24.5.19

Boa educação

Ao fim do dia caio aos pés do mais novo, derrubada pela candura dos seus olhos, os únicos capazes de me devolver a fé na humanidade. Mereces o melhor do mundo, sussurro-lhe com um amor consciente, lúcido, que vê bem ao perto e ao longe. Ele beija cada um dos nós dos meus dedos muito devagar e eu acanho-me por sentir que é injusta esta devoção que me presta. Ninguém é tão generoso a perdoar as minhas falhas. Qualquer culpa minha, acode a inocentar-me e caso fique provado que errei, consola-me lembrando a débil condição humana à qual, por mais que sonhe, não posso escapar. Perto dele sou gente melhor. É a confiança, e não o julgamento, que retoca o caráter. Depois ampara-me o rosto com ambas as mãos, libertando delas o cheiro dos ventos de todos os quadrantes, do couro das bolas, dos chocolates e da poeira. E todos estilhaços que ao longo do dia tive de recolher e carregar sobre os ombros regressam ao lugar original, leves como penas ou pétalas. Há filhos que educam tão bem os pais.