24.3.17

Dia do estudante

Hoje é o dia do estudante e com a mesma resignação os alunos entraram nas escolas e à mesma hora se fecharam os portões, apartando o mundo de dentro e o mundo de fora como se inimigos fossem. E pelo brio das pautas e por um amanhã igual ao ontem se continuou a trabalhar, de olhos nos manuais, de braços baixos, em silêncio, silêncio, silêncio, SILÊNCIO POR FAVOR!  

23.3.17

Um amor cura-se com outro

Com a morte trágica da Julieta, revelou-se a minha falta de jeito para lidar com delicadezas e snobismos. Afetada, vaidosa, quase ofendida, Julieta não sobreviveu ao meu amor desprendido, ao facto de eu ter negligenciado a sua importância na decoração e de a ter usado para validar teorias existenciais. 
Como é próprio dos que sofrem desgostos e frustrações, durante algum tempo decidi não mais responsabilizar-me por plantas. E, vendo bem, de que me serve uma orquídea tão perfeita que parece falsa e cujas necessidades o meu instinto não alcança, obrigando-me a recorrer à ciência googliana? Mas depois, arrefecidos os ânimos e relativizadas as perdas, cedi à máxima de que um amor se cura com outro e aceitei, com infantil esperança, um cato, uma suculenta e um arbusto que os amigos me deram de presente. Pareceu-me desde logo mais simples cuidar do que não dá flor ou, pelo menos, não tem nela a superior expressão. Sem essa face delicada, erótica, bela e perversa da vida, que apetece tocar, exibir, fotografar, a dimensão trágica de qualquer perda será, com certeza, menor.
Tenho então aqui as plantas, coabitando em paz com o meu desleixo, anónimas, enraizadas em terra vulgar, dessa que pela cor e pelo toque dá sinal de necessidade ou abundância. Está tudo bem para elas, têm firmeza e resiliência, cai-lhes uma folhinha e logo desponta outra, o clima não lhes define os humores. E, de resto, reagem muito bem às mezinhas bizarras com que, em jeito de experiência, as alimento. 

21.3.17

Um país carente

Na semana passada descobri que o meu país está profundamente carente. E, por processos que talvez os especialistas da psique saibam explicar, canalizam e alimentam um grande amor, não pelos livros, não pelo prazer da leitura, não pelo que aprendem com a frase, o parágrafo, o cenário criado, a visão revelada, mas pelos próprios escritores, ainda que não os conheçam. Mas, tal como acontece numa grande parte dos amores, é sempre chegado o dia em que a realidade não bate certo com a ilegítima e irreal fantasia que costuma dominar os corações mais débeis. Então, começam os amuos e as birrinhas, formulam-se acusações, fazem-se cobranças, enviam-se faturas, exige-se o divórcio. E o pior, o que mais assusta, é aquele gesto novelesco, dramático, de lançar as roupas do outro pela janela, proporcionando a toda a vizinhança um espetáculo que, se pouco tem de dignidade, menos tem ainda de tolerância. 

10.3.17

Fácil é a vida dos outros*

A vida dos outros, ah, quantas vezes nos parece redondinha, simples, a bater certo com as necessidades, cheia de confortos e conveniências, com poucas e brandas dores e ainda com vantagens extra caídas do céu! O Pedro, por exemplo, acha que a vida do António é fácil, porque o António tem um contrato de trabalho e um salário ao fim do mês, e salário, como se sabe, é sinónimo de independência. Mas o António acha a vida do Pedro fácil porque o Pedro é estagiário, ninguém o pressiona e pode sair às seis horas em ponto e também acha fácil a vida da Marta, que é contabilista e a única coisa que tem de fazer é organizar papéis e dedilhar na calculadora. A Marta acha fácil a vida do António, parece ser divertido passar o dia a escrevinhar coisas, afina aqui, retoca ali, e depois o orgulho de ver tudo exposto na rua e nas revistas, assim como acha fácil a vida da Célia, que limpa e varre os escritórios de fio a pavio enquanto canta canções de amor, concentração zero, responsabilidade nula. A Célia acha fácil a vida da Marta, que trabalha sem levantar o rabo da cadeira e não chega ao fim do dia com o corpo moído e doente, assim como acha fácil a vida do José que, com o cargo que tem na direção, ganha que chegue para férias decentes em paraísos orientais. O José acha fácil a vida da Célia, que consegue tirar os vinte e dois dias a que tem direito e esparramar-se ao sol, pensando em nada, no relvado da praça ou na varanda de casa, e também acha fácil a vida do Carlos, o dono da empresa, que beneficia do luxo enquanto os outros dão o corpo ao manifesto para que o barco se aguente. Mas o Carlos acha fácil a vida do José, que só não desliga ao fim de semana porque não quer e não tem às costas o sustento de vinte famílias, assim como acha fácil a vida do Rogério, que goza, no espírito e na carne, a sua liberdade de solteiro, sem horas marcadas nem mensagens para responder. O Rogério acha fácil a vida do Carlos que, quando regressa a casa, tem juras de amor, mimos, afagos e uma cama morna e acha ainda fácil a vida da Isabel, a última mulher com quem dormiu por acaso, que numa sessão fotográfica ganha para três meses. A Isabel acha fácil a vida do Rogério, que tem trabalho certo e previsível e em quem, pelo menos, veem mais do que um corpo bonito e também acha fácil a vida da Mariana, que não tem um filho para sustentar e para lhe dar cabo da paciência ao fim do dia. A Mariana acha fácil a vida da Isabel, que não precisa de se injetar com hormonas nem fazer sexo em horas certas para despistar a infertilidade, mas também acha fácil a vida do irmão Miguel, que num golpe de sorte e talento se tornou um escritor mediático. O Miguel acha fácil a vida da Mariana, porque uma dona de casa não faz ideia do que é a crítica e do quanto pode pesar o reconhecimento público e também acha fácil a vida do filho Francisco, a quem a adolescência não exige mais do que tempo para ir às aulas e outro tanto para matar com noitadas e miúdas. O Francisco acha fácil a vida do pai Miguel, que não precisa já de se esforçar para mostrar o que vale e encontrou o seu lugar no mundo, e também acha fácil a vida da irmãzinha Laura, que não tem os pais nem o universo inteiro contra ela. A Laura acha fácil a vida do irmão Francisco, que vai para a cama à hora que quer e passa férias com os amigos e acha mesmo muito fácil a vida do primo recém-nascido João, que repousa tranquilo no peito materno e não faz ideia que a tabuada pode ser o inferno na terra. Mas o João, que acaba de rasgar o ventre da mãe, que com ela trabalhou violentamente durante oito horas para vir ao mundo, que num repente lhe foi arrancado embatendo contra o frio, a luz e o barulho, que foi remexido, vasculhado, aspirado, medido e revirado por três pares de mãos, que na brevidade dos sessenta minutos seguintes teve de aprender a respirar, a chorar, a cheirar, a comer e a digerir, o João talvez saiba que nunca nada na vida será fácil para ninguém. Infelizmente, o João esquecerá tudo isto porque a memória tem misteriosos caprichos. E um dia também achará fácil a vida do António, que acha fácil a vida da Marta.

* post de Abril de 2012, republicado para o senhor Pereira que hoje, ao ver-me passar com um calhamaço, suspirou se eu tivesse a sua vida, também lia livros de seiscentas páginas. E para mim, que fiquei a vê-lo arrancar no novo, potente e brilhante automóvel e a pensar rica vida, hein?

9.3.17

*

O amor é mais verdadeiro quando dele não se espera o filho, a casa, as férias, a estabilidade. Meter o amor no saco dos projetos de vida é o que o corrompe e deturpa. Ama-se com honestidade depois das vulgares realizações, quando sobra e vem à tona exatamente apenas o que somos. E por isso um amor novo no coração dos velhos é feliz e desprendido.
Até lá, ama-se uma expectativa, não uma realidade. Sorte a daqueles – raros – em que há coincidência.  

8.3.17

Os direitos

A minha caixa de e-mail lembra-me que, por ser mulher, tenho hoje mais direitos do que nunca. Tenho direito a quinze por cento de desconto na compra de calçado de boa marca. Tenho direito a escolher três conjuntos de lingerie e pagar dois. Tenho direito a qualquer livro por um preço que aos homens está vedado. Tenho direito a aceder, com condições especiais, à nova coleção de acessórios e bijuteria. Tenho direito a dois pares de óculos de sol se introduzir o código promocional. 
A minha caixa de e-mail lembra-me que, por ser mulher, é esta a vastidão das minhas possibilidades e são estas as grandezas que mereço. E eu: obrigada mas não preciso. Tenho tudo o que quero, tenho voz, tenho pulso, tenho rumo, tenho pernas, tenho sexo, tenho género, tenho génio, tenho filhos, tenho gosto, tenho contas, tenho espelho, tenho casa, tenho tempo, muito tempo. Ninguém me corta a palavra, o salário ou o corpo. Ninguém me levanta a mão ou o tom. 
Caros senhores do carnaval do mundo, costureiros de lantejoulas, operários da poeira colorida, engenheiros de euforias e paliativos: foi engano, o dia não é para mim. Mas, enfim, àquelas que penam e precisam, de nada servem os direitos que estais dispostos a conceder, os vossos stocks por escoar, a etiqueta cosida a sangue no avesso.

7.3.17

Verdade e mentira

Tendo a família e os amigos como visitas deste espaço, sujeito-me a muitas perguntas e a alguns pedidos. Cruzam o que leem com o que sabem do meu quotidiano e lançam-se a decifrar as entrelinhas ou a subentender rostos por trás dos nomes. Querem saber que papelaria é essa que eu frequento e cuja funcionária apetece ouvir de viva voz. Também há quem peça para ir à minha cabeleireiraE é grande a curiosidade que desperta a dona Maria Isabel ao levantar-me o queixo com os seus dedos maduros, de sangue nobre. Mas a maioria das perguntas são acerca da identidade do senhor Pereira, cujo verdadeiro nome está e estará, obviamente, a salvo. 
Talvez eu dê contornos demasiado generosos às pessoas, fazendo-as mais interessantes do que na realidade são. Ou apenas limpo o que está à volta de modo a que se note o que habitualmente ninguém vê. Em todo caso, sendo certo que o que aqui conto é a mais pura das verdades, impõe-se o adorno com as mais inofensivas mentiras. É real a rapariga da papelaria, porém, ela pode ser da mercearia e podem ser beterrabas os cromos que lhe compro, sem que isso faça diferença. Já a cabeleireira e a sua lúcida e desbocada manicura podem estar trocadas e ser a primeira quem arranja as unhas e a segunda quem corta o cabelo ou uma e outra serem apenas enfermeira e auxiliar do centro de saúde, tratando também, mas de outro modo, de cabeças e mãos. E o senhor Pereira? Ora, eu tenho o meu mas cada um terá o seu, se não andar desatento deste mundo. Não há, portanto, em qualquer das minhas personagens, raridade ou estranheza. Interessam-me pelo motivo oposto: porque são vulgares e padecem de males comuns, apenas lhes falta a arte de os disfarçar. Vejo nelas o reflexo de todos os equívocos, desenganos e desesperanças e dá-me pena. Então ponho-me a escrever, contando que isso me garanta o perdão por tão mesquinho sentimento. 

3.3.17

Sonhos

Quando sonho dormindo, os meus colegas são motoristas de autocarro e o mundo tem os traços vertiginosos de uma obra de Gaudí. Há gente que aparece todas as noites, mas sempre muda e queda como um bibelô. As inutilidades que tenho à venda no olx são compradas por funcionários das Finanças. Os mortos desfilam vestidos de noivos. O meu patrão contrata-me para servir de bandeja a mulher dele. Colegas da primária dançam seminus, com plumas e purpurinas, no carnaval de Ovar. Volto ao secundário invariavelmente para os exames de matemática e biologia a que, por distração, faltei. Faço dezenas de quilómetros a pé com os meus filhos através da escuridão. Salvo golfinhos, tartarugas e toxicodependentes. A minha bicicleta já só tem uma roda e atrelo-a ao automóvel do Rui Moreira para conseguir avançar. Entro armada numa escola e obrigo os professores a sentarem-se nas carteiras, sossegados. Subo contigo uma escadaria em caracol, no topo há uma claraboia incandescente, magnética, mas os degraus não têm fim, desisto e volto para trás deslizando com alívio e moleza pelo corrimão.
Infelizmente, durante o dia perco esta facilidade em inventar e enredar, em mudar o rosto e a expressão do mundo, em arrancar aos fundos da memória aqueles de quem já nem o nome recordo, em ceder a impulsos e vontades dos quais não sou consciente. Acordo, levanto-me, os meus pés estão firmes, o sol nasce do lado certo, as paredes têm ângulos retos. Dentro de mim, tenho a razão a fazer peso, a sensatez a puxar, estou do lado sóbrio da vida, mas nem por isso há menos risco.
Gostava mesmo que os meus colegas fossem motoristas de autocarro.

2.3.17

Dois gumes

Temendo a multa, o funcionário despachou-se a abrir outra caixa de propósito para atender a mulher que carregava o filho. Ficámos dez ou doze numa fila só, enquanto ela exerceu o direito a ser rapidamente aviada na qualidade de pessoa acompanhada com criança de colo. Entregou os artigos, pagou, guardou o recibo. Depois, largou a criança no chão e, como quem arreia um animal, passou-lhe os dois sacos, enfiou-lhe o gorro na cabeça e deu ordem: upa! 
Em lugar onde falte ética, a lei pode dar para tudo. Tanto ilumina o caminho aos desatentos como dá ideias aos oportunistas.

1.3.17

Um homem e uma mulher

Mal contados, são quinze os anos que passaram sobre a última vez que estive em Lisboa como turista. Depois disso, só entrevistas e reuniões, ir e vir, nenhum desvio, refeição decente, encontro interessante ou olhar demorado. E agora, que tenho Lisboa ronronando como um animal debaixo dos meus pés já maçados e adormeço sossegada no mais geométrico e lúcido dos seus múltiplos corações e acordo devagar com a oferta de uma nesga deste Tejo de bom feitio e conto, não o tempo que tenho até regressar, mas aquele que ainda me sobra para ficar, o que sinto de novo talvez até nem seja propriamente encanto pela cidade, talvez seja mesmo o gozo de dar o braço a torcer e uma vontade impossível de me deixar estar mais um dia. Lembro a minha cidade encolhida, ensimesmada, também arrogante ao seu jeito porque ao seu jeito estupidamente bela. E penso: se, como dizem, Lisboa é uma mulher e o Porto um homem, porque é que se encontram tantas vezes para negociar e tão poucas para se apaixonar?