5.2.18

Farmácia

O mais novo: mãe, cura-me, dá-me um beijo dos teus. Ora, logo o meu beijo, que já foi veneno, troféu, moeda de troca, alucinogénio, arma de assalto, selo de garantia, ponto que deu nó. Já foi – confesso – o de Judas, mas sem os trinta dinheiros nem a posteridade. Já foi assunto, suposição, história mal contada. Até já foi relógio, mecanismo seco e triste badalando a horas certas. Mas os filhos – oh, inocentes! – veem na boca das mães assepsia e santidade. E agora, a salvo da fama de atos indignos, o meu beijo é só uma farmácia aberta vinte e quatro horas por dia.