17.4.19

Via sacra

O senhor Pereira e a mulher foram convidados a passar a Páscoa na casa materna da imperatriz, em plena ruralidade beirã, e não havendo de momento outra forma de verem o neto Joaquim, terão de submeter-se à autoridade imposta pelas voltas da vida. Ninguém as entende mas, de uma forma ou de outra, todos ansiamos pelas voltas da vida, contando que sejam para melhor, até porque a nossa consciência viciada e distorcida nos diz, amiúde, que o que temos está muito aquém do que merecemos. Quantas vezes acontece, porém, a volta aparentar ser no sentido da desgraça e quando a poeira assenta revela-se o brinde escondido. Assim me parece que pode acontecer com o senhor Pereira e a mulher, por enquanto desconfortáveis com a ideia de acordar ao canto do galo, sem saber que roupas hão de meter na mala e temendo que os arredores de Penedono não tenham chão para os pneus do mercedes. 
Antes de avançar, um esclarecimento: é que talvez os leitores estranhem a falta de notícias sobre Joaquim. Terão pensado que a história se esgotou ou que eu deixei de ver nela interesse, o que parece impossível já que, não tendo televisão, o meu espírito tem de buscar fontes de entretenimento alternativas. Miséria, mas adiante. Apesar de Joaquim já ter nascido em janeiro, até hoje só sei que é o pai chapadinhoFora das monarquias, nunca se viu uma criança tão aguardada e com tanta responsabilidade na honra de uma família. Acontece que, depois de dar à luz, a imperatriz pegou nele e foi para Penedono. Tenciona ficar por lá até ao fim da licença, beneficiando da ajuda e dos ensinamentos da mãe. Nada sei deste novo quotidiano familiar no norte beirão, ignoro como têm sido as noites do pequeno, que dores têm consumido a imperatriz, que truques lhe tem passado a mãe, por quantos serões têm ficado ambas divagando à volta do segredo dos seus corpos, sangrando juntas, cicatrizando-se os ventres. 
A ninguém, nem ao filho do senhor Pereira, devia ser permitido perturbá-las. Mas a imperatriz é tão naturalmente segura da sua independência que faz o que pode para que Joaquim tenha o pai por perto e recebe-o aos fins de semana, caso ele queira. É verdade que a criança lhe saiu do corpo, permitiu-lhe outras visões da dor e do poder, deixou-lhe marcas definitivas, mas nas veias dele corre outro sangue além do dela. Joaquim respira sozinho e respira a atmosfera do mundo, não mais a atmosfera íntima, protetora, do seu útero. É preciso abrir a porta de casa, deixar entrar quem de direito, permitir ao pequenito o calor de outros colos, a experiência intensa de novos amores, amores de palavra e de pele. Daí – explica o senhor Pereira com termos que não estes – o convite dirigido pela mãe da imperatriz para se reunirem no santo fim de semana. E assim os Pereiras preparam não apenas a mala mas também o espírito para os três dias no interior do país.  
– Se não fosse pelo meu Joaquim, ninguém me apanhava a comer o cabrito de domingo na parvónia. – remata ele, balouçando nos calcanhares. 
Apreensiva com as ameaças e irregularidades do terreno, a mulher vai de caminho comprar calçado. Além das chinelas de trazer por casa, só tem sandálias de verão, sapatos e botins de salto alto. Disse-lhe o filho que ao redor da casa é tudo pedregoso e lamacento, já para não falar da bicharada miúda que se agarra com patas e ferrões a qualquer naco de pele desnudada. Queixas e receios à parte, o casal Pereira até considera este um sacrifício necessário pelo bem da família. Sobretudo por Joaquim, neto mais lindo não há, concordarei certamente assim que o vir, as fotos não fazem jus. E já que a cada mortal Deus entrega uma cruz para alombar, seja esta a deles. A via sacra é que, caramba, escusava de ser na Beira Alta.