7.8.20

É estranho, mas ninguém levanta a cabeça quando soa o alarme, estridente, aflitivo, sobre o torpor matinal das ruas da cidade. Como se habitassem outro mundo que não este, prosseguem as suas conversas sobre coisas que não apanho, outros escutam música ou consultam o e-mail. Porém, à mais ligeira, subtil, vibração de um smartphone, reagem como as galinhas que, absortas no bicar compassado do milho rasteiro, erguem de repente os pescoços e viram-nos, ora para um lado, ora para o outro, numa curiosidade robótica, passageira e, por isso, verdadeiramente inútil. 

5.8.20

A rapariga da papelaria desce a rua de cara amarrada e naquele passo veloz que se usa para gastar num instante a raiva toda. Motivos, lá os terá e faz bem em calá-los porque com o mal de uns enchem às vezes outros o bandulho. No caso dela, porque exala um cheiro intenso a abandono e desistência, é um fermento para a imaginação alheia e inspira todos quantos vivem de dar conselhos como os que treinam da bancada – que não perca mais tempo com essa dor, cuide de si, vista outra coisa, olhe em frente, dê-se a outro homem. Então não pode cada um fazer da vida o que quer, comprometer-se com a sua melancolia, cismar nas suas mágoas, mastigar as suas lembranças ou até amputar os membros sãos se daí lhe vier paz? Quem é quem para dar à rapariga da papelaria a bula da felicidade, quem chegou ao ponto em que, de tão feliz, já só lhe resta morrer? A mãe, que nas palavras duras que lhe diz põe sempre a fatura dos seus próprios fracassos porque em vão sonhou que a filha havia de ganhar de sobra para pagar pelas duas? A cabeleireira, mais a sua moral entusiasta sobre os benefícios do sétimo sacramento com pensão completa e descontos ao marido? Gabi, santinha de pau oco e língua bífida, que revira os olhos nas costas das senhoras a quem desbasta as garras? O senhor Pereira, polidinho nas maneiras e remediado no caráter, mais a sua mulher que a vida toda o comeu requentado ao fim do dia, primeiro por ignorância depois por falta de saída? A viúva, que ninguém sabe se na verdade partiu com o homem que amava e agora ostenta apenas o que ficou para trás, como coisa que para ela já vale nada mas que ao menos dá, a quem olha, a felicidade de sonhar? A imperatriz, que não foi abandonada pelo pai do filho mas escolheu abandoná-lo, o que, enfim, revela a desgraça maior que é ficar aquém de amar? As manas Pereira, tão virtuosas e bem sucedidas, de íntimo atormentado pela ideia de que todos os homens – até os seus – possam um dia parecer-se com o pai? A dona Maria Isabel, doutora de ciências com a má fama de serem exatas, cuja independência e firmeza de emoções jamais permitiriam entender quem por amor se tenha desanimado tanto? As pessoas dos blogs, que nos seus estendais públicos deixam, sem vincos, belas cogitações teóricas sobre amores suspirados como o dela e outros tantos de romance e ideal? Eu, que jamais sequer amei dessa forma religiosa, sem identidade nem retribuição, e descarto as dores junto com o lixo ao fim do dia porque tenho repulsa a tudo o que dura demasiado?
Talvez, no entanto, nada de grave tenha havido com a rapariga da papelaria. Apenas um enguiço, uma avaria na máquina da roupa, os jornais que não chegaram a horas, Alicita a inaugurar o dia com uma birra daquelas. Coisas poucas, nada de nada, deus a polvilhar o quotidiano de misérias e cada um de nós a acreditar que tudo isto é muito mais, para justificarmos as angústias com que nascemos.

3.8.20

Podia ter-se começado a falar há muito mais tempo sobre a tragédia em que, a todos os níveis, vai desaguar o método de gestão da pandemia e do isolamento. Mas compreende-se a demora. Contra uma multidão possuída, que se acostumou a exercer a cidadania aplaudindo ou apedrejando a partir da varanda e que atingiu cúmulos de inspiração bíblica achando que o mundo estava a precisar disto, quem ia arriscar um e se? O medo não só distorce como aumenta a permeabilidade a tudo o que seja sustentado por um gráfico ou anunciado por um comité de gravatas e tailleurs. A partir daí, todos os que levantem dúvida são apontados como desumanos ou ignorantes e mal podem explicar as suas razões, a não ser que desembainhem um gráfico de igual envergadura ou saquem da cartola um doutoramento em qualquer coisa de tão rigoroso rigor que, enfim – oh, inutilidade do conhecimento adquirido! –, nem tem espaço para o imprevisto. 
Primeiro as pessoas, depois o resto, diziam os bravos da reclusão. Como se o resto fosse outra coisa que não pessoas. 
Passaram quase cinco meses e ainda me custa acreditar em tudo isto.

2.8.20

Que as pessoas interpretem o que está escrito à luz da experiência que têm é compreensível.
Mas que julguem quem escreve à luz da dor e do desejo que as atormentam é um perigo.

30.7.20

Debruçado sobre o lago, Narciso estende já os beiços para a superfície da água, não sem antes me sondar com o movimento mal disfarçado da sua íris habituada a atrair borboletas. Quer ter a certeza de que tenho os olhos postos nele e julga até que à beira me deitei com o único propósito de o desejar. Inclina-se mais um pouco, arrasta o corpo no chão para evitar o desequilíbrio e a fatalidade, está seguro de que ao beijar-se despertará em mim vontade de fazer parte, como se a ideia do trio – ele, eu e ele – me pudesse excitar. Com efeito, cai-me o queixo, mas não de encanto. Repugna-me antes a sua postura de rafeiro subjugado, a vulnerabilidade exposta das nádegas, o sexo enterrado no húmus. Aviso que me vou aproximar, Narciso vaza o triunfo na forma de um riso breve, mas – oh, desastrada! – caio na água com estrondo e a figura dele desmembra-se na ondulação quase tão depressa como nos meus planos.

27.7.20

Antes de entrar na água, o mais velho respira fundo e pede-me que invista todos os meus pensamentos na sua proteção. É claro que sim, não tenho feito outra coisa, diz-me que outra coisa tenho feito nos últimos dezoito anos da minha vida? E se algum dia, meu rapaz voador, meu homenzinho, se algum dia por tua causa eu sofrer mais do que a conta e não me bastar o escudo, a carapaça, o talento para a acrobacia e até para o faz de conta, por mim nada farei, mas que te castiguem os deuses trazendo-te de volta ao mundo num corpo de mulher, fazendo-te um filho e obrigando o teu coração a passar os dias para trás e para diante sobre um fio de arame nas alturas.

24.7.20

Acocorado na soleira, na avenida mais movimentada do subúrbio, um velho macilento cata porcarias a um gato de cinza puro, aveludado. Meigo como por interesse os gatos são, este aquieta-se e fecha os olhos para o gozo pleno daqueles cuidados. Se fosse gente, teria de pagar por um mimo que se equiparasse, mas vir ao mundo como gato é outra sorte. Verdade que não é remunerado pelo serviço de apoio permanente à solidão dos humanos, pelos favores prestados para os distrair das ausências maiores, nem sequer pela condescendência com que se dá ao estrelato nas redes sociais e às judiarias de canalha habituada a reinar. Mas ao menos pode ser preguiçoso sem imposto e andar pelos telhados sem viatura própria e acasalar sem hipoteca nem comunhão de adquiridos. Já o velho, outra história. Provavelmente empregado, contribuinte, marido, cumpridor, consumidor, pagador, adepto, proprietário, e ainda assim ninguém que agora lhe cate a ele as porcarias com ternura.

23.7.20

Às vezes, porque um gatilho disparasse a propósito de qualquer coisa, ele dizia ocorreu-me aqui uma ideia e enquanto compunha mentalmente o que poderia vir a ser, sei lá, um verso, um parágrafo, um livro inteiro, a boca dele produzia um estalido contínuo, espécie de coaxada de anfíbio, e o queixo movimentava-se vagarosamente de um lado para o outro como as ancas de uma leoa. O mais provável era que dali viesse alguma magnificência, mas aquele parto repugnava. Fora isso – que com boa vontade até se ignorava – era um homem subserviente e ganancioso, não dava ponto sem nó nem beijo sem trinta dinheiros. Porém, tudo o que escrevia exalava uma ternura lúcida pelo mundo e a sua reinterpretação das debilidades humanas, em palavras, comovia e convidava. 
São muitas e compreensíveis as ilusões alimentadas acerca de quem escreve, num instante se cai no erro de imaginar na pessoa o encanto que há na coisa por ela escrita. Mas o criador nunca é tão belo como a criação, nem se lhe compara em méritos e virtudes. Só o Pedro Chagas Freitas é melhor do que a sua obra. Vi-o uma vez no ikea, passeando o filho bebé enquanto a mulher apalpava tapetes. Tinha um ar luminoso, sólido, genuinamente feliz e eu espantei-me tanto a olhar que ele me sorriu. Percebeu, talvez com alívio, que jamais lhe pediria um livro autografado. 

21.7.20

Antigamente, precisando eu de um catalisador do choro para desintoxicar de emoções inutilmente acumuladas, punha a correr o concerto de Keith Jarrett em Colónia. Certinho como poucas coisas na vida: aos sete minutos e treze segundos, nem mais nem menos, a torneira abria. Ah, daí para a frente chorava-se muito bem – lágrimas decididas, triunfantes, fatalistas, orgulhosas da sua causa e da sua vantagem – , mais ou menos até aos oito minutos e quarenta segundos. Depois, pelo resto do concerto ficava o espírito numa planura luminosa, desembaçada, pronta para a florescência. Hoje, sou muito menos refinada. Qualquer cebola fresca cortada pelo meio serve para o efeito e ninguém nota.

20.7.20

– Este jeitinho de perna é tal qual o meu filho.
Diz o senhor Pereira sobre Joaquim, que pela primeira vez caminha pelo próprio pé. O menino está cada vez mais boneco e cheio de graça, mas quem quer que nele tente ver sinais do pai continua a precisar ou de uma crença muito tola ou de detalhes que a olho nu são despercebidos. É tão saído à mãe que poderia ser obra exclusivamente sua, solitária e caprichosa. Tem dela o branco leitoso da pele, os olhos de verde aquático, tropical, os reflexos acobreados no cabelinho e até alguma altivez que faz com que pareça estar sempre a rir do que não é feito para tal e despreze aqueles que lhe dirigem macaquices. Não bastasse tudo isto, ainda recebeu o nome do avô materno. E o apelido Pereira foi acrescentado como se fosse um favor ou, enfim, algo a que era impossível fugir sem desencadear conflitos.
Joaquim podia até ser obra de outro homem, é certo, mas a imperatriz é uma rapariga inteligente dos pés à cabeça, que vantagem tiraria de inventar que o pai é este, um vai-se andandoquem sabe um diase calhar não vale a pena, medroso do mundo, incapaz de segurar uma rédea, com poiso preferido debaixo de saias de fêmea, sejam as da mãe ou de outra que lhe deixe a comida para aquecer? Se ao menos para sustento ou por herança ele fosse um pai conveniente, mas nem isso. Portanto, embora saibamos que a maternidade é um poder perigosíssimo, de enorme dimensão e longo alcance, cujas dádivas e manobras são as linhas com que se cose o mundo, certamente a imperatriz não faria uso dele para burlas ou diversões.
Em todo o caso, tenho para mim que o jeitinho de perna é apenas uma amorosa imaginação do senhor Pereira. Afinal, quantas farsas pode uma pessoa inventar, com quantas pode ser conivente durante dias, anos, décadas, só para evitar o sentimento de fracasso e salvar a sua trabalhosa dignidade?

17.7.20

De há uns tempos para cá, vivem num estranho sossego as três flores que sobraram das que Isabela deu ao mundo. Não se alteram em aspeto, cor ou textura, passando bem por uma dessas quinquilharias chinesas de plástico que mantêm as casas floridas em troca do afago de um espanador. Ora, é dos livros – e da vida – que as grandes tragédias são precedidas de uma tranquilidade assim, uma quase suspensão da vida e dos seus rumores, uma espécie de abafo surdo que anestesia e desarma os espíritos, assim os apanhando mais vulneráveis. Alguns dos que na vida buscam estabilidade sabem disso, ou mais tarde acabam por descobrir: sob tudo o que está demasiado quieto há sempre matéria viva a laborar, incandescências e forças em tão delicado equilíbrio que ao mínimo ajuste ou à mais ténue brisa, rasga-se um abismo. Por isso, e dada a minha triste experiência com orquídeas, sempre tomadas de exageros e com uma evidente falta de domínio das próprias emoções, tenho para mim que devo estar atenta. À partida, Isabela parece ter ganas de viver e mais agora que está ladeada por duas plantas de viril constituição, a quem dei a responsabilidade de filtrar a luz que em doses tremendas, às vezes dolorosas, entra cá em casa. Mas, ainda que as três flores estejam bem e que a perda das outras dez pareça não ter rasurado o amor-próprio de Isabela, vasculho amiúde as raízes e o ninho das folhas, junto ao caule, onde nas orquídeas acontece fermentar a podridão. É que nas dosagens sadias de vaidade é difícil acertar. E embora haja motivos para crer que quanto maior é a ostentação mais negros são os fantasmas, não é linear a validade do oposto.

14.7.20

Queria dar-te uma parte de mim que não tivesse sido usada, corrompida ou desbastada. Um pensamento novo, uma gaveta ainda por abrir, uma data do calendário que não esteja já reservada para uma lembrança, um naco da alma que seja liso. Amadureci. Há quem no meu lugar invente, troque, compre, revire ou acrescente, vista o fato de menina, ponha a máscara do inocente, faça a voz do sonhador, mas olha, eu não, eu tenho tudo gasto e nada por estrear. Devíamos preservar da infância qualquer coisa intacta, ter sempre um embrulho com laço de fita guardado para abrir pela primeira vez num instante que ainda está por vir ou para entregar nas mãos de quem só chega depois. 

9.7.20

A quem nunca aconteceu atirar ufanamente o cuspo ao ar e levar com ele de volta, em cheio na razão apregoada, e espantar-se então por haver tanta ironia nas leis do destino como rigor há nas da gravidade?

8.7.20

Pelo menos uma vez por semana o mais novo pede-me outro irmão ou, se escolher não for abuso, uma irmãzinha. As coisas não podem ser assim, explico, uma mulher sensata não se presta a dar fruto com a leviandade com que o fazem as flores, a quem bastam borboletas ou ventos favoráveis, nem como os animais, que cumprem os desígnios da espécie sem ponderar além do instante. Mas ao inocente pouco dizem as minhas razões e quanto maior o detalhe com que as exponho menor a importância que lhes dá. No seu espírito, ainda livre do sarilho de teses com que se fundamentam os passos da vida e a que no conjunto chamamos de maturidade, a boa intenção é suficiente para o valor de uma ideia e o sucesso de um projeto. Ignora ainda em quantas dúvidas e obstáculos podem tropeçar as boas intenções ao longo do seu nobre caminho e como tantas delas se esbardalham e se levantam com outra cara, novo nome e rumo oposto.

7.7.20

É difícil definir as causas e até os instantes que precipitam a avalancha. Basta que seja realmente suspensa a engrenagem por uns segundos. Não me refiro ao trânsito, às lojas, aos restaurantes, que esses já respiram moribundos, mas a tudo o que dá corpo à certeza de que, apesar do muito que se adia, o essencial se preserva: o fluxo intenso de trabalho, o amor com os miúdos, o banho diário, o ciclo menstrual, os asanas, as faturas, o lume brando na cozinha, o chocolate, o avanço nas páginas dos livros, as mensagens que chegam de longe, como parece que todas agora chegam. Quando tudo isso pára ou, não parando, é pensado como coisa concreta, avulsa, no seu devido lugar, o lugar do que consola mas não salva, como facto que é o que é e o que pode – e pode pouco – começo a fervilhar, prendo o cabelo, calço as sapatilhas e faço os caminhos desertos ao redor da casa, dou voltas ao quarteirão, desço e subo passeios. E para caminhar mais depressa invento que a minha fúria é contra a calçada e o asfalto, e que a saudade que tenho é do que vem depois da esquina, da rotunda, da papelaria, do pão quente, da praceta, da alameda, mais adiante, sempre mais adiante. Ou imagino que o perigo me persegue a passos largos sem me lembrar do que sei tão bem – que o perigo verdadeiro nunca vem atrás, espera-nos à frente, mudo e quedo, quantas vezes incrustado na geometria do mais plácido e belo de todos os horizontes.
Volto para a casa aceitando, como um ratinho de gaiola, que dei vinte giros na roda sem ir a lado algum. E então lamento por todos os que fazem o mesmo que eu e desperdiçam a energia a rugir como leões.

* Abril 2020

1.7.20

Quem nunca viu desfeito no pó das ruínas o áureo esplendor de um palácio e não conhece pelo menos uma história de amor interrompida por uma traição? A quem nunca pareceu de repente nova a rua onde sempre morou, quem não experimentou a certeza de que o dia raia sempre loiro e dócil depois de uma noite de inferno e quem nunca viu medrar, em felicidade e plenitude, alguém que à nascença tenha sido condenado a uma vida breve? Ah, o mundo dá muitas voltas, tem reveses e avanços, e pode ser nessa banalidade que o Marco do ginásio busca consolo. Quando recebe, em golpes frios e fundos, a indiferença da rapariga da papelaria, talvez lamba as feridas investindo o pensamento no dia em que ela há de sucumbir, porque ninguém resiste tanto tempo entrincheirado. A dor, que para ela tem sido cruz e conforto, já mais do que desbotou como os trapos sem uso que só por hábito e apego conservamos. Mais cedo ou mais tarde, dar-lhe-á a fome ou a sede, a pele ressentir-se-á da falta de um arrepio e talvez então procure outro corpo, outro ninho, outra vida. Nesse dia, lá estará ele. 

26.6.20

Gabi e a cabeleireira queimam o tempo livre com cigarros, posando como um par de jarras à entrada do salão vazio. Ao verem que passo sem propósito de entrar, embarcam nessa prática comum em certas mulheres – da qual nem se apercebem por ser já tique –, que é a de olhar as outras de cima a baixo, tirando todas as medidas e conclusões que as turbulências de uma imaginação mal aproveitada lhes ditam. Sorrio, consciente de que logo tomam como certeza o que quer que ocorra como suspeita. Mas diz-me a experiência que, no fundo, é sempre maior a tortura de quem engendra a história do que quem dela é personagem. E se há dias em que as personagens são elas, dias tem de haver em que quem descansa sou eu enquanto elaboram os outros a meu respeito. 

23.6.20

O cheiro áspero das sardinhas assadas, trá-lo o vento dos terraços, varandas e marquises onde hoje se faz a festa. Nem um santo se atreve a desautorizar o poder superior e chamar o povo para as ruas, misturando os seus odores, hálitos e suores. Não haverá baile nem cantoria nas pracetas ribeirinhas, nem despontarão paixões entre estranhos que se cruzem na ponte debaixo do fogo, nenhum beijo será dado ao acaso no embalo da folia e velhos conhecidos que desde o último ano não se viam resistirão à leviandade de um abraço. De martelinhos nem pio. Na rotunda, não virá com a brisa o cheiro de farturas, nem haverá ganapada aos encontrões, bêbados a cobiçar as nádegas das raparigas que jogam matraquilhos ou carteiristas de olho no bolso cheio dos estrangeiros. Não se ouvirão gritos de bravura nem promessas de amor no topo da volta da roda gigante. Pela primeira vez nesta data, as praias amanhecerão vazias. E na placidez rosada dessas primeiras horas, quando baixam no ar a temperatura e a melancolia, hão de circular devagarinho pela marginal os carros patrulha, certificando-se que a pretexto do santo não acamparam ali jovens amantes de circunstância nem ressacados sem pernas para voltar a casa. 
Mas amanhã, apesar dos esforços, todos seremos ainda mortais. 

22.6.20

O retomar dos velhos ritmos da vida e da cidade tem-me mantido desinteressada de escrever. Ignorando se e quando voltarei a ser privada do mundo lá de fora, do seu bulício, dos benefícios da civilização e do convívio com os que me são queridos, sinto-me agora como a adolescente acabada de se emancipar, sôfrega e inquieta, engendrando formas seguras de fazer, estar e acontecer, mas também desejando coisas mundanas, prazeres ligeiros e superficiais. Não me espanto de ver que todos estamos iguais, porque outra coisa não imaginei durante os quase três meses de reclusão. No jogo da futurologia nunca entro com uma dose de esperança superior à de que preciso para estar em pé. Pergunto-me, aliás, de onde terá vindo a ideia romântica de que deste susto global se havia de erguer uma humanidade renovada, finalmente distinguindo o acessório do essencial, mais dedicada à natureza e ao próximo, com mais apreço pelo tempo do que pelo dinheiro. Acredito que seremos todos cada vez mais polidos, porque mais censurados, vigiados, criticados, regulados, mas nunca seremos melhores do que ontem fomos.

19.6.20

Na papelaria comentam-se os amores e desamores das revistas cor-de-rosa, as paixões súbitas, os casamentos desfeitos, as trocas e traições. Entristecida, a rapariga abana a cabeça. Despreza essa realidade cujos brilhos mal escondem os dissabores e as desgraças, diz que o amor verdadeiro não é aquilo, é uma coisa para sempre, capaz de vencer os enguiços criados pelas rotinas da fama, as ausências prolongadas, até certos vícios e erros que o mundo não perdoa. O seu romantismo seria inofensivo e até gracioso se as velhas, que raspam sôfregas os cartões da fortuna, não lhe dessem um acabamento embrutecido com os clichés que aprenderam das suas mães, por sua vez aprendidos das avós e por ai adiante: que o segredo do amor eterno está nas cedências, na adaptação, em ir mudando para fazer feliz o outro. A rapariga indigna-se, arregala o olho, levanta o queixo, apruma o indicador, era o que mais faltava, quem me ama é como eu sou, não quer que eu seja antes assim ou assado, que me pareça com esta ou faça como aquela!
A mãe estava até agora calada, encolhida junto à fotocopiadora, a limpar-lhe manchinhas e poeiras com um modo distraído, de quem anda longe ou prepara alguma. Mas por qualquer razão que ao entendimento geral escapa, vemo-la de repente enfunar-se e, muito crua, muito fria, como se em inimiga da filha incarnasse ou quisesse ajustar contas muito antigas: 
– Ai é? Então diz-me lá quem é que te ama? 
Sorte a minha, que já tenho o troco, saio e livro-me de ver o coração da rapariga da papelaria sangrar em ferida aberta pela própria mãe.

16.6.20

Conta-me uma história sem ambição de explicar o mundo, que isso é tarefa para as pessoas vulgares. Conta-me uma que lhe puxe o tapete e o deixe sem pé. Sabes bem o gozo que tiro de ficar a ver se ele se aguenta, como sustém os seus falsos alicerces e com que fôlego respira. Aflita, acabarei, claro, por lhe deitar a mão e acomodá-lo-ei onde a minha lógica tiver uma vaga ou as verdades que conheço possam afastar-se um pouco para lhe dar chão. É para isso que me servem as histórias que ouço e leio, para me dar conta dos espaços que ainda tenho em branco, reconfigurar a minha consciência das coisas, arrancar as estacas, desincrustar as pedras e os mofos, baralhar e repartir, mas jamais dar como terminada ou suficiente a visão humana, débil, rasteira, que tenho do mundo.

13.6.20

Se consideramos que os Homens bons podem ter grumos no caráter, porque não havemos de considerar também nos perversos um coração disposto à ternura e capaz de gestos de valor, ou que ambos sejam duas faces de uma só moeda, dois rostos do mesmo Homem? Quem inventou para o mundo esta divisão entre corruptos e inocentes, fracos e fortes, ladrões e honestos, traidores e leais, adúlteros e fiéis, doentes e lúcidos, que de forma tão básica e fútil compõe o nosso senso de justiça quotidiano? E esta veia que apurámos ao longo dos tempos e começamos a praticar com os próprios filhos assim que nascem, que reside na atribuição de castigo para uns e recompensa para outros, terá sentido algum se for sempre julgada a parte pelo todo e se em quem julga coabitam igualmente as duas faces? E de que aflições sofrem esses que por tudo e por nada se lançam a apregoar a própria moral dizendo eu seria incapaz de tal coisa, como se quem quer que seja algum dia desta vida chegasse a saber ao certo tudo aquilo de que é capaz?

5.6.20

– Acredite que lhe dou o desconto por ser uma senhora. 
Assim fala o senhor Pereira à viúva, tentando pôr água na fervura de uma desavença por causa do SUV mal estacionado. Está seguro de ter escolhido as palavras certas por entender que, não havendo flores ao alcance, a bajulação é o caminho mais curto para refrear o sangue de uma fêmea. A viúva até reconhece o hábito de largar o carro sem critério nem respeito, no meio da rua, em cima dos passeios, a morder as rampas, mas ainda assim abespinha-se com o despropósito do comentário. Avança e, antes de ofender as distâncias impostas, detém-se a olhá-lo com a sua firmeza curvilínea e cheia de brilhos, enquanto ele balouça nos calcanhares, de mãos nos bolsos. 
Mas eis que ela se encosta ao mercedes dele, levanta a saia, destranca as portas do inferno e convida-o a entrar. O senhor Pereira nem de um segundo precisa para se encher do maior dos entusiasmos, agarra-lhe a cabeleira negra e desata a apunhalar o ventre dela sobre aquele capô tão polido que não merecia servir o desvario. Enquanto a viúva larga a céu aberto o riso carmim e lhe espeta as unhas nas costas amarrotadas pela idade e pelo sol das latitudes tropicais, ele, todo franzido e com a língua de fora, parece um garoto esforçado em dar o passo maior que a perna. O escarcéu chama à janela a mulher que, ao ver o que nem nas capas dos meus livros, ampara o peito com a mão e, porque as forças lhe faltam, pede o auxílio de Deus num fio de voz. Mas Deus lava as mãos do resultado imprestável da sua criação e não vem acudi-la sequer com um leque ou uma aguinha açucarada. A imperatriz, que passa com Joaquim encaixado no quadril, ri-se e tapa os olhos ao pequenito porque não o quer já sabedor daqueles combates animais que o desejo propicia e nem sequer teria como explicar-lhe que dali pode vir felicidade ou até frutos benditos como ele. E as duas filhas do senhor Pereira, paralisadas de indignação à porta do prédio, amaldiçoam a raça masculina, essa espécie toda feita por igual – exceção feita aos seus maridos, uns companheirões. Mas aquele frenesi, pese embora o enérgico investimento do senhor Pereira, acaba por se extinguir sem que nenhum dos dois chegue a tirar vantagem. E a viúva, com um gesto de impaciência, quase pena, empurra-o: deixe lá, eu dou-lhe o desconto. 
Ah, nada disto, claro. A viúva e o senhor Pereira preservam a distância que os livra de todos os vírus e impulsos, confrontam-se apenas com os olhos e ela, talvez por saber que são vãs as discussões entre os que falam línguas diferentes, responde-lhe: 
– Que desilusão, que tremenda desilusão me saiu o senhor.

2.6.20

Nomear a orquídea foi quanto bastou para atrair a má sorte. Nada eleva tanto quanto a atribuição de um nome, é um gesto a favor da singularidade e contra o esquecimento. Além disso, com um nome pode viver-se uma história e Isabela também reclamou a sua. Mas, mais sensata do que a antecessora, não chamou a si a desgraça atirando-se de corola aberta ao primeiro que lhe exibiu artes de caçador. Outro caminho que não o da entrega irrefletida levou Isabela a experimentar a perda e a desolação.
Foi dito e mostrado aqui o esplendor em que se encontrava, atingindo em beleza e graciosidade um nível que a outra nem sonhou. E não se ficou pelo que viram. Isabela floriu com tal exuberância que a certa altura havia nos seus braços escancarados nem mais nem menos do que treze corolas, todas desenhadas com igual rigor e revelando ao toque a mesma macieza e aparentando a mesma candura. Ao chegar a este estado apesar dos meus descuidos e da minha indiferença, Isabela mostrou ter fibra e provou não serem disparatadas de todo essas máximas da autoajuda que apregoam a suficiência do amor-próprio na construção do sucesso. 
É sabido, porém, que qualquer virtude está sempre encostada à raia de um terrível defeito e que basta uma distração, um exagero, um deslumbramento, para que tudo vire o seu oposto, tal como a sobredosagem transforma em veneno o mais inofensivo dos remédios. Assim creio que terá acontecido a Isabela. Se o amor por si mesma primeiro lhe garantiu a sobrevivência, depois cresceu ao ponto de se transformar em vaidade. E quanto mais vaidosa, mais na sua beleza investiu, fazendo brotar novas flores, jamais satisfeita com as que já tinha. Sob o peso de tamanha florescência, duas das três hastes foram vergando, vergando, vergando, até que um dia quebraram definitivamente, deixando Isabela reduzida à haste principal, numa beleza minimalista que, depois de tanta opulência, até parece miséria. Em números – para quem assim prefere medir a amplitude das desgraças – traduz-se a coisa em dez corolas caídas no chão da minha sala e três sobreviventes e viçosas, na haste de origem.
Tentei salvar as hastes quebradas enterrando-as diretamente no vaso, com esperança de que elas larguem a firmar raízes na busca instintiva de alimento. É isso que hoje mostro, para que se testemunhe não só a abundância de flores que Isabela deu ao mundo como também o meu esforço em recuperá-las. E fica claro que embora eu me preste muito a fantasiar sentimentos, tenho realidade que baste para não ter de aldrabar nos factos.
Sei que devia ter educado o crescimento de Isabela com a ciência disponível no google. Por isso também desta vez vou chafurdar na culpa, banhar-me na sua lama agridoce e reservar para mim mesma as mais cruéis palavras de desprezo. E assim, caso alguém pretenda censurar-me, saiba que já vem tarde. 

28.5.20

A uma mulher, cansa muito carregar o próprio corpo a vida inteira. É certo que os homens também carregam os seus fardos e para que não falhem na tarefa a natureza concedeu-lhes costas amplas. Mas eles, se lhes aprouver, atiram fora a carga ao fim dia, dispensam-na, mandam à fava o capataz, trocam de serviço ou escolhem mandriar. Nós temos a carga de nascença, sem escolha, e a nossa rotina é libertá-la em conta-gotas. Entre sangue, leite ou filhos, não há uma que não doa quando vaza, que não cheire, suje ou rasgue, que não corroa as fibras, os tecidos, as dobras. Por mais que no mundo nos seja dada a voz, o direito e o poder – por caridade, após conjeturas e deliberações de assembleia ou porque alguma se sacrificou até à morte pelas outras – e ainda que aos homens um dia seja dada a faculdade de entender – porque saber não é o mesmo que entender – nada poderá aliviar-nos dessa carga desigual, que às vezes morde os rins como um cão raivoso e espeta agulhas nos seios e despedaça o ventre em golpes duros. E na hora em que esses lugares do corpo deixem de sofrer por se retirarem do ofício da fertilidade, terão de ser vigiados em dobro, com olhos, sondas, dedos, porque neles a morte costuma ter gosto em largar a sua âncora. Quanta ingratidão.

19.5.20

De resto, também é preciso dizer que tudo perdeu graça e glamour. Acabou a solidariedade de varanda, as receitas de pão caseiro, as odes ao café de italiana e aos passarinhos. Nunca mais se fez prosa rebuscada sobre os planos do universo, nem sobre a revolta da natureza, essa coitada tão oprimida que se armou de um vírus do diabo para justamente destituir os poderosos. Talvez os sermões que o pivô das notícias deu como quem dá esmolinha já não inspirem ninguém. É de tristeza e apatia a face visível dos adolescentes do colégio lisboeta que hoje vinha no jornal. Há novos casos de padres incapazes de dominar o gosto sórdido por carne tenra. Da porta da papelaria a rapariga atira-me acenos vivos, cheios de uma estival feminilidade, e o Marco do ginásio, ao passar para nenhures com a chave da porta que ainda não pode abrir, apanha-os no ar julgando que lhe são dirigidos. Está um dia muito bonito e a morte ronda as moradas de todos nós com pezinhos de lã ou patadas de besta, consoante o fado de cada um, sem novidade, como desde que o mundo é mundo. Quem foi que disse que nunca mais seriamos os mesmos?

15.5.20

Ao ver a fotografia da Valentina, a menina cuja história não tem verbo que lhe sirva nem justiça que se faça, reparo como os seus olhos irradiam a luz própria das crianças afortunadas e espanto-me com a ideia de a desgraça poder ter o mais insuspeito e suave de todos os rostos.

14.5.20

Noto, com alívio, que começam a abrir os olhos aqueles que, na solidez das suas casas, na concavidade dos seus sofás, na sua melancolia de chazinho e poesia, acreditaram que o coronavírus era uma oportunidade para sairmos melhores e regressarmos aos valores essenciais. A estufa de sentimentalidades onde se colheram as mais suculentas pieguices e de onde alguns conseguiram até arrancar argumentos de júbilo pela paz em que se sentiam encarcerados nas suas casas, começa finalmente a perder viço. Estar confortável com uma tragédia que outras maiores arrastará consigo por largo tempo, se não é egoísmo, há de ser ignorância, e se nem uma nem outra, só sobra religião. Depois, como é costume, ainda aparecem os entendidos com o seu portefólio de chavões, a lembrar que nas épocas de crise o espírito está recetivo como um ventre maduro e nele podem ser concebidas ideias magníficas, nunca antes nem de longe vislumbradas. Acredito, mas por cada ideia luminosa que desponte, que abra portas, reinvente caminhos, dê lucro e fôlego para recuperar, quantas ideias obscuras, de morte, violência e desalento se concebem?

12.5.20

Talvez porque eu tenha merecido, agindo com paciência e resignação, aceitando as nossas diferenças, relevando o que jamais devia ter condenado, a minha orquídea abriu-me finalmente três braços carregadinhos de pétalas brancas, aveludadas como pele de bebé. Para premiá-la, levei-a mais uma vez à janela e tirei-lhe o retrato, fazendo assim prova da sua abundância e autorizando-a seduzir quem andasse de passeio pela rua. Mas com o tempo de cara tão feia, o dorso da serra desaparecido atrás das nuvens, as folhas das árvores a suspirarem ao vento pela demora da primavera, as ruas tristonhas e o mundo cheio de preocupações, nada nem ninguém pareceu dispor-se a adorar beldades desabrochadas em ambiente doméstico, entre o calor humano, ignorantes das agruras da vida, sem mossas ou traumas na sua delicadeza. 
Depois do retrato, devolvi-a ao lugar do costume, que é no chão, à sombra de uma areca, ao lado de uma estante. Reconheço ser injusto da minha parte encafuar uma orquídea a pretexto de um castigo sobre a estupidez de outra, que – não me canso de repetir – morreu babadinha por um gato vadio. Mas compenso de outro modo. Por ter restaurado a minha fé na boa vontade das orquídeas, que eu julgava viverem para exclusiva satisfação dos próprios caprichos, merece a maior das honras: ser nomeada. Isabela. 


9.5.20

Entre todos os alívios que a existência humana reconhece e pelos quais suplica – nas maioria das vezes em silêncio por serem da esfera da intimidade – e que, quando alcançados, propiciam um delicioso afrouxamento dos nervos e dos músculos, uma suave inclinação da cabeça e aquele sorriso lânguido, de olhos revirados e a par de um longo suspiro, dou agora conta de mais um: tirar a máscara ao entrar em casa. Mas depois do deleite primeiro que é ter o ar fresco no rosto como se de um bem raro e de dura conquista se tratasse, depois de o inspirar profundamente, de ele subir limpo, novo, por cada uma das narinas, depois do gozo de o sentir dar a volta completa nos pulmões, sou tomada por aquela melancolia que segue o êxtase, aquele fumozinho que resta após o fogo se extinguir.
Olho a máscara, largada onde deverá purgar o mal de que é suspeita e que agora se impõe considerar o pior dos piores, atirando para um perigoso esquecimento tudo o mais que mói e mata com requintada malvadez, e penso: a que raio de mordaça, açaime ou amarra veio agora obrigar-se a humanidade! Numa hora destas, em que o mundo parecia girar sem grande novidade, as desigualdades já tão velhas, o círculo vicioso das guerras, o sangue coagulado nas fronteiras, os tronos côncavos dos mesmos corpos, o solo farto dos mesmos mortos, a miséria e a abundância chocando em encruzilhadas obscuras, a má distribuição da felicidade, a justiça a morar num barraco, a inteligência obrigada a prestar serviço à estupidez geração após geração, nós tão desgraçadamente acostumados a tudo como se fosse nada, e de repente, com este solavanco, coisa tão pouca como respirar em liberdade torna-se o mais difícil e delicado de todos os prazeres.

5.5.20

À porta dos correios:
– Fique descansada que assim que entrar ponho a máscara, tem é de ser com o nariz de fora senão abafo.

4.5.20

Em casa do meu vizinho, não sei por ação de que virose, as lógicas estão do avesso. Agora, é ela quem fala mais. De meia em meia hora, ó Vasco, caramba pá, uma voz melada e sem fé, como a da mãe depois de cem vezes ter mandado ao filho que arrumasse o quarto. A criatura, que de manhã à noite berrava descontente do mundo que lhe coube, só a espaços manifesta as suas iras inocentes e animais, a fome, o frio, o sono. E ele parece curado do mal da vitimização, foi-se a choraminguice por não ser reconhecido pelo empenho nas tarefas domésticas ou por não poder explicar até ao fim o que, quem sabe, talvez nem tenha explicação. Enfim, o cansaço vai mantendo em lume brando mágoas e ressentimentos, quanto mais não seja porque assim com as portas cerradas o risco de explosão aumenta e entre a trabalheira de apanhar estilhaços ou continuar em modo morno e preguiçoso, parece óbvia a escolha.
Mas ontem, pelo meio não sei de que conversa, ouvi-o de novo erguer a voz – que por ser naturalmente dócil não causa grande susto – e dizer tal qual:
- Estás sempre nhe-nhe-nhe, nhe-nhe-nhe, nhe-nhe-nhe, não te calas, pareces a minha mãe!
Julguei que dali fosse rebentar discussão mas só silêncio e a água a correr no meu lava-louça. E talvez porque ela o tenha ignorado, coisa que fere, acima de todas as outras, o ego esperto de um provocador, ele investiu com mais força:
- É que pareces mesmo a minha mãe, apre!
Nada. Mas à noitinha, a cama deles rangeu com um ritmo suave, amoroso, como há muito eu não ouvia.

29.4.20

Ah, a minha avó gostava dos bons rapazes. Parece que estou a ouvi-la a dizer, agradada, quase derretida, gosto muito de fulano, parece ser tão bom rapaz. Referia-se sempre a homens moderados, incapazes de uma desobediência, respeitadores absolutos de todas as formas de soberania, ordeiros, nunca um murro na mesa, nunca uma porta batida, jamais uma verdade que desarrumasse muito. Os bons rapazes sabem onde devem estar, quando devem falar, como devem ser prestáveis. Gentis com as senhoras, de trato fácil com os cavalheiros, disponíveis no trabalho. Haverá mais conveniente do que isto? E se alguém, por um acaso improvável, os ouvir levantar a voz é para dizer, tomados de muita razão, eu não admito a sicrano que me faça tal coisa. Mas admitem, por não terem alternativa ou por ela custar demasiado para a bolsa empobrecida da sua coragem. 
Eram esses, os bons rapazes, os que garantiam um bom casamento, dizia a minha avó com o espírito cheio de temores e o coração embalado pelo romantismo simples das telenovelas.

28.4.20

Para fazer de mim uma boa católica, a minha avó contava-me sobre o trágico destino de todos os que provocaram a ira de deus ou puseram em causa o seu bom nome. Na maioria das vezes contava na cozinha, enquanto descascava as batatas para a sopa ou estalava a cebola no azeite. Mas em certos dias fazia-o com mais gravidade, sentada na arca grande do hall, uma arca de madeira escura, maciça, toda trabalhada, onde envelheciam serviços de jantar e outras relíquias. Aí, na penumbra, enquanto eu baloiçava os pezinhos a dois palmos do chão, ela desfiava um rol de desgraças verídicas cujo rumo teria sido oposto se houvesse um bocadinho mais de temor a Deus, respeito a Jesus Cristo e devoção Nossa Senhora de Fátima. A única de que me lembro, porém, é a do homem que menosprezou o poder divino durante uma violenta trovoada e cerrou o punho, apontando-o aos céus e rugindo uma ameaça: “Ele que atire cá pra baixo que eu devolvo lá pra cima”. 
Ao contar isto a minha avó franzia-se toda com a emoção, gostava de enfatizar as histórias, trazê-las ao presente, fazer-me sentir o medo, a mágoa, a raiva que a consumiam. Eu, deslumbrada com tamanha ousadia, e depois? Ah, depois, só de lembrar arrepiava. Veio do céu uma coisinha, disparada como bala em direção ao homem. Mas que coisinha? Era um brilhante assim deste tamanho, e definia-o com o polegar e o indicador, o rosto muito impressionado como se tudo estivesse ali outra vez. O brilhante surgira de forma tão rápida e era tal o seu fulgor, que os que testemunharam – e não foram poucos – ficaram assombrados. E vendo como certo que deus era autor e remetente do fenómeno, redobraram o temor que já lhe tinham. E depois? Não souberam mais, porque correram todos a abrigar-se e cada um acendeu velas e rezou o quanto pôde debaixo do seu telhado. Mas o que era, afinal? E com os seus lábios rugosos, sempre trespassados de lamentos e tensões, a minha avó respondia: fosse o que fosse, era o castigo merecido. 

27.4.20

Saio para me sentar num banco da alameda com um livro que não tenho intenção de ler no momento. Noutros tempos, a esta mesma hora, era certo que começando eu a descer a rua a mulher do senhor Pereira a subiria, na volta do pão quente, com uma roca a fumegar e meia dúzia de docinhos para consolo do espírito domingueiro e preguiçoso. Se viesse sozinha, teria os sentidos vivos como um animal de mato e avançaria com a segurança que lhe falta quando o marido a traz ao dependuro num braço. Curiosa sobre o meu livro, recuaria para focar e, de testa franzida, do que é que trata? para logo, sem surpresa para mim, desdenhar. Por ter os horizontes embaçados e o hábito de julgar pela capa, voltaria a insinuar que tenho tendência para ler obscenidades. E com o olhar à roda pelas periferias da visão, como num filme de terror, deixaria escapar um suspiro, um lamento, um desabafo entredentes sobre as inconveniências desta vida. Depois, como se lhe faltasse tempo para essas coisas menores que são a literatura e o amor carnal, causas de enguiços quotidianos e acidentes familiares perfeitamente evitáveis, usaria o argumento dos muitos afazeres domésticos para se despedir a correr. E então eu, receando que alguma reviravolta acontecesse no mundo ou por qualquer castigo, mistério ou desgraça não voltássemos a ver-nos tão cedo, segurar-lhe-ia no braço a dizer: não, sente-se aí e conversamos um bocadinho.

26.4.20

Na sociedade como na intimidade, somos mais e melhores a obedecer do que a empreender. Um casal pode passar anos em desamor, acobardado de uma atitude digna e honesta, mas se alguém manda que se enclausure por tempo indeterminado, acata com rigor, firmeza e até romantismo. O sentido do dever é uma virtude com partes iguais de tristeza e conveniência. 

23.4.20

Está tudo tão quieto que até à bravura deu sono. Não vibra mais por aí a energia do grande exército de salvação do mundo que nos pediram para ser. Afrouxou a bandeira do altruísmo e do sacrifício, desesperam agora os que mais firmes pareciam no isolamento. Era tudo magnânimo, intenso, apaixonante, enquanto se aplaudiam deuses e se culpavam bestas. O inimigo não era só um vírus, era um partido, um vizinho que não amparou a tosse com o braço, um velho que saiu para uma volta ao quarteirão por não ter jardim, varanda ou companhia e que ninguém soube compreender.
Agora que a areia vai assentando no fundo das águas, começará a transparecer o saldo real de tudo isto. E à tona vem a espuma de sempre. 

20.4.20

Tal como previ, culminou em desastre o arranjo que ontem tentei dar às minhas unhas. Tenho mãos miúdas, com dedos tão finos que mal seguram anéis, mas nem por isso talhadas para requisitos de minúcia e paciência. Em pequena, davam-me náuseas e dor de barriga as aulas de trabalhos manuais, disciplina que maculava o brio da minha pauta. Os meus colegas faziam delicadas peças de madeira, belíssimas tapeçarias de arraiolos e fada-do-lar, esculturas cerâmicas que as mamãs ostentavam no hall das suas casas e a mim, nunca mais me esqueço, um dia a professora cheia de pena, a ver se ainda era possível salvar-me: ó querida, só se tentares fazer um alguidarzinho de barro. Que miséria. 
Se a minha mãe ainda por cá estivesse e visse hoje o espetáculo destas unhas, a lembrar os primeiros ensaios com guache em pré-escola, havia de me dar consolo: pronto, não se pode ter jeito para tudo. Eu, mais apaziguada no seu colo, e para justificar as carradas de papel que sempre me disponibilizou e gastei sem moderação, responderia, como se isso de alguma coisa me redimisse: ao menos escrevo, não é? E ela, com a complacência do amor materno, que por natureza distorce e é habituado a fantasiar generosamente, sim, coisas muito lindas, coisas muito lindas.

18.4.20

Cansei-me das linhas de montagem de novidades sobre o coronavírus, dos diários da quarentena, da futurologia de trazer por casa e dos lugares-comuns em torno do regresso às coisas simples. Reduzi drasticamente a já escassa lista de blogs que lia e atravesso na diagonal os títulos das notícias. A vida através das janelas tecnológicas ou outras com que se remedeie o isolamento está enfadonha. A bondadezinha tornou-se um ensaio demasiado fácil e com figurino já encardido. A melancolia cheira a bolor. Os sermões moralistas, as análises e psicanálises de autoria diversa e ilegítima fazem rir nuns dias, noutros fazem bufar. As teses científicas tornaram-se produtos de mascar e deitar fora, com validade suspeita e de curto prazo. E a imprensa vai aproveitando para nos injetar veneno em doses reforçadas porque sabe que o medo abre todas as costuras da razão e permeabiliza os espíritos. 
Sou grata aos que, no meio disto tudo, conseguem ter a mente desperta e fora do carreiro. É com esses que aproveito para respirar fundo e fresco porque, como é fácil notar, também eu pouco digo que valha. 

14.4.20

Mais perdido está quem renega o passado do que quem não vislumbra um futuro. Porque, em todo o caso, não existe futuro algum que se possa vislumbrar. Planos e intenções definem o passo que damos, jamais revelarão o que vem depois da curva ou está atrás da montanha. Só a memória nos localiza absolutamente, nos dá o ponto a partir de onde sabemos que temos de avançar e que é o nosso chão, a nossa paisagem, a nossa perspetiva. 
Por isso, tão perigoso como viver preso ao passado é desejar esquecê-lo.

(esta manhã pasmei ao ouvir as previsões futuristas de Michio Kaku, o físico. Da possibilidade de fotografarmos os nossos sonhos ao acordar, até ao scanner de uso doméstico que com dez anos de antecedência nos avisará de um cancro, ele pode enganar-se em tudo se o mundo sofrer revés ou entretanto implodir. Facto, realidade, detalhe quase poético no meio disto tudo, era a bengala em que se apoiava quando subiu ao palco do auditório e em nenhum momento largou)

*post de 2015, que me pareceu justo repescar

13.4.20

Esta noite vi-me no caos da sala de espera de um hospital, mas por nada sequer parecido com o que agora agita o mundo. Fui fazer um exame de diagnóstico para confirmação de uma suspeita terrível, capaz de me reduzir a cadáver em meia dúzia de meses. Durante a espera imaginei, até quase me falharem os sentidos, o horror que viveria nas horas seguintes e do qual já previamente me informara: uma pinça de grandes dimensões seria introduzida pela minha boca de modo a arrancar-me pedaços de tecido da laringe a sangue frio. Para me tranquilizar não contaria senão com a delicadeza e a benevolência do médico responsável. Pouco antes do exame fui ao bar pedir qualquer coisa doce que me devolvesse os sentidos e a presença de espírito, porque nem a respirar conforme o ensinamento dos antigos me livrara da sensação de pânico. A senhora que servia torradas e galões ao balcão, de avental e mãos sapudas, oleosas e rosadas, negou-se a vender-me o que quer que fosse. Com o argumento de que era chegada a minha vez, despachou-me para dentro da sala de exames, trocou o avental por uma bata, calçou as luvas e tirou a pinça gigante da gaveta.
Acordei em sobressalto, precisamente à hora em que a angústia costuma sair da toca com as garras todas de fora para mostrar o negro pavor de existir aos espíritos insones. E foi difícil afugentar a ideia de que um perigo marinava em silêncio na minha garganta.

12.4.20

Ao soar a chegada do compasso pascal, alinhávamo-nos todos ao cimo das escadas. Pais, avós, tios, primos, irmãos, num perfeito equilíbrio de poderes, ideias e idades, convergindo no instante da suprema reverência ao beijar o crucificado. Para além da vontade sincera que eu tinha de fazer jus àquela causa divina de sacrifício, dor e abnegação – descartada mal entrei na adolescência – o que lembro com mais vivacidade é o cheiro a álcool etílico. Num tempo em que misérias, doenças e bizarrias do outro mundo ainda dominavam os enredos da província, o hálito desinfetado de Cristo era uma garantia. Permitia o beijo em total devoção, de olhos fechados, à confiança, pouco importando quantos outros antes haviam feito igual, que beiços ali tinham pousado, que vidas microscópicas embarcavam naquela cruz para aportar na próxima boca. Enfim, a verdadeira comunhão. Pese embora o carinho e o respeito com que lembro este ritual, senti algum alívio quando me vi livre dele, lá pelos finais da minha infância. Já a mãe da rapariga da papelaria, que continua sem acatar a ordem de confinamento absoluto, chora-se de este ano não poder ter essa graça, nem com a salvaguarda do álcool etílico. Atrás do balcão, encostada ao canto como num castigo, de boca e nariz enterrados na gola do casaco, esconjura o padre Gabriel por se submeter a esta embrulhada sem tugir nem mugir. A quem serve ele, afinal? Não é a deus? Acaso deus mandou-lhe que cancelasse alguma coisa? De facto, não. Não consta que deus tenha dado essa ou outra instrução qualquer. Aliás, onde está ele senão na resposta que nunca chega, no consolo que nunca basta, na casa onde nunca se consegue viver em paz? 

10.4.20

Notei que era falado, mas como não tenho televisão ignoro até que ponto e com que argumento Rodrigo Guedes de Carvalho a certa altura se tornou o guia espiritual dos portugueses. Diz que fez vibrar as cordas sensíveis dos corações lusos e que se dirigiu à nação com aquele paternalismo misto de amor e firmeza que se usa para educar no caminho certo e que até os filhos insurretos ou levianos costumam acatar se lhes faltar o chão e a mesada. Enfim, precisamos destas sentimentalidades como de pão para a boca sempre que estamos no espaço breve e branco do tudo ou nada, suspensos, de mãos atadas, à espera do socorro, com medo que nos falhe a confiança, sobrevenha de novo a pequenez e sejamos outra vez a pedra pela encosta abaixo, a estatelar-se no aquém que deus nos reservou. 

9.4.20

Da janela da cozinha vejo o ecoponto a tornar-se um lugar cada vez mais concorrido. Os automóveis encostam, abrem as malas e vão largando pilhas de excessos domésticos: caixas e caixotes, capas e pastas, brinquedos, sacos de roupa, mobiliário pequeno, abajures, molduras e uma série de quinquilharia que ao longe não distingo. É extraordinário o que há de sobra e inutilidade no topo dos armários, no fundo das gavetas, debaixo das camas, na sombra húmida das arrecadações. E tanta gente a realizar agora o que não faz falta, nem vale guardar, nem justifica o espaço que ocupa, o pó que acumula ou a energia que gasta. Eu tenho medo de qualquer coisa parecida: começar a notar, com clareza e sem ruído, aqueles cuja ausência afinal não cava no meu peito a saudade que eu previa. 

7.4.20

As mãos do mais velho escaparam à herança da triste falta de jeito com que nasceram as minhas. Tem-nas tão firmes a dominar bichos de grande porte como delicadas e elegantes na caligrafia, expressivas em danças e acordes, pacientes a desfazer os nós dos meus fios de bijuteria, ardilosas na manipulação da trajetória da bola. O que há de correr mal se lhes atribuir a responsabilidade de me cortar o cabelo, que já vai para lá do meio das costas?

6.4.20

Espera. Deixa-me acabar. Tu não me deixas falar, caramba! 
É o meu vizinho para a mulher, exasperado. Ninguém previu este inferno na assinatura do contrato. Era na saúde e na doença, sim, mas sem contar que havia de dar-se a pandemia e teriam de se bastar confinados aos metros quadrados que sonharam juntos, sem paliativos ou saídas de emergência. O amor cura tudo, hão de ter ouvido. Mas se adoece ele, de onde vem a cura ninguém revelou. Antes, ainda se consolavam a cada quinze dias, ela a gemer monocórdica, ele a resfolegar na escalada até se dar como morto com um risinho asténico, púbere. Agora, assim que adormecem a criatura, lavam a roupa suja mas como não se deixam falar e urge sempre a razão de um sobre a do outro, ao fim de algum tempo entregam ao silêncio a tarefa de desenlaçar o conflito. Fraca estratégia. Acabarão por tornar-se um casal vulgar, com flores na entrada da casa e mofo nas pregas dos lençóis. 

5.4.20

Enquanto esperamos pelo bolo mármore que cresce no forno, vamos auscultando a cadência da chuva e mastigamos, já doridos, a estrutura pastosa do tédio. Toda a casa está perfumada de chocolate e Lhasa, a desdeñosa, faz vibrar as suas mágoas de amor nas paredes da sala. Em dias como este, adiar todas as coisas da vida, renunciar à companhia dos outros, ficar longe dos entretenimentos e do bulício, não precisavam de ser uma ordem. Vê como a clausura e a melancolia se aparentam e como uma tão bem pode disfarçar a outra ou travestir-se dela ou por debaixo ocultar-se sem que ninguém desconfie.

2.4.20

Saio com o mais novo para a alameda, onde ele pode chutar a bola à vontade e queimar tudo o que tem comido. Sento-me num banco, mas nem abro o livro que trouxe. Fico a ver o quanto cresceu o meu menino de cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno, como amadurecem em harmonia e proporção as partes do corpo que tinha arredondadas e fofas, a barriguita, as mãos, as bochechas, como se afila o pescoço e ganham precisão os movimentos. Como, enfim, cada vez menos procura nos meus olhos o consentimento e o incentivo. O que nele invejo – pode invejar-se um filho sem levar castigo? – é a robustez do humor. Nada, sequer o golpe profundo da morte, a consciência do mal ou a sombra dos desastres, fez estremecer a visão generosa que tem do mundo. Corre pela alameda de braços abertos, cabeça levantada e olhos fechados, confiando que a paisagem se faz e refaz a cada passo seu para que nenhum mal lhe aconteça, nenhuma pedra o rasteire, nenhum muro se interponha, nenhum abismo se abra.

1.4.20

Posso competir com todas e para todas chego se perder o pudor e a humildade. Não vacilarei ao encostar a lâmina no pescoço esquálido da sentimental, cujas artérias choram aos soluços as sílabas do teu nome. Também serei rápida nos pulsos da melancólica de pantufas, poupando-lhe o encargo de te chantagear com o pretexto dos nervos fracos. A intelectual? Não me faças rir, que há mais no meu pensamento às sete da manhã de um domingo do que em tudo o que ela reteve dos livros com que encena a devoção ao conhecimento. A generosa, deixarei que se canse a alardear as suas bondades, esmolas e cuidadinhos e depois, só para ti, falarei do que ainda ninguém me ouviu contar. Nenhuma tem virtude que não possa ser superada ou defeito que eu não possa usar a meu favor. O que me parece impossível é competir com aquela que sonhas, pois essa é de substância maleável, podes tê-la de acordo com a necessidade dos dias, forte, doce, calada, despida, rebelde, e podes mandá-la embora e ela não terá orgulho bastante para negar o regresso quando lho pedires. Entra-te pela casa a qualquer hora atravessando paredes porque não tem corpo a não ser quando o desejas. Deita-se sobre ti sem ruído e conforme a tua vontade, encaixando-se na medida certa, no instante exato, em perfeitas condições de temperatura e humidade. Se pressentires que está perto de te dececionar, ou porque te cansas das suas graças ou porque te desgosta o género das suas calcinhas ou porque não te espantam mais as suas ideias, dás-lhe uma volta, um tempo, um retoque, sacodes a mão, desfazes e refazes o sonho. É por isso que, ainda que seja meu o nome e o rosto que lhe dás, sairei sempre derrotada da batalha contra ela.

31.3.20

Aqueles que esfregam as mãos ao supor as contrariedades que o isolamento traz aos outros e as lições que hão de eles aprender agora, são a evidência de que embora as grandes convulsões reorganizem as sociedades, reformulem leis e sistemas de governação, desloquem fronteiras, inspirem correntes, estruturas e abordagens na arte e no pensamento, nada, através dos tempos – nem praga, nem guerra, nem tsunami –  é suficiente para lavar as nódoas que empestam o ego humano.

29.3.20

Separado da mãe, que labora no grande exército contra o perigo invisível, Joaquim resguarda-se no ninho da família paterna sem saber quando voltará a cheirar o corpo que o pariu e alimentou em esforços de sangue e suor. A imperatriz tem a força, o instinto e a inteligência ao serviço de uma única causa, mas não é a sua nem a do tão amado filho. Disto fico a saber no tempo breve de um aceno, quando o senhor Pereira caminha para norte no passeio a poente e eu para sul no passeio a levante, sem que o ronco brusco de nenhum automóvel interfira na conversa. Veja a menina como nem tudo é mau. A desgraça que varre o mundo traz-lhe a felicidade de partilhar a clausura com o neto porque o filho, mais uma vez, foi de armas e bagagens lá para casa, aterrorizado de se ver sozinho com a cria nos braços em tempos tão incertos. É claro que lamenta pela imperatriz, que sempre que pode fala com Joaquim por chamada de vídeo e chora como jamais um Pereira imaginou que ela chorasse. Está só e extenuada. Nem sequer pode visitar a mãe lá nas dobras áridas da serra, aquilo é que é isolamento a valer, que vírus é que tem interesse em lá chegar, caramba? O senhor Pereira ri da própria estupidez mas apressa-se a remediá-la quando nota que não alinho. Coitada daquela rapariga, diz, e é pior a emenda que o soneto. Ah, incapaz de resistir a fazer uso da arrogância nesta hora, troca as voltas à história e diminui a mãe do neto pela via da piedade. É a primeira vitória do senhor Pereira sobre a imperatriz, uma vitória suja, mas ele levanta o troféu várias vezes coitada, coitada, coitada, queira deus que não lhe aconteça nada.
Os Pereira desconheciam a força de abalos imprevistos porque a vida inteira trabalharam pela linearidade e constância e foram sendo de tal forma bafejados pela sorte e protegidos pela condescendência divina que até os pequenos desaires e vergonhas lhes aconteceram na medida certa para esconder no fundo do armário e debaixo dos tapetes. Agora, parece-lhes impossível que a ciência, chegada aos cúmulos a que chegou, não tenha já na manga a solução. De modo que de hoje para amanhã, vai-se a ver e foi só o susto. Nem este desastre eles consideram como tal, não há nada que esfrangalhe a sua superioridade. Os outros é que, coitados.

28.3.20


Chuva miúda, Luís Landero

27.3.20

Este nojo físico que aprendemos a ter uns pelos outros, que cultivámos até se tornar num automatismo, que tiraniza agora todos os nossos gestos, movimentos e ideias, assusta-me. Algum dia tornaremos a obedecer, de ânimo leve, ao instinto? Voltará a soar-nos razoável a ideia de que a epiderme é o mais profundo e honesto de todos os lugares onde o sentimento se manifesta? Estenderemos de novo a mão, sem filtro ou reserva, para amparar um estranho que vacile ao nosso lado? Passada a tormenta, seremos capazes de resgatar aos escombros a forma original de reconhecer, desejar e confrontar os outros?

25.3.20

Eu já não tinha uma orquídea desde a morte de Julieta, caída da janela por amor a um gato vadio, de cor preta, que em patinhas de lã nos rondava a casa despertando sonhos impossíveis naquela corola tão aberta e inocente. Deu-se a tragédia, se bem recordo, numa manhã de sábado e eu tomei para mim as culpas que não tinha, acusei-me de negligência grave e condenei-me a nunca mais ter à minha responsabilidade flor alguma, muito menos espécies sensíveis que se apaixonam por gatos sem nome nem residência fixa e por eles se debruçam fatalmente nas janelas. Passei a rodear-me apenas de plantas dispostas a aceitar a vida como ela é, sem sentimentalismos ou caprichos desajustados à sua condição e que me dão mais benefícios do que aqueles que me exigem. Enfim, confesso que até vejo na resignação uma virtude meritória se me facilitar os dias. De modo que tenho a casa cheia de lírios da paz, espadas de são jorge, arecas, dracenas, clorofitos, heras, todas em pacífica e feliz coabitação.
Mas uma orquídea foi desenhada para desarrumar os corações humanos, há de ser obra do demo ou das horas vagas de deus, quando ele já não sabia o que fazer à criação e, para se entreter, a polvilhou de miúdos venenos, feitiços e armadilhas. Os poucos que resistem a orquídeas é certamente porque nunca tiveram uma. Uma vez postos os olhos na sua beleza, em estreita afeição e cuidado, está tudo perdido.
Trouxe então, há quase um ano, uma nova orquídea para esta casa mas decidi não lhe dar grande importância, que é logo modo de pôr travão aos abusos. Nem sequer escolhi a mais bonita. E por receio de uma vez mais ser inútil o investimento de tempo em estudos detalhados sobre água e iluminação, pousei-a onde me deu jeito e por lá ficou, borrifada ou regada se calhasse eu lembrar-me. Depois de lhe caírem todas as pétalas – pela imposição dos ciclos da natureza, note-se –, mudei-a de lugar e escondi aquele desconcertante esqueleto debaixo de uma areca, regando-o de longe a longe com um desleixo propositado, como quem diz: toma lá e faz-te mulher, se for para sobreviveres, sobrevives de qualquer maneira. Passaram meses, até que a Luísa reavivou a memória das orquídeas e eu fui espreitar e dei com seis botões muito verdes e redondinhos no braço mais longo desta, que – juro! – nem lembro de que cor é. Entusiasmei-me, claro. Mas, por via das dúvidas, depois de tirar o retrato à janela voltei a enfiá-la junto da areca, não vá dar-lhe a mania das grandezas e, como a outra, apetecer-lhe provar do que não lhe é destinado.



24.3.20

Do que tenho lido pela blogosfera, noto que estamos mais virados para a guerra do que para a paz e que aqui, nesta crise inesperada que atravessamos, muitos sovam aflitivamente o ar num combate com os próprios fantasmas. É a esquerda, é a direita, é o que devia fazer-se, é o que está mal feito, é o que vai acontecer, é o que não é bem assim, bate agora aqui, a seguir além, todos incompetentes, todos falsos, todos oportunistas, eu dizia-lhes como se faz, eu que estou acima e mais além, eu que domino as ciências, as exatas, as abstratas, as sociais e as ocultas, eu que já sabia que isto ia acontecer, deste meu sofá via tudo antes de vós, eis as previsões, aqui as suposições, ali as curvas e agora as contracurvas, eu logo disse, eu bem avisei, agora amanhem-se, agora unam-se, agora escondam-se, agora ergam-se, agora demitam-se, agora tratem-se, irresponsáveis, paranoicos, negligentes, alienados, todos burros, todos errados.
*
Por favor. Se não podeis ou não sabeis ajudar, então um pouco de silêncio. É preciso calar para escutar, para saber, para aprender. Recolhei essas armas porque não servem nesta luta, só cortam o ar e o ânimo, é melhor uma história, um retrato, uma graça, uma visão, um verso que acrescente, um pensamento que brilhe. Amanhã mudamos as leis, os decretos, os partidos, os governos, as cabeças, as ideias, e quem achar que é assim tão diferente dos outros, que está mais certo e melhor, mude até de mundo, outro ao seu gosto talvez haja num universo tão vasto. Guardai para amanhã as raivas, as ganas e as cegas convicções. Toda a energia e segurança que delas parece emanar será necessária para a nossa reconstrução.

23.3.20

Saio para levar jornais e revistas a quem só pode andar na rua pelos mínimos. A tarefa proporciona-me a felicidade de entrar papelaria adentro como a criança a quem dão duas moedas para uma mancheia de lambarices. Entrincheirada atrás do balcão, a rapariga recebe-me com uma alegria serena, invulgarmente dócil, como se o seu coração se tivesse expandido para lá do velho desgosto de amor. Enquanto me trata dos periódicos que listei, conta-me da luta que tem sido para manter a mãe em casa e resigná-la a uma injusta e desproporcionada condição de inválida. É verdade, a insurreição dos velhos anda agora nas bocas apartadas do mundo, enfim, há sempre alturas em que as lógicas se invertem, não sei se para efeitos de vingança, de empatia ou ambas. Todos os dias, é certinho, chega a casa e está a mãe na rua, à conversa com duas vizinhas, trocando novidades miúdas do quotidiano, como se a vida continuasse na ignorância de possibilidades como epidemias ou desastres económicos. A uma delas, veja se isto cabe na cabeça de alguém, ainda há duas semanas nem dirigia palavra, desentendidas que estavam por assuntos do condomínio mal explicados e pior resolvidos. Agora parece que a ideia do fim do mundo desfez certos equívocos e azedumes, embora tenha despertado outros. Juro-lhe: tenho de levantar a voz, mandá-la para dentro, obrigá-la a mudar de roupa e a lavar as mãos. Não sabe se chora ou ri ao lembrar quantas vezes a mãe fez igual com ela, numa ou noutra noite arrastando-a por uma orelha diante do pasmo dos amigos, vergonhas destas a gente não esquece mas era assim que se disciplinava a canalha, por cada desobediência, cada saída à revelia, cada minuto de atraso sobre a hora marcada, um dia inteiro de castigo sem televisão ou sem telefone. Nunca percebemos porque nos aprisionam aqueles que nos querem bem até ao dia em que vestimos o fato do carcereiro e os motivos que tanto repudiámos se tornam urgências ou bandeiras.
– E Alicita, como vai?
Diga-se o que se disser, é no coração das crianças que germina o dia de amanhã e eu preciso de ouvir falar de graça, luz, futuro. A rapariga da papelaria pousa o troco no balcão para evitar que eu lhe toque e, com um suspiro, faz notar a frágil condição do mundo e dos Homens.
– Já só espero que Deus lhe dê o privilégio de uma vida em liberdade.

20.3.20

Ainda tenho os sonhos afinados pela vida de antigamente, quero dizer, a vida da semana passada. A profundidade da minha consciência tarda a sintonizar as novas frequências, não acata as normas de distanciamento nem assume o rigor calculista dos movimentos. Esta noite, por exemplo, nem imaginas, dançámos juntos, arrancando a respiração à boca do estômago com os rostos encostados. Dois autênticos primitivos, insubordinados, reles marginais a precipitar a morte e o fim do mundo. 

O presente demora sempre a instalar-se. Quando ganha o seu espaço e o sedimenta, estamos já no futuro. É então que muitos de nós, às vezes com anos de atraso, começam a ser perseguidos pela noite dentro. 

19.3.20

Da ideia de deus – insistes – tens uma impressão de bondade e por isso esperas dele que faça os consertos ao mundo com justiça. Mas a bondade é o prato leve da balança, que perde para qualquer perda, qualquer pena, qualquer pedra. Deus não tem moral, é um milagre neutro, subentendido, desenhou as coisas com espanto e defeito, acertos e desacertos, leis matemáticas. Ignora as noções de bem e de mal. Não estalará os dedos contra ou a favor de ninguém, mas sempre e só para preservar intacta a magnífica totalidade da sua criação. 

18.3.20

Sobe? pergunta o meu vizinho, com uma perna esticada para o sensor e, ao colo, de feições dóceis, insuspeitas, o diabrete que concebeu. Olho para dentro do elevador e, pela primeira vez, tiro-lhe as medidas exatas para concluir que não, não é de bom senso enfiar-me em tão diminuta área com aquele homem e a sua criatura. Já lá vai o tempo. Agora, não há encantos, modos ou perfumes que justifiquem aproximações. Verdadeiramente atraente, só aquele que, por milagre, feliz acaso ou potencial genético, tenha imunidade garantida ao novo coronavírus.

17.3.20

Enquanto estendia a roupa ao sol e ouvia o bulício dos pássaros, pensei outra vez na minha irmã no campo de batalha, olhos nos olhos com a bicharada através de uma lente, ora de noite, ora de dia, e envergonhei-me da placidez do meu recolhimento, das pragas que roguei ao universo por – oh, coitadinha de mim – não conseguir descodificar o erro na instalação de software.

15.3.20

Tão esplêndido o rubro nascer do sol a que assisti ontem como a chuva que agora vejo cair doce e melancólica. A natureza olha para nós com a mesma grandeza, sobranceria e tranquilidade. Tudo nela mantém a cor e o ritmo, nada disto que vivemos interfere no seu humor. Já era sabido - embora por arrogância tenhamos suposto o contrário - que não é de nós que depende para continuar.

14.3.20

Não creio que inspirem qualquer tipo de fascínio as pessoas que, dentro ou fora das redes, ajuízam do comportamento alheio com espuma na boca e quatro pedras na mão. Se em tempos serenos é verdade, nos de crise é notório: o ódio pelo semelhante é tão ou mais nocivo do que qualquer postura de negligência ou paranoia. Mas preservemos a fé porque tal como as do corpo, também as mazelas do caráter podem ser vencidas com disciplina, contenção e até isolamento.

13.3.20

Hoje sim, todos os nós da VCI finalmente desatados. E à porta da escola secundária, uma adolescente quase em lágrimas, para a amiga: como é que eu vou aguentar, se não fui feita para estar em casa... A outra responde liga-me quando quiseres, eu estou sempre contigo, mas o abraço que de forma tão perfeita remataria a conversa está proibido. Mais de um metro as separa, os olhos líquidos, as bocas trémulas, os ombros descaídos. Passo por elas com a cabeça baixa, talvez seja a vergonha pela parte que me toca, pelas décadas serenas que tenho vivido, pela paz, pela pedra, pela rede, por tudo o que era seguro e com um nada se esboroa, por tudo o que confortavelmente se comprou e vendeu, fez e desfez, atou e desatou, casou e descasou, investiu e empenhou, usou e descartou, sem acautelar nenhum deslize, nenhuma fraqueza, nenhum inferno. Pelo que lhes ensinámos e afinal era mentira.

11.3.20

Há quem discorde mas eu acho o Porto na mesma. De manhã, não lhe noto mudança de ritmos, modos ou feições, o trânsito escoa com a lentidão habitual, a rádio anuncia os trombos de sempre no nó de Francos, na saída da VCI para o Campo Alegre, no túnel de Águas Santas, os toxicodependentes envenenam-se debaixo do viaduto, as crianças formigam à entrada das escolas, o metro segue apinhado, faltam lugares para estacionar. Porém, na empresa cheira a lixívia por todo o lado. É um produto que não uso e cujo cheiro me dá náuseas, abro as janelas para respirar mas há sempre quem proteste por medo das correntes de ar. A cada dez minutos, os meus colegas desinfetam as mãos e fazem refresh à página das notícias. As reuniões são rápidas, não há conversas paralelas em sussurro, decide-se o essencial em tempo útil. Muitos de nós, se quisermos, estamos autorizados a trabalhar a partir de casa, mas eu escolho ficar, agrada-me a vida de qualquer modo, adiarei o cárcere e a solidão enquanto puder, tenho idade e saúde para isso. Quando saio, passo no supermercado porque o leite dos miúdos está no fim. As prateleiras foram varridas, uma mulher leva dezoito embalagens de grão de bico e um velho açambarcou todas as caixas de minis e casal garcia que couberam no carrinho. Quando me dá o troco e o talão, a funcionária da caixa diz-me que tudo corra bem consigo, meu amor, adeus, com o tom de um soldado a despedir-se dos companheiros de trincheira antes de enfrentar o inimigo. Faz-me falta o meu pai e a sua superior inteligência e lucidez no modo de explicar o comportamento desta bicharada ruim e invisível. É ele quem procuro imitar quando alerto os meus filhos para os vírus e para os perigos letais da ignorância, da perversidade e da histeria.
De resto, estou bem. Nada ameaça as partes de mim que te desejam.

9.3.20

Ao fim da manhã de ontem, o senhor Pereira descia a rua com o saco do pão, um bouquet de rosas cor de sangue mais o jornal entalado numa axila, prestes a cair. Vendo-o aflito, a contorcer-se e a sussurrar esconjuros não sei a que demónios, acudi-o amparando o jornal e ele, grato, fez-me a festa do costume. Contou-me depois, enquanto suspirava os seus cansaços e alívios, que só por um triz se safou de aborrecimentos com a mulher. Esquecido da data, porque ao domingo se uma pessoa repousa é para repousar por todo, até nas ideias, nada tinha comprado para lhe oferecer peloito de março. As filhas podiam tê-lo lembrado mas, enfim, a juventude menospreza esses pequenos agrados que mantêm o laço do casamento apertado até à morte e é por isso que as coisas andam da maneira que se vê. O que o salvou, então, foi a insistência da mulher para que lhe fizesse o favorzinho de ir à rua buscar meia dúzia de carcaças, já que a chuva miudinha podia dar cabo do trabalho que, na véspera, a cabeleireira lhe fizera. Foi contrariado e ao chegar ao pão quente fez-se luz, não propriamente por obra do acaso ou do divino mas porque se cruzou com a viúva e ela, magnífica como é uso, faça sol ou faça chuva, em dias úteis ou inúteis – a menina não concorda? –, perguntou-lhe se já tinha mimado a mulher. Num repente, o senhor Pereira desatordoou o cérebro, que vinha naquele sono domingueiro a que um homem – caramba! – tem direito, e correu à florista adiante da rotunda, de porta aberta e escancarada desde as nove em benefício dos pereiras desta vida. 
Agora, a caminho de casa, deitava as mãos à cabeça só de imaginar as consequências que a sua distração poderia acarretar, sem saber a quem mais devia a sua gratidão: se à mulher por tê-lo obrigado a sair, ou à viúva, tão atenta e preocupada. Num ou noutro caso, tinha assegurada a sua paz por largos dias, até semanas, lá em casa. Altura ideal para pedir um arroz de cabidela e talvez continuar adiar a verificação do aplique que anda com mau contacto, sem que daí venham lamúrias e problemas.
– E a menina, alguém lhe ofereceu flores hoje?
– Ah, a mim não, senhor Pereira. 
Ele redistribuiu com mil cuidados a carga que levava, endireitou as costas e antes de se despedir:
– Não me leve a mal, mas a menina se calhar também não faz por merecer.

6.3.20

Agora que os fins de tarde se amenizam e prolongam, às vezes as meninas do colégio descem a rua ao encontro dos rapazes da escola pública. Gosto de as ver à espera deles do lado de fora do portão, com os cabelos alisadinhos e uma nesga de perna à vista, doce e branca, entre as meias altas e a bainha do kilt. Os rapazes da escola pública comportam-se como astutos traficantes de emoções, têm motas, mata-velhos e cigarros, cabelos sem governo, horários flexíveis, dezoitos e vintes só com desmedido suor, pais que nem sempre sabem onde eles andam. Provocam-nas com piadas subversivas, mas logo usam um gesto terno ou chegam o nariz ao pescoço delas para endireitar a situação. E o riso que riem juntos é o riso da desordem e do excesso, um riso sem propósito nem freio, por isso os adultos que passam desconfiam e temem que daquela leviandade venha o fim do mundo. 
A adolescência não é o mais seguro nem o mais razoável tempo das nossas vidas, mas é provavelmente o mais honesto. 

5.3.20

O facto de ser mais ou menos certo que só a mediania gera consenso não significa que tudo o que é controverso seja de produção genial.

3.3.20

Quando dizemos que antigamente é que era bom não é de outras épocas que sentimos falta. Do que realmente temos saudades é de estarmos mais longe da nossa própria morte. Não suspiramos pelo tempo em que vivíamos, mas pelo tempo que tínhamos ainda de sobra, pela inocência, pela energia, pela paixão. O sentimento que provoca o desdém de cada geração pela seguinte é a inveja.

2.3.20

Tenho pela escrita um amor estrutural, velhinho, genético, de que desfruto sozinha e em sossego. Nenhum outro se lhe pode sobrepor, dele tiro pão e prazer. Se me perguntam porque acontece assim, mal sou capaz de explicar e talvez essa seja a mais justa e honesta resposta a dar sobre o amor. Mas, confesso, escrever não me dá o gozo libertino, quase perverso, que sinto quando estou atrás das câmaras, a mexer no caldeirão onde são cozinhadas as mais impossíveis ilusões. A farsa, o efeito, manipular, transfigurar, construir, distorcer, fazer chuva, fazer sol, conceber um desejo e um desastre, abreviar o tempo, solucionar a desordem, implementar esse regime de ditadura sobre a visão dos outros, dar o ecrã como quem dá a vida inteira de modo a que não se note a ridícula dimensão do fragmento, enfim, contar uma historia em que tudo é verdade ainda que nada, rigorosamente nada, seja real.

29.2.20


Oh, muito obrigada, já não era sem tempo, que as magras também são filhas de Deus.

(nem a rtp se livra da pressa e da falta de cuidado na redação dos títulos)

28.2.20

Bastou-me enfiar uma vez as minhas mãos entre as de Gabi, a nova manicura, para concluir que não chega aos calcanhares da outra. Uma vez não são vezes, é certo, e também sei que a precipitação embota qualquer juízo, mas a verdade é que quem lembra a antiga manicura concordará que este é um daqueles casos em que é muito difícil haver rei posto à altura do rei morto. E nem é de unhas que falo. Esperta e atrevida, essa rapariga que agora, espero eu, brilha e faz brilhar num salão do centro da cidade, não falhava um tiro. E da ironia das suas balas as senhoras mal podiam defender-se, não só pela precisão do disparo mas também, e sobretudo, por remexerem naquelas inconveniências que o pudor prefere manter enterradas ou em fundos falsos dos armários. Porém, embora desbocada e até um pouco caprichosa, tinha um coração nobre e um delicioso à vontade nos assuntos do amor, sobre o qual todos alvitram mesmo que apenas tenham experimentado versões fajutas.
Aparentemente, o mundo está mais tranquilo com Gabi, que nos modos é contida e no vestir anda muito longe da ousadia e do espalhafato da sua antecessora. Como fala baixinho, as senhoras não receiam o troar de verdades chocantes a lembrar que o pior cego é aquele que não quer ver. Também o facto de a cabeça lhe pender constantemente para baixo lhe dá um ar humilde, quase submisso e muitas vezes tristonho, a pedir piedade e festinhas, ao invés da outra, cujo queixo levantava acima do que as senhoras consideravam razoável para a sua condição de empregada de cabeleireiro (mudam-se os tempos, mas - perdoe-me o poeta - as vontades e o ser não acompanham). Há, então, um clima de satisfação geral no salão e a engrenagem funciona agora de modo silencioso mas bem oleada: Gabi confidencia baixinho, a uma senhora de cada vez, que novidades lhe constaram a respeito das outras, enquanto vai e vem com a lima. Encantadas com o que daquela boquinha doce retiram de pormenores sobre o alheio, as senhoras até esquecem o óbvio: que nas costas dos outros vemos as nossas. Assim Gabi vai sabendo e contando e contando e sabendo, com a mesma paciência que usa para amaciar cutículas e passar vernizes. E quem entra agora no salão já só ouve o ronco dos secadores e o folhear distraído das revistas cor-de-rosa.

24.2.20

Admiro aqueles raros, raríssimos, que conseguem escrever publicamente sobre os mortos sem meterem o próprio ego à frente no caminho. A generalidade das homenagens é precedida de uma prova de velha amizade ou relato de alguma experiência comum, uma reunião, um jantarinho, um projeto. Às primeiras linhas estoira logo um eu, nas mais das vezes travestido com falsos tiques de  humildade. Impressiona mesmo: ninguém tem tantos, tão leais e expressivos amigos e discípulos como um cadáver.

22.2.20

A professora que vive no prédio em frente com três gatos pretos e um rol impressionante de tralha acumulada, fuma à porta do pingo doce com ar de quem se apartou da realidade. Leva o cigarro à boca num automatismo muito lento e o seu olhar escuro, embotado, descaído, passa através das coisas. Mesmo que me ponha diante dela, sei que não me verá e ainda bem. Contar-me-ia, pela enésima vez, quão miserável é pedir aos alunos que escrevam o que pensam acerca de um facto ou ideia e eles ei, ó stora, sei lá eu o que penso. Depois, já sei, lamentaria a falta de interesse e a indisciplina desta geração que vai precipitar o mundo no caos. Cansam-me muito estes lugares comuns, a lente viciada com que olhamos para aqueles cujo estado é fruto do nosso, esta recusa em aceitar que uma coisa, seguindo-se a outra, leva sempre o seu adn, a sua herança, as suas culpas, as faturas que ficaram por pagar, a consequência dos seus atos. São os adultos, não os miúdos, quem anda a descartar as responsabilidades. E a professora, só porque não teve filhos, julga que pode falar de cima e à parte. Oh, como se engana! Olho para ela, parece-me um buraco negro, lamento que o interesse e a disciplina não a tenham salvo da infelicidade. 

21.2.20

Um dia, o professor de uma disciplina do ensino básico que nos anos oitenta se chamava "trabalhos oficinais" perguntou se algum de nós queria estar a duzentos e vinte volts. Nenhum professor faria hoje tal proposta mas como à época éramos ordeiros e submissos, o risco era moderado. Quem se chegou à frente, seduzido pela ideia de alcançar um estado fulminante e dele regressar sem dano, foi o Afonso. O professor sentou-o em cima de uma mesa, enfiou um fio de arame na tomada de uma extensão e advertiu-o várias vezes para que não pousasse os pés no chão. Em poucos segundos, o Afonso estava com a ponta do dedo no fio de arame, os pés a balouçarem no ar e uma deliciosa, invejável, expressão de gozo farto, enquanto a corrente elétrica lhe percorria o corpo. Tudo isto perante o pasmo silencioso dos colegas e ao mesmo tempo que o professor, agitando os braços no ar, gritava:
- Ninguém lhe toca! Absolutamente ninguém lhe toca!  
É sempre isto que me vem à cabeça quando a viúva passa.