15.2.18

Ginásio

Dedico muitas horas ao sonho quando estou acordada. Amarro um rol de deliciosas impossibilidades, dou-lhes um rosto, construo-lhes uma morada, encaixo-as num tempo que me convenha. Desde que me tornei adulta, tudo o que sonho enquanto durmo peca por excesso de verosimilhança, não voo, nem mudo de identidade ou sou perseguida por dragões. São reais os meus inimigos, tanto quanto os meus prazeres. Se me aparecer um cão gigante, no pior dos cenários será um grand danois, jamais Cérbero. Não vencerei a gravidade ao atirar-me da varanda, por mais que dê aos braços. Sofro de realidade crónica, até em repouso. E tenho medo de, por causa disso, ficar com a alma empedernida, rangendo com a simples ondulação da vida. Então exercito-a depois de abrir os olhos, quando o sol estoira no meu quarto, imaginando, nem que seja à força, todas as coisas invulgares que me estão reservadas, como a viagem de comboio até ao extremo oriente, o meu corpo fértil e são por toda a velhice, a verdade sussurrada ao meu ouvido ou qualquer outro privilégio que nem a conta bancária, nem a natureza, nem deus me podem conceder.