17.2.17

Feminista

Desconforta-me o recurso de certas mulheres à exibição do corpo como forma de reclamar a igualdade de género. O meu corpo de fêmea, não o desbarato nem o renego. Cuido dele com amor, para que a passagem dos anos não me seja muito severa. Não me importo de sangrar. Concedo que os meus humores estejam sujeitos às luas. Prefiro dez filhos a rasgarem-me do que um só bisturi que me corte. Porém, são íntimas e sagradas as minhas linhas, as fontes de alimento e prazer, os lugares onde sou vigiada por sondas com uma regularidade obrigada. Tudo no corpo de fêmea é ponteiro do tempo, arritmia, imprevisto, até traição. Não havendo como contrariar essa natureza ou igualá-la a outras, respeito-a, admiro-a, salvaguardo-a, por mais que doa, nauseie ou deixe mácula. 
É a minha forma de ser feminista e orgulhosa, em nada incompatível com o exercício pleno dos meus direitos. 

16.2.17

Círculo

Cumpridas as voltas da vida, cada um acaba por regressar à sua natureza original. Chame-se o que se quiser ao que somos na essência: estrutura, base, perfil, cultura. É lá que está o conforto, o território conhecido, os assuntos que dominamos, os lugares onde seremos vistos, se não como bons, pelo menos como iguais. Sempre voltaremos, para envelhecer, aonde conhecemos os corredores, os sótãos, as arrecadações, o cheiro da humidade, o percurso exato da luz, aonde nenhuma sombra nos engane, nenhum espanto nos desoriente. Até lá podemos fazer muitas viagens de alma, testar a elasticidade do coração, sentir a força tremenda que impele a quebrar o instituído, revolver, revolucionar, desdizer o nosso íntimo, o nosso medo, o nosso sonho mais ou menos idiota, mais ou menos impossível. No caminho, há por onde evoluir, mas não há como mudar. Mais cedo ou mais tarde, fecha-se o círculo. 

15.2.17

Contenção

Talvez o mundo mereça que de vez em quando se diga bem dele e se confie nas suas intenções. É, porém, difícil escrever sobre o que nos assenta, perfeito, no coração: prados verdes, alvoradas limpas, palavras de amor e lealdade, instantes próximos do absoluto, visões que revelam uma lógica justa e digna, horas em que o mal vivido mostra o seu benigno reverso. As minhas alegrias têm uma pobre equivalência verbal. Diminuem-se quando amarradas na sintaxe. Murcham no rigoroso espartilho de vírgulas e pontos. Valem nada lidas fora do círculo íntimo e pessoal. Além disso, ao contrário das tristezas, dos males, das dúvidas, dos desesperos, as alegrias são para fazer durar. E se as exprimo, começo logo a perdê-las. 

13.2.17

Saudinha

A poucos metros da escola, as mães sem ocupação fazem o seu ninho de maledicência e entretêm-se a incubar boatos. Quando passo, interrompem o cochicho. Bom dia, o seu menino está cada vez mais lindo. Quero devolver a simpatia mas falta-me motivo para tal. Sei de cor o modo subtil, bem intencionado, com que usam bater em porta alheia para depois vasculharem toda a casa, desfazerem as camas, abrirem os armários, cheirarem o lixo. Tantos anos a retribuir-lhes com indiferença e não desistem. Quanto mais trancas meto, mais as atiço. E ontem vi o seu mais velho a descer a avenida de bicicleta. Parecia mal agasalhadinho. Ignoro o que fazem da vida, que propósito é o delas, em que nobres divagações se embrenham, que retorno lhes dá tanto investimento em conversa de esquina. Mas olhe que não ia sozinho, ia com a filha do engenheiro Lima. Conhecem os nomes de toda a gente e neles incluem títulos e profissões porque assim as obriga a longa tradição nacional da subserviência e a curvatura nas costas. Sabe que a mulher dele apareceu-lhe um tumor, não sabe? E sobre as desgraças que germinam no recato de cada lar, informam a vizinhança com a intenção mal disfarçada de tirar crédito a conquistas que a elas não foram destinadas. É por isso que eu digo, quero lá saber de sucesso e dinheiro. Importa é saudinha, que sem ela não vou a lado nenhum. A passo arrastado, acabam por seguir todas juntas para o café da igreja, onde até ao fim da manhã ficam ostentando a sua excelente e inútil saudinha, à volta de meias de leite e croissants mistos.

10.2.17

Distância de segurança

Amadureço inclinada para a solidão. Cabelos brancos só dois, não me doem ossos ou dobras do corpo, tenho um sangue limpo de ameaças. Porém, cresce-me um certo acanhamento social, perco o apetite pelo convívio de ocasião e diminuí o número dos que me seduzem para conversar sobre coisas essenciais. Entristece-me o jeito apagado de certas pessoas, nem boi nem vaca, nem raiva nem paixão, nem para trás nem para adiante. Andaram na escola, namoraram, casaram, empregaram-se e foram ficando, cavando lugar. Depois dos trinta, nada mais lhes aconteceu, nada mais construíram, nada mais transformaram, nada mais estudaram. Estão convencidas de que decidem sobre as suas vidas sempre que vão às urnas ou quando respondem se querem fatura com número de contribuinte. Que hei de eu esperar? O que dirão que deslumbre, assuste ou dispare reação? Que amanhã vai chover? Que os filhos só comem sopa passada? Que tudo é muito relativo? Que este é o país que temos? Que nunca mais chega o fim de semana?
Dou comigo saudosa do tempo em que o meu patrão gritava. As suas barbaridades, fazendo eco no corredor, eram a evidência do muito que ainda havia para rebater e transformar. E, ao menos, acordava-me, acelerava-me o pulso, fazia-me gritar também. Mas até ele arrefeceu, tanto lhe dá, é o que for, logo se vê, pode ser, e a mão dele pousa no meu ombro com frouxidão e indiferença como se fosse o fim do mundo e nada mais houvesse a fazer. 
Mais duas décadas, se as viver, e serei um bicho do buraco. Esquecerei o tempo das minhas grandes interações, dos meus atrevimentos, do gosto de falar para muitos ao mesmo tempo, da vontade de saber quem está comigo e quem está contra. Aos poucos voltarei a ser a menina que fui: tímida, melancólica, tirando as medidas aos outros com a devida distância de segurança. 

2.2.17

Mãe incompetente

O mais novo julga que as ilhas dos Açores são barcaças esquecidas no mar alto há muito tempo. Há nelas, ainda, resíduos de carga explosiva usada em batalhas travadas pelo domínio dos oceanos. Quando as águas fervem ou as bocas dos vulcões cospem brasas e fumaças, é porque ainda rebentam, com mais ou menos força, essas sobras muito bem escondidas na estrutura das barcaças. Tremem amiúde devido à presença de criaturas marinhas que não se conformam com a perturbação do seu habitat e manifestam o desgosto baloiçando caudas, tentáculos e barbatanas. Nunca se sabe quando uma dessas criaturas se revoltará em nome de várias gerações antepassadas sacudindo com violência maior uma ou outra barcaça.
Sendo ele inclinado às ciências exatas, às objetividades enciclopédicas e à face do mundo que os sentidos podem atestar, é fácil perceber que na génese destes equívocos estão insinuações minhas. Não é por mal. Só quero prevenir nele o aborrecimento que mais cedo ou mais tarde dá naqueles que vivem reféns do óbvio, porque o óbvio se esgota depois de lidos todos os factos, decorados todos os nomes, aprendidas todas as características. Sei, por outro lado, que pelos delírios e exercícios de imaginação se pode pagar custo elevado. Logo a seguir à dependência, o medo é o mais pesado. 
À noite vai consultar os livros. Não diz aqui nada disso. Mas, por via das dúvidas, não tenciona pôr os pés nessas barcaças. 

1.2.17

Eutanásia

A morte, que é, entre todos os tabus, o mais injustificado, anda a ser dissecada com pinças e paninhos quentes pelos colunistas que hoje reincidem no tema. Alguns sabem muito de História, de Teologia, de Filosofia, citam nomes grandes, aparentam ter de cor todas as constituições, escudam-se em conhecimento livresco, de acordo com..segundo os princípios elementares da...considerando as teorias de... Serei estúpida por não perceber que verdade, afinal, apregoam, se têm de facto opinião e de onde lhes vem o direito ao lugar cativo de mil carateres por semana, tantas vezes mal escritos e ofensivos para quem tenha dois dedos de testa. O teatro do debate público é isto: qualquer coisa sem chama nem compromisso, que mais baralha do que elucida e que passa rasteira quando parece estar a iluminar o caminho.

(Qualquer um que já se tenha visto na iminência de, com as próprias mãos, dar o golpe de misericórdia, sabe que a voz do médico, do juiz e do padre são ciência vaga, sentença inválida, moral sem aplicação. Direitos? Deveres? Liberdades? Juramentos? Não há cartilha ou lei fundamental que não possam ser esmagadas quando um Deus maior e mais urgente é revelado nos olhos de quem se ama.) 

O melhor é rir

Não sendo trágico, seria, de facto, cómico, e agradeço ao Bruno Nogueira por ter-me lembrado que o melhor é mesmo rir. 
Ao pé dos livros que eu li às escondidas quando tinha doze anos, Valter Hugo Mãe é uma candura.