15.3.18

A última a morrer

Removo as cochonilhas da minha planta favorita com paciência de Job e um algodão embebido em álcool. Duvido que resulte, mas como a minha ignorância chega ao ponto de deixar que as flores caiam em desgraça por amor, resta-me confiar no google e naqueles que, a troco de nada, publicam segredos e mezinhas para quase tudo nesta vida. A olho nu, as cochonilhas têm um aspeto inofensivo, mas são uma praga mortífera que vai envolvendo os caules e criando ninhos no verso das folhas, ao longo das nervuras. Como qualquer outra malignidade, conseguem reproduzir-se a partir de uma sobra ínfima, por isso todo o cuidado é pouco e toda a paciência é bem-vinda na hora de as eliminar. Escusado será dizer que isto que explico com tanta propriedade não é ciência que eu tenha estudado e muito menos entendido, apenas papagueio o que li sem critério.
Sei que a minha planta favorita está condenada. Com o tempo, começará a ter dificuldade em respirar e absorver energia, perderá cor e morrerá. Mas até lá, removerei as cochonilhas todas as semanas, uma a uma, como se fosse possível mudar o destino. Já todos fizemos isso: mascarar a falência, insistir na dignidade até ao fim. Só no dia em que podemos enterrar o cadáver, virar a cara ao horror da decomposição, baixar os braços, é que nos permitimos aceitar a morte. E a isto, por engano, chamamos esperança.