29.9.18

Dia mundial do coração

Entre a Tragédia no Mar e o Farolim das Felgueiras, esforcei-o em passo rápido, ida e volta, manhã cedo. Durante a tarde confiei-o, para repouso, às mãos delicadas dos meus filhos, que tratam como doutores das minhas vulnerabilidades sentimentais. Ao fim do dia levei-o a comover-se à média luz, numa das mais bonitas plateias da cidade.
Restam-me três quartos de hora para estragar tudo, embriagá-lo, iludi-lo, retorcê-lo, castigá-lo, meter-lhe medo, dar-lhe gostinhos a remorso, a desejo e a saudade, pô-lo a bater em fúria e desobediência, deixar que vá por sua conta e risco onde lhe der na gana, quer regresse vivo ou morto. Ou então resignar-me à ideia de que ele já não se presta a nada disso, despir-me e dormir.

28.9.18

Esterilidade

Estão a tentar impingir-me o OmmWriter, mas que seria de mim, do que escrevo, do quase-nada que sei fazer na vida e me dá sustento, se limpassem todas as sombras, inquietações, absurdos e impurezas do meu horizonte? Que seria de mim sem desvios de atenção, sem o barulho dos dias, sem os alertas e as atualizações, sem o caos e a memória atafulhada? 
A tranquilidade é um ventre estéril. Serve bem para o êxtase das horas vagas e inconsequentes mas nada permite conceber.

27.9.18

A imperatriz

A mulher que carrega no ventre o primeiro neto homem do senhor Pereira é das mais belas que vi fora de revistas e ecrãs. Lembra-me a pediatra que conheci no último retiro e com quem, por longas horas, conversei sobre os mistérios do nascimento e da morte. Descrevê-la seria diminuí-la. Por isso peço aos leitores que a imaginem, mas sem traço, cor, ou medida que não sejam de divina inspiração.
O senhor Pereira conta-me que a ida a Penedono ficou em águas de bacalhau. Diz que ela bufou à ideia como um animal acossado e respondeu que era maior, vacinada e independente, jamais daria à mãe a palavra em negociações respeitantes à sua vida e à da sua criatura. E quando lhe perguntaram porque se negava ao casamento, respondeu com brevidade: já não se usa. Esta escassez de argumentos e satisfações deu à situação um ar de desimportância que feriu toda a família, incluindo as filhas e respetivos apêndices em comunhão de adquiridos. Certamente que a mãe do primeiro neto homem do senhor Pereira tem outros motivos para recusar o nó, mas qualquer um com dois dedos de testa sabe que a brevidade de argumentos é o melhor recurso em duas situações: quando falamos com quem nos entende demasiado bem ou com quem o entendimento é uma total impossibilidade.
- É que nem sequer faz tenções de viver com o meu filho! Quem se julga ela para o dispensar? 
Enfia as mãos nos bolsos, balouça os calcanhares, as narinas tremem, o olhar viaja sem atenção pelo quotidiano simples da vizinhança, responde educadamente mas sem espírito a quem lhe dá as boas-tardes. Só com a resposta e a nomeação consegue o alívio:
- Uma imperatriz!
E ao dizer isto a raiva liquefaz-se nos cantos descaídos dos seus olhos. 

25.9.18

Setembro

Quando telefonava ao meu pai para irmos a Lamego aos milhos com carne de vinha d'alhos, ou ao arroz de feijão com salpicão do Mezio, ele percebia logo que eu estava grávida. Eu?! Não... Era sincero o meu espanto, tanto quanto era ofensiva a minha boca cheia, o meu prato a transbordar, mais uma dose e outra ainda. O interior do país ainda estava por gourmetizar, a comida era servida sem requintes e em quantidades para sustento de trabalhadores, não para alisar a barriga de turistas de estufa. 
Calhou isto acontecer por duas vezes em setembro, quando o ar estava saturado de ardor e sensualidade, o xisto exalava os últimos bafos de hálito morno, o fruto palpitava implorando a colheita e os homens enterravam-se vivos na espuma do mosto. Como o meu pai nunca se engana, completavam-se depois as nove luas no mais amoroso de todos os meses do ano.

23.9.18

Enclausurados

Cuidado com esses que vivem em voluntária e habituada clausura e pasmam a ver-nos passar, encantados com a liberdade de irmos mais ou menos na direção que nos apraz, fascinados com o modo como o vento nos desarruma os cabelos, as gravatas e as saias, esses que nos chamam para perguntar do que sabemos e começam a experimentar o mundo tomando de empréstimo os nossos sentidos e sorvendo as histórias que gostamos de contar, esses que, a certa altura, seduzidos pela ideia de provar do que há do lado de fora, nos revelam onde está a chave. Nem duas vezes pensamos. Libertar os outros é tarefa demasiado nobre e merecedora de gratidão para deixar a meio. Ah, cabe perfeita na fechadura. Roda sem atrito. A porta abre, a luz entra, derrama-se no chão, sobe pelas paredes, fere os olhos relutantes dos enclausurados. Sai, dizemos. Entra, respondem eles.

22.9.18

Duelo (5)

És tolo se consideras que foi da minha parte um ato de coragem travar este duelo. 
Coragem foi ter chegado ao fim e, podendo escolher, em vez dela matar-te a ti.

21.9.18

Ócio

Por impaciência e falta do que fazer, o mais novo meteu-se a folhear velhos manuais do irmão e descobriu Gil Vicente. Durante a meia hora seguinte estive a responder-lhe às dúvidas religiosas, linguísticas e outras, várias, que daí se levantaram. Mas o assunto tirou-lhe o sono e andou às voltas na cama, imaginando circos de julgamento do caráter dos Homens. Adormeceu quando lhe fiz uma massagem com uma poção mágica à base de laranja e alfazema, infalível na dissolução de inquietações miúdas e graúdas. Ah, bendito ócio, que desespera as crianças ao ponto de as pôr a vasculhar, a inventar, a perguntar com teimosia. Não sei quem terá sido o infeliz que espalhou, com sucesso e muito lucro, o pânico de as deixar desocupadas.

19.9.18

Angústia

São as coisas miúdas, as desimportâncias do quotidiano, que precipitam os maiores acontecimentos da vida. Por isso esta angústia que precede as decisões de peso, as escolhas aparentemente irreversíveis, as reuniões, as cerimónias, os contratos, os casamentos, as mudanças, é de uma desproporção absurda e inútil. Que pena eu não ter nascido já a saber isto. 

17.9.18

Duelo (4)

Silêncio e desolação. Eis o retrato das paisagens depois de um grande combate. Não sobra um palmo de terra que possa ser semeada ou onde seja prudente assentar fundações. Mas venci. E para isso bastou-me escrever uma linha, uma única linha que enrolei em torno do teu pescoço e apertei devagarinho até te ajoelhares. Metida no sarilho dos seus longos parágrafos, ela nem deu por nada. No dia seguinte vieste para me reconhecer os méritos e te ofereceres, com justiça, como prémio. Mas eu não te quero, eu só quero a vitória. Nada rebaixa mais um vencedor do que a aceitação do troféu ou da medalha, esse é o instante em que a sua glória é trucidada pelo deslumbramento, pelo aplauso e pela fotogenia. É por isso que os grandes vencedores, os verdadeiros, os orgulhosos, se desgraçam na mais profunda solidão. Vencem mas não ganham, nem para matar a própria fome.

15.9.18

A grande poda

- Está quase a chegar a altura da grande poda, não é?
A cabeleireira fuma à porta do salão, aproveitando que é hora de pouco movimento, e acena quando me vê passar. Digo que não, este ano não farei a poda no equinócio de outono, agora só quando o cabelo chegar ao meio das costas é que repenso o assunto. Ela aproxima-se, pede licença e enfia a mão com um furor viril, quase masculino, na minha cabeleira.
- Na sua idade fica bem, mas se fosse comigo já tinha de ser um corte diferente.
Tão tonta que mal vê que somos da mesma idade. A diferença é que ela casou aos vinte, pariu aos vinte e quatro e começou a morrer cedo. Eu tenho vivido a teimar contra a velhice e só por isso é que posso andar de cabelos compridos, em propositado desalinho, sem  assustar ninguém. A cabeleireira tem vaidade que chegue para fazer alisamentos japoneses, unhas de gel, depilação artística nos genitais, o diabo a quatro, mas não é vaidade bastante para impedir que um homem e um filho mandrião a desgastem. Continua a falar na bimby como se fosse uma grande prova de amor e consideração que o marido lhe deu. Quem precisa de uma poda é ela.

13.9.18

Uma década

Faz hoje dez anos que escrevi, só com uma mão e ao ritmo do caracol, a carta de protesto que me levou, três semanas depois, a criar este blog. Só com uma mão porque a outra embalava o berço do mais novo, cinquenta e poucos centímetros de bichinho, já então exemplar na tolerância para com o vício e a febre da sua mãe. A minha vida era tão diferente do que é hoje que, se eu a tivesse contado aqui, tal qual, dia após dia, em jeito de diário, estaria agora de certeza a viver à grande e à francesa à custa disto.
Grata a todos os leitores por me terem obrigado a manter a sobriedade. Pelo grau de exigência, pelas balizas, pelas margens, pelas questões, pelos e-mails. Grata aos leitores/bloggers que acabei por conhecer pessoalmente: a quem veio de comboio desde o sul só para almoçar comigo, a quem me recebeu em Coimbra, a quem me enviou cd e livros, a quem pintou o meu retrato a óleo antes mesmo de me ter visto. Grata ainda aos que me são próximos. Deve ser difícil ler aqueles que conhecemos bem, que vemos de pantufas, pingo no nariz e nódoas na roupa. O meu pai, os meus irmãos, cunhados, sobrinhos, tios, amigos, professores, alguns colegas que por descuido meu me descobriram. É grande a paciência e muito o respeito necessário para evitarem pedir satisfações de tudo o que escrevo, por quem raio entro em duelos de palavras, porque me dá hoje a melancolia, onde se pode conhecer o senhor Pereira, se fico mesmo em kakasana tanto tempo, que história é essa da cirurgiã. 
Desculpem qualquer coisa, uma palavra fora de propósito, uma emoção maldita, um juízo leviano ou qualquer texto que vos tenha sido inútil. Certamente não terá sido intencional. Aliás, ter um blog nunca foi minha intenção. 
Muito obrigada.

12.9.18

Renascimento

Quando ele chegou a casa, caiu aos meus pés, tombou a cabeça no meu regaço e perguntou que dor era aquela que parecia arrancar-lhe todas as raízes, emudeci. Olhou-me como um condenado olha desde o fundo do poço, com uma esperança vaga, quase nula, de que alguma mão possa acudir. E porque a memória nunca me falha e tenho presente o dia em que morri assim de amor pela primeira vez, só mil afagos mais tarde lhe disse que preparasse o coração pois, embora parecendo o oposto, outras paixões viriam. Ajoelhado, suplicante, trágico, estava ainda mais belo do que nos dias vulgares, toda a sua face era espanto e transcendência - viu o que nunca antes imaginara. Se tivesse petrificado naquele instante, tornar-se-ia uma escultura digna de ser adorada e muitos analisariam nele, por largos séculos, a expressão do sentimento, as minúcias da pose, as proporções da anatomia. Três dias depois, tal como eu previra, renasceu e disse-me que não tencionava jamais voltar a passar pelo mesmo. Que sera, sera, cantei, sabendo que não há na vida lição, por mais dura, que fique suficientemente bem estudada.

11.9.18

*

Está a pedir-me que decida por si?
Perguntou a cirurgiã, uma beleza rara, sóbria, tão bem amadurecida, e um sorriso com tamanha amplitude que por pouco não me deixei cair no seu colo julgando ter de volta a minha mãe.
Claro, é médica, respondi.
Só porque estudei muito. Não sou deus e posso até nem ser, entre nós as duas, a que chegou mais perto dele.

10.9.18

Crítica literária

Manhã cedo, subo a rua devagar e apanha-me a mulher do senhor Pereira, que vai ao pão. Sem o marido, o normal é que queira falar de coisas que a ele escapam ou desinteressam. Como muitas de nós, a mulher do senhor Pereira é outra quando o seu homem está ausente e pergunto-me quantas mais será em circunstâncias raras ou quando, por misterioso impulso, acorda à hora do diabo. Não são os homens quem mais trai, são as mulheres. A traição comum dos homens é enrolarem-se com outras, coisa pouca comparando com o que uma mulher é capaz pela via da multiplicação.
Como previ, pede-me para ver o livro que trago, recua para focar, esqueceu os óculos de ver ao perto.
- De que é que trata?
Aborrece-me que perguntem do que tratam os livros, dá-me ganas de responder que tratam todas as maleitas, exceto a melancolia crónica, que é a variante de que padeço. Na verdade, aborrece-me que perguntem o que quer que seja do que leio. Tenho com os livros relações profundas e reservadas, sobre eles não sinto necessidade de falar, a não ser com aqueles com quem me sento à mesa e, mesmo assim, dependendo do que há para comer e beber. Por isso, minto à mulher do senhor Pereira como mentiria a qualquer um.
- Sei lá, mal comecei.
- Eu conheço este título, mas não sei de onde...
Sei eu, mas não quero abrir as gavetas empoeiradas da mulher do Senhor Pereira, onde ela guarda as suas velhas paixões e o seu original deslumbramento pelo mundo. É preciso muito cuidado com estas coisas. Só um amante competente ou um bom psicanalista podem mexer sem risco nos fundos silenciados de uma mulher.
- Mas está todo sublinhado...
- Pois... não é meu, emprestaram-mo já assim.
E ela, inesperadamente recomposta do interesse, transfigurada, devolve-me o livro:
- Faz muito bem em pedir emprestado, os livros são caros e a maioria deles até acaba mal. Este, com este título, não engana ninguém. Vai acabar com a morte, é dinheiro mal gasto.

8.9.18

Love, Peter

Durante a adolescência tive um pen friend que se chamava Peter e vivia em Newcastle. Para nos escrevermos com regularidade, a minha mãe mantinha-me sempre devidamente abastecida de papel de carta e envelopes by air, tão finos que podia ler-se o conteúdo. O Peter viajava muito com a família, o pai tinha um cargo na British Petroleum que o obrigava a andar pelos quatro cantos do mundo, e graças a isso eu recebia postais de lugares que na época pouca gente visitava, no médio e no extremo oriente. Um dia trocámos fotografias. Eu enviei-lhe uma tirada no Parque de São Roque, sentada na relva, perdida de riso. Ele apresentou-se com um macaquinho ao colo, loiro como era de esperar, sério como o imaginava, mas também com os olhos profundamente meigos que eu previra. 
Tive outros pen friends noutros países. E tive a Susana, em Lisboa, que a certa altura, em vez de escrever cartas, gravava cassetes e eu ficava sessenta minutos a ouvi-la, trinta de cada lado, a falar com uma entoação oscilante e dramática. Como a Susana tinha um sobrenome raro, o google demora um segundo para me dizer que ela está bem e recomenda-se. Mas eu preferia o Peter, que tinha uma caligrafia vertical, estável, masculina, e contava tão bem e com tantos detalhes cuidados sobre os lugares por onde andava e as histórias que vivia, que me manteve cativa por alguns anos. Ainda hoje esta é a forma mais eficaz de me segurarem.

7.9.18

Placebo

A rapariga da papelaria já tem um poncho igual ao meu e usou-o ontem. Estava magnífica, mas talvez não fosse o poncho que a enchia de graça, era antes um sentimento de orgulho que a vestia dos pés à cabeça e que parecia despertá-la para outro horizonte. As costas tão direitas, um sorriso fácil e despropositado como os da infância e aquele modo de ir afastando o cabelo da cara, que usamos quando queremos olhar e ser olhadas. Parecia finalmente ter-se libertado desse abismo de sustos e espanto onde uma mulher cai no dia em que dá à luz. Que bem lhe fica, disse eu sem mentir. Ela deu duas voltas, fez-me notar um ou outro detalhe em que lhe pareceu que a imitação estava aquém do original, alinhou as franjas e agradeceu-me. Não falámos de Alice nem de qualquer outro amor, passado ou futuro, que a pudesse desaquietar. 
Amanhã vestirei o meu.

6.9.18

Previously

Os meus filhos têm dificuldade em compreender que eu sou do tempo do último episódio, dos finais apoteóticos e abruptos, frequentemente felizes e por isso sem mais expectativa. Acaba uma coisa para que outra tome lugar. Eles são deste tempo em que tudo se resolve depois de uma breve pausa, na próxima temporada. A mesma coisa dá lugar à anterior, anunciando-se como nova. Puro engodo, alimento para o vício. E assim tudo se faz eterno, nem que para isso seja preciso enrolar, desenrolar, encher de palha e dar a comer do que não presta. 
Quando lhes mostro as coisas que via na minha infância, emocionam-se e querem saber o que aconteceu a seguir. Nada. Como, nada? Ora, o propósito era só arrebatar, povoar-nos a cabeça de sonhos, empurrar-nos para fora de casa, fazer-nos pensar que o mundo estava mesmo a contar connosco para a grande transformação. E estava? Não. Então foram enganados? Naturalmente que sim, todas as gerações são, mas ao menos não esperávamos pelo destino sentados no sofá. 



4.9.18

Abalo

É curioso que eu estivesse a pensar em ti no instante preciso em que a terra estremeceu esta manhã. Pela doçura dos movimentos mais me pareceu um embalo e a ele me entreguei sem resistência, pensando na inutilidade de todos os sustos e de todas as fugas nesta vida. Soube de antemão que o Norte seria manchete e abriria os serviços noticiosos da manhã. Obviamente, nem uma palavra acerca da tua responsabilidade nos factos. E, de resto, para quê dar tanta importância a um simples abalo neste solo granítico, tão bem sustentado, de pés tão fincados? Foi só uma onda, uma exaltação da natureza, um lamento a subir desde o fundo da terra até à superfície da pele.

3.9.18

Zona de rebentação

Nestes fins de tarde tropicais, em que o verão aparenta as melhoras da morte, a vida nos quintaizinhos traseiros das moradias parece muito apetecível. Da varanda onde escrevo, ponho-me a apreciar a oscilação das cortinas de tiras de plástico às cores e as raparigas de cabelos soltos que descem da cozinha com travessas carregadinhas de febras já temperadas e enchidos. Esperam-nas os seus homens balofos, de tronco nu e barba mal feita, suando de volta das brasas, com um cigarro a morrer no canto da boca e as garrafas de cerveja alinhadas como alvos no murete. Agradam-me as toalhas de xadrez com nódoas muito antigas e a propriedade com que as avós as estendem na mesa para pousarem as sopas que a canalha engolirá nem que seja com dois tabefes na cara. Alguém põe a tocar a lambada. Chorando se foi quem um dia só me fez chorar. Exaltam-se os cães e as crianças, as avós riem de um modo suspeito e mexem-se como se alguém as desejasse às escondidas, as raparigas abandonam-se nas mãos apressadas dos seus homens sem se importarem do cheiro e da gordura. Inquietos com o bulício, a beijoquice e as gargalhadas, os cães enfiam-se entre as pernas das donas. Sai Lord! que chato!, mas o dever de obediência tem limites até para os mais fiéis. Levantam-se no ar os fumos e o cheiro da carne e do alho, dou comigo a salivar. Nestes fins de tarde tropicais, a fila dos quintaizinhos traseiros das moradias parece a zona de rebentação da sensualidade.

1.9.18

Bicho

Quando a mulher decidiu voltar para casa, salvando o marido de comer na churrasqueira pelo resto dos dias, renovou por tempo indeterminado o contrato de miséria de toda a família. Quem mais me entristece é a filha, que tem nos olhos uma melancolia precoce, imprópria para a idade, e caminha como se desconfiasse da terra que pisa. Ele, ouço-o às vezes, grunhindo como um bicho da selva aprisionado. Ao cruzar-se comigo na rua, porém, sorri-me com o charme e a elegância daqueles que a psicologia de esplanada classifica como bem resolvidos. Mas é um homem atormentado, com pavor da própria sombra. E o medo - todos sabemos - é o que inflama o rastilho da loucura.