26.3.18

Além do Bojador

Passou o dia mundial da poesia e eu não me lembrei de um verso nem me ocorreu um nome a quem pudesse dedicar a minha gratidão. A minha avó estava certa: os livros podem muito pouco por nós. Lês tanto para quê, rapariga? Para nada, dir-lhe-ia se fosse hoje. Um verso, um poema, um romance, são só enfeites para a tragédia da vida, jamais uma salvação, tampouco um abrigo. Como a velha que se maquilha para à força parecer bela e sai em desfile pelas ruas e cafés. E os outros, sabendo embora da sua decomposição, pelo menos não a veem, real, triste e crua, apenas notam a graça acrescentada com um toque de cor, um traço mais vivo, um brilho mais aceso. Num poema, a infelicidade até parece coisa nobre e o desgosto um privilégio e a perda uma dádiva. Quantas vezes, mais novinha, desejei sofrer para merecer aquele verso de Pessoa Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor. Que tolo me parece hoje o meu pensamento. Estou cada vez mais parecida com a minha avó, que só tinha a quarta classe e por isso dobrou os seus cabos sem o auxílio de uma única estrofe.