15.5.23

Concebido contra todos os planos e probabilidades, acidente fisiológico, fruto de uma urgência amorosa que a saudade empurrou até à insensatez  – o meu menino com cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno converteu-se na minha mais útil expressão de ternura. Sobre isso, porém, recuso que me sejam atribuídos méritos. Já nasceu assim, todo derretido com as coisas da vida, confiante, capaz como poucos do entendimento e do perdão. Porém, a passos largos no caminho de ser homem, acorda agora todos os dias como um estranho que acabasse de pousar na Terra. A cada manhã dou, portanto, à luz um novo ser e só desmemoriando as dores do parto da véspera posso retomar o laborioso fito da sua educação.
Com o rapaz voador a mudança foi mais lenta e misericordiosa. A cada dia um sinal, um passinho mais a longe, uma horinha mais tardia, mil cuidados para não sobressaltar este coração de mãe, que em resistência terá sempre mais fama do que proveito. Entretinha-se com pagode brasileiro e outras ligeirezas próprias da idade e assim me despistou, a fazer-me crer que se prolongava a sua inocência. Precisei de vários anos anos para notar que estava, afinal, todo cheio de ciência e filosofia e que as suas escápulas de atleta se haviam desdobrado num portentoso par de asas, capaz de o levar aonde eu nem em sonhos. Mas no menino com cabelos de oiro velho e olhos de mar de inverno dá-me a impressão que a natureza quis despachar o trabalho de uma assentada e arrancou-mo do colo entre dois sóis, sem respeito pelos meus sentimentos. Estranho muito nele o tamanho, a voz, as razões, os gostos, a seriedade, Sinatra, Elvis e Piaf na playlist
Tenho ainda de cor os seus medos de infante, trato por tu os monstros que dormiram debaixo da sua cama, quantas vezes a meio da noite não os arrastei pelos colarinhos porta fora? Gostaria muito de o poupar às dores que o futuro lhe reserva, às mínimas escoriações do quotidiano, ao punhal dos traidores, ao vácuo onde o desgosto amoroso mergulha as almas crédulas. Mas que posso eu contra o caos do mundo e a frágil condição da humanidade? Dia após dia, mortifico-me com o inventário das desgraças possíveis e imaginárias e revejo as lições que lhe passei nas entrelinhas do amor: saberá dizer não, saberá virar costas, terá pulso, terá fibra, terá força? Por vezes, admito, até peço aos deuses e a todas as suas imitações que o abençoem também com alguns dons de carrasco, porque nos romances de ecrã e de papel se conta que os puros de caráter vergam com grandes dores e sacrifícios e, embora os seus nomes sejam depois lembrados, benefício algum lhes é concedido.
Acalmem-se os que a esta hora já me supõem uma dessas mães que querem segurar os filhos como amantes prediletos a vida inteira. É o contrário. As asas que os meus têm, fui eu que lhas dei, desde cedo, e cuidei sempre para que em estrutura e amplitude sejam bastantes, de forma a que, comigo ou sem mim, eles possam aventurar-se até morrerem. Acontece, porém, que, embora o amor genuíno seja o que consente a liberdade do outro, cada passo de um filho para longe da sua mãe é sempre uma amputação a tratar com solenidade e ternura. E o contrário só dirão os ingénuos, os mentirosos, ou os coaches da vida plástica.