do meu pequeno narciso com hesitações de vulgar aprendiz e murmurando queixumes, temores e indignações. Choques elétricos? Deus me proteja! E eu a rir-me, imaginando como irá Deus interceder por ela.
A cliente sai com as unhas renovadas, sangue vivo na ponta dos dedos. Está pronta para rumar a sul, onde as amigas já a esperam num apartamentozinho alugado mesmo à beira-mar. Adivinham-se memoráveis dias de praia e imprevisíveis noites de folia. O pequeno narciso salta da cadeira e corre para mim, cheio de vaidade, reclamando beijos, afagos e elogios. Nem um nem outro deram por nada.

24.7.17

Esquecimento

Atravesso as planícies do Sul num comboio velhinho, com cheiro, roncos e hesitações de quem já merecia o eterno descanso. O ar condicionado mal funciona, a respiração é difícil, as portas não obedecem aos botões de comando. O maquinista — ah, coincidências! — conta que tem um irmão lá em cima, mesmo na minha terra, no Norte vinhateiro, onde há comboios gourmetizados para chineses, americanos e portugueses fáceis de deslumbrar e que abrem os cordões à bolsa por qualquer gracinha. 
O meu país baralha-me. Nunca sei onde é mais profundo o abandono, onde rangem mais os ossos, onde é mais urgente o socorro que os visitantes não oferecem porque, tal como eu, só vêm e vão como quem assiste a um filme, aplaude e logo esquece.

2.7.17

Morrer de amor e cantar*

Já aqui contei que morri de amor aos quinze anos. Foi uma morte lenta e dolorosa, deu-me febre, visão turva e desarranjos viscerais por muitas semanas. Velei-me como achei que merecia: com enorme piedade, lágrimas a rodos e até a elevação de caráter a que os mártires têm direito. A dor aguda e exposta, que assim violentamente me deitou por terra, terá vindo da minha impreparação para o abandono. Eu tinha crescido abrigadinha em colos, festas e mimos, não conhecia a rejeição e menos ainda a indiferença. Então, à primeira estocada morri. E porque tinha apenas quinze anos, as minhas conclusões foram inocentes mas cheias de uma convicção que me enternece lembrar. A primeira foi a de que o amor e a dor variam na razão direta. A segunda, tão comum, foi a de que não voltaria a amar. Sobre ambas estava errada, naturalmente, mas sou feliz por saber que o equívoco se deu na idade justa.
Por esses dias, calhou o meu pai oferecer-me a minha primeira máquina de escrever, um bichinho muito mimoso, usado, com teclado "hcesar", em tons pastel, de arestas meigas, arredondadas. Proprietária exclusiva de um instrumento daqueles, achei que o meu espírito era agora obrigado a grandes criações e sentia-me pronta para isso porque abarrotava de dor e autocomiseração, portanto, meio caminho feito. O outro meio, estava certa de que podia aprender lendo os bons.
Esta foi a única altura da vida em que escrevi poesia. Converti o sofrimento e a adoração em poemas curtos e arrítmicos, de versos brancos, e em outros enormes, com bom corpo, métrica e sem descuido da rima. Para guardar na gaveta, fiz com eles um livro, biografia cantada do meu desgosto, coitadinha da mim!
Um dia tudo passou, conforme predestinaram os mais sábios. A manhã acordou límpida, com uma frescura promissora, e eu era ainda muito jovem, o meu coração afinal sem necrose, a minha esperança pura e intacta. Por isso outros amores vieram, mas por sorte, privilégio ou saúde férrea, não voltei a morrer. E não voltei a escrever poesia.
Ainda hoje acredito que a melhor forma de arrumar uma dor é convertê-la em qualquer coisa de belo, edificá-la, harmonizá-la com o mundo. Terapia para quem sofre, horizonte para quem contempla, e nesse dá-e-recebe, nessa generosidade recíproca, muitas vezes se descobre propósito para o que nos consome. Mesmo que a criação acabe como, mais tarde, os meus poemas: no contentor do lixo de uma avenida junto ao mar.

* post de 2015, republicado a pedido de quem, generosamente, mo lembrou

30.6.17

Quero pato com pimenta

Entrevistas em que se pergunta ao escritor das intenções e mensagens do livro e ele responde urdindo, teorizando, complexificando, intelectualizando, são um fastio. Nestes casos, quase sempre, a obra desilude-me. A mim, como leitora, bastar-me-ia um pouco de honestidade da parte de quem escreve. Um lembrei-me desta história e deu-me para contá-la e eu agradecer-lhes-ia, de coração. Não me imponham o significado e o entendimento das coisas, deixai-me ir pelo meu pé. Se houver entrelinhas, quero ter inteligência para as decifrar. Se não as houver, ficarei feliz com o prazer de ler o verbo bem manobrado, de ter o retrato diante de mim, de num momento pensar que tudo é uma coisa para logo descobrir que pode ser outra e deitar-me a dormir pensando nisso. 
A esse propósito, tenho como referência o alívio que me deram certas palavras de Agustina Bessa-Luís, impressas na badana do livro comentado: Agora, o que se diz da Sibila surpreende-me bastante. Dividem-na em porções, como os mapas de campanha, e descobrem nela teoremas de Lacan e de Freud. Eu sempre pensei que a Sibila era a minha tia Amélia, vaidosa e com jeito para coisas de tribunais, e que sabia como ninguém estufar um pato com pimenta, num lume de rama de pinheiro. A resina, ao arder, dava ao pato um sabor especial. Entre isso e Lacan não sei que relação haverá.

29.6.17

De D. Sebastião a Salvador Sobral, do Bojador à Troika, dos oceanos às redes sociais

Pouco me importa o que o Salvador Sobral diz, fuma ou bebe. Preocupam-me mais estas paixões febris que temos, esta busca doida por heróis em que sempre andamos e a quem nos encostamos para remediar os sonhos que não perseguimos, as vontades a que não obedecemos, os projetos que adiamos. Toda a esperança, toda a expectativa, toda a gratidão assim depositadas, de olhos fechados e coração aberto, quanto nos custa depois! O cantor, o escritor ou o jogador da bola glorificados como divindade, como gente a quem tudo devemos e que, por seu lado, nos deve o pagamento de todas as faturas que temos em atraso. Que poupem por nós, meçam por nós, moderem por nós, dêem a cara por nós, invistam por nós.
Coitado do Salvador Sobral, que só por um gracejo sem graça, um disparate adolescente, nos pôs a dar sermões e a cobrar com tal fervor que até parecemos gente dura, que sabe ao que anda e insiste em lá chegar. Apesar de todas as conquistas, dos cabos dobrados, dos territórios explorados, dos gigantes derrubados, o país está na mesma: instável e leviano na gestão dos seus ganhos.

28.6.17

Framboesas

Não foi só o senhor Pereira: também a viúva trocou de carro. É qualquer coisa muito poderosa, tanto em cilindrada como em aspeto, matrícula de dois mil e dezassete e aquela cor dourada que vai muito bem com os feitios ostensivos de gosto duvidoso. A ela, porém, falta-lhe mestria para o dominar. Estaciona-o em contramão, a um metro do passeio e na diagonal, mesmo a jeito para ser endireitado à força por qualquer estouvado que passe. Aparentemente, isso pouco importa à viúva. Ela gosta é que olhem, reparem, e ainda dá bónus de fidelização. Abre a porta devagar, põe uma perna de fora, o vestido sobe, as coxas ficam ao léu, eis as virilhas, uma nesga das calcinhas que cobrem o sexo abandonado, só muito depois a outra perna, e finalmente em pé sobre os magníficos tacões. A esta altura, o senhor Pereira, que se abeirou de mim a querer saber o que penso de Pedrógão Grande, está todo ele incandescente, liberta faúlhas pelo canto dos olhos, já mete as mãos nos bolsos a disfarçar o vigor da labareda. A menina não acha que esta senhora é uma elegância? E vira-me as costas para se curvar ao chão que a viúva pisa. Como está, minha senhora? Passou bem, minha senhora? Ela semicerra os olhos numa languidez estudada, o xadrez preto e branco do vestido vai ondulando com o passo e toda a linearidade se deforma e contorce, dando a sensação de uma vertigem ou a ideia de um pântano. Retribui o cumprimento, afasta-se dois passos, volta atrás: desculpe, senhor Pereira, nem ofereci. Não estende, mas mostra, na mão aberta, uma caixinha de framboesas. Eu, como sempre, invisível ou à mesma distância que separa o espetador dos personagens do filme. O senhor Pereira vai com dois dedos, muito cuidadoso, agarra a carne selvagem, lustrosa, de uma framboesa, decerto já imagina o gosto do suco escarlate a desfazer-se na língua, o rigoroso balanço entre doçura e acidez, a consistência firme e fugidia. Aceito uma, minha senhora. Muito obrigado, minha senhora.
Ela sorri - e sorri como o diabo - e com um ligeiro aceno de cabeça dispensam-se mais palavras. Afasta-se. De novo com as mãos nos bolsos, ainda quente, o senhor Pereira diz-me baixinho, sem tirar os olhos dela:
- Eu nem gosto disto, só aceitei por educação.

27.6.17

Pantera

Lá vai a mãe dos dois filhos com olhos de azeitona preta. É a primeira vez que a vejo sem eles, mas não se julgue que vai de mãos livres, a desfrutar em paz da manhã soalheira, do canto da passarada, das promessas do solstício. Vai carregada de mercearias, os sacos distribuídos pelas dobras dos cotovelos, dos pulsos e dos dedos. Anda a custo, e, sob o peso da carga, pronuncia-se o joelho valgo. Ao passar por mim faz de conta, põe-se a admirar a esplanada do café onde os reformados se procuram na necrologia e os jovens estudam para os exames. Que idade terá? Calculo por alto, tiro medidas à infância que sobrevive no rosto dela, subtraio a idade do filho mais velho, comparo com a do marido, que a esta hora há de estar a gozar o alívio da dose diária de opiáceos, e imagino que tenha sido mãe aos quinze, dezasseis, menos de dezoito sem dúvida. Mas depois, multiplico a amargura que vai pelo corpo abaixo, o cabelo seco, desobediente, o peito raso e côncavo, os tornozelos inchados, e, afinal, é acabada, usada, abusada, e, quem sabe, culpada.
Quantas mulheres podem habitar numa só?, pergunto-me muitas vezes, até quando olho ao espelho, leio o que escrevo, revejo o que fiz, ou me esforço a desculpar o fraco entendimento dos homens sobre nós. E nesta que passa, livre dos filhos mas carregada de mercearias, habitam pelo menos três: uma que é inocente e está sempre à janela dos olhos, outra que se desenganou e endureceu para aguentar o corpo. Na terceira, improvável, só reparo quando ela vai para dobrar a esquina: uma pantera, estampada nas costas da blusa, pronta para investir.

23.6.17

Kakasana

Passam camiões, tornados, bichos de sete cabeças, descargas elétricas, pesos mortos, rodas dentadas, e eu choro, respiro e nem vacilo. Fixar os olhos, jamais as ideias, eis o segredo. Mas, de repente, uma palavra tua e descubro como é precário este equilíbrio. As palmas das minhas mãos, que me sustentam o corpo inteiro, têm o teu nome escrito em todas as linhas.

22.6.17

Ecoponto

As pessoas queixam-se muito da merda que é a televisão, é uma revolta generalizada e barulhenta que me dá pena. É curioso que esses que tanto protestam, em nenhum momento a recusam e lhe cortam o pio e os cabos. Parece-me que são todos obrigados a ver televisão e, ah! que linda a obediência! É metade do dia a assistir e a outra metade a dizer que não devia ter sido mostrado e, no meio de tudo, ainda pagam. Aflitos, com medo de perderem o fio à meada da atualidade e de lhes faltar opinião na hora dos debates. 
É muito bonito o palavreado todo, mas com que facilidade há de levá-lo o vento, sem que um só alicerce do sistema trema! A mudança só se faz quando realmente todos perderem o medo e desligarem o botão. Se não, é como aquela gente que aceita toda a espécie de lixo, achando que tudo se resolve depois separando-o no ecoponto. Renovam o ciclo, jamais o quebram.

20.6.17

Dias consecutivos

Por seis dias consecutivos, Deus esmerou-se na arquitetura de grandezas e miudezas, concebeu-as para nos maravilharem e de forma a que os mistérios fossem revelados em conta-gotas, despertando novas crenças e ainda maior espanto. Mas ao sétimo dia descansou, porque não tinha contrato, não precisava de pão para a boca, não tinha de prestar contas a ninguém e assumiu que as criaturas eram responsáveis pelos próprios atos e pagariam pelos seus erros. 
Tu não descanses, que não és Deus. Se descansas ficas só e hão de apontar-te o dedo assim que estiveres de costas. Deus também está só, mas está no pedestal, nas alturas, nos píncaros desconhecidos do universo, e isso vai valendo alguma coisa, justifica o ouro dos templos, a lonjura das peregrinações, o sacrifício de humanos e animais. A solidão de gente vulgar é invisível e carrega no lombo uma trouxa de culpas, penas e mágoas que não merece cântico ou devoção. Então vá, cumpre, mexe-te, ainda que te falhem as pernas e te ocorra o sonho de dias melhores. Enxota, como moscas, o que puder desconcentrar-te: ideias, poemas, perguntas, suspeitas. Fecha as janelas, a luz é perigosa porque revela as sombras e nas correntes de ar viaja o perfume de flores e frutos proibidos. Ganha com uma mão, paga com a outra, no entremeio dá esmola, lava as duas a seguir. Se te pedirem, cumpre a pena do ladrão, faz as vezes da prostituta, consome como um viciado. Diz justiça, diz amor, diz honestidade, mas deixa que outros tratem disso, tu põe-te na fila, para, arranca, liga, desliga, gosta, desgosta, aproveita o brinde, a promoção, o sorteio, o cartão. Lê o jornal, come a sopinha de letras até ao fim, obrigadinho por ta levarem à boca, interessa-te, espanta-te e comove-te só até amanhã, que amanhã precisam da tua esperança para o fundo de maneio do sistema. Estás assim ou assado, vais andando, podia ser pior, pelo menos isto ou aquilo. À noite, enfia-te na cama, dá-te de frente, de costas e de joelhos, puxa o cobertor, faz a dobra do lençol, reza, agradece e adormece.

14.6.17

Magníficas experiências

Não é por sermão que tenha levado. É por gosto, principio, hábito e exemplo dos que me educaram, que cumprimento as pessoas com quem me cruzo, mal distinguindo o que vestem, que função têm, com que cara andam. Daí o meu espanto quando ouço a história (e nem sei se é verdadeira) de um professor universitário que, para validar uma investigação sobre "invisibilidade pública", vestiu, durante um mês, a pele de um varredor de rua. A indiferença de que foi vítima nesse quotidiano, diz ele, foi uma lição de humildade. Ao que parece, o professor compreendeu que um simples bom dia não só é prova de respeito pelo outro como pode ainda, nas suas palavras, ser "um sopro de vida".  
Estranho que as pessoas careçam de originais e magníficas experiências para aprender o elementar. Lembra-me aqueles – e são muitos – que só depois de uma grande viagem realizam a própria pequenez, a desimportância dos seus chiliques e o valor do que possuem. Ficam os pobres condenados à arrogância, por falta de meios para viajar. Conheci um homem assim. Publicamente, repetia, mesmo a despropósito, o quanto as caminhadas em desertos escaldantes, planícies inóspitas, bairros de miséria nunca imaginada e destroços de bombardeamentos, o tinham tornado humilde e despojado. Talvez tenha impressionado os que mal o conheciam. Mas eu vi que nenhum quilómetro palmilhado, nenhuma desgraça ou ruína avistada de perto, lhe tirou as manias de superioridade, a tendência para açambarcar o que por direito não era seu, o menosprezo por todos aqueles que andavam na sua órbita, o espírito parolo que se extasia com roncos de motor e telemóveis de última geração. E, na maioria das vezes, nem bom dia nem boa tarde.  

13.6.17

Vulcão

Nunca fui uma mãe preocupada. Sonhei coisas poucas e simples para a infância deles: que brincassem como animais, dormissem como anjos e se sentassem à mesa como príncipes. Cumpriu-se. Mas falhei nos cuidados extremosos, não vedei as escadas, não tranquei facas, remédios e outros venenos. Cólicas, trambolhões, viroses, birras e exames pareceram-me só coisas da vida, que vêm e vão, como outras hão de vir e ir pelo resto dos dias e está tudo bem. Esqueci-me de chorar no primeiro dia de escola. Tudo isto fez de mim fraca companhia para as outras mães e ouvinte desinteressada quando o tema de conversa são os enguiços de rotina, as aflições com amuos, tosses, sonos difíceis, programinhas de tempos livres, um ponto a mais ou a menos na ficha de avaliação.
Às vezes, porém, sem motivo ou sintoma aparente, quando tudo está em paz, qualquer coisa dentro de mim se desarranja. Como um vulcão de repente acordado, emerge uma ideia de futuro, uma imagem do mundo, uma impressão paralela à vida que tenho, e assusto-me. Corro à janela, preciso de os ver e ouvir, mas nem assim consigo alívio. São instantes em que sinto, de forma aguda, concentrada, avassaladora, o que as outras mães vão sentindo em conta-gotas, pelas miudezas do quotidiano. A minha mente é ocupada pela ideia, infeliz, de que eles seguem para o mar alto em barquinhos de casco frágil. E à noite peço-lhes que durmam comigo. Não prego olho porque a cama é pouca para todos e o calor suporta-se mal, mas a angústia vai perdendo corpo, vai perdendo força, esfuma-se e repousa como o pó das coisas passadas.

9.6.17

*

Votam, separam o lixo, ensinam os filhos a dizer por favor e obrigado e acham que isso é prova bastante da sua consciência cívica, do seu trabalho por um mundo que preste.

8.6.17

Florações

O excesso de convívio corrompe-me a escrita. A primavera tem destas coisas, há nela um abuso de disponibilidades, uma transpiração de afeto, uma leviandade nas palavras, uma urgência em estar, receber, visitar. O jornal diz que, nas redes sociais, andam todos nus. As festas estão à porta, tudo é pele, calor, entrega, os dias são tão largos e luminosos que a melancolia não pega. Mas as escancaras não me seduzem. Eu gosto de vasculhar, espreitar pelas fechaduras, arrancar uma peça de roupa de cada vez. O que na primavera me agrada são as florações vagarosas, o intervalo que cresce entre o nascer do sol e o despertar da cidade, a ternura com que a rapariga da papelaria descansa a mão no ventre e se põe a sonhar. 

7.6.17

Infidelidade

De cada vez que escrevo, pergunto-me quantos serei capaz de seduzir, da mesma forma que apenas me lês nos curtos intervalos de outras histórias.

5.6.17

Mrs. Dalloway, Elena Ferrante, a mulher do senhor Pereira e o arroz de cabidela

Fui à estante repescar Mrs. Dalloway porque a mulher do senhor Pereira me fez lembrar qualquer coisa que eu estava certa de um dia lá ter sublinhado. Correm-se alguns riscos ao pegar num livro que se tenha lido noutra idade. É como encontrar um antigo namorado vinte anos depois: quase sempre se revela vulgar, barrigudo e frouxo, desprovido de encantos. Costuma ter por companhia uma mulher com ar de enfado, um ou dois filhos que gritam muito e dão pontapés no ar, um bom carro, e diz coisas sem interesse nem charme, como agora não tenho tempo para nada. É claro que nada disto é facto,  é apenas ponto de vista, outra cadência que tem agora o meu coração, outros os olhos com que reparo. Mas, enfim, a mediocridade de antigos namorados pouco me importa e nem sequer me envergonha. Já no caso dos livros, pode a coisa resultar num grande sofrimento porque à leitura sempre me entreguei com uma devoção que nem de perto os namorados mereceram. Seguro, se queremos preservar memórias de espanto, surpresa e fascínio, é não reler jamais. Então decidi folhear Mrs. Dalloway distraidamente, pela rama, só buscando a frase, cuja lembrança foi disparada pelo breve encontro com a mulher do senhor Pereira. 
Ia ao pão e à fruta, de saltos altos, muito pintada, nem um fio de cabelo ao acaso, deu-me os bons dias com a altivez do costume. É tão trabalhosa a dignidade de certas pessoas.
- E como está o senhor Pereira?
- Está em casa, a ler os jornais. Tem sempre um semanário, quatro ou cinco diários em atraso... mais os desportivos e vai-se o fim de semana nisto. Eu tenho é de me pôr em casa num instantinho, vou fazer arroz de cabidela para o almoço. O meu marido pela-se por um arroz de cabidela, já me anda a pedir há tanto tempo. E o meu filho também vem. Vou fazer se faço a mais para ele levar.
- Então vá lá à sua vida, vá.
Mas ela não vai.
- Posso-lhe fazer uma perguntinha?
- Pois claro.
- A menina lê muito, não lê?
- Vou lendo.
- Já ouviu falar numa Ferrante, qualquer-coisa Ferrante? Tem quatro livros que é a história da vida dela, ou de outra qualquer, não sei.
- Elena Ferrante. Sim, já li.
- E que lhe parece?
- Os três primeiros são assim-assim. O quarto é um enxerto de porrada. 
Julguei que fosse desentender e virar costas. Mas uma onda de luz acordou-lhe os olhos mortiços. 
- Quer dizer uma tareia? Magoa?
- Ou sufoca, não sei bem. Mas leia e logo verá.
Tirou o saco de compras da bolsa, abriu-o, sacudiu-o para se livrar não sei do quê, voltou a dobrá-lo, pressionou muito bem os vincos e guardou-o de novo. 
- Eu antigamente lia muito, mas agora...
Agora nada, pensei. Não fale, não se humilhe. Já sabemos que foi delapidada, desbastada a sua inteligência, apagados os talentos, embotadas as sensibilidades, enquanto o senhor Pereira lia tranquilamente os jornais. Ontem, como hoje, é a forma que ele tem de saber que o mundo gira sem que precise de o empurrar.
- Vá lá, vá, que um arroz de cabidela é coisa para duas horinhas à volta dos tachos.
- A menina sabe fazer?
- Não.
E ela, a pose recuperada, um sorriso lateral, uma ponta de sarcasmo:
- Já imaginava.

Ah! Eis a frase em Mrs. Dalloway"Apesar de duas vezes mais inteligente do que o marido, tinha de ver as coisas pelos olhos dele – uma das tragédias da vida de casado."

2.6.17

Matéria-prima

Quando um Homem morre, até à forma como coçava o rabo lhe atribuem maravilhas. O cadáver é a mais antiga matéria-prima da estátua.
Chegando a minha hora, por favor, não me façam igual pois por cada grandeza inventada, falseada e apregoada, no íntimo de cada um virá à lembrança uma prova do oposto, qualquer infelicidade que eu tenha cometido, um pé na argola, as costas voltadas, palavras malditas, os sete pecados emergindo em dias de turbulência. E entre a cerimónia e o sentimento poderá haver abismo tão fundo que eu ficarei na dúvida, no limbo, no purgatório. Prevaleça a humildade entre vivos e mortos na hora em ela faz mais sentido: não se armem uns em juízes, nem se louvem os outros como deuses. 

1.6.17

Selinho Blog em Bom: a escolha da Mãe Preocupada

Às vezes, não há como fugir ao circo. E quem, como eu, o espreita mas evita a arena, talvez mereça, de vez em quando, ser obrigada a vestir um fatinho de licra e lantejoulas e a saltar o arco de fogo.
Pipoco Mais Salgado voltou a arrastar-me, pela terceira vez, certamente mais pelo gozo de me ver com esse fatinho do que por achar que eu dê espetáculo que preste. Em todo o caso, grata pela nomeação. É sempre uma honra ser escolhida pelo dono disto tudo da blogosfera, quando o sabemos tão seletivo mas também incapaz de ponto sem nó.

Aqui fica o selinho que me foi atribuído - valha-me Deus, que selinho!


Olhos

Faz tempo que não conheço uns olhos vadios, curiosos, espantados, amantes do acaso e do detalhe. Que digam qualquer coisa da sua dúvida e da sua vontade. Parecem todos muito certos da direção que tomam, apontando uns às biqueiras dos sapatos, outros ao carro da frente e quase todos ao fim do mês. Mesmo assim, as senhoras vão abaixo nos seus tacões impossíveis e os cavalheiros tropeçam nos degraus, mas nem uns nem outros espreitam pelo canto do olho para saber se há quem, como eu, tenha ficado a rir.

30.5.17

Savasana

Mesmo de olhos fechados, vejo o bailado de luz solar que o movimento das águas projeta no teto. Dá uma ilusão de claridade interior, de expansão, que ajuda a imitar a morte. 
Não sei porque é que a autoridade tributária e aduaneira gosta tanto de mim e me convida tantas vezes a ir à sua casa, onde passo sempre algumas horas a provar que sou remediada e gasto muito em educação. Os bloggers não me interessam por aquilo que dizem mas por aquilo que veem. Podem tentar enganar os leitores com auto-adjetivações, copiar pensamentos e doutrinas, mas é impossível simularem aquilo em que jamais repararam. A rapariga da papelaria vai ter uma menina. Nunca me engano. Mas se lho digo, há de julgar que estou a rogar praga. Tive uma colega assim: pedia muito para ter um menino. Quando engravidou, disse-lhe que ia ser uma menina, ela bateu três vezes na madeira como se tivesse tido uma visão do demo. Não me enganei. Cada vez mais farta de ouvir culpar a juventude, como se a miséria de cada época fosse de geração espontânea. A inveja é como o cancro, quando se vê por fora é porque já destruiu tudo por dentro, tenho de anotar esta frase. É para mim um mistério que tantas mulheres independentes e desinibidas se franzam de nojo quando se lhes fala do coletor menstrual. O corpo é sempre mais fácil por fora do que por dentro, penso. Quando eu era pequena e me portava mal, o meu irmão chamava-me comunista-marxista-leninista, assim, de uma assentada, e ainda hoje, se debatemos grandes causas, atira bala semelhante, mas agora acabamos a rir, porque os dias, não parecendo, são de temperança. Todas as tardes passo debaixo do viaduto precisamente à hora em que as meninas do colégio, encantadoras nos seus uniformes de inspiração escocesa, se cruzam com as prostitutas cheias de bijuteria dourada a ocultar a decomposição da carne. É um quadro insólito, que me atrai tanto quanto me angustia. Gostaria de as colocar cada qual num tempo que pudesse fechar-se sobre si para se livrar de contaminação: as prostitutas são passado, um novo futuro há de vir com as meninas, inocentes e aplicadas. Mas o tempo não tem prateleiras e o futuro das meninas do colégio é tão cheio de trágicas possibilidades como foi inocente o passado das prostitutas e saber que tudo corre como um rio aonde tantas águas afluem e cuja foz está no segredo dos deuses, perturba e despista.
Abro os olhos e a luz, sem o filtro das pálpebras, magoa como qualquer coisa alheia e despropositada. Há dias em que tenho muita dificuldade em morrer.

29.5.17

Autoridade

Numa feira do livro em saldo, de onde saí de mãos a abanar, a adolescente reclamava baixinho com o pai, apressado de ir ver a bola: mas eu ainda não encontrei o que procuro, papá! O homem, à roda dos quarenta, colarinhos levantados, barba num falso descuido, olhar de viés pousando de fêmea em fêmea, bufou. 
- Mas que queres tu, afinal? 
- Quero Um Amor de Perdição, um qualquer, deve haver tantos...
Ele deu um jeito aos colarinhos, pegou num livro ao calhas, folheou-o sem o ver, e exerceu como soube a sua autoridade paterna:
- Não te metas nisso, Maria Francisca!