4.6.18

Amor incondicional

Quando as filhas do senhor Pereira prometeram à mãe que se ela abandonasse o marido estariam do seu lado e oferecer-lhe-iam as suas casas e o seu carinho pelo tempo necessário, disseram também que a amavam incondicionalmente e que, por terem sofrido com ela a traição escancarada no telemóvel do pai, não viam outra forma, outro final, além da separação. Sendo mulheres, seriam cúmplices, pois a desgraça que hoje é de uma pode amanhã ser de qualquer outra, nunca se sabe, nunca se sabe. Era urgente que a mãe desse o grito da libertação e saísse de casa, largando as coisas no ponto em que estivessem. A amante que viesse retomar tudo, fazer a cama, avinagrar o sangue para a cabidela, pôr-lhe um casaquinho pelas costas, maquilhar-se para saírem com o engenheiro Aires e a Maria Beatriz. 
Portanto, caso ela decidisse bater a porta e deixar para trás toda a sua trabalhosa estabilidade, caso se atrevesse a cair na solidão assim, já cheia de rugas e molezas, com tudo o quanto leu, estudou e aprendeu engavetado num passado remoto, as filhas estariam de mão estendida para retribuir o colo e o acalento que dela, na infância, receberam. 
Vamos, mamã?
Mas, como os leitores recordarão, a mulher do senhor Pereira escolheu ficar e insistiu que aquilo do telemóvel não passara de uma trapalhada. As filhas sentiram-se traídas pela mãe e ficou evidente que, no fim das contas, tinha pernas fracas o tão apregoado amor incondicional. Havia condição, sim: a de se fazerem as coisas conforme a opinião delas. E eis que à dor da mãe sobrepuseram a própria dor, porque tinham sido feridas em cheio nas suas razões absolutas. 
Dali em diante não foram mais três mulheres cúmplices, até porque traição conjugal, garantiram as filhas, era coisa que jamais lhes bateria à porta. A burrice não era defeito com que tivessem nascido, graças a Deus. Já sabemos que, nesta família, tudo o que de bom se dá é graças a Deus mas o que de mau acontece é sempre culpa dos outros. Exceção aberta para o filho, que tanto se está nas tintas para Deus como para os outros e por isso a vida lhe corre sem angústias e o que de mais pesado carrega é a trouxa de roupa suja que todas as semanas leva à mãe.