29.11.18

Recordação de um duelo

Volto ao campo de batalha para me certificar de que estou imune à tentação de repetir a desproveitosa façanha que foi este duelo. Arrepio-me com a beleza que agora consigo ver. É tão maior o esplendor do sol quando rebrilha nos destroços! O vento e as chuvas já dissolveram as manchas de sangue mas será morosa a recuperação da vida. Uma vez perdida a confiança nos homens, não bastam umas poucas luas para que a natureza volte a expressar a grandiosidade das suas intenções. Noto, porém, que a bicharada tem aparecido a farejar abrigo e alimento, há rumores, pegadas e cheiro de organismos vivos. Está tudo naquele intervalo de tempo em que o futuro se põe a decidir o que do passado vale a pena aproveitar. 
Apanho do chão algumas palavras que me caíram dos bolsos – às vezes sou tão desastrada com as coisas que tento esconder – e em que, felizmente, ninguém reparou. Sou obrigada a reler também as que ela escreveu e por todo o lado foi largando a cobrir as imperfeições do terreno. A vida istoO amor issoA esperança aquilo. Envergonha-me lembrar que foi contra ela que me dispus à luta, queria reverter o desperdício de cada linha que afiei, manobrei e lhe encostei às carótidas. Nada a fazer, agora. Na maioria das vezes, levantamos o punho e as armas por causas sem merecimento, porque nos ensinam, de pequenos, que a bom porto chega quem vai a tudo com mais força. Mas se ao menos combater desse o gozo de um vício, como fumar às escondidas, arrancar um sabugo com os dentes, ir a jogo só com um par de dois. Se houvesse adrenalina, desejo, cegueira, e, por fim, alívio! Não. Combater é um hábito triste e banal, qualquer coisa que acordamos dispostos a fazer por reflexo, por mecanismo, pelo sobrenome, pelo título, pelo plano mais vulgar da existência, pelo medo de cair no esquecimento, que é a fossa onde apodrecem os cobardes.

28.11.18

Do pavão ao homem

Galantear uma mulher em público não demonstra intenção real de a valorizar. É uma atitude que tem por desesperado objetivo exibir o próprio potencial de sedução. Já o elogio sincero, esse é um ato de coragem porque eleva o outro e nos deixa a nós na sombra. O galanteio, a ser bem feito, deve ser em privado. O elogio pode justificar e merecer plateia. Da compreensão destes simples factos parte a diferença entre o pavão e o homem.

* A propósito das exibições de António Lobo Antunes e de tantos outros.

27.11.18

O que eu vi

Só eu vi, mas outros gostariam de ter visto, a viúva a sair do carro e a descer a rua com a parte de trás da minissaia de padrão escocês toda levantada e presa no cós. As nádegas completamente expostas, a renda das calcinhas afundada num vale de perturbadora abundância, mais o debruado das meias de liga em torno das coxas, tudo a oscilar com uma inesperada volúpia. E ela sem dar por nada, ignorando a generosidade da partilha, sorrindo ao mundo, saudando a vida como uma rainha, enquanto o vento a possuía por trás. O senhor Pereira, excitado só de imaginar que o desgosto fechou a sete chaves o corpo maduro da viúva, que a solidão lhe voltou a costurar a virgindade, não teria mais noites tranquilas se houvesse visto o que eu vi.

25.11.18

Obras

Esta manhã, Tolstói, Kafka e Hemingway fizeram cocó na marginal. Mas os donos - já era de esperar - ignoraram a grandeza e o impacto das obras, disfarçando à conversa no telemóvel ou vasculhando nas nuvens resposta para as dúvidas metafísicas a que só espíritos de vastíssima cultura, inspirados nas bibliotecas até para nomear os bichos de estimação, se entregam.

24.11.18

Histórias

- Bocê não é a senhora que contava histórias?
Assusto-me com a mão a pousar no meu ombro, viro-me e tenho de levantar a cabeça para encontrar os olhos de quem fala. 
Bocê lembra-se de mim? 
Gaguejo. Por favor, ajuda-me. Ele diz o nome e o sobrenome. Vasculho os traços originais do seu rosto, tento apagar-lhe os excessos, as borbulhas, o buço envergonhado, o sebo a reluzir na testa e no nariz, troco-lhes os dentes por uns de leite, experimento ainda sem os incisivos inferiores. Dou a volta pelos lugares onde contei histórias, quero lembrar-me mas houve tantos com o nome dele e podiam ser Mendonça mas também Silva, Cabral, Tavares, Carvalho, Vieira, Rocha, Gonçalves. E houve Miguéis, Cátias, Pedros, Marianas, Fábios, Carolinas, dezenas de Beatrizes e Martins, carradas de Tomás e Constanças, os primeiros de milhares de Salvadores e Santiagos que despontariam mais tarde como cogumelos, consigo ainda vê-los, desdentados, com sardas, joelheiras, totós, bolas, laçarotes, unhas sujas, roídas, outras tão cedo corrompidas pelo verniz rosa dos chineses. Uma vez eram à volta de quatrocentos, foi preciso um gimnodesportivo e eu sem microfone nem palanque. A diretora procurava impor uma autoridade que lhe justificasse o salário, se não estiverem sentados, quietos e calados não há história, mas a indiferença tem o efeito do vácuo e os gritos dela eram abafados como os pedidos de socorro nos pesadelos. Porém, assim que eu dizia era uma vez eles ajoelhavam-se e a alguns o queixo começava a cair de espanto e outros punham o dedo no ar a pedir a palavra para saber mais a respeito de certas cores, formas, feitios e razões. E eu – perdão se me falta modéstia – fazia tudo isto muito bem, sem recurso além da voz e das mãos, e em certos dias comovia-me e queria ficar mais tempo, mas as crianças eram levadas em fila para cumprir tarefas de superior importância. 
- Cresceste tanto...
É a única coisa que me ocorre dizer sem perigo de gafe. Ele dobra-se para me dar um beijo e eu tenho saudades, mas quem me dera saber exatamente do quê se mal reconheço quem tão feliz me cumprimenta.
- Ainda conta histórias?
Vou dizer-lhe que não, já não conto histórias, só mentiras, sou uma intrujona, escrevo coisas que nem queiras saber. E o pior, o que dá medo, é que já ninguém põe o dedo no ar a fazer perguntas porque ninguém duvida do que está escrito.

23.11.18

Preguiça

Apesar de tudo, em certos dias a tua ausência é um alívio. Dá muito menos trabalho desejar-te do que compreender-te.

21.11.18

Insónia

Acordada a meio da noite pela violência de um aguaceiro, compreendi hoje o desespero dos insones. Porque cada gota de água que batia na vidraça – e eram tantas! – soava-me como uma possibilidade de fracasso, uma suspeita de doença ou um vulgar, oco e injustificado pavor de existir.

20.11.18

Atitude cultural

Uma das coisas mais aflitivas que por vezes acontecem na blogosfera é a exibição ostensiva de uma atitude cultural. E chamo-lhe "aflitiva" porque transparece, nas entrelinhas, o esbracejar. Infelizmente, não é boa ideia querer à força dar provas  –  enumerando e justificando –  do quão culto se é. Não basta ler, visitar, conhecer, estudar, colecionar pontos, visões, citações, para mais tarde debitar. Quando o espírito realmente se abre, a primeira coisa que sai, para que outras possam entrar, é a arrogância. Presumir, por presumir, que os outros não alcançam o mesmo que nós e disso retirar gozo público, é uma evidente, apesar de consentida, demonstração de falta de cultura. E, de resto, a capacidade crítica não assenta na troça, mas na desconstrução.

19.11.18

*

Para a mulher do senhor Pereira - e não só - todo o erro é consentido desde que não seja visto. A sua ética não assenta na moral mas na vergonha. Terá, certamente, resposta para a clássica questão filosófica sobre se produz som a queda da árvore caso não esteja lá ninguém para ouvir. Não, dirá. Graças a Deus, não produz.

18.11.18

E agora?

Não será esquecido este dia, em que Alicita deu os primeiros passos sem amparo e a mãe se desfez em lágrimas como numa despedida. Diz que partiu cambaleante de entre as pernas da avó, atraída por um gato preto de patas brancas que a mirava do lado de fora da papelaria. A meio do caminho hesitou, a todos pareceu que ia tombar, mas de novo recuperou o lanço e foi até à porta para lá se deixar sentar no chão, exausta da aventura, acenando ao bichano numa felicidade simples, desinteressada, de causar inveja. Havia de a ver, diz-me a avó, parecia que tinha um foguete no rabo.
E agora? pergunta a rapariga da papelaria e afaga o ventre como se alguma parte da filha ainda lá morasse. Receio, por vezes, ter pena dela. É um sentimento que me desagrada, ainda mais sobre alguém cuja bondade é de uma evidência quase novelesca, literária, sem nenhum facto, até hoje, que a desmentisse. O sonho dela - o de um amor eterno - canibalizou todos os outros, fechou-lhe a visão periférica, e agora ela não tem muito mais que fazer além de ver a filha partir devagarinho e organizar revistas sobre o balcão com uma cadência favorável à melancolia. Mas, pensando bem, qual a utilidade de um sonho provido de razão e bom senso, que não desconstrua a lógica mental do sonhador? Haverá sonho digno desse nome que não exija hipoteca pesada? Que não desperte a piedade, a desconfiança ou a troça? A rapariga da papelaria sonhou com o amor absoluto, leal, verdadeiro, devotado, telepático, um amor unha e carne, mata e esfola, superior a todas as coisas mundanas, transitórias e materiais. E deste sonho acorda triste e levanta-se desesperançada, por mais que a filha lhe ilumine as horas. Agora, talvez na organização das revistas ela reinvente a sua ordem para a vida, que pode ao menos mudar a cada manhã, consoante a importância e a espetacularidade das notícias, ora mais leves, ora mais graves.

17.11.18

Abalo (2)

Agora é isto. O Norte, que de costume não tremia nem por nada, parece que lhe tiraram a fibra e a pedra que tinha por dentro, amoleceu, deu-lhe a osteoporose, uma distrofia muscular ou coisa que o valha, por qualquer coisa é uma vibração suspeita por baixo das plantas dos pés e o rumor de um comboio que passa, não para mas deixa recado a lembrar já não és o que eras.

16.11.18

Pranayama

Quando inspiro profundamente, sinto a tua mão trepar-me, sorrateira e curiosa, desde o pé, pela perna, a coxa, a nádega, a cintura, as costas, e enterrar-se, toda aberta, na raiz dos meus cabelos. Quando expiro, dissolvo-te no ar até seres nada. De novo inspiro. E expiro. Perfeito mecanismo este, que me mantém viva e lúcida.

15.11.18

Palco

Eu sei – de uma forma ou de outra, toda a profissão é um exercício de teatralidade, o desempenho de um papel, um jogo de máscaras e personagens. Mas tentar escrever textos humorísticos num dia em que a alma chore por um acalento, uma cantiga mansa, é tão difícil como ter de interpretar Maria Antonieta com o hábito de São Francisco de Assis. 

14.11.18

Gaitas e pianinhos

Aniversário de casamento devia dar direito a prendas, não a fretes. É o que diz o senhor Pereira, enquanto passa uma flanela no capô do mercedes e pela enésima vez fala das maravilhas do cruz control, perguntando-me se também tenho esse luxo. Por amor de Deus, senhor Pereira, exclamo, apontando a simplicidade do meu automóvel, que considero até estar programado para mais ousadias do que aquelas que eu costumo permitir a um objeto. Pois..., ele olha-me compassivo, como se me faltasse teto, alimento ou dignidade. Mas então - retoma enquanto desdobra, sacode e volta a dobrar a flanela - vai fazer quarenta e poucos, muito poucos, anos de casamento e a imperatriz ofereceu-lhe e à mulher uma prenda que nem ao diabo lembra. Pudesse descalçar esta bota, inventar uma doença, um acidente, qualquer coisa que o livrasse de aguentar o martírio! Mas o que há de ser assim tão mau que cause esta agonia a alguém sempre bem disposto à generalidade das coisas da vida? Responde-me com um sorriso, que é primeiro de gratidão pelo elogio mas logo se transforma em gozo quando abre a porta do carro e o porta-luvas e tira um envelope:
- Diga-me a menina se isto não é para rir.
Dentro do envelope estão dois bilhetes para um concerto pela Orquestra Sinfónica do Porto, na Casa da Música. 
- Parece que inclui jantar, a menina está a ver, eu com a barriga cheia se me sento a ouvir gaitas e pianinhos adormeço.

(intervalo para esclarecer os leitores de imaginação preconceituosa, que possam ter achado que à insuficiência de cultura e bom senso do senhor Pereira corresponde insuficiência de aspeto ou modos. Saiba-se que é um homem de muito boa figura, tomaram outros de menos idade ter a sua elegância e o seu gosto a vestir. Não, não varre a cera do ouvido com a unha do mindinho nem exibe o peito peludo. Lembremo-nos que se há coisa que a sua mulher não perdeu ao longo dos tempos foi a vaidade. E nenhuma mulher vaidosa dançaria a valsa num resort com um grunho ou andaria com ele de braço dado na rua)

- Não são gaitas e pianinhos, senhor Pereira. E duvido que adormeça, porque esta sinfonia tem momentos muito intensos. 
- É uma sinfonia?
- É. 
- Ah, então se é só uma deve ser rápido.
Escolho poupá-lo à verdade, pois temo que o seu coração passe mal. Pigarreio, mas ele nem nota. 
- Eu vou-lhe dizer, menina. A inteligência vê-se nestas pequenas coisas e de certeza vai concordar comigo. Eu, se estivesse no lugar dela, era uma garrafinha de Vinho do Porto e estava feito. 
- Vinho do Porto já não surpreende ninguém.
Ai, se a vida permitisse fazer cmd+z, eu tê-lo-ia feito logo após esta heresia.
- Ó menina, tenha paciência! Eu lá quero ser surpreendido? Deixem-me é estar sossegado. Francamente, com todo o respeito, mas há mulheres que não se percebe. Como é que o meu filho se foi meter naquilo?
Tenho dúvidas sobre o que o senhor Pereira quer dizer com a expressão meter naquilo, mas sigo adiante porque tenho andado pouco certa das ideias e ficamos todos mais seguros se eu puxar a rédea ao pensamento. Ainda tenho os bilhetes na mão, ele parece ter medo de aceitá-los de volta, quem lhe dera que uma rajada de vento mos arrancasse e os enfiasse nas ranhuras de um bueiro para nunca mais. No instante em que decido pousá-los no capô, reparo um pormenor que me desconforta: o dia do concerto é o do aniversário de casamento dos meus pais. Encabisbaixo-me. Por motivos diferentes, o senhor Pereira também. Só o mercedes brilha de forma estupenda, à luz oblíqua deste São Martinho atrasado.

13.11.18

A dúvida

Quando a sala esvazia, sento-me diante de Buddha procurando imitar a sua dignidade e pergunto-lhe como hei de sossegar o coração. Aviso logo que tenho feito de tudo: planto-me de cabeça para baixo, respiro conforme os ensinamentos antigos, sorrio às adversidades e treino a compaixão pelo inimigo. Mas acontece que as minhas boas intenções têm sido corrompidas pelo desejo do que não me está destinado, pelo impulso de rir do que não devo e pela intolerância com ninharias que talvez não tragam mal ao mundo. Imortalizado no seu rasgo de iluminação antes que dele desistisse por não mais o suportar, Buddha parece dizer-me que tudo o que eu faça será como insuflar um saco roto. 
Lá fora, a harmonia do canto dos pássaros mede forças com a do sorriso dele e escutando uns e observando o outro nasce-me a dúvida: de que lado está realmente a verdade? As dúvidas – mesmo estas de trazer por casa –  são como as crianças impertinentes, uma vez que lhes damos ouvidos não mais se calam e andam de volta de nós em saltinhos. Agora não é altura, dedo firme sobre os lábios para que a dúvida se acalme. Tarde demais. Já tenho a mente cheia de pensamentos que as religiões desaprovam e o vento, que dá às cortinas estrutura e modos de gente endemoninhada, convida-me, de assobio, a ir com ele arrancar as cepas à terra e os telhados às casas e, de caminho, só por entretenimento, soprar nos ouvidos dos homens quando eles dormem. 
A Buddha pouco importa que eu vá semear desordem e troçar de quem repousa. De manhã cedo, as monjas vieram compor-lhe o altar, reverenciaram-no três vezes prostrando-se no chão, trocaram as flores e as oferendas, acenderam-lhe velas e incenso. Tem as taças de água e de arroz cheias. Espera, paciente, porque sabe que quanto mais falhas eu cometer, quanto mais defeituosa for, quanto mais me doer o erro praticado, mais vezes regressarei para me sentar diante dele.

9.11.18

Domínio

Foi no convívio regular com um homem de belíssima poesia e caráter execrável que aprendi, há muitos anos, a não confundir a coisa escrita com quem a escreve. Espíritos torturados podem conceber versos de superior lucidez, o invejoso é capaz de comoventes parágrafos sobre generosidade e a mão que violenta a mulher pode ser a mesma que lhe escreve o mais devotado e sensível de todos os poemas. Para a coisa bem escrita basta o domínio da língua e da imaginação. É fácil inventar o próprio coração.

8.11.18

Where do I begin*

Ouvi isto hoje cedo, por um acaso, e vieram-me à lembrança os dedos delicados de uma das minhas irmãs do meio, ainda adolescente, sobre o piano. Não posso viver sem a minha memória. Que a idade me roube a fertilidade do ventre, o cálcio dos ossos, a precisão dos gestos, a fluência das palavras, a rapidez dos reflexos, mas jamais o fulgor da memória, das minhas memórias. É por elas que, muitas vezes, sobrevivo ao presente e me lanço ao futuro com uma luxuosa sensação de amparo e conforto.




* texto de Julho 2013, que publico hoje novamente a propósito da morte do autor da banda sonora do filme Love Story. 

7.11.18

Abandono

Sonhei esta noite que te dava a conhecer à minha mãe. Não em encontro formal, para aperto de mão, mas de uma maneira infantil, com cotovelada e sussurro: olha, é ele! Discretamente, ela admirou-te de cima a baixo e cruzou a perna no modo elegante, finíssimo, que sempre foi dela. Estava com o tailleur cor de marfim - desejei-o tanto quando era menina - e o seu olhar azul, irónico e de poiso incerto, sobressaía por toda a realidade em volta. Quando os meus mortos me aparecem assim nos enredos noturnos, espero que seja para, como nos filmes, me lançarem avisos, conselhos ou até revelações. Então, mãe?, eu, ansiosa por saber o que ela entrevia, disposta a fazer o que a sua intuição ditasse. Mas, como em todos os outros sonhos de todas as minhas noites dos últimos dezasseis anos, a minha mãe permaneceu muda, presa à condição de fantasma, abandonando-me por minha conta e risco. E nem sequer deixou que a visses.

6.11.18

Ficção

A ficção é o real que acontece quando ninguém está a ver. No fundo, talvez a literatura se resuma a isso: uma segunda oportunidade para repararmos na vida. O que no dia-a-dia ocultamos, recalcamos ou por precaução ignoramos – instintos básicos, pecados, vozes do outro mundo, malignidades e ambições desumanas – tudo impresso nas páginas como possibilidade distante e, por isso, segura. A leitura não é, como alguns pregam, evasão. É antes consciência absoluta, embate e confronto. 

4.11.18

Mães solteiras

Mas quem é, afinal, a imperatriz? Uma mulher de facto independente ou apenas alguém que, proibida de ousar na adolescência, experimenta na idade adulta o gozo da provocação e escolheu a família certa para disso retirar o prazer máximo? O menosprezo pela ideia de casar, ou até viver, com o filho do senhor Pereira, cuja substância primordial carrega no ventre, é mesmo sentido ou é alicerce de construção do próprio orgulho, de uma identidade que busca com urgência? É uma egoísta, uma desprendida, uma leviana, ou a gravidez revelou-lhe subitamente o justo valor das coisas e não está mais disposta a abdicar dessa clarividência?
*
A mulher do senhor Pereira espanta-se que uma rapariga criada da província - antigamente era como se dizia, sabe? - tenha aderido a estas modernices. É que ser mãe solteira não é apenas escandaloso e ofensivo, argumenta. Ser mãe solteira é uma jornada inglória, a imperatriz há de acabar por esgotar-se nas noites em claro, nas fraldas, nas febres, nas nódoas na roupa, nas correrias para a escola e, mais tarde, naquilo que, por não ver nem saber, ainda mais dor lhe há de causar. Diz tudo isto a mulher do senhor Pereira com a superioridade do costume, sobre o edificante pedestal da família que construiu e que, mesmo desentendida e oposta, é a mais certa de todas as suas idealizações. E esquece que, bem vistas as coisas, ela própria não foi senão uma mãe solteira.

2.11.18

Mortos vivos

Os mortos – dizem –,  quando se levantam das sepulturas para assombrar os vivos, choram o que em vida calaram e inutilmente adiaram, pedem ajustes de contas ou perdões. Os vivos, quando os visitam nos cemitérios e lhes oferecem flores às mancheias, fazem-no exatamente pelos mesmos motivos.