1.8.18

Linha da vida

Nunca tive um ídolo. Tenho vivido sem adoração nem culto. Nem ao poster de um cantor na adolescência nem à imagem de um santo no desespero. A ninguém dou plenos poderes para me aliviar de aflições ou me fazer cair de joelhos. E matéria inerte que eu beije, só se for o espelho. Mas ontem, por acidente, espetei uma faca na palma da mão e como o golpe foi em cheio na linha da vida passou-me pela cabeça que me estivesse a ser enviado o pré-aviso do meu fim. Num relance de olhos, dei de caras com a figura lenhosa de uma senhora com o menino ao colo, ambos tão cheios de compaixão pelo mundo, porém calados e quietos numa prateleira desde sei lá que tempos. Estanquei o sangue com a língua mas, por via das dúvidas, não voltei as costas à senhora e vasculhei na memória as palavras do menino.