31.10.18

Sweetest tongue has sharpest tooth

Eis uma boa noite para rever isto.

27.10.18

Joaquim

Novo desassossego no espírito do senhor Pereira: o primeiro neto homem chamar-se-á Joaquim, nome do pai da rapariga de Penedono, morto há mais de dez anos. Uma falta de bom senso, acusa. A imperatriz decide tudo sozinha e o filho é um banana, não se impõe. Do filho banana já sabíamos pois nunca lhe vimos sinal de fibra ou inteligência, mas jamais o diríamos em voz alta porque o senhor Pereira é pai, apesar das imperfeições o seu coração tem direitos e um deles, o mais vulgar e tolerável, é o de se iludir. Sofre, então, o senhor Pereira porque o nome da criança nem ao menos é o misto do dos dois avós – Joaquim Almiro ou o inverso – mas uma vitória explícita, até ofensiva, de um homem do interior, submetido às coisas da terra, capaz de matar com as próprias mãos os bichos que criou, dando aos jornais o uso de acendalhas, talvez sem televisão, alfabeto ou partido político. Que Deus o tenhacoitado, remata a mulher, depois de concordar com tudo. 

25.10.18

Xeque-mate

Talvez eu tivesse bebido demais, mas não ao ponto de me faltar segurança para aceitar o desafio. Quero jogar contigo, pediu ele. Tirou-me o copo, colocou o tabuleiro sobre a mesa e distribuiu pretas e brancas de rajada. Pronto o terreno e alinhados os exércitos, disse-me: eu jogo de costas, sem ver. De costas? A custo evitei o riso e, arrogante, desdenhosa, avisei-o que aprendi a jogar muito antes de me caírem todos os dentes de leite, que não me confundisse com uma idiota qualquer. Ele escutou-me de olhos bem ancorados nos meus, mas não me deu mais importância do que a que, por respeito, me era devida. Eu digo-te as coordenadas e fazes o favor de me movimentar as peças, explicou, deves dizer-me também as coordenadas dos movimentos que fizeres. Depois virou-se. É-me difícil ser exata mas creio que em dez a doze lances ele me deu xeque-mate e o queixo caiu-me de um deslumbramento que disfarcei tanto quanto pude. Quando se voltou, estendeu-me a mão. Eu, abespinhada, recusei-lhe a minha. Aconteça o que acontecer, aperta sempre a mão ao adversário, e ao dizer isto sorriu com vivacidade e ternura, cheio dessa satisfação que é dos que vencem não porque destroem mas porque verdadeiramente conquistam. Os seus olhos - estou ainda a vê-los - brilhavam com o desejo, tão urgente, tão feliz, de que eu pedisse a desforra ou me vingasse com originalidade. No final dessa noite decidi que ele havia de ser o pai dos filhos que eu tivesse.
Foi o homem mais fiel a si mesmo que conheci na vida. Enfrentou a morte sem virar costas e, no cúmulo da agonia, ainda lhe apertou a mão.

24.10.18

Sonhos

Há meio ano que a dona da loja de colchões sonha com um cliente a sério. São inúteis os que entram para dar uma vistinha de olhos. Aldrabões os que garantem voltar depois de perguntar o preço. Idiotas os que experimentam a consistência do produto carregando com a mão. Ridículos os que detalham alergias, pesadelos, desvios na coluna, sensibilidades do lombo e tudo o mais que dá mau sono. Ela espera um que entre e sem nada dizer se deite, a dispa e a agarre com todos os braços, dedos e dentes como uma planta carnívora. E quem passe na rua ficará de nariz colado à montra e aprenderá, de uma vez por todas, que os colchões se testam com a dureza, a energia e o peso dos repentes. Mais alguém aí fora que queira experimentar? perguntará, sentada na beira do colchão sem roupa nem decência. Em boa verdade, este sonho nem é obra dela, foi uma amiga que lho amanhou numa noite de alcoólica inspiração. Presta para nada, mas ao menos entretém-lhe o espírito nas horas vagas – quase todas as que tem na vida.
A funcionária da boutique de chocolates, dias a fio sem vivalma lá entrar, também passou por delírios semelhantes. O tédio é quase tão criativo como a dor. Sonhou com um cigano igual ao Johnny Depp, passageiro dos ventos do norte, que lhe aparecesse como à Juliette Binoche, para a salvar da sua obstinada independência. Esperou sentada, como se usa dizer e, no caso dela, literalmente, numa poltronazinha verde musgo junto à porta. Um dia a loja fechou para sempre, sem que ela tenha compreendido que vender chocolates não é o mesmo que fazer chocolates. 
Ao pé destes, parece-me razoável o sonho da rapariga da papelaria: que o pai da sua filha volte para dizer que sempre a amou e amará. É claro que ela sabe que aquele era um amor de pulso fraco, talvez apenas destinado a conceber Alicita, mas fazer o quê? O espírito dos românticos fabrica sonhos de matéria persistente e flexível, capazes de contorcionismos tais que do vulgar fazem extraordinário e aparentam como possível o que já nasce em saco roto. E que atire a primeira pedra quem nunca julgou eterno aquilo de que, no dia seguinte, se riu. O dia seguinte da rapariga da papelaria também há de chegar.

22.10.18

Juízos

Ela leva o filho ao colo, encaixado na anca. Ele empurra o carrinho com uma menina toda em fofuras aninhada. Olheirentos, com os cantos da boca descaídos, é de derrota e noite mal dormida o ar com que avançam pela marginal. Quando os ultrapasso, sem os perturbar, murmura ela entredentes, não sei com que ferida ou intenção: corre, corre, minha menina, que um dia que tenhas filhos acaba-se-te a boa vida. É por isto que nós, seres da mesma espécie, civilizados, de fome e frio sossegados, sem causa real de oposição, vivemos em guerrilhas e acendemos tantos ódios miudinhos e quotidianos: porque permitimos que sejam as nossas mágoas, cansaços e ressentimentos a ajuizar sobre o que totalmente ignoramos dos outros.

20.10.18

Reanimação

Questão de tempo. Acabarás por te enrolar nas frases dela, umas gordurosas como unguentos, outras de motivação, muito usadas no recobro de corações simples, e ainda as sentimentais, que te hão de abrir os olhos para paisagens amorosas. Serás poupado a esforços na leitura, como se recomenda em qualquer convalescença. Tudo o que ela escreve desliza mansamente em leito gasto, sem sobressaltos nem enxurradas. Ela não reconhece a pulsão maligna do mundo. Ignora que o conflito é a regra e que a duração da paz é a de um êxtase: apenas a necessária para o reabastecimento de ilusões. 
De tudo isto vem o encanto dela e acabará por vir, um dia, o teu fastio.
 

18.10.18

Sem filosofia

Não lhe dá a sensação, às vezes, que era outra antes de ter filhos? pergunta-me a rapariga da papelaria a propósito do primeiro aniversário de Alice e do que em torno disso lhe ocorreu. Vou para responder sem dar a devida importância, mas ela: não quero dizer diferente, quero dizer mesmo outra, outra vida, outra pessoa, está-me a perceber? Se estou. Mas, por favor. Passo horas fechada numa sala com um homem de mente brilhante a inventar novas formas de perfumar venenos, entre nós nem o silêncio é fácil, cada discussão é-me mais penosa do que uma partida de xadrez, e eu chego ao fim do dia gasta, insuficiente, aquém de tudo. Preciso de me livrar do peso da inteligência que há no mundo, do sarilho em que a imaginação põe o universo. Por isso muitas vezes me apetece, não a ignorância, não a grosseria, não a estupidez, mas a mera superficialidade das coisas, o facto puro e sem teoria, o banho desinteressado de luz nas fachadas das casas, uma bondade a que falte consciência ou missão. E estava hoje a contar contigo para isso, rapariga. Não podia ao menos o teu coração de mãe bater sem filosofia?

17.10.18

*

Os tapetes são pendurados nas paredes para esconder as fendas das mesmas. E esta não é uma das piores descrições da situação da cultura atual.

Vilém Flusser, "Uma Filosofia do Design"

16.10.18

O beijo

Vi o pai de Alicita beijar a rapariga da papelaria como se beijasse a escultura de uma santa, pousando na testa dela a boca apressada mas sincera, a boca de quem deve agora os seus beijos a outra mulher mas sabe que jamais deixará de beijar aquela, por ser a mãe da sua filha. Ela, que além do pai ainda vê nele o homem, o amante, o soldado, o feiticeiro, recebeu o beijo com languidez, sorvendo, da breve oportunidade concedida, todo o sentimento que pôde e mais aquele que foi capaz de inventar.

14.10.18

Pela calada

A mulher do senhor Pereira puxa-me para si e sussurra o meu marido nunca foi um homem inteligente, coitado. Assustada com o despudor da confissão, recuo. Ela enfrenta-me sem vergonha das palavras ditas e eu vejo nos seus olhos o gozo de todas as fêmeas que manipulam o mundo pela calada, sejam bruxas, tecedeiras, parteiras, prostitutas ou contadoras de histórias.

13.10.18

Família

Assim que se livra das obrigações contratadas, a filha mais nova do senhor Pereira leva de comer aos sem-abrigo e faz as vezes das famílias deles com um pouco de conversa e atenção. São uns coitados, diz. Podem ter cometido alguns erros, está bem, mas outros lhes foram injustamente atribuídos e outros ainda caíram sobre as suas cabeças em forma de azares, perdas sem volta, doenças sem remédio. Se cada um de nós se prestasse a dar um bocadinho por eles... Toda a gente lhe elogia o pensamento e eu até concordo que um décimo desse altruísmo, sendo de verdade, poria o mundo nos eixos. Ela sorri, encolhe os ombros, ah, obrigada, obrigada, faço o que posso. O que eu estranho, porém, é que neste coração magnânimo, tolerante e tão humilde da Ana Isabel – Pereira de sobrenome, sangue e educação – , não haja uma única célula disposta a perdoar a infidelidade do pai e o medo da mãe em aventurar-se sozinha na reta final da vida.

11.10.18

Foz

O vinho, a vista sobre o mar e uma companhia que conta histórias. O tempo é um bruxedo lançado sobre o universo, a luz é uma rasteira, o espaço é uma trama imaginária, qualquer passo é em falso. Se algum dia me apanhares a escrever como os tontos, inclinada às frases feitas e às rimas fáceis, e se ouvires suspiros nas entrelinhas, acorda-me. Nenhum sentimento, nenhuma experiência, nenhum êxtase, nenhum risco, nenhuma fuga tem um efeito libertador igual ao do perdão. Não há nada como ler a história de um amor fracassado. No íntimo, quando ninguém está a ver, é no fracasso que todos nos revemos, é o fracasso que concede e autoriza a nossa humanidade. Pergunta para cinquenta mil euros: o que há de mais ingrato na vida de uma mulher do que o seu próprio corpo? Toda a revolução pede o sacrifício de uma ou duas gerações, não há nascimentos sem dor. Vou chegar muito atrasada ao trabalho, tanto quanto o rio chega atrasado ao mar.
Decididamente, antes das oito da noite o consumo de álcool não me favorece.

10.10.18

Luz

Entre as conversas desfiadas no caminho da escola a propósito de tudo, o mais novo diz-me que a beleza extrema de certas coisas lhe dá um pressentimento de caos e destruição. Isso é bom ou mau? pergunto e aperto a mão dele dentro da minha. Responde que é misto, às vezes dá medo, outras desejo, e quase sempre comove. O mais novo. O querubim. O manso. O bicho da terra. O bem falante. O aninhado. O incidente. A ironia do destino. O meu ajuste de contas com Deus.
Meu amor com cabelos de ouro velho e olhos de mar de inverno: se uma Mãe fosse tudo o que, ao engano, apregoam por aí – fera, poder absoluto, colo divino, mão certeira que detém o inimigo e a tormenta, beijo que sara o golpe e o pesadelo – o meu gesto mais urgente seria livrar-te o coração desses inúteis desassossegos, ou devolver-te ao instante em que foste concebido por ser o único onde a luz se iguala à tua.

8.10.18

Disciplina

Julgavas, portanto, que eu ia pôr a toalha, cortar pão e queijo, estender-te a garrafa e o saca-rolhas. Esperavas que fizesse a cama de lavado. Contavas que podias mexer nas minhas coisas e mudar a minha hora consoante as tuas estações. Pensavas, então, que eu queria contigo um desses amores que enrolam o passar dos dias com filhos, hipotecas e voltinhas de mão dada ao pôr-do-sol. Ignoravas, decerto, que por amor eu já fiz bailados equilibristas no fio da morte, impossíveis de esquecer por todos os que testemunharam. O meu coração é cheio, habituado a extravagâncias que não tens como pagar. Além disso, falavas demais, tornaste-te inútil como as vozes gravadas das portagens, a lembrar que não estamos sós apesar de não estar ninguém connosco. Por isso tive de te matar. Sabes que educo os meus sentimentos com disciplina férrea, embora consciente de que disso jamais resultarão sonetos, revoluções ou ideias brilhantes. Mas agora, confesso, falta-me a quem culpar pelos fenómenos do universo. Já não posso dizer, por exemplo, que para o desvio da órbita da Terra basta o mergulho dos teus olhos no meu colo, um beijo teu na palma da minha mão, a tua língua a fazer versos duros, heroicos, ao longo do meu pescoço. 

7.10.18

#metoo

Eu ia no final do terceiro ano da faculdade quando o professor, à revelia das regras da instituição, quis submeter-me a exame oral para confirmar as minhas classificações nas provas escritas. Nunca dei um dezoito, vamos ver se é seu o primeiro. Durou menos de cinco minutos o exame porque, notando eu que a conversa tomava contornos que me inibo de detalhar e como nenhuma questão foi colocada acerca do que vinha nas sebentas, pus um fim à farsa, levantei-me e saí. Não quer saber se vai ter o dezoito? Adeusinho. Tal qual. Nunca achei que ele estivesse numa posição de poder, era gente como eu, só existia como professor na medida em que eu existia como aluna. O poder é um conceito que apenas depende do que lhe atribuímos e a minha educação, em casa, foi para que eu entendesse essa verdade. Tive o dezoito na mesma. Aconteceu-me parecido com o primeiro instrutor de condução, com um autarca, com um padre.
Mas o pior, para mim, não eram estes. Estes tinham nome, eram casos concretos, oportunistas no exercício das suas funções, se conseguíssemos coragem e aliados podíamos pedir-lhes contas, apontar-lhes o dedo. O pior eram os anónimos, os que povoavam as ruas a todas as horas do dia e apareciam ao virar da esquina, os que entravam nos elevadores e subiam as escadas connosco, os que abriam as calças, os que se encostavam e se masturbavam no transporte público. O pior eram os que abrandavam o carro e abriam o vidro para dizer onde nos enfiavam o que tivessem para o efeito. E os janotas de fato, gravata e aliança rebrilhando no dedo que, de passagem e de surpresa, nos agarravam as nádegas. E ainda os que, sem motivo nem contexto: posso conhecer-te? Não. Cabra convencida, o que tu queres sei eu!  Eram estes, todos juntos, estes com que não contávamos, estes que eram gente comum no seu quotidiano, indo e vindo dos seus vulgares postos de trabalho, massa homogénea e abundante, com o caminho livre e a conivência da multidão, estes que tinham a força imparável do mundo, eram estes que me faziam sentir só e vulnerável. Que aconteceu? Foi um homem, tocou-me. Que homem? Não sei, desapareceu. Desapareciam mesmo, nas horas de ponta, para lá das ruas visíveis, entre o mar de gente. E era por isso que se tornava muito difícil, a certa altura, distinguir os culpados dos inocentes.

3.10.18

Nós, os leitores

Nós, os leitores, somos seres egoístas, parasitas, sempre buscando no outro a visão que nos falta. Exigimos que o que lemos nos mostre todos os avessos e costuras do real e quantas possibilidades haja no imaginário. Reivindicamos o direito a sermos impressionados, empurrados para cair de joelhos, arrastados até à beira do abismo pelo pescoço, engolindo pó e chuva. Queremos entrar na cabeça dos loucos, conduzir exércitos e revoluções, experimentar perdas e dores que só a desumanidade suportaria. Desejamos, na língua, o gosto do sangue dos vencidos e, entre as coxas, o êxtase dos amantes. Simpatizamos com assassinos, carrascos e pedófilos. Ponderamos alianças com traidores. Estamos dispostos a amar às escondidas homens e mulheres que não nos pertencem. A roubar as crias aos outros. É urgente a nossa sobrevivência, pouco importa o quanto ela custe a quem escreve. Viciamo-nos, com as pressas e fraquezas de qualquer vício, na expansão da consciência. Se abstinentes, oh, desassossego! A cada hora, procuramos uma linha que tenha fibra, seiva e carne, um verso que nos afaste o cabelo dos olhos, um parágrafo que fique a latejar-nos nas têmporas, uma página onde possamos deitar-nos certos de que alguém se encarregou de organizar o universo. Nós, os leitores, vivemos na expectativa de uma aparição. 
Leitora é a única coisa que tenho sido na vida com fidelidade religiosa. Às vezes rogo pragas ao autor, quando leio uma frase que não faz a curva perfeita, quando me dão palavras difíceis de dizer ou caídas na vulgaridade, quando a ideia tem pó, ofensa ou fraca intenção. É por isso que escuto e compreendo o leitor que se me dirige com queixas e sei que o mal não está no capricho que ele tem. O mal está em presumir que aqui encontraria as grandezas que deseja e vir cobrá-lo como se cobra de um poder, de um serviço ou de uma loja. Respondo-lhe com o lamento de quem dá os filhos que fez e, sem um cêntimo no bolso nem caminho de retorno, se arrepende.

2.10.18

Linhas tortas

Pelas linhas tortas da terra onde nasci, Deus não apareceu a escrever direito. Ao contrário, semeou misérias e desfavorecimentos, pôs a correr águas de mau feitio e nem se esqueceu de largar, como em qualquer canto habitável do mundo, uma dose de oportunistas. Valeu-nos o olhar sensível de muitos que, escrevendo com mais justiça e esforço do que Deus, usaram estas linhas para costurar um paraíso e dele foram contando na sua arte e a seu modo. Graças a esses, por todo o país se bebia com estilo uns calicezinhos de Porto e se comentava superiormente a bela literatura inspirada nas agruras do vale. Mas as dificuldades no acesso e a falta de piscinas, de vendas de bugigangas e pasteizinhos, de passeios de charrete e de festivais eram um modo de seleção natural de visitantes e mantinham longe os devoradores de paisagens e silêncios.
Agora, quando me ponho a ver os barcos com lotação esgotada para cima e para baixo, deslizando sem dificuldade ou receio sobre este rio que tem tantos homicídios no cadastro, desiludo-me. Não compreendo a motivação e o dinheiro mal gasto desta gente que se acotovela em magote nos conveses, com música e bandeirolas de arraial, a quem os elegantes chapéus de palha, os repelentes e a desconfiança não protegem do inferno do vale, cada qual com um pau de selfie e uma conta no instagram, ouvindo das aventuras do marquês, da lenda da morte do barão, do pulso viril de Dona Antónia e outras histórias com graça suficiente para entreter quem tem défices de atenção e não consegue ser feliz só a pasmar. E é tal o escarcéu à sua passagem que me pergunto se vêm para ver ou para ser vistos. 

1.10.18

*

A língua que com maior exatidão e beleza exprime o amor é o silêncio. 
A seguir é, obviamente, o francês.