28.7.18

Consolação

Acordei esta manhã adorando o mais velho, não propriamente como se adora um filho, mas como se adora uma escultura, uma peça feita para contemplação e exaltação dos sentidos. Seminu, respirando tranquilo nos braços de Morfeu, não deu pela minha mão correndo-lhe a cabeça, as costas, as nádegas, as pernas, os pés, nem pressentiu que eu estivesse a perguntar-me como se fez de homem aquele corpo que com tanto cuidado e respeito me saiu do ventre. E achei-o tão belo, tão raro, a pele tão macia, a musculatura tão atlética, os dedos tão longos e delicados, todo ele de uma virilidade tão sóbria, com tal harmonia de proporções e tamanha perfeição de linhas, que duvidei que fosse meu.
Tolos os que tomam a beleza por coisa menor e os que a acusam de ser engano e armadilha. Num universo onde quase tudo é angústia e mistério, a beleza é a maior, senão a única consolação que nos é dada.

26.7.18

Roda viva

Os meus colegas têm todos à volta de seiscentos amigos no facebook, alguns já mortos, e seguem outro tanto de serviços e marcas. Dia após dia, engolem a torrente de informação publicada, os bons dias, as fotos das férias, dos filhos, do cão e do gato, leem as reclamações sobre maus atendimentos, os elogios aos bons restaurantes, põem gostos nos vídeos disto e daquilo, nas novidades das lojas, nas ações de marketing que aparentam um mundo amigo e solidário. E ainda há as notícias, as petições, as atualizações, as partilhas, tudo pingando diante dos seus olhos a cada segundo, um carrossel vertiginoso de histórias, promessas e emoções, girando a correr, exibindo as suas cores, causando desassossego e despertando apetites. E a cada momento eles leem e gostam e seguem, assíduos, exemplarmente obedientes, embalados na roda viva sem cansaço nem tontura.
O que eles não aguentam e lhes dá cabo da paciência – já mo disseram – é viajar com taxistas faladores que contam a vida toda.

24.7.18

Esperança

- A menina prepare-se, porque um dia destes vou ter uma novidade daquelas!
Assim me fala o senhor Pereira, subindo a rua em acenos, festas e garotices, com os olhos rebrilhando de uma alegria acabada de experimentar. Respiro fundo e dou-lhe - por pressentir que merece - o sorriso que desde manhã tenho trancado a sete chaves. Oh sim, por favor, senhor Pereira, diga-me coisa que eu não saiba ou jamais tenha visto, prove-me que o mundo gira e o tempo avança. Está tudo hoje tão igual a ontem que nem sei o que hei-de pensar de amanhã. Até as tragédias são as mesmas, Deus repete a obra a cada dia, perdeu a originalidade e o talento dos grandes criadores. Se tem novidade dê-ma, diga qualquer coisa, por mais pequena, qualquer coisa capaz de desalinhar os astros e levantar os mortos. Senhor Pereira, pobre senhor Pereira, tão desinteligente, materialista, arrogante, pateta, fanfarrão, machista, deslumbrado, ignorante, cheio de pó, gasto das ideias, a entortar já das costas e eu - repare bem - eu com a minha esperança inteira nas suas mãos.

19.7.18

Duas mulheres ao mesmo tempo

Duas mulheres da mesma idade, que habitam o mesmo piso do mesmo prédio e que, por diferentes razões, têm criado os filhos sozinhas, ficaram sem eles ao mesmo tempo. Idos de férias para longe os de uma e os de outra, estão agora elas repousadas no mais raro e precioso de todos os silêncios e andam com aquele ar descomprometido que é o dos viajantes quando se apeiam por dez minutos para esticar as pernas, desatar as costas e fumar um cigarrinho. No prédio não há sinais de desassossego e ninguém se apercebe quando estas mulheres saem ou chegam pois é leve o passo com que se movem. É-lhes indiferente a hora e o tempo que faz, não por alienação mas por aquele superior apaziguamento que dá nos que têm todas as dívidas pagas, nenhuma promessa por cumprir e nenhuma pergunta por responder.
Durante os próximos dias, estas mulheres recuperarão por inteiro os seus corpos e o seu modo original de gostar da vida. Madrugarão por sua vontade, para assistir ao nascimento do sol ou caminhar à beira-mar. Tomarão banhos longos, desfrutando da própria nudez. Não se contentarão com vinhos medianos, nem com comidas mal temperadas e muito menos com homens de feitios acobardados e pouca imaginação.
Esta manhã, porque entraram no elevador ao mesmo tempo, perguntou uma "como estão os teus meninos?" e a outra "imagino que estejam bem e as tuas meninas?", "também devem estar bem, calculo...". Então, ao mesmo tempo, os olhos de ambas se encharcaram ao ponto de precisarem de disfarce. Mas cada uma delas se calou por julgar, erradamente, que era de saudade dos filhos que a outra se comovia.

17.7.18

O vento (2)

Zé Carlos perdeu Adriana para o vento e não deu por nada, já que toda a rotina se cumpre como antes, os dias nascem, a roupa seca, os salários entram na conta, o jantar cai bem, a casa é ampla, o relógio funciona, os miúdos comportam-se, sábado promete calor, agosto está mesmo a chegar. A vida é mais ou menos tal qual foi sonhada por ambos e isso, em aparência, é coisa boa. Só que antes dos trinta sonha-se muito mal e, mais cedo ou mas tarde, o sonho vai mostrando ter costuras fracas, as cores desbotam e deixa de servir. Alarga-se daqui, remenda-se dali, mas nada assenta porque o corpo é outro, a alma é outra e outros são os olhos com que se vê, tanto para fora como por dentro. Então Zé Carlos perdeu Adriana e não deu por nada. Fosse ela parva e tê-lo-ia trocado por outro e com outro teria recomeçado, sonhado, posto a mesa de novo e voltado a escolher os destinos de férias, quem sabe repetiria os filhos com outra ronda de cadilhos. Mas trocou-o pelo vento e assim lhe parecem mais ligeiras as consequências dos sonhos que sonhou mas que agora lhe estão apertados, sobretudo em certos lugares do corpo acerca dos quais o vento sabe muito mais do que Zé Carlos.

16.7.18

Precipício

Acontece muitas vezes apareceres no exato momento em que estou a pensar em ti e eu não sei se é porque o meu pensamento anda contigo pela mão ou porque tu te pões a escrever nele os teus planos. Fique claro, porém, que só busco uma causa romântica para esta coincidência nos dias em que o meu espírito, que costuma viver de pés muito assentes na terra, resvala por descuido e, com a urgência de segurança, nem repara nas tolices a que se agarra: coisas sem fundamento, sem raiz, sem alicerce. Na aflição, levanta-se tanta poeira que os meus olhos cegam, depois falham-me as pernas e fico pendurada na dobra do precipício, cheia de medo, porque dele tenho visto sair poucos de cabeça erguida e pelo próprio pé. 
A única forma de evitar este risco é andar com uma justificação fácil nos bolsos e puxar dela sempre que um encontro adivinhado acontece: a previsibilidade masculina é tal que não há margem para a intuição feminina falhar. E digo isto cheia de dúvidas mas aparentando a mais lúcida de todas as certezas, como o padre ao pôr o crucifixo diante dos olhos do diabo.

10.7.18

Boas intenções

Emprestei o poncho à rapariga da papelaria e ela devolveu-mo três dias depois, com muita gratidão mas pouco entusiasmo. Tirou o modelo e a ideia do ponto, só não sabe que cor escolher porque desde que Alice nasceu dá-lhe a impressão que nada lhe assenta bem, os tons claros fazem-na gorda, os escuros fazem-na triste, os vivos tornam-na ridícula e os pastel afrouxam-na. Digo que a maioria dos azuis são uma opção inteligente, realçam o brilho da pele e dos olhos, revelam lucidez e elegância. Mas ela, que tem aprendido o quanto a lamúria lhe pode render em atenção e prazer, faz orelhas moucas e vaza um suspiro: às tantas desisto do poncho... Depois, lança-se a organizar as revistas e os jornais sobre o balcão, compondo a teia onde irão cair e enredar-se, ao longo do dia, os olhos, as mãos e os pensamentos dos clientes. 
Tenho saudades da rapariga da papelaria de antes, que se movia a sonhos cor-de-rosa e acreditava que o amor eterno era uma graça possível, ainda que reservada a uns poucos. Por causa disso, pintava e despintava o cabelo, punha e tirava piercings, mudava cores, cortes, tecidos, maneiras de andar e de olhar. E toda a vizinhança lhe dava dicas e conselhos para apanhar um homem digno e sem vícios. Depois, aconteceu-lhe uma filha e foi perdendo identidade, convicção, esperança.
Antes de sair – sem que nada me ocorra para a animar – passo os olhos de raspão pelas manchetes e pergunto-me se as mães dos rapazes tailandeses presos na gruta também concordam que ter filhos é o mais bem intencionado e comovente de todos os erros que uma mulher pode cometer. 

4.7.18

Chazinho de tília

A minha avó materna acreditava que o mundo podia recuperar de qualquer desgraça com muita fé em Nossa Senhora de Fátima e um chazinho de tília. Da Nossa Senhora nunca conseguiu convencer-me, pese embora a quantidade de vezes que me impingiu a história das aparições com narrativas comovidas, chorosas, ou me fez sentar ao seu lado para rezarmos juntas. Mas no chá eu confiava, talvez pelo carinho com que ela, deixando de lado as próprias mágoas e combates, entrava no quarto a arrastar os chinelos e a perguntar queres que te faça um chazinho de tília? se nos achasse em sofrimento por cólicas menstruais, febres ou arrufos com namorados. Com efeito, o mundo reconstruía-se e, mesmo não voltando ao lugar original, engatava em outra órbita e dias novos faziam esquecer aqueles de dor, doença ou desarrumação. Hoje, tantos anos passados, dou comigo sentada na varanda a beber uma chávena de chá de tília, que arranjei à pressa na esperança de igual eficácia. Também podia rezar de joelhos a Nossa Senhora de Fátima ou partir, decidida, para a resolução do mal. Seria indiferente. Qualquer coisa que se faça é apenas um passatempo, enquanto o sol cumpre a sua volta aparente e necessária. Eu sei que não me favorece aparecer aqui assim, a descrença não assenta bem em ninguém, mas, enfim, é nisto que dão os dias pálidos, indecisos e de horizontes embaçados.