15.6.21
12.6.21
11.6.21
10.6.21
4.6.21
2.6.21
1.6.21
Poucos são os jornalistas que resistem a perguntar às figuras mediáticas da literatura o que é preciso para ser um bom escritor. Num delírio passageiro, imagino sempre que o entrevistado vai descompor o pragmatismo infantilóide da abordagem com uma ironia qualquer. Mas parece que boa parte da gente das letras não só leva o manual de instruções a sério como tem na vaidade o pecado de estimação e, apoiando-se no disfarce roto da terceira pessoa, o escritor responde sempre prontamente com um resumo dos próprios hábitos, traços de personalidade e até mágoas. Nesse momento, milhares de almas no mundo caem num rodopio de ansiedade, umas a verificar que cumprem os requisitos, outras a pensar como hão de cumpri-los.
31.5.21
27.5.21
26.5.21
20.5.21
18.5.21
Sem robustez de intelecto e estabilidade nas emoções, desista quem tiver intenção de fazer do escárnio e da maledicência uma graça que dê gosto a quem lê. É que se por descuido vaza nas entrelinhas o cheiro fétido da inveja ou a poeira de um rancor guardado, num instante fica desacreditado quem pretende desacreditar. Então, antes de tentar a arte de descompor alguém publicamente, é bom ter ao alcance um espelhinho de bolso e, por via das dúvidas, verificar se nos túneis assombrados da própria consciência algum fantasma acordou a pedir libertação.
13.5.21
8.5.21
5.5.21
4.5.21
3.5.21
Prega o senso comum que entre os efeitos colaterais de provas e provações está tanto o reforço dos laços entre os que de verdade se querem bem como o afastamento definitivo daqueles que só por engano ou conveniência estavam perto. Por mais que doa, a prática confirma sempre o cliché. Um monte de destroços só pode servir de trincheira ou de muralha.
2.5.21
1.5.21
Andam por aí outras orquídeas que, por razões não identificadas, se presumem superiores a Isabela. Mas é difícil ultrapassar Isabela porque Isabela nem entra sequer na corrida para a mais aprumada, a mais vertical, a que mais se aproxima do céu, dos pássaros, das rainhas, dos ministros, dos deuses, dos astros. Embora a natureza tenha mandado que assim fosse, o destino opôs-se, a dona descuidou-se e assim ela acabou por desabrochar na direção da terra, sua mãe. Não a censuro, pois de cada vez que olho para uma fileira de orquídeas comuns tenho a impressão de ver um exército de fêmeas com a função única de servir beleza ao olhar desconsolado dos seus donos. Então Isabela é isto, este luxo estirado no colo antigo de um tamborete, esta languidez, livre de estacas, dívidas e ganâncias. Quem chegar perto até ouve o suspiro que vaza de cada uma das suas corolas e pressente o frémito, a ternura e a expectativa de uma virgem que está prestes a confiar-se ao primeiro amante.
30.4.21
Arrasada por vagas tumultuosas de trabalho e, nos intervalos, distraída com futilidades, apanhou-me de surpresa o desabrochar de Isabela. Ontem eram brotos, hoje oito flores de escancarada doçura, desenhadas com um rigor que mais espanta quanto mais em detalhe se lhes tira as medidas e aprecia os ângulos. Incapaz de suportar sozinha o peso de tanto talento, Isabela apoia o braço num velho tamborete que eu, tendo por costume e defeito antecipar tragédias, ali coloquei à disposição de sua excelência. Com isso, fica o tamborete a parecer luxuosamente estofado porque Isabela derrama sobre ele os seus folhos de veludo branco, mais ricos ainda com o oiro e rubi de uns labelos perfeitos. Que esperta é. Ao invés de se enamorar de gatos pretos sem nome nem residência fixa, resigna-se ao ombro de um velho tamborete. Apático, mas ao menos de confiança. E o tamborete, encostado por falta de serventia, ganha em troca a mais bela de todas as oportunidades que já teve na vida. Ora, se ambos saem valorizados não vejo como há de esta história acabar mal, por mais que vasculhe as sombras férteis do meu pessimismo.
25.4.21
A liberdade, de todos os valores o que aparenta mais fibra e firmeza, palavrões na boca, braços no ar, armas na mão, está na verdade sempre por um fio, mal notando como dá os pulsos a grilhões que toma por necessidade ou vantagem. Nem o amor, que é o amor, reputado de cego e ingénuo e sempre distraído do caminho a olhar para o céu, nem o amor é abalroado por tantos equívocos.
23.4.21
A Flor,
22.4.21
20.4.21
16.4.21
10.4.21
7.4.21
6.4.21
Quando aviso a estagiária que os adjetivos são o atalho descritivo das mentes preguiçosas, responde-me que não foi isso que aprendeu na escola. Dou-lhe razão – a escola não ensina a usar o adjetivo com o devido respeito pela dignidade do substantivo. Ela faz-me a pergunta a que até hoje nenhum dos meus estagiários resistiu: onde é que eu posso aprender mais sobre isso? E eu também não vario na resposta: em todos os livros do mundo.
2.4.21
30.3.21
26.3.21
Faz tempo que as duas comadres se provocam à distância. É um jogo dócil, quase despercebido, que cada uma faz para desacreditar a outra. O veneno vaza em conta-gotas nas entrelinhas de uma exemplar cortesia. Suspeito que se tenha tornado passatempo, forma de resgatar o cérebro ao torpor da clausura e à relação desigual com os livros, que no remate de cada capítulo não esperam do leitor opinião, acordo, adenda ou consentimento. Talvez deem ares de que competem em lucidez, independência ou destreza de intelecto e, com efeito, há que reconhecer que o verbo não lhes cai na lama e que os humores aparentam robustez e delicadeza de bambu. Mas eu vejo-as num salão de festas barroco, abanando os leques com um fervor desassossegado, olhando-se de viés, cada uma invejando a hora em que a outra é levada por um digno e experiente cavalheiro para um minuete (por deus, não vos descuideis com as vogais).
17.3.21
12.3.21
10.3.21
9.3.21
8.3.21
6.3.21
5.3.21
25.2.21
22.2.21
16.2.21
Infelizmente, são precisos tempos delicados para vir à tona e ao entendimento o facto de que o mundo gira, sempre girou, a duas velocidades. Noto, com tristeza, que muito boa gente julgava, ou fazia de conta, que no carro mágico do futuro embarcavam todos por igual e com lugar sentado. Agora pasmam e enchem-se de piedade por verem que nas aldeolas que visitavam aos fins de semana para se inteirarem – pela rama – das graças da ruralidade e da vida simples ou nos bairros onde os candidatos ao poder se prestam a copos e bailaricos, há crianças para quem as aulas hoje, deste modo, são uma absoluta impossibilidade. Está certo que acordar é sempre uma vantagem e antes tarde do que nunca. Porém, tenho para mim que quando o carro mágico retomar o giro vertiginoso e magnético a que estávamos acostumados, cheio de festas, de cores e brilhos, com tudo fácil e pronto, de novo nos ajeitaremos na fila para a crista do futuro, aos magotes e empurrões, sem olhar para trás.
12.2.21
10.2.21
4.2.21
3.2.21
28.1.21
25.1.21
5.12.20
28.11.20
25.11.20
À porta do salão, a cabeleireira dá conta da sua existência com o espalhafato habitual. É a pausa para o cigarro e, nesta hora, não há quem passe e se livre de lhe ouvir um comentário, uma simpatia, uma festa, uma pergunta indiscreta, uma receita, um aviso ou, nos dias maus, até uma ou outra cobrança. Enfim, é humana, mas escusava de ser tão chata. Hoje escapo-lhe porque se entretém demais com o Marco do ginásio, estranho que um rapaz com tanta classe ainda não tenha ninguém. Por cortesia ele sorri, a timidez dá-lhe um ar garoto mas esforça-se por embarcar na conversa sem perder dignidade: estou à espera da pessoa certa. Na boca fumegante da cabeleireira rebenta uma dessas gargalhadas com que as pessoas maduras costumam ridicularizar a ternura e o desejo dos inocentes. A possante musculatura não salva o Marco da vergonha, mas logo a cabeleireira, a remediar o mal ou, quem sabe, a fazê-lo pior, pousa-lhe no ombro a mão com artísticas terminações em gel: vou-te dar um conselho, meu querido, e aprende hoje que eu posso estar morta amanhã. Oh, azar o meu, que já não ouço e dobro a esquina a pensar como admiro, mas nem por sombras invejo, estas pessoas como a cabeleireira, sempre muito vivas, todas envoltas em lantejoulas, agitando bandarilhas e chocalhos, dando sem cansaço à manivela da caixa de música, estourando foguetes por tudo e por nada. Gabo-lhes ainda a criatividade, a arte de impingirem carapau ao preço do robalo, chavões ao estilo de filosofia e cambalhotas de bobo como acrobacias de risco.
22.11.20
Desde Junho que me arranjo para ir ao cinema ou a qualquer sala de espetáculos como para uma festa. Se for jantar fora nem se fala. Creio que a solenidade é imposta pela sensação de que a qualquer momento esses prazeres podem ser-me vedados ou tornarem-se tão raros e difíceis que eu própria desista deles. Lembro-me de antigamente zombar daqueles que nas tardes de domingo vinham de longe trajados a rigor só para uma voltinha na marginal da cidade ou no shopping, eles de fato e gravata, elas de dourados e saltos muito altos, as crianças com as roupas da comunhão. E de me parecerem absurdos, excessivos, os vestidos e a maquilhagem que a minha avó usava quando ia votar. Envergonho-me de não ter compreendido que, em ambos os casos, de alguma forma o caminho para aquele benefício era ou tinha sido longo e custoso. Cerimónia era o mínimo que a ocasião merecia.
20.11.20
Para me distrair da longa espera, o mais novo conta, com os detalhes, as reviravoltas e o suspense dos bons narradores, de como Édipo precipitou o seu destino, julgando na verdade opor-se-lhe. Presto muita atenção, a fingir que desconheço a história. Sentadas a três metros bem medidos, uma mulher e a filha adolescente pousam os telemóveis para ouvir também e a outra mais ao lado, que tem um bebé ao colo, nem nota que o embala com a cadência da narrativa. Que riqueza de catraio, diz a mulher, e eu ponho os braços à volta dele, beijo-lhe os cabelos de oiro velho, a testa, o ninho doce que tem entre os olhos. É meu, não se vê que é igualzinho a mim? A adolescente franze a testa na hora em que Édipo mata o próprio pai, a mãe simula um arrepio. Como é possível que as voltas da vida levem a equívocos tamanhos? O mais novo explica tudo com notas de margem e rodapé e eu gosto de o ver consolado, certo de que pode aliviar-me qualquer angústia contando uma história, por mais gasta e trágica que seja.
19.11.20
17.11.20
14.11.20
11.11.20
9.11.20
Fiz uma chávena de chocolate quente, espesso, temperado com gengibre e canela, e aninhei-me a ver mais um episódio de "Gambito de Dama", mas apesar do consolo na alma não houve conserto no mundo. É magnífico - e invejável - haver quem seja capaz de salvar o seu dia com um gole de chá, uma manta, um livro, um filme ou o mais que faça esquecer da parte e da culpa que temos no resto.
4.11.20
3.11.20
30.10.20
27.10.20
23.10.20
21.10.20
Nunca os Pereira sonharam depender tanto dos humores de uma rapariga vinda da província para hastear a bandeira do feminismo e da independência precisamente ali, na casa onde estava tudo tão betonado que nem as traições faziam grande mossa (as birras levadas a cabo pelas manas não entram na contabilidade, já que se fizeram e desfizeram com mais ligeireza do que as da primeira infância). Sequer os avós Pereira imaginavam que aquela que lhes deu a maior graça das suas vidas ao abençoar a família com uma descendência viril poderia ser outra coisa senão o que até agora tem sido: uma mãe sensata, inteligente, disposta a salvaguardar as necessidades e direitos do filho, contribuindo de forma exemplar – e sabe-se lá com que sapos atravessados na garganta – para que Joaquim construa por si uma relação com a família paterna, de valores tão opostos aos dela.
17.10.20
No dia em que cessar o meu contrato de fertilidade com o corpo, farei um luto orgulhoso sobre o qual dispenso consolo. Toda a ideia de envelhecer me repugna, de forma alguma nos outros, mas apenas em mim mesma. E digo-o com a verdade a que tenho direito e que ninguém pode censurar, nem em nome dos paninhos quentes com que se disfarçam as inconveniências de viver.
15.10.20
Hoje a rapariga da papelaria não vem trabalhar. É o aniversário de Alicita, lembra-se?, pergunta-me a avó, que está a fazer as vezes da filha no atendimento. Como não? A menina, nem três mil gramas de gente e ainda assim teimosa, fincou os pés no ventre materno, sair só à força de bisturi ou pela mão de um carrasco. Alicita não havia de querer fazer sofrer a mãe, mas fez. Submeteu-a a tantas horas de espera, dor e sufoco, que deu tempo de acordarem dois sóis. Da cesariana, a rapariga saiu a jurar que nunca mais, julgando, na legítima e conveniente ingenuidade de quem sobrevive ao esforço de parir, que o pior da maternidade ficara para trás, no bloco, diluído em sangue, placenta, líquido amniótico e outros destroços animais. Um dia, a mãe contará à filha sobre esse quinze de outubro de dois mil e dezassete. De como, na manhã seguinte, enquanto ambas restauravam, docemente, sem mágoa, os estilhaços da violência que atravessaram juntas e se entregavam à placidez daquele amor acabado de inaugurar, as gordas dos jornais escancaravam o inferno e a vergonha no balcão da papelaria.
14.10.20
Agradeço a quem se aflige por me supor infeliz no trabalho e na vida em geral, mas é preocupação injustificada. Não devem confundir-se as linhas que escrevo com as que tenho na palma da mão. Já o disse noutras ocasiões: não faço disto um divã, tampouco um diário, falta-me vocação para o esbanjamento da minha intimidade e seria demais presumir que ela importa a outros além dos que me são próximos. Isto é só um caderno de exercícios onde me agrada alinhar as irregularidades da vida ou chupar-lhe os ossinhos, consoante os dias e a disposição. Lançar, de vez em quando, um olhar irónico sobre a minha própria realidade, desarrumar a minha paz e reduzir a nada os meus privilégios, faz parte do mais fundamental desses exercícios.

