19.7.18

Duas mulheres ao mesmo tempo

Duas mulheres da mesma idade, que habitam o mesmo piso do mesmo prédio e que, por diferentes razões, têm criado os filhos sozinhas, ficaram sem eles ao mesmo tempo. Idos de férias para longe os de uma e os de outra, estão agora elas repousadas no mais raro e precioso de todos os silêncios e andam com aquele ar descomprometido que é o dos viajantes quando se apeiam por dez minutos para esticar as pernas, desatar as costas e fumar um cigarrinho. No prédio não há sinais de desassossego e ninguém se apercebe quando estas mulheres saem ou chegam pois é leve o passo com que se movem. É-lhes indiferente a hora e o tempo que faz, não por alienação mas por aquele superior apaziguamento que dá nos que têm todas as dívidas pagas, nenhuma promessa por cumprir e nenhuma pergunta por responder.
Durante os próximos dias, estas mulheres recuperarão por inteiro os seus corpos e o seu modo original de gostar da vida. Madrugarão por sua vontade, para assistir ao nascimento do sol ou caminhar à beira-mar. Tomarão banhos longos, desfrutando da própria nudez. Não se contentarão com vinhos medianos, nem com comidas mal temperadas e muito menos com homens de feitios acobardados e pouca imaginação.
Esta manhã, porque entraram no elevador ao mesmo tempo, perguntou uma "como estão os teus meninos?" e a outra "imagino que estejam bem e as tuas meninas?", "também devem estar bem, calculo...". Então, ao mesmo tempo, os olhos de ambas se encharcaram ao ponto de precisarem de disfarce. Mas cada uma delas se calou por julgar, erradamente, que era de saudade dos filhos que a outra se comovia.