27.3.18

Duelo

Não posso competir com ela. Falta-me jeito para escrever sobre o amor como se fosse a dor ciática ou um pote de mel onde chafurdar até à náusea. Também não te dedico versos porque os considero golpes baixos, ao género de uma boa lingerie: seduzem no primeiro impacto, alimentam a fantasia, mas depois (já disse isto ontem?) tornam-se inúteis e não enganam ninguém. Sei falar-te sobre como trocar ideias, suor e saliva mas isso talvez te pareça muito pouco ao pé das promessas que ela faz porque ignora ainda o carácter transitório de tudo. Ela pensa em ti quando a lua enche ou o mar se faz amante devoto e submisso aos pés da costa e diz que tu lhe lembras filmes que viu, livros que leu, visões que teve. Eu, que de romântica nunca tive nem uma falange, penso em ti a propósito das coisas difíceis, quotidianas e passageiras, no caminho entre a casa e o campo de batalha, enquanto pico cebola, lavo os cabelos ou faço transferências bancárias. Ela jura que é capaz de ir até ao fim do mundo por amor. Mas o fim do mundo é longe, às vezes revela-se um deserto, uma secura de morte, outras um labirinto onde as multidões andam às turras e caem redondas no chão. Eu, por amor, sou capaz da mais absoluta lealdade e pouco mais.