22.6.18

Velha adormecida

A mulher do senhor Pereira espanta-se de me ouvir comentar com um vizinho os jogos da seleção nacional. Oh, não bastasse a minha falta de jeito para cabidela e rabanadas, ainda me apresento, eu própria, como uma indigesta e impossível miscelânea de saias com futebol. O mundo está tão diferente, diz ela como se acabasse de despertar de um sono de cem anos. Coitada, adormeceu no dia em que o marido, vendo-a seguir caminho tão estudiosa, independente e atrevida, decidiu beijá-la pela primeira vez. 

20.6.18

Final da partida

Vinda da beira do rio, à hora a que o árbitro apitou vi sair da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda um corpo morto, encarcerado em madeiras nobres e bem polidas, a caminho da morada que dizem ser a última: um fosso na terra, um roseiral, uma urna com design contemporâneo que possa figurar na sala como bibelô, cada um há de saber como quer repousar na eternidade prometida. Depois, caiu um aguaceiro de verão e, encharcadas as poeiras urbanas, libertou-se no ar um odor impróprio para românticos e outras espécies permeáveis. E uma melancolia breve, dessa que costuma sobrar depois do êxtase ou de uma apoteose, tomou conta de tudo, até de mim.

19.6.18

As famílias felizes

No domingo de manhã o parque estava cheio de famílias felizes, dessas que a grande literatura diz serem iguais. Confirmo que todas tinham em comum uma cama de rede, cadeiras de lona e almofadas espalhadas pelo chão, lancheiras abertas onde espreitavam gargalos de cola e de tisanas, sandes de panado, jornais, música nos smartphones, raquetes, bolas de super-heróis, transpiração excessiva, crianças barulhentas, mulheres que partilham entre si miudezas e segredos, homens entendidos em quase todos os assuntos da vida. E além disto, ainda se pareciam no riso desgovernado, na graça que achavam em tudo o que entre eles era dito, no modo solto de desvalorizar os amuos da canalha - deixa lá qu'isso passa. Tive a impressão que se tinham reunido ali de propósito para compor um coro denso e uníssono de ofensa ao universo. Não ao universo inteiro, naturalmente. Mas ao meu universo, que é cheio de análises e complexidades, que é incapaz de comer uma sandes de panado sem teorizar sobre ela e não conta um segredo sem ponderar a infinitude dos seus possíveis destinos, mais as viagens de volta e os apeadeiros no caminho. E que, por causa de tudo isso e pouco mais, se vai doendo, doendo por doer, sem nenhuma dor concreta, sem causa que justifique e meta pena.

12.6.18

Torneirinha

A rapariga da papelaria diz-me que tem falado muito de mim e ao dizê-lo a voz dela parece uma torneirinha de pingar melancolia, as palavras saem mornas e espaçadas e encolhe os ombros como se revelasse uma condenação. Tenho medo, porque ultimamente se alguém fala de mim ou é ao psicólogo ou ao padre, o que me leva a pensar que só estou na origem de traumas e tormentos mas talvez eu mereça o castigo de viver no lado negro da alma dos outros por males que tenha feito e não recorde. De modo que nem pergunto à rapariga da papelaria por que carga de água e a quem falou de mim, tento sair de mansinho no instante em que um homem entra a pedir uma informação - o multibanco mais próximo? Mas é tarde. Ela despacha o homem, sai de trás do balcão, vem em passo rápido, sinto-a aproximar-se, já virei as costas, avanço para a rua, deito a mão à carteira, busco o telemóvel para fazer de conta, simular qualquer coisa que justifique a indiferença.
- Sabe o que é? - ela, bem alto, à porta da papelaria.
Volto-me devagar, sorrio, olho-a como se mal entendesse o que diz.
- Como?!
- Sabe porque é que tenho falado muito em si?
- Ah.. então?
- Aquele seu poncho em croché, cheio de franjinhas... conheço uma senhora que me faz um igual se mo emprestar para ela ver o género...
O meu poncho? Ora, nada que me responsabilize, pois muito bem, trago-o na próxima oportunidade. Respiro de alívio pela desimportância e solto o riso. Mas a rapariga da papelaria não me acompanha na leveza do sentimento. Antes se acanha, encolhe, entristece e, inclinada para mim, de modo a que mais ninguém ouça, pingando agora duas lágrimas vagarosas:
- A minha mãe diz... ela acha que já está na altura de eu me voltar a pôr bonita.

6.6.18

Portugal

Quando ouço tanta gente bradar, indignada, que "quarenta e cinco por cento dos alunos não sabe apontar Portugal num mapa", creio que estão a revelar-se dados miseráveis: que setenta por cento dos adultos portugueses só leem títulos de notícias e de links e, dos restantes, uns noventa por cento não sabem interpretar o que leem. Calculo ainda que, da ínfima percentagem que leu tudo e até compreendeu, uns sessenta por cento sejam incapazes de uma análise ao contexto social, cultural e político que lhes permita vislumbrar outra razão para estes fracassos escolares que não seja a pura falta de estudo das criancinhas.  

4.6.18

Amor incondicional

Quando as filhas do senhor Pereira prometeram à mãe que se ela abandonasse o marido estariam do seu lado e oferecer-lhe-iam as suas casas e o seu carinho pelo tempo necessário, disseram também que a amavam incondicionalmente e que, por terem sofrido com ela a traição escancarada no telemóvel do pai, não viam outra forma, outro final, além da separação. Sendo mulheres, seriam cúmplices, pois a desgraça que hoje é de uma pode amanhã ser de qualquer outra, nunca se sabe, nunca se sabe. Era urgente que a mãe desse o grito da libertação e saísse de casa, largando as coisas no ponto em que estivessem. A amante que viesse retomar tudo, fazer a cama, avinagrar o sangue para a cabidela, pôr-lhe um casaquinho pelas costas, maquilhar-se para saírem com o engenheiro Aires e a Maria Beatriz. 
Portanto, caso ela decidisse bater a porta e deixar para trás toda a sua trabalhosa estabilidade, caso se atrevesse a cair na solidão assim, já cheia de rugas e molezas, com tudo o quanto leu, estudou e aprendeu engavetado num passado remoto, as filhas estariam de mão estendida para retribuir o colo e o acalento que dela, na infância, receberam. 
Vamos, mamã?
Mas, como os leitores recordarão, a mulher do senhor Pereira escolheu ficar e insistiu que aquilo do telemóvel não passara de uma trapalhada. As filhas sentiram-se traídas pela mãe e ficou evidente que, no fim das contas, tinha pernas fracas o tão apregoado amor incondicional. Havia condição, sim: a de se fazerem as coisas conforme a opinião delas. E eis que à dor da mãe sobrepuseram a própria dor, porque tinham sido feridas em cheio nas suas razões absolutas. 
Dali em diante não foram mais três mulheres cúmplices, até porque traição conjugal, garantiram as filhas, era coisa que jamais lhes bateria à porta. A burrice não era defeito com que tivessem nascido, graças a Deus. Já sabemos que, nesta família, tudo o que de bom se dá é graças a Deus mas o que de mau acontece é sempre culpa dos outros. Exceção aberta para o filho, que tanto se está nas tintas para Deus como para os outros e por isso a vida lhe corre sem angústias e o que de mais pesado carrega é a trouxa de roupa suja que todas as semanas leva à mãe.