24.5.18

Acontecimentos

Muita coisa acontece enquanto eu escrevo praticamente nada. E, contudo, quem por cá passe, vendo isto tão parado, tão dormente, talvez suponha que morri e – ingrata – disso não dei satisfações aos que generosamente me seguem nem tampouco deixei convite para assistir ao solene e comovente lançar das minhas cinzas nas arribas do Douro. Mas viva posso garantir que estou porque me vão doendo certas partes do corpo, outras afrouxam, as demais enrugam, e todas, invariavelmente, se demoram muito em tudo o que faço, quanto mais não seja pela vontade crescente de prolongar prazeres, impressões e panoramas. 
Vivas estão também a rapariga da papelaria e Alice, a menina que só à força do bisturi consentiu em vir ao mundo e que apertou o laço entre a mãe e a avó, envolvendo-as num ninho de compreensão e solidariedade tardio mas nem por isso menos feliz. Já tem os dois incisivos inferiores e há mais um a romper. É uma menina boa de criar, afiança a avó a quem pergunta como vão os sonos e os apetites. E virando as costas à rapariga, que organiza as revistas no balcão, sussurra-me: a mãe chora mais do que a filha, é noite e dia, não sei que tem. 
Viva está a cabeleireira, a quem o marido ofereceu uma bimby pelas bodas de prata para que ela não se desgastasse tanto na cozinha. Suspiros no salão: isso é que é amor. Todas as senhoras acharam uma bonita atitude, as velhinhas lamentaram que não houvesse dessas facilidades no tempo em que aqueciam a barriga na fornalha, as mais novas queixaram-se que as suas bimbys tiveram de ser reclamadas com uma insistência desesperada e argumentos quase científicos. Só a manicura, que é viva e bem viva: valha-vos deus, sois tão ingénuas que até metendes pena. E a dona Maria Isabel, sem tirar os olhos das unhas bem compostas e levantando um canto da boca com malícia, meteis, querida, meteis, a provar, enfim, que está tão ou mais viva do qualquer outra daquelas mulheres.
Sim, vivo continua também o senhor Pereira, firme nas razões que tem sobre a mulher e as filhas, porém dobrando-se à sensualidade da viúva e atormentado com a suspeita de que o mercedes possa ter mazelas. Anda a fazer um barulhinho, uma espécie de sopro, sabe? para logo adiantar não, claro que não sabe
Parece, portanto, que o mundo está exatamente onde o deixei da última vez que cá estive, que é o mesmo o ângulo de incidência da luz, que se repetem as angústias, os equívocos, os deslumbramentos. Que cada um sabe de cor as suas deixas e as cumpre com resignação, sem vislumbrar outro papel que lhe possa ser atribuído. Nada surpreende ou se revela. Afinal, a única coisa que acontece é estarmos todos vivos. E achei que valia a pena vir aqui dar sinal disso.