8.2.18

O vento

O vento trepa pelas coxas de Adriana, levanta-lhe a saia e toda uma primavera se liberta no esvoaçar do padrão florido. Zé Carlos olha de viés, oito anos de namoro, outro tanto de casados, ah, as coxas de Adriana, foi o primeiro a abrir caminho através delas, tem as chaves, a língua, os dedos, uma ou outra palavra mansa que desfaz as resistências, a falta de apetite e outras cismas que vá-se lá entender. Já não se usa tal propriedade. A bem dizer é amor, corrige ele. Não desconfia: nem das intenções do vento nem da graça que Adriana vê no seu assobio longínquo, nas mãos fortes e invisíveis, no modo de lhe roçar o ouvido e levantar os cabelos e, sobretudo, na forma como depois vai sem deixar sobrenome, papel assinado, pedido para o jantar.