27.3.18

Duelo

Não posso competir com ela. Falta-me jeito para escrever sobre o amor como se fosse a dor ciática ou um pote de mel onde chafurdar até à náusea. Também não te dedico versos porque os considero golpes baixos, ao género de uma boa lingerie: seduzem no primeiro impacto, alimentam a fantasia, mas depois (já disse isto ontem?) tornam-se inúteis e não enganam ninguém. Sei falar-te sobre como trocar ideias, suor e saliva mas isso talvez te pareça muito pouco ao pé das promessas que ela faz porque ignora ainda o carácter transitório de tudo. Ela pensa em ti quando a lua enche ou o mar se faz amante devoto e submisso aos pés da costa e diz que tu lhe lembras filmes que viu, livros que leu, visões que teve. Eu, que de romântica nunca tive nem uma falange, penso em ti a propósito das coisas difíceis, quotidianas e passageiras, no caminho entre a casa e o campo de batalha, enquanto pico cebola, lavo os cabelos ou faço transferências bancárias. Ela jura que é capaz de ir até ao fim do mundo por amor. Mas o fim do mundo é longe, às vezes revela-se um deserto, uma secura de morte, outras um labirinto onde as multidões andam às turras e caem redondas no chão. Eu, por amor, sou capaz da mais absoluta lealdade e pouco mais. 

26.3.18

Além do Bojador

Passou o dia mundial da poesia e eu não me lembrei de um verso nem me ocorreu um nome a quem pudesse dedicar a minha gratidão. A minha avó estava certa: os livros podem muito pouco por nós. Lês tanto para quê, rapariga? Para nada, dir-lhe-ia se fosse hoje. Um verso, um poema, um romance, são só enfeites para a tragédia da vida, jamais uma salvação, tampouco um abrigo. Como a velha que se maquilha para à força parecer bela e sai em desfile pelas ruas e cafés. E os outros, sabendo embora da sua decomposição, pelo menos não a veem, real, triste e crua, apenas notam a graça acrescentada com um toque de cor, um traço mais vivo, um brilho mais aceso. Num poema, a infelicidade até parece coisa nobre e o desgosto um privilégio e a perda uma dádiva. Quantas vezes, mais novinha, desejei sofrer para merecer aquele verso de Pessoa Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor. Que tolo me parece hoje o meu pensamento. Estou cada vez mais parecida com a minha avó, que só tinha a quarta classe e por isso dobrou os seus cabos sem o auxílio de uma única estrofe.

15.3.18

A última a morrer

Removo as cochonilhas da minha planta favorita com paciência de Job e um algodão embebido em álcool. Duvido que resulte, mas como a minha ignorância chega ao ponto de deixar que as flores caiam em desgraça por amor, resta-me confiar no google e naqueles que, a troco de nada, publicam segredos e mezinhas para quase tudo nesta vida. A olho nu, as cochonilhas têm um aspeto inofensivo, mas são uma praga mortífera que vai envolvendo os caules e criando ninhos no verso das folhas, ao longo das nervuras. Como qualquer outra malignidade, conseguem reproduzir-se a partir de uma sobra ínfima, por isso todo o cuidado é pouco e toda a paciência é bem-vinda na hora de as eliminar. Escusado será dizer que isto que explico com tanta propriedade não é ciência que eu tenha estudado e muito menos entendido, apenas papagueio o que li sem critério.
Sei que a minha planta favorita está condenada. Com o tempo, começará a ter dificuldade em respirar e absorver energia, perderá cor e morrerá. Mas até lá, removerei as cochonilhas todas as semanas, uma a uma, como se fosse possível mudar o destino. Já todos fizemos isso: mascarar a falência, insistir na dignidade até ao fim. Só no dia em que podemos enterrar o cadáver, virar a cara ao horror da decomposição, baixar os braços, é que nos permitimos aceitar a morte. E a isto, por engano, chamamos esperança.

14.3.18

Gisele

Encontro hoje a rapariga da papelaria ao balcão, muito caída, com os olhos desanimados, prolongando sem necessidade as tarefas a que tem estado a regressar devagarinho e por enquanto só de manhã, explica-me, porque custa deixar Alicita o dia inteiro de uma assentada. Queixa-se que a ausência da filha faz doer o corpo inteiro, os seios formigam, as coxas tremem, braços, mãos, pernas e pés pesam-lhe como se fossem excessos. Pousa a mão no ventre, ponta solta e desarrumada do laço desfeito entre mãe e filha, e comove-se. Às vezes parece que já nada disto é meu, é tudo dela. Pergunto como está afinal a menina, digo que a achei muito linda da última vez que a vi e a rapariga da papelaria endireita as costas e sorri, parecendo até que faz as pazes com a vida. Não é por ser minha mas sim, é muito linda. O assomo de orgulho, porém, já não vai a tempo de evitar que duas lágrimas grossas desçam, sem alarido, pelas abas trémulas do nariz. Eis o amor, penso e não digo. Eis o amor eterno que tanto pediste a Deus, minha cara.
Ainda passo nos correios para enviar um livro e quando vou a preencher o registo, a funcionária que me atende desata num pranto e leva as duas mãos à cara para o abafar. Largo a esferográfica e o papel, quero chegar-lhe e não consigo, está afundada por trás de um balcão. Meu Deus, murmuro enquanto ela se desfaz sem que ninguém mais perceba. O choro vem de muito fundo e sai num silvo longo, contínuo, como coisa que estivesse à espera desde que o mundo é mundo. Não se preocupe que eu não me engano nas contas, diz-me, aproveitando a tomada de fôlego. Com uma mão - porque a outra tem-na ainda a tapar o nariz e a boca - pesa a encomenda, insere os dados, tira a fatura, dá-me o troco, mas eu não vou a lado algum. Fico a vê-la chorar e essa é a minha solidariedade possível, já que me falta arte para palavrinhas de consolo e frases feitas. É que às vezes, diz ela percebendo que hesito e aguardo, às vezes fico só muito cansada.
Certamente é por culpa de Gisele que estas mulheres choram. Diz que não é uma tempestade, é uma depressão que chegou hoje para agitar águas, levantar ventos e desfazer-se em lágrimas sobre ruas e telhados. Há de passar, cedo ou tarde, e nas praças abandonadas, nos lamaçais e nos destroços, a primavera há de dar de novo o seu pesponto colorido e o verão virá, por fim, adoçar a polpa dos frutos.