18.10.18

Sem filosofia

Não lhe dá a sensação, às vezes, que era outra antes de ter filhos? pergunta-me a rapariga da papelaria a propósito do primeiro aniversário de Alice e do que em torno disso lhe ocorreu. Vou para responder sem dar a devida importância, mas ela: não quero dizer diferente, quero dizer mesmo outra, outra vida, outra pessoa, está-me a perceber? Se estou. Mas, por favor. Passo horas fechada numa sala com um homem de mente brilhante a inventar novas formas de perfumar venenos, entre nós nem o silêncio é fácil, cada discussão é-me mais penosa do que uma partida de xadrez, e eu chego ao fim do dia gasta, insuficiente, aquém de tudo. Preciso de me livrar do peso da inteligência que há no mundo, do sarilho em que a imaginação põe o universo. Por isso muitas vezes me apetece, não a ignorância, não a grosseria, não a estupidez, mas a mera superficialidade das coisas, o facto puro e sem teoria, o banho desinteressado de luz nas fachadas das casas, uma bondade a que falte consciência ou missão. E estava hoje a contar contigo para isso, rapariga. Não podia ao menos o teu coração de mãe bater sem filosofia?