10.7.18

Boas intenções

Emprestei o poncho à rapariga da papelaria e ela devolveu-mo três dias depois, com muita gratidão mas pouco entusiasmo. Tirou o modelo e a ideia do ponto, só não sabe que cor escolher porque desde que Alice nasceu dá-lhe a impressão que nada lhe assenta bem, os tons claros fazem-na gorda, os escuros fazem-na triste, os vivos tornam-na ridícula e os pastel afrouxam-na. Digo que a maioria dos azuis são uma opção inteligente, realçam o brilho da pele e dos olhos, revelam lucidez e elegância. Mas ela, que tem aprendido o quanto a lamúria lhe pode render em atenção e prazer, faz orelhas moucas e vaza um suspiro: às tantas desisto do poncho... Depois, lança-se a organizar as revistas e os jornais sobre o balcão, compondo a teia onde irão cair e enredar-se, ao longo do dia, os olhos, as mãos e os pensamentos dos clientes. 
Tenho saudades da rapariga da papelaria de antes, que se movia a sonhos cor-de-rosa e acreditava que o amor eterno era uma graça possível, ainda que reservada a uns poucos. Por causa disso, pintava e despintava o cabelo, punha e tirava piercings, mudava cores, cortes, tecidos, maneiras de andar e de olhar. E toda a vizinhança lhe dava dicas e conselhos para apanhar um homem digno e sem vícios. Depois, aconteceu-lhe uma filha e foi perdendo identidade, convicção, esperança.
Antes de sair – sem que nada me ocorra para a animar – passo os olhos de raspão pelas manchetes e pergunto-me se as mães dos rapazes tailandeses presos na gruta também concordam que ter filhos é o mais bem intencionado e comovente de todos os erros que uma mulher pode cometer.