4.7.18

Chazinho de tília

A minha avó materna acreditava que o mundo podia recuperar de qualquer desgraça com muita fé em Nossa Senhora de Fátima e um chazinho de tília. Da Nossa Senhora nunca conseguiu convencer-me, pese embora a quantidade de vezes que me impingiu a história das aparições com narrativas comovidas, chorosas, ou me fez sentar ao seu lado para rezarmos juntas. Mas no chá eu confiava, talvez pelo carinho com que ela, deixando de lado as próprias mágoas e combates, entrava no quarto a arrastar os chinelos e a perguntar queres que te faça um chazinho de tília? se nos achasse em sofrimento por cólicas menstruais, febres ou arrufos com namorados. Com efeito, o mundo reconstruía-se e, mesmo não voltando ao lugar original, engatava em outra órbita e dias novos faziam esquecer aqueles de dor, doença ou desarrumação. Hoje, tantos anos passados, dou comigo sentada na varanda a beber uma chávena de chá de tília, que arranjei à pressa na esperança de igual eficácia. Também podia rezar de joelhos a Nossa Senhora de Fátima ou partir, decidida, para a resolução do mal. Seria indiferente. Qualquer coisa que se faça é apenas um passatempo, enquanto o sol cumpre a sua volta aparente e necessária. Eu sei que não me favorece aparecer aqui assim, a descrença não assenta bem em ninguém, mas, enfim, é nisto que dão os dias pálidos, indecisos e de horizontes embaçados.