2.12.19

Salutar convívio

No átrio, as minhas vizinhas trocam impressões sobre o quotidiano. À passagem cumprimento, vejo o correio, chamo o elevador, um está preso no quinto, o outro acima e abaixo a satisfazer as necessidades de todos os moradores, porque é hora de ponta, do regresso a casa e da moleza. As minhas vizinhas, porém, ainda espevitadas sobre os saltos altos e com as malas oscilando no antebraço, parecem ter pouco interesse no recato e no aconchego dos lares, prolongando aquela roda viva de falatório em que cada qual expõe a sua forma, a sua vontade, as suas pequenas vitórias e embirrações. Eu sou assim e eu faço assado, ah, mas eu recuso-me a isto, ai eu sou capaz daquilo, pois, porque eu sei bem o que isso é. Podemos salvar esta agitação de egos com um eufemismo básico – salutar convívio – ou até dignificá-lo com um mais contemporâneo – partilha de experiências. Seja o que for, tenho de ouvir, porque o elevador, nicles. 
Mas eis o meu vizinho de cima a entrar no prédio, regressado também da sua jornada. Com ele entra um vento morno e húmido, parece que até as paredes estremecem, não sei que fenómeno, que súbita indolência toma aquele átrio, que preguiça de membros e língua dá nas minhas vizinhas, porque serenam o tom de voz, põem freio ao remoinho de opiniões e contraopiniões e sorriem com uma subtileza de que não as acharia capazes dada a energia com que entre elas debatem. Ignorava que o meu vizinho de cima era capaz de as deixar naquele estado, a lembrar jovens púberes na expectativa de serem escolhidas para uma dança. Coitadas, nem imaginam que ele, embora encantador, cheio de doçuras, maneiras e aromas, é apressado e incompetente nas funções elementares. Mas, enfim, deixemos a fantasia delas viver merecendo o nome que tem. A realidade é um aborrecimento desnecessário, por vezes criminoso.
Chega o elevador, embarco sem esperar pois parece-me que ninguém tem intenção de subir. E assim que a porta começa a fechar, ouço:
 - Por favor, eu aproveito a viagem!
Primo o botão para reabrir a porta, ainda vejo o meu vizinho estender o braço até ao sensor, mas - oh, que maçada! - o mecanismo não obedece.