24.7.18

Esperança

- A menina prepare-se, porque um dia destes vou ter uma novidade daquelas!
Assim me fala o senhor Pereira, subindo a rua em acenos, festas e garotices, com os olhos rebrilhando de uma alegria acabada de experimentar. Respiro fundo e dou-lhe - por pressentir que merece - o sorriso que desde manhã tenho trancado a sete chaves. Oh sim, por favor, senhor Pereira, diga-me coisa que eu não saiba ou jamais tenha visto, prove-me que o mundo gira e o tempo avança. Está tudo hoje tão igual a ontem que nem sei o que hei-de pensar de amanhã. Até as tragédias são as mesmas, Deus repete a obra a cada dia, perdeu a originalidade e o talento dos grandes criadores. Se tem novidade dê-ma, diga qualquer coisa, por mais pequena, qualquer coisa capaz de desalinhar os astros e levantar os mortos. Senhor Pereira, pobre senhor Pereira, tão desinteligente, materialista, arrogante, pateta, fanfarrão, machista, deslumbrado, ignorante, cheio de pó, gasto das ideias, a entortar já das costas e eu - repare bem - eu com a minha esperança inteira nas suas mãos.