19.6.18

As famílias felizes

No domingo de manhã o parque estava cheio de famílias felizes, dessas que a grande literatura diz serem iguais. Confirmo que todas tinham em comum uma cama de rede, cadeiras de lona e almofadas espalhadas pelo chão, lancheiras abertas onde espreitavam gargalos de cola e de tisanas, sandes de panado, jornais, música nos smartphones, raquetes, bolas de super-heróis, transpiração excessiva, crianças barulhentas, mulheres que partilham entre si miudezas e segredos, homens entendidos em quase todos os assuntos da vida. E além disto, ainda se pareciam no riso desgovernado, na graça que achavam em tudo o que entre eles era dito, no modo solto de desvalorizar os amuos da canalha - deixa lá qu'isso passa. Tive a impressão que se tinham reunido ali de propósito para compor um coro denso e uníssono de ofensa ao universo. Não ao universo inteiro, naturalmente. Mas ao meu universo, que é cheio de análises e complexidades, que é incapaz de comer uma sandes de panado sem teorizar sobre ela e não conta um segredo sem ponderar a infinitude dos seus possíveis destinos, mais as viagens de volta e os apeadeiros no caminho. E que, por causa de tudo isso e pouco mais, se vai doendo, doendo por doer, sem nenhuma dor concreta, sem causa que justifique e meta pena.