12.6.18

Torneirinha

A rapariga da papelaria diz-me que tem falado muito de mim e ao dizê-lo a voz dela parece uma torneirinha de pingar melancolia, as palavras saem mornas e espaçadas e encolhe os ombros como se revelasse uma condenação. Tenho medo, porque ultimamente se alguém fala de mim ou é ao psicólogo ou ao padre, o que me leva a pensar que só estou na origem de traumas e tormentos mas talvez eu mereça o castigo de viver no lado negro da alma dos outros por males que tenha feito e não recorde. De modo que nem pergunto à rapariga da papelaria por que carga de água e a quem falou de mim, tento sair de mansinho no instante em que um homem entra a pedir uma informação - o multibanco mais próximo? Mas é tarde. Ela despacha o homem, sai de trás do balcão, vem em passo rápido, sinto-a aproximar-se, já virei as costas, avanço para a rua, deito a mão à carteira, busco o telemóvel para fazer de conta, simular qualquer coisa que justifique a indiferença.
- Sabe o que é? - ela, bem alto, à porta da papelaria.
Volto-me devagar, sorrio, olho-a como se mal entendesse o que diz.
- Como?!
- Sabe porque é que tenho falado muito em si?
- Ah.. então?
- Aquele seu poncho em croché, cheio de franjinhas... conheço uma senhora que me faz um igual se mo emprestar para ela ver o género...
O meu poncho? Ora, nada que me responsabilize, pois muito bem, trago-o na próxima oportunidade. Respiro de alívio pela desimportância e solto o riso. Mas a rapariga da papelaria não me acompanha na leveza do sentimento. Antes se acanha, encolhe, entristece e, inclinada para mim, de modo a que mais ninguém ouça, pingando agora duas lágrimas vagarosas:
- A minha mãe diz... ela acha que já está na altura de eu me voltar a pôr bonita.