30.9.16

Retrato

Há coisas que lembro como se fossem retratos. Desses em que, num único segundo, num divino vislumbre, se revela, congelado, o sintoma de todo o absurdo, angústia, paixão, miséria, grandeza ou enigma do mundo. Não sou protagonista de nenhum desses retratos. Mas alguns perseguem-me, aparecem como lembretes depois de uma curva, no despontar da madrugada, ou naqueles instantes em que a tranquilidade me sustém, deliciosamente, na antecâmara de um sono profundo.
Porque a moldura é apertada, nunca recordo o supérfluo: em que dia foi, que tempo fazia, como começou e o que se deu depois. Não há ar, profundidade de campo, paisagem. Não os havia esta manhã, quando vi um garoto da idade do meu filho, bonito, limpo e bem vestido como ele, de mochila às costas, sovando a cabeça da rapariga com quem ia de mão dada. Vi pelo retrovisor, travei de repente, por um triz me bateram atrás, os condutores que me seguiam enlouqueceram, dispararam as buzinas, o garoto e a namorada desapareceram no virar da esquina. Terrível fatalidade: rua de sentido único.
O resto do caminho chorei como não é meu hábito chorar. Começou por chorar, angustiado, o meu coração de mãe. Depois chorou de raiva o meu coração de mulher. E chorou também de medo o meu coração de filha. Por fim, quando estacionei o carro à porta do trabalho, chorei somente como cúmplice. 
E o retrato ficou.

29.9.16

Visões do amor

A rapariga da papelaria insiste que só há de ser mãe de homens e pede a Deus que ajude, fazendo, não conforme a Sua vontade, mas a dela. Muito saudosa do que ainda tem por viver e que não dispensa a dádiva de um amor fecundo e, de preferência, eterno, inclina a cabeça e olha para os meus filhos, espreguiçando-se num sorriso: eles têm cá uma adoração por si... Vou para corrigi-la, adorar não é o termo, mas desarma-me todo aquele romantismo. Além disso, noto-a cada vez mais descrente. A mudança de visual deu em nada, as velhas lá da rua continuam a querer impingir-lhe homens sem graça nem emoções, é deixá-la ao menos supor, fantasiar.
Ouço dizer que as meninas, a certa altura, tornam-se inimigas das mães, explica-me ela, e não estou para isso. Já os meninos, ah!, tratam a mãe como princesa, rascunham nela as primeiras visões do amor e hão de escolher as namoradas por comparação, lembrados do seio, das papinhas, do cuidado pronto e sábio. Ao dizer isto, cruza os braços sobre o peito, fecha os olhos e embala o filho imaginado que a há de compensar por tanto tempo à espera do verdadeiro amor. Depois, as mãos escorregam até ao ventre, onde deposita a esperança desse ajuste de contas com a vida, e, ignorante e leviana, sussurra-me: invejo-a tanto.
Disfarço o arrepio, deixo votos de felicidade e saio sem lhe dar as costas.

28.9.16

Sementeira

Eles sustentam o ânimo com futebol. Elas com o diz-que-disse. Noutros assuntos, se alguém os puxar, fingem interesse e até alguma preocupação, envolvem-se na medida do possível, recorrendo a frases feitas para se livrarem de aprofundar o debate, "nada a fazer, é o país que temos""é inútil discutir porque não se chega a conclusão", "não percas tempo a indignar-te". 
Mas é ver como se iluminam e respiram do alívio de quem retorna a casa se a conversa volta a cair na nova aquisição do clube ou em suposições sobre a outra que ali vai. Assim se preserva um bom ambiente, uma duradoura camaradagem que é feita, não de afinidades de alma e intelecto, não de enriquecimento mútuo, mas do consumo dos mesmos paliativos. Nada disto seria tão insano se a maioria não vivesse em permanente temor do que o outro julga a seu respeito, cuidando muito bem dos seus gestos, do modo como atende e sorri, do falso elogio que dirige, da babosa disponibilidade para o favorzinho de circunstância que não dê muito trabalho. 
Há lugares que parece que foram especialmente talhados para sementeira de hipocrisias. Na hora de colher, é o grau de maleabilidade do caráter que determina quem mais açambarca.

27.9.16

Há um país...

... em ambos os extremos da autoestrada número um, onde se romantiza com o cheiro de lenha queimada e se toma o odor dos canteirinhos encharcados do condomínio pelo aroma franco da terra molhada. Orgulham-se quando lhes dizemos que ali é que é, cultura a rodos, ao nível das melhores da Europa, os guias turísticos não mentem, o futuro está mesmo para ficar. Há muito que fazer e, felizmente, o ruído é tanto que até parece que a festa é comum ao mundo inteiro. Nesse país, são facilmente seduzidos pelo "genuíno-gourmet" e acham bonito, louvável, que se recuperem os sabores do passado pelo quádruplo do preço, desde que a torta e as compotas da avó sejam servidas nas zonas mais in, com talheres de design, por pessoas pós-graduadas de cabelos bem alisados, e tenham sido recomendadas na secção de lifestyle. Levam os filhos para que eles aprendam a importância das tradições e valorizem o empreendedorismo que favorece a preservação da identidade nacional. E tão querida – porque assética – é a identidade nacional quando devidamente confinada a um restaurante, a uma loja, ou a uma galeria! Enquanto comem, fotografam e publicam os pratos e ficam satisfeitos ao verificar a quantidade de gente que, àquela hora, não faz mais do que pôr gostos.
No momento de fazer a conta, cada um recorre à calculadora do smartphone para dividir o total por dois. É só mesmo para evitar demoras, porque, afinal, tempo é dinheiro. E se um escasseia, ao menos que abunde o outro.
É um país que há mil anos se suporta a si mesmo todos os dias. E que acredita ser já passado, raro e insólito o que, por mero acaso, lhe surja no caminho repetido: uma boca sem dentes, uma casa sem luz, uma criança sem livros, uma porta entreaberta para a miséria, a ignorância e a solidão.

(em oposição a isto)

19.9.16

Semáforo

De favor e de raspão, beijam-se os casais na despedida. É para isto que misericordiosamente se faz o vermelho dos semáforos e mais tempo não é necessário para elas se apearem e eles reporem os olhos no ponto de fuga da estrada. Motorista e passageira. Pelos lábios se encontram como quem lava os dentes, calça as meias ou faz a cama: corpo e pensamento em dissonância.
Imagino raivas, neuras e egoísmos de quem tem mau acordar. Ou a derradeira vitória do silêncio sobre ajustes de contas quotidianos. Ouvi dizer que se fazem de modo exasperado e insistente até por causa de tampas de retrete. Também me ocorre que se tenham endividado para o carro que os leva, tal como se terão endividado para a casa, quem sabe ainda para as férias sonhadas e que num instante se foram. E o amor - oh, Deus! - afinal não chega para saldar tanto. Amontoa-se então a vida sob a forma de tralha indivisível, assinada por ambos e avalizada pelos construtores de prisões de alta segurança. 
Cai o verde. Pisca o alerta a quem mudar de direção. Eles arrancam, inexpressivos como barro, e já elas viram a esquina com as malinhas a tiracolo, as blusas lisas, sem o rasto de mãos que exploram e desejam a horas impróprias, e o batom por esborratar. Segue cada um com a sua razão, o seu sono e pouco mais. É preciso avançar, é preciso cumprir.
Talvez alguns destes amores se recomponham no final do dia. Se a televisão não falar mais alto, poderão esclarecer motivos, lamber feridas, perdoar o que por impulso ou leviandade se tenha dito. Depois, com o sexo, a bandeira branca e o alívio. E a cama voltará a ser aconchego, ponto de encontro dos sonhos que a mais ninguém se confessa. Já passou, a vida é mesmo assim, um deles dirá. Até amanhã.
Mas outros destes amores, sem remédio, continuarão mudos, pálidos e pavorosos, como um cadáver a quem ninguém tem coragem de fechar os olhos e enterrar de vez.

15.9.16

Regresso às aulas

Junto ao portão da escola, dois garotos desdentados, de braço dado:
- Chove a sério!
- Sabes o que isso quer dizer?
- Que chove a sério!
- Pois, mas quer dizer que Deus está a chorar.
- Ah, sim, boa!
- Mas sabes outra coisa? - o tom de voz baixa, vem aí segredo.
- Diz...
- Deus só chora por um olho.
- Oh! Porquê?
- Porque com o outro está a vigiar o mundo.
O amigo primeiro franze a testa, depois alcança a iluminação:
- Então deve ser por isso que ele chora!
A dois passos, as mães conversam:
- Estás a ver, Susana? Tem-me a mania que é poeta ou o caraças. Digo-te uma coisa: se este ano correr como o anterior, não sei se aguento. Nem a tabuada do dois me sabe!  
- Deixa, o meu é igualzinho. Ainda noutro dia virou-se e ó mãe, o que é que eu vou ser quando morrer? E eu, não é quando morreres, é quando cresceres. E ele, quando crescer vou ser piloto de aviões, mas quero saber o que vou ser quando morrer. E eu deito as mãos à cabeça, valha-te Deus! agora tenho de meter a louça na máquina, depois perguntas isso na catequese.
- Olha, pelo menos são rapazes, isto com o tempo passa-lhes e qualquer dia já só querem saber de bola. Se fossem meninas eram mais ingratas de criar.
Mas já a outra se desinteressou e sintoniza em frequência oposta:
- Sabes o que é que me chateia, Paula? Esta humidade. Frisa-me o cabelo todo! Tanto trabalhinho de manhã pra nada!

7.9.16

Setembro

Esta semana, a cidade começou a compor-se. O sangue acelerou e a tensão fez renascer os êmbolos nos lugares habituais: avenida AEP, nó da Via Norte, túnel de Águas Santas, nó de Francos. O arrumador recuperou a sua utilidade e anda outra vez com os bolsos cheios de trocado e de beatas apanhadas do chão e dos cinzeiros públicos. As sirenes voltaram a gemer e às oito da manhã já as buzinas gritam por dá cá aquela palha – sai da frente, chega-te para lá, deixa-me passar que sou mais importante do que tu, ó domingueiro. Ninguém diria que esta gente relaxou, amou e se divertiu em agosto tanto quanto jura e exibe. De um dia para o outro, emergiram do fundo da alma os seus tormentos, adormecidos que estavam pelo sal das águas, que tem afamados poderes anti-infamatórios e desobstrutivos. 
As mulheres comentam a queda do cabelo: que outono tão precoce e injusto este, ao engano meteu-se a desbastar penteados em vez de árvores. Perante a insistência da velha mendiga, os homens desesperam, apalpam-se e pedem muitas desculpas por faltarem à obrigação da caridade, que está a ser vigiada por mil sondas. "Não tem dinheiro?", pergunta a velha endurecendo os seus olhos tão bem vestidos de abandono."Como não tem?" E eles prestam contas com detalhe, vulgares subalternos de um poder que respira em todas as ruas mas que ninguém vê. Um deles até abre e mostra a carteira, a jurar que não tem nada. Uma aflição de causar pena."Então veja lá se prá próxima...", ameaça a velha, oh, tão doce e coitada ela é!
Também já se ouve o choro das mães que se preparam para entregar os filhos na escola. Os meus só voltaram agora para casa. Cheiro-os, meço-os, percorro-lhes o corpo com as mãos abertas em busca de mossas, nódoas, atestados de fracasso e medalhas de coragem. Está tudo bem. Já não são os mesmos, olho para cima para falar com o mais velho, preciso de pensar três vezes para entender o mais novo, mas está tudo bem, conforme a natureza dita e eu acato, agradecida.

3.9.16

Ausente

Quando o meu filho atravessou a fronteira sem mim e eu andei de joelhos a recolher os destroços do cordão umbilical, onde estavas? E quando me estatelei num beco sombrio e me condenaram a olhar o teto por trinta dias? Onde estava o teu escudo e a tua determinação quando foram disparadas setas contra mim? E quando enfiaram dedos e sondas nas minhas cicatrizes? E quando eu agonizava de todas as folhas estarem ainda em branco, onde estavas? Em que cómodo resguardo te encontravas enquanto eu escalava montes à força de pulso com os meus filhos no colo? E quando adoeci, acaso as tuas mãos me mediram a febre e prepararam o caldo? Nas raras noites de mau dormir, quantas gotas de alfazema pingaste na minha almofada? Onde estavas nos imprevistos e nos dias em que os mortos se levantavam? E, enfim, onde estavas quando o território da minha felicidade se expandia ou quando a luz mostrava os contornos da verdade ou quando eu estoirava a rolha do espumante? Quando fui a melhor, a mais querida, a mais celebrada, onde? Em que chão tinhas os pés repousados quando eu inaugurava caminhos novos?
Apesar de tudo, dedicaste-me a tua vida em sonhos e devaneios. Muitas vezes terás acordado a meio da noite ereto e desnorteado, porque entre as sombras rompeu, iluminada, a visão da minha nudez e do meu cálice. Julgo que chegaste a casar comigo na enorme catedral da tua imaginação e abençoou-nos um coro de anjos que foste buscar a vidas passadas e a suposições futuras. Juraste-me fidelidade diante de um padre sem olhos e desautorizado por Deus. E assim te idealizaste meu guardião, meu amigo, meu amante, feliz de poderes ver a curva do meu pescoço, a prega da minha saia, a aura do meu suspiro. Mas nada disso tem grandeza alguma a não ser quando é dito em verso e pela boca dos poetas.

2.9.16

Descobrir as diferenças

Não bastando a fórmula elementar do dicionário, cá está a vida para desfazer equívocos e simplificar a distinção: aquele que, por cortesia e sentido do dever, comparece à necessidade é atencioso. O que se move pelo nobre sentido da dádiva, superior a expectativas e à cartilha dos bons modos, e nisso vê um sentido para ser, é generoso. E se ao primeiro é preciso pedir ou dar sinal, o segundo até de olhos fechados sabe para onde conduzir a sua mão.
Também o primeiro espera que lhe agradeçam para ter estímulo a repetir o ato de valor. O segundo, de nenhum pagamento depende, pois é consigo mesmo que tem por hábito acertar contas.

1.9.16

O método do amor

O príncipe William baixa-se para falar com o filho e a imprensa entusiasma-se. Chamam psicólogos, pediatras, pedopsiquiatras, para explicar que se trata de "escuta ativa" e que tem motivações claras e efeitos cientificamente comprovados. Confiai, portanto. Isto tem um nome e foi concluído por gente estudiosa, que o amor por si só não chega lá nem é credível como argumento. Deus nos livre de agir por puro e desinteressado afeto. Não se baixe um pai por cumplicidade, mas por estratégia. Não olhe nos olhos por magnetismo, mas por critério. Não ouça com atenção por gozo, mas por dever. Tudo com método, senhores, tudo com método, coordenadas e objetivos, que o instinto é dos bichos, não dos homens. 

(lembrei-me do senhor Casimiro, o antigo porteiro da escola do mais novo, que se baixava para falar com os que nem seus filhos eram. Duvido que ele conheça os estudos, suas conclusões e nomenclaturas. Mais certa estou da sua inteligência e humanidade. Mas, enfim, ao pé de um príncipe, que há de ter um porteiro de uma escola para ensinar ao mundo?)

30.8.16

A vida não é assim

O discurso de que as crianças precisam de se adaptar a um mundo injusto, duro e desigual, não me comove nem conquista. Gerar um filho esperando dele que enrijeça e sobreviva é uma ambição medíocre. Quase uma negligência. É a prova de que ninguém quer a mudança, à maioria bastam o conforto da lamúria, espaço para indignações sem pernas para andar e herdeiros que lhe façam eco. 
No mundo ideal, a criança vem para transformar, jamais para se alinhar. Calem-se os amargos, os descrentes e os resignados. Também eu tenho queixas, penas e limitações, mas não serão elas a apontar o caminho aos mais novos. A vida é assim é um crime contra o futuro.

29.8.16

Primavera

Nasci sob um signo de terra e faço jus a essa minha condição astrológica. Não me apanharás em grandes devaneios, ímpetos ou distorções. Quero com nitidez, amo com lealdade, sofro com disciplina. Mas porque vim no tempo da secura, do frio e das sombras, diante de qualquer coisa que respire, cante ou brilhe, eu estremeço, abro os olhos e começo a sonhar, julgando estar aí a primavera.

25.8.16

Um rio

Disse ele:
- Desculpe lá, não leve a mal, sou assim, sou transmontano.
Rematei eu:
- Desculpe lá também, não leve a mal, sou assim, sou duriense.
Ficou a olhar-me, fixo e mudo. Conto que tenha percebido que a raiz é justificação medíocre, recurso de quem se descobre vazio de argumentos e põe fora a responsabilidade. Nem tudo o que nos define nos desculpa. Transmontano, duriense, algarvio, beirão, minhoto... no crime, no pecado ou no sucesso, a terra de onde brotámos está absolutamente inocente. Só na arte ficam bem as geografias do caráter. 
Nem o ermo fraguedo dele nem os meus socalcos doridos são a causa do que, mal ou bem, fizemos e dissemos. No fim, acabámos por nos entender. Bem vistas as coisas, é o mesmo, e de mítico feitio, o rio que nos liga.

24.8.16

Microscopia

Duvido que algum dia este blogue se livre do relato das miudezas do quotidiano. É o modo como sei olhar. Não que não dê atenção às coisas enormes, às catástrofes, às mudanças, às polémicas, às descobertas. Mas em tudo o que há de grande, eu gosto de ver o pequenino. Está sempre ao meu lado, no meu dia-a-dia, na minha rua, no meu percurso, no meu trabalho, na minha praia, na minha vista, nas histórias que os meus filhos trazem, até no meu lado negro, a causa de todas as coisas serem o que são.
Os que julgam que vivo alheada ou indiferente ao que se passa no mundo e rola nas notícias, saibam que me agrada mais pensar na semente quando vejo que há sururu em torno da copa da árvore. É nula a utilidade disso, eu sei. Mas, como eu disse, é o meu modo de olhar. Não o escolhi, cresci com ele e acabei viciada. 
Quando penso na mulher que durante as festas abandonou o marido – tão feliz e serena eu a julgava! – e vejo que ele tem de ir à churrasqueira para comer e ouço os seus tormentos noturnos e a sua linearidade diurna, por exemplo, eu descodifico uma parte dos acontecimentos do mundo. Quando a mulher do Senhor Pereira chama coitadinhos aos meus filhos eu descodifico outra. Quando a rapariga da papelaria muda a roupa e o cabelo para atrair o verdadeiro amor, outra. E o arrumador, esta manhã, gesticulando, saltando, apontando, gritando "aqui chefe, aqui!", julgando-se imprescindível à hora em que, na realidade, a praça estava tão vazia que até um comboio podia entrar aos piões! 
A humanidade não precisa de grandes teses para ser explicada. Qualquer bairro serve.

23.8.16

Festas da Nossa Senhora daqui

Terminada a procissão, o povo reconciliou-se com a sua natureza original. Desfizeram-se os arranjos de flores, recolheram-se as velinhas. A fanfarra dispersou e os automóveis tiveram autorização para voltar a chiar os travões e pingar óleo no santo caminho, tão devotamente enfeitado por três dias. Devolveram a Nossa Senhora daqui à penumbra fresca do altar, de onde não pode ver como é rija e persistente a matéria das ofensas que lhe fazem. Os anjinhos desembaraçaram-se de asas e auréolas e voltaram à sua terrena inocência, que se exprime no desacato e no prazer, tem olhos ávidos, joelhos sujos e um sexo que há de vir a ser discutido. O presidente da junta pôde finalmente dobrar as costas, livrar-se do fato escuro e de outras solenidades de ocasião e fazer-se uma pessoa comum, cheia de fome, sede, ganas de abanar o capacete. 
Seguiram todos para a banda oeste da freguesia. Invadiram a estrada principal caminhando aos magotes pelo asfalto, com determinação e euforia, como se um destino de merecidas grandezas os chamasse. Esperava-os na praça meia dúzia de barraquinhas de comes e bebes, geridas por mulheres de muito brio a troco de nada, e um cantor suficiente para reproduzir todas essas pimbalhadas que autorizam novos e velhos a escoar a malícia. Ajoelhou, vai ter de rezar. E a insuspeita marinada em que, por cautela, se preservam as emoções quotidianas, levantou fervura, empurrou a tampa, escaldou as ruas. Pela noite dentro, a gente esqueceu como se leva as mãos ao peito com fervor - pelo menos ao próprio. Cumpriu-se a festa tal qual nos outros anos. O fogo de artifício foi pobre, à medida do orçamento, mas ninguém perdeu o dom de se maravilhar e aplaudiram-no com orgulho, como a mãe aplaude o filho só por ele ser seu ainda que não valha muito.
Muitos homens foram para casa bêbados e andaram às voltas antes de acertar na rua, praguejando com fantasmas e duvidando da sanidade do mundo. As garotas ficaram até mais tarde, deram-se à conversa e à vontade dos rapazes, porque em nome da Nossa Senhora daqui foram alargados os horários e as permissões. Por muitas horas ouvi mulheres debaixo da minha janela entretidas na elaboração de suposições acerca da vida alheia e, deste modo, adiando o regresso à cama.
Nessa noite, outras coisas aconteceram aqui nas redondezas, mas foram abafadas pela chinfrineira do arraial. Por exemplo, uma mulher fez a mala e partiu para sempre com a filha, abandonando o marido aos cuidados da churrasqueira da rotunda. É bom homem, mas muito fraco dos nervos, cheio de cismas e terrores. E o amor não sobrevive a tudo.

22.8.16

Compromissos publicitários

A publicidade é uma ofensa explícita. Berrasse menos e talvez desse para disfarçar, mas tão escancarada e presente... como não perceber? Trabalhá-la só me diverte porque me concentro no processo e me abstraio da intenção e da consequência. Postas as coisas cá fora, nas paragens de autocarro, nas revistas, nas autoestradas, nos intervalos das novelas, envergonho-me e renego tudo. O mais novo, às vezes, aponta com o dedo: mãe, olha o que tu fizeste! Mas o que nele é apenas orgulho, pesa-me como uma acusação. 
Para me consolarem, alguns dizem-me que a publicidade é incentivo ao consumo e que o consumo põe a economia a mexer, sugerindo que afinal eu cá também dou o meu valioso contributo para tirarmos os pés da lama de uma vez por todas. E depois, se não fosse a publicidade, como se saberia das novidades, dos pacotes, das promoções? Como fazer as melhores escolhas, como saber o que presta e não presta, do que são feitas as coisas, que causas e valores defendem as marcas, com quais nos identificamos? E não é bom ver que os produtos se vão aperfeiçoando, cuidando para que nada nos falte, perseguindo a nossa felicidade e bem-estar?
E ao ouvir tudo isto que me dizem concluo que afinal não: não é o meu trabalho que sustenta e promove o consumo, é a ingenuidade da multidão. 

19.8.16

Bom dia

Tal como em todas as outras, nesta manhã acordei com alívio. Não sofro de apneia do sono nem, felizmente, de qualquer outro mal que me aproxime do abismo da morte enquanto durmo. A minha vulnerabilidade reside precisamente no oposto: na consciência da vida. É por saber do que sou que sei do risco que corro. Quando a Lili Caneças disse que estar vivo é o contrário de estar morto, toda a gente se riu por ver ali uma lapalissada, ninguém notou que era um pequeno equívoco.

*
À chegada disse bom dia e a senhora da limpeza revirou os olhos: só se for para si. Não estava triste, só queria parecer triste para condizer com o mundo e obter a sua aprovação. E o mesmo ou semelhante me foram respondendo os outros ao longo da manhã, tanto pobres como ricos, amantes e solitários, chefes e subalternos, informados e alheados, doentes e saudáveis. Senti-me um ultraje, uma ofensa a essa infelicidade geral que por arrogância se presume emparelhada com a lucidez. 
À medida que o dia findar, os humores hão de compor-se e uma alegria infantil, urgente, renovará o ar, abrirá sorrisos, amaciará o tom das conversas. Afinal, é sexta-feira e as previsões anunciam o regresso do sol. É sabido que nas pessoas muito lúcidas, a felicidade, além de rara, depende de coisas elevadíssimas como o calendário, o relógio e o tempo que faz.

17.8.16

Uma desilusão

Ando a ler um romance cujos personagens são todos portadores de profundas, rebuscadas e eloquentes teses existenciais. A intelectualidade e a filosofia a martelo. A explicação da vida, da morte, da condição feminina, do amor, da maternidade, do trabalho, tudo sob a forma de sentença. Os diálogos não têm o pulsar espontâneo das verdadeiras conversas. Todos os momentos são iluminados e analíticos. Nada sobra para deduzir, ninguém profere interjeições, ninguém interrompe ninguém, não há dúvidas, reticências ou descontrolo. Em suma, a vida não acontece.
Passa uma gaivota aos guinchos no céu e nem pensar em pôr um homem incomodado a dizer "esta cidade está que não se aguenta de passarada!". Antes: "já reparaste como animal e ser humano vivem infligindo-se tão horríveis torturas, um invadindo o espaço do outro, como se competissem por uma divindade, algo que os transcende e que buscam desesperadamente alcançar? Será o propósito de cada ser, no limite, a extinção do outro?". Há de responder a mulher: "e não crês que aí reside o motor da evolução? Será a destruição, na verdade, o impulso da vida ou mesmo do amor se o considerarmos como uma manifestação de básicos e até predadores instintos?" Passa a empregada e diz "minha senhora, para quem, como eu, nasceu e cresceu no campo e não conheceu vida que não fosse de fome e trabalho, a verdade é outra, talvez mais simples mas não menos importante porque deveras a sinto: as aves resumem aquilo em que nós, humanos, falhamos: a liberdade. Por isso o seu grito ofende. Mas pior, minha senhora, são os excrementos que largam no quintal, eles simbolizam a força de uma espécie que, apesar de desprovida de consciência e razão, tem a mais mortífera e corrosiva de todas as armas. Mas, enfim, que sei eu?, a minha condição é de uma mera criada cuja sabedoria jamais poderá exceder a destreza com que lava os cristais para os banquetes dos senhores". 
A empregada sai. O homem: "Não te parece que há nesta rapariga qualquer coisa de subversão? Porque não a dispensas? São estas as pessoas que precipitam a desgraça social!" A mulher: "Pobre de ti, tão douto porém de tão falível moral! As tuas palavras revelam o quanto temes as mulheres enquanto seres capazes de idealizar e transformar. Recusas o poder do feminino e, com isso, recusas-te a ti mesmo pois não és senão o fruto desse poder! E, de resto, para equilibrar um lar são necessárias forças antagónicas. Sem esta empregada, a nossa família perderia o norte por não ter a materialização dos demónios contra os quais luta e que, no fundo, justificam a sua existência quotidiana."
O outro: "Queres tu dizer que toda a vida é, inevitavelmente, uma luta?" 
Ela: "Talvez, mas és tão óbvio e superficial no modo como o dizes que me sinto desprovida de ânimo para continuar a conversa. Simplificar assim as verdades é ofender a grandeza dos espíritos que as concluíram. Agora vou dormir um pouco. Acredito que o sono é o único estado em que podemos experimentar as vidas a que não fomos destinados. Há quem chame a isso sonhos, eu chamo-lhes existências paralelas e fragmentadas. Felizes os que não recordam o que sonham pois estão livres da angústia de saber que são apenas uma ínfima parte de tudo o que poderiam ter sido."

É inútil ir ao google. Estes diálogos não existem, são uma invenção medíocre e amanhada à pressa para servir de exemplo.  Mas, enfim, não se tire o mérito a este romance que ando a ler. Eu é que não chego para ele.

15.8.16

A felicidade, graças a Deus

A mulher do senhor Pereira nunca fez questão de ser feliz, basta-lhe que os outros a suponham feliz. Pertence àquela vasta e insuspeita categoria de pessoas que asseguram a manutenção do sistema e tornam dispensável a tirania e o policiamento escancarados. Por ser oposta à natureza de todos os seres, a sua moral é desumana e inflaciona o valor da segurança em detrimento do livre arbítrio. É normal estas pessoas tornarem-se arrogantes, provindo o seu complexo de superioridade da certeza de que aos descendentes não deixarão vergonhas, divórcios ou dívidas, mas uma casa e um pezinho de meia que dignifique o nome da família e mantenha o respeito através das gerações.
A felicidade é um desejo leviano, uma inconsequência e uma fonte de frustrações. Por si só, poderá constituir uma meta? Como, sendo tão ambíguo o seu significado? Diga uma pessoa para si mesma o meu sonho é ser feliz e passará os seus dias aos ziguezagues, sempre negando uma coisa para alcançar outra, caindo em abismos por querer livrar-se de grilhões, afundando-se por recusar morrer à sede. Oh, não! Não é assim com a mulher do senhor Pereira! A prudência e o calculismo mataram-lhe os talentos, esfriaram-lhe os afetos, tiraram-lhe o direito de se revoltar contra a traição, mas deram-lhe o que pediu: estabilidade. Pergunte-se-lhe como vão os filhos e ela, compondo com muito jeitinho a cabeleira de negro falso, responderá que as raparigas, licenciadas, casadas e já mães
, graças a Deus. E o rapaz... bom, tendo o seu feitio, tem também os seus direitos. Afinal, qual é o filho bem amado que não torna sistematicamente à casa materna para se consolar com a melhor comidinha e ter a roupa lavada como deve ser? Às vezes vai ela a casa dele fazer uma limpeza geral, que as empregadas hoje em dia só varrem por onde passa a procissão. É com gosto, naturalmente. E o marido? Ora, a prova de que está muito bem casada é que aos sessenta e seis anos ainda não precisou de aprender a mudar uma lâmpada nem de se preocupar com assuntos de bancos, graças a Deus
A mulher do senhor Pereira não sabe que eu sei do dia em que ela premiu a tecla verde do telemóvel dele e escutou aquele cumprimento amoroso, cheio de uma quentura que ela jamais soube dar ou receber. Por isso, quando me encontra aproveita para exercitar mais um pouco a sua arrogância. Amiúde dirige-se aos meus filhos como coitadinhos e, mais pelo sentido do dever do que por honesta preocupação, se algum dia a menina precisar de alguma coisinha... Está convencida de que fomos vítimas de uma enorme e irreparável desgraça. Mas eu penso igual acerca dela, apenas me inibo de lhe aplicar aquilo a que Agostinho da Silva chamava de "suplementos de humilhação", essa falsa generosidade que se inclina à pena por não ter outro motivo além do engrandecimento próprio.
A mulher do senhor Pereira não é rara nem se apresenta com originalidade. Sofre de um mal comum, que contamina silenciosamente e com mais facilidade do que se supõe. E ri com espalhafato, ri de uma ponta à outra da rua, ri entrando nos cafés, nos cabeleireiros, no pronto-a-vestir, ri para que toda a gente saiba que, graças a Deus, não há nódoa que lhe caia no pano.

11.8.16

Madrugada

Ainda o sol por nascer e a vizinha sai a passear de trela o gato siamês, perturbando a minha meditação. Supõe-se que nada perturbe quem verdadeiramente medita e, com efeito, já meditei com salvas de morteiro, tempestades diabólicas, arraiais ao virar da esquina, desatinos entre bêbados e euforia de canalha. Mas a vizinha anda de um lado para outro a arrastar os chinelos e a murmurar tolices ao gato, cuidando que mais ninguém a ouve, porque a esta hora só os sacrificados, os insones e os tolos como eu estão a pé. E a minha consciência, quieta e expandida tal qual um lago no regaço das montanhas, agita-se como se lhe desse o vento – lá se vai o perfeito reflexo do infinito na minha profundidade! 
Chego à janela. A iluminação pública ainda cintila e, num quintal próximo, um homem em pijama trata das galinhas. As rolas vêm em bando colonizar a árvore onde em tempos o mais velho tinha a sua fortaleza e marinava sonhos de lonjura e rebeldia. 
Quando o gato siamês aninha o rabo, compenetrado na libertação do que não mais lhe pertence, a vizinha põe-se a rezar bichano lindo que é da dona, bichano lindo que é da dona, bichano lindo que é da dona. E eis a singeleza do quotidiano a ressoar em contra mão, de fora para dentro de mim, galgando sem ponta de esforço a muralha que me salva de morteiros, tempestades, arraiais, desatinos e euforias. 
Por hoje, desisto. 

10.8.16

Paralelo 15 N

O senhor Pereira, pois claro! Vem sempre a propósito e, repescando-me algumas fúrias, atiçando as minhas inflamações crónicas, salva-me de cometer excessos de tolerância. Porém, coitado, tão cheio de gentilezas e maneiras de pai, nunca me fez mal algum a não ser o de desenrolar, em cada encontro, o mapa psíquico deste país.
Está agora bem longe, o senhor Pereira. A imaginação mostra-mo de bandulho cheio, torrando na beira de uma piscina, rindo sozinho de um prazer superior, vitorioso e genuinamente feliz. Sorte a dele, que é de poucos. Ainda há dias me confidenciava a menina da EDP que duas semanas de férias são nada: durante a primeira persegue-a o trabalho deixado para trás, na segunda já lhe dói o trabalho por vir. Tormentos destes não aparenta o senhor Pereira. Mantém o jeito risonho e aquele modo de ajuizar com leviandade e distância, como quem nunca perdeu, sofreu, falhou ou penou. Está tudo bem, senhor Pereira? Uma maravilha, menina! E a gente a saber as filhas desavindas, o filho parasitando ao seu redor, a mulher já viciada na resignação e a tentar virar o jogo a seu favor adotando os tiques daqueles que nem perante Deus dão o braço a torcer.
Terá desembarcado e entrado diretamente no autocarro que o levou ao resort. No percurso, às misérias avistadas da janela terá reagido com as mesmas exclamações que solta ao ver os noticiários no aconchego do sofá. Este mundo está perdido! Porém, o mundo está sempre demasiado longe e até quando o senhor Pereira chega perto dele, são quilómetros feitos e nada mais, cada nova realidade se mantém em rota própria, caminho paralelo, estrada que se põe para trás à medida que o autocarro anda para a frente. E? Acaso um homem tem de carregar as dores dos outros sete biliões? O que importa é que todo este mundo perdido ainda tem muito sol, marisco, cerveja, águas turquesa, exotismos, cisnes esculpidos com turcos de banho, sabonetinhos mimosos nas casas de banho, orquestras e bailes pela noite dentro, muitos criados e bandejas. 
Então, o senhor Pereira ao comprido na beira da piscina, provando bebidas de muitas cores, com o olho atrás das nádegas das estrangeiras, fotografando até os ladrilhos do chão para mostrar no regresso. E a mulher a seu lado, em fato de banho, exibindo a inevitável distorção do corpo feminino, que é culpado de nascença e duramente castigado com o tempo. O ventre gordo, os seios mortos, as mãos nodosas, os ossos ocos. A cabeleira negra, avolumada à custa de muito trabalho, é o abajur de um candeeiro sem ponto de luz. 
Mas logo, à hora do jantar, é a ela que ele pedirá ajuda para escolher a roupa e saber o nome do que lhe servem no prato. Dançarão juntos noite dentro, harmonizados na técnica, com o passo muito acertadinho. Nenhum deles tem intenção de calcar o outro. E quem olhar concordará que dão um grande espetáculo.

8.8.16

Silêncio

Noite dormida. Prato cheio. Cama feita. Luz solar. Contas arrumadas. Memória desempoeirada. Desejos encaminhados. Férias plenas. Trabalho fácil. Espaço livre. Inimigos derrotados. Costas endireitadas. Coração leve e limpo. Respiração profunda. Ninguém me atormenta. Ninguém me está a faltar. Ninguém me deve. 
Por mim, virava-se agora a página do calendário. Está feito o ano. Sete meses vencidos e já apetece celebrar, estoirar a rolha do espumante, regar os tetos, e, uma vez mais, evitar o erro de fazer planos e promessas. Para manter a liberdade de virar no sentido oposto ao da curva provável ou caminhar em direção a um horizonte só em cima da hora vislumbrado. Avançar é o que conta. Tolo é o que se mantém deitado e dormente para poder dizer que sonha muito.
Assim postas as coisas –  sem transtorno, carência, mágoa, raiva, dor, saudade ou preocupação – que motivo há de uma pessoa desenterrar para escrever?

29.7.16

Prematuro equinócio

A cabeleireira espanta-se de me ver entrar tão antes do equinócio. Mãos na cintura, testa franzida, é com desconfiança que me pergunta se já venho para a poda. Não, não há podas, desta vez  a coisa é a valer. Solto o cabelo, explico o que quero, ela entusiasma-se, mas depois:
- E não se vai arrepender?
Arrependo-me de uma única coisa na minha vida, já tem mais de vinte e cinco anos e ainda hoje me persegue. Um corte de cabelo não está ao nível. É o que penso para me tranquilizar. A ela, garanto que está decidido, entrego-lhe o champô e acomodo-me.
- Arrependido deve estar a esta hora o Professor...
Fala a senhora a quem a manicura desbasta as garras.
- Qual professor? - a cabeleireira penteia-me o cabelo com a ternura de uma despedida, antes de lhe meter água.
- O Professor!
- O marido da doutora Laura?
- Marido que, a bem dizer, por um triz deixava de ser.
A manicura suspende o trabalho e inclina-se para ouvir melhor. A cabeleireira começa a lavar-me mansamente. Eu fecho os olhos e suspiro, certa de que vem aí novela.
- Ele tinha outra...
- A sério? Que estranho! Isso não é de homem! - ironiza a manicura, retomando o trabalho com energia dobrada.
A cabeleireira, apaziguadora, busca uma verdade que dê mais conforto:
- Isso deve ser má língua.
- Foi a doutora Laura que descobriu. Meteu-se a mexer no telemóvel dele e estava lá tudo, uma pouca vergonha, tratavam-se por amorzinho e tudo...
- E ela, que é inteligente, pôs-lo fora de casa, não? - a manicura insiste na ironia.
Não, a coisa passou-se de modo diferente. São outras as palavras que a senhora usa, mas esta a história que contam: a doutora Laura confrontou o Professor, primeiro ele encolheu-se de vergonha, depois foi tomado por umas ganas e disse que se tinha apaixonado, e perdidamente, como nunca antes lhe acontecera, que lhe pulsava no corpo um sangue novo, desconhecido, e no espírito sentia a garra e a alegria dos que se creem eternos. Um homem para lá dos cinquenta, um Professor, um pai de filhos, falando como um garoto sem norte.
- E a doutora Laura? - a cabeleireira ampara-me a cabeça, limpa-me e conduz-me até ao espelho.
Coitada, desfez-se num pranto ao vê-lo tão seguro e decidido, começou a gritar assim que percebeu que, sem querer, precipitara a desgraça. Tivesse ficado quieta e calada e talvez o preservasse até à morte. Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, ele disse que o mais honesto era cada um seguir a sua vida. Ela atirou-se ao chão, agarrou-se-lhe ao tornozelo, implorou, pediu desculpa por qualquer falha ou defeito, lembrou-lhe a dor que causaria aos filhos e tudo o mais que lhe ocorreu no cume do delírio: recordações, promessas, dinheiros, favores...
- Eu julgava que a doutora Laura era uma mulher com dignidade... - a manicura, desolada.
- E é! Quem não tem dignidade é o Professor! - acusa a senhora.
A cabeleireira põe a tesoura a trabalhar. Os meus longos cabelos vão desfalecendo no mosaico. Folheio uma revista para não me enfrentar no espelho. E depois? Uma miséria. O Professor a tentar sair de casa e ela agarrada ao tornozelo dele, chorando como uma perdida, varrendo o chão com o próprio corpo, implorando-lhe que não a deixasse, perdoar-lhe-ia a infidelidade e nunca mais se falava no assunto.
- Pois, e foi a correr contar-le a si e a mais quantos? - alvitrou a manicura. É a pessoa mais lúcida daquele salão. Jovem, desbocada, trôpega na gramática, nem sempre casa o verbo com o sujeito, fraca nos pronomes, mas pouco lhe escapa.
- Precisou de desabafar, coitada. Andava que fazia pena. Felizmente, tudo se resolveu.
- Separaram-se? - pergunta a cabeleireira, apreciando-me de todos os ângulos. Fecho a revista, olho o espelho, estranho o novo corte mas não a resposta da senhora:
- Nãããããão... ele ficou!
- E a outra?
- Deixou-a!
- Eu cá não confiava! - a manicura, entredentes.
- Ah, mas foi mesmo à frente da doutora Laura, que ela obrigou-o. Ele pegou no telefone, ligou-lhe e disse que acabava ali, que a família era tudo e o casamento era para toda a vida.
- Ai, não me faça rir... - o gozo da manicura está na fronteira da indignação.
Desconfortável na cadeira, enojada, submeto-me aos últimos retoques quando entra a dona Maria Isabel. Abençoada mulher, desta vez veio e conto com ela para desmontar o circo e refrear a multidão, como é seu hábito. Mas a dona Maria Isabel atravessa o salão como se fosse mouca, ignora os comentários e as interjeições em torno da doutora Laura e do Professor e vem cumprimentar de beijinho a cabeleireira. Depois olha-me profundamente através do espelho, pousa a mão sobre o meu ombro nu. E com dois dedos maduros, sólidos, coroados de pedras muito antigas, levanta-me o queixo e vira-me ligeiramente a cabeça, como se me preparasse para o retrato da minha vida.

28.7.16

Recordações menores

Não sei se é da pasmaceira, de ignorar a quantas anda o relógio, do borbulhar das águas que embala o espírito, mas tenho sido visitada por recordações menores, episódios distantes e de tão pouca importância que me aborreço de saber o meu cérebro ocupado com trivialidades, quando não faltam por aí grandes e nobres causas para alimentar o pensamento. Deito-me à sombra, dorida dos pequenos prazeres - doem-me as pernas de tanto pedalar, a barriga de muito comer e a cabeça de não lhe dar uso - e mal fecho os olhos, elas começam a chegar numa lentidão traiçoeira, uma puxando outra como se viessem unidas por lógicas que não distingo.
Lembro-me, por exemplo, do dia em que cuspi uma batata cozida quando comia ao balcão da dona Arminda, foi há vinte anos, um excesso de tempo para tão irrelevante memória. Expliquei-lhe que a batata sabia mal, a veneno, uma coisa terrível, engolir nem pensar. A dona Arminda empertigou-se, como se a batata lhe tivesse saído do ventre e custado uma vida de sangue e suor. Aqui é tudo muito limpinho, que é que julga? Não duvido, é só mesmo para alertar, outras podem estar iguais... Virou-me costas, a dona Arminda, praguejando entredentes, os outros é que lhe deviam e ninguém lhe pagava. Depois desta, outras recordações semelhantes vêm e dou comigo a espantá-las com gestos à volta da cabeça, num desespero miudinho de querer fugir ao que não importa nem fez diferença.

O senhor Pereira vai fazer milhares de quilómetros para se enfiar num resort de águas mornas e passarada exótica, com tudo incluído. Mais uma vez, realiza o sonho. Trabalhou muito para isto, diz a cada passo. Foram décadas e décadas a fazer horas extraordinárias, quantas vezes sem ver os filhos acordados, sacrificando até os fins de semana. Não que tivesse um cargo de responsabilidade, pelo contrário, era um funcionário comum num departamento com dezenas iguais. O que o senhor Pereira fez foi agarrar todas as oportunidades, oferecendo-se para lá da hora, disponibilizando-se em todas as situações, servindo sem bufar, sujeitando-se a tudo o que lhe acrescentasse uns contos à remuneração. Calculo que tenha sido nesse tempo que aprendeu a vergar-se e a cumprimentar, no modo baboso que lhe conheço, como está a senhora doutora? Agora, diz-me com propriedade que neste país não dá para passar férias. Uma pessoa come mal, paga muito, a água é fria, o povo não tem maneiras e somos mal tratados por qualquer funcionariozeco. Lá fora é outra coisa. São pormenores, menina, são pormenores. O modo como nos falam, a vénia que nos fazem, arranjam-se de outra maneira, bebe-se outras coisas. Não lhe digo, só penso, que ele é tolo de achar que, enfiando-se num resort, está lá fora. Mas sorrio, condescendente. Também o senhor Pereira está a tentar enxotar as suas recordações por, certamente, as cuidar menores.

25.7.16

Biquíni

Nove horas da manhã, a luz ainda ao comprido, e o casalinho namora sentado na beira da piscina. Namora é modo de dizer, que mal se tocam, ele é que se inclina a pretexto de sussurros e enrosca o nariz nos caracóis dela, que ri de favor, sem se virar. Vai insistindo ele no seu jogo de sedução e, como é rapaz novo, presumo que esteja na posse de competências que bastem para dobrar uma mulher à roda dos vinte, mas a indiferença dela tem causa superior: é o biquíni que não está bem. Vai com uma mão ao soutien, penteia com os dedos as franjinhas que oscilam sobre a lisura do ventre. Ai, que chatice, desabafa alto para ninguém. Ele inclina-se de novo, olha de viés para o peito dela, que é rijo e generoso, diz-lhe mais qualquer coisa. Ela ajeita agora as alças. Não contente, desfaz o laço na nuca, volta a fazê-lo.
- Estás bem... - diz-lhe ele em tom apaziguador.
Não, talvez não. As franjinhas estão outra vez desalinhadas e a simetria parece não estar garantida, porque ela puxa para a direita, depois ajusta para a esquerda, por fim enfia as mãos por dentro e acomoda melhor os seios. Ele continua a falar-lhe baixinho, roça um ombro, pelo sorriso se vê que o palavreado é quente. Ela, se o ouve é mal e com interesse nenhum. Pelo menos mais três vezes penteia as franjinhas, ajeita as alças, puxa para um lado e repuxa para o outro, impacienta-se, bufa. Nada do que ele diga o faz merecer, sequer, um breve olhar, um sorriso de cumplicidade.
É dos livros que o mais comum é o inverso: são elas que falam, contam e divagam, enquanto eles se ausentam, libertando a mente em campos relvados, automóveis potentes, rabos de outras saias ou mesmo superiores preocupações com assuntos de finanças e gestão. Mas aquilo a que muitas mulheres já se habituaram, talvez poucos homens se submetam. Este, pelo menos, farta-se agora de falar e não ser escutado.
- Deixa-te mas é de merdas! Achas que com umas mamas dessas alguém repara no biquíni?
Levanta-se, ergue os braços e cai na água sem fazer ondas, como um sabre afiado. Só volta a vir à tona quando está bem longe, na outra ponta do tanque, e de lá lhe despacha um aceno antes de tornar a mergulhar.

18.7.16

Pudor

Durante muitos anos tive pudor em dizer às outras mulheres que podia comer do que quisesse sem engordar. Aos comentários acerca da minha magreza, eu respondia humilde, quase culpada, que era só herança genética. Não obstante esses meus cuidados, elas descuravam os seus. Muitas delas, munidas daquele extraordinário saber clínico que os maldizentes, os pessimistas e os hipocondríacos costumam debitar, diagnosticaram-me coisas terríveis: cancro, hipertiroidismo, bicha solitária, anorexia nervosa, bulimia ou mera ruindade de feitio. Falharam em tudo. Além dos diagnósticos, também prenunciaram uma série de desgraças, por estranha coincidência todas relacionadas com a minha condição de fêmea. E enumeravam-nas com altivez, como quem avisa e, por isso, meu amigo é. Infertilidade. Ou, caso assim não fosse, pelo menos impossibilidade de parir como a natureza manda. Ou, caso assim não fosse, partos demorados, sofridos e com marcas feias. Falharam em tudo. Por fim, reservaram-se a satisfação de prever a minha menopausa, lembrado-me a toda a hora que a gordura, mas mulheres, não é escolha mas destino. Falharão também. E entretinham-se olhando-me de viés, perguntando por onde me agarrava o meu homem, se eu levantava com as rajadas de vento e outras crueldades socialmente legitimadas pelo simples facto de andarem na boca das maiorias. Enquanto isso, faziam aulas de ginástica com umas bermudas de plástico que se dizia que queimavam gorduras e passavam semanas a fazer dietas à base de rissóis e folhas de alface. Não eram gordas, eram só desorientadas.
Quando, enfim, reconheci que ao meu receio de as ofender elas sempre responderiam com o que de pior reside no íntimo da condição feminina, passei a dar o troco em moeda igual e sem paninhos quentes. E passei a desfilar de cabeça alta, orgulhosa, não da minha magreza, que não é virtude nem defeito, mas daquilo em que sobre elas levo realmente vantagem: a imunidade à inveja, único pecado que nunca cometi.

E tendo escrito este texto como se me referisse sempre às mesmas mulheres, devo esclarecer que isso não é facto. Eram umas há trinta anos, outras há vinte, outras há dez, como são outras hoje. Mas é curioso que parecessem uma só, uma mulher universal, potentíssima, perversa, reencarnando e reincidindo do mesmo modo, desbocada pelas mesmas fraquezas e temores, triste de nunca ser cúmplice do corpo que Deus lhe deu para sua casa, seu abrigo e seu cuidado.
Ora, posto isto, os leitores imaginarão que sou um esqueleto ambulante, de clavículas e costelas à vista, rosto e abdómen cavados, joelhos e cotovelos como armas brancas. Podeis ficar com essa ideia, mas lembrai-vos também que toda a frustração distorce o olhar com vista ao consolo de quem dela sofre.

15.7.16

Respirar

O mais velho atribui-me a virtude de analisar profundamente antes de agir. Fazendo fé nas suas palavras, esse é o meu grande trunfo, o que me faz ganhar jogos, discussões e amigos. Acomodo-me no colo dele, seguro-me na musculatura das suas coxas, e confesso-lhe que não é exatamente assim, já tanto fiz por impulso, paixão, fúria, desatino e até capricho! Travo a língua a tempo e poupo-o ao que ele não tem ainda idade para entender: se tivesse profundamente analisado antes de agir, não teria tido filhos.  Mas – tola – julguei que o melhor que podia fazer pelo mundo era educar um ser humano para o bem. 
Ontem à noite, enquanto eu lhe ensinava o modo certo de respirar para aquietar as pernas e adormecer em paz, o mundo voltava a dizer que não, que é inútil, que o nosso destino é vivermos sufocados, sem pingo de sangue, sem sonho possível.

(Estás feliz, meu amor? A única coisa que eu quero é que tu sejas feliz! - sussurrava ternamente esta manhã uma mulher, falando ao telemóvel.)

12.7.16

Um homem

Um homem vindo dos arredores da capital bateu-me. Bom, não em mim, mas no meu carro. Muita gente passou e não parou a não ser para apreciar o dano material, que o dano causado aos nervos importa pouco. Até os conhecidos, depois de satisfeita a curiosidade, logo seguiram acenando até amanhãEra dia de jogo da seleção, havia muita pressa e ansiedade nas ruas. 
Quase uma semana depois, recebo, desse homem que me bateu e prontamente pagou, a mais inesperada e improvável de todas as mensagens. Chegou-me às primeiras horas da manhã, valeu para o resto do dia, valerá por toda a semana e por muitos anos.
Não sei se é mais triste ou mais reconfortante isto de encontrar em estranhos o que dos que estão perto muitas vezes não se recebe. O mundo raramente é o que julgamos. O melhor é não julgar coisa alguma, manter a confiança mas nunca a desbaratar.

11.7.16

O meu país *

Quando olho para o meu país vejo uma criança a brincar descalça, com cabelos principescos, de ouro fino e delicado, mas umas unhas sujas de esgravatar a terra. Irresponsável, como se nunca mais chegasse, como se nunca mais tivesse de chegar o tempo de se preocupar com coisa alguma. Não quer saber de filhos, nem de netos, nem da vida que lhes há de dar, tem tempo para pensar nisso, um dia, quando crescer. Logo se verá. Só conta a hora que passa. Anda a correr, de papagaio de papel na mão, à espera que o vento sopre de feição. Se o papagaio cai murcho no chão, não faz mal, toca a correr para o outro lado a ver se levanta outra vez. O meu país acredita que a sorte vira. A sorte.
Quando olho para o meu país vejo-o assim infantil, descomprometido, desresponsabilizado e, no entanto, cheio de sonhos e horizontes. Mil anos de história e uma maturidade que não há forma de chegar. O meu país não cresce, não perde este hábito de pôr a língua de fora e desatar correr como se não fosse nada com ele para depois, logo a seguir, aparecer a desfazer-se em lágrimas e beicinhos. Tenho até medo que, por um qualquer fenómeno sobrenatural, o meu país salte diretamente desta infância mental para a menopausa e fique seco, estéril, flácido. E tão exausto que prefira morrer. Como em todas as crianças, vejo no meu país uma alegria espontânea e genuína, contudo uma insistente tendência para cruzar os braços e fazer birra. Como em todas as crianças, vejo no meu país uma lucidez, uma sabedoria, um conhecimento original que me encanta, contudo uma permanente tentação por transgredir, desrespeitar, fazer de conta que não sabia de nada. E como todas as crianças, o meu país tem um sorriso que, no final, me enternece e me faz cair de joelhos: é o seu gosto húmido a sal, o cheiro da maresia, o namoro fiel entre o verde e o azul, a língua exata, exigente e expressiva e uma verdade confortável onde posso encostar-me e sossegar de vez em quando. Então, desculpo-o por tudo e percebo porque é que somos sangue do mesmo sangue.

* post de 2010

8.7.16

Movimento "Queremos ouvir os bloggers a declamar poesia"

Entendi que estava na altura de embarcar também nos desafios blogosféricos do venerável Dom Pipoco e da surpreendente Tia Palmier. Porém...