16.2.18

Labirinto

A rapariga da papelaria sobe a rua empurrando o carrinho de bebé como se nele levasse o mundo inteiro. Não pelo esforço, mas porque vai em cuidados, muito atenta às pedrinhas no chão, aos declives e às falhas do passeio, aos postes e contentores, salvaguardando o equilíbrio da sua criatura. Tem os sentidos como antenas, de soslaio vigia os carros que se aproximam e as pessoas com quem se cruza, aconchega a mantinha cor-de-rosa, atira um beijo e pergunta quem é a flor mais linda da mãe, quem é? Alice, embalada pelos rumores do quotidiano e pelo baloiço da marcha, não pode ainda responder. Mas um sorriso, por mais breve, bastará para que a rapariga da papelaria saiba que o mundo vai na rota certa.
O senhor Pereira, que traz a mulher num braço e o "Jornal de Notícias" no outro, para a cumprimentar-me e detém-se também a admirar mãe e filha nestas miúdas manifestações de amor. E por confundir a nostalgia evidente nos meus olhos com qualquer outra coisa que nesse instante lhe ocorre, pergunta:
- A menina está a pensar o mesmo que eu, pois está? 
Ora, eu tenho fraca ideia do que possa andar na cabeça do senhor Pereira e também duvido que ele suspeite do que vai na minha. É dos livros e das revistas de cabeleireiro que nem o mais perspicaz dos homens se orienta no labirinto da mente feminina. Vou eu desdizer tão antiga e conveniente verdade?
O senhor Pereira tenta acrescentar suspense ao momento, ora mirando a rapariga da papelaria que já vai longe, ora rindo para mim como um catraio. A mulher impacienta-se e desata-lhe a língua com uma cotovelada:
- Diz lá de uma vez, que me estás a dar nervos.
Enervar a patroa é que não! Sob pena de ficar sem cabidela e sem pantufas, o senhor Pereira resolve-se e fala:
- Estou a pensar que, depois de ser mãe, uma mulher perde a gracinha toda. Olhem que realmente... 
Lanço os olhos à mulher do senhor Pereira buscando nela uma aliada para aguentar, não a afronta – porque nem a tomo como tal –, mas a miséria do que acabo de ouvir. Espanto-me de ver que ela aparenta ter perdido o interesse na conversa. Tem já um ar ausente, abre uma das mãos, estende os dedos, ajeita os anéis, aprecia as unhas bem limadas e pintadas. Quando o marido lhe pergunta não achas? dando-lhe ele, desta vez, a cotovelada, ela responde o quê? 
Com a esperança desbaratada, mal empregue, vertida no lixo, decido dar um saltinho à papelaria. Alguém em minha casa há de estar a precisar de cromos.