24.10.23

Lá vão elas, com os seios caídos de tanta fartura e fadiga, os ventres servis, os tornozelos grossos de chutar os dias avante, o frenético bamboleio das coxas para atender às crias e todo um alfabeto sentimental nos vincos da testa. Andam para lá e para cá, sobem e descem na bancada, perguntam aos seus homens se depois é para passar na churrasqueira ou se lhes basta o jantar requentado da véspera, de caminho amaldiçoam os árbitros, desejam o pão que o diabo amassou aos adversários, gritam aos filhos que são os maiores, que são invencíveis, que basta acreditarem e tudo, absolutamente tudo alcançam. Que embusteiras, estas mães! Ouvindo-as, convenço-me de que a mentira é a condição do amor. Varrem do caminho todas as reais impossibilidades, afastam os pedregulhos do desalento e da injustiça, fingem que só da vontade depende o êxito da marcha, para que os seus amados filhos avancem seguros de conquistar o mundo. Afinal, o amor pode não ser só o sacrifício da paz e da razão, mas também o da verdade.