21.2.18

Paroles, paroles, paroles

Ouço os rapazes debaterem com fervor os direitos das mulheres, proclamando a igualdade e o respeito, apelando ao que é urgente fazer. Vou para participar, dizer do que sei e preciso, esclarecer-lhes dúvidas, explicar certos receios e sentimentos, más memórias, atavismos, obstáculos. Mas eles mal me ouvem. Pois sendo embora solidário o seu discurso, não escutam ainda voz alguma além da deles.

19.2.18

Om

Gemem as sirenes, roncam os motores, gritam as buzinas, zumbem os aviões, disparam os alarmes, papagueiam as chamadas em alta voz. A cidade ou bem que chora ou bem que protesta, ninguém tem consolo nem cómodo. Ao entoar o mantra, julgando-me a salvo do caos e das preocupações mundanas, protegida pela penumbra dourada e pelo aroma do incenso, reparo que faço coro. Não distingo, a certa altura, entre a minha voz e os sons da rua. Sentada em padmasana, fantasio a harmonia universal com o mesmo propósito de qualquer um que buzine na fila do trânsito: a libertação.

16.2.18

Labirinto

A rapariga da papelaria sobe a rua empurrando o carrinho de bebé como se nele levasse o mundo inteiro. Não pelo esforço, mas porque vai em cuidados, muito atenta às pedrinhas no chão, aos declives e às falhas do passeio, aos postes e contentores, salvaguardando o equilíbrio da sua criatura. Tem os sentidos como antenas, de soslaio vigia os carros que se aproximam e as pessoas com quem se cruza, aconchega a mantinha cor-de-rosa, atira um beijo e pergunta quem é a flor mais linda da mãe, quem é? Alice, embalada pelos rumores do quotidiano e pelo baloiço da marcha, não pode ainda responder. Mas um sorriso, por mais breve, bastará para que a rapariga da papelaria saiba que o mundo vai na rota certa.
O senhor Pereira, que traz a mulher num braço e o "Jornal de Notícias" no outro, para a cumprimentar-me e detém-se também a admirar mãe e filha nestas miúdas manifestações de amor. E por confundir a nostalgia evidente nos meus olhos com qualquer outra coisa que nesse instante lhe ocorre, pergunta:
- A menina está a pensar o mesmo que eu, pois está? 
Ora, eu tenho fraca ideia do que possa andar na cabeça do senhor Pereira e também duvido que ele suspeite do que vai na minha. É dos livros e das revistas de cabeleireiro que nem o mais perspicaz dos homens se orienta no labirinto da mente feminina. Vou eu desdizer tão antiga e conveniente verdade?
O senhor Pereira tenta acrescentar suspense ao momento, ora mirando a rapariga da papelaria que já vai longe, ora rindo para mim como um catraio. A mulher impacienta-se e desata-lhe a língua com uma cotovelada:
- Diz lá de uma vez, que me estás a dar nervos.
Enervar a patroa é que não! Sob pena de ficar sem cabidela e sem pantufas, o senhor Pereira resolve-se e fala:
- Estou a pensar que, depois de ser mãe, uma mulher perde a gracinha toda. Olhem que realmente... 
Lanço os olhos à mulher do senhor Pereira buscando nela uma aliada para aguentar, não a afronta – porque nem a tomo como tal –, mas a miséria do que acabo de ouvir. Espanto-me de ver que ela aparenta ter perdido o interesse na conversa. Tem já um ar ausente, abre uma das mãos, estende os dedos, ajeita os anéis, aprecia as unhas bem limadas e pintadas. Quando o marido lhe pergunta não achas? dando-lhe ele, desta vez, a cotovelada, ela responde o quê? 
Com a esperança desbaratada, mal empregue, vertida no lixo, decido dar um saltinho à papelaria. Alguém em minha casa há de estar a precisar de cromos.

15.2.18

Ginásio

Dedico muitas horas ao sonho quando estou acordada. Amarro um rol de deliciosas impossibilidades, dou-lhes um rosto, construo-lhes uma morada, encaixo-as num tempo que me convenha. Desde que me tornei adulta, tudo o que sonho enquanto durmo peca por excesso de verosimilhança, não voo, nem mudo de identidade ou sou perseguida por dragões. São reais os meus inimigos, tanto quanto os meus prazeres. Se me aparecer um cão gigante, no pior dos cenários será um grand danois, jamais Cérbero. Não vencerei a gravidade ao atirar-me da varanda, por mais que dê aos braços. Sofro de realidade crónica, até em repouso. E tenho medo de, por causa disso, ficar com a alma empedernida, rangendo com a simples ondulação da vida. Então exercito-a depois de abrir os olhos, quando o sol estoira no meu quarto, imaginando, nem que seja à força, todas as coisas invulgares que me estão reservadas, como a viagem de comboio até ao extremo oriente, o meu corpo fértil e são por toda a velhice, a verdade sussurrada ao meu ouvido ou qualquer outro privilégio que nem a conta bancária, nem a natureza, nem deus me podem conceder.

8.2.18

O vento

O vento trepa pelas coxas de Adriana, levanta-lhe a saia e toda uma primavera se liberta no esvoaçar do padrão florido. Zé Carlos olha de viés, oito anos de namoro, outro tanto de casados, ah, as coxas de Adriana, foi o primeiro a abrir caminho através delas, é ele quem tem as chaves, a língua, os dedos, uma ou outra palavra mansa para desfazer as resistências, a falta de apetite e outras cismas que vá-se lá entender. Já não se usa tal propriedade. A bem dizer é amor, corrige ele. Não desconfia: nem das intenções do vento nem da graça que Adriana vê no seu assobio longínquo, nas mãos fortes e invisíveis, no modo de lhe roçar o ouvido e levantar os cabelos e, sobretudo, na forma como depois vai sem deixar sobrenome, papel assinado, pedido para o jantar.

5.2.18

Farmácia

O mais novo: mãe, cura-me, dá-me um beijo dos teus. Ora, logo o meu beijo, que já foi veneno, troféu, moeda de troca, alucinogénio, arma de assalto, selo de garantia, ponto que deu nó. Já foi – confesso – o de Judas, mas sem os trinta dinheiros nem a posteridade. Já foi assunto, suposição, história mal contada. Até já foi relógio, mecanismo seco e triste badalando a horas certas. Mas os filhos – oh, inocentes! – veem na boca das mães assepsia e santidade. E agora, a salvo da fama de atos indignos, o meu beijo é só uma farmácia aberta vinte e quatro horas por dia.

1.2.18

Ciência quase exata

As minhas teorias carecem de validação científica e pode acontecer até que aparentem ser opostas ao movimento da Terra. É que não as encontrei em manuais de respeito, em textos alinhados, justificados à esquerda ou à direita. Por isso julgas que falo por falar e que ando como as crianças, atirando barro à parede e pedras aos telhados a ver se pega ou se parte. É inútil dizeres que o dicionário se me opõe e que a enciclopédia me desmente, nem adianta virares contra mim as máximas dos sábios. Segundo fulano. De acordo com sicrano. Eu estudo pelo rosto dos Homens vulgares, que cai, com a mesma naturalidade da maçã, na lama das ruas ou no regaço das mães. E nos seus gestos vejo a dinâmica das forças que mantêm o velho e obscuro equilíbrio do universo. Assim me vai sendo dada a lógica da maioria das coisas. O quotidiano é uma ciência quase exata.