30.8.16

A vida não é assim

O discurso de que as crianças precisam de se adaptar a um mundo injusto, duro e desigual, não me comove nem conquista. Gerar um filho esperando dele que enrijeça e sobreviva é uma ambição medíocre. Quase uma negligência. É a prova de que ninguém quer a mudança, à maioria bastam o conforto da lamúria, espaço para indignações sem pernas para andar e herdeiros que lhe façam eco. 
No mundo ideal, a criança vem para transformar, jamais para se alinhar. Calem-se os amargos, os descrentes e os resignados. Também eu tenho queixas, penas e limitações, mas não serão elas a apontar o caminho aos mais novos. A vida é assim é um crime contra o futuro.

29.8.16

Primavera

Nasci sob um signo de terra e faço jus a essa minha condição astrológica. Não me apanharás em grandes devaneios, ímpetos ou distorções. Quero com nitidez, amo com lealdade, sofro com disciplina. Mas porque vim no tempo da secura, do frio e das sombras, diante de qualquer coisa que respire, cante ou brilhe, eu estremeço, abro os olhos e começo a sonhar, julgando estar aí a primavera.

25.8.16

Um rio

Disse ele:
- Desculpe lá, não leve a mal, sou assim, sou transmontano.
Rematei eu:
- Desculpe lá também, não leve a mal, sou assim, sou duriense.
Ficou a olhar-me, fixo e mudo. Conto que tenha percebido que a raiz é justificação medíocre, recurso de quem se descobre vazio de argumentos e põe fora a responsabilidade. Nem tudo o que nos define nos desculpa. Transmontano, duriense, algarvio, beirão, minhoto... no crime, no pecado ou no sucesso, a terra de onde brotámos está absolutamente inocente. Só na arte ficam bem as geografias do caráter. 
Nem o ermo fraguedo dele nem os meus socalcos doridos são a causa do que, mal ou bem, fizemos e dissemos. No fim, acabámos por nos entender. Bem vistas as coisas, é o mesmo, e de mítico feitio, o rio que nos liga.

24.8.16

Microscopia

Duvido que algum dia este blogue se livre do relato das miudezas do quotidiano. É o modo como sei olhar. Não que não dê atenção às coisas enormes, às catástrofes, às mudanças, às polémicas, às descobertas. Mas em tudo o que há de grande, eu gosto de ver o pequenino. Está sempre ao meu lado, no meu dia-a-dia, na minha rua, no meu percurso, no meu trabalho, na minha praia, na minha vista, nas histórias que os meus filhos trazem, até no meu lado negro, a causa de todas as coisas serem o que são.
Os que julgam que vivo alheada ou indiferente ao que se passa no mundo e rola nas notícias, saibam que me agrada mais pensar na semente quando vejo que há sururu em torno da copa da árvore. É nula a utilidade disso, eu sei. Mas, como eu disse, é o meu modo de olhar. Não o escolhi, cresci com ele e acabei viciada. 
Quando penso na mulher que durante as festas abandonou o marido – tão feliz e serena eu a julgava! – e vejo que ele tem de ir à churrasqueira para comer e ouço os seus tormentos noturnos e a sua linearidade diurna, por exemplo, eu descodifico uma parte dos acontecimentos do mundo. Quando a mulher do Senhor Pereira chama coitadinhos aos meus filhos eu descodifico outra. Quando a rapariga da papelaria muda a roupa e o cabelo para atrair o verdadeiro amor, outra. E o arrumador, esta manhã, gesticulando, saltando, apontando, gritando "aqui chefe, aqui!", julgando-se imprescindível à hora em que, na realidade, a praça estava tão vazia que até um comboio podia entrar aos piões! 
A humanidade não precisa de grandes teses para ser explicada. Qualquer bairro serve.

23.8.16

Festas da Nossa Senhora daqui

Terminada a procissão, o povo reconciliou-se com a sua natureza original. Desfizeram-se os arranjos de flores, recolheram-se as velinhas. A fanfarra dispersou e os automóveis tiveram autorização para voltar a chiar os travões e pingar óleo no santo caminho, tão devotamente enfeitado por três dias. Devolveram a Nossa Senhora daqui à penumbra fresca do altar, de onde não pode ver como é rija e persistente a matéria das ofensas que lhe fazem. Os anjinhos desembaraçaram-se de asas e auréolas e voltaram à sua terrena inocência, que se exprime no desacato e no prazer, tem olhos ávidos, joelhos sujos e um sexo que há de vir a ser discutido. O presidente da junta pôde finalmente dobrar as costas, livrar-se do fato escuro e de outras solenidades de ocasião e fazer-se uma pessoa comum, cheia de fome, sede, ganas de abanar o capacete. 
Seguiram todos para a banda oeste da freguesia. Invadiram a estrada principal caminhando aos magotes pelo asfalto, com determinação e euforia, como se um destino de merecidas grandezas os chamasse. Esperava-os na praça meia dúzia de barraquinhas de comes e bebes, geridas por mulheres de muito brio a troco de nada, e um cantor suficiente para reproduzir todas essas pimbalhadas que autorizam novos e velhos a escoar a malícia. Ajoelhou, vai ter de rezar. E a insuspeita marinada em que, por cautela, se preservam as emoções quotidianas, levantou fervura, empurrou a tampa, escaldou as ruas. Pela noite dentro, a gente esqueceu como se leva as mãos ao peito com fervor - pelo menos ao próprio. Cumpriu-se a festa tal qual nos outros anos. O fogo de artifício foi pobre, à medida do orçamento, mas ninguém perdeu o dom de se maravilhar e aplaudiram-no com orgulho, como a mãe aplaude o filho só por ele ser seu ainda que não valha muito.
Muitos homens foram para casa bêbados e andaram às voltas antes de acertar na rua, praguejando com fantasmas e duvidando da sanidade do mundo. As garotas ficaram até mais tarde, deram-se à conversa e à vontade dos rapazes, porque em nome da Nossa Senhora daqui foram alargados os horários e as permissões. Por muitas horas ouvi mulheres debaixo da minha janela entretidas na elaboração de suposições acerca da vida alheia e, deste modo, adiando o regresso à cama.
Nessa noite, outras coisas aconteceram aqui nas redondezas, mas foram abafadas pela chinfrineira do arraial. Por exemplo, uma mulher fez a mala e partiu para sempre com a filha, abandonando o marido aos cuidados da churrasqueira da rotunda. É bom homem, mas muito fraco dos nervos, cheio de cismas e terrores. E o amor não sobrevive a tudo.

22.8.16

Compromissos publicitários

A publicidade é uma ofensa explícita. Berrasse menos e talvez desse para disfarçar, mas tão escancarada e presente... como não perceber? Trabalhá-la só me diverte porque me concentro no processo e me abstraio da intenção e da consequência. Postas as coisas cá fora, nas paragens de autocarro, nas revistas, nas autoestradas, nos intervalos das novelas, envergonho-me e renego tudo. O mais novo, às vezes, aponta com o dedo: mãe, olha o que tu fizeste! Mas o que nele é apenas orgulho, pesa-me como uma acusação. 
Para me consolarem, alguns dizem-me que a publicidade é incentivo ao consumo e que o consumo põe a economia a mexer, sugerindo que afinal eu cá também dou o meu valioso contributo para tirarmos os pés da lama de uma vez por todas. E depois, se não fosse a publicidade, como se saberia das novidades, dos pacotes, das promoções? Como fazer as melhores escolhas, como saber o que presta e não presta, do que são feitas as coisas, que causas e valores defendem as marcas, com quais nos identificamos? E não é bom ver que os produtos se vão aperfeiçoando, cuidando para que nada nos falte, perseguindo a nossa felicidade e bem-estar?
E ao ouvir tudo isto que me dizem concluo que afinal não: não é o meu trabalho que sustenta e promove o consumo, é a ingenuidade da multidão. 

19.8.16

Bom dia

Tal como em todas as outras, nesta manhã acordei com alívio. Não sofro de apneia do sono nem, felizmente, de qualquer outro mal que me aproxime do abismo da morte enquanto durmo. A minha vulnerabilidade reside precisamente no oposto: na consciência da vida. É por saber do que sou que sei do risco que corro. Quando a Lili Caneças disse que estar vivo é o contrário de estar morto, toda a gente se riu por ver ali uma lapalissada, ninguém notou que era um pequeno equívoco.

*
À chegada disse bom dia e a senhora da limpeza revirou os olhos: só se for para si. Não estava triste, só queria parecer triste para condizer com o mundo e obter a sua aprovação. E o mesmo ou semelhante me foram respondendo os outros ao longo da manhã, tanto pobres como ricos, amantes e solitários, chefes e subalternos, informados e alheados, doentes e saudáveis. Senti-me um ultraje, uma ofensa a essa infelicidade geral que por arrogância se presume emparelhada com a lucidez. 
À medida que o dia findar, os humores hão de compor-se e uma alegria infantil, urgente, renovará o ar, abrirá sorrisos, amaciará o tom das conversas. Afinal, é sexta-feira e as previsões anunciam o regresso do sol. É sabido que nas pessoas muito lúcidas, a felicidade, além de rara, depende de coisas elevadíssimas como o calendário, o relógio e o tempo que faz.

17.8.16

Uma desilusão

Ando a ler um romance cujos personagens são todos portadores de profundas, rebuscadas e eloquentes teses existenciais. A intelectualidade e a filosofia a martelo. A explicação da vida, da morte, da condição feminina, do amor, da maternidade, do trabalho, tudo sob a forma de sentença. Os diálogos não têm o pulsar espontâneo das verdadeiras conversas. Todos os momentos são iluminados e analíticos. Nada sobra para deduzir, ninguém profere interjeições, ninguém interrompe ninguém, não há dúvidas, reticências ou descontrolo. Em suma, a vida não acontece.
Passa uma gaivota aos guinchos no céu e nem pensar em pôr um homem incomodado a dizer "esta cidade está que não se aguenta de passarada!". Antes: "já reparaste como animal e ser humano vivem infligindo-se tão horríveis torturas, um invadindo o espaço do outro, como se competissem por uma divindade, algo que os transcende e que buscam desesperadamente alcançar? Será o propósito de cada ser, no limite, a extinção do outro?". Há de responder a mulher: "e não crês que aí reside o motor da evolução? Será a destruição, na verdade, o impulso da vida ou mesmo do amor se o considerarmos como uma manifestação de básicos e até predadores instintos?" Passa a empregada e diz "minha senhora, para quem, como eu, nasceu e cresceu no campo e não conheceu vida que não fosse de fome e trabalho, a verdade é outra, talvez mais simples mas não menos importante porque deveras a sinto: as aves resumem aquilo em que nós, humanos, falhamos: a liberdade. Por isso o seu grito ofende. Mas pior, minha senhora, são os excrementos que largam no quintal, eles simbolizam a força de uma espécie que, apesar de desprovida de consciência e razão, tem a mais mortífera e corrosiva de todas as armas. Mas, enfim, que sei eu?, a minha condição é de uma mera criada cuja sabedoria jamais poderá exceder a destreza com que lava os cristais para os banquetes dos senhores". 
A empregada sai. O homem: "Não te parece que há nesta rapariga qualquer coisa de subversão? Porque não a dispensas? São estas as pessoas que precipitam a desgraça social!" A mulher: "Pobre de ti, tão douto porém de tão falível moral! As tuas palavras revelam o quanto temes as mulheres enquanto seres capazes de idealizar e transformar. Recusas o poder do feminino e, com isso, recusas-te a ti mesmo pois não és senão o fruto desse poder! E, de resto, para equilibrar um lar são necessárias forças antagónicas. Sem esta empregada, a nossa família perderia o norte por não ter a materialização dos demónios contra os quais luta e que, no fundo, justificam a sua existência quotidiana."
O outro: "Queres tu dizer que toda a vida é, inevitavelmente, uma luta?" 
Ela: "Talvez, mas és tão óbvio e superficial no modo como o dizes que me sinto desprovida de ânimo para continuar a conversa. Simplificar assim as verdades é ofender a grandeza dos espíritos que as concluíram. Agora vou dormir um pouco. Acredito que o sono é o único estado em que podemos experimentar as vidas a que não fomos destinados. Há quem chame a isso sonhos, eu chamo-lhes existências paralelas e fragmentadas. Felizes os que não recordam o que sonham pois estão livres da angústia de saber que são apenas uma ínfima parte de tudo o que poderiam ter sido."

É inútil ir ao google. Estes diálogos não existem, são uma invenção medíocre e amanhada à pressa para servir de exemplo.  Mas, enfim, não se tire o mérito a este romance que ando a ler. Eu é que não chego para ele.

15.8.16

A felicidade, graças a Deus

A mulher do senhor Pereira nunca fez questão de ser feliz, basta-lhe que os outros a suponham feliz. Pertence àquela vasta e insuspeita categoria de pessoas que asseguram a manutenção do sistema e tornam dispensável a tirania e o policiamento escancarados. Por ser oposta à natureza de todos os seres, a sua moral é desumana e inflaciona o valor da segurança em detrimento do livre arbítrio. É normal estas pessoas tornarem-se arrogantes, provindo o seu complexo de superioridade da certeza de que aos descendentes não deixarão vergonhas, divórcios ou dívidas, mas uma casa e um pezinho de meia que dignifique o nome da família e mantenha o respeito através das gerações.
A felicidade é um desejo leviano, uma inconsequência e uma fonte de frustrações. Por si só, poderá constituir uma meta? Como, sendo tão ambíguo o seu significado? Diga uma pessoa para si mesma o meu sonho é ser feliz e passará os seus dias aos ziguezagues, sempre negando uma coisa para alcançar outra, caindo em abismos por querer livrar-se de grilhões, afundando-se por recusar morrer à sede. Oh, não! Não é assim com a mulher do senhor Pereira! A prudência e o calculismo mataram-lhe os talentos, esfriaram-lhe os afetos, tiraram-lhe o direito de se revoltar contra a traição, mas deram-lhe o que pediu: estabilidade. Pergunte-se-lhe como vão os filhos e ela, compondo com muito jeitinho a cabeleira de negro falso, responderá que as raparigas, licenciadas, casadas e já mães
, graças a Deus. E o rapaz... bom, tendo o seu feitio, tem também os seus direitos. Afinal, qual é o filho bem amado que não torna sistematicamente à casa materna para se consolar com a melhor comidinha e ter a roupa lavada como deve ser? Às vezes vai ela a casa dele fazer uma limpeza geral, que as empregadas hoje em dia só varrem por onde passa a procissão. É com gosto, naturalmente. E o marido? Ora, a prova de que está muito bem casada é que aos sessenta e seis anos ainda não precisou de aprender a mudar uma lâmpada nem de se preocupar com assuntos de bancos, graças a Deus
A mulher do senhor Pereira não sabe que eu sei do dia em que ela premiu a tecla verde do telemóvel dele e escutou aquele cumprimento amoroso, cheio de uma quentura que ela jamais soube dar ou receber. Por isso, quando me encontra aproveita para exercitar mais um pouco a sua arrogância. Amiúde dirige-se aos meus filhos como coitadinhos e, mais pelo sentido do dever do que por honesta preocupação, se algum dia a menina precisar de alguma coisinha... Está convencida de que fomos vítimas de uma enorme e irreparável desgraça. Mas eu penso igual acerca dela, apenas me inibo de lhe aplicar aquilo a que Agostinho da Silva chamava de "suplementos de humilhação", essa falsa generosidade que se inclina à pena por não ter outro motivo além do engrandecimento próprio.
A mulher do senhor Pereira não é rara nem se apresenta com originalidade. Sofre de um mal comum, que contamina silenciosamente e com mais facilidade do que se supõe. E ri com espalhafato, ri de uma ponta à outra da rua, ri entrando nos cafés, nos cabeleireiros, no pronto-a-vestir, ri para que toda a gente saiba que, graças a Deus, não há nódoa que lhe caia no pano.

11.8.16

Madrugada

Ainda o sol por nascer e a vizinha sai a passear de trela o gato siamês, perturbando a minha meditação. Supõe-se que nada perturbe quem verdadeiramente medita e, com efeito, já meditei com salvas de morteiro, tempestades diabólicas, arraiais ao virar da esquina, desatinos entre bêbados e euforia de canalha. Mas a vizinha anda de um lado para outro a arrastar os chinelos e a murmurar tolices ao gato, cuidando que mais ninguém a ouve, porque a esta hora só os sacrificados, os insones e os tolos como eu estão a pé. E a minha consciência, quieta e expandida tal qual um lago no regaço das montanhas, agita-se como se lhe desse o vento – lá se vai o perfeito reflexo do infinito na minha profundidade! 
Chego à janela. A iluminação pública ainda cintila e, num quintal próximo, um homem em pijama trata das galinhas. As rolas vêm em bando colonizar a árvore onde em tempos o mais velho tinha a sua fortaleza e marinava sonhos de lonjura e rebeldia. 
Quando o gato siamês aninha o rabo, compenetrado na libertação do que não mais lhe pertence, a vizinha põe-se a rezar bichano lindo que é da dona, bichano lindo que é da dona, bichano lindo que é da dona. E eis a singeleza do quotidiano a ressoar em contra mão, de fora para dentro de mim, galgando sem ponta de esforço a muralha que me salva de morteiros, tempestades, arraiais, desatinos e euforias. 
Por hoje, desisto. 

10.8.16

Paralelo 15 N

O senhor Pereira, pois claro! Vem sempre a propósito e, repescando-me algumas fúrias, atiçando as minhas inflamações crónicas, salva-me de cometer excessos de tolerância. Porém, coitado, tão cheio de gentilezas e maneiras de pai, nunca me fez mal algum a não ser o de desenrolar, em cada encontro, o mapa psíquico deste país.
Está agora bem longe, o senhor Pereira. A imaginação mostra-mo de bandulho cheio, torrando na beira de uma piscina, rindo sozinho de um prazer superior, vitorioso e genuinamente feliz. Sorte a dele, que é de poucos. Ainda há dias me confidenciava a menina da EDP que duas semanas de férias são nada: durante a primeira persegue-a o trabalho deixado para trás, na segunda já lhe dói o trabalho por vir. Tormentos destes não aparenta o senhor Pereira. Mantém o jeito risonho e aquele modo de ajuizar com leviandade e distância, como quem nunca perdeu, sofreu, falhou ou penou. Está tudo bem, senhor Pereira? Uma maravilha, menina! E a gente a saber as filhas desavindas, o filho parasitando ao seu redor, a mulher já viciada na resignação e a tentar virar o jogo a seu favor adotando os tiques daqueles que nem perante Deus dão o braço a torcer.
Terá desembarcado e entrado diretamente no autocarro que o levou ao resort. No percurso, às misérias avistadas da janela terá reagido com as mesmas exclamações que solta ao ver os noticiários no aconchego do sofá. Este mundo está perdido! Porém, o mundo está sempre demasiado longe e até quando o senhor Pereira chega perto dele, são quilómetros feitos e nada mais, cada nova realidade se mantém em rota própria, caminho paralelo, estrada que se põe para trás à medida que o autocarro anda para a frente. E? Acaso um homem tem de carregar as dores dos outros sete biliões? O que importa é que todo este mundo perdido ainda tem muito sol, marisco, cerveja, águas turquesa, exotismos, cisnes esculpidos com turcos de banho, sabonetinhos mimosos nas casas de banho, orquestras e bailes pela noite dentro, muitos criados e bandejas. 
Então, o senhor Pereira ao comprido na beira da piscina, provando bebidas de muitas cores, com o olho atrás das nádegas das estrangeiras, fotografando até os ladrilhos do chão para mostrar no regresso. E a mulher a seu lado, em fato de banho, exibindo a inevitável distorção do corpo feminino, que é culpado de nascença e duramente castigado com o tempo. O ventre gordo, os seios mortos, as mãos nodosas, os ossos ocos. A cabeleira negra, avolumada à custa de muito trabalho, é o abajur de um candeeiro sem ponto de luz. 
Mas logo, à hora do jantar, é a ela que ele pedirá ajuda para escolher a roupa e saber o nome do que lhe servem no prato. Dançarão juntos noite dentro, harmonizados na técnica, com o passo muito acertadinho. Nenhum deles tem intenção de calcar o outro. E quem olhar concordará que dão um grande espetáculo.

8.8.16

Silêncio

Noite dormida. Prato cheio. Cama feita. Luz solar. Contas arrumadas. Memória desempoeirada. Desejos encaminhados. Férias plenas. Trabalho fácil. Espaço livre. Inimigos derrotados. Costas endireitadas. Coração leve e limpo. Respiração profunda. Ninguém me atormenta. Ninguém me está a faltar. Ninguém me deve. 
Por mim, virava-se agora a página do calendário. Está feito o ano. Sete meses vencidos e já apetece celebrar, estoirar a rolha do espumante, regar os tetos, e, uma vez mais, evitar o erro de fazer planos e promessas. Para manter a liberdade de virar no sentido oposto ao da curva provável ou caminhar em direção a um horizonte só em cima da hora vislumbrado. Avançar é o que conta. Tolo é o que se mantém deitado e dormente para poder dizer que sonha muito.
Assim postas as coisas –  sem transtorno, carência, mágoa, raiva, dor, saudade ou preocupação – que motivo há de uma pessoa desenterrar para escrever?