Renata disse-me que o poeta se assemelha a deus e eu pergunto-me de que livro, doutrina ou conversa ela tirou esse pechisbeque intelectual. Alguns poetas fraquejaram muito, como só é próprio dos humanos fraquejar. Pelo dom da palavra, deram à troca a sensatez. Sofreram com paixões menores, ambições materiais, contas feias por saldar, sentimentos indignos, indecentes. Enamoraram-se loucamente de mulheres muito tontas, mal servidas de inteligência, enquanto escreviam sobre outras que só por não existirem tornavam o poema maior. O verso valeu-lhes como instrumento mágico para dar ao real – por mais infeliz, condenado ou medíocre – uma altivez inabalável. E versos desses, aceito, são as bandarilhas que, com elegância e precisão, têm sido cravadas no dorso teso e obstinado da nossa mortalidade. Talvez aí, sim, um vestígio de deus. De resto, um poema é um espetáculo como outro qualquer.