9.3.26

A alegria de domingo é redonda e pontual na casa dos meus vizinhos. Por cargas de água que ignoro, tem havido neles uma constante disposição para celebrações e não retomam os afazeres da semana sem uma festa. Gostam de expressar com vigor todos os pretextos da sua alegria, ocupam os silêncios e as horas preguiçosas do ocaso com convidados, palmas, cantilenas, congratulações, riso convulso, tilintar de copos e flutes, discursos de meias frases pontuados de trocadilhos e anedotas. Creio que fogem dos instantes mortos e dos espaços em branco como o diabo da cruz. Porém, se me cruzo com eles nos elevadores, acho-os embaçados, com modos neurasténicos, resignados como gado, não encontro nos seus olhos fulgor equivalente ao escarcéu com que celebram aos domingos, de casa cheia. A mulher estava hoje de manhã cedo à entrada da garagem a trocar os segredos de uma boa sopa com a rapariga do segundo direito. Abordava a velha questão da batata - será de acrescentá-la ou excluí-la? - que continua a dividir a ciência doméstica e as convicções dos influencers. Atenta a todas as fomes do lar e antecipando-as, coitada, estudou tanto para acabar intelectualmente estimulada pelo desafio da angariação de selos do continente, cativa de um itinerário que vai da cozinha à cama com paragens lânguidas por gabinetes e salas de reunião, fúrias largadas no ginásio, a curiosidade embotada e muitos suspiros pelo próximo domingo, quando o sentido da vida for restabelecido. 

7.3.26

Os escritores têm vindo a tornar-se uma tribo de narcisistas. Vão aos festivais cultivar o próprio génio, participam em mesas redondas para debater a singularidade que se atribuem, lamentar a mágoa das suas infâncias incompreendidas que, felizmente, acabou por aprimorar neles o talento de manobrar o verbo, divagar sobre a dimensão paralela que habitam, cheia de deveres sacrificiais. Vão perdendo a arte de viver por trás da obra, agora são eles os protagonistas e o seu nome é, na capa, maior do que o título do livro. São a razão e o alvo dos porquês e das transações, prestam-se bem a autógrafos e entrevistas, respondem com paixão à mais idiota e vulgar de todas as perguntas "o que é preciso para ser um bom escritor?", seguros de que têm a fórmula, logo, é ponto assente que são bons (nunca vi nenhum que respondesse com espanto e humildade não faço ideia, mas se souber diga-me).
No meu tempo - que não se mede em anos e não passa de uma demarcação ilusória das coisas que penso e em que creio - os escritores ocupavam-se do mundo, das suas misérias e do seu encantamento. Chocalhavam-no por meio de personagens inesquecíveis, enfiavam os dedos nas suas feridas, apertavam-lhe os testículos, espremiam-lhe o ventre, expunham-no em carne viva e ainda derramavam álcool por cima, sem piedade, pudor ou grilhões ideológicos. Era esse o seu papel e, em boa verdade, continuam a afirmá-lo, a defendê-lo publicamente com unhas e dentes. Infelizmente, parece que não lhes tem sobrado grande tempo para o exercer.