6.8.18

Graças a Deus

- Antigamente, havia muita falta de sexo mas hoje em dia, graças a Deus, já não é bem assim.
Levantei-me muito cedo e fiz vários quilómetros para encontrar onde pudesse sentar-me à fresca, tomar o meu café e ler um livro, afastei-me até da marginal para facilitar a solidão e o silêncio, e venho dar a isto: três mulheres na mesa do lado à conversa sobre as faltas e os excessos que há na sua intimidade, sem pudor no verbo e menos ainda no tom. Engraçado nelas, mais do que o sotaque nortenho e a torrente de palavrões que vem naturalmente a reboque, é o facto de verem a abundância de sexo como uma benfeitoria de Deus. Há, porém, uma que considera ser mais questão de sorte do que outra coisa qualquer e usa como comparação a raspadinha, explicando às amigas que se na maioria das vezes não dá nada, outras há em que sai prémio a valer e então aí, é gozar de uma assentada, todos os dias, a todas as horas, até perder as forças. Sou incapaz de transcrever aqui as palavras por ela usadas na exposição desta teoria – contar a vida como ela é, sim senhor, mas deixar aos leitores margem para cultivar a imaginação e, na boleia, preservar as boas maneiras deste blog.
Posto isto, elas apagam os cigarros, levantam-se e abalam. Passam por trás de mim rindo muito alto e não é preciso olhá-las para perceber que estão em ebulição. Que Deus ou a raspadinha as favoreçam o quanto antes.