17.7.18

O vento (2)

Zé Carlos perdeu Adriana para o vento e não deu por nada, já que toda a rotina se cumpre como antes, os dias nascem, a roupa seca, os salários entram na conta, o jantar cai bem, a casa é ampla, o relógio funciona, os miúdos comportam-se, sábado promete calor, agosto está mesmo a chegar. A vida é mais ou menos tal qual foi sonhada por ambos e isso, em aparência, é coisa boa. Só que antes dos trinta sonha-se muito mal e, mais cedo ou mas tarde, o sonho vai mostrando ter costuras fracas, as cores desbotam e deixa de servir. Alarga-se daqui, remenda-se dali, mas nada assenta porque o corpo é outro, a alma é outra e outros são os olhos com que se vê, tanto para fora como por dentro. Então Zé Carlos perdeu Adriana e não deu por nada. Fosse ela parva e tê-lo-ia trocado por outro e com outro teria recomeçado, sonhado, posto a mesa de novo e voltado a escolher os destinos de férias, quem sabe repetiria os filhos com outra ronda de cadilhos. Mas trocou-o pelo vento e assim lhe parecem mais ligeiras as consequências dos sonhos que sonhou mas que agora lhe estão apertados, sobretudo em certos lugares do corpo acerca dos quais o vento sabe muito mais do que Zé Carlos.