23.5.19

Morrer ou não morrer de amor

Aos poucos, tudo volta ao seu lugar, diz a rapariga da papelaria, ainda na convalescença do desgosto. O homem a quem ama, o pai da sua filha única, vai casar com outra e isso, sendo embora o bastante para emperrar o andamento da vida, é insuficiente para afrouxar a batida do seu coração sonhador. Gente como a rapariga da papelaria nasceu para se dar bem com este regime de alternância entre a entrega e o desgosto, toda a fortuna apostada num cavalo e a ruína de sarjeta, a fortuna, a ruína, a fortuna, a ruína. Não é estupidez, é confiança, fé, otimismo, intuição. Que culpa tem se o destino troca as voltas à última hora?
Por outro lado, tenho um vizinho que está a morrer de amor e à noite, debruçado na janela da cozinha, debita pelo telefone, com rancor e violência, o que acredita serem as suas últimas palavras. Quem morre de amor, tonto, julga sempre que morre definitivamente e não estará cá para pagar pelas feridas causadas com tudo o que disse sem justiça nem verdade. Descobrir dias, meses ou anos depois, que está vivo, é uma condenação à vergonha perpétua. 
O amor, como a morte, é uma das maiores banalidades da vida. Dá a todos, inevitavelmente e sem critério, mais cedo ou mais tarde. E das maiores banalidades da vida vêm sempre os grandes tormentos, os mais enredados dissabores, as mais equivocadas certezas. Isto não é conclusão nova ou pensamento original, mas continua, ainda assim, a espantar-me