10.8.18

Ausências

Ao descer a avenida esta manhã pesou-me muito o pé no acelerador por causa do dueto Bowie & Mercury que deu na rádio. Sorte a minha, que todos os semáforos me estenderam a passadeira verde e, como era muito cedo, não houve quem me atrapalhasse o caminho. Pus a música alta e fui de vidros abertos, tal qual costumo dizer aos meus filhos para não fazerem por ser comportamento escandaloso e suburbano. Mas quando cheguei à beira-mar e estacionei, pronta para caminhar, tudo me pareceu tão acabrunhado que se me apagaram o entusiasmo e a força das pernas. 
As ausências de agosto entristecem tanto as cidades, embaçam os horizontes, enchem as ruas de animais abandonados, fazem parecer chorado o vaivém das ondas. Quem fica condena-se a esperar, nada funciona, acontece ou avança, ninguém opera mudanças ou toma decisões, tudo depois vê-se, ou encontramo-nos em setembro qualquer dia retomamos isso
Fiquei dentro do carro como os velhos de domingo, a ver de longe um homem tocar violoncelo no meio da marginal, de costas para o mar, de frente para absolutamente ninguém. Ainda não eram oito da manhã.