14.3.18

Gisele

Encontro hoje a rapariga da papelaria ao balcão, muito caída, com os olhos desanimados, prolongando sem necessidade as tarefas a que tem estado a regressar devagarinho e por enquanto só de manhã, explica-me, porque custa deixar Alicita o dia inteiro de uma assentada. Queixa-se que a ausência da filha faz doer o corpo inteiro, os seios formigam, as coxas tremem, braços, mãos, pernas e pés pesam-lhe como se fossem excessos. Pousa a mão no ventre, ponta solta e desarrumada do laço desfeito entre mãe e filha, e comove-se. Às vezes parece que já nada disto é meu, é tudo dela. Pergunto como está afinal a menina, digo que a achei muito linda da última vez que a vi e a rapariga da papelaria endireita as costas e sorri, parecendo até que faz as pazes com a vida. Não é por ser minha mas sim, é muito linda. O assomo de orgulho, porém, já não vai a tempo de evitar que duas lágrimas grossas desçam, sem alarido, pelas abas trémulas do nariz. Eis o amor, penso e não digo. Eis o amor eterno que tanto pediste a Deus, minha cara.
Ainda passo nos correios para enviar um livro e quando vou a preencher o registo, a funcionária que me atende desata num pranto e leva as duas mãos à cara para o abafar. Largo a esferográfica e o papel, quero chegar-lhe e não consigo, está afundada por trás de um balcão. Meu Deus, murmuro enquanto ela se desfaz sem que ninguém mais perceba. O choro vem de muito fundo e sai num silvo longo, contínuo, como coisa que estivesse à espera desde que o mundo é mundo. Não se preocupe que eu não me engano nas contas, diz-me, aproveitando a tomada de fôlego. Com uma mão - porque a outra tem-na ainda a tapar o nariz e a boca - pesa a encomenda, insere os dados, tira a fatura, dá-me o troco, mas eu não vou a lado algum. Fico a vê-la chorar e essa é a minha solidariedade possível, já que me falta arte para palavrinhas de consolo e frases feitas. É que às vezes, diz ela percebendo que hesito e aguardo, às vezes fico só muito cansada.
Certamente é por culpa de Gisele que estas mulheres choram. Diz que não é uma tempestade, é uma depressão que chegou hoje para agitar águas, levantar ventos e desfazer-se em lágrimas sobre ruas e telhados. Há de passar, cedo ou tarde, e nas praças abandonadas, nos lamaçais e nos destroços, a primavera há de dar de novo o seu pesponto colorido e o verão virá, por fim, adoçar a polpa dos frutos.