11.1.19

Remendos

Os filhos com olhos de azeitona preta cresceram mas a mãe continua a fazer o mesmo percurso e a levá-los à escola todos os dias. O rapaz, que já é adolescente completo – e atestam-no as espinhas, o carapuço e o olhar desconfiado –, vai sempre mais à frente. Quer um intervalo que prove, a quem duvidar, a sua capacidade de viver independentemente e mais além de quem o criou. Ainda me lembro de ouvir, na reunião do primeiro ano, a professora dizer baixinho o menino precisa de estabilidade para ter sucesso na escola e o pai com os olhos ausentes dos viciados, embalando-se na cadeira como se lhe tivessem assaltado a consciência, compreende o que quero dizer? mas ele sempre preso no nada infinito, numa lucidez divina ou na terna flutuação do ventre materno, sei lá. Foi a única vez que o pai compareceu às reuniões. A partir daí, só a mãe. No princípio a mãe miseravelmente dobrada, um dia a mãe grávida, a seguir a mãe carregada com a bebé e as tralhas, depois a mãe a tentar amparar os primeiros passos da menina e a ouvir a professora ao mesmo tempo, até deixarmos de ter reuniões em comum porque o rapaz ficou para trás na escola, embora vá à frente no caminho. 
A menina anda agora pelo seu próprio pé, vaidosa que só visto, nem um fio de cabelo ao acaso, nem um acessório fora destas modas breves e estridentes que alimentam as lixeiras. Pelas contas que faço, já tem dez anos e ontem de manhã, senhorinha de si, seguia mexendo orgulhosamente num telemóvel fúcsia cheio de brilhos. A mãe rodeava-lhe os ombros com o braço robusto, protetor, e sorriam ambas como jamais as vi sorrir. Foi exatamente à hora em que o sol entrou pela rua dentro e as cobriu de uma claridade promissora, capaz de transformar o mundo. De vez em quando, Deus cose uns remendos no quotidiano e disfarça muito bem as dolorosas imperfeições da sua obra.