8.8.18

Clareira

Na curva que dá acesso à autoestrada, há entre as árvores uma passagem para uma clareira muito verde e com uma sedutora aparência de frescura e tranquilidade. Aí estacionam aqueles que, por viverem sem o consentimento do mundo, precisam de um canto para a prática de atos e amores clandestinos. É, portanto, um lugar para toxicodependentes e adúlteros e basta seguir a menos de oitenta na autoestrada para conseguir ver que lá em baixo há corpos em desatino, cheios de urgência, cada qual consumando o seu prazer. Nem esperam que a noite caia e lhes dê disfarce. Amantes e viciados têm em comum o passo rápido e miudinho, adiantam-se a tudo, até à própria vida. O tempo é muito cheio de caprichos e vagares, ri dos desesperados, olha de cima para os aflitos, mete a mão no caminho dos que têm pressa e ainda aprofunda filosofias à custa de todos eles. Só a paixão e a ressaca o desautorizam. E à sombra das árvores, dentro dos automóveis, em plena luz do dia, dão os golpes que travam os ponteiros na decisiva hora do êxtase.